«Ao rés da fala, sem dalmática»
António Rego Chaves
Mais uma «História de Portugal»? É bem certo que sim. Mas eis a primeira anunciada, desde há mais de três decénios, ou seja, desde a de Veríssimo Serrão, «a uma só mão». E essa mão é, agora, a de António Borges Coelho, que nos avisa: «Escrevo esta ‘História’ ao rés da fala. Sem dalmática, questiono. Não sigo o cânone. Persigo o rigor e o prazer da palavra.» Quem assim fala deve ser escutado com a maior atenção: em boa verdade, só um escritor de primeira água possui em tão alto grau o dom da frase certeira.
Mas não só o dom da frase certeira possui este grande investigador, que já nos ofereceu obras tão inovadoras como «Portugal na Espanha Árabe» ou «Inquisição de Évora 1533-1568». Borges Coelho evidencia também a arte de evocar os factos históricos com a vivacidade e o empenhamento de quem os tornou seus e os viveu por dentro, ainda que eles tenham ocorrido há séculos e séculos. Num tempo em que vezes sem conta se confunde uma inalcançável objectividade com a pretensa ausência de opções ideológicas, tal virtude não é de somenos, cansados que estamos de presenciar os tristes desvelos de alguns em mascarar as suas matreiras manipulações de factos.
Esclarece o autor: «Tanto quanto pude, procurei o rigor na desmontagem / reconstrução dos factos e das ideias que os veiculam, na formulação das teias que os articulam e hierarquizam. Mas vão faltar tantos factos, aqueles que não conheço, os quase infinitos que desconhecemos, e os outros que deixei para trás na pesagem da sua importância relativa ou pressionado pela necessidade de inteligir, não de ocultar, o campo de visão.» Incontestável, porém, é que Borges Coelho nos conduz com segurança, neste primeiro volume da sua «História», desde o «homo erectus» à «Coimbra moçárabe, católica-romana, moura e judia» do século XII, passando pela Hispânia de Viriato e Sertório, pelos reinos suevo e visigótico, pelo Garb Al-Andalus. Deixa-nos, porém, um alerta para o nosso notório atavismo de nação periférica: «No século XVI, o desenvolvimento filosófico e científico que se anunciava foi travado pela censura tridentina e inquisitorial. João de Barros enunciou as bases do método experimental sem se aperceber da importância da sua descoberta. Pedro Nunes pôs a matemática à disposição dos navegadores. Garcia de Orta não ousava ‘afirmar as cousas sem primeiro as ver bem’ ou ‘contra a experiência do que vemos’. Mas a nova Escolástica, dita Conimbricense, dominou a especulação teológico-filosófica e os seus manuais foram exportados para a Europa conservadora. O seiscentista Locke só chegou a Portugal no tempo de Pombal. E Espinosa, filho de portugueses, teria de esperar pela segunda metade do século XX para alcançar a tradução da ‘Ética’ para a língua materna.»
Debruçando-se sobre a cultura europeia dos primeiros séculos da nossa era, e depois de transcrever alguns perenes textos de Epicuro, Lucrécio, Ovídio, Séneca e Marco Aurélio, comenta o autor para si e para os seus leitores: «Estou a colher com as mãos a água do oceano. A pouca que levanto escoa-se por entre os dedos. Que o esforço tenha permitido abrir uma fresta para ideias e práticas que marcaram profundamente as elites romanas durante três séculos e seriam submersas pela queda do Império e pela caça que lhes moveram os teólogos cristãos.» Não é habitual um historiador expor-se tanto, em tom quase confessional, ao mostrar-se em busca de si próprio e ao transmitir as suas dúvidas a quem o lê: só podemos lamentar que seja tão pouco seguido este belo exemplo de meridiana probidade intelectual.
O autor não poupa a Igreja Católica: «Do Mundo Romano herdaram os povos do Próximo Oriente e os europeus um universo mítico e dogmático de estórias, de crenças, de práticas de culto e de estruturas organizativas – o Cristianismo –, hoje dividido em múltiplos corpos. Nasceu entre os judeus que resistiram, por vezes dramaticamente, à absorção. Nos primeiros séculos os cristãos foram perseguidos, mas após o triunfo viraram perseguidores. Converteram pela palavra e pela força. Destruíram os templos pagãos, mutilaram os rostos das suas estátuas, queimaram os seus escritos.» (…) «O Cristianismo marcou até aos ossos a nossa identidade. Éramos o povo eleito. Os que não tinham nem queriam ter a fé revelada perdiam o direito às suas terras, às suas riquezas, à sua identidade.»
Os resultados da intolerância cedo se fizeram sentir no nosso território: «Ao longo dos séculos XI, XII e XII, massas de europeus, envoltos no sinal da cruz, caminharam para Ocidente e Oriente. Incitavam-nos à Cruzada a miséria, a fome da riqueza alheia e o fanatismo. Multiplicaram-se os conflitos, as pilhagens, cresceu o comércio, o investimento, a recusa e a imitação do outro. Os primeiros movimentos de cruzada ocorreram na Península Ibérica. A conquista de Coimbra em 1064 e principalmente a entrada dos cristãos na antiga capital do reino visigodo, em 1085, tiveram um tremendo impacto social, político, ideológico e simbólico.»
Em 1128, após a Batalha de São Mamede, Afonso Henriques passa a chefiar o condado portucalense, que toma o nome de Portugal. Escreve o historiador: «O que representava? Essencialmente uma ideia de autonomia, o estabelecimento de um corpo político autónomo que favorecesse a expansão e a riqueza da nobreza regional de Entre-Douro-e-Minho. Esta identificava-se com a luta da sé de Braga contra o avanço da metrópole rival de Santiago de Compostela. A nossa ideia de Portugal não podia existir. Faltavam séculos de história; e boa parte dos habitantes de dois terços do actual território enfrentava então, de armas na mão, recusando-o, o polígono cristão e feudal do norte que descia do mar da Galiza e se espraiava para Leão.» Afonso I só em 1139 se assumirá como rei de Portugal. Cabe agora a Borges Coelho narrar-nos todo o resto da história que então se inicia, para só terminar, por ora, neste Março de 2010…
António Borges Coelho, «História de Portugal», volume I, «Donde Viemos», Caminho, 2010, 236 páginas