Paradoxo

Paradoxo. Do grego para e doxa, opinião. Estado de coisas (ou declaração que se faça sobre elas), que aparentemente implica alguma contradição, pois uma análise mais profunda faz desvanecê-la.

Paradoxo. Um pensamento que vai contra a opinião ou contra o pensamento.

Temos, assim, dois sentidos diferentes. Ir contra a opinião (dóxa) não tem nada de condenável. Isso, é claro, não prova que tenhamos razão (um paradoxo pode ser verdadeiro ou falso), mas pelo menos sugere que não nos contentemos com repetir o que se diz. Por exemplo, quando Oscar Wilde escreve que “A natureza imita a arte”: é um paradoxo já que a maioria das pessoas acredita que a arte imita a natureza, mas pode ser esclarecedor (ele nos dá a entender que nossa visão da natureza é influenciada pela dos artistas: “Vocês notaram como a natureza, de uns tempos para cá, se parece com uma pintura impressionista?”, perguntava Oscar Wilde). Ou quando Talleyrand aconselhava: “Cuidado com o primeiro movimento: é o correto.” É um paradoxo (por que tomar cuidado com o que é correto?), mas que nos faz refletir: se o primeiro movimento é o correto, no sentido moral do termo, ele pode se revelar incorretíssimo num outro registro (por exemplo, político ou diplomático). Note-se que a maioria dos paradoxos provém de um duplo sentido atribuído a pelo menos uma das palavras utilizadas: a fórmula, que parece absurda de acordo com um dos sentidos, pode se revelar profunda de acordo com outro. No entanto, há paradoxos verdadeiros, que vão verdadeiramente contra a opinião dominante e não jogam com nenhum duplo sentido. Por exemplo, quando Spinoza escreve que não é porque uma coisa é boa que nós a desejamos; ao contrário, é porque a desejamos que a consideramos boa (Ética, III, 9, escólio). Todos nós temos a sensação do contrário. Isso não prova que Spinoza esteja errado, nem que tenha razão.

Mas a palavra paradoxo também tem um sentido puramente lógico: é um pensamento que vai contra o pensamento, dizia eu. Em outras palavras, é uma contradição ou uma antinomia. (1)

Paradoxo. Contradição ou assunção contra-intuitiva ou achado. Os paradoxos de primeira espécie são de duas classes: lógicos e semânticos. Os primeiros foram encontrados na lógica e na teoria dos conjuntos no começo do século XX, e seu estudo estimulou importantes avanços, como a teoria do tipo e a teoria axiomática dos conjuntos, que se situam para além do escopo da presente obra. Alguns dos paradoxos semânticos eram conhecidos e têm sido investigados há séculos. O mais famoso é o paradoxo do mentiroso, que pode ser tratado por meio da distinção linguagem-metalinguagem. Quanto aos paradoxos do segundo tipo – resultados contra-intuitivos – a física quântica está carregada delas. Basta lembrar o EPR* e os experimentos mentais de Schrödinger, gato de. O primeiro foi resolvido, mas os outros continuam sendo água para o moinho da indústria acadêmica. A "lógica" indutiva também se apresenta marcada pelos paradoxos: o paradoxo do corvo e o paradoxo do verzul. (2)


* Iniciais de Einstein, Podolsky e Rosen, autores de um artigo publicado em 1935, que aceita ser a mecânica quântica correta, mas não completa (N. do T.)


(1) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

(2) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo: Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)