114 - Desequilíbrio Hormonal
Cap. 1 - Fechada em casa
Quando estava a tomar o meu pequeno almoço a minha mão disse-me:
- Daniel, acho que já está na hora de cortares o cabelo.
- Mãe, eu cortei o meu cabelo na semana passada.
- Não pode ter sido na semana passada, querido. Já está a tapar os teus ouvidos.
- De jeito nenhum, mãe. Acabei de cortar.
- Não discutas à mesa logo de manhã ao pequeno almoço! Disse seu pai por detrás de um jornal.
Sai a correr de casa para ir para a escola. Na aula de Filosofia a minha voz falhou a meio de uma resposta e creio que toda a turma ficou a rir e também o professor.
Corei mas recuperei a voz rapidamente.
No dia seguinte nada aconteceu, mas na quarta-feira, quando sai do chuveiro o meu peito estava doído, e parecia inchado. Eu sentia a carne solta ao redor dos meus mamilos. Coloquei a impressão para fora da mente, mas na manhã seguinte, sozinho no banheiro, examinei-me ao espelho.
Não só o meu peito estava inchado, mas os mamilos pareciam maiores. Eles pareciam umas pequenas estacas. Os círculos ao redor deles tinham se tornado num castanho profundo e avermelhado e tinham um diâmetro ampliado também.
- Eu tenho cancro. Pensei enquanto sentia gotas de suor a nascer na minha testa. Fiquei tão obcecado que nem me apercebi de que não tinha necessidade de fazer a barba desde à quatro dias.
Escondo os meus medos, vesti-me e corri para a mesa do pequeno almoço.
- Daniel, eu não te disse para ires cortar o cabelo na segunda-feira. Disse a minha mãe irritada.
- Eu já te disse, mãe, fui ao shopping na semana passada, e cortei lá.
- Vem comigo agora.
Ela levou-me para o WC e disse:
- Não pode ter sido na semana passada, querido. Olha, está muito além do teu colarinho.
Um nó cresceu-me na garganta, mas ainda consegui gritar:
- Ok. Ok.
Faltei ao ginásio nesse dia e fui para a biblioteca da escola. Passei uma hora debruçado sobre uma enciclopédia médica, e não consegui encontrar nada que explicasse o inchaço no meu peito.
- Isso deve ser algum tipo de papeira estranha. Pensei.
Depois da escola, encontrei o meu colega da equipe de natação Jim no corredor.
- Não vens para o treino comigo? Perguntou-me ele. Ficou vermelho quando respondi.
- Não, eu não posso hoje.
- Por que não?
- Eu tenho que ir cortar o cabelo.
- Essa desculpa é meio esfarrapada. O treinador vai ficar chateado. Tu estás bem? Não parece estares bem.
- Eu estou bem. Disse, caminhando em direção ao meu cacifo.
- Olha acho que ganhaste um pouco de peso na tua traseira, meu.
Instintivamente levei as mãos às nádegas e ouvi a risada de Jim ecoar pelo corredor. Jim estava certo, pensei:
- Tudo no meu corpo está a mudar.
Caminhei para casa, tão absorto a reflectir sobre o que se estava a passar na contemplação que quando a minha namorada Débora me chamou, continuei a andar.
- Ei, tu não me ouves?
- O que, oh, Oi.
- Está alguma coisa errada Daniel?
- Não, nada está errado, disse, numa voz meio esganiçada.
- Tens feito muito isto ultimamente. Eu pensei que a tua voz já tinha mudado.
- Olha, não há nada está errado, ok. Mas assim que proferi a última sílaba a voz rachou novamente e a Débora teve que reprimir uma risada. Vi um olhar em seus olhos meio escárnio, meio zombaria.
- Olha, eu tenho que ir cortar o cabelo agora. Amanhã te vejo. Disse tentando não deixar a voz falhar novamente.
- Claro. Liga. Tchau.
Corri em direção ao shopping.
Quando finalmente cheguei a casa, corri para o banheiro e tirei a camisola.
Passei as mãos pelo peito. A carne macia estava saída para a frente uns 3 cm. Os mamilos estavam maiores e as auréolas agora tinham 6 cm de diâmetro e estavam de um tom castanho avermelhado.
Senti que nunca poderia voltar para a equipe de natação. Assim não.
Fiquei parado por um momento perguntando-me se devia contar aos meus pais quando reparei no cabelo. Tinha acabado de o cortar e estava a chegar às orelhas novamente.
- É alguma coisa de glândulas. Pensei. Eu tenho uma doença das glândulas. Então reparei na barba, ou melhor, lembrei-me que a barba não crescia há uma semana. Na verdade, as bochechas estavam desprovidas até mesmo da penugem alourada que crescia entre os dias de barbear.
Em vez disso, as bochechas estavam lisas e rosadas. Corri para o meu quarto. Ao jantar, vesti uma camisola volumosa para esconder o peito inchado. Ninguém parecia estar a perceber o que se passava e depois do jantar foi o meu quarto e fechei a porta. Por volta das nove a minha mãe bateu para dizer boa noite. Sentei-me na minha mesa fingindo que estudava.
- Tudo bem, querido?
- Sim, claro. Por quê?
- Nenhuma razão. Olha, prometes cortar o cabelo amanhã? Disse enquanto fechava a porta.
No dia seguinte, na escola, a voz falhou tantas vezes que deixei de falar por completo.
A caminho de casa, Débora sabia que algo estava errado.
- Qual é o problema contigo ultimamente, Daniel? Estás tão mal-humorado e estranho.
- Não há problema, ok? Eu só tenho estado a estudar muito. Mas a voz falhou no meio da frase e ficou novamente esganiçada, num registro mais agudo.
- A tua voz está a ficar mais alta? Achei que deveria ficar mais baixa.
- Débora, posso te dizer uma coisa?
- Claro, Daniel. O que é?
Deixei escapar todas as estranhas mudanças que estavam a ocorrer no meu corpo.
- Eu quero ver. Disse ela. Corremos para a casa dela e a Débora levou-me pela escadaria até ao seu quarto.
Quando nos certificamos que estávamos sozinhos no seu quarto, ela disse:
- Bem, tira a tua camisola fora.
- Prometes que não vais rir. Disse eu.
- Eu não vou. Apenas tira a tua camisola e mostra.
Tirei a camisola lentamente e, em de seguida, tirei a t-shirt. Não conseguia olhar para ela. Ela não disse nada, mas o seu silêncio falou muito.
- O que há de errado comigo, Débora?
Os seus olhos estavam viajando do meu peito até à cintura.
- Daniel, tira as tuas calças também.
- Por que?
- Apenas faz isso, ok.
Tirei os ténis e deixei cair os jeans. A Débora engasgou.
- Oh meu Deus.
- O quê? O que é? Gritei.
- O teu, uh, teu traseiro.
- E quanto a isso?
- Está maior também! Disse ele hesitante.
- Olha! ela disse, abrindo a porta do seu armário e apontando para o espelho de corpo inteiro.
Olhei por cima do ombro para o espelho e pela primeira vez todas as peças do quebra-cabeça encaixaram.
Os meus boxers estavam esticados firmemente sob o meu traseiro e eu soube instantaneamente por que nenhuma das minhas calças me serviam mais. A cintura também estava mais estreita.
- Tu pareces meio. . . como uma . . .
- Como uma o quê? A voz soou mais aguda de novo.
- Como uma menina.
- O que queres dizer?
- Quero dizer, o teu corpo parece... bem, mais redondo e macio.
Disse ela apontando para a virilha de Daniel.
- É o mesmo. Se alguma coisa é, é apenas maior. Disse eu suavemente.
- Isso é interessante. Disse a Débora com um sorriso malicioso, mas eu estava muito perturbado para responder.
- O que está acontecendo comigo, Débora? Disse enquanto vestia as roupas.
- Eu não sei, mas é muito estranho. Disse ela, percebendo pela primeira vez quão apertados eram os meus jeans.
Nos dias seguintes, desenvolvi estratégias para esconder as mudanças no meu corpo. Penteava o cabelo para trás com gel e usei camisolas e calças maiores. Vesti dois pares de meias para os pés mais delicados se encaixarem nos sapatos e parei de falar, exceto por monossílabos rigidamente controlados para responder. Tentei manter as emoções sob controle, mas sempre que estava sozinho, chorei incontrolavelmente. À noite ia ao banheiro e tirava todas as minhas roupas, examinava o meu corpo para ver se havia algum recuo dos sintomas. Mas não havia nenhum.
O cabelo agora caía logo abaixo dos ombros. Amarrá-lo num rabo de cavalo ajudou, mas não era apenas mais longo, era mais grosso. Não parecia um menino de rabo de cavalo.
O rosto também estava a mudar. A barba tinha parado de crescer, e agora as feições pareciam estar a ficar mais suaves. A linha do maxilar parecia redesenhada e os lábios estavam mais cheios.
Até as pestanas pareciam mais escuras, mais longas.
Anotei cada alteração com medo crescente.
O meu pénis, por outro lado, era a única parte da minha masculinidade que não estava em retirada.
Em vez disso, parecia ser um resistente contra o ataque de mudanças femininas, competindo com os meus seios no crescimento rápido.
Todas as manhãs preparava-me para a escola com uma atenção cada vez mais sofisticada. Tinha um conjunto de rituais destinados a esconder a forma, a figura, o rosto mas sabia que os esforços estavam tendo cada vez menos sucesso.
Um dia, um professor substituto na aula de inglês estava a fazer a chamada e quando chegou ao seu nome disse:
- Daniela Johnson. Disse-o olhando para mim. Ninguém sequer deu uma risadinha e eu sentei-me numa mortificação silenciosa.
Tinha evitado a Débora por uns dias, mas no caminho para casa ela alcançou-me.
- Oi, Daniel.
- Oi. Disse, a voz num sussurro ofegante.
- Como é que estás?
- Ok, acho. Estava a lutar contra as lágrimas.
- Eu gosto do teu cabelo assim.
Ele ficou em silêncio.
- Daniel?
- Sim.
- Talvez esteja na hora de dizeres aos teus pais.
- Digo a eles o quê? Que estou a transformar-me numa rapariga?
- Não! Disse ela. Dizes que... dizes que há algo de errado com as tuas glândulas ou algo assim. Não sei.
- Está ficando pior. Não consigo abotoar as minhas calças até o fim. Corto o meu cabelo todas as noites e de manhã é mais comprido e grosso do que nunca. Esta manhã eu tive que apertar o meu . . . peito para que ele não aparecessem. Tive que sair da equipa de natação. . .-
Débora estendeu-me a mão para me segurar, mas eu afastei-me. Não queria ninguém a tocar em mim. Não queria que ela sentisse o quão suave a minha pele estava.
Naquela noite, quando a minha mãe veio dizer-me boa noite, ergui os olhos do meu livro, e os olhos brilhavam.
- Tu estás a chorar, Daniel? O que há de errado, querido?
- Mãe, eu estou... uh. Mãe?
- O que é isso, bebé?
- Algo de estranho está a acontecer com o meu corpo. Quebrei e desabafei toda a história incrível. Ela pediu que eu tirasse o pijama.
Assim fiz e um olhar de pânico cruzou o seu rosto.
- Bebé, oh, querido, tudo vai ficar bem. De manhã, eu vou levar-te ao Dr. Oliveira e vamos descobrir o que está a acontecer. OK?
- Não contes ao pai.
- Por que não?
- Eu não sei. Só não contes. Ok?
- Tudo bem, querido. Por enquanto. Até vermos o que o Dr. Oliveira tem a dizer.
No dia seguinte, Eu e a minha mãe esperamos em silêncio na sala do consultório.
Finalmente, uma enfermeira surgiu e acenou-me. Vendo o medo em meus olhos disse:
- O seu primeiro exame é sempre o mais difícil, disse ela, tranquilizadora.
Ela levou-me para uma sala de consultas.
- É só você tirar as suas roupas, Daniela, e sentar-se aqui, o médico chega em breve.
Fiquei a olhar para os meus pés e disse:
- Você pode pedir à minha mãe para ela entrar também?
A enfermeira hesitou, percebeu o meu medo e disse:
- Claro.
Despi-me, cobrindo as partes íntimas com a t-shirt e sentei-me na marquesa do exame. Tentei não notar o meu peito, mas era
impossível. Eles eram tão grandes, pensei. Por que eles tinham que ser tão grandes?
O médico e a minha mãe entraram.
- Agora, menina, qual é o problema?
- O problema, Dr. Oliveira, é que este é o meu filho, disse a minha mãe.
Uma hora depois, eu e a minha mãe voltávamos para casa em silêncio, quando ela finalmente falou.
- Eu tenho que dizer ao teu pai.
- Por que?
- Porque ele tem que saber.
- Mas por que, mãe?
- Porque ele vai descobrir.
- Não, ele não vai. Eu vou esconder. Eu escondi até agora.
- Tu não vais esconder porque não podes mais esconder, Daniel.
- O que você quer dizer?
- Quero dizer, que para o curto prazo, até descobrirmos o que está acontecendo, eu
quer que você comece. . .
- Comece a quê, mãe?
- E vestir outro tipo de roupas.
- Não! Eu não vou fazer isso! Eu nunca vou fazer isso! Gritei num tom de voz soprano desconhecido para mim.
- Daniel, olha para ai mesmo. As tuas roupas não te servem. Tu não podes esconder o teu ….. peito. Tu és … tens uns seios 36 C. Disse ela enquanto as lágrimas começavam a cair pela face. - E tu não pareces…
- Um menino?
- Sim, tu não. Não agora. Assim que descobrirmos isso, vamos voltar. Tu vais voltar. Eu prometo.
- Não, mãe. Eu não posso fazer isso. Todo o mundo vai perceber.
- Querido, eu sei que é difícil, mas não tens que voltar para a escola. Levaremos algum tempo. Hora de ajustar. Hora de descobrir tudo.
- Mas mãe, um dia eu vou ter que voltar e quando eu voltar todo mundo vai olhar para mim. Eles vão rir de mim.
- Querido, eles já estão a olhar.
Quando o carro parou na entrada de casa, eu saltei e corri para o meu quarto e tranquei a porta. Quando o meu pai chegou a casa, podia ouvir a discussão.
Palavras duras de descrença e depois o bater de pés subindo as escadas.
- Daniel, eu quero falar contigo.
Tirou a camisa e coloquei-a na cama.
- Daniel, abre a porta, por favor.
Puxei as calças para baixo até às coxas e sai delas.
- Agora mesmo, Daniel.
Tirei o elástico do cabelo e balancei a cabeça.
Então destranquei a porta.
- Meu Deus!
- Pai, o que está acontecendo comigo? Chorei.
A mãe apareceu na porta atrás do meu pai, e correu para mim.
- Oh, meu pobre bebé. Disse ela, embalando-me nos seus braços.
Quinze minutos depois, quando as lágrimas vieram e foram e voltaram o meu pai disse:
- A tua mãe tem um plano. Ela acha que você deveria....
- Não!
- Daniel, é melhor assim. Por enquanto. Por este período. Assim que acabar, vamos voltar a ser como as coisas eram.
- Pai, não me deixe fazer isso!
- Daniel. A voz do meu pai também falhava. Tens que tentar e é isso.
- Vai para a cama agora e vemos se não te sentes diferente pela manhã.
Eles me deixaram sozinho e depois de três horas a olhar para o teto finalmente cai num sono perturbado.
Por três dias, fiquei no meu quarto. A minha mãe trouxe as refeições em silêncio e fiquei na cama, pensei e dormi. Às vezes, flutuava em sonhos estranhos e acordava enrolado no meu cabelo ruivo.
O meu corpo doía das mudanças e dormi muito. Usava a casa de banho apenas quando ninguém estava no piso de cima.
Um roupão velho e áspero era a única coisa que usava. Evitei a minha imagem nos espelhos.
As mudanças continuaram a transformar o meu corpo.
Não amarrei, com um elástico, o meu cabelo, e ele caiu para frente e rodeou o meu rosto como folhas de um videira florescente.
Parei de dormir de bruços porque machucava o peito e as costas doíam com o peso do novo peito.
Às vezes deitava-me na cama e passava as mãos para cima e para baixo nas laterais do corpo, sentindo os seus contornos, a suavidade, as colinas e vales frescos que cresciam durante a noite. Evitei tocar o peito porque isso era muito doloroso, tanto no toque quanto na minha psique confusa.
Quando o roupão irritou os meus mamilos, vesti uma camisola, mas descobri que o balançar dos seios sob o tecido esticado apenas direcionava a minha atenção para o seu tamanho alargado.
Os boxers foram lançados para o caixote por razões semelhantes. As calças estavam fora da equação. E voltei a vestir o roupão.
Às vezes os meus pais apareciam e tentavam falar comigo, mas permaneci firme no meu silêncio e depois de uns momentos eles iam embora.
Apenas ficavam o tempo suficiente para eu comer.