António Rego Chaves
A intolerância é intolerável. Escrevo esta frase plenamente consciente da contradição que ela encerra. Sei que a intolerância é intolerável e, no entanto, manifesto-me favorável à intolerância em relação à intolerância? Mas aqui estou bem acompanhado – fui ensinado, em devido tempo, por um tal François-Marie Arouet, dito Voltaire, que disse: «Se fizesse uma religião, incluiria a intolerância entre os sete pecados mortais.»
Vem isto a propósito de um duplo monólogo centrado em Charles Darwin e no livro «A Origem das Espécies», na altura em que se comemora o bicentenário do grande naturalista e o centésimo quinquagésimo aniversário daquela sua obra fundamental. São protagonistas a bióloga e docente universitária Teresa Avelar e o sacerdote católico Carreira das Neves, cabendo as nove primeiras dezenas de páginas à cientista que «tudo» sabe sobre Darwin. Mas também saberá «tudo» acerca de tudo?
Pondo de parte a ciência, comecemos por duvidar de que saber «tudo» sobre Darwin e o darwinismo é saber «tudo» sobre religião e sobre moral. Depois, tenhamos a humildade de reconhecer que quase nada sabemos de quase tudo – e prossigamos. É que Teresa Avelar, como qualquer ser humano, não sabe «tudo» de tudo – e até ignora factos elementares, como quando aborda a questão de Deus e do mal atribuindo a Hume, não só o que é de Hume, mas o que é de Epicuro – e que Hume se limitou a referir, aliás indicando a sua fonte, nos célebres «Diálogos sobre a Religião Natural».
Poderá suceder, perante o ateísmo missionário de Teresa Avelar, entrar agnóstico no seu texto e sair dele aberto à fé. É que existem certezas que são contraproducentes para quem não as partilha, talvez devido ao tom em que são enunciadas, talvez devido ao acinte de que estão feridas, talvez devido à pretensão de não deixarem espaço para a dúvida. Certezas que impedem cada ser humano de iniciar o seu solitário caminho em busca de uma voz pessoal. Certezas que matam o acto de filosofar. Certezas do cientismo, certezas do dogmatismo, certezas do fanatismo, não é o nome o que mais importa. Importa, sim, que elas sufocam em muitos o nascimento de ideias próprias.
Compreende-se muito bem – sobretudo na Península Ibérica – a ânsia de denunciar as «barbaridades» cometidas pela Igreja Católica em relação a Darwin. Pode a autora citar, com inteira propriedade, Leão XIII, Pio X, Pio XII, João Paulo II, Bento XVI, para demonstrar que, bem feitas as contas, os chamados «descendentes de Pedro» nunca souberam «engolir» os ensinamentos científicos de Darwin. Será verdade, será indiscutível, será certo. Mas porquê não se contentar com essa demonstração, e passar, em seguida, para um outro plano, decerto bem mais escorregadio, onde nem sequer se move com à-vontade, com sólida fundamentação, com conhecimento histórico? Como afirmar, por exemplo: «Dificilmente podemos defender que derivamos os nossos valores morais da Bíblia. Por exemplo, quando se cita o mandamento ‘não matarás’, omite-se o que está subentendido: ‘não matarás os filhos de Israel’. Em nenhum ponto do Antigo Testamento há o menor problema em matar outras pessoas. O extermínio de outros povos é explicitamente ordenado por Deus, assim com devem ser mortos os Israelitas que sacrificarem a outros deuses (Êxodo, 22: 20) ou trabalharem ao sábado (Êxodo, 31: 14-15)». Mas será que não se tornaria aqui necessário contextualizar o Antigo Testamento e explicar aos leitores que está escrito, precisamente no Êxodo, 22:20, o seguinte: «Não afligirás o estrangeiro nem o oprimido, pois vós mesmo fostes estrangeiros no país do Egipto.» Ou que, no que se refere ao descanso no dia de sábado, muitos sindicalistas do século XXI encontrariam nessa prescrição um bom motivo para recusar a tal «flexibilidade» de que tanto gosta o capitalismo selvagem e a que milhões são forçados a aderir, sob pena de caírem no despedimento com justa causa? Prossigamos: «O Novo Testamento quase consegue ser pior, dado que refere a punição eterna (a morte já não é suficiente) para o simples ‘crime’ de não acreditar em Jesus.» Quererá isto dizer que a maioria dos chineses, japoneses ou indianos estão, segundo o Novo Testamento, condenados à punição eterna? Basta conhecer minimamente o conteúdo das directivas do Vaticano II e as perspectivas do diálogo inter-religioso para saber que não. Mas não residem aqui os factos fundamentais que permitem classificar, nestas questões, o discurso da cientista Teresa Avelar como, no mínimo, uma declarada recusa de respeitar o outro enquanto outro, ou seja, enquanto diferente de si própria. Como pretende demonstrar a irrelevância do cristianismo em todas as questões éticas, «esquece-se» de referir que era cristã a cultura em que grande parte dos mais importantes pensadores dos séculos XIX e XX estava imersa e definiu, fosse pela negativa ou pela positiva, as suas ideias – nomeadamente Nietzsche, Marx, Unamuno, Max Scheler, Wittgenstein ou Simone Weil. Isto para não falar de inúmeros teólogos, protestantes ou católicos, que nada tiveram a ver com as investidas papais contra Darwin. Um nome basta, o de Teilhard de Chardin, para lembrar que nem mesmo o catolicismo se cingiu às declarações papais sobre a «Origem das Espécies».
Quanto à conclusão da autora, parece incontroversa: «A teoria darwiniana continua a suscitar repúdio ou deturpações porque, muito mais do que a teoria heliocêntrica ou descobertas em física ou astronomia, nos destronou da nossa anterior posição de espécie privilegiada, a única criada ‘à imagem de Deus’. Consegue encontrar uma explicação inteiramente natural para as nossas características mais ‘únicas’, boas ou más. Mostrou que somos apenas um dos resultados temporários do processo imediatista e contingente da selecção natural.» Outra coisa seria, como é evidente, tentar reduzir a existência humana a uma perspectiva espartilhada pelo darwinismo...
Veremos a seguir como respondeu e não respondeu à autora o Padre Joaquim Carreira das Neves, franciscano e professor jubilado da Universidade Católica Portuguesa, com o texto que intitulou: «Criação e Evolução: a verdade a dois andamentos?»
Teresa Avelar, «Darwin e a Evolução», Bertrand, 2009, 93 páginas