82 - REFLEXÃO
Eu revoltava-me mas não conseguia abandonar a prática, tinha medo das consequências, tinha medo do futuro, tornei-me uma pessoa tímida e retraída, na escola eu afastava-me de todo o mundo.
Eu queria ser um rapaz normal, mas bastava estar só em qualquer sítio onde houvesse roupas de meninas e pronto, todo o meu lado homem ia por água abaixo.
Bastava ter uma revista de moda com algumas roupas e eu passava horas a imaginar que ia comprar tudo aquilo e que ia poder passear com aquelas roupas.
Se existem pessoas que lutaram ao longo da vida contra este estranho hábito, não tenham dúvidas, eu estava entre elas.
Mas de que me adiantou isso? De nada! A cada nova tentativa, de me afastar, a necessidade de me travestir voltava com mais força e eu não conseguia me dominar.
Acabava por sucumbir de novo e tudo terminava num delicioso e prolongado momento de masturbação e orgasmo.
Esta grande parte da minha vida até me casar. Tive algumas namoradas. Tive a minha iniciação sexual. Senti-me atraído por muitas delas, e tido isso fazia com que ficasse cada vez mais inconformado.
Eu considerava-me um rapaz normal, com toda a minha orientação sexual voltada para as mulheres, e porque é que tinha, de vez em quando, de me tornar uma?
Nunca encontrei uma resposta convincente. Apenas reapareciam mais dúvidas. Será que era um travesti? Era um transexual? Uma bichona? Não sabia, nunca apareceu uma resposta para isso. Sentia-me em depressão por várias vezes e cheguei a pensar em suicídio.
Passei por muitas mudanças mentais na fase da adolescência, tinha medo de revelar o que eu queria.
Acabei por passar por uma fase de homossexualidade e por ter que experimentar o que era ter um namorado homem e ser a sua menina.
Mas também isso não era o que eu procurava.
Depois aconteceu assim um pouco mais depressa do que eu pensava e planeava um namoro, emprego, casamento, e consegui abandonar o hábito por doze anos, mas só eu sei o que passei. Reprimi a minha vontade de forma tão intensa contra mim mesmo que cheguei a sentir-me afetado no meu desempenho em diversas atividades, inclusive sexualmente.
Pensei em fazer terapia, consultei um psiquiatra, psicólogo, mas pelo que tudo aquilo resultou, conclui que pouco ou nada ia adiantar.
Um dia resolvi me soltar um pouco e deixar que a minha mulher visse um pouco de mim. Já estava deprimido e pensava de novo em suicídio e nada tinha a perder.
Uma noite, durante os rituais de acasalamento, vesti as calcinhas que ela tinha acabado de despir e acreditem, foi uma das melhores noites de sexo que tive até hoje.
Foi difícil, para mim, no início convencer a minha mulher a aceitar, mas se algo tivesse dado errado eu já não estava aqui para vos contar tudo isto.
Felizmente depois de algum tempo tudo se começou a resolver e agora posso dizer que vivo bem com os meus dois lados.
Existe uma aceitação por parte dela sem fingimentos, porque a sinceridade reforçou a nossa união.
Pensam que apesar desta tranquilidade eu aceitei passivamente a situação?
Nem por isso! Por diversas vezes eu tentei largar tudo, para surpresa dela.
Eu mandava ela dar todas as minhas roupas a outras pessoas, geralmente ela doava para os asilos.
Mas não passava muito tempo eu recomeçava a comprar tudo novamente.
E esta guerra entre as minhas duas personalidades parece ser eterna.
Não há vencedor ou vencido, existe apenas a certeza de que morrerei assim, porque ser Cd é isto.
Hoje és um machão, amanhã uma linda menina, ser CD é seres homem, é seres mulher e em qualquer das situação seres tu mesmo.
Nada é pré determinado, é a tua vontade que manda, o resto não importa.
O que me consola é que existem milhões de pessoas assim como eu, então viva o CrosseDressing.