António Rego Chaves
Manuel Chaves Nogales (1897-1944) nasceu em Sevilha e morreu em Londres. Foi partidário do Presidente da República Manuel Azaña (eleito em 10 de Maio de 1936 e forçado a resignar a 5 de Fevereiro de 1939), dirigiu o jornal «Ahora», exilou-se em Paris até Junho de 1940 e, depois, em Inglaterra. Era um convicto democrata, antifascista e anticomunista.
Esta magnífica reportagem, que é também um ensaio, sobre a queda da França às mãos de Hitler, constitui um documento histórico: escreve-a um talentoso jornalista, que era também especialista em política internacional da época. Quando discordamos dele (foi o caso, não poucas páginas) há também que discordar de nós próprios. Porque, se houver novas razões de peso, é sempre desejável pôr à prova todas as certezas – as dele e as nossas –, se possível chegando a conclusão digna de tal nome. Caso tanto não seja exequível, proceda-se a «revisões constantes e frequentes», como ordenava (mas sabe-se que não fazia tudo o que dizia, qual Frei Tomás) Descartes.
O autor fala de uma experiência vivida em Paris: assistiu ao desabar dos valores democráticos na sociedade da capital, foi espectador boquiaberto de um imprevisto e espantoso espectáculo: «a indiferença desumana» da maioria dos franceses perante a invasão nazi. Ele, que permanecera na capital espanhola quando as tropas republicanas procuravam resistir, até ao último alento, aos golpistas franquistas, teve dificuldade em acreditar e em compreender o que via: «a indiferença das massas», a ignóbil rendição perante o inimigo secular, a rasteira submissão de um povo à barbárie estrangeira. Mas compreendeu depois – ou julgou compreender – o que se passara. Talvez sobretudo por esse motivo possamos hoje ler este livro.
Que se passou, segundo o autor? Existia desde 1934 ou 1936, primeiro com a ascensão das Ligas reaccionárias, depois com a Frente Popular, uma guerra civil latente que impedia os franceses de se unirem perante a ameaça de perda da independência, tendo uns como aliado ou «inimigo principal» a Alemanha, e outros como aliado ou «inimigo principal» a URSS. Fascistas e comunistas demarcavam com nitidez os seus territórios políticos, enquanto os partidários da democracia parlamentar, potenciais aliados da Grã-Bretanha, mas ao mesmo tempo seus rivais, porventura constituindo uma «maioria silenciosa», seriam os mais passivos no terreno ideológico.
A submissão da França ao invasor não se traduziria, aliás, apenas pelo sacrifício dos seus nacionais: cerca de um milhão de italianos, meio milhão de espanhóis, centenas de milhares de checos, austríacos, polacos, romenos, russos e alemães, assim como judeus de todas as nacionalidades, seriam também vítimas da rendição, nomeadamente os anti-hitlerianos que seriam entregues a Berlim e postos à disposição da Gestapo. Como diz Manuel Chaves Nogales, foi «uma das maiores vergonhas da história».
Era convicção do autor que, em 1940, a França não foi derrotada apenas fisicamente – antes disso, ela já estaria moralmente destroçada. De facto, quem queria enfrentar o inimigo, combatê-lo, arriscar a vida para defender a independência do país? Procuramos os nomes, as instituições, os extractos sociais, mas em vão: porque, se os franceses não tinham querido morrer pela Espanha, nem pela Checoslováquia, nem por Danzig, também não estavam dispostos a morrer pela própria França. Era – ainda é – um sinal dos tempos: «cada um trata de si»; «primeiro eu, depois o dilúvio».
Recorda Chaves Nogales: «O último sobressalto do patriotismo francês foi para rejeitar liminarmente o pacto de sangue que a Inglaterra lhe oferecia. ‘Será que vamos deixar de ser franceses para nos convertermos em súbditos de sua Majestade Britânica?’, gritava escandalizado aquele chauvinismo cego, estúpido, que conduziu à escravidão a pátria que dizia amar.» O raciocínio era simples, pois calculava-se que derrotar o inimigo custaria um milhão de vidas à França: «Se Hitler vencer a Inglaterra, teremos sido os colaboradores mais eficazes do seu triunfo e haverá a possibilidade de lucrarmos algo com isso. Se a Inglaterra vencer Hitler, com a vitória da democracia britânica recuperaremos a nossa liberdade sem termos sido obrigados a pagar o duro resgate de um milhão de vidas que se nos exige.»
«Foram as elites intelectuais do país as que primeiro se renderam e arrastaram as massas para o desastre» – considera o ensaísta. E prossegue: «Todos eles, mesmo os que na sua obra pessoal mantêm uma posição puramente democrática – que não eram muitos –, tinham renunciado à acção colectiva da inteligência francesa contra a nova barbárie. Conservando a sua lucidez mental e a força criadora do seu intelecto, tinham perdido a coragem moral, a fé em si mesmos e nas suas convicções, necessária para que não se tivessem decidido a fugir da batalha. Temendo sempre perder o contacto com a sensibilidade do seu tempo, deixaram-se arrastar pela barbárie comunista ou fascista, renunciando, com franciscana humildade, às suas convicções e salvando, com tímidas objecções de consciência, o fundo insubornável do seu intelecto.» Ou seja: «Não tiveram senão o cuidado egoísta de salvar a posteridade da sua obra pessoal.» A acusação é em muitos casos injusta, mas talvez seja globalmente certeira.
A conclusão política de Manuel Chaves Nogales não é optimista: «Até agora não se descobriu nenhuma forma de convivência superior ao diálogo, nem se encontrou um sistema de governo mais perfeito do que uma assembleia deliberativa, nem há outro regime de selecção melhor do que a livre concorrência: quer dizer, a paz, a liberdade, a democracia. No mundo não há mais nada.» Digamos que, se no mundo não há mais nada, podia ou devia haver, além de paz, liberdade e democracia, justiça social: aquela por que, em 1936, a Frente Popular lutou, fosse em Espanha, fosse em França...
Manuel Chaves Nogales, «La agonía de Francia», Libros del Asteroide, 2010,187 páginas