Mulheres e judeus
António Rego Chaves
Arthur Schnitzler (1862-1931), membro proeminente do grupo literário «Jovem Viena», a par de Hugo von Hofmannsthal, Leopold von Andrian ou Richard Beer-Hofmann, foi um dos mais lúcidos observadores da sociedade austríaca de 1900. «Vienne au crépuscule», a versão francesa do título «Der Weg ins Freie» («O Caminho da Liberdade»), constitui uma demonstração cabal da sua capacidade de enunciar os problemas sociais vividos numa cidade que era, em fins do século XIX, das mais activas na definição da cultura europeia, tal como Paris, Londres ou Berlim.
A intriga gira em torno do jovem barão Georg von Wergenthin, aspirante a compositor e futuro maestro, e da sua «aventura» com Anna Rosner, filha de uma família pequeno-burguesa. O aristocrata recusa comprometer o seu futuro e encarar o casamento com Anna, apesar de a amar dentro dos limites da sua pose de esteta e de a amante se encontrar à espera de um filho seu. Se tudo se ficasse por tal argumento vulgar e um tanto sórdido, esta obra de Schnitzler poderia não merecer mais atenção do que um romance de cordel. A questão reside em que «O Caminho da Liberdade» visa muito mais longe, vai bem além deste paupérrimo horizonte «realista».
O título francês, ainda que apresente a vantagem de alertar para o «mito de Viena» (muito glosado em Paris nas últimas décadas novecentistas, após a exposição «Vienne, naissance d’un siècle», realizada em 1986 no Centro Georges Pompidou), tem, pois, o demérito de não chamar a atenção para o que de essencial está em causa neste romance, publicado pela primeira vez em 1908 – precisamente, o problema da liberdade. A liberdade da mulher perante o homem, e do judeu perante o não-judeu, na Europa de 1900.
Escreveu Jacques Le Rider: «Um tema central da obra dramática e narrativa de Arthur Schnitzler é o paralelo estabelecido pelas vicissitudes da emancipação, pelas suas promessas, as suas contradições e as suas desilusões, entre os judeus e as mulheres na modernidade.» O chamado «anti-semitismo» e a misoginia caminhavam a par, esmagando na sua trituradora marcha tanto os direitos dos judeus como os das mulheres.
A «libertação falhada», a «emancipação abortada» de judeus e mulheres é, pois, evocada por Schnitzler a partir de uma intriga que pouco vai além do «fait-divers» apto a ser explorado por um qualquer tablóide em busca de aumento de tiragem. O autor, indeciso, não nos aponta, aliás, qualquer solução para os problemas levantados pela sua narrativa, limitando-se a expô-los e equacioná-los: apresenta assim em relevo algumas tradições e contradições da sociedade de que faz parte, porventura consciente da sua impossibilidade de vencer o imobilismo e escolher uma «linha justa» para o «herói», que não vê como conciliar a carreira na música com o casamento.
Jacques Le Rider nota, também, que a personagem, Georg von Wergenthin encarna diversas figuras da decadência: o declínio de uma Áustria das elites imperiais, a crise de uma criação artística ameaçada de esterilidade e o défice de uma masculinidade que se revela incapaz de corresponder responsavelmente ao apelo do amor e da vida a que ele pode dar origem.
Lou Andreas-Salomé, decerto mais conhecida pelas relações com Nietzsche, Rilke e Freud do que pelo que deixou escrito, observou com perspicácia, em carta a Schnitzler: «Surpreende ver até que ponto o homem, nas suas obras, faz triste figura ao lado da mulher – uma figura tão pouco brilhante que se seria tentado a perguntar se não há em si uma parcela de calúnia do seu próprio sexo. Seja bom, seja mau, o homem aparece regularmente como o menos interessante. E todas essas mulheres lhe são de alguma maneira superiores, quanto mais não fosse pela inocência da sua insignificância.» (…) «Homem e mulher, assim colocados lado a lado, encontram-se tão próximos como a morbidez e a saúde.»
Na sua autobiografia, o escritor recordaria que, quando frequentava a universidade, em 1880, «o anti-semitismo florescia nos círculos estudantis. As corporações nacionais germânicas tinham começado a excluir judeus e pessoas de origem judaica. Não só nos ‘passeios’ do domingo de manhã, mas também à tarde no ‘café’ e em plena rua, assistia-se com frequência a confrontos entre corporações estudantis anti-semitas e grupos liberais e as antigas organizações corporativas, em grande parte compostas de judeus».
São perturbadoras, porque proféticas, as considerações de uma das personagens da obra, se tivermos presente a data da sua edição, 1907: «Quem criou o movimento liberal na Áustria? Os judeus. Por quem foram os judeus traídos e abandonados? Pelos liberais. Quem criou o movimento nacionalista alemão na Áustria? Os judeus. Por quem foram eles deixados cobertos de escarros, como cães? Pelos alemães. E acontecer-lhes-á a mesma aventura com o socialismo e o comunismo. Quando a sopa está servida, expulsam-nos da mesa. Foi sempre assim e assim será sempre.»
Ao transformar o antijudaismo em tema de «O Caminho da Liberdade», Arthur Schnitzler não escandaliza apenas a «boa» sociedade austríaca: mesmo no «Jovem Viena» provocava reacções negativas. Refere Michael Pollak: «Hofmannsthal exprime-lhe a sua consternação e comunica a Beer-Hofmann e a Andrian a sua decepção perante uma obra tão pouco estética. Mais: reage como se a simples expressão desse tema fosse uma infracção às exigências sagradas do artista. Porque a atitude de Schnitzler põe em causa a sua própria concepção política de uma identidade específica austríaca, Andrian também se mostra chocado com o livro, que Schnitzler no entanto reivindica como ‘a mais pessoal das minhas criações’.»
Todos eles decerto ignoravam, porém, que um seu compatriota, à data da publicação da obra com 18 anos, procuraria desde então e até 1913 realizar as suas ambições «estéticas» na capital, como pintor ou arquitecto. Terá aspirado com delícia o intenso odor de Viena a antijudaísmo; e, em 1925/6, cometeria um texto onde ampliava a abjecta lição recebida: «Mein Kampf».
Arthur Schnitzler, «Vienne au crépuscule», Stock, 2011, 474 páginas