António Rego Chaves
A primeira vez que alguém me falou deste livro, foi para o classificar como «obsceno». Fiquei perplexo: no meu dicionário de então, o do Cândido de Figueiredo, «obsceno» queria dizer «oposto ao pudor». E, se procurasse um pouco mais adiante, verificaria que «pudor» é a «vergonha do que pode ferir a decência, a honestidade ou a modéstia». Os anos passaram e eu fui comprando mais e mais dicionários. Esclarecia o Aurélio, definindo «pudor»: «sentimento de vergonha, de mal-estar, gerado pelo que pode ferir a decência, a honestidade ou a modéstia». Bom, não havia correcção de monta à vista. Mais tarde, chega o Houaiss a garantir-me que «obsceno» poderá ser «o que se deve evitar ou esconder». Aí dei vivas ao brasileiro. A verdade é que muitos desejariam que este inquietante livro, «Une mort très douce», fosse «evitado» ou, mesmo, «escondido».
Evitado ou escondido, mas porquê? Porque fala do que muitos sentem ou sentiram e nunca se atreveram a confessar. Porque, preto no branco, nos confronta com a ideia de que podemos, a um tempo, amar e detestar as nossas mães. Porque, enfim, e para usar apenas duas palavras, fala verdade. E se dizer uma verdade nua e crua é por vezes duro, muito duro, para quem a divulga, escutá-la pode ser insuportável para quem se sente forçado a ouvi-la. Essa era a questão que não queria enfrentar a pessoa que classificou este livro como «obsceno». De facto, não conseguia analisar a relação que tivera – e na altura ainda tinha – com a mãe. Ou seja, recusava-se a admitir que, para além de a amar, a detestava. Não se queria questionar a si própria. Por isso dizia: «É um livro obsceno.»
Agora que releio, mas em língua portuguesa, esta obra pungente de Simone de Beauvoir, considero que poucos escritores se expuseram tanto em tão poucas páginas. Não lhe bastou terminar com uma clássica conclusão filosófica: «Não existe uma morte natural, nada do que acontece ao ser humano é natural, já que a sua presença põe o mundo em questão. Sim, todos os homens são mortais: mas, para cada um deles, a sua própria morte é um acidente e, mesmo se a conhece e a aceita, uma violência ilegítima.» Não, não lhe bastou terminar com esta peremptória generalização: antes teve de nos dizer, sem rodeios – e sabendo que iria escandalizar um público implacável, que não se absteria de a julgar enquanto filha, enquanto mulher, enquanto pessoa: «’Já tem idade para morrer’. Tristeza dos velhos, o seu exílio: a maior parte deles não pensa que essa hora tenha chegado. Eu também, mesmo a propósito de minha mãe, utilizei esse cliché. Não compreendia que se pudesse chorar com sinceridade um parente, um familiar idoso, com mais de setenta anos. Se encontrava uma mulher de cinquenta anos abatida porque acabara de perder a mãe, considerava-a neurótica: somos todos mortais; aos oitenta anos, estamos suficientemente velhos para nos transformarmos em cadáveres…»
O que Simone de Beauvoir (nascida em 1908) «descobre» em finais de 1963, data da morte de sua mãe, é tristemente evidente: que ninguém, seja qual for a sua idade, «merece» morrer. Aqui, pois, nada de novo, muitos outros o tinham dito, embora não os que acreditavam ir ingressar por direito próprio na «vida eterna». Mas o que a autora desvenda perante todos nós é a existência de um passado comum, de que mãe e filha foram as protagonistas, durante o qual o silêncio que as separava «se tornou total».
Acompanhando, no hospital, durante cerca de um mês, a agonia da mãe, condenada à dor e à morte por um cancro, confidencia-nos: «Tinha-me afeiçoado àquela moribunda. Enquanto conversávamos na penumbra, eu apaziguava um remorso antigo: retomava o diálogo interrompido durante a minha adolescência e que as nossas divergências e semelhanças não tinham tornado possível reatar. E a ternura antiga que eu julgara desaparecida regressava, porque podia transformá-la em gestos e palavras simples.»
Uma morte suave, muito «suave»? Simone de Beauvoir não hesita no adjectivo: «Com efeito, por comparação, a sua morte foi suave. ‘Não me deixem entregue às feras’. Eu pensava em todos aqueles que não têm a quem dirigir esse apelo: que angústia sentir-se transformado numa coisa indefesa, inteiramente à mercê de médicos indiferentes e de enfermeiras sobrecarregadas de trabalho. Nenhuma mão nos resta quando consumidos pelo terror; nenhum calmante quando as dores são dilacerantes; nenhuma conversa de circunstância e animadora para preencher o vazio do silêncio. ‘Em vinte e quatro horas, envelheceu quarenta anos’. Também esta frase me tinha obcecado. Existem ainda actualmente – porquê? – agonias abomináveis. E, depois, nas enfermarias, quando a hora do fim se aproxima, esconde-se a cama do moribundo por detrás de um biombo; o doente viu esses biombos ocultando outras camas que, na manhã seguinte, estavam vazias: ele sabe. Eu imaginava a Mamã, encadeada durante horas por esse sol negro que ninguém é capaz de olhar directamente: o terror dos seus olhos arregalados, as pupilas dilatadas. Ela teve uma morte muito suave; uma morte privilegiada.»
Vêm então as questões decisivas, mas já é tarde de mais: «Por que razão a morte de minha mãe me abalou com tanta intensidade? Desde que eu tinha saído de casa, ela nunca despertara em mim grandes emoções.» (…) «A Mamã querida dos meus dez anos deixa de distinguir-se da mulher hostil que me oprimiu na adolescência; chorei-as a ambas quando chorei a minha velha mãe. A tristeza do nosso fracasso, que eu julgara resolvida no meu íntimo, mortificava-me de novo.» (…) «Se ela envenenou vários anos da minha vida, eu devolvi-lhos bem, embora involuntariamente. Ela afligiu-se com a sorte da minha alma. Neste mundo, estava contente com os meus sucessos, mas era afectada dolorosamente pelo escândalo que eu provocava no meio onde ela vivia. Não lhe era agradável ouvir um primo afirmar: ‘Simone é a vergonha da família.’».
Mas era tarde, tarde de mais, para um diálogo libertador de Simone com sua mãe. Aliás, é sempre tarde de mais para dialogarmos com os nossos amados e detestados mortos…
Simone de Beauvoir, «Uma Morte Suave», Livros Cotovia, 2008, 125 páginas