HABEMUS PAPAM
Alcino Lagares¹
Tendo o papa Bento XVI (Joseph Aloisius Ratzinger) abdicado do papado (em fevereiro de 2013), reuniram-se os cardeais da igreja católica em conclave,² e foi eleito, em 13 de março de 2013, o cardeal jesuíta argentino, Mário Jorge Bergoglio, como novo Papa _ “Francisco” _e Chefe de Estado do Vaticano.
Coube ao “protodiácono”³ Jean Louis Tauran anunciar, da varanda central da Basílica de São Pedro, no Vaticano, a eleição do novo pontífice com a fórmula “Habemus Papam!” (“Nós temos um papa”), significando que um novo pontífice fora eleito e que o escolhido aceitara a eleição.
Após o anúncio, o novo papa deu, naquela varanda, a sua primeira bênção “Urbi et Orbi” ("à cidade _ Roma _ e ao mundo").
Em 2011, na comédia dramática “Habemus Papam” do ator e diretor Nanni Moretti, o papa eleito (interpretado por Michel Piccoli) sente sua identidade (“quem sou eu?”) conflitar com as obrigações “divinas”, que definem o seu papel social (“o quê estou fazendo aqui?”). Ele entra em pânico e não vai à varanda abençoar os fiéis. Sem alternativa diante da inusitada situação, os demais cardeais resolvem chamar um psicanalista (Nanni Moretti) para “tratar” do novo Papa!
Mas, Francisco assumiu corajosamente o cargo. Então, Habemus Papam. E que papa!
Admiro-o pela forma humana, humilde, simples e, ao mesmo tempo, indubitavelmente muito inteligente que conduz o seu pontificado.
Destaco dois fatos:
O primeiro é sobre uma questão _ “naturalismo” em oposição a “criacionismo” _ que mantinha um abismo entre “conhecimento científico” e “religião”, a qual foi (de modo inédito e relevante) solucionada por ele, ao visitar a Pontifícia Academia das Ciências no dia 28/10/14: “O Big Bang, que hoje temos como a origem do mundo, não contradiz a intervenção do criador divino, mas sim o exige. A evolução na natureza não é incompatível com a noção de criação, pois a evolução exige a criação de seres que evoluem.”
O segundo refere-se às irreverências precedentes e aos assassinatos ocorridos em Paris, os quais dividiram mundialmente as opiniões sobre quais seriam os limites entre “liberdade de expressão” e “reciprocidade de respeito pelas opiniões e crenças”: No dia15/01/15, em Manila (Filipinas), Francisco disse: “Também nós fomos pecadores,” _ referindo-se às “Cruzadas” e à “Inquisição” perpetradas pelo Cristianismo na Idade Média_ “mas não se pode assassinar em nome de Deus. Acho que os dois são direitos humanos fundamentais, tanto a liberdade religiosa, como a liberdade de expressão. É verdade que não se pode reagir violentamente; mas, se Gasbarri,” _ referindo-se a um de seus colaboradores _ “grande amigo, diz uma palavra feia da minha mãe, pode esperar um murro. É normal.”
Habemus Papam!
__________________
1- coronel da reserva e presidente do Conselho Superior da Academia de Letras "João Guimarães Rosa" da Polícia Militar de Minas Gerais.
Contatos: cellagares@yahoo.com.br
2- Conclave: do latim “cum clave” (“Com chave”). Trata-se de uma reunião em clausura, na qual os cardeais permanecem incomunicáveis com o exterior até que elejam o novo papa.
3- Protodiácono: um dos cardeais mais velhos (na ordem dos diáconos), que tem a incumbência de anunciar a eleição de um novo Papa.