Papa Leão: “com o intuito de aninar o povo fiel em cada itinerário quaresmal, há mais de sessenta anos que a Igreja no Brasil realiza a Campanha da Fraternidade”…
Vatican News
O Papa Leão XIV enviou à Igreja Católica no Brasil, uma mensagem, com data de 11 de fevereiro de 2026, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, por ocasião do lançamento da Campanha da Fraternidade 2026. Há mais de sessenta anos que a Igreja no Brasil realiza a Campanha da Fraternidade - escreveu o Papa –, momento em que, como comunidade de fé, dirige a sua ação pastoral e caritativa aos pobres, os verdadeiros destinatários do nosso amor preferencial, como fiz questão de recordar na Exortação Apostólica Dilexi te.
Eis a íntegra da mensagem do Santo Padre:
Queridos irmãos e irmãs do Brasil,
«Chegamos à época solene que nos lembra o dever de nos aplicarmos à prece e ao jejum mais do que em qualquer outro tempo do ano, iluminando nossas almas e disciplinando nossos corpos» (Sermão 210). Assim escreveu Santo Agostinho em um de seus sermões sobre o tempo litúrgico que estamos para iniciar, durante o qual recebemos um especial chamado de Deus a uma autêntica conversão, redirecionando toda a nossa vida para Ele, ao seguirmos, por meio do jejum e a penitência, os passos de Nosso Senhor que se retirou no deserto por quarenta dias. Neste tempo de intensa oração, somos igualmente convidados a praticar com renovado empenho a virtude da caridade com os mais pobres e necessitados, com os quais o próprio Cristo se identifica (cf. Mt 25, 35-40). O Espírito Santo, autor da nossa santificação, nos conduza ao longo deste caminho.
Com o intuito de animar o povo fiel em cada itinerário quaresmal, há mais de sessenta anos que a Igreja no Brasil realiza a Campanha da Fraternidade, momento em que, como comunidade de fé, dirige a sua ação pastoral e caritativa aos pobres, os verdadeiros destinatários do nosso amor preferencial, como fiz questão de recordar na Exortação Apostólica Dilexi te: convencidos de que «existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres» (n. 36), «devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza» (n. 94). À semelhança do que havia sido feito em 1993, no presente ano, inspirados pelo lema “Ele veio morar entre nós” (cf. Jo 1, 14), a proposta apresentada é aquela de voltar o olhar para os nossos irmãos que sofrem com a falta de uma moradia digna.
O meu santo predecessor, São João Paulo II, convidava a voltar a atenção «para os milhões de seres humanos privados de uma habitação conveniente, ou até mesmo sem qualquer habitação, a fim de despertar a consciência de todos e encontrar uma solução para este grave problema, que tem consequências negativas no plano individual, familiar e social», afirmando que «a falta de habitações, que é um problema de per si muito grave, deve ser considerada como o sinal e a síntese de uma série de insuficiências econômicas, sociais, culturais ou simplesmente humanas» (Sollicitudo Rei Socialis, 17).
Neste sentido, é meu desejo que a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradia digna, que afeta tantos irmãos nossos, leve não somente a ações isoladas sem dúvida, necessárias — que venham de modo emergencial em seu auxílio, mas gere em todos a consciência de que a partilha dos dons que o Senhor generosamente nos concede não pode restringir-se a um período do ano, a uma campanha ou a algumas ações pontuais, mas deve ser uma atitude constante, que nos compromete a ir ao encontro de Cristo presente naqueles que não tem onde morar.
Desejo igualmente, queridos irmãos e irmãs, que as iniciativas nascidas a partir da Campanha da Fraternidade possam inspirar as autoridades governamentais a promover políticas públicas, a fim de que, trabalhando todos em conjunto, seja possível oferecer à população mais carente melhorias significativas nas condições de habitação.
Confio estes votos aos cuidados de Nossa Senhora, que não encontrou morada em Belém para dar à luz ao Redentor, mas que tem sua casa, como Rainha e Padroeira do Brasil, no Santuário Nacional de Aparecida. E, como penhor de abundantes graças, concedo de bom grado aos filhos e filhas da querida nação brasileira, de modo especial àqueles que se empenham para que todos tenham moradia digna, a Bênção Apostólica.
Vaticano, 11 de fevereiro de 2026, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes.
Lançamento nacional ocorre nesta quarta-feira (18/02) em Brasília com participação de movimentos sociais; programação segue para Aparecida (SP) com bênção de escultura artística e Missa presidida pelo Cardeal Jaime Spengler
Pe. Rodrigo Rios – Vatican News*
Com o início do tempo quaresmal, a Igreja no Brasil lança a Campanha da Fraternidade (CF) 2026. Há mais de seis décadas, esta iniciativa busca ser um sopro evangelizador e social, cujas práticas devem ecoar durante todo o ano. Em 2026, o olhar se volta para um dos fundamentos mais essenciais e, infelizmente, mais feridos de nossa sociedade: o direito a um lar.
Vozes que clamam por justiça
Sob o tema "Fraternidade e Moradia" e o lema bíblico "Ele veio morar entre nós" (Jo 1,14), diversas dioceses pelo país organizam coletivas de imprensa nesta quarta-feira de Cinzas. O objetivo é amplificar a voz da Igreja diante da crise habitacional.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza sua coletiva oficial às 10h, no Auditório Dom Helder Câmara, em Brasília, com transmissão online. O evento reunirá representantes de pastorais sociais e movimentos populares. Um dos destaques será a apresentação da experiência da comunidade de Trindade, em Salvador (BA), que tem transformado a realidade de pessoas em situação de rua por meio da conquista da moradia digna.
Lançamento celebrativo em Aparecida
A programação nacional terá continuidade no Santuário Nacional de Aparecida com dois momentos de profunda carga simbólica:
- 21 de fevereiro (19h30): Bênção e instalação do monumento “Cristo Sem Teto”, do artista canadense Timothy Schmalz. A escultura, que retrata Jesus como uma pessoa em situação de rua, será inaugurada pelo presidente da CNBB, Cardeal Jaime Spengler, e pelo Arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, pelo padre Jean Poul, secretário-executivo de Campanhas da CNBB e pelo padre Leandro Megeto, subsecretário-geral da CNBB.
- 22 de fevereiro (08h): Missa de abertura da CF 2026, presidida pelo Cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB.
O clamor dos números: por que falar de moradia?
Anualmente os bispos do Conselho Episcopal Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil (CONSEP - CNBB) recolhem sugestões para o tema da Campanha da Fraternidade dos regionais, organismos do povo de Deus, ordens e congregações religiosas, como também dos fiéis leigos. Para o ano de 2026, houve a acolhida da proposta emitida pela Pastoral da Moradia e Favelas. A moradia já foi tema da CF em 1993 e este ano ganha roupagens novas especialmente depois do Papa Francisco que pontuou diversas vezes a temática em suas homílias.
Os dados divulgados pela CNBB no texto-base são estes:
“6 milhões de famílias vivem em condições precárias ou sofrem com aluguéis abusivos (8,3% dos domicílios do país). 26 milhões de famílias residem em locais inadequados, sem infraestrutura básica ou em áreas de risco. Cerca de 328 mil irmãos e irmãs vivem hoje em situação de rua no Brasil.”
O material oficial da campanha, disponível no portal da Conferência e em no site campanhadafraternidade.com.br., é um clamor pela justiça social. O texto-base destaca que a casa não é meramente um abrigo físico de tijolos e telhas, mas a porta de entrada para todos os outros direitos: sem um endereço digno, a saúde se fragiliza, a educação se torna distante e a segurança se esvai.
Gesto concreto e solidariedade
A Campanha da Fraternidade convida à ação. No dia 29 de março (domingo de Ramos), será realizada a Coleta Nacional da Solidariedade. Os recursos arrecadados serão destinados ao Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), que apoia projetos de habitação popular e assistência aos mais vulneráveis.
Uma prece pela nossa casa comum
As paróquias, movimentos e pastorais são convidados, a partir do material distribuido, a rezar pela temática proposta, para que cada ser humano tenha um lugar digno para habitar. Abaixo, a Oração da CF 2026:
“Deus, nosso Pai, em Jesus, vosso Filho, viestes morar entre nós e nos ensinastes o valor da dignidade humana. Nós vos agradecemos por todas as pessoas e grupos que, sob o impulso do Espírito Santo, se empenham em prol da moradia digna para todos. Nós vos suplicamos: dai-nos a graça da conversão, para ajudarmos a construir uma sociedade mais justa e fraterna, com terra, teto e trabalho para todas as pessoas, a fim de, um dia, habitarmos convosco a casa do Céu. Amém!”
* Com informações da assessoria de comunicação da CNBB