António Rego Chaves
Pena que Manuel Laranjeira tenha nascido em Portugal. Pena que, entre tantos insignes catedráticos, raros se atrevam a reconhecer-lhe, ainda hoje, a incómoda grandeza. Autor de um «Diário Íntimo», de «Cartas» e de «Comigo: Versos d’um Solitário», pousou levemente em Espinho, tocou bem fundo no que mais digno de atenção existe nos humanos e foi-se à morte, com um golpe de asa, enojado com quanto vira e pressentira. Portugal pequenino cá ficou, como sempre, quase indiferente ou invejando um dos seus maiores – mesmo depois de enterrado.
Destoando, com a nobreza e sensibilidade que sempre o distinguiram, escreveu Urbano Tavares Rodrigues: «A célebre frase de Miguel de Unamuno, seu amigo e correspondente, situa-o com justiça no plano do pensamento e da tensão espiritual a que, de direito entre nós, pertence: «Fué Laranjeira quien me ensenó a ver el alma trágica de Portugal… y no pocos rincones de los abismos tenebrosos del alma humana.»
Eugénio Montoito, neste seu «Manuel Laranjeira e o Sentimento Decadentista na Passagem do Século XIX», não se manifesta, felizmente, interessado em saber se o autor de que se ocupa foi poeta maior, dramaturgo de cinco estrelas ou ensaísta de grande fôlego; humildemente se interroga – aliás transcrevendo palavras de António Sérgio – «por que motivo se suicidou um Antero, e um Camilo, e um Soares dos Reis, e um Costa Ferreira, e um Júlio César Machado, e um Mouzinho de Albuquerque, e um Manuel Laranjeira, e um José Fontana, e outros, (…) porque há tanto vil, co’a breca, entre os ‘intelectuais’ desta terra, e tanto escarninho odiador de toda a reverberação do espírito.»
E vai citando Manuel Laranjeira, como quem está ciente de que ninguém poderia dizer melhor: «Dentro da família sinto-me horrivelmente sozinho, não só no modo de pensar, mas também de sentir. Que sabem os meus, pobre gente de uma sensibilidade antiga e rústica, das coisas complicadas da alma moderna? Nem concebem sequer que possam existir coisas tão esquisitas e complexas.» (…) «Sinto uma grande fadiga moral, um piedoso cansaço, de piedade feita de desprezo, por tudo, pelas coisas e sobretudo pelos homens.» (…) «Eu não sinto o vazio universal de Antero: sinto uma coisa pior – sinto a torpeza universal.»
Um dia, despertado para a miragem de Paris por Amadeo de Sousa Cardoso, escreve-lhe: «Irei consigo, se me não faltar a questão monetária.» Quer deixar as brumas de Espinho, o Portugal «desgraçado», o «amigo tédio» que o mergulha em abismos suicidas. Mas logo recua, encontrando justificação para si e para quem puder acreditar nela: «A minha mocidade é isto já agora – servir de estaca à velhice de minha mãe. A pobre velha, que tem duas religiões, a de Deus e a minha, que é fanática pelo Senhor e por mim, não me pode ouvir dizer que devia ir agora para Paris.»
Resta-lhe um angustiado isolamento, só cortado pelas cartas dos amigos: Amadeo, Unamuno, Luís Manuel de Almeida, António Patrício, Ramiro Mourão, Martinez Sierra, António Carneiro, João de Deus Ramos. Até 22 de Fevereiro de 1912, depois de endereçar a Don Miguel uma derradeira mensagem fraterna: «Fico por aqui. Adeus, meu querido amigo, até…não sei quando.» Um tiro na cabeça e está tudo acabado. Ainda não completara 35 anos.»
Não lhe valeram a arte, nem a política, nem a profissão de médico, nem o amor, nem a fé. «Arte pela Arte não faz sentido. O que faz sentido é a arte pela verdade, a arte pela justiça, a arte pela vida, a arte para enobrecer e melhorar os homens.» Mas, ao identificar-se com «um D. Quixote de braços cruzados», condenava-se a uma militância cívica intermitente ou à «morte libertadora», própria de alguém que se sente «cada vez mais enojado dos homens, do mundo e da vida». Porque a Medicina – diz Bernard Martocq, autor do mais importante estudo publicado sobre Manuel Laranjeira, ironicamente em língua francesa –, exercia-a mais como «ganha-pão do que propriamente como sacerdócio». Enfim nada lhe restava, pois uma persistente misoginia proibia-o de comunicar para além do corpo com as mulheres que o amavam, e a fé, a da infância, sabia-a irrecuperável.
Escreveu, num dia de 1908, em corriqueira página de jornal: «A águia que cai varada por uma bala, quando voa imaculada pelas alturas imaculadas, cai olimpicamente, morre como uma águia. Degradante seria que a águia, para expirar, abandonasse os espaços inacessíveis do azul orgulhoso, e viesse acolher-se a uma capoeira.» De Manuel Laranjeira podemos afirmar com segurança que acabou por vontade própria, em espaços que muito pouco dos seus contemporâneos portugueses alguma vez vislumbraram e deixando-lhes bem impressa uma indelével maldição, dirigida às «quadrilhas da política parasitária» e à «fadistagem literária»: «Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa.»
Eugénio Montoito, «Manuel Laranjeira e o Sentimento Decadentista na Passagem do Século XIX», Europress, 2001,189 páginas
(Esta recensão crítica foi publicada no jornal «Diário de Notícias» em 21de Junho de 2002, com o título «Laranjeira ou a desgraça de ter nascido em Portugal» e o pós-titulo «Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa»).