António Rego Chaves
Eis um livro oportuno, agora que se esboçam, sobretudo na sequência da emissão de um mistificador panegírico pela RTP, tentativas várias de «beatificação» política de Salazar. Trata-se da versão revista da dissertação de mestrado em Antropologia Social do brasileiro Douglas Mansur da Silva, que se ocupa do exílio, no seu país, entre 1956 e 1974, de oposicionistas portugueses. A sua leitura permitirá revelar a quem os ignora ou recordar a quem parece tê-los esquecido alguns dos mais cruéis «feitos» do Estado Novo. E, também, encarar com o respeito que lhe é devido «uma geração de militantes para a qual o humanismo e a prática política no quotidiano eram parte da construção da pessoa e da própria condição humana», como releva a antropóloga Bela Feldman-Bianco (co-autora de «Diálogos Críticos Luso-Brasileiros», também editados pela Imprensa de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa) na apresentação da obra.
«Durante cerca de 48 anos – recorda o investigador Luís Manuel Farinha – o Estado Novo manteve no exílio milhares de opositores ao regime: antigos ministros e deputados da República, oficiais das FA, professores universitários, activistas do movimento estudantil, desertores da guerra colonial, advogados, médicos, funcionários públicos, e ainda, alguns dos mais destacados dirigentes sindicais e operários.» De Álvaro de Castro, Afonso Costa e José Domingues dos Santos a António Sérgio e Jaime Cortesão, de Cunha Leal a Rolão Preto, Hipólito Raposo e Paiva Couceiro, de Aurélio Quintanilha a José Sarmento de Beires, a lista é longa até atingir os nomes de Humberto Delgado, D. António Ferreira Gomes ( bispo do Porto), Henrique Galvão, Piteira Santos, Lopes Cardoso, Manuel Sertório, Manuel Tito de Morais, Mário Ruivo, Rui Cabeçadas, Manuel Alegre, Ruy Luís Gomes, António José Saraiva, Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis, Álvaro Cunhal e Mário Soares.
Observa Douglas Mansur da Silva na introdução que «o facto particularmente mais marcante da experiência de pesquisa talvez não esteja suficientemente registado» ao longo do seu trabalho: «a extrema motivação» dos exilados que estudou «para a acção política; a incansável militância, a incontinente convicção ética e política, da qual a sentença republicana – repetida a cada acto do 5 de Outubro, durante os seguidos anos de exílio – seja talvez uma das melhores expressões escritas: ‘antes quebrar do que torcer’». É acompanhando a história do «Portugal Democrático» – fundado no ano de 1956 em São Paulo por Vítor de Almeida Ramos, Manuel Ferreira Moura, João Sarmento Pimentel, seu irmão Francisco Sarmento Pimentel, Jaime Cortesão, Carlos Assumpção Esteves, Joaquim Duarte Baptista, Adolfo Casais Monteiro, Maria Archer, Thomaz Ribeiro Colaço – , que o autor nos traça o perfil da «Resistência» portuguesa no Brasil. Nas páginas do jornal aparecerão também as assinaturas dos jornalistas exilados Victor da Cunha Rego, João Alves das Neves, Miguel Urbano Rodrigues, Carlos Maria de Araújo e João Santana Mota e dos escritores Jorge de Sena, Mário Henrique Leiria, Castro Soromenho, Sidónio Muralha ou Eduardo Lourenço, muitas acompanhadas pelas satíricas ilustrações do artista plástico Fernando Lemos.
Paradoxalmente, o golpe militar que em 1964 derrubou Jânio Quadros e levou para outras paragens Manuel Sertório ou Jorge de Sena, enquanto os novos governantes eram pressionados pela Embaixada de Portugal no sentido de mandarem encerrar o «Portugal Democrático», não teve apenas um efeito negativo para os exilados. Apesar das tentativas de aproximação protagonizadas pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros português, Franco Nogueira, a ditadura brasileira integrar-se-ia cada vez mais no movimento internacional que apostava na derrota do colonialismo e se preparava para encetar relações diplomáticas – e ou bons negócios – com os futuros países africanos independentes. Talvez sobretudo devido às suas firmes posições anticolonialistas, o jornal escapou a ser encerrado pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social ou pelo Comando de Caça aos Comunistas. Permitiu-se, assim, uma situação inédita, como salienta o autor: «a publicação de um jornal de esquerda, formado por notórios comunistas e socialistas, entre outros, em pleno regime ditatorial militar, em que a esquerda brasileira sofria o seu pior período de repressão.» Ironizava-se, mesmo, que «o único jornal de esquerda do Brasil era português».
Com a chegada de Marcelo Caetano ao Poder, após a «literal queda» do ditador em 1968, o «Portugal Democrático» empenhar-se-ia em desmascarar internacionalmente o «salazarismo sem Salazar», denunciando a permanência das estruturas fascistas no novo consulado (mudanças só de nome da PIDE para DGS, da UN para ANP, da Censura para Exame Prévio, Assembleia Nacional formada apenas por deputados do partido único, assassínio de Eduardo Mondlane e de Amílcar Cabral, etc.). O 25 de Abril proporcionaria a Miguel Urbano Rodrigues esta notável reflexão, durante uma festa de despedida dos exilados políticos portugueses na Universidade de São Paulo: «O exílio é uma escola de paciência. Nenhum exilado pode manter viva a fé nos princípios que estão na origem do seu combate e sentir-se permanentemente identificado com a luta do seu povo (…) se não souber vencer a amargura, o desalento, as humilhações e sobretudo a solidão que o distanciamento gera. Não me envergonho de vos confessar que para nos mantermos realistas tivemos (…) de fazer concessões ao romantismo. Sonhámos durante anos com o fim do fascismo. Imaginávamos o povo nas ruas, festejando a derrocada da ditadura salazarista, colocávamos indagações, insondáveis, vislumbrando o amanhã posterior à longa noite do fascismo. Sabíamos que um dia chegaria um 25 de Abril.» E chegou, mesmo.
O «Portugal Democrático» encerraria em Abril de 1975, ostentando orgulhosamente na primeira página do seu último número a bandeira de Portugal, um cravo e a letra de «Grândola, Vila Morena».
Douglas Mansur da Silva, «A Oposição ao Estado Novo no Exílio Brasileiro, 1956-1974», Imprensa de Ciências Sociais, 2006, 162 páginas