Alcino Lagares Côrtes Costa*
Devo fazer uma homenagem, ainda que singela, aos bibliotecários brasileiros porque tenho a honra de me encontrar na presidência da Academia de Letras João Guimarães Rosa da Polícia Militar de Minas Gerais e esta é uma academia singular; pois, é no Sodalício Rosiano que se encontram o livro e a espada.
É neste lugar que os versos de Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871) podem ganhar vida outra vez:
“Duas grandezas neste instante cruzam-se!
Duas realezas hoje aqui se abraçam!...
Uma — é um livro laureado em luzes...
Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam.
Nem cora o livro de ombrear co'o sabre...
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão...”
O dia 12 de março é dedicado ao “bibliotecário brasileiro”.
Para falar sobre este dia, preciso mencionar cinco pessoas: João Batista de Oliveira Figueiredo (1918-1999, general e presidente do Brasil); Manuel Bastos Tigre (1882-1957, engenheiro, jornalista, poeta e bibliotecário); Ary Braz Lopes (1927-1995, coronel da PMMG, escritor e fundador da Academia de Letras da Polícia Militar); João Guimarães Rosa (1908-1967, capitão-médico da Polícia Militar, escritor e diplomata) e Geraldo Walter da Cunha (1918- 1957, capitão da PMMG, escritor).
Figueiredo foi último presidente no período de governo militar no Brasil. Embora nunca tenha propriamente convivido com ele, quando eu era capitão e chefiava a segurança pessoal do governador do Estado (Dr. Francelino Pereira) entre 1979 e 1983, estivemos juntos nalgumas ocasiões em que ele veio a Minas Gerais e nas quais sempre se mostrou simpático.
Foi no governo de Figueiredo (quando havia apenas dois partidos, ARENA e MDB) que a nação brasileira se abriu para o pluripartidarismo político; que foram sancionadas a Lei de Anistia e a Lei de Execução Penal (esta com os regimes de progressão das penas privativas de liberdade), que foi permitida a eleição direta para governadores e pôde ser realizado o movimento “Diretas já”.
Mas _ eis a razão de o estarmos citando _ a data (12 de março), a ser comemorada em homenagem aos bibliotecários brasileiros, também foi instituída pelo presidente e general João Figueiredo, através do Decreto 84.631 (assinado em 09 de abril de 1980).
Alguém poderia perguntar: por que 12 de março?
Eis a explicação: 12 de março é a data de nascimento do escritor, Manuel Bastos Tigre. Esse poeta pernambucano, num período em que esteve nos EUA conheceu Melvil Dewey (1851-1931), o autor do sistema que recebeu o nome “Classificação Decimal de Dewey (CDD)”, através do qual passaram a ser elaboradas as fichas catalográficas.
Bastos Tigre era formado em engenharia; mas considerou tão importante o encontro com Dewey, que decidiu deixar a engenharia para dedicar-se à biblioteconomia.
Em 1915, classificou-se em primeiro lugar em concurso para o Museu Nacional do Rio de Janeiro, tornando-se o primeiro bibliotecário concursado do Brasil. Posteriormente, trabalhou na Biblioteca Nacional e na Biblioteca Central da Universidade do Brasil.
O coronel Ary Braz Lopes imaginou, em 1995, uma biblioteca a ser instalada no Clube dos Oficiais, cujo acervo seria constituído de obras de escritores militares mineiros. A ideia evoluiu em reunião com o então presidente do COPM, coronel Edgar Soares, para a criação de uma Academia de Letras da Polícia Militar. Foi assim que, em 21 de agosto de 1995 foi fundada esta Academia de Letras João Guimarães Rosa, cuja instalação se deu no dia 5 de outubro do mesmo ano.
O sodalício permaneceu sem sede própria até que, sete anos após sua fundação, no dia 27 de dezembro de 2002, foi inaugurado o silogeu da academia nas instalações do antigo “Corpo-da-Guarda do Departamento de Instrução” e, somente então, pudemos iniciar a instalação da sonhada biblioteca de Ary Braz Lopes.
O patrono-príncipe que ornamenta sua cadeira número um é o capitão-médico da Polícia Militar, João Guimarães Rosa.
Em 1952, o grande João Guimarães Rosa _ médico, oficial da Polícia Militar, poliglota e romancista _ percorreu cerca de 240 quilômetros no sertão mineiro, conduzindo uma boiada e colhendo expressões regionais.
Durante os quatro anos seguintes escreveu aquela que é considerada, se não a mais importante, uma das mais importantes obras da literatura brasileira, o romance “Grande sertão: veredas”, publicando-o em 1956.
Em 1961, Guimarães Rosa recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis. Foi eleito, em 1963, para a Academia Brasileira de Letras, na qual foi empossado em 16 de novembro de 1967 e, três dias após, “encantou”.
GERALDO WALTER DA CUNHA (patrono da cadeira 8, que tenho a honra de ocupar), nasceu em 6 de fevereiro de 1918 em Visconde do Rio Branco, Minas Gerais (cidade que hoje abriga uma rua com seu nome: “Rua capitão Geraldo Walter da Cunha”).
“Sentou praça” no 2.º Batalhão de Infantaria (atual 2.º Batalhão de Polícia Militar), em Juiz de Fora em 1935 (coincidentemente no mesmo ano em que estava sendo fundada a "Biblioteca do Departamento de Instrução").
Geraldo diplomou-se em 1.º lugar em todos os cursos de Formação: Cabos (1938); Sargentos (1942); Oficiais (1946).
Através de seus contos e de excelentes artigos em jornais da época, o escritor e capitão Geraldo Walter se tornou conhecido. Faleceu em 28 de julho de 1957.
Em 28 de maio de 1958, como reconhecimento ao mérito intelectual desse grande escritor, a Polícia Militar rebatizou sua biblioteca como "Biblioteca capitão Geraldo Walter da Cunha".
Dois anos após sua morte, numa coletânea denominada “Gigantes e Pigmeus”, foi publicada uma parte de seus inúmeros contos.
Essa publicação traz uma introdução que permaneceu envolta num mistério durante 40 anos, uma vez que foi subscrita apenas por “um amigo”.
Quem teria sido esse “amigo”?
Esse “mistério” somente foi desvendado no ano 2000 quando, entrevistando a viúva desse grande escritor, senhora Maria José Montresor da Cunha, ela me informou ter sido um gesto de modéstia do fundador e primeiro presidente da Academia de Letras João Guimarães Rosa, o coronel Ari Braz Lopes, de saudosa memória.
Gostaria que todos soubessem que há um belo soneto (que permanece inédito) escrito pelo inspirado Geraldo Walter que o dedicou, na madrugada de 9 de novembro de 1941, à sua musa inspiradora, dona Maria José.
Com ele, para encerrar este depoimento, homenageio a todos que se dedicam no Brasil à biblioteconomia e, especialmente, às bibliotecárias da biblioteca capitão Geraldo Walter da Cunha: senhora Rita Lúcia, que durante alguns lustros _ até aposentar-se _ muito nos ajudou na elaboração de fichas catalográficas e na organização desta biblioteca e senhora Regina Paulino, atual bibliotecária.
“ANGÚSTIA
Geraldo Walter da Cunha
Soaram doze horas... sobre a mesa,
Confundidos, papéis se amontoavam
E havia na sala uma tristeza,
Tão triste como as horas que passavam...
A caneta na mão, entre a incerteza
De saber os problemas que o assaltavam
O poeta quedou-se ante a surpresa
De ver fugindo as rimas, que lhe faltavam...
Quis pensar, novamente, em outros meios,
Em outra inspiração que lhe chegasse,
Em assuntos que a amores fossem alheios...
Veio, porém, a Alvorada rosicler.
E, para que a angústia terminasse,
Findou o verso... com um nome de mulher!”
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*coronel da reserva e presidente da Academia de Letras João Guimarães Rosa da Polícia Militar de Minas Gerais. E-mail: cellagares@yahoo.com.br