Alcino Lagares
Pareceu-me apropriado incluir nesta introdução a síntese de uma das mais belas criações de Platão (428-347 a. C.), o grande mito denominado “Alegoria da Caverna” (livro VII de “A República”), através do qual podemos perceber como uma crença pode tornar-se limitante e condicionar toda a nossa existência.
Eis a síntese:
Homens encontram-se acorrentados numa caverna desde o nascimento, com o rosto voltado para a parede ao fundo dessa.
Fora da caverna, passam homens livres, cuja existência é ignorada absolutamente pelos acorrentados; mas, suas sombras são projetadas naquela parede e ali ecoa o som de suas vozes. Desse modo, tudo que os acorrentados veem e ouvem é o que se passa no fundo daquela caverna: eco e sombras. Acreditam que os sons que ali ecoam são articulados pelas sombras e a estas até dão nomes.
Em suma, acreditam que nada existe de real e verdadeiro fora daquelas figuras que, diante deles, desfilam na parede.
Um desses cativos consegue livrar-se das correntes e caminhar, penosamente, em direção à luz, tendo grande dificuldade de discernir os objetos, cujas sombras antes via; pois, seus olhos habituaram-se à escuridão da caverna e doem.
De fato, nesse momento, confuso, ainda crê que o que antes via era mais real e verdadeiro que aquilo que agora, com sofrimento, mal consegue enxergar.
Naturalmente, demora a se acostumar à claridade; mas, finalmente, este momento chega e ele pode contemplar a lua, as estrelas e, somente depois, as pessoas e objetos, tais quais são, iluminados pelo resplendor do dia.
Compreende, então, que é a luz do Sol a causa de tudo que ele e seus companheiros viam na caverna.
Vem, aí, a parte mais difícil: agora que ele conhece a verdade, deve voltar à caverna, dizer aos companheiros o que sabe, e tirá-los da escuridão.
Habituado que se tornou à luz, ele tem dificuldade de caminhar no interior daquela morada subterrânea; pois, nas trevas, a vista torna-se confusa. Aos poucos, porém, ele consegue.
Vai dizer, então, aos antigos companheiros que tudo que eles acham que sabem é falso; mas, que ele conhece a verdade.
Ocorre, porém, que os acorrentados SABEM que o eco e as sombras são a verdade; consequentemente, aquele fugitivo certamente é louco ou mentiroso... e o matam.
A experiência do Capitalismo mostrou ser este um ótimo gerador de riquezas; mas um péssimo distribuidor destas. Beneficia apenas uma minoria privilegiada. A experiência do Comunismo mostrou que este igualou o povo, mas na miséria. Beneficia apenas sua cúpula dirigente.
É possível que você “saiba” que a única expressão de “democracia” seja a “Democracia Liberal” que aí está postada _ do mesmo modo que aqueles acorrentados “sabiam” que a verdade encontrava-se naquela parede no fundo da caverna...
Digo-lhe, porém, que esta é uma posição não apenas equivocada, como contraditória; pois, "democracia" significa "governo do povo" e "liberal" refere-se a uma "plutocracia" (ou seja, governo dos ricos).
Afirmo que é possível substituir a democracia liberal pela “Democracia Social” _ com diminuição das distâncias sociais _, na qual a dignidade da pessoa humana e a igual distribuição da justiça sejam valores sociais e haja iguais oportunidades na distribuição das liberdades individuais e da propriedade.
É possível que você “saiba” que, para haver democracia, são necessários partidos políticos e eleições _ do mesmo modo que aqueles acorrentados “sabiam” que a verdade encontrava-se naquela parede no fundo da caverna...
Afirmo que, ao contrário, são os partidos políticos e as eleições que desfiguram a democracia, que atrasam o desenvolvimento da sociedade, que dão origem a toda essa corrupção que envergonha a nação brasileira.
Um bando de ignorantes, “mágicos”, ávidos por poder e por dinheiro, ensaiam discursos, mentem e iludem, com as sombras que projetam na parede ao fundo da caverna, os mais de 200 milhões de brasileiros. Mantêm-se. Locupletam-se. Fazem o povo de idiota.
A cada eleição, quando ocorrem _ se ocorrem _ as substituições, trocam-se “as moscas” e mantém-se “o lixo”.
Um olhar um pouco mais atento faz-nos perceber que o povo é um soberano que não pode exercer a soberania. E por que não pode? Porque a exerce através de seus “representantes”.
No único instante em que exerce a soberania _ o momento do voto _ ele o faz tão somente para entregar sua liberdade política a um “representante” através de uma “eleição”. Nesse exato momento, o “povo soberano” torna-se “vassalo” e elege os seus “reis” para que estes ocupem a direção das atividades de interesse público em dois dos três poderes e nos três níveis da estrutura social: municipal, estadual, e federal.
Afirmo que soberania não pode ser objeto de representação; portanto, deve existir um único poder soberano: o povo!
Afirmo que todos os cargos públicos _ para que haja igualdade de oportunidades _ deveriam ser ocupados somente através de concursos públicos, nunca por meio de eleições.
Convido-o a se esforçar para caminharmos, juntos, em direção à luz, mesmo que doa um pouco sair dessa morada subterrânea.
PELA DEMOCRACIA DIRETA JÁ!
Aceita refletir sobre este convite?
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* Coronel da reserva e presidente do Conselho Superior da Academia de Letras "João Guimarães Rosa" da Polícia Militar de Minas Gerais.
Contatos: cellagares@yahoo.com.br