As primeiras histórias do Vale do Emaranhado foram esquecidas pelos humanos e pelos changelings. Ambos os grupos só chegaram muito tempo depois à América do Norte, muito depois do processo de ocupação da Terra e do Sonhar terem sido concluídos. O efeito que a Separação ou a Fragmentação teve nessa área é desconhecido. No entanto, duas fontes podem dar algumas respostas sobre estas questões: a Serpente Emplumada, que aparentemente habita o lugar por muito tempo; e os Nunnehi. O primeiro é um ser evasivo e nada comunicativo; os últimos, em suas raras aparições, são hostis. Por enquanto, os bardos dos Kithain têm pouco para cantar.
Durante o Interregno, exploradores e comerciantes europeus viajaram pela América do Norte. Missionários franceses e comerciantes de peles exploraram os Grandes Lagos em canoas a partir do ano de 1608 (com a fundação do assentamento de Quebec por Samuel de Champlain). Os comerciantes ingleses começaram a chegar a Baía de Hudson por volta de 1670. Os europeus trouxeram consigo as fábulas de suas próprias terras, as histórias contadas pelos viajantes e o desejo de aventura. Apegados a essas faíscas do Sonhar estavam colonos feéricos: Redcaps e Trolls chegaram com os ingleses; os Sátiros junto com os rústicos franceses cheios de desejos.
Alheios aos interesses dos europeus e em uma terra intocada por mãos humanas, os povos deste Novo Mundo também possuíam sonhos intensos. Assim os Kithain europeus decidiram ficar. Alguns se assentaram junto com mortais em Fort York (estabelecido em 1814). Ironicamente, este lugar era próximo de uma Clareira Nunnehi cujo nome na língua Huron significava “ponto de encontro”, e do qual foi derivado o nome “Toronto”.
A cidade de Toronto cresceu de Fort York para se tornar uma das maiores regiões metropolitanas da América do Norte. Da mesma forma, a população feérica se multiplicou. Muitos Exus viajaram para o norte a partir da década 1850. Com a chegada de novas ondas de imigrantes europeus depois de 1910 vieram Kithain da Europa Oriental: Sluagh (chamados de vodianoy ou grav-so – “necrófagos”), Redcaps (polevik), Sátiros (leshy), Boggans (kobolds ou domovoy), Nockers (bergfolk ou dreugar). Os Pooka (chamados de “skogsra” na Suécia) iam e vinham como bem entendessem. Em algum momento durante esta colonização, os plebeus deram ao seu reino o nome de Domínio do Lago Arborizado.
No início do século XX, o foco da nossa história muda para a Propriedade Livre do Vale do Emaranhado. Em algum momento, os Infantes construíram a primeira casa da árvore. Usando seu Tino ou talvez por obra do Dán, eles encontram a Clareira sagrada Nunnehi que emprestou seu nome à cidade de Toronto. Os espíritos indígenas haviam deixado o lugar há muito tempo, fugindo da Banalidade crescente (para a qual não conseguiram se adaptar, como os Kithain plebeus). As sucessivas gerações de Infantes “redescobriram”, recuperaram, e cuidaram da frágil Propriedade Livre, feita para crianças.
Na década de 1950, alguma criança arrancou a placa da casa da árvore segura, bonita, bem construída e, totalmente, chata que seu pai tinha construído para ela e levou-a para a Propriedade Livre do vale. Desde então, a Propriedade Livre foi conhecida como o Esconderijo dos Gângsteres (Aparentemente, o grupo de amigos Infantes ganhou esse apelido porque eram bem impertinentes).
Em uma manhã brilhante de primavera em 1969, o Sonhar mudou para as crianças do Esconderijo dos Gângsteres, do Domínio do Lago Arborizado e para os plebeus de todo o mundo.
Jake Gallant (“Jem”) estava fazendo alguns reparos no telhado da Propriedade Livre quando viu uma série de fadas cavalgando pelo vale do Trod Infinito! Jem caiu do galho em que ele estava sentado. Iluminados pela luz dourada do sol da manhã, esses cavaleiros feéricos resplandeciam com suas armaduras e capas brilhantes. Eles montavam em corcéis quiméricos que bufavam, com o som de sinos e trombetas. Os nobres Sidhe haviam retornado.
A maioria dos plebeus locais acolheu a nobreza Sidhe. Eles estavam dispostos a aceitar o neo-feudalismo em troca dos antigos costumes e de orientações para seu trabalho de restaurar o Sonhar. As relações eram boas entre os nobres e os plebeus. Nenhum dos fae locais estava presente no Massacre de Beltane na Noite dos Punhais de Ferro, de modo que o evento pareceu distante e sem importância. (Alguns Unseelie sugerem que a embaixadora plebeia, Gray Matilda, na verdade conspirou com aqueles Sidhe traiçoeiros). Durante a Guerra da Harmonia, o senhor da guerra Dafyll achou esta região tão receptiva que optou por prosseguir para a Costa Leste sem deixar uma guarnição ou senhorio. Na verdade, os Kithain locais estavam ficando um tanto quanto chateados por ainda não terem recebido um monarca. Só depois da coroação do rei David é que esta região foi integrada ao sistema hierárquico feudal. O Domínio do Lago Arborizado tornou-se o Ducado do Lago Arborizado dentro do Reino do Gelo Ártico. A rainha Laurel da Casa Fiona foi recebida com toda a pompa e cerimônia.
Os Kithain do Vale do Emaranhado conhecem bem esta história. Embora os Gângsteres sejam a última geração de Infantes, consignados nos últimos doze anos, todos eles têm um fascínio insaciável pelos mitos e histórias. Lorde Varlan vivenciou a história, tendo sobrevivido desde o Ressurgimento sem sucumbir à Ruína ou ao Desvario. Apenas Thresher conhece a história menos a fundo, já que é apenas um novato.
Os Kithain videntes (e a maioria dos Exus) desejam descobrir o destino final do Trod Infinito. No entanto, qualquer esperança de explicação por parte dos Sidhe que regressavam foi rapidamente desfeita. Lorde Varlan estava entre esse grupo de fadas, mas nem ele, nem nenhum dos seus companheiros se lembram da viagem. O contato com a Terra os despojou de suas memórias (incluindo as primeiras horas, dias e até mesmo semanas após sua chegada). O grupo pode ter vindo diretamente de Arcádia, ou muito provavelmente passou por outras Propriedades Livres em busca de um lar. Nós nunca saberemos...