O venezuelano Juan Guaidó foi recebido pelo presidente em Brasília, com direito a discursos da tribuna presidencial. Nessa oportunidade, nosso presidente disse ser o Brasil “culpado” pelo que acontece na Venezuela.
Acredito que sua frase foi antipatriótica e que, dias antes, ele errou também por não ter demitido imediatamente o colombiano naturalizado que ele nomeou Ministro da Educação do Brasil, quando este declarou que os brasileiros são ladrões e canibais.
Eis um artigo _ aberto à livre crítica dos leitores _ sobre o episódio que envolve o sofrimento do povo venezuelano, enquanto seus líderes discursam em palanques para garantir a superioridade de suas vaidades sobre a vida de 31 milhões de seres humanos.
DON’T CRY FOR ME, VENEZUELA
(O BRASIL NÃO É CULPADO)
Alcino Lagares Côrtes Costa*
Num Estado democrático, a política (“arte ou ciência de governar”) deveria proporcionar felicidade ao povo que elege seus governantes; mas, pelo que se vê, o povo que se beneficia da política não é o mesmo que trabalha e paga impostos. É o que discursa em palanques.
Dois indivíduos se declaram, a um só tempo, presidentes da República Bolivariana de Venezuela: Nicolás Maduro e Juan Guaidó!
Os discursos e acusações recíprocas dos dois falastrões dividem o sofrido povo, impedem a liberdade e provocam a morte de inocentes.
Nesse cenário, Maduro e Guaidó se dizem “em defesa do povo”, mas colocam suas vaidades acima da vida de mais de 31 milhões de venezuelanos!
Maduro afirma ter sido reeleito com 68% dos votos válidos em maio de 2018 (e tem reconhecimento da ONU). Guaidó afirma terem sido fraudulentas as eleições, cabendo-lhe o mandato provisório, por ser presidente da assembleia venezuelana (e tem reconhecimento de presidentes de alguns países).
Um dos presidentes que apoiam Guaidó é Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos critica “ditadores” de outros países, mas se comporta como um deles dentro de sua própria casa: contrariando a vontade do povo e o poder legislativo, talvez por sentir saudade do muro de Berlim, quer gastar bilhões de dólares para erigir um gigantesco muro na fronteira com o México.
Em 2003, sob a denominação de “Operação liberdade do Iraque”, tropas dos Estados Unidos invadiram aquele grande produtor de petróleo para apreender “armas químicas”. Até hoje, nenhuma arma apareceu.
A Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo e Trump recomenda ali uma intervenção militar, numa ação que poderia ser denominada “Operação liberdade da Venezuela”. Envia-lhe uns poucos milhões em alimentos sob o disfarce de “ajuda humanitária” ao mesmo tempo em que retém em bancos bilhões de dólares venezuelanos.
Jair Bolsonaro é outro presidente que apoia Guaidó. Recebeu-o em Brasília, com direito a discursos da tribuna presidencial e disse ser o Brasil _ por ação, ou omissão de ex-presidentes (?!) _ “culpado” do que ocorre na Venezuela.
Não. O Brasil não é culpado.
Denomina-se “arbitragem” à alternativa de solução de conflitos pela qual as partes submetem questões litigiosas ao crivo de um tribunal arbitral.
Em 1995, iniciou-se uma guerra entre o Peru e o Equador. Os dois países aceitaram a mediação do conflito. Foram avalistas: Argentina, Brasil, Chile e Estados Unidos. Os combates terminaram, sendo assinadas a “Declaração de Montevidéu” e a “Declaração de Paz do Itamaraty”.
Se o presidente e seu ministro de relações exteriores não tivessem tomado partido de uma das partes conflitantes, o Brasil poderia ter-se proposto, diplomática e amigavelmente, a solucionar a crise instalada na Venezuela. Há _ eliminada a hipótese de intervenção militar, interna ou externa _ duas soluções para o conflito: numa, os dois antagonistas, em transitória relação de igualdade, aceitam a preparação por um país neutro de novas e livres eleições entre eles; noutra (melhor ainda!) os venezuelanos escolhem, em lugar dos dois bufões, um presidente que queira somar e jamais dividir a nação.
Fora Maduro e fora Guaidó!
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*coronel QOR e presidente do Conselho Superior da Academia de Letras João Guimarães Rosa da Polícia Militar de Minas Gerais. E-mail: cellagares@yahoo.com.br
Publicado no jornal "O Tempo" em 02/05/2019