Quando coisificamos o outro,
acabamos por petrificar nosso coração.
COISIFICAR significa ver e tratar o outro como coisa. Uma coisa é menos que um ente é objeto de sentido utilitário. Seu valor é relacionado e proporcional à utilidade que ele tem para nós, quase sempre passageiras, provisórias.
Não há outra comparação senão a de um objeto, não há outra relação senão a de uso, quando nossa intenção ou atitude com o outro é apenas a de satisfazer nossa curiosidade ou nossos prazeres narcísicos e hedonistas.
A coisificação se dá por transferência. É quando transferimos do mundo das coisas para o mundo dos sujeitos toda nossa concepção e entendimento acerca do relacionar-se com alguém. Em outros termos: no mundo das coisas, nossa relação é sujeito/objeto, neste mundo o movimento é mantido pela sedução dos objetos que nos faz sentir um falso desejo e uma falsa sensação de realização pessoal, mas que na verdade não passa de uma relação de uso, por isso tão fugaz e aparente, por isso tão superficial e efêmera.
Já no mundo dos sujeitos, nossa relação é do tipo sujeito/sujeito, neste mundo, o movimento é mantido pela troca dos desejos reais, porque diz dos desejos humanos mais universais e internos, de ser para ser, são desejos de cada um, para todos e de todos para cada um . Não é a sedução que impera mas o enamorar que inspira, não é a utilidade dos objetos, mas a necessidade do coração. Por isso, nossa realização pessoal se dá na realização pessoal do outro conosco que, por sua vez, se realiza pessoalmente na nossa realização com ele. Isso é mais que uma troca, é um entregar-se.
A relação com o objeto não é integral, não é interna, ela é externa e unilateral, conquanto da superfície, e o que é da superfície não é outra coisa senão superficial. É quando não distinguimos estas relações é que fazemos a transferência, é justa esta planificação do nosso agir e sentir pelo outro, segundo o modelo determinado pelo mundo dos objetos, que nos faz transformar este outro ser, em coisa.
Pelo medo de nos despir internamente para o outro, ou pela mais pura ignorância, acabamos por esconder de todos, toda nossa capacidade de integrar e nos tornamos indisponíveis ao encontro.
Presos aos nossos sentimentos individuais, por medo do outro, vamos tentando fugir deste cárcere de pedras enquanto petrificamos nosso coração.
Março, de 2000
Westerley