140 - E de repente “Teresa”
Capítulo 3
Ele beijou-me e eu entreguei-me todo naquele beijo. Virei-me de frente e abracei-o como uma menina faria, segurando o seu rosto e aproximando-o do meu. Senti a língua dele na minha boca, senti o seu abraço firme, senti as suas mãos acariciando o meu corpo e apertando o meu rabinho. E eu gostei. Não sei explicar, eu não devia gostar, mas não posso negar, eu adorei cada segundo daquele beijo.
Só que quando acabamos o beijo, eu comecei a chorar. Havia muita confusão dentro de mim. Sentia muita vergonha e ao mesmo tempo desejo, misturado com uma sensação de culpa de ter gostado de beijar um homem, de ter aquele corpo másculo junto ao meu, dominando-me, subjugando-me, desejando-me daquele jeito e tratando-me como menina.
- Teresa, minha linda, que beijo tão bom!
Aquela forma de ele falar comigo só piorou o meu conflito. Eu queria beijar mais, queria aquele abraço, aquelas mãos em mim, mas aquilo era tão errado! Afastei-me, virei-me de costas para ele. Ele abraçou-me carinhosamente por trás de novo, e eu senti o seu pau duro roçando nas minhas nádegas. Assustei-me e fugi a correr para a casa de banho onde me tranquei.
Precisava de colocar as minhas ideias em ordem.
Ele deixou-me, ou pelo menos não insistiu, não disse nada. Acho que saiu do quarto. Fiquei na casa de banho um bom tempo. Sentado na sanita, via-me ao espelho de vestido. Eu tinha acabado de beijar um homem na boca, o primeiro homem da minha vida. Sentia uma mistura louca de sentimentos. Não podia negar que tinha gostado, mas sabia que não podia e nem devia gostar. Eu devia estar a sentir raiva! Estava a ser forçado a fazer coisas que nunca tinha feito, devia resistir, fazer alguma coisa! Mas não tinha nem ideia do que fazer. Não sabia como fugir, estava tudo trancado. Não sabia como lutar, ele era mais forte. E para piorar, eu tinha gostado.
Lavei a cara e recompus-me. Olhei-me ao espelho da casa de banho e vi um homem de vestido. Senti-me feio e ridículo, o rosto e o cabelo não tinham nada a ver com aquelas roupas tão lindas. Que diabos aquele homem tinha visto em mim? Por que não procurava uma mulher de verdade? Como podia preferir um homem de vestido? E por que tinha eu me entregado tão rápido, tão fácil? Que eu não pudesse sair do apartamento ou resistir às imposições dele, tudo bem, mas de aí a pedir para ser beijado por ele havia uma grande distância, não é?
Que diabos está a acontecer comigo? Interroguei-me. Fiquei com raiva de mim. Com vontade de tirar todas aquelas roupas, e tirei. Vi-me nu, era o corpo de um homem. Por que é que aquele maluco me queria como mulher? Havia tanta mulher bonita por aí para usar aquele vestido!
Não podia sair dali nu porque ele tinha mandado eu me vestir, e o que faria se eu desobedecesse? Podia me bater, e eu não queria apanhar. Resolvi continuar com a estratégia de não lutar. Coloquei as calcinhas, o sutiã, os dois peitinhos e depois o vestido. Tive trabalho para correr o fecho nas costas. Como é que as mulheres fecham essas coisas tão fácil? Contorci-me todo mas consegui. E saí da casa de banho, pois não podia ficar o resto do dia fechado ali. Encontrei umas sandálias rasteiras brancas com flores ao lado da cama, acho que ele as colocou para eu as ver ali, não estavam ali antes. Calcei-as. Achei-as bonitinhas. Fui para a sala.
Ele estava a ler o jornal. Quando me viu, ele disse naturalmente:
- Teresa, fazes um café para nós os dois? Estou com fome, tu não estás?
Eu estava com fome e deixei acontecer. Não ia resistir, era melhor fazer o jogo todo. Perdido por cem, perdido por mil.
- Faço. Gostas dele forte? Queres com açúcar? Ajuda-me, onde estão as chávenas e as coisas todas?
- A cozinha é aí mesmo, as chávenas estão no armário de cima, mantimentos na estante, ali o frigorífico ... vais encontrar tudo fácil. Aproveita para conheceres melhor a tua casa nova.
Fiz o café. Arranjei a mesa da sala para nós os dois. Sentamo-nos frente a frente. Comi quieto. Eu não sabia o que dizer. Cada vez que olhava para ele era uma confusão por dentro de mim. Eu beijei aquele homem! Deixei ele me acariciar todo como se eu fosse uma menina! E agora eu estou aqui, de calcinhas, sutiã e vestido, sentado em frente dele como se fosse a sua namorada. Fiz café para ele! Que loucura é esta? Como é que eu vou sair disto?
Ele acabou o café e disse:
- Teresa, daqui a pouco chega a Dona Marlene, a mulher a dias. Eu vou sair para ir trabalhar. Tu vais ficar aqui com ela até eu voltar.
Deu-me um desespero, mais uma pessoa para me ver todo vestido de mulher. Que vergonha! Com que cara eu olharia para essa Marlene? Pedi de novo para ele me deixar ir embora. Quem sabe se aquela loucura já podia terminar!
- De jeito nenhum, minha linda. Tu daqui não sais, já disse, tu agora és minha. Ainda mais depois daquele beijo gostoso! Podes parar com essa conversa.
Tentei argumentar, sem sucesso:
- Mas! Eu preciso de ir trabalhar! Eu tenho uma vida, sabes?
- Teresa, não me importa a vida que tinhas antes, não existe mais. Nada mais será como antes. Daqui a uns dias ligas a avisar que não vai mais, ou melhor, abandonas o emprego! Tu não precisas desse emprego. Tu agora és a minha menina e mulher, e não precisas de trabalhar.
Nisso chegou a dona Marlene. E eu não tinha para onde ir, e fiquei ali, de cabeça baixa. Queria poder sumir! Ele abriu a porta para ela entrar e apresentou-me:
- Marlene, esta é a Teresa, a minha nova namorada.
Ela me olhou toda, claro. Mas para minha surpresa não se incomodou nem um pouco com a minha figura esquisita de homem de vestido. Abriu um sorriso e disse:
- Bom dia, dona Teresa!
Eu respondi, bem envergonhado, um bom dia quase mudo. Não sabia como agir.
Ele tomou a iniciativa.
- Marlene, sei que você já trabalhou num salão de beleza, não foi? Sabe depilar e fazer as unhas?
- Sim, Senhor Renato, na verdade ainda trabalho nisso. Faço os meus biscates. Carrego sempre o meu material na minha bolsa, e tenho tudo aqui. Tenho uma cliente agendada para hoje à tarde para quando sair daqui.
- Por favor, a Teresa precisa de uma depilação total, e também manicure e pedicura. Você pode fazer isso?
- Posso, claro. Dona Teresa, que cor a senhora quer de verniz? Tenho de ver se a tenho aqui.
Cor? Que cor? Sei lá! Unhas pintadas? Depilação completa? Está doido, isso dói! A loucura estava a ficar pior! Como escapar daquilo? Que desespero, o que faço eu agora? Pensei.
A Dona Marlene mostrou-me as opções de verniz. Tinha cor de rosa, vermelho, carmim, vinho. Tinha até azul e preto. Olhei para aquelas cores todas. Não tinha a menor ideia para poder decidir. Nunca me passou pela cabeça pintar as minhas unhas!
Ela disse:
- Acho que esse tom de cor de rosa fica bem na senhora.
Era melhor ela decidir.
- Acha? Pode então ser esse.
Era um tom de rosa médio, nem pink nem pálido, mas claramente rosa. Indisfarçável. Como é que eu ia poder fugir dali com as unhas pintadas de rosa? E de vestido? E de calcinhas e sutiã? E com peitinhos! Eu não podia sair à rua assim! A coisa avançava sem parar e eu não fazia a menor ideia de como ia escapar daquela loucura.
Ele saiu e deixou-nos trancadas no apartamento. Ouvi perfeitamente quando trancou a porta pelo lado de fora. Se uma de nós passasse mal ou tivesse uma emergência nem sei o que podíamos fazer. Mas a Dona Marlene não pareceu ficar incomodada com a porta trancada.
E mostrou que preferia começar por tratar de mim, e deixar para depois fazer a lide da casa.
- Dona Teresa, vamos tratar da depilação?
Engraçado foi eu não ter sequer a ideia de me recusar. Apenas perguntei:
- Pois, eu nunca me depilei antes! Vai doer?
- Vou usar uma cera especial que alivia um pouco, mas não posso mentir, vai. São as dores de ser mulher, não é?
Ser mulher. Eu? O que eu sabia de ser mulher? Quem disse que eu queria ser mulher? Quem disse que eu queria ter as dores de ser mulher? Mas, apesar daqueles pensamentos, não resisti. Fiquei com vergonha de criar um caso frente à senhora. Ela nada tinha a ver com a história! E estava a tratar de mim muito bem.
Fomos para o meu quarto e ela pediu para eu tirar o vestido. Pedi-lhe ajuda com o fecho e ela abriu-o pra mim. Fiquei só de calcinhas e sutiã. Ela viu o meu pauzinho por entre as rendas das calcinhas. E disse:
- Dona Teresa, posso lhe ensinar a vestir as calcinhas de um modo mais feminino? Vão ficar mais bonitas, com a frente lisa, parecendo muito mais uma mulher, quer ver?
- Quero!
Ai, sou eu mesmo a responder, que quero aprender a usar as calcinhas de modo mais feminino? Mas o que é isto? Que coisa louca é esta? Eu não queria admitir, mas já estava a gostar de toda aquela coisa feminina.
Ela ensinou-me então a esconder as bolas dentro do corpo, a colocar o pauzinho para trás e a prender tudo no lugar com as calcinhas. Fiz como ela me orientou, olhei-me no espelho e nem acreditei, onde estava tudo? Eu estava liso mesmo, nada por ali por baixo! Tinha desaparecido o meu pauzinho e as minhas bolas! E a calcinhas ficaram muito mais bonitas no meu corpo, só com um subtil volume lá embaixo.
Empinei as nádegas para ver ao espelho e gostei do resultado! Disse:
- Dona Marlene, ficou muito melhor mesmo! Gosto! Muito obrigado!
Fomos para a depilação. Foi doloroso. Muito doloroso. Mas no fim da tortura, eu estava com o corpo todo liso. Sentia-me mais bonita de calcinhas e sutiã depois de depilada. Coloquei o vestido de novo e fomos tratar das unhas. A Dona Marlene era boa nisso. Fez os meus pés e mãos com a rapidez e suavidade de uma profissional experiente. Mas não deixou de me criticar:
- Dona Teresa, como deixou as suas unhas ficarem tão feias? Eu vou fazer o possível, mas só vão ficar bonitas daqui umas duas ou três semanas, quando as suas unhas estiverem maiores.
Querem saber? Eu achei que ficaram bem logo da primeira vez. As minhas unhas estavam todas cor de rosa, pés e mãos. No final eu estava ali na frente dela de calcinhas e sutiã de rendas, vestido plissado, toda depilada e com as unhas feitas. Eu não sabia explicar, mas estava a gostar desta coisa de ser menina.
A Marlene era uma simpatia. Adorei-a. Acho que ela estava a gostar de tudo também. Perguntou-me se me podia ensinar um pouco de maquiagem. E eu aceitei! Eu não me reconhecia mais. Mas não havia sentido em eu me ver naquela roupa linda, depilada e com unhas pintadas, e com aquele rosto masculino e feio. E já que estava à chuva era melhor eu me molhar a sério. Eu agora queria parecer-me mais com uma menina.
Ela ensinou-me a colocar a base, para disfarçar as imperfeições. Um pouco de sombra leve, um pouco de delineador. Um batom rosa da cor do verniz. Eu estava tão fascinada pelo meu novo look feminino que a deixei arranjar as minhas sobrancelhas e ainda arranjar um pouco o meu cabelo. Infelizmente ele não estava comprido, mas ela cortou a franja num estilo feminino e deu uns pequenos toques. Não ficou um penteado muito feminino, mas não era mais um corte masculino. Melhor que antes, mais coerente com o todo que aparecia na minha frente no espelho.
Passamos o dia a arrumar a casa. Mas ela não me deixou ajudar muito, pois dizia que eu ia estragar as unhas recém feitas. Fiquei a ver um pouco de TV, programas femininos. Moda, culinária, comportamento.
Eram umas 4 horas da tarde quando ele chegou. Eu e a Marlene estávamos a tomar um café, o serviço dela todo pronto. Ele entrou e viu-me maquiada, com o cabelo cortado e penteado, unhas feitas. Pelo sorriso, gostou.
- Teresa, tu estás linda! Que bom que aproveitaste bem o dia com a Dona Marlene! Vem cá dar-me um beijo!
E eu fui! Por deus, que loucura. E fui imediatamente, sem hesitar um momento que fosse. Beijei-o na boca na frente de Marlene, um beijo bem gostoso. Borrei-o todo com o meu batom. Ele gostou, claro.
- Marlene, obrigado por tudo! Depois acertamos as contas. Você volta na 5ª feira, certo?
Ela só acenou a concordar e dirigiu-se para a porta. Disse-me:
- Adeus Dona Teresa, até 5ª feira!
Fui até ela, dei um beijinho no rosto e agradeci por tudo. E abri a porta para ela sair. Mas mesmo naquele momento estava um casal no corredor do prédio. Eles viram-me ali, todo vestido de menina, dos pés à cabeça. Que arrependimento me deu. Para que eu fui abrir a porta!?
- Boa tarde! Disseram eles.
Eu tive que responder, boa tarde. Tentei fazer uma voz feminina, falei baixinho. Fiquei muito envergonhado. Fechei a porta, achei que ia chorar. Voltava aquela confusão toda de novo. Depois de um dia inteiro a viver numa linda fantasia no feminino, lembrava-me que eu era nada mais que um homem de vestido.
Ele salvou-me da confusão. Abraçou-me e eu senti-me bem no seu abraço. Havia algo naquele homem que me fazia sentir muito menina! Naquele abraço sentia-me protegida, desejada, querida. Sentia-me bem. Beijei-o. Como ele beija bem! Perco-me naqueles beijos! E as mãos a acariciarem-me? Era tão bom!
Ele perguntou como tinha sido o meu dia. Eu contei-lhe tudo, excitada como uma adolescente com o seu namorado. Contei-lhe da depilação, das unhas, da aula de maquiagem. Contei-lhe que a Marlene me ensinou a colocar as calcinhas direito. Ele quis ver. Eu não deixei, ia mostrar as minhas calcinhas assim? Mas não adiantou.
Ele segurou-me por trás e foi com a mão direta até lá. Que loucura! Aquele homem a apalpar-me daquele jeito, forte, másculo, dominante! Eu já estava muito excitada! Beijei-o de novo. Foi demorado, com a língua. E pela primeira vez, senti que tinha de tomar a iniciativa. Levei a minha mão ao pau dele... Estava duríssimo, parecia pulsar. E eu queria. Queria muito!