António Rego Chaves
Um homem a quem a burocracia francesa decidiu chamar «Monsieur Godinho» tem um cancro do pulmão. Da cama que lhe foi atribuída no Hospital de Saint-Antoine, em meados de Janeiro de 2005, apercebe-se da morte de um seu companheiro na dor, a quem a mesma burocracia tratava por «Monsieur Ibrahim». A família de «Monsieur Ibrahim» chora o seu ente querido pela noite fora, «Monsieur Godinho» observa e pensa. Pensa agora menos na sua própria morte, talvez iminente (sabemos hoje que lhe restava pouco mais de um ano de vida), do que na semelhança entre a sua circunstância e a de «Monsieur Ibrahim». Eram dois doentes em estado grave, resta, agora, ele, «Monsieur Godinho». É, pois, a si, que uma enfermeira conta, no dia seguinte, comovida, que o médico responsável por «Monsieur Ibrahim» velou até muito tarde à cabeceira do moribundo. E «Monsieur Godinho» interroga-se: «Como é que coisas tão discordantes podem fazer sentido, sentido comum – a burocracia hospitalar, uma mesma imagem ‘natural’ que se perpetua através dos séculos, a medicina e os seus limites, a morte e o arcaísmo das lágrimas colectivas, o amor e a piedade?»
«Monsieur Godinho» toma depois consciência de que há uma instituição, uma estrutura e indivíduos que correspondem ao imperativo de tratar seres humanos como fins em si mesmos. Apesar de saber que é «banal, normal» a existência de serviços de saúde, diz para si ser muito extraordinário haver indivíduos que se consagram profissionalmente a tratar de outros indivíduos. E «Monsieur Godinho» recorda o Kant da «Fundamentação da Metafísica dos Costumes», que porventura terá lido pela primeira vez há muitos e muitos anos, na tradução de Paulo Quintela, antes de o conhecer na edição da Academia de Berlim: «Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio.»
Evoca «Monsieur Godinho» a «assistência pública», essa «bela expressão francesa»; lembra que, segundo lhe disse o seu amigo João Lobo Antunes, «todos os inquéritos empíricos corroboram a intuição de que as pessoas se orientam para uma profissão médica porque têm vontade de ajudar o seu próximo»; recorda o Levítico, «amarás o próximo como a ti mesmo». Kant, como ele, «Monsieur Godinho», muito bem sabe, laicizou e universalizou este mandamento. Mas o filósofo da «Crítica da Razão Prática» não se ficou por aí: substituiu «o próximo» do Antigo Testamento, os membros do povo de Israel, que tinham nomes próprios (a Parábola do Bom Samaritano poderá ter representado por parte de Jesus uma tentativa de alargar o conceito de «próximo» a estrangeiros e hereges) por todos os anónimos humanos. «Há um lugar», conclui então «Monsieur Godinho», «onde o homem é efectivamente tratado como um fim e não como um meio: o hospital público, cujo único objectivo consiste em salvar e curar». E, recordando que a educação e a saúde são os dois pilares do Estado-Providência, «Monsieur Godinho» pode inferir que este realiza a lei moral.
Este paupérrimo «flash» do admirável texto autobiográfico de «Monsieur Godinho» – aliás Fernando Gil, o filósofo português desaparecido em 19 de Março de 2006 – superiormente comentado por Renato Lessa, Manuel Silvério Marques e João Lobo Antunes, visa apenas chamar a atenção do leitor para «O hospital e a lei moral», que constitui, talvez, um dos mais extraordinários ensaios assinados pelo autor de obras tão importantes para o pensamento português dos últimos decénios como «Aproximação Antropológica», «Tratado da Evidência», «A Convicção», «Mediações» ou «Acentos». Como salienta o cientista político Renato Lessa, «a militância de Fernando Gil em favor do exercício de uma filosofia contemporânea que reinstala o primado do sujeito fez-se acompanhar, durante todo o tempo do percurso, por uma antropologia da variedade e da singularidade humana.»
O que pode ser considerado o «testamento espiritual» do filósofo, segundo frisa o neurocirurgião João Lobo Antunes, é tanto mais significativo quanto ele possuía uma experiência de internamento num hospital privado, em que ingressara como [o professor catedrático] «Fernando Gil, conselheiro do Presidente da República», passando depois a ser «Monsieur Godinho», uma vez reduzido ao anonimato do hospital público. E, sabendo-se que não seria possível ao filósofo, mesmo perante a iminência da morte, «imaginar-se a si próprio sem um futuro indefinidamente aberto», compreendemos que ele, ao conseguir analisar o acto médico de tratar à luz do imperativo categórico kantiano, logrou de alguma forma superar em si a terrível angústia do fim.
Manuel Silvério Marques, médico oncologista e especialista de Bioética, assinala que «é do anonimato, como Fernando Gil bem sentiu na sua cama de hospital, que deriva a possibilidade de equidade e de igualdade». Acentuando que Renato Lessa define a questão da indiferença como o núcleo metafísico do pensamento categorial de Fernando Gil, observa que, aqui, «a indiferença é tematizada a partir dos seus mais poderosos antídotos, a lei moral kantiana e as instituições públicas do Estado-Providência.» Eis-nos perante um combate de carácter eminentemente político, o que é travado em nome da solidariedade contra a indiferença…
Completam este número 68 da prestigiada revista parisiense «Rue Descartes», consagrado ao tema «Filosofar em Portugal hoje» e organizado por Maria Filomena Molder, ensaios da autoria de Diogo Pires Aurélio («A soberania como vontade e como representação»), Sofia Miguéns («Três perspectivas sobre a discriminabilidade aparência-realidade na experiência consciente»), Rui Bertrand Romão («Cepticismo e estilo»), António Marques («A psicologia segundo o último Wittgenstein»), Paulo Tunhas («Três tipos de crença»), Maria Filomena Molder («Símbolo, analogia e afinidade») e José Gil («O plano de pensamento de Eduardo Lourenço»).
«Rue Descartes», «Philosopher au Portugal aujourd’hui», PUF, Maio de 2010, 126 páginas