Tempo de irresponsáveis
António Rego Chaves
Há um indignado desânimo neste livro de Vargas Llosa, o primeiro que escreveu após a atribuição do Nobel: o desânimo de quem vota vencido – mas, não obstante, está longe de se querer abster de votar. Por isso falamos de «indignado desânimo» e não de desesperança. Pois como chamar à esperança dos vencidos que não reconhecem a razão dos vencedores?
Porque é Vargas Llosa que tem, a nosso ver, inteira razão quando se atreve a ter saudades da «alta cultura» (por mais impopular e «elitista» que seja tal expressão, por mais que isso desagrade aos adeptos da «cultura popular»), contrapondo-a à «cultura light», com especial destaque para a «literatura light» (noção que, segundo escreve, «é um erro traduzir por ‘ligeira’, pois, na verdade, quer dizer ‘irresponsável’ e, muitas vezes, ‘idiota’»). Tenham ou não tenham muitos autores «aligeirado» as sua obras por razões de sobrevivência económica, condicionados pelas implacáveis «leis» do mercado, a verdade é que não se pode deixar de dar razão ao Nobel de 2010: a «alta cultura», no século XXI, transformou-se num «dinossauro».
Há certamente restrições a opor a muito do que Vargas Llosa escreve neste ensaio, nomeadamente quando, a coberto de uma pretensa «neutralidade» ideológica e política, não descortina diferenças entre o «Holocausto», o Gulag soviético e a Revolução Cultural chinesa ou considera igualmente estimáveis «grandes pensadores liberais» como Stuart Mill, Karl Popper, Adam Smith, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Isaiah Berlin e Milton Friedman. O ex-candidato à Presidência do Peru é um feroz «inimigo» da estatização, mas não é disso que aqui se ocupa: o essencial deste conjunto de ensaios centrado na «civilização do espectáculo» constitui um trabalho relevante para a definição da cultura europeia e americana contemporânea.
Partindo de T. S. Eliot, George Steiner, Guy Debord, Gilles Lipovetsky e Frédéric Martel, conclui o escritor peruano: «A distinção entre preço e valor eclipsou-se e ambas as coisas são agora uma só, em que o primeiro absorveu e anulou o segundo. O que tem êxito e se vende é bom e o que falha e não conquista o público é mau. O único valor é o comercial. O desaparecimento da velha cultura implicou o desaparecimento do velho conceito de valor. O único conceito de valor é agora o que fixa o mercado.»
«Que quer dizer civilização do espectáculo?» – pergunta o autor. E responde: «A [civilização] de um mundo onde o primeiro lugar na tábua de valores vigente é ocupado pelo entretenimento, e onde divertir-se, escapar ao aborrecimento, é a paixão universal.» As consequências estão à vista: banalização da cultura, generalização da frivolidade, irresponsabilidade.
O abandono da chamada «alta cultura» teve consequências nefastas bem conhecidas: ascensão da «literatura light» em detrimento dos grandes escritores, quase desaparecimento da crítica dos meios de informação e seu refúgio «nesses conventos de clausura que são as Faculdades de Humanidades e, em especial, os Departamentos de Filologia cujos estudos só são acessíveis aos especialistas». (….) «A crítica, que na época dos nossos avós e bisavós desempenhava um papel central no mundo da cultura porque assessorava os cidadãos na difícil tarefa de julgar o que ouviam, viam ou liam, hoje é uma espécie em vias de extinção de que ninguém faz caso, salvo quando também ela se converte em diversão e espectáculo.»
Pormenoriza o ensaísta: «Na civilização dos nossos dias é normal e quase obrigatório que a cozinha e a moda ocupem boa parte das secções dedicadas à cultura e que os ´chefs’ e os ‘modistos’ e ‘modistas’ tenham agora o protagonismo que antes tinham os cientistas, os compositores e os filósofos. Os fornilhos, os fogões e as passarelas confundem-se dentro das coordenadas culturais da época com os livros, os concertos, os laboratórios e as óperas, assim como as estrelas de televisão e os grandes futebolistas exercem sobre os costumes, os gostos e as modas a influência que antes tinham os professores, os pensadores (e ainda primeiro) os teólogos.» A esta «cultura de superfície» que domina as sociedades europeias e norte-americanas opõe a «alta cultura que enfrenta os problemas e não se lhes escapa, que intenta dar respostas sérias e não lúdicas aos grandes enigmas, interrogações e conflitos de que está rodeada a existência humana.»
Neste contexto se anota um facto singular nas sociedades do nosso tempo: «o eclipse de uma personagem que desde há séculos e até há relativamente poucos anos desempenhava um papel importante na vida das nações: o intelectual». Aonde poderemos encontrar o Platão, o Cícero, o Montaigne, o Maquiavel, o Voltaire, o Diderot, o Lamartine, o Victor Hugo, o Bertrand Russell, o Sartre, o Camus, o Moravia, o Vittorini, o Ortega, o Unamuno do século XXI? «Na civilização do espectáculo, o intelectual só se torna interessante quando obedece ao jogo da moda e se transforma em bufão.»
O jornalismo também não escapa à frivolidade: «As notícias passam a ser importantes ou secundárias sobretudo, e às vezes exclusivamente, não tanto pelo seu significado económico, político, cultural e social como pelo seu carácter de novidade, surpreendente, insólito, escandaloso e espectacular.» (…) «O jornalismo dos nossos dias, seguindo o mandato cultural imperante, procura entreter e divertir informando, com o resultado inevitável de fomentar, graças a uma subtil deformação dos seus fins tradicionais [informar, opinar, criticar], uma imprensa também ‘light’.»
Eis pois chegado o tempo dos irresponsáveis nas letras, nas artes plásticas, no cinema, na música, na política, nos órgãos de comunicação social. Obedece quem deve, manda quem pode – ou seja, a economia de mercado – de que, aliás, Vargas Llosa tem demonstrado ser um fervoroso adepto…
Mario Vargas Llosa, «La civilización del espectáculo», Alfaguara, 2012, 227 páginas