Paradoxo: Verzul, Corvo, Mentiroso, Perdão, Socrático

Paradoxo do Verzul. Um engraçado mini problema acadêmico destinado a irritar qualquer cientista. Suponha que esmeraldas pudessem manter-se verdes até uma certa data futura T, tornando-se a partir de então azuis. Se fosse o caso, poderíamos chamá-las de ‘verzul’ ou ‘azerde’. Podem existir esmeraldas assim? De acordo com os empiristas, sim, porque, até o ano T, o mesmo corpo de evidência empírica sustenta as generalizações alternativas:

H1: Todas as esmeraldas são verdes.

H2: Todas as esmeraldas são verzuis. (1)


Paradoxo do Corvo. Um paradoxo da lógica indutiva proposto por C. G. Hempel. A generalização empírica “Todos os corvos são pretos” é formalmente equivalente à proposição que reza: Todas as coisas não-pretas são não-corvos. Portanto, encontrar uma loira pareceria confirmar a dada generalização, que é paradoxal, para não dizer tola. Esse paradoxo dissolve-se à observação de que qualquer interessado em corvos começaria por confinar seu universo de discurso aos pássaros, de modo que consideraria irrelevante para o seu objetivo encontrar uma loira. Em outras palavras, como a classe de máxima referência de “Todos os corvos são pretos” é a classe dos pássaros, apenas dados acerca dos pássaros seriam relevantes para a hipótese em questão. Qualquer teoria razoável de referência, que seguisse o modo como os cientistas lidam efetivamente com os predicados, poderia ter evitado a enchente de publicações gerada por esse quebra-cabeça. (1)


Paradoxo do Cético. O cético radical duvida de tudo igualmente. Em particular, ele coloca todas as hipóteses, científicas ou não científicas, no mesmo nível. Por exemplo, é provável que ele classifique no mesmo grau a psicocinética (o movimento de objetos materiais provocados pela mente) junto com o princípio de conservação de energia. Como consequência, ele pede tolerância ou até apoio para especulações ou experimentos concernentes à psicocinética. Assim, na prática, o ceticismo radical pode encorajar a credulidade. (Ver ceticismo, mente aberta) (1)


Paradoxo do Mentiroso. Nome dado ao clássico sofisma "Eu minto", por referência ao lendário Epimênides (séc. IV a.C.), que diz: "Todos os cretenses mentem sempre; ora, ele é cretense; logo, mente. Conclusão: os cretenses não mentem. No entanto, se Epimênides diz a verdade, os cretenses mentem" etc. Logo, se Epimênides diz a verdade, está mentindo, e se mente diz a verdade. Fora da verdadeira conclusão lógica que se impõe e impede essa falsa regressão ao infinito ("não é verdade que os cretenses mentem sempre"), esse tipo de paradoxo é útil para distinguir a linguagem da metalinguagem, o que se diz e o fato de dizê-lo. (2)


Paradoxo do Perdão. Se só as pessoas que merecem perdão devem ser perdoadas, então o perdão ou é injustificado, no caso de a pessoa não o merecer, ou é irrelevante, uma vez que se a pessoa merece perdão não há nada a perdoar. Logo, é impossível justificar o perdão para verdadeiros transgressores. No entanto, o perdão dos transgressores é frequentemente pedido e concedido e em alguns sistemas éticos chega a ser exigido que perdoemos os transgressores. (3)


Paradoxo Socrático. Mais do que um paradoxo, no sentido estrito, a expressão se refere a uma de duas conclusões surpreendentes e inaceitáveis, traçadas a partir dos diálogos socráticos de Platão: (I) a espantosa consequência da associação que Sócrates estabelece entre conhecimento e virtude, segundo a qual ninguém age mal sabendo que está agindo mal; (II) o ponto de vista de que ninguém conhece o significado de um termo quando o usa, a não ser que possa oferecer uma definição explícita. Embora às vezes se chame esse ponto de vista de falácia socrática, pode-se defender que essa interpretação viola o princípio de caridade, pois Sócrates não se preocupava unicamente com o significado, mas com noções como as de justiça ou de razão, para as quais a nossa incapacidade de oferecer princípios pode muito bem refletir ignorância e confusão. Sobre o primeiro ponto, ver acrasia. (3)


Paradoxo Sorites. Um grão de areia não é um monte. E, para qualquer número n, se n grãos de areia não são um monte, então a adição de mais um grão não faz deles um monte. Mas nesse caso nunca poderemos obter um monte, visto que cada grão que acrescentarmos é tão suscetível de dar origem a um monte quanto o anterior. Esse é um paradoxo importante porque revela a existência de uma tensão entre lógica clássica e o raciocínio matemático, por um lado, e os predicados "vagos" da linguagem natural, por outro. A tentativa de abandonar a segunda premissa (a indutiva), a introdução de "graus de verdade " e a substituição da lógica clássica pela lógica difusa são algumas das soluções apresentadas. (3)


(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo: Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

(2) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(3) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.