Mt 5,17-19
São Paulo escreve em relação à lei: “Cristo nos libertou para que sejamos livres; não vos deixeis, portanto, vos impor o jugo da escravidão” (Gl 5,1). Hoje Jesus nos fala que não veio abolir a lei, mas lhe dar pleno cumprimento. Assim parece haver uma contradição: Paulo proclamou o fim da lei, e Jesus afirma o seu cumprimento em todos os detalhes.
Jesus quer nos dar a liberdade verdadeira, que consiste no viver o amor. Ora, para viver no amor é necessário aprender a obediência: nela se encontra a verdade do amor e a verdadeira liberdade. Por isso Cristo insiste em dizer que Ele não veio abolir a lei, mas lhe dar pleno cumprimento: a verdadeira liberdade não se alcança subtraindo-se da lei, mas descendo à sua profundeza.
Estamos perto do tempo da Paixão do Senhor: é o tempo em que Jesus “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb 5,8), tornando-se assim homem perfeitamente livre na ressurreição. “Eu amo o Pai e faço sempre a sua vontade”: por isso Ele se dirige à Paixão e leva a cumprimento a lei através da obediência até a morte de cruz.
Ora, Jesus quer que a lei se cumpra em nós. Por isso ele mesmo a cumpre em nós com sua força. É Jesus que faz da vontade do Pai nosso alimento, assim como ela foi seu alimento. “Não aquilo que eu quero, mas aquilo que tu queres”: esta é a via cristã da verdadeira liberdade.
Dt 4,1.5-9
Lei e liberdade parecem ser contraditórias. Para alguns, para ser livre é preciso se livrar da lei, pois esta limita a liberdade.
A leitura nos mostra como é insensata essa contraposição entre lei e liberdade. É exatamente para que sejamos livres, que Deus promulga a sua lei, que, no fim das contas, é lei de liberdade.
A lei torna o povo sábio e prudente. Pela Lei, o povo se sobressai em sabedoria em relação aos outros povos, porque sabe quem é, o que quer ser e para onde vai. A sabedoria autêntica nos dá identidade, vocação e sentido.
Além disso, a Lei permite ao povo estar próximo de Deus: assim o destino do povo eleito é o de caminhar com Deus e para Deus. Deus é o destino de vida plena e feliz do povo.
Por fim a obediência à Lei é recomendada pela sua ligação com a memória dos acontecimentos que revelaram Deus como o Salvador do povo. Assim como os acontecimentos históricos, a Lei revela que Deus busca a felicidade do seu povo. Assim a obediência à Lei é mais a memória agradecida do que mero cumprimento de ordens. Cumprindo a Lei, o povo eleito responde agradecido às intervenções históricas de Deus em favor de seu povo.
Neste tempo da quaresma, somos convidados a fazer a experiência da vontade de Deus como o fundamento da verdadeira sabedoria, como o que nos garante a comunhão de vida com Deus e o seu cumprimento como memória agradecida.