183 - O Passeio a Lisboa
No relógio da mesa de cabeceira apareceram as 07:30 da manhã.
Nem foi preciso despertador, como no resto dos dias.
Desta vez eu já tinha acordado à algum tempo.
É quinta-feira e é hoje o dia combinado para ir a Lisboa.
Já lá fui muitas vezes em trabalho ou em passeio.
Mas hoje eu sabia que ia ser um dia especial.
Por todas as redes sociais, principalmente pelo facebook, há muitos anos que procurava pessoas que fossem como eu. Eu queria saber se não era eu o único a gostar de roupas e sapatos femininos.
É que desde novinho, sempre tive este fraquinho, reprimido e escondido, vivido em segredo e isolado.
Por vezes adiava os meus desejos, sempre na esperança de os esquecer, mas eles voltavam.
Agora finalmente depois de vários oportunidades que eu não consegui aproveitar apareceu uma janelinha que eu resolvi espreitar e agarrar.
Uma amiga de Lisboa, muito mais avançada nestas coisas de Crossdresser, abriu a tal janelinha para me tirar duvidas e limpar as teias de aranha que sempre tive na cabeça sobre a vontade de ser uma menina, com tudo o que isso implica.
E por isso esta quinta-feira e esta viagem a Lisboa são tão fora do normal.
Quando a Cristina me falou do clube de meninas CrossDresser que fundou em Lisboa, falou-me de toda a estrutura de apoio que conseguiram montar.
A mim interessava-me principalmente uma loja onde podemos comprar sem vergonhas uma cabeleira, onde nos ensinam
a colocar uma, a tratar da sua limpeza, como a guardar, pentear, etc.
Outra loja onde podemos comprar maquiagem e ter uma especialista a dar-nos os conselhos de como a utilizar correctamente.
A ideia ficou-me a martelar na cabeça, porque nunca me atrevi a comprar mais do que umas pobres cabeleiras de carnaval, que apenas nos deixam tristes com o aspeto que nos dão.
Foi por tudo isso que esta quinta-feira a Cristina marcou uma visita comigo à loja de cabeleiras e eu tive que perder a vergonha e assumir o que gosto à frente de gente real.
Depois foi a vez de irmos comprar um pouco de maquiagem e de estar uma boa meia hora a ouvir uma data de
conselhos sobre qual eu devia comprar e quais as cores que devia usar em cada ocasião.
No fim a Cristina ainda foi uma querida e levou-me até às instalações do clube.
Mas que delicia de local.
Um bairro calmo e sem o barulho da cidade, um prédio simples e um espaço que tem todo o aspecto de ser um escritório.
Por dentro duas salas grandes.
Uma sala de estar e outra sala com um vestiário, cacifos para os pertences de cada menina CD, mesas de maquiagem e um grande espelho para nos vermos todas produzidas.
Enfim um paraíso.
Lá dentro a Cristina ajudou-me na minha transformação e também ela mudou o seu visual.
As duas deixámos de ser dois respeitosos senhores que tinham entrado para o escritório a fim de tratar de uns negócios para passar-mos a ser duas senhoras que saíram para dar o seu passeio de fim de tarde.
Fomos até à zona da Expo e demos uma volta junto ao rio, num fim de tarde maravilhoso e agradável.
Mal posso deixar de sonhar que a partir de agora vou para Lisboa sempre que tiver uma oportunidade.