27º DOMINGO DO TEMPO COMUM-ANO A
LINKS AUXILIARES:
ÁUDIO DO COMENTÁRIO DESTA PÁGINA
AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
Salmo Responsorial 79(80)-R- A vinha do Senhor é a casa de Israel
2ª Leitura: Filipenses 4,6-9
Evangelho Mateus 21,33-43
“Escutai esta outra parábola: Certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, cavou nela um lagar para pisar as uvas e construiu uma torre de guarda. Ele a alugou a uns agricultores e viajou para o estrangeiro. 34 Quando chegou o tempo da colheita, ele mandou os seus servos aos agricultores para receber seus frutos. 35 Os agricultores, porém, agarraram os servos, espancaram a um, mataram a outro, e a outro apedrejaram. 36 Ele ainda mandou outros ser-vos, em maior número que os primeiros. Mas eles os trataram do mesmo modo. 37 Por fim, enviou-lhes o próprio filho, pensando: ‘A meu filho respeitarão’. 38 Os agricultores, porém, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e tomemos posse de sua herança!’ 39 Então agarraram-no, lançaram-no fora da vinha e o mataram. 40 Pois bem, quando o dono da vinha voltar, que fará com esses agricultores?” 41Eles responderam: “Dará triste fim a esses criminosos e arrendará a vinha a outros agricultores, que lhe entregarão os frutos no tempo certo”. 42Então, Jesus lhes disse: “Nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram, esta é que se tornou a pedra angular. Isto foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos’? 43 Por isso vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e entregue a um povo que produza frutos.
As leituras deste 27º Domingo do Tempo Comum articulam a metáfora bíblica da vinha para interpelar a liberdade humana e a fecundidade da aliança. Em Isaías (5,1-7) e Mateus (21,33-43), a vinha indica o projeto de Deus que clama por frutos de justiça e não pelas uvas silvestres da iniquidade. O Salmo 79(80) clama pela restauração da videira divina, enquanto a Carta aos Filipenses (4,6-9) aponta para a concretude ética da paz e da virtude, traduzindo o dinamismo da graça em atitudes humanas verídicas, justas e amáveis.
A tradição patrística aprofundou ricamente essa simbologia. Santo Agostinho, ao comentar a parábola dos vinhateiros homicidas (Sermão 87), destaca que Cristo, a videira verdadeira, foi lançado para fora da vinha — fora dos muros de Jerusalém — para nos incorporar à sua graça, sublinhando que a dureza do coração humano abre misteriosamente o caminho para a universalidade da Igreja. No mesmo horizonte, Santo Irineu (Contra as Heresias) enxerga na vinha a obra contínua do Verbo que cultiva a humanidade desde as origens, exigindo da liberdade criada uma resposta madura e cooperativa, capaz de superar qualquer esterilidade espiritual ou fechamento institucional.
Essa teologia da vinha desafia a comunidade eclesial a repensar seu testemunho em diálogo com os dramas do mundo. Uma Igreja presente no século significa necessariamente uma comunidade plantada no mundo e em sintonia com suas necessidades: uma vinha, como Cristo, plantada no chão da história da humanidade pronta para alimentara todos com seus frutos.
A exigência de produzir frutos de justiça e bondade ecoa a urgência de um humanismo restaurado, onde a fé não se isola, mas fecunda a cultura e as relações cotidianas. A paz que excede todo o entendimento (Fl 4,7) brota exatamente da harmonia entre a iniciativa gratuita de Deus, que cerca e protege a sua plantação, e o compromisso ético do homem que cultiva a verdade e a virtude.
Padre Rodolfo Gasparini Morbiolo
Paróquia Santa Maria dos Anjos - Sorocaba/SP