Historia da Filosofia. É a recuperação, o repensar, a avaliação e a inserção no contexto do pensamento dos filósofos desde a Antiguidade até o presente. Como em todos os resgates, este está fadado a ser parcial e a ser projetado e reprojetado em termos contemporâneos. Daí por que sua tarefa nunca é completada: não pode haver história definitiva da filosofia — ou de qualquer outra coisa. Cada geração concebe seus precursores a partir de uma nova perspectiva. Porém, nem todas as perspectivas são igualmente adequadas e fecundas. Por exemplo, é errôneo fazer com que os pré-socráticos passem por protoexistencialistas só porque eram sobretudo enigmáticos, ou Aristóteles por um precursor de Wittgenstein só porque ambos estavam interessados nas palavras.
A história da filosofia é a história da emergência, submergência e reemergência de problemas filosóficos, e das tentativas de resolvê-los. Alguns destes problemas têm sido efetivamente pseudoproblemas, e muitas das soluções que lhes foram propostas eram errôneas, se não despidas de sentido. Portanto, história da filosofia é um aspecto da história da insensatez, bem como da ingenuidade humanas. Uma história da filosofia liberal-conservadora, whig, isto é, que se restringe a listar sucessos, seria antes insuficiente. Por esta razão, em parte, nem todos os historiadores da filosofia são guardiões escrupulosos da verdade. Alguns deles têm um interesse investido na falsidade, no contra senso ou na ocultação.
Daí por que estudantes de filosofia raramente recebem lições acerca das ambiguidades de Aristóteles sobre a alma, da cosmologia materialista de Descartes, dos materialistas do Iluminismo francês, do agnosticismo de Kant, ou do socialismo de Mill. A história da filosofia é algo divertido para ler e necessário para filosofar, mas secundário no tocante ao filosofar original. Sem peixe não haveria pescadores, e muito menos peixeiros. A tarefa dos historiadores da filosofia é pegar e distribuir peixes, não destripá-los e menos ainda cozinhá-los segundo o seu próprio paladar.
Fazer história da filosofia implica não apenas familiaridade com a filosofia, mas também domínio das habilidades especiais do historiador — e não ser alérgico à poeira dos arquivos. Ironicamente, os mais altos padrões de estudo filosófico encontram-se em dois extremos do espectro filosófico: lógica e história da filosofia. Os modernos padrões de rigor lógico foram estabelecidos por matemáticos, e os de exatidão histórica por historiadores. As razões situadas entre esses dois extremos, isto é, os campos propriamente filosóficos, têm a característica de serem frouxas nos seus padrões.
Em suma, a história da filosofia é necessária, mas não se deveria permitir que se deslocasse a filosofia. Além do mais, não deveria omitir os obstáculos e estímulos sociais, bem como a exploração ideológica e a censura de algumas ideias filosóficas. (1)
(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo: Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)