Alcino Lagares*
SITUAÇÃO: Na Tessália (Região da Grécia, ao Norte da Ática), no século V a.C., o número de crimes aumenta a cada dia, apesar das novas leis idealizadas por Míope, o legislador. Na ágora de Atenas, Nicóstrato conversa com Sócrates a respeito, mostrando receio que tal criminalidade comece a atingir Atenas também.
SÓCRATES: _ Teu semblante é grave, Nicóstrato. Que te preocupa?
NICÓSTRATO: _ Sim, Sócrates. É que recebi uma missiva de parentes que habitam Larissa, a grande Polis da Tessália, na qual me narram haver, com muita frequência, crimes violentos nas ruas: homicídios, roubos, latrocínios... Considerando a proximidade das cidades-estados, temo que, em breve, também aqui tenhamos tais problemas. Além disso, preocupa-me saber que lá estão meus parentes. Por isso te procuro.
SÓCRATES: _ Informaram-te, por acaso, as causas de tal criminalidade?
NICÓSTRATO: _ Alguns dizem que as causas são sociais, outros que são econômicas; outros ainda, dizem que são educacionais...
SÓCRATES: _ Eu, que nada sei sobre essas causas, te pergunto: acaso, aqui em Atenas os problemas sociais, econômicos e educacionais estão resolvidos?
NICÓSTRATO: _Claro que não! Aqui também há pobres... e nem todos os jovens podem ser levados pelo pedagogo às escolas.
SÓCRATES: _ No entanto, temos aqui tamanha violência e tantos desatinos?
NICÓSTRATO: _ Infinitamente menos, ó Sócrates.
SÓCRATES: _ Pelo que já ouvi dizer, também em Atarnéia, Polis da Nísia, existe pobreza; mas, ali não ocorrem esses delitos violentos. É o que também ouves dizer?
NICÓSTRATO: _ Sim. É o que também ouço dizer.
SÓCRATES: _ Já em Leucada, próspera colônia de Corinto, que índice de violência ostenta?
NICÓSTRATO: _ Pelo que me é dado saber, ali há incontáveis crimes violentos, ó Sócrates.
SÓCRATES: _ Então, dize-me: que têm feito os sábios Arcontes** de Larissa e de Leucada, onde ocorrem em maior número tais crimes, para conter esses criminosos? Teus parentes esclarecem também esse ponto?
NICÓSTRATO: _ Sim, Sócrates: em Larissa, uma lei permite que cada cidadão adquira até 9 armas para defender-se e, em Leucada, parece-me que há uma lei semelhante, apenas variando o número de arcos e flechas que cada cidadão pode possuir, ou a dimensão das lâminas de suas espadas. Mas, invariavelmente, as pessoas de bem são surpreendidas pelos assaltantes e acabam tendo roubadas também as armas. O comércio de armas em Larissa tornou-se negócio altamente rentável! Comerciantes passaram a inventar métodos de alarmes e trancas especiais para portas e janelas das residências. Reina o medo.
SÓCRATES: _ E, após essa lei da Tessália, os crimes violentos aumentaram ou diminuíram?
NICÓSTRATO: _ Aumentaram, sem dúvida!
SÓCRATES: _ Dize-me, Nicóstrato, em Atenas ou em Atarnéia, onde reina a paz entre os cidadãos, há uma lei semelhante?
NICÓSTRATO: _Ao contrário, ó Sócrates! Aqui são punidos aqueles que tentam comercializar armas, e aos cidadãos é proibida a sua posse. Somente aos guardiães da Polis a lei permite conduzir armas.
SÓCRATES: _ Que podemos concluir dessa análise?
NICÓSTRATO: _ A mim parece agora claro que é precisamente essa lei da Tessália a causa imediata dos crimes violentos. Ouso até afirmar que, se não fossem tantas as armas, ainda que existissem desentendimentos entre os cidadãos, eis que, inermes, suas contendas não seriam mortais. Também os assaltantes tenderiam a contentar-se com simples furtos, em lugar dos violentos roubos e latrocínios.
SÓCRATES: _ Também penso assim, ó Nicóstrato. Mas, dize-me: quem foi o autor do projeto dessa lei que possibilita tantas armas em livre circulação?
NICÓSTRATO: _ Foi Míope, o legislador, ó Sócrates. Foi o legislador Míope...
* Coronel da reserva e presidente do Conselho Superior da Academia de Letras "João Guimarães Rosa" da Polícia Militar de Minas Gerais.
Contatos: cellagares@yahoo.com.br
** Arconte: Administrador, ou Governante (na antiga Grécia)