Alcino Lagares Côrtes Costa*
A humanidade encontra-se assustada: a mutação de um vírus ceifa milhares de vidas e evidencia que a circunstância de alguém ser elevado à condição de “rei” não lhe confere sabedoria.
Eis a motivação para o texto que se segue.
“Platão” (Arístocles, 427 - 347 a.C.), foi o principal discípulo de Sócrates e, por nunca se ter conformado com a injusta condenação dele à morte, através de um inigualável estilo literário (“dialética dialógica”), utilizou-o como principal personagem e se tornou um com ele, sendo impossível distinguir em suas composições literárias o que pensara seu mestre do que ele própria pensava.
O cenário da obra “A República” é a casa de Céfalo (um amigo de Sócrates), na qual se inicia uma discussão, cujo tema central é “a justiça”.
A obra é organizada em dez “livros” (ou capítulos), nos quais Platão conduz nosso pensamento para a necessidade de construção de uma sociedade justa através da formação de homens justos: “tais homens, tal Estado”.
É maior, portanto, a ênfase dada pelo autor à necessidade de aprimoramento do processo de socialização do homem grego (“Paidéia”) do que a uma teoria política propriamente dita, embora o livro seja tão importante nesse sentido, que se tornou referência para elaboração de praticamente todos os compêndios de Ciência Política do mundo.
Na República, entre lições de elevado conteúdo ético, unem-se o “discurso filosófico” e o “discurso mítico”.
“Mitos” são narrativas _ uma subclasse de contos _, nas quais são utilizados personagens ou imagens de mais fácil compreensão para representar uma situação de mais difícil compreensão. Seu principal componente é o simbolismo.
No período clássico grego, os mitos até contribuíam para a tomada de decisões governamentais e para a formulação das leis.
A “República de Platão” é rica em mitos: o “Anel de Giges”, a “Nau dos amotinados”, a “Alegoria da Caverna” e a “Visão de Er” são alguns deles.
Dentre todos, porém, por sua relação com nosso momento presente, elegi o “Mito dos Metais” para a oportuna reflexão dos leitores. Ei-lo:
“Sócrates: _ Ouve o resto da fábula: na cidade, sois todos irmãos; mas, o deus que vos formou não vos fez iguais: misturou ouro na composição daqueles dentre vós que são capazes de comandar; por isso são os mais preciosos. Misturou prata na composição dos auxiliares e, naqueles que devem ser lavradores e artesãos, ferro e bronze.
Por isso, acima de tudo e principalmente, o deus ordena aos magistrados que atentem ao metal que se encontra misturado à alma das crianças e, se nelas houver mistura de bronze ou ferro, que sejam relegadas para a classe dos artesãos e lavradores; mas, se destes nascer uma criança, cuja alma contenha ouro ou prata, o deus quer que ela seja elevada à categoria de guardião ou à de auxiliar deste, porque um oráculo afirma que a cidade perecerá quando for comandada por um homem em cuja composição estiver o ferro ou o bronze”. (Platão, a República, livro 3).
Caros leitores, é livre a sua interpretação.
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*coronel da reserva e presidente da Academia de Letras João Guimarães Rosa da Polícia Militar de Minas Gerais. E-mail: cellagares@yahoo.com.br