Já se foi o tempo em que a América do Sul era considerada um vazio, sem civilizações importantes a não ser o Império Inca. Hoje sabemos que, antes do contato com os espanhóis e portugueses, existiam milhões de habitantes no continente, e eles deixaram suas marcas na agricultura e na paisagem da terra, marcas que só hoje estamos começando a entender. Infelizmente assim como no norte os povos do sul foram dizimados pelas doenças muito antes de se depararem com um conquistador ou explorador. Estima-se que 90% da população das Américas caiu vítima de doenças, civilizações inteiras foram tragadas pela floresta. Até mesmo os poderosos incas sofreram deste mal. Quando os europeus chegaram, os incas estavam em meio a uma guerra civil brutal, depois que alguma doença tomou seu último imperador.
Então assim como na América do Norte, muitas das fadas da América do Sul pereceram junto com estas civilizações. Quando os espanhóis e portugueses chegaram para atacar, os fae estavam com seus números bem reduzidos. Ainda assim eles possuíam magias poderosas e seu número apesar de pequeno era ainda maior que o de seus inimigos. As fadas europeias mais sanguinárias e gananciosas chegaram junto com os conquistadores, Redcaps e Thallain buscando sangue, Sátiros e Nockers buscando riquezas. Enfraquecidos como estavam, os fae de Bellatierra uniram suas forças e lutaram contra os invasores em um longo conflito sangrento do início do século XVI até muitas décadas depois dos espanhóis terem concluído suas conquistas. Finalmente, em 1556, depois de uma longa batalha de oito semanas nas terras da Nação do Altiplano, os Thallain aliados dos Kithain estrangeiros traíram sua aliança. Percebendo que não obteriam a vitória eles fugiram. Muitas quimeras os seguiram, deixando os invasores Kithain em desvantagem numérica e muito enfraquecidos. Eles se colocaram à mercê das fadas nativas, e o Tratado da Serra Mãe foi assinado, supervisionado pelo Síocháin das Montanhas, Cuyania.
Uma grande barreira foi erguida, e dez guardiões escolhidos para garantir sua proteção, com seus mantos sendo passados através dos tempos. Os guardiões vigiavam as fronteiras, desencorajando aqueles que desejavam cruzá-la. A cada meio século eles se reuniam para decidir se a barreira deveria ser mantida.
Entretanto a barreira não era perfeita. Logo chegaram alguns Kithain da Europa e da África, os primeiros como prisioneiros enviados para colônias penais como a Ilha do Diabo, os últimos através do tráfico de escravos. As correntes de ferro usadas como grilhões permitiram que passassem pela barreira. Alguns Kithain africanos vieram de livre vontade para proteger seus parentes, mas a presença de tanto ferro mascarou sua chegada. As fadas nativas se surpreenderam a princípio com estes visitantes, mas logo entenderam como eles estavam conseguindo passar. Alguns mantiveram distância, mantendo um olho sobre estes estranhos, enquanto outros se apiedaram deles, ajudando em sua fuga. Desta forma um grande número de Kiths africanos chegou e fez morada no Novo Mundo, incluindo os Biloko, Djedi, Exus, Obambo, Okubili e até mesmo alguns raros Kuino.
O tráfico de escravos trouxe um fluxo maciço de africanos para o continente e entre eles os Kithain; entre 1502 e 1866, mais de 11 milhões de africanos foram enviados para as Américas por meio da escravidão. O tráfico de escravos, e a escravidão, terminaram na América do Sul na metade de 1800; sendo o Brasil o último país a fazê-lo em 1866.
Apesar da maioria dos Kithain europeus terem partido, os Kithain africanos foram deixados para trás e, em grande parte, foram acolhidos pelas fadas nativas da Bellatierra.
Um número pequeno de europeus de outros países acabou chegando ao continente, na sua maioria da França, através da Ilha do Diabo, ao largo da costa da Guiana Francesa. Embora alguns fossem verdadeiros criminosos, muitos eram prisioneiros políticos. Oficialmente diz-se que ninguém nunca escapou da Ilha do Diabo, mas as fadas tinham formas de fazê-lo e serem esquecidas pelas Brumas da história.
Enquanto isso, as fadas nativas tinham outras coisas com que se preocupar. O crescente número de colonizadores europeus com sua Banalidade e desprezo pelos costumes nativos devoravam o Sonhar. Apesar de muitas se retirarem para as profundezas das montanhas ou florestas, nem todas conseguiram fazer o mesmo. Muitos nativos foram forçados a adotar o cristianismo. Misturando a nova religião às suas crenças nativas, eles puderam mantê-las vivas, mas levemente adulteradas.
As fadas que não podiam se esconder estavam em grande perigo, mas a ajuda veio de dois lados. As fadas da América Central solicitaram ao guardião no istmo do Panamá que permitisse sua entrada, para que pudessem ensinar o Caminho Duende. Ao mesmo tempo, os Kiths africanos retribuíram a ajuda prestada pelas fadas nativas ensinando-lhes o Caminho Changeling. Ambos os métodos se espalharam, o Caminho Duende sendo assumido por Kiths mais sedentários, do norte e do oeste, e o Caminho Changeling por Kiths do sul e entre aqueles mais propensos a viajar.
O fim do comércio de escravos proporcionou um declínio abrupto no número de fae externos chegando na América do Sul. Uma migração notável durante este período foi do Kith Llorona, originário do México, mas que se espalhou por toda a América do Sul junto com sua lenda.
Então, em 1969, ocorreu o Ressurgimento. A magia do Ressurgimento parecia não se importar com a barreira; o Tratado da Serra Mãe havia sido assinado com os fae plebeus, não com os Sidhe. Eles não ressurgiram aqui em números tão grandes quanto nos continentes do hemisfério Norte, mas o Ressurgimento também teve seu efeito nestas terras, principalmente nas cidades. Aqueles Sidhe que cometeram o erro de exigir obediência dos nativos assim que chegaram, logo se viram expulsos da América do Sul com suas lembranças roubadas, quando não foram simplesmente mortos quimericamente e deixados para viver uma vida mundana. Outros se estabeleceram em meio a uma ou outra nação onde logo entenderam que estavam em números muito menores, e aprenderam a se adaptar. Aqueles que o fizeram, de um modo geral, juntaram-se as sociedades locais, e muitos chegaram a alcançar posições de poder nelas, afinal é isso que os Sidhe sabem fazer de melhor.
Em 2006 durante o último conselho dos guardiões, pela primeira vez na história um dos dez guardiões se mostrou contra manter a barreira erguida. O recém-coroado Alvarez, um Alicanto Rezingão do sul da Argentina, acreditava que os changelings deveriam caminhar livremente entre todas as terras. Muitos foram contra, a esta quebra das antigas tradições.
Após semanas de debate e algumas ameaças de morte, o conclave surgiu com o seu veredito: um acordo. Durante um mês por ano, as barreiras seriam abertas e os fae poderiam viajar livremente. Uma vez que as barreiras fossem erguidas, um ano inteiro se passaria antes que pudessem ser abertas novamente, e qualquer changeling preso do outro lado teria que esperar ou então encontrar uma forma de contornar a antiga barreira mística. Mesmo com esta decisão, algumas nações ainda hesitam em permitir que estranhos entrem em seu meio, mas a Nação das Montanhas tenta incentivá-las dando o exemplo. Antes do primeiro mês da barreira ser aberta, eles estenderam convites a muitos dos reinos de Concórdia, oferecendo sua hospitalidade.
Embora muitos changelings nativos discordem em segredo da decisão de seus líderes, eles vêm oferecendo sorrisos acolhedores para os forasteiros, alguns ficaram bem felizes por receberem notícias do mundo exterior. Os viajantes foram recebidos por um grupo de Kiths que nunca antes haviam visto ou ouvido falar, desde a etérea Llorona até o delicadamente belo Alicanto. As Sachamamas foram as mais entusiasmadas em encontrar e conhecer os estranhos deste mundo que agora se abria para eles. Não é surpresa, que elas também foram alguns dos primeiros changelings a viajar para fora das fronteiras de Bellatierra, mas grande parte descobriu que o mundo exterior era muito mais difícil de viajar do que pensavam, principalmente por causa de de seu tamanho natural e suas necessidades alimentares. Aqueles que ficaram forjaram laços com os estrangeiros, compartilhando informações e histórias com seus primos distantes ao redor de uma mesa farta ou uma fogueira sob o luar.
Local Original: http://wodcityofangels.com/page.php?106.4
Autor: Wind