Vontade. Do latim "voluntas", de volo, velle" = querer, consentir. É a faculdade de perseguir o bem conhecido pela razão. A vontade pode ser fortalecida no indivíduo através da educação esclarecedora e, principalmente, através do combate ao capricho e à obediência passiva, bem como pela formação do hábito de propor a si mesmo tarefas difíceis e de trabalhar até conseguir alcançar o objetivo. (1)
Vontade. Para os platônicos é a faculdade que tende apenas para o verdadeiro bem. Esta definição não considera a noção psicológica, mas apenas a moral.
Vontade. Para os platônicos é a faculdade que tende apenas para o verdadeiro bem. Esta definição não considera a moção psicológica, mas apenas a moral. Também ao definir-se a vontade como a faculdade que tende para os objetos materiais, pois ela ora escolhe uns, ora escolhe outros, não se inclui aquela moção. Ela tende para a apreensão, pelo intelecto, dos bens que são apresentados através da cognição subjetiva. É assim um grau mais perfeito do intelecto, pois sendo mais perfeito o seu objeto, é aquela, portanto, mais perfeita. O intelecto tem como objeto o ser enquanto tal, mas a vontade tende para o objeto enquanto apetecível. É mediante o intelecto que a vontade se manifesta. O que é recebido o é segundo o modo do recipiente (quidquid recipitur, per modum, recipientes recipitur). Ora o intelecto recebe o espiritual, portanto é mais perfeito.
A vontade afetiva é também supra-sensível, como na intuição páthica (simpatética), na estética, na mística, na simbólica, etc. O ato voluntário é o ato que é eficientemente produzido pela vontade (ato elícito da vontade). Pode-se definir o ato voluntário como o que procede de um princípio intrínseco, com cognição do fim. Não surge de um princípio extra agentis, mas no próprio agente (in ipso agente). A cognição do fim indica a direção que toma se a cognição é perfeita, isto é, quando o fim, enquanto tal, é apreendido formalmente temos o ato voluntário perfeito. Se o fim é apenas materialmente atingido, temos o ato voluntário. Este é o apetite sensitivo. A beatitude é o fim a que tende o homem. É a felicidade perfeita, a posse perpétua da felicidade sem mescla de qualquer mal, portanto sem qualquer carência, nem deficiência.
Chama-se de necessário o que é e não pode deixar de ser (nec esse). A necessidade pode ser extrínseca, quando é posta por um agente externo, ou por um fim, ou finalmente intrínseca, quando provém da própria natureza. Quando ela provém de agente externo, temos a coação, que tem como princípio um agente externo, que contraria a inclinação ilícita, que a ela se opõe, segundo graus. A coação opõe-se ao ato voluntário, e chama-se violência quando se opõe ao ato natural. A vontade é assim uma necessidade natural, provinda de um princípio intrínseco. Costuma-se confundir vontade com volição, com querer, com conato, com desejo. Embora muitas vezes usadas e confundidas essas duas palavras, querer e desejar exigem que se dê nitidez às suas verdadeiras acepções na psicologia. Desejar consiste numa representação mais ou menos vaga de que nos seria um bem, a realização ou a obtenção do que é objeto de nosso pensamento. Querer é esse desejar, mas acrescentado da possibilidade de realizar-se o desejo. Desejamos até o impossível, mas queremos o que julgamos possível. No querer existe uma deliberação, um sopesamento, um balancear de valores. O desejo torna-se querer, quando há essa deliberação, esse balanceamento. Então, para bem compreendermos o querer, para compreendermos o ato voluntário, o ato volitivo, necessitamos analisar bem essa deliberação. Não há um querer sem uma ideia do que é querido, isto é, sem um motivo, uma representação intelectual. Mas basta só isso para orientar o querer? Não; é preciso que alguma coisa nos mova para o que é querido; é mister, portanto, um móvel, que tanto pode ser a atração de um prazer ou o medo de um desprazer ou sofrimento. Mas até aí não está formada ainda a deliberação, porque é necessário o exame desses motivos e desse móveis, se convêm ou não, se interessam ou não. Mas ainda não é tudo, porque é preciso decidir-se a realizar o ato de vontade para obter ou afastar o que se deseja ou se repele. Mas a vontade, até chegar a essa decisão não se completa, sem que seja executada, sem que se ponha em ato, sem a execução do ato.
A simples análise de todos esses processos está indica-nos que o ato volitivo não é tão simples, pois nele penetram ações, processos, que não permitem consideremos a vontade como um complexo psicológico mais vasto do que parece, pois na deliberação entram razões pró e contra, razões que por sua vez são complexas por encerrarem valorações, sentimentos, afeições, influências históricas e sociais, enfim elementos que, ademais, se entrechocam, se anulam, se associam, se fortalecem, se destroem, para que a vontade se estabeleça em vias de atualizar-se num ato de vontade.
Há diversas teorias para explicar a vontade. A teoria intelectualista, defendida por Hume, tem inúmeros seguidores. Segundo ela, a vontade não é um aspecto irredutível da vida consciente. É um conjunto de juízos, uma forma da inteligência que era o pensamento escolástico, em parte. Assim há vontade, quando uma ação tem por antecedentes dois juízos conscientes, um dos quais aprova a escolha do fim e o outro proclama possível a sua realização. A outra teoria, a afetiva, afirma que há na vontade de um elemento primordial, anterior ao juízo, um ímpeto anterior, o conato dos escolásticos.
Crítica - Há, na vontade, um impulso anterior ao raciocínio, como também a conjugação dos juízos. Não há consciência acional sem a consciência, sem a interferência da vida psicológica racional, mas também não exclui o mais primitivo e simples, que se manifesta nos instintos, nos impulsos vitais, que se modelam em desejos. (3)
Vontade. O conceito de vontade foi tratado no curso da história da filosofia de quatro pontos de vista: 1) Psicologicamente (ou antropologicamente), falou-se da vontade como de uma certa faculdade humana, como expressão de um certo tipo de atos; 2) moralmente, tratou-se da vontade em relação com os problemas da intenção e com as questões concernentes às condições requeridas para alcançar o Bem; 3) teologicamente, o conceito de vontade foi usado para caracterizar um aspecto fundamental e, segundo alguns autores, o aspecto básico da realidade, ou personalidade, divina; 4) metafisicamente, considerou-se às vezes a vontade como um princípio das realidades e como motor de todas as mudanças.
Das quatro abordagens a que mais predominou foi a psicológica.
Discutiu-se, ao longo do tempo, a distinção entre a vontade e o desejo (ou o mero impulso) e, por outro lado, entre a vontade e a inteligência e a razão.
Platão considerou a vontade como uma espécie de faculdade “intermediaria”. Ela se encontra abaixo da faculdade racional ou da razão, que dirige (ou deve dirigir) o homem (assim como a sociedade), mas acima do apetite sensível, ou mero desejo. Aristóteles insistiu no caráter racional ou, se se preferir, “conforme ao racional”, da vontade. É certo que a vontade tem em comum com o desejo o fato de ser um “motor”, isto é, de “mover a alma”, pois a vontade “apetece”. Contudo, a vontade não move, como o desejo, de qualquer modo. A este aspecto, os estoicos e, a rigor, quase todos os filósofos gregos, seguiram Platão e Aristóteles.
Na Idade Média, São Tomás e Santo Agostinho se pronunciam a respeito da vontade. Não é nova, pois Tomás se valeu de Platão e Santo Agostinho de Aristóteles. Há, assim, o entrelaçamento entre vontade e teologia. Contudo, a nova ideia do homem — assim como a ideia do “homem novo” — que ganha terreno com o cristianismo e que encontra expressão em grande parte da obra de Santo Agostinho, leva não poucos autores a deslocar a importância e a preeminência da vontade, tanto no homem como em Deus, e a fomentar deste modo o chamado “voluntarismo”, geralmente contra o chamado “intelectualismo”. (4)
(1) ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro: M.E.C., 1967.
(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.
(3) SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo: Matese, 1965.
(4) MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.