Este Boletim nº 176 é uma publicação trimestral da Fraternidade Sacerdotal Jesus+Caritas no Brasil, e tem como objetivo criar laços entre as diversas Fraternidades por meio de estudos e comunicações entre seus membros espalhados em todo o território do país.
Pe. José de Anchieta Moura Lima – Lima Duarte/MG Irmão de todos, como responsável nacional da FSJC
“O amor é inseparável da imitação: quem ama quer imitar: é o segredo de minha vida. Me apaixonei por esse Jesus de Nazaré crucificado, e passo a vida tentando imitá-lo”.
PREZADOS AMIGOS EM NOSSAS FRATERNIDADES LOCAIS!
Ao encerrar o ano jubilar da Esperança, oferecemos o terceiro número do Boletim das Fraternidades de 2025, são vários os textos que poderemos usar em nossos encontros, retiros ou dias de deserto seja nas fraternidades locais ou nos retiros regionais. Poderemos ler, refletir e partilhar em nossas fraternidades. Nossa gratidão aos que se juntaram e nos ajudaram nesta edição, especialmente na elaboração dos textos.
Nosso boletim está rico de conteúdo. Destacamos em primeira mão o belíssimo texto de Pe. José Manoel de Lisboa, da Fraternidade de Portugal, apresentando o perfil espiritual de São Carlos de Foucauld, na sua entrega absoluta ao Senhor para vivenciarmos no escondimento nas nossas “Nazarés” em nossa realidade. Segue uma chave de leitura sobre a Dilexit Nos do Papa Francisco de um irmão da Fraternidade de João Pessoa, o agostiniano Pe. Mar- cos Antônio dos Santos.
Os testemunhos da/de Fraternidade, que mostram os sinais vivos na vida do nosso povo, seja Pe. Gildo narrando o dia a dia da missão no meio dos povos originários no Amazonas, na diocese de São Gabriel da Cachoeira, AM, e Pe. Geraldo Brandstetter e Pe. João Paulo narrando suas experiencias com os mais excluídos, os presos e os menores na realidade pastoral no interior do nordeste.
Frei Betto faz um belo comentário da carta Dilexi Te onde explicita o comprometimento do Papa Leão XIV com os movimentos populares e reafirma a opção preferencial com os mais pobres.
Vale a pena ler a carta de gratidão dos padres da caminhada ao Papa Leão XIV, os textos sobre a saúde integral por Inácio do Valle, como também sobre o compromisso da Igreja com a DSI e com os mais pobres, escrito pelo Pe. Waldemir Santana, de João Pessoa.
Diác. Lindolfo conta a experiencia de simplicidade e desapego do Irz. Marcos de Santa Maria e a bela reflexão sobre as cinco lições angelicais de Dom Angélico, com sua audácia do amor ao povo por Fernando Altemeyer Junior.
Com saudade e esperança comunicamos a Páscoa de Mons Gilson, da Fraternidade do Rio, e do Pe. Nani, da Fraternidade do Sul do Rio. Estão agora na casa do Pai na eternidade feliz. Que a luz perpetua os ilumine!
Unamo-nos em orações pelos colegas de Fraternidade que farão o Mês de Nazaré, nos dias 5 a 31 de janeiro de 2026, na Casa da Fraternidade em Goiás, GO. Estamos felizes com um bom número de participantes já inscritos para no retiro anual na Casa de Encontros dos Capuchinhos, em Hidrolândia/GO, nos dias 6 a 13 de janeiro de 2026. O orientador será Dom Vicente Ferreira, CSSR. Com nosso abraço fraterno e fraternal a todos vocês, com votos de ótimas festas neste final de ano, na esperança que não nos decepciona! Na graça e na Paz!
Pe. José Manuel Pereira de Almeida, Arquidiocese de Lisboa/PORTUGAL
No fim do seu testamento, feito em De- zembro de 1911, na montanha de Asekrem, cinco anos antes da sua morte, Carlos de Fou- cauld indica dois nomes a quem pede que se avise do seu falecimento: «Tenho dois incom- paráveis amigos», escreve. Um deles é um ami- go de juventude, conhecido desde os tempos de liceu em Nancy. O outro é um amigo da idade madura, Henri Laperrine, na altura coronel, depois general do exército francês, com quem trabalhou muito no Saara, para os Touaregs.
O amigo de juventude é Gabriel Tourdes; vivem juntos esses anos em que se sonha trans-
formar o mundo; os livros que leem alargam-lhes os horizontes e confirmam-nos nas suas buscas; grandes autores (Montaigne, Voltaire…) povoavam a riquíssima biblioteca do avô de Carlos (o avô que o recolheu, com 5 anos de idade, quando fica órfão de pai e mãe). Anos em que eles deixaram juntos a sua fé cristã para abraçarem o racionalismo e o agnosticismo triunfante. «Juntos desaprendemos a rezar», escreverá um dia Carlos a Gabriel. Perder-se-ão de vista depois… Gabriel torna-se magistrado. Carlos explorou mundos exteriores e interiores: converteu-
-se, tornou-se trapista e, depois, ermita em Nazaré. A 7 Março de 1902 Carlos quer retomar esta sua relação. Está em Beni Abbès (às portas de Marrocos), padre se- cular da Diocese de Viviers: quer levar o Evangelho lá onde, enquanto não-crente, vinte anos antes, tinha feito uma importante exploração. Queria partilhar com Gabriel o que lhe aconteceu. Fala-lhe entre outras coisas do choque que viveu no momento da sua ordenação sacerdotal, nove meses antes: «Senti-me logo chama- do a ir ter com as ‘‘ovelhas perdidas’’, com os mais perdidos». Reconhece-se uma alusão à parábola de Jesus sobre o bom Pastor que deixa, no redil, as noventa e
nove ovelhas para ir, lá fora, à procura da centésima que está perdida. Mas Fou- cauld, a narra de modo diferente: para ele, há noventa e nove ovelhas do lado de fora, que se perderam, e uma só que ficou dentro; para ele, os que não conhecem e não vivem a fé cristã – chama-lhes «os irmãos de Jesus que O ignoram» – são noventa e nove, são a imensa maioria; e é ao encontro deles que quer ir.
Por quê? Por que quer convencê-los a converterem-se como ele se conver- teu? Por que quer que o redil se volte a encher? Não. A verdadeira razão é dada claramente nesta carta ao amigo Gabriel que permaneceu não-crente, agnóstico; vai partilhá-la com «o amigo dos primeiros anos e de todos os anos», como es- creveu na primeira linha da sua carta: «É o segredo da minha vida: perdi o meu coração por esse JESUS de Nazaré crucificado há 1900 anos».
«Perdi o meu coração por esse JESUS de Nazaré». Este homem de quarenta e três anos, que não é dado a palavras ocas, que não é um sentimental, abre o seu co- ração ao seu «incomparável amigo», e o faz desta maneira: «perdi o meu coração». A expressão toca-nos. É pouco comum. O que significa para ele? Se dissesse “dei o meu coração por esse Jesus de Nazaré”, teria sido muito mais fraco do que este
«perdi o meu coração» que indica um movimento absoluto, que vai até à perda de si próprio no seu todo.
Uma radicalidade doce
Lembremo-nos que, depois da sua conversão, ele só quer viver para Deus; e citando Bossuet, declara então que quer viver assim para sempre: «exalar-me diante de Deus em pura perda de mim». Há, aqui, no «perdi o meu coração» uma radicalidade doce, que já não tem o tom abstrato e absoluto da conversão: trata-
-se de dar a Jesus todo o amor do seu coração. É outra coisa que o «viver só para Deus».
É que justamente, em 15 anos, da conversão à sua ordenação, Foucauld fez um caminho de amor: ele perdeu pouco a pouco o seu elevado voluntarismo para chegar, em 1901, a um amor muito humilde, quotidiano, agora virado para os que se encontram mais longe, «os irmãos de Jesus que O ignoram», que ignoram que são amados por Jesus. O amor é um caminho: primeiro um passo, depois outro passo; é uma procura, um ir mais longe ainda; nunca acabamos de amar. O que Carlos compreendeu. Teve, de resto, uma bela escola: o padre Huvelin morreu a dizer baixinho: «Nunca amarei que chegue».
Mas como era o coração de Carlos de Foucauld? Antes de perder o coração por Jesus de Nazaré, já o tinha perdido alguma vez? Pode dizer-se que tinha um grande coração e que já tinha amado muito: era muito afetivo, tinha uma maneira simples de contactar as pessoas, uma arte muito particular de conversar com cada pessoa num “tête-à-tête”. Era um coração secretamente vivo, que sofreu muito por perder a sua mãe e o seu pai com a idade de cinco anos e meio; depois, aos deze- nove anos, o avô que o tinha recolhido. Mas este apaixonado de grande fôlego tem uma vontade de ferro; nunca perde o controle de si mesmo, vai sempre até o fim.
Perde o coração. E por um “ausente”, esse Jesus de Nazaré! Como pôde ele perder assim o coração? Qual é a maneira de amar de Carlos de Foucauld?
Querer amar
Tudo parte deste Jesus de Nazaré e do seu Evangelho (que é onde Ele fala e age). Aí encontra a sua fonte, dia após dia: seguir Jesus, ser o mais possível, amorosamente, um outro Jesus, ser um Evangelho vivo. E é a única coisa que ele pede àqueles e àquelas, padres e leigos, os batizados que começam a constituir a sua pequena “confraria”, a União fundada por ele em 1909, sete anos antes da sua morte: ser outros Jesus, outros Evangelhos, lá onde se encontram, na Nazaré de cada um deles. O artigo I dos estatutos da União diz que os irmãos e as irmãs da União «tomarão por regra o perguntar-se em todas as coisas o que pensaria, diria, e faria Jesus naquela circunstância. Eles farão esforços contínuos para se tornarem semelhantes a Nosso Senhor Jesus, tomando por modelo a sua vida de Nazaré, que apresenta exemplos para todos os estados. A medida da imitação é o amor».
O que significa para ele «a vida de Nazaré»? O essencial é o desejo, o querer imitar Jesus em amor. Na realidade, ele encontrou Jesus de Nazaré no caminho, viu-O nas pobres ruas de Nazaré, na sua peregrinação à Terra Santa; viu-O tam- bém, vivo, no coração de algumas pessoas à sua volta e particularmente duas pes- soas (também eles com uma vida de amor por Jesus): o padre Huvelin e a prima Marie de Bondy. É assim que ele encontra o Coração de Jesus. E o seu coração, diante desta chama viva de amor que é Jesus, fica perdido; ele quer perder-se no Coração de Jesus (este Coração que ele revelou particularmente a Marie de Bon- dy). Perder-se, não é passivo: é lançar-se por completo numa realização de amor: tornar-se, pouco a pouco, um Jesus vivo.
Foucauld pensou, a seguir à sua conversão, que devia tornar-se religioso na ordem mais estrita possível, ficando longe daqueles que amava. Vontade de asce- se extrema; mas o essencial, era o coração atrás desta determinação: o do Padre Huvelin. Numa carta a um abade beneditino onde ele apresenta Foucauld, que procura o seu caminho, escreve que se trata de «um bom cristão, que fez da reli- gião um amor». O essencial não é que ele queira entrar na vida religiosa, mas este homem de trinta anos é um homem de amor, apaixonado por Deus, o Deus de Jesus Cristo.
Entre a conversão de Foucauld e a sua morte vão trinta anos de vida es- condida, quer dizer, de amor cada vez mais forte. Um amor sem nenhum êxtase nem iluminações; pelo contrário, marcado pelo cansaço e o pelo quotidiano, pelo deserto e pela noite. Este pano de fundo permanece até ao fim; e é preciso lembrarmo-nos desse horizonte, que ele viveu durante esses trinta anos. Horizonte indicado logo dez anos depois da sua conversão (6 de Junho de 1897): «Secura e trevas: tudo me é difícil: a santa comunhão, orações, tudo, tudo, mesmo o dizer a Jesus que O amo. É preciso que me agarre à vida de fé. Se ao menos eu sentisse que Jesus me ama! Mas Ele nunca mo diz».
Doze anos mais tarde, a 30 de outubro de 1909, a Luis Massignon – outro amigo muito especial – ele vai mais longe e escreve: esta «secura» faz do amor uma «prova de amor»: O amor não existe, diz o poeta Jean Cocteau, só existem provas de amor. Foucauld quer dar a Jesus, que lhe provou o seu Amor, provas de amor. Quatro meses antes da sua morte, diz a L. Massignon, em 15 de Julho de 1916: «quanto ao amor que JESUS tem por nós, Ele provou-nos suficientemente para que nós o saibamos sem o sentir. Sentir que nós O amamos e que Ele nos ama, seria o céu: e, salvo raros momentos, raras excepções, o céu não é cá para baixo…»
Nenhum gozo sensível, nenhum mesmo. Aceitação contínua, fiel ao longo deste caminho interminável, de amor silencioso de Jesus. A Louis Massignon, seu irmão leigo que tinha trinta e três anos, seu discípulo mais próximo, ele escreve, na mesma carta de 15 de Julho, o que é estar apaixonado por este Jesus: «O amor consiste, não em sentir que se ama, mas em querer amar: quando queremos amar, amamos». «Querer amar» está sublinhado. No dia da sua morte, escreve, a Marie de Bondy: «Sentimos que sofremos, não sentimos sempre que amamos e isto é mais um grande sofrimento! Mas sabemos que queremos amar, e querer amar é já amar. Nunca amamos que chegue; é verdade, nunca amaremos o suficiente».
O padre José Manuel Pereira de Almeida, pároco de Santa Isabel, em Lisboa, acompanha as Irmãzinhas e Irmãozinhos de Jesus em Portugal.
Pe. Marcos Antônio dos Santos, OCRL – Religioso da Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses de Santo Agostinho Da Fraternidade Sacerdotal Jesus Cáritas, João Pessoa/PB
A Carta encíclica DILEXIT NOS – Sobre o amor humano e divino do coração de Jesus, do Papa Francisco, assinada no dia 24 de outubro de 2024, constitui uma verdadeira síntese de uma “Teologia Espiritual”, ousaria dizer ser o seu “Testamento Espiritual”, que fala do Coração ao coração de cada ser humano. O Papa Francisco nos apresenta que a devoção ao Coração de Jesus não se trata de um “culto a um órgão” separado da pessoa de Jesus e sim uma unidade plena entre o seu Coração e a sua própria missão. Este Coração é do Ressuscitado – vivente, que nos oferece a sua vida. Creio que seja oportuno dizer que a Carta encíclica Dilexit Nos é um “resu- mo do pensamento” do Papa Francisco, como que seu “Testamento Espiritual”, sua herança espiritual e pastoral. Estamos diante de um Papa profundamente humani- zado e humanizador. Aqui ele desenvolve de maneira singular a “Teologia do pobre”, indicando-nos que seja preciso beber da fonte do amor para nos tornarmos frater- nos. A fraternidade universal tem como premissa este amor do coração de Jesus.
Estamos diante de uma Carta que pode ser um caminho iluminativo para interpretarmos todo o Magistério de Francisco. Deus nos ama e nos revela ao seu amor em Jesus de Nazaré. O amor é este caminho de discernimento que a huma- nidade precisa percorrer para não ficar perdida em si mesma. O Papa Francisco ajuda-nos a uma verdadeira devoção ao Sagrado Coração de Jesus, descontruindo de certa maneira uma ideia de uma devoção intimista, que quase nos abstrai do compromisso histórico. É este compromisso histórico que o Coração de Jesus nos convida a realizar na vida da humanidade. Neste aspecto a Dilexit Nos é um ver- dadeiro convite a uma conversão à sinodalidade. Se “falta coração”, falta a unidade, não caminhamos juntos e vivemos de aparência. Em nossa vida tem faltado cora- ção? Em nosso modo de evangelizar tem faltado coração? Estamos rezando sem coração? Como é oportuno olhar para dentro de nós mesmos, dentro deste con- texto de humanidade “sem coração”, encontrar o sentido do coração para encon- trar o sentido da vida. O Coração de Jesus nos convida a ir ao íntimo do nosso eu para encontrar-se com a “minha verdade”. O ponto de equilíbrio da minha vida.
Recuperemos as nossas entranhas, assim recuperaremos o coração. Se faz de maneira urgente o apelo para “recuperar o coração”. Considerar “eu sou o meu coração”. Nesta cultura fragmentada em que vivemos como é necessário voltar ao Coração, o coração de Jesus, para humanizar a vida, as relações, a sociedade, a cultura. Desenvolver entre nós em nós a “Espiritualidade do Coração”, a mis- são de fazer o mundo se apaixonar. Estamos perdendo a paixão, nos tornando demasiadamente “sem coração”. “Neste mundo líquido, é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese, onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras po- tências, convicções, paixões e escolhas”. (n. 9). Voltar ao coração, voltar ao essencial, voltar a uma experiência profunda de uma fé que se transforma em sensibilidade. Uma Igreja sem sensibilidade perde a sua essência e se distância de sua natureza evangélica. Deus tem um coração que se agita. “Amou-nos” é a constatação que fazemos em nossas vidas; amou-nos porque é próprio da sua natureza amar. Deus não vive sem amar, e o ser humano para ter vida precisa participar deste amor. Seu Coração aberto é a estrada que o ser humano precisa entrar para fazer o seu caminho. Jesus nos oferece a oportunidade de experimentarmos a totalidade do amor de Deus, amor este que se expande, dilata-se até o coração do ser humano.
Em um “mundo sem coração”, Francisco quer nos devolver uma verdadeira experiência de descida ao coração, a partir do Coração de Jesus, por isto mesmo é um convite a viver uma fé, uma Igreja em proximidade.
A Dilexit Nos está constituída de 05 Capítulos, com 220 parágrafos. O Primeiro Capítulo trata da importância do coração, enfatizando a necessidade de “... recuperar a importância do coração quando nos acontece a tentação da superficia- lidade, a tentação de viver apressadamente, sem saber bem para quê; de nos tor- narmos consumistas insaciáveis, escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência.” (n.2). A tentação da superficialidade é um perigo, inclusive para a vida pastoral, para a vida da Igreja. Superficiais não adentramos na vida, no coração, não chegamos as periferias “geográficas e exis- tenciais”. Uma pastoral da proximidade exige coração.
O Segundo Capítulo intitulado: Gestos e palavras de amor. Este Capítulo é uma espécie de um pequeno retiro e serve muito bem como uma meditação para o nosso Dia de Deserto (DDD). “O Coração de Cristo que simboliza o centro pessoal de onde brota o seu amor por nós, é o núcleo vivo do primeiro anúncio. Ali se encontra a origem de nossa fé, a fonte que mantém vivas as convicções cristãs.” (n.32). Uma fé que brota de um coração é uma fé que se transforma em amor e nos coloca neste movimento transformante do amor, um amor que se transforma em gestos, em palavras; um amor que precisa de sua “dimensão política”, para que seja realmente um processo, um começo de uma transformação social, que brota de um Coração. Quem se aproxima do Coração de Jesus, escuta o clamor das pessoas. Olhar o coração das pessoas humilhadas, excluídas, abandonadas, pessoas desenganadas pelas enfermidades, pessoas solitárias, pessoas violentadas, pessoas em extrema situação de abandono. O que dizem estes corações a nós? Es- tes corações nos interpelam? As pessoas esperam alívio, estamos aliviando a dor das pessoas? Cuidado para não sermos pessoas frias: “Eu não sou uma parede.” O amor é uma resposta e cabe a nós sermos esta resposta de amor para o mundo.
O Terceiro Capítulo, com o título: Este é o coração que tanto amou, trata de dar bases teológicas à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, sobretudo, ressaltando que a “devoção ao Coração de Cristo não é um culto a um órgão separado da Pes- soa de Jesus.” (n.48). Este Capítulo ajuda-nos a perceber o sentido da verdadeira veneração da sua imagem, apresentando o coração como símbolo da intimidade pessoal, “um centro íntimo que gera unidade e, ao mesmo tempo, como expressão da totalidade da pessoa, o que não acontece com outros órgãos do corpo humano.” (n.55). O Quarto Capítulo com o título: Amor que se dá de beber” oferece-nos uma fundamentação bíblica, mostrando-nos que o ser humano encontra em Deus o seu sentido. Além de um itinerário bíblico, o Papa Francisco apresenta-nos gran- des santos, homens e mulheres que ao longo da história difundiram a devoção ao Coração de Cristo. Muito nos interessa saber e perceber que treze vezes ele cita ao logo da encíclica o pensamento de São Charles de Foucauld. Foucauld nos apre- senta uma relação de profunda amizade com este Coração que se expande na sua relação com os que estão a sua volta, sobretudo os mais pobres. Olha que herança espiritual ele nos deixa: “Deixar viver em mim o Coração de Jesus, de modo que já não seja eu a viver, mas o Coração de Jesus que vive em mim, como vivia em Nazaré” (n.132). É preciso deixar que este Coração habite nossa vida, seja capaz de nos conduzir a ternura da proximidade, só este Coração terno é capaz de amar tudo em nós, inclusive a nossa fraqueza e transformá-la em graça.
O Capítulo Quinto tem como título: O amor por amor. Um amor por amor, assim é o amor do Coração de Cristo; um amor que se prolonga no amor aos ir- mãos, um amor que se transforma em gestos concretos, Não se pode amar senão amando. Tudo passa por esta escola do amor, para que este mesmo amor seja um aprendizado constante. Um amor que se derrama. O Papa Francisco nos coloca diante deste desafio de fazer ser concreto este amor do Coração de Cristo na vida das pessoas. “Só o amor tornará possível uma nova humanidade”. A encíclica nos convida a humanizar o mundo a partir do amor que brota do Coração de Cristo. Lembra-nos que este Coração é sempre aberto, ferido, mas todo amor... Amor para amar, para ser amor. Jesus nos convida a habitar no seu amor, só este amor é capaci- dade de transformação. Façamos do Coração de Jesus este caminho para o amor. Na perspectiva do cuidado, o Papa Francisco nos coloca neste caminho. Não tenhamos medo de fazer este caminho, ele nos fará experimentar uma Igreja em proximidade.
Diác. Amauri Dias de Moura,
Arquidiocese de Belo Horizonte/MG
O Papa Francisco tem uma profunda conexão com a figura de São Carlos de Foucauld (Irmão Carlos de Jesus) e frequentemente o mencionava em suas falas, homilias, audiências e mesmo em documentos da Igreja. Ele o vê como um modelo de fé e evangelização para os tempos atuais.
Eis um singelo apanhado de falas do saudoso Papa Francisco sobre São Car- los de Foucauld:
1. Discurso aos participantes de um congresso sobre Carlos de Foucauld (14 de novembro de 2016): “Carlos de Foucauld nos convida a sair de nós mesmos para ir ao encontro dos outros, a viver uma verdadeira fraternidade universal, especial- mente com os mais afastados e esquecidos. A sua vida é um testemunho eloquente do ‘estar com’ e do ‘ser para’ o outro, imitando a Jesus”.
2. No final da Carta Encíclica Fratelli Tutti (286-287), o Papa recorda e propõe modelos de fraternidade e amizade social com significativo destaque ao Ir. Carlos, assim ele se expressa:
“Neste espaço de reflexão sobre a fraternidade universal, senti-me motivado especialmente por São Francisco de Assis e também por outros irmãos que não são católicos: Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Mohandas Gandhi e mui- tos outros. Mas quero terminar lembrando uma outra pessoa de profunda fé, que, a partir da sua intensa experiência de Deus, realizou um caminho de transformação até se sentir irmão de todos. Refiro-me ao Beato Carlos de Foucauld.
O seu ideal de uma entrega total a Deus encaminhou-o para uma identifica- ção com os últimos, os mais abandonados no interior do deserto africano. Naquele contexto, afloravam os seus desejos de sentir todo o ser humano como um irmão, e pedia a um amigo: ‘Peça a Deus que eu seja realmente o irmão de todos’. Enfim queria ser ‘o irmão universal’. Mas somente identificando-se com os últimos é que chegou a ser irmão de todos. Que Deus inspire este ideal a cada um de nós. Amém”.
3. Audiência Geral (19 de maio de 2021, sobre a figura de São José): Ao falar sobre a vida oculta de São José, o Papa mencionou Carlos de Foucauld como um exemplo moderno de alguém que encontrou Deus na vida cotidiana e na discri- ção. Ele disse algo como: “A santidade de Carlos de Foucauld, homem de deserto, é feita de adoração e de serviço ao próximo, em profunda solidariedade com os mais pobres e esquecidos”.
4. Homilia na Canonização (15 de maio de 2022): “Carlos de Foucauld, ho- mem que vivia a radicalidade do Evangelho na simplicidade de sua vida, na adora- ção silenciosa do Santíssimo Sacramento e no serviço aos mais pobres, anunciando Jesus com o testemunho da fraternidade”.
Ainda, algumas citações e frases do Papa Francisco sobre Charles de Fou- cauld, após “dar um Google”:
1. Sobre o “Apostolado da Bondade” e a “Fraternidade Universal”
“O novo Santo viveu seu ser cristão como um irmão para todos, a começar pelos pequenos. Seu objetivo não era converter outros, mas viver o amor gratuito de Deus, vivendo ‘o apostolado da bondade’.” Ele “nos convida a sair de nós mesmos para ir ao encontro dos outros, a viver uma verdadeira fraternidade universal, espe- cialmente com os mais afastados e esquecidos”. (Fonte: Papa destaca apostolado da bondade de São Charles de Foucauld - Canção Nova Notícias)
2. Sobre a Essencialidade do Evangelho:
“Como Igreja, precisamos voltar ao essencial – voltar ao essencial! – não nos perder em tantas coisas secundárias, com o risco de perder de vista a pureza simples do Evangelho”. Ele considerou Foucauld um “profeta do nosso tempo, soube trazer à luz a essencialidade da fé”. (Fonte: O Papa: Foucauld, profeta do nosso tempo, soube trazer à luz a essencialidade da fé - Vatican News)
3. Sobre a Espiritualidade de Adoração e Serviço:
“Charles de Foucauld, no silêncio da vida eremita, em adoração constante e ser- viço aos irmãos e irmãs, escreveu que enquanto ‘somos levados a colocar em primeiro lugar as obras, cujos efeitos são visíveis e tangíveis, Deus dá o primeiro lugar ao amor e depois ao sacrifício inspirado pelo amor e à obediência derivada do amor’”. (Fonte: Papa destaca apostolado da bondade de São Charles de Foucauld - Canção Nova Notícias)
4. Testemunho Pessoal do Papa (Impacto Pessoal):
“Agradeço ao Santo e dou testemunho disso, porque me fez muito bem”. O Papa Francisco revelou que a espiritualidade de Charles de Foucauld o ajudou em um momento de crise pessoal durante seus estudos de teologia, demonstrando sua pro- funda estima pelo santo. (Fonte: Charles de Foucauld:‘profeta do nosso tempo, soube trazer à luz a essencialidade da fé’ – Arquidiocese do Rio de Janeiro)
5. Sobre Anunciar o Evangelho com a Vida:
Ao citar Foucauld, o Papa Francisco ecoa a ideia de que “Toda a nossa existên- cia deve gritar o Evangelho”. Essa frase foi mencionada pelo Papa ao discutir como os cristãos devem dar testemunho de Jesus com sua própria vida, não apenas com palavras.
6. Sobre o Coração Focado em Jesus:
“São Carlos de Foucauld, coração palpitante de caridade na vida oculta, diz de si mesmo: ‘Perdi meu coração por Jesus de Nazaré’. O Irmão Carlos nos recorda assim que o primeiro passo para evangelizar é ter Jesus no coração, é perder a cabeça por Ele”. O Papa Francisco utilizou essa citação de Foucauld para enfatizar que a evangeliza- ção começa com um amor profundo e pessoal por Cristo. (Fonte: El Papa: Carlos de Foucauld, ejemplo de Evangelio anunciado con mansedumbre - Vatican News)
7. Gritando o Evangelho em silêncio:
“Charles deixou Jesus agir silenciosamente, convencido de que a ‘vida eucarís- tica’ evangeliza... Ele acreditava que Cristo é o primeiro evangelizador”. Francisco destacou como a vida de oração e adoração de Foucauld era, em si mesma, uma forma poderosa de proclamar o Evangelho. (Fonte: Pope at Audience: St. Charles de Foucauld ‘let Jesus act silently’ - Vatican News)
Pe. Geraldo Konrad Brandstetter – Diocese de Guarabira/PB
“Quando você rezar, entre no seu quarto, feche a porta e reze ao seu Pai ocultamente; e o seu Pai, que vê o escondido, recompensará você” (Mt 6,6).
Como o fermento na massa, assim as atividades espirituais formam e fazem crescer a nossa vida diária em comunhão com o IN- VISIVEL, sem manipular, mas sim deixando acontecer o que a ação divina no dia a dia for pedir, silenciosamente e você sendo decidido e disposto para agir.
Minha “Linha do tempo”, quer dizer os anos a mim atribuídos e oferecidos como dom gratuito, estão se finalizando naturalmente.
Nasci em 10 de dezembro de 1935, na Alemanha, como sétimo filho do pai José, trabalhador em vários lugares e serviços diferentes como maquinista em obras de construção ou como auxiliar de pedreiro e diversos outros serviços, e minha mãe, trabalhando como “costureira itinerante” de casa em casa no interior rural, e posteriormente, casada, cuidando das 7 crianças que nasceram durante 1923 a 1935 quase de ano em ano, com exceção de mim que nasci em 1935, cinco anos depois da minha irmã Ângela.
Minha mãe, depois de casada, costurou no fim de cada dia até meia noite para contribuir junto com o pai para as despesas que sete filhos diariamente ne- cessitam. A segunda guerra mundial, que jogou a minha pátria Alemanha num caos, desuniu a nossa família. Todos foram obrigados a prestar serviços na guerra ou trabalhar em favor dela.
Experimentei a partir do nascimento, em abundância, o que significa ser amado para poder amar.
Toda a espiritualidade é vinculada ao amor recebido, que gera confiança e inspira passar este dom “amar” no dia a dia para os outros.
Charles de Foucauld começou me atrair a partir da humildade de buscar o INVISIVEL. Tem vários livros que nos ajudam a conhecê-lo. É preciso sentir a necessidade ou melhor a curiosidade e as etapas e passos de vida que o levaram a se aproximar ao INVISIVEL.
O Dia do Deserto, se afastando da vida diária e caminhando e caminhando e procurando momentos sozinho, para poder descobrir novas visões que levam a novas decisões de vida. Precisa coragem e decisão para se lançar no vazio e cami- nhar para descobrir com curiosidade o que pede Jesus.
O que mais me ajuda no dia a dia da vida até hoje, é valorizar os aconteci- mentos simples de cada dia. É preciso valorizar tudo o que acontece no dia a dia e, se você se acostumar, fazer notícias num caderninho no fim do dia em estilo simples e curto. A leitura ou releitura destes fatos simples no dia a dia vem en- riquecendo o seu coração de viver e amar de novo. Você visibiliza a sua vida e caminha com você e com os irmãos que você encontrou ontem e antes de ontem, e você vai longe da alienação espiritual. Os irmãos se tornam mais presentes em sua vida e dentro de você nasce o AMOR. A atenção aos acontecimentos diários se torna uma felicidade e fonte de vida e amor.
Aprendi na JOC (Juventude Operária Católica), num encontro dos JOCIS- TAS internacionais com o fundador Joseph Cardijn (13 de 11 de 1882 a 25 de 07 de 1967), em Dworp/Bruxelas/Bélgica no ano 1954 após o meu vestibular em Passau/Alemanha. Ver, julgar (avaliar) e agir!
A atividade espiritual diária num lugar e numa hora certa.
Para a gente poder crescer junto com Jesus de Nazaré, irmão trabalhador durante 30 anos sem chamar nenhuma atenção, faz bem se entregar à Leitura Divina, ou seja, à leitura bíblica como Lectio Divina em pequenos trechos e com muita lentidão para poder ouvir ou sentir ou descobrir o que o Espírito nos quer dizer. Depois da escuta com tempo à vontade ou ver ou sentir impulsos, tome um caderno. Anote a data do dia, o lugar, onde estiver, o Evangelho e os versículos da sua leitura e agora tudo o que você sentiu, viu, em uma palavra: O que te inspirou e chama! Escreva!
A chamada nasce quando você se debruçou com calma, lentidão e em soli- dão sobre o trecho bíblico, mas trecho pequeno que fala da vida diária de Jesus. É preciso descobrir o que o Espírito revela a você pessoalmente naquele momento em solidão (Mt. 6,6).
As anotações diárias e a leitura bíblica diária são fontes da sua espiritualida- de e matéria espiritual para ganhar a alegria que você precisa para viver e passar adiante sem alienação espiritual.
Inesquecível na minha história de quase 90 anos é o retiro com Alfredinho Kunz, da irmandade do Servo Sofredor. Segundo o Alfredinho, o fruto do retiro exige uma ruptura na vida, ou seja, uma atitude de desapego, abandono e con- fiança em Deus. Eu era vigário da grande paróquia do Conde na Bahia, 70 km de praia e uns 30 quilômetros para dentro. Decidi deixar o carro e caminhar ou andar de bicicleta ou pegar carona.
Vida espiritual nasce da meditação que começa com Mt 6,6 e se torna ação sem manipulação e alienação. Vamos para frente entrando na prática do Mt 6,6.
Pe. Gildo Nogueira Gomes – Diocese de Barra Piraí-Volta Redonda/RJ
Olá, sou Pe Gildo Nogueira Gomes, da Diocese de Barra do Piraí – Volta Re- donda/RJ e estou em missão na Diocese de São Gabriel da Cachoeira/AM. Foi combinado entre mim e as duas dioce- ses para que eu permaneça aqui por três anos, após isso negociaremos.
Fui designado para a Paróquia Nossa Senhora da Assunção, no Distrito de Assunção do Içana, e aqui estou. A diocese está organizada em onze paróquias: uma na cidade de Barcelos, outra na cidade de Santa Isabel do Rio Negro e as demais no município de São Gabriel. Na cidade de São Ga- briel são três paróquias e as demais no interior. Esta região tem uma área de 298.000 Km2 e uma população estimada em 85.000 habitantes. São 23 etnias indígenas, portanto muitos povos diferentes, com umas 18 línguas. Cada paróquia tem inúmeras comunidades, até mais de cinquenta. A paró- quia onde estou tem 21 comunidades, é a mais evangélica de todas, tendo aqui umas 70 comunidades evangélicas. As povoações aqui são chamadas de “comunidades”, não se fala em “aldeias”, são pequenas, as mais populosas aproximam de 400 habitantes e outras tem até uma só família.
A língua predominante aqui é “Baniwa”, o povo é “Baniwa”, mas aqui na sede da paróquia e as comunidades para baixo, indo para o Rio Negro falam “Nhengatu”. Lá em cima na cabeceira dos rios falam também “Ku- beo”, “Koripaco” etc.
Aqui é o “Rio Içana”, afluente grande do Rio Negro que tem também diversos afluentes, entre os quais o “Rio Ayari”, onde tem 12 comunidades católicas, as outras 9 são no Médio Rio Içana.
O povo nos acolheu muito bem, desde o começo. Preciso de traduto- res quase sempre, poucas comunidades entendem bem o meu português e a tradução, às vezes, é uma luta e uma festa, pois em algumas comunida- des quase ninguém fala bem o português e todo mundo ajuda a traduzir. Quando estou nas comunidades, participo das atividades programadas e a vida deles é muito comunitária, como as refeições da manhã e da noite e nas festas, tudo junto.
O povo vive da roça de mandioca, pimenta, abacaxi, da pesca, da caça e da coleta de muita coisa da floresta, especialmente frutas, desde o açaí, umari, umiri, buriti, cupuaçu, bacaba, patauá, abiu, inajá, fruta pão, araçá, ingá, etecétera. Há um pouco de banana, laranja, limão, goiaba, cana, aba- cate, manga...
A base da alimentação é a mandioca, o peixe e a pimenta. Tem sempre e muita pimenta, a farinha, o beiju, a tapioca... Tem diversos animais de caça e diversos tipos de peixe. Tem muitas cobras, onças que não vejo.
As comunidades/aldeias aqui são umas clareiras na mata, nas beiras dos rios, nos lugares mais elevados, pois aqui é uma grande planície, muito alagada, poucos lugares altos. Neste ano uma comunidade ficou totalmente inundada com as casas todas inundadas, se deslocaram por uns 15 dias para um lugar próximo mais elevado, outras comunidades ficaram quase completamente alagadas e outras ficam em lugares altos. Formam-se os “Igapós”, que é a inundação da floresta, diferente dos “Igarapés”, que são afluentes dos rios maiores.
Muitos recebem salários, como os professores e agentes de saúde, alguns recebem aposentadorias, muitas mulheres recebem o bolsa família, também fazem diversos artesanatos como cestarias e cerâmicas, outros vendem farinha, breu e outras coisas. Mas gastam muito com energia solar e combustível das “rabetas” e motores de canoas, voadeiras, bongos. Aqui na sede e em pou- cas comunidades têm gerador elétrico à base de óleo diesel que a população paga, às vezes quebra o motor e ficamos assim. Painel solar, baterias é muito caro. O combustível de gasolina e óleo diesel é muito caro e gasta-se muito no transporte, consome grande parte dos recursos da população.
Para ter uma ideia, nosso motor de 40 HP, consome em torno de 600 litros de gasolina desde a saída do posto em São Gabriel até chegar à última comunidade e voltar. A gasolina está a quase R$ 8,00, e mais o óleo 2T que deve acrescentar na gasolina. A “rabeta” que é um motor de 5 a 8 HP, conso- me muito menos, mas demora até 9 dias para chegar a última comunidade nossa, e nós fazemos isso em mais ou menos 3 dias.
Aqui os rios são as estradas, não há nenhum caminho de terra para ir de uma comunidade a outra, tudo pelas canoas, voadeiras, botes. Já me acostumei a viajar nos rios, até aqui tudo bem e tudo muito bonito, rios, florestas, chuvas, sol, calor, o povo, as povoações, tudo encanta. Acostumei--me bem com tudo e com a alimentação também. Tenho me entrosado razoavelmente com o povo aqui que tem atividades comunitárias, poucas coisas individualmente.
Quando tem internet, acompanho os acontecimentos do mundo fora, da Igreja. Em oração sofrida pelo povo palestino que sofre o genocídio em Gaza e o drama das outras guerras, pela arrogância do imperialismo estadunidense, o drama de nossa extrema direita nazifascista e entreguista, política e religiosa, o problema climático...
A vida pastoral é muito simples. Fazemos a “Itinerância”, visitas, às co- munidades quatro vezes ao ano. Chegamos à tarde, nos instalamos, pendu- ramos as redes e guardamos as bagagens nos lugares que eles determinam, tomamos um “Xibé” (farinha em água), depois banho no rio, a “Quinhapira” (jantar de peixe com pimenta, mais beiju, farinha e outras coisas), conversamos com a comunidade, sempre uma formação/pequeno estudo bíblico ou eclesial, descansamos, no outro dia cedo levantar, banho no rio, mingau (farinha cozida na água), às vezes tem café, bolachas, etc., após isso são realizadas as confissões, a missa, o almoço, outra formação/estudo, despedida e pegamos o bote/voadeira e vamos para a próxima comunidade.
Agora estamos na Itinerância, realizando o curso na primeira região, são quatro dias, umas sessenta pessoas participaram, depois umas quarenta e cinco, no almoço e no jantar umas 90 pessoas de cinco comunidades, a maioria da anfitriã, Tapira Ponta. Terminando aqui prosseguiremos com as visitas e mais o curso em duas regiões do Rio Ayari. Aqui está com internet nova da escola, mas muito fraca, não consigo abrir nenhum vídeo.
Duas vezes por ano realizamos um curso de três ou quatro dias, e um Conselho Paroquial em cada uma das três regiões: Médio Içana, Baixo Aya- ri e Alto Ayari. As seis ou sete comunidades de cada região enviam algumas pessoas, mas nem todas conseguem, tem participado em média 30 pessoas em cada uma das regiões. Sempre precisa tradução.
Enquanto estou na sede tem missa aos domingos e em algumas festas, e missa diária na casa das Irmãs Salesianas que aqui vivem. Uma das irmãs, que é enfermeira, vai a muitas itinerâncias, com atenção à saúde, injeções, remédios etc., as outras ficam em casa, uma dá aulas na escola, realizam o “Oratório” toda semana, que são jogos e brincadeiras e lanche com as crianças e adolescentes, há muita presença e participação. Temos boas re- lações com as irmãs. Após a missa, às 6 horas da manhã, tomamos café e volto para o almoço, a casa paroquial fica a uns 300 metros, muito perto.
O nosso bispo Dom Vanthuy fez agora em julho/agosto visita pastoral por 15 dias. Visitamos todas as comunidades, foi muito bom, teve crisma em algumas, reunião de lideranças nas três regiões e se fez alguns encaminhamentos. Dom Vanthuy é muito próximo de nós e do povo aqui, fez bem a todos nós.
Os encontros do clero diocesano acontecem duas vezes por ano, no retiro espiritual, na quarta semana da quaresma, e em novembro, na Assembleia ou Conselho Diocesano de Pastoral.
Eu faço serviço de secretaria, anoto nos livros de batismo, casamento, crisma, primeira eucaristia, lavo minhas roupas, faço um pouco de limpeza na casa, pago uma pessoa para ajudar na limpeza alguns dias, cuido de ga- linhas, pintinhos e patos, é uma diversão e um trabalho.
Aqui chove muito e sempre faz calor, exceto algumas noites na Itinerância. A rede pendurada debaixo de uma cobertura de folhas de palmeiras ou zinco, em local aberto às vezes esfria e tem que buscar agasalhos, fora isso precisamos de poucas roupas.
Minha saúde está boa, não tomo nenhum remédio continuado, tive umas encrencas que logo foram resolvidas e a vida segue, já fiz meus 70 anos e em dezembro faço 40 de ordenação presbiteral, de diácono já completei os 40, tudo maravilha, mas é igual a potência do motor de nossa voadeira, pode enguiçar a qualquer hora, mas até aqui o Senhor nos conduziu.
Procuro ser sinal de Cristo por aqui, sobretudo, perceber os sinais de Cristo na vida do povo e perceber neles o Cristo. Minha diocese de origem me dá uma côngrua e já estou aposentado no INSS e algumas pessoas nos ajudam, aplico tudo na vida e na missão, de graça recebi, de graça devo partilhar.
Pe. João Paulo Carvalho e Silva – Arquidiocese de Teresina/PI
Sou Padre João Paulo Carvalho e Silva que pertenço a arquidiocese de Teresina, e atualmente coordena- dor arquidiocesano da Pastoral do Povo da Rua.
A primeira experiência que tive em um trabalho mais presente com a população de rua foi quando eu estava estudando doutorado em Lisboa, Portugal, onde eu me inscrevi para ser voluntário da comunidade vida e Paz, no ano de 2008.
Depois quando cheguei a Teresina, em 2011, convidei no final de uma missa aos paroquianos da paróquia onde eu estava trabalhando a me ajudarem a dis- tribuir um jantar para as pessoas de rua no centro da cidade de Teresina. Muitas pessoas se prontificaram de colaborar nessa missão e assim surgiu a Pastoral do Povo da rua em nossa arquidiocese.
A Pastoral do Povo da rua é inspirada pelo compromisso cristão de acolher, promover e defender a vida; atua como um braço essencial da Pastoral do Povo de Rua, desenvolvendo ações que unem solidariedade, espiritualidade, formação e dignidade humana. Nossa missão é ser presença efetiva no cuidado integral das pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social, oferecendo oportunidades reais de reconstrução de trajetórias.
Ao longo dos anos, consolidamos um espaço de qualificação profissional e convivência, conhecido como Casa de Formação e Acolhida, que foi um colégio cedida pela secretaria de educação do estado em 2020, quando iniciou a pandemia da Covid. Este colégio estava sem uso e o transformamos em uma casa de acolhimento. Neste local, desde o início, diariamente são realizados cursos, oficinas e atividades terapêuticas. Nesse ambiente seguro e humanizado, nossos 25 assistidos participam de terapias ocupacionais, rodas de convivência, acompanhamento indi- vidual e atividades que fortalecem a autonomia, o bem-estar emocional e o desen- volvimento de habilidades sociais.
Nossa atuação nas ruas é contínua. Semanalmente, equipes de voluntários e agentes pastorais saem ao encontro dos irmãos e irmãs em situação de vulnerabilidade, levando quentinhas, escuta, oração e acompanhamento espiritual. Além da presença fraterna, oferecemos formação catequética para aqueles que desejam iniciar ou retomar sua caminhada de fé, preparando-os para receber os sacramen- tos do Batismo, 1a Eucaristia e Crisma.
A Pastoral do Povo da rua também mantém um trabalho fundamental de encaminhamento social, com uma equipe multidisciplinar formada por assistente social, psicólogos e colaboradores capacitados. Esses profissionais realizam cadastro, orientação e apoio na inclusão dos assistidos em benefícios sociais, contri- buindo para a superação das vulnerabilidades que os afastam de direitos básicos. No campo da formação profissional, cultivamos parcerias sólidas com ins- tituições como o Instituto Federal do Sul de Minas, CNBB, SENAC, Prefeitura e outras organizações comprometidas com a transformação social. Por meio dessas articulações, oferecemos cursos, oficinas, certificações e oportunidades que ampliam as possibilidades de inserção no mundo do trabalho.
Outro pilar essencial de nosso trabalho é a Cozinha Solidária, responsável pelo fornecimento diário de alimentação nutritiva e preparada com cuidado para nossos assistidos e para aproximadamente 30 pessoas da vizinhança do colégio que são vulneráveis e participam diariamente de nossa mesa fraterna. O alimento, para nós, é mais do que sustento — é expressão concreta do Evangelho que se torna gesto, cuidado e comunhão.
A vida espiritual ocupa lugar central em nossa missão. Celebramos missas dominicais, momentos de oração e convivência fraterna que renovam a esperança, fortalecem vínculos comunitários e reafirmam nossa identidade como obra de fé, serviço e amor.
A Pastoral do Povo da rua segue avançando graças à união de voluntários, parceiros, doadores e instituições que acreditam na força do acolhimento e da promoção humana. Seguimos firmes, movidos pelo desejo de construir caminhos de dignidade, justiça e vida plena para todos.
Pastoral do Povo da rua, temos como palavras chaves: Acolher. Evangelizar. Promover. Transformar.
Diác. Lindolfo Euqueres – Irz. de Charles de Foucauld – João Pessoa, PB
Irz. Marcos, foi membro da Fraternidade dos Irmãozinhos de Jesus – Charles de Foucauld. Na- tural de Reims, na França, fez o noviciado em El Abiodh, na Argélia, com Milad Aissa, mestre de no- viços das primeiras gerações, da mesma turma do saudoso Irz. Francisco Pacheco.
A pedido de René Voillaume, fundador da Fraternidade, em seu estágio anterior aos estudos de Filosofia e Teologia, nos primeiros anos da década de 1950, ofereceram-se para ir ao Vietnã acompanhar e contribuir na organização das aldeias que se formavam em plena selva para abrigar populações inteiras com milhares de pessoas que migravam do norte dominado pelo regime comunista em direção ao sul do país.
Após os estudos em Toulouse/França, Marcos foi ordenado padre, vindo morar no Brasil, na primeira Fraternidade no ABC Paulista, na Vila Palmares, com Irz. Francisco (Chico) Pacheco, Irz. Serafim Moura e Irz. Guido Norel, e outros postu- lantes. Como operários e contemplativos, os irmãos seguiam sua vocação da vida escondida de Jesus em Nazaré, em pleno período da ditadura e das primeiras greves dos metalúrgicos, lideradas por Lula (Luiz Inácio da Silva), quando Marcos, sentiu forte apelo para a evangelização explícita no engajamento pastoral das comunida- des, chegando a assumir uma paróquia, num bairro operário, ao mesmo tempo que continuou trabalhando como operário numa fábrica por mais de quinze anos.
Este novo contexto pastoral de Marcos naquele período da Fraternidade não fora bem compreendido pelos irmãos, uma vez que o carisma consistia no anonimato radical da vida de Jesus em Nazaré, pela via contemplativa.
Contudo, Marcos, manteve-se extraordinariamente pobre, humilde, discreto, fiel à espiritualidade da Fraternidade.
Unido aos irmãos, conseguiu vencer barreiras fazendo com que a Fraternidade o reconhecesse fiel ao carisma e apoiaram-se mutuamente.
Quando em 1976, Irz. Chico abre uma nova Fraternidade no sub-bairro do Alto do Céu, na periferia de João Pessoa/PB, logo, Marcos também redefine seu itinerário e segue para o Nordeste, para estar perto dos irmãos com o mesmo in- tuito de apoiarem-se mutuamente.
Todavia, não ficou na capital paraibana. Acolhido por Dom Marcelo Car- valheira, Marcos se instala na Diocese de Guarabira/PB, no pequeno distrito de Logradouro de Caiçara.
Com uma equipe do Clero na defesa dos direitos dos trabalhadores rurais, já na condição de pároco em Caiçara, ele optou por morar no pequeno distrito de Logradouro, a seis quilômetros de distância, trajeto que percorria quase que diariamente numa bicicleta, debaixo de chuva e sol.
Graças ao seu trabalho unido à comunidade, fortaleceram-se as lideranças sindicais, agricultores ocuparam terras improdutivas, a vida comunitária das comunidades eclesiais ganhou muita força.
Assim, Marcos, por quase duas décadas, juntamente com os agricultores da região, fez-se agricultor novamente, como o fora naquele período da juventude no Vietnã.
Na luta pela conquista da terra, no assentamento Maniçoba/Logradouro/PB, muitas famílias conseguiram plantar, construir, vender seus produtos e crescer economicamente.
Em 1995, Marcos, fez sua páscoa definitiva, com extrema simplicidade e pobreza evangélica, atento às novas descobertas da exegese e da Leitura Popular da Bíblia. Com seu temperamento de estrutura nervosa, espírito crítico e de humor peculiar trazidos de sua pátria mãe, viveu autenticamente sua vocação como Ir- mãozinho de Jesus e igualmente o seu ministério presbiteral, à luz do Evangelho e da teologia latino-americana da libertação.
Como sinal de gratidão pela sua presença e sua dedicação à vida da comu- nidade, a atual cidade de Logradouro, hoje emancipada, para fazer memória co- loca em primeiro lugar nas intenções das missas o nome de Padre Marcos duran- te todos estes anos desde a sua páscoa. Nisto a Câmara Municipal de Logradouro instituiu a data 17 de julho, data de seu falecimento, como feriado municipal reli- gioso, em sua homenagem pelo seu testemunho de fé e dedicação à comunidade.
Dom Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist. – Arquidiocese de São Sebastião do
Rio de Janeiro, RJ
Com fé e esperança cristã, comunicamos a Páscoa de Monsenhor Gilson José Macedo da Silveira, ocorrida na manhã desta segunda-feira, 1º de setembro de 2025, que partiu para o abraço do Deus da Vida, Criador do Céu e da Terra, com a serenidade de quem viveu intensamente o Evangelho.
Pastor humilde, mestre generoso, amigo fiel
Homem de grande cultura, inteligência brilhante e visão atualizada da sociedade, monsenhor Gilson jamais se afastou da simplicidade e da humildade, virtudes que marcaram cada gesto de sua vida sacerdotal. Bastava ver seu quarto em sua Paróquia e sua simplicidade no dia a dia. Mesmo com toda sua intelectu- alidade, sua principal pregação foi sempre a própria vida, espelho do serviço por amor a Deus e ao próximo.
Discreto sobre si mesmo, preferia gastar palavras para falar de quem mais amava: Jesus Cristo. E isso transparecia não apenas em suas homilias e ensina- mentos, mas, sobretudo, no testemunho de vida. Diversas pessoas que com ele conviveram descrevem-no como um verdadeiro amigo e irmão, sempre presente com uma palavra oportuna, um gesto acolhedor ou um silêncio cheio de sabedo- ria. Testemunham seu tempo nas paróquias e sua missão como vigário episcopal. Era um homem cuja presença inspirava confiança e paz. Mesmo diante das dificuldades, surgia com a calma de sempre, transmitindo força e coragem aos que o rodeavam. Para muitos, ele foi e continuará sendo a figura viva de Cristo: bondoso, transparente, firme e profundamente comprometido com o Evangelho.
Eu confiei a ele a missão de visitar e ajudar os padres.
Pastor sensível e próximo do povo, monsenhor Gilson se dedicou a fortale- cer pastorais, movimentos e diversos espaços de evangelização.
Sempre disposto a ouvir, buscava a opinião dos outros não por formalidade, mas por acreditar verdadeiramente no diálogo e na construção fraterna das soluções — mesmo nos momentos mais difíceis.
Sua atuação firme e serena foi referência para o clero, especialmente na for- mação dos futuros sacerdotes. Como educador e guia espiritual, soube ensinar não apenas os fundamentos da fé, mas também valores humanos e sociais, ajudando muitos a viverem com mais dignidade, esperança e compromisso cristão.
Mais do que um mestre, foi pastor da simplicidade. Com humildade própria das grandes inteligências, dedicou-se com zelo às mais diversas missões confiadas a ele, sempre movido pela caridade pastoral. Sua presença nas comunidades, en- contros e decisões era sinal concreto da ação de Cristo Bom Pastor.
Agradecemos a Deus por tudo o que monsenhor Gilson fez pela nossa Ar- quidiocese: pela formação do clero, pelo incentivo constante à evangelização, pela organização pastoral e, sobretudo, por sua presença humilde e serena nas horas mais difíceis. Sua vida é uma bênção e uma honra para a Igreja do Rio de Janeiro.
Formação acadêmica
Natural do Rio de Janeiro, nascido no bairro de Botafogo em 11 de abril de 1933, monsenhor Gilson José Macedo da Silveira foi filho de Nemésio Silveira e Angélica Macedo Silveira. Desde criança, sentiu o chamado ao sacerdócio e in- gressou, aos 12 anos, no Seminário Arquidiocesano de São José, em 1945, onde concluiu os estudos fundamentais e médios até 1950.
Dando continuidade à formação, cursou Filosofia no Seminário Maior entre 1951 a 1953. No mesmo ano, seguiu para Roma, onde estudou Teologia na Pontifí- cia Universidade Gregoriana. Lá, recebeu o diaconato em 28 de outubro de 1956 e, meses depois, foi ordenado presbítero pelo Cardeal Luigi Traglia, na Basílica dos Santos Doze Apóstolos, no dia 17 de fevereiro de 1957.
Além dos estudos teológicos, buscou formação em outras áreas. Cursou Re- lações Humanas no Instituto Superior de Relações Humanas e Jornalismo na Uni- versità Internazionale degli Studi Sociali, também em Roma. Tornou-se doutor em Teologia Sistemática com a tese “Experiência e conhecimento de Deus em M.T.L. Penido”, e publicou diversas obras, como “Seminário Hoje”,“Diáconos Casados”,“O conhecimento de Deus e sua experiência”, “Teodiceia e Analogia”. Poliglota, domi- nava várias línguas: italiano, francês, inglês, espanhol, latim e grego bíblico.
Um educador apaixonado pelo Seminário
De volta ao Brasil em 1959, Padre Gilson passou a atuar no Seminário de São José como professor e, posteriormente, como vice-reitor. Em 1974, assumiu a reitoria, cargo no qual se destacou por sua inteligência, sensibilidade pastoral e capacidade de liderança.
Seu trabalho como formador foi fundamental em um tempo de grandes mu- danças na Igreja, especialmente durante e após o Concílio Vaticano. Soube condu- zir o Seminário com equilíbrio e fidelidade às orientações da Igreja, promovendo a vida comunitária e o amadurecimento vocacional. Era um reitor presente, atento aos seminaristas e eloquente ao aplicar a Palavra de Deus à vida concreta.
Por sua dedicação, recebeu em 10 de julho de 1963 o título de cônego hono- rário do Cabido Metropolitano, concedido por Dom Jaime Câmara. Anos depois, em 30 de dezembro de 1967, foi nomeado Camareiro Secreto de Sua Santidade pelo Papa São Paulo VI, recebendo o título de Monsenhor.
Professor, pastor e servidor da Igreja
Monsenhor Gilson acumulou vasta experiência como professor, lecionan- do Teologia na PUC-Rio (1968–1981) e Filosofia na Universidade Santa Úrsula (1969–1971). Exerceu também com zelo o ministério de capelão junto às Irmãs Paulinas (1959–1968), às Pias Discípulas do Divino Mestre (1969–1971) e à Co- munidade do Morro da Formiga, na Tijuca (1963–1971 e 1974–1979).
Com espírito pastoral e sensibilidade social, foi assistente das pastorais do Tra- balhador e das Favelas entre 1964 e 1970, membro do Conselho Presbiteral em diver- sos mandatos e coordenador da assistência espiritual aos presbíteros. Atuou como vigário episcopal do Vicariato Suburbano em vários mandatos (1979, 1998, 2001 e 2004), vigário episcopal interino do Vicariato Oeste (1980) e membro da Comissão para o Diaconato Permanente (a partir de 1985). Eu recordo a insistência dele em deixar o cargo de vigário episcopal depois de tantos mandatos para se “dedicar mais amplamente à Paróquia para visitar as casas, os enfermos, atender as pessoas”.
No serviço paroquial, monsenhor Gilson também deixou marcas profun- das. Foi pró-pároco e vigário ecônomo em diversas comunidades, passando pe- las paróquias Nossa Senhora do Amparo e Santa Maria Goretti (1978), Santa Teresa de Jesus (1979), São José de Realengo (1981), São Jerônimo em Coelho Neto (1981–1982), Nossa Senhora da Saúde em Curicica (1989) e São Mateus em Oswaldo Cruz (1993).
Três décadas à frente da Paróquia São João Evangelista
Foi na Paróquia São João Evangelista, em Oswaldo Cruz, que monsenhor Gilson exerceu seu mais longo e frutuoso pastoreio. Assumiu a paróquia em 3 de junho de 1988 e nela permaneceu por 32 anos. Com o coração de pastor e a sabe- doria de mestre, fortaleceu pastorais, incentivou os movimentos e promoveu um espírito de partilha e comunidade.
Ao completar 87 anos, e já enfermo, em 2020, pediu a renúncia do ofício e passou a residir por opção na Casa do Padre que sempre elogiava e agradecia, mantendo-se ativo na coordenação da assistência espiritual aos presbíteros da Arquidiocese do Rio de Janeiro.
Gratidão pela vida e missão
Monsenhor Gilson foi um grande colaborador da Igreja e um sacerdote ad- mirado por seus irmãos no ministério. Agradecer a Deus por sua vida e missão é um gesto de gratidão que envolve toda a Arquidiocese do Rio de Janeiro. Reco- nhecemos, com profundo respeito, os dons que o Senhor lhe concedeu ao longo de tantos anos de serviço fiel.
Sua trajetória nos faz recordar a beleza da vocação sacerdotal. O padre é dom para o povo de Deus: é presença do amor divino que se torna visível por meio de gestos, palavras e atitudes. Escolhido entre os homens, o sacerdote é chamado a servir, a cuidar, a conduzir e a sustentar o povo na fé, sendo sinal do Cristo Bom Pastor em meio ao rebanho.
Monsenhor Gilson viveu esse chamado com generosidade e entrega. Susten- tado por uma vida de oração e busca constante da santidade, levado pela espiri- tualidade de Charles de Foucauld, foi verdadeiro facilitador do encontro pessoal com Cristo. Antes de qualquer tarefa, colocou o coração a serviço, com humildade e sabedoria, tornando fecundo o seu ministério sacerdotal.
Em nossa arquidiocese, temos a alegria de contar com muitos padres que se doaram – e continuam a se doar – pelo Reino de Deus. Hoje, agradecemos de modo especial pela vida e vocação de monsenhor Gilson. Louvamos a Deus por tudo o que ele realizou: na formação do clero, no incentivo à evangelização, na organização pastoral e, especialmente, por sua presença serena e humilde nos momentos difíceis. Neste primeiro dia de setembro à tarde – segunda-feira –, por volta das 17h,
seu corpo chegará à Igreja Matriz da Paróquia São João Evangelista, em Osvaldo Cruz quando se iniciarão as missas a cada hora e meia presidida e concelebrada pelos sacerdotes gratos a Deus pela vida e missão desse grande homem de Deus.
As celebrações continuarão amanhã, terça-feira, dia 2 de setembro quando a 1a Carta de São Paulo aos Tessalonicenses nos fala de Jesus Cristo que “morreu por nós para que, quer vigiando nesta vida, quer adormecidos na morte, alcan- cemos a vida junto dele. (1Tes 5, 10). Nesta terça feira, celebraremos a missa de exéquias na Paróquia São João Evangelista de Osvaldo Cruz às 14h e de lá iremos para a Quadra da Irmandade São Pedro, no Cemitério São Francisco Xavier no Caju, onde ele será sepultado junto com tantos sacerdotes que serviram a esta Igreja Arquidiocesana à espera da Ressurreição final.
Aos familiares, aos antigos paroquianos, aos amigos e a todos que choram a partida de nosso grande irmão o nosso abraço fraterno e unidade na certeza da vida que não termina com a morte.
Que Deus o acolha em sua glória, e que ele possa contemplar eternamente Aque- le a quem amou, serviu e anunciou com tanto fervor. Que a luz perpétua o ilumine. Descanse em paz nos braços do Senhor caríssimo amigo e irmão, Mons. Gilson.
Prof. Dr. Fernando Altemeyer
Junior, PUC-SP
Angélico fez sua páscoa hoje no coração da Semana Santa, aos 92 anos. Nosso querido dom tinha como mote episcopal a frase: Deus é amor. Dom Angélico Sândalo Ber- nardino completara 92 anos em 19 de janeiro. Nascera em Saltinho de Piracicaba, em 1933, em um lar de muito amor, gerado por Duilio e Catarina. Conversar com dom Angélico me transportava aos tempos de Santo Agostinho, e me via ouvindo o teólogo da graça em suas Confissões, livro X, 6: “Mas, que amo eu quando te amo? Não uma beleza corporal ou uma graça transi- tória, nem o esplendor da luz, tão cara a meus olhos, nem as doces melodias de variadas cantilenas, nem o suave odor das flores, dos unguentos, dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão suscetíveis às carícias carnais. Nada disso eu amo, quando amo o meu Deus. E contudo, amo a luz, a voz, o perfume, o alimento e o abraço, quando amo o meu Deus: a luz, a voz, o odor, o alimento, o abraço do homem interior que habita em mim, onde para a minha alma brilha uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não destrói, de onde exala um perfume que o vento não dissipa, onde se saboreia uma comida que o apetite não diminui, onde se estabelece um contato que a sociedade não desfaz. Eis o que amo quando amo o meu Deus.”
Cinco lições angelicais:
Primeira: Dom Angélico sempre falava com audácia carregada de amor. O amor que recebeu dos pais e das irmãs. Conhecia o amor pessoalmente. E amava e era amado. Amamos Angélico por nos ensinar a falar de pais e mães, de família, de irmãos e sobretudo de Jesus, o Nazareno. Sempre soube que além do nome angelical tinha um sobrenome de perfume: Sândalo. Ah! Vale lembrar que morou de- pois de aposentado no Jardim Primavera! São muitos sinais de Deus em sua vida.
Segunda: dom Bernardino amou as lutas e os compromissos do povo e da Igreja Povo de Deus no caminho ao lado dos empobrecidos. Sempre havia um abraço forte, um beijo no rosto ou na testa dos anciãos e jovens e até um carinho personalizado para as pessoas mais simples e os/as trabalhadores/as.
Terceira: Aprendemos dele a colocar no centro das missas e das pastorais os últimos da cidade e da sociedade. Ninguém se sentia excluído, pois na missa e as orações de Angélico, como um outro Cristo, sempre cabiam todos e todas. Esse amor sem fronteiras nem paredes. Amor sinodal. Amor radical. Amor rizomático. Amor que construiu pontes e não se fixava insensível diante das normas e leis (mesmo aquelas dos funcionários religiosos de tantas cúrias e burocracias) que sufocavam e enrijeciam os corações. Angélico era homem livre, diante de uma criança e diante do papa de Roma. Amor em gestos e palavras com coragem, sem perder a ternura jamais. Fora do amor, ele nos dizia que não há salvação. Amamos a esperança rebelde e teimosa. Dom Angélico sempre traz marcado a fogo a me- mória de profetas como dom Paulo Arns, dom Luciano Mendes, dom Helder, Frei Gorgulho, padre Toninho orionita, Santo Dias da Silva, Madre Cristina do SEDES SAPIENTIAE, Alexandre Vannuchi Leme, Madre Maurina, Manoel Fiel Filho, pa- dre Ticão, Carlos Strabelli e tantas gentes que marcaram a sua vida já em Ribeirão Preto, depois em São Miguel Paulista, na amada Brasilândia (que ele as vezes cha- ma de Brasalândia – o fogo de Deus), e de forma esponsal na sua Blumenau, que ele chamava sempre de sua Bela e Santa Catarina. Dom Angélico pouco falava de si. Teria feito terapia para evitar o narcisismo clerical ou era dom pessoal? Seria uma reza forte mergulhando em seu interior para saber-se conhecedor de suas belezuras bem como de seus pecados e fragilidades? Creio que sempre buscou Deus nas estradas e meandros da vida, sem imposição ou arrogancia. Ao buscar Deus, Angélico não se perdia. Deus se deixa encontrar e lhe confidenciava segre- dos de amor. Ao falar de companheiras/os de viagem, fez a travessia nas águas do mar da vida conduzido pelo Espírito do Ressuscitado. Com ele cantei a melodia do Roberto Carlos, emocionado: Meu querido, meu velho, meu amigo! E chorei quando padre Pedro Ricardo gravou um salmo que ele declamava como poeta vigoroso. E quem não ficava pasmo ao ouvir as bem-aventuranças de Mateus?
Quarta: Amamos ver em Angélico seu modo despojado de ser bispo. Papa Francisco tem um jeito de Angélico ou seria Angélico que tinha jeito de Francis- co? Nenhuma atenção às pompas e títulos. Havia sempre o cuidado reverente e a emoção profunda na celebração da Eucaristia, mas sem brilhos nem lantejou- las e, sobretudo sem clericalismo narcisista de tantos clérigos emplumados. Seu cajado foi sempre o braço amigo de um padre que veio de Ribeirão Preto para cuidar das ovelhas perdidas e não permitir a sanha voraz dos lobos, do capital e dos opressores. Sua mitra foi sempre o carinho e o afago de algum operário ou mesmo trabalhadora. Seu anel foi sempre a aliança com os pobres. Dom Angélico foi ordenado bispo para viver “anzolado” com os pequeninos. A singeleza de sua presença deixava o Cristo resplandecer. Sem magia nem feitiçaria. Só a pura graça divina agindo na comunidade. Gratuitamente. Angélico sempre se entusiasmava quando falava do seu amor por Jesus. Amor apaixonado. Todo de Deus. Tocava nossos corações e mentes com a sua palavra jornalística bem burilada e direta. Não havia firulas nem meias-palavras. Não havia diversionismo nem cumplicidade com os ricos e opressores. Dom Angélico sempre foi direto ao ponto: pro- clamar o Evangelho a tempo e contratempo. Basta dizer que o padre Júlio Renato Lancellotti o tem como um pai espiritual, assim como dezenas de padres e leigos e religiosas pelo Brasil todinho. Angélico falava de Deus falando de corpos, de de- sejos, de pães, de trabalho, de caminhadas, de projetos sociais e das utopias humano-divinas. O Cristo de Angélico foi sempre o Jesus Ressuscitado que caminhava animando-nos, encorajando-nos, alegrando-nos, desejando ser pão mastigado e tornar-se corpo de Cristo em nossa carne e em nossos corações. Por seu jeito de viver entendemos o porquê de Angélico ter sido nomeado em 12/12/1974 para assumir como bispo auxiliar paulistano pelo então Papa São Paulo VI sendo cria- do bispo titular de Tambeae, região da Bizancena, ao norte da África. Impressiona saber quem havia sido bispo da mesma titularidade episcopal antes de dom An- gélico? Foi Santo Oscar Arnulfo Romero y Galdamez, mártir de El Salvador. Que inusitada conexão amorosa ser Angélico o imediato sucessor do bispo mártir da América Latina! Escolhido pelo cardeal para ser seu bispo auxiliar na Zona Leste e depois na Brasilândia onde ele deixou plantado seu coração. Só o amor explica! Nem Freud conseguiria. Enigma celeste providencial! Na catedral da Sé foi sagra- do bispo em 25/01/1975 na festa da cidade. Dupla festa. Ele tinha 42 anos. Ficou em São Paulo até completar 67,2 anos.
Quinta: Recordo sua presença profética do ano 2000 até 2009 como bis- po de Blumenau, SC. Resignou com 76 anos. Pode participar da IV Conferencia Geral do Episcopado da América Latina em Santo Domingo, Rep. Dominicana em 1992; participou do Sínodo Especial das Américas, em Roma em 1997; parti- cipou da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina em Aparecida, Brasil, em 2007. Foi apoio crucial para apoiar a Madre Maurina, torturada pela ditadura. Acompanhou com coragem a luta para punir os assassinos do operário cristão Santo Dias da Silva e do jovem geólogo da USP Alexandre Vannuchi Leme, morto pelos torturadores do DOICODI em São Paulo. Foi redator do corajoso jornal O São Paulo no enfrentamento da ditadura e da censura. Soubemos amar nosso amigo e irmão Angélico ao final de sua vida com as imensas fragilidades, internações frequentes e dramáticas operações no Hospital Santa Catarina, sem- pre acompanhado da irmã Carmen Julieta e do seu fiel escudeiro padre Toninho. Tantas dores e tantas ofertas a Deus, mas ele sempre trocava seu coração pelo Coração de Jesus.
Amamos Angélico por essa sua personalidade amorosa, por seu carisma e audácia jornalísticos, pela clareza política e, sobretudo pela leveza espiritual.
Conclusão inconclusa: Amamos Angélico por seu amor radical a Jesus. Amamos Angélico por seu amor ecumênico à Igreja de Jesus. Amamos Angélico por que esse amor nos conecta com o Deus Abbá-papaizinho, fonte de compaixão. Amamos Angélico, pois ele caminhou ao lado do papa Francisco com a convicção fraterna de um novo modo de ser Igreja missionária e sinodal. Amamos Angélico pois acreditava nos leigos e nas mulheres. Graças a Deus sentimos esse perfume do bispo Sândalo fazendo-nos inspirar o perfume de Cristo na unção da Graça Divina. Quem não sente o perfume de Jesus na companhia de Angélico? Angé- lico com uma bateria carregada em mil volts divinos fará falta! Damos graças a Deus por sua fecunda vida de 92 anos a serviço do Reino no seguimento de Jesus. Foram 65 anos como presbítero e 50 como bispo católico. Ficaremos com o re- frão que sempre brotava de seus lábios: “Esperança sempre! ado. ado. ado. Muito Obrigado”.
Tenho o coração despedaçado, mas nessa semana Santa, confio que Jesus fará a reparação interior de tantos de nós para nos encontrar ressuscitados no domingo.
Feliz passagem, Angélico amado. Feliz salto pascal nos braços do Amor do teu Amado Paizinho. Fique com Deus. Interceda pelo povo que tanto amaste, aqui em Sampa e na tua bela e Santa Catarina, nas terras floridas de Blumenau. Viele Danke.
Frei Betto
A Exortação Apostólica Dilexi Te (“Eu te amei”), do Papa Leão XIV, ressoa como sopro de esperança e significativa reafirmação do Evangelho vivido a partir dos pobres. No Brasil, onde a desigualdade social tem rosto, cor e território — o rosto das mulheres negras periféricas, o corpo exaurido dos trabalhadores informais, os povos indígenas ameaçados, os jovens de favelas mortos pela violência —, o conteúdo do documento não chega como novidade, e sim confirmação e estímulo da caminhada histórica da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
Nesta “Exortação Apostólica”, Leão XIV desmascara todo o discurso que con- sidera a existência dos pobres uma fatalidade e enfatiza a meritocracia como via de saída da pobreza. Escreve o papa:“Os pobres não existem por acaso ou por um cego e amargo destino. Muito menos a pobreza é uma escolha para a maioria deles. No entanto, ainda há quem ouse afirmá-lo e, assim, demonstra cegueira e crueldade. Entre os pobres há também, obviamente, aqueles que não querem trabalhar, talvez porque os seus antepassados, que trabalharam toda a vida, morreram pobres. Mas há muitos homens e mulheres que trabalham de manhã à noite, recolhendo pape- lão, por exemplo, ou realizando outras atividades semelhantes, embora saibam que este esforço servirá apenas para sobreviver e nunca para melhorar verdadeiramente suas vidas. Não podemos dizer que a maioria dos pobres estão nessa situação porque não obteve “méritos”, de acordo com a falsa visão da meritocracia, segundo a qual parece que só tem mérito aqueles que tiveram sucesso na vida.” (14).
A partir do clamor dos pobres, Dilexi Te reafirma que a fé cristã não pode ser separada do amor concreto, da justiça social e da transformação das estruturas que geram miséria e exclusão. Essa mensagem encontra eco profundo na realida- de brasileira, onde as contradições do capitalismo periférico, o racismo estrutural, o patriarcado e a devastação ambiental ferem diariamente parcela significativa de nosso povo e nossa Casa Comum.
Logo nos primeiros parágrafos, o documento recorda: “Deus é amor misericordioso, que se preocupa com a condição humana e, portanto, com a pobreza.”
(16). Essa opção divina tem expressão concreta na conjuntura brasileira. Aqui a pobreza não é abstrata, manifesta-se na fome que ainda castiga milhões de pes- soas, na informalidade que consome as forças de quem trabalha sem direitos, no abandono da juventude nas periferias, no desmatamento que expulsa povos ori- ginários e ribeirinhos.
Quando a Exortação afirma que “Deus guarda em Seu coração aqueles que são particularmente discriminados e oprimidos”, fala ao coração de uma Igreja que já ouviu esse mesmo apelo em Medellín (1968) e Puebla (1979), onde os bispos lati- no-americanos afirmaram a opção preferencial pelos pobres como exigência da fé.
Neste documento, o papa Leão XIV denuncia a “ditadura de uma economia que mata”. Essa frase, tão direta, dialoga com a experiência brasileira de um sis- tema que concentra renda, privatiza bens comuns e precariza vidas. O país mais católico do mundo é também um dos mais desiguais: 1% da população concentra quase 30% da riqueza nacional, enquanto multidões sobrevivem sem acesso à mo- radia, ao saneamento e à segurança alimentar.
Leão XIV lembra que Santo Agostinho, que teve como seu mestre espiritual Santo Ambrósio, insistia na exigência ética de partilhar os bens: “Não é de tua propriedade aquilo que dás ao pobre; é dele. Porque tu te apropriaste do que foi dado para uso comum” (43).
No Brasil, sabemos que a pobreza tem causas históricas: a escravidão, o ra- cismo estrutural, a desigualdade de gênero, o latifúndio e a lógica de exploração que moldou nossa formação econômica. A Exortação desmente as ideologias que justificam a miséria como falha pessoal ou “preguiça”: “A pobreza não é uma escolha para a maioria deles.”
Essa é a linguagem da Teologia da Libertação: reconhecer o pecado não apenas em indivíduos, mas nas estruturas sociais de opressão. Quando o papa fala de “estruturas de injustiça que criam pobreza e desigualdade extrema”, ele legitima décadas de reflexão teológica latino-americana que sempre viu a libertação como transformação das causas e não apenas alívio das consequências.
Para nós, no Brasil, isso significa denunciar o agronegócio predatório que des- trói o Cerrado e a Amazônia, expulsando povos tradicionais; o racismo institucional que criminaliza a pobreza e transforma as periferias em zonas de extermínio; a po- lítica econômica excludente que sacrifica os mais vulneráveis para amealhar sempre mais lucros; a mercantilização da fé, que transforma o Evangelho em produto de consumo e promete prosperidade individual enquanto ignora a injustiça coletiva.
“Não se trata de levar Deus aos pobres, mas de encontrá-Lo ali.” (79) Essa afirmação de Dilexi Te poderia ter sido escrita por Dom Hélder Camara, Pedro Casaldáliga ou irmã Dorothy Stang. Expressa o coração da espiritualidade liberta- dora, para qual o povo não é objeto de pastoral, mas sujeito histórico da libertação. O documento valoriza os movimentos populares — camponeses, urbanos, ecológicos, indígenas, de mulheres — como expressões concretas da busca por justiça. No Brasil, isso significa reconhecer no MST, no MTST, nas centrais sindicais, nas pastorais sociais, nas CEBs, nas juventudes populares e nas organizações negras e feministas o rosto do Evangelho vivo.
Escreve Leão XIV: “Estes líderes populares sabem que a solidariedade con- siste também em “lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de casa, a negação dos direitos sociais e laborais. É fazer face aos efeitos destruidores do império do dinheiro [...]. A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história e é isto que os movimentos populares fazem”. (72)
De fato, os movimentos populares convidam a superar “aquela ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos”. Se os políticos e os profissionais não os ouvirem, “a democracia atrofia-se, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai se desencantando porque deixa de fora o povo na sua luta diária pela dignidade, na construção do seu destino”. (81)
“Eu Te Amei” afirma: “A Igreja deve colocar-se ao lado dos pobres e empe- nhar-se ativamente pela sua promoção integral.” Essa “promoção integral” inclui não só pão e casa, mas o direito à cultura, à fé, à palavra, à participação política.
É nesse sentido que o documento encontra eco nas experiências das CEBs, nas Romarias da Terra e das Águas, na Pastoral da Juventude, nas Pastorais da Terra, Carcerária e dos Migrantes — espaços onde a Bíblia é lida à luz da vida e onde o povo descobre que “Deus está do lado dos pobres”.
No Brasil, muitas vezes tenta-se defender que a fé nada tem a ver com a po- lítica (exceto quando de direita...). Dilexi Te rompe com essa falsa dicotomia ao assinalar que “Não se pode separar a fé do amor pelos pobres.” A fé autêntica não se mede por doutrinas, mas pela prática da justiça.
O papa vai mais além ao afirmar que “o cristão não pode considerar os po- bres apenas como um problema social: eles são uma “questão familiar”. Pertencem “aos nossos”. A relação com eles não pode ser reduzida a uma atividade ou setor da Igreja. Como ensina a Conferência de Aparecida, “solicita-se dedicarmos tempo aos pobres, prestar a eles amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas ou anos de nossa vida, e procurando, a partir deles, a transformação de sua situação. Não podemos esquecer que o próprio Jesus propôs isso com seu modo de agir e com suas palavras.” (104)
A Teologia da Libertação sempre enfatizou que o Reino de Deus é uma utopia que se concretiza na história e desemboca no outra lado da vida, e que a salvação começa aqui e agora, e a evangelização exige transformação social. O documento papal confirma que o amor cristão deve se traduzir em compromisso social, em ações que enfrentem as estruturas da exclusão.
No Brasil, isso implica uma pastoral que vá além do assistencialismo e de- nuncie as causas da fome, participe da construção de políticas públicas, defenda a democracia e os direitos humanos. A fé não é fuga da realidade, mas luz e força para transformá-la.
Algumas expressões da Exortação soam como eco direto das dores e esperan- ças do povo brasileiro: “A opção preferencial pelos pobres gera uma renovação ex- traordinária na Igreja e na sociedade quando somos capazes de ouvir o seu clamor.”
(7) “A opção preferencial pelos pobres, ou seja, o amor que a Igreja tem por eles, como ensinava São João Paulo II, é decisivo e pertence à sua constante tradição, impele-a a dirigir-se ao mundo no qual, apesar do progresso técnico-econômico, a pobreza ameaça assumir formas gigantescas”. A realidade é que para os cristãos os pobres não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo.” (110)
Esses trechos, quando proclamados em nossas comunidades, podem reacender o ardor missionário e pastoral que marcou a caminhada da Igreja no Brasil — aquela que Dom Paulo Evaristo Arns chamava de “Igreja dos pobres e com os pobres”.
A Dilexi Te não é apenas um texto de reflexão, mas um chamado à ação pas-
toral. No Brasil, essa ação pode se traduzir em passos concretos, como a formação bíblico-popular: retomar a leitura orante da Bíblia à luz da realidade, fortalecendo Círculos Bíblicos, comunidades de base e pastorais sociais que atuam junto aos po- bres e marginalizados. E também estimular a economia solidária e ecológica, e pro- mover iniciativas que articulem fé, trabalho digno e cuidado da Criação. Multiplicar a educação popular para a formação da cidadania, de modo a despertar no povo a consciência de seus direitos. Defender os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, reconhecendo neles a voz profética que clama pela Terra e pela vida. E intensificar a presença da Igreja nas periferias, onde as paróquias devem ser centros de solidarie- dade, de partilha e de escuta.
Dilexi Te convida a uma Igreja “em saída”, que abandone o conforto das sa- cristias e caminhe com o povo. No Brasil, onde a pobreza é estrutural e a fé é popular, o documento pontifício chega como reforço e confirmação da Teologia da Libertação, que nos lembra que o amor de Deus é revolucionário, rompe as cadeias da indiferença e denuncia as causas da injustiça.
Ser cristão, à luz dessa Exortação, é estar do lado dos pobres, não por ideo- logia, mas por fidelidade a Jesus, o Pobre de Nazaré. É deixar-se evangelizar pelos simples, lutar por justiça, defender a vida, cuidar da Casa Comum e anunciar que outro mundo é possível e necessário.
Dilexi Te legitima essa “subversão do amor” ao nos recordar que o amor cristão é libertador, porque não aceita a miséria, não se conforma com a exclusão e não se cala diante da opressão.
Tomara que nossas comunidades, inspiradas por este documento papal, si- gam construindo um Brasil mais justo e solidário, onde cada pessoa possa ouvir, não como promessa distante, mas como realidade vivida, as palavras do próprio Deus: “Eu Te amei — Dilexi Te — e continuo Te amando no rosto dos pobres” (Apocalipse 3,9).
Frei Betto é escritor, autor da tetralogia sobre os evangelhos – Jesus Militante (Marcos); Jesus Rebelde (Mateus); Jesus Revolucionário (Lucas); e Jesus Amoroso (João) -, editado pela Vozes, entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org
Fonte do artigo: https://www.paulodavid.com.br/2025/10/frei-betto-co- menta-dilexi-te-documento.html
Marcelo Barros
Muito obrigado pela bela e oportuna exortação Dilexi te sobre o cuidado com os pobres. Sua exortação ganha especial sentido no mundo atual, no qual, o Capitalismo perdeu todas as suas máscaras de sistema minimamente humani- tário. Multidões de migrantes e continentes inteiros como a África se tornaram descartáveis.
Essa exortação é também urgente em uma Igreja na qual muitos grupos con- siderados católicos e a maioria da hierarquia e do clero se divide entre posições de direita e de extrema-direita, uns e outros aprisionados em uma visão de Igreja clerical, autorreferente e saudosa dos velhos tempos de Cristandade. Quem sabe, bispos e padres que não se preocuparam em ler as encíclicas do Papa Francisco, aceitem ler e levar a sério as suas exortações.
A exortação também fará bem a outras Igrejas irmãs. Aqui no Brasil, nesses dias, uma Igreja evangélica conhecida pediu ao Banco Central para abrir um ban- co. E continua considerada Igreja cristã.
A sua exortação é um bom resumo do que uma boa enciclopédia poderia trazer sobre a ajuda aos pobres nos textos bíblicos, nos documentos da Patrologia e de toda a tradição de vida religiosa na Igreja.
Uma das bases da argumentação é a palavra de Jesus: “pobres, sempre tereis entre vós” (Mt 26, 11). Na ceia de Betânia (casa dos pobres), Jesus cita o capítulo 15 do Deuteronômio que legisla sobre o ano sabático, a anistia das dívidas e a liberta- ção dos escravos, para que não haja mais pobres na sociedade. No entanto, como a sociedade sempre encontra formas de manter as desigualdades injustas, é preciso ajudar os pobres, porque entre vós (e isso é uma acusação), sempre haverá gente empobrecida” (Dt 15, 11).
Aliás, o vocabulário bíblico tem três termos hebraicos para designar o pobre. Na maioria dos textos, anaw ou anawin se traduz melhor por empobrecido do que por pobre. Os livros sapienciais falam dos anawin de Jahwé. É a categoria social e política do povo oprimido. O termo ebion tem o sentido de carente, enquanto dal designa a pessoa estruturalmente necessitada de cuidados especiais.
Essa exortação papal me fez recordar da palavra do querido e saudoso Dom Helder Câmara, que, uma vez, o Papa Francisco citou: “Quando eu ajudo os po- bres, me chamam de santo. Quando pergunto por que são pobres, dizem que sou comunista”. Do tempo de Dom Helder para cá, o mundo piorou tanto que, quem sabe, mesmo essa exortação que trata mais do cuidado com os pobres e apenas alude às causas estruturais da pobreza, possa ser acusada de comunista.
Muito obrigado, Papa Leão, pela menção honrosa aos movimentos populares e ao seu manifesto desejo de que a Igreja se coloque na solidariedade concreta e na luta pacífica para vencer as causas estruturais da pobreza.
Por falar nisso, a sua carta traz uma longa lista de coisas boas que, em toda a história, a Igreja Católica fez para os pobres. Recordou a proposta evangélica e fran- ciscana de uma Igreja dos pobres e para os pobres. No entanto, todos nós sabemos que, embora todos esses textos sejam verdadeiros e importantes, no que diz respeito à prática concreta, a hierarquia eclesiástica nem sempre agiu de acordo com esses princípios. Durante a história, os representantes da Igreja se uniram aos impérios colonizadores e legitimaram a violência da conquista, da escravidão e, portanto, da origem da pobreza estrutural da maioria de nossos povos. O Papa João Paulo II pediu perdão pelos pecados de alguns filhos da Igreja, mas todos nós sabemos que aqueles eclesiásticos agiram como representantes da Igreja e endossados por documentos oficiais, que até os tempos do Papa Leão XIII, condenavam todos os movimentos sociais, sindicatos e quaisquer organizações de trabalhadores.
Infelizmente, essa indiferença social e política com a manifestação do reinado divino no mundo continua ainda no DNA de muitos eclesiásticos e espero que a sua exortação provoque verdadeira conversão estrutural e comunitária. A mim, me interpela não apenas a ajudar os pobres e ser solidário, mas a denunciar as causas estruturais da pobreza e a lutar contra as estruturas que, diariamente, a produzem e a multiplicam.
Aparecida, 11 de outubro de 2025
Querido Papa Leão,
Somos mais de quinhentos presbíteros, bispos e diáconos permanentes dio- cesanos e religiosos, brasileiros e provenientes de outros países, que formamos um grupo fraterno, pouco formalizado, que busca seguir a Cristo segundo o Evan- gelho, viver o nosso ministério na Igreja e na sociedade tendo como horizonte o Reino de Deus, colocando nos preferencialmente a serviço dos pobres e da sua libertação integral. Nosso Coletivo se chama Padres da Caminhada.
Ficamos felizes quando o senhor, eleito Papa, escolheu o nome de Leão, por diversas razões, entre elas a de inspirar seu ministério no do Papa Leão XIII, que, atento aos sofrimentos dos operários, publicou a Rerum novarum, dando início, assim, formalmente, à Doutrina Social da Igreja, que se firmou sobretudo nos pontificados de Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Foi motivo de esperança para nós seu compromisso de dar continuidade ao projeto pastoral do Papa Francisco, com o qual nos identificamos profundamente, mesmo com as nossas limitações, fraquezas, incoerências e pecados.
Como latino-americanos, sentimo-nos representados também pelo senhor, que, ainda que norte-americano por nascimento, tornou-se latino-americano por sua longa atividade pastoral no Peru, pátria do querido Gustavo Gutierrez, um dos pais da teologia da libertação, que o senhor não só conheceu pessoalmente, mas do qual se tornou admirador e amigo. Temos a certeza de que o senhor acompanhou com vivo interesse as Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano, desde Medellín (1968) a Aparecida (2007).
Se a Conferência de Medellín tem um Documento sobre a “Pobreza da Igreja”, Puebla faz uma explícita opção pelos pobres, que Santo Domingo reassume, e Apa- recida renova, aprofunda e atualiza diante das antigas e novas pobrezas que ferem a maior parte das nossas populações.
Francisco, o primeiro Papa latino-americano e do Sul Global, testemunhou com vigor, sabedoria e coerência, por palavras e gestos, o amor e a opção da Igreja pelos pobres. Marcantes especialmente a Evangelii Gaudium, a Querida Amazônia, a Laudato si’, a Fratelli tutti.
Um dos seus legados mais preciosos é a centralidade do encontro pessoal com Deus em Cristo na força do Espírito Santo. Como canta Agostinho: “Tarde te amei! Tarde demais eu Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo.” (Santo Agostinho, Confissões 10,27). Como diz Francisco: “Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da autorreferencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro.
Aqui está a fonte da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?” (Evangelii gaudium 8; cf. 94) A comunhão de Cristo com o Pai dá a Jesus uma ilimitada liberdade de si mesmo, das riquezas e dos outros. Rico de Deus, Jesus é o pobre para os pobres! O discípulo missionário, transformado pela fé e pelo batismo, é chamado a viver livre de si mesmo, livre da riqueza e livre em relação aos outros, tornando-se pobre com os pobres e para os pobres, e, con- sequentemente, a entregar-se ao serviço do Reino de Deus e dos seus destinatários privilegiados: os pequenos, os pobres, os pecadores.
O senhor, na comemoração litúrgica de São Francisco, o Poverello de Assis, através da Dilexit te, enriquece a mensagem multissecular da Igreja, provoca-a sa- biamente a crescer no amor pelos pobres, convoca a humanidade a eliminar da face da terra a pobreza desumana e escandalosa.
Por tudo isso, queremos exprimir-lhe nossa viva gratidão por este documen- to profético e promissor, que queremos abraçar de coração, difundir em nossas comunidades, entregar ao conjunto da sociedade brasileira, especialmente aos po- bres, que devem ser os principais protagonistas da luta contra a pobreza injusta e da construção de uma sociedade segundo o projeto de Deus, que enviou seu Filho ao mundo “para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).
Elevamos nossa súplica a Deus para que ele abençoe imensamente sua pessoa e seu ministério a serviço da Igreja e da humanidade, preferencialmente os pobres, sobre cujo serviço seremos julgados quando “o Filho do Homem vier em sua gló- ria, acompanhado de todos os anjos, [e] se assentará em seu trono glorioso. Todas as nações da terra serão reunidas diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa dos cabritos as ovelhas.” (Mt 25,31-32).
Que a graça de Deus nos transforme de tal modo que possamos ouvir as palavras misericordiosas do seu Filho: “Vinde, benditos do meu Pai! Tomai posse do Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era migrante, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso, e fostes ver-me... Sempre que o fizestes a um destes pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25, 34-36.40).
Querido Papa Leão, dê-nos a sua bênção.
Padres da Caminhada
Aparecida, Brasil
Véspera da Solenidade de Nossa Senhora Aparecida
Memória de São João XXIII 63º aniversário da Abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II
Frei Prof. Dr. Inácio José do Vale, PhD
A espiritualidade de São Charles de Foucauld é centrada na imitação de Jesus, vivendo uma vida pobre e simples no estilo do Evangelho. Sua espiritualidade se manifesta na adoração, no abandono a Deus, na busca pelo “último lugar” e na fraternidade universal, o que o levou a ser considerado o “irmão de todos”.
A espiritualidade é um tema de estudo crescente nas grandes universidades, que criaram centros de pesquisa para explorar seu impacto na saúde física e men- tal. Universidades de renome em países como Estados Unidos (Harvard, Duke, Stanford), Alemanha (Munique), Canadá (Calgary) e Reino Unido (Cambridge) possuem centros dedicados ao estudo da espiritualidade, frequentemente desta- cando sua relação com o bem-estar e a saúde, como a diminuição de depressão e mortalidade. O Brasil também se destaca na pesquisa científica nessa área, com instituições como a Universidade de São Paulo-USP, e faculdades de medicina abordando o tema, inclusive integrando-o na formação de profissionais da saúde.
Exemplos de universidades em estudos de espiritualidade:
Harvard, Cambridge, Oxford: Possuem centros de pesquisa em ciência e religião, além de estudos sobre neurociência da espiritualidade e religião.
Duke, Stanford, Universidade da Flórida: Possuem centros de estudos
exclusivos sobre o tema, como a Escola de Medicina de Stanford.
Exemplos de movimentos:
O “Avivamento de Asbury” inspirou outros encontros em instituições como a Ohio State University e a Texas A&M University.
Alemanha: A Universidade de Munique também mantém um centro de
pesquisa sobre o tema.
Canadá: A Universidade de Calgary é outro exemplo de instituição com centros dedicados ao estudo da espiritualidade.
Brasil: Universidade de São Paulo-USP: Realiza pesquisas sobre o nível de
espiritualidade de estudantes universitários e sua relação com a saúde mental.
Faculdades de Medicina: Diversas instituições, como a da UFJF e a da UFMG, abordam a espiritualidade na formação médica, reconhecendo sua im- portância para o cuidado do paciente.
Principais assuntos dos estudos em prol da espiritualidade:
Saúde física: Existem evidências de que a espiritualidade está associada a menor mortalidade e menor uso de medicamentos.
Saúde mental: A espiritualidade é associada a menores níveis de depres-
são, ansiedade e suicídio.
Bem-estar e qualidade de vida: Estudos indicam que a espiritualidade pode aumentar a percepção de bem-estar e a qualidade de vida.
Impacto no corpo: Pesquisas sugerem que práticas espirituais podem in-
fluenciar o cérebro, com aumento de neurotransmissores como a serotonina e en- dorfinas, que estão ligados à sensação de felicidade. A espiritualidade proporciona qualidade de vida, ou seja, saúde física, emocional, mental, social e espiritual.
A vida só tem sentido na dimensão do amor e da espiritualidade. Tal es- piritualidade engajada, praticada na via transcendental e imanente. O amor ao Senhor Deus e ao próximo. A prática da espiritualidade é exercício da bondade, da solidariedade, da comunhão, da unidade, da caridade e do bem-estar indivi- dual e coletivo. Viver o bem e fazer o bem a todos.
Pe. Waldemir Santana, Arquidiocese da Paraíba/PB
A questão social é inerente à missão da Igreja. Não se pode querer que a Igreja que está no mundo e a serviço do mundo viva num estado permanente de alienação. Já teve membro da alta hierarquia da Igreja católica que chegou a afirmar que o Evangelho não tem nada a ver com as questões sociais. Como servidora do Rei- no de Deus, e a exemplo de Jesus Cristo, que procurou fazer a vontade do Pai, a Igreja sempre quis ajudar e promover as pessoas mais pobres da sociedade e construir uma sociedade terna e fraterna.
Ao longo da história, desde os Padres da Igreja, a justiça e o cuidado com os pobres sempre tiveram centralidade na reflexão teológica e pregação. Santos e dou- tores defenderam com muita intrepidez a dignidade e o direito dos pobres. Houve também muitas omissões e tentativas de calar as vozes mais proféticas que se rebelaram contra as injustiças. Hoje, muitos membros da Igreja são rotulados de agitadores, de agirem de forma ideológica ao atuarem nas diversas pastorais sociais.
O documento Rerum Novarum de 1891 abriu a Igreja para a questão social que surgia com a civilização industrial. Depois do Vaticano II, na América Latina, a Igreja, no seu empenho evangelizador, se comprometeu com a defesa dos pobres e a promoção da justiça. Figuras como Hélder Câmara, Oscar Romero e outros figuram na linha de frente de verdadeiros pastores e profetas que lutaram pela vida dos pobres. O papa Bento XVI, no seu documento Deus é Amor, integra de maneira lúcida a justiça e a atenção aos pobres na vida da caridade.
É discurso vazio e hipócrita querer separar evangelho e justiça social. Os de- safios que eclodem na sociedade vão evoluindo conforme as transformações que a própria sociedade vem sofrendo. A questão do desenvolvimento, da pobreza e das estruturas injustas estará presente nas preocupações da Igreja na sua globalidade. O luxo de uma minoria e a pobreza e miséria da maioria tornam-se um desafio per- manente para a Igreja na sua missão de evangelização. Uma Igreja que fica calada diante das injustiças e dos imensos sofrimentos de homens e mulheres, sob o argu- mento de que não pode abandonar sua missão essencial, é traidora do Evangelho.
A crise provocada pelo capitalismo de corte neoliberal é avassaladora e preocu- pa grupos e pessoas quanto ao futuro da humanidade. A crise não pode ser reduzida somente à questão econômica, os capitalistas, como sempre, estão satisfeitos com os elevados rendimentos que conseguem no sistema financeiro, basta olhar quanto os rentistas ganham com a elevação das taxas de juros. O argumento de sempre é que o mercado pode não gostar se baixar a taxa Selic. A economia cresce significativamente. A humanidade nunca dispôs de tantos recursos técnicos, financeiros e humanos para acabar com a pobreza. Hoje, ninguém duvida que se possa acabar com a pobre- za, mas a questão crucial é não haver vontade política, que não é só dos responsáveis políticos e econômicos, mas também de todos os cidadãos. Como aceitar a convi- vência chocante de uma minoria sempre mais rica e a grande maioria pobre?
A economia deve estar orientada em prioridade para a satisfação das ne- cessidades da maioria pobre, para as pessoas viverem como seres humanos e não como animais, como ainda acontece com muitos. A teoria liberal há muito tempo vem apresentando o mercado como o melhor instrumento para conseguir uma melhor redistribuição dos bens. Só uma pessoa totalmente desinformada acreditaria nesse engodo. Na prática, isso nunca aconteceria. Pelo contrário, o mercado virou um fim em si mesmo, cujo objetivo fundamental é sempre o lucro, sempre maior. O tal do mercado sem controle não integra ninguém, é extremamente ex- cludente, fortalece os fortes e elimina os fracos. As forças do mercado, financeiras, ideológicas, culturais, políticas, jurídicas e militares, procuram eliminar qualquer elemento que possa restringir ou contrariar sua expansão.
É nesse contexto que a Igreja, na sua missão evangelizadora, procura anunciar o evangelho da vida. Em todo o ensinamento social dos papas desde Leão XIII até hoje, a questão do desenvolvimento e as grandes desigualdades estão no centro das suas preocupações. A Constituição Pastoral — Gaudium et Spes — é importante para a chamada questão social. Apesar de seus limites, alguns bispos da América Latina desejavam que ela integrasse plenamente o tema e os desafios do desenvolvimento.
A missão da Igreja consiste em promover o desenvolvimento da pessoa humana na sua integralidade, não só o crescimento material, mas também social, político, cul- tural, moral e espiritual, e promover a solidariedade de todos os homens e mulheres. Paulo VI qualificou a Igreja de “perita em humanidade”. A longa experiência teórica e prática da Igreja a qualifica para propor um novo caminho para a histó- ria à luz do Evangelho. Hoje, mais do que ontem, os cristãos têm algo para dizer ao mundo sobre o sentido da vida e da sociedade, têm ações para fazer para desenvolver integralmente a pessoa humana. Essa é uma dimensão central da dimensão social da Evangelização. O Evangelho tem tudo a ver com a questão social.
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(06 a 13 de janeiro de 2026)
“Meu Deus, se existis, fazei que Vos conheça”
(São Carlos de Foucauld)
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Vimos convidar você a participar do Retiro Anual da Fraternidade Sacer- dotal Jesus+Caritas, onde aprofundaremos a nossa espiritualidade e estreitaremos nossos laços fraternos.
Início: 06 de janeiro de 2026, terça-feira, às 18h, com a Celebração Eucarística.
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COLINA, Jesús. Estamos todos nas mãos de Deus: sua vida, seus pensamentos e os desafios que o aguardam Robert Francis Prevost Leão XIV. São Paulo: Palavra e Prece, 2025.
FOUCAULD, Carlos de. Obras espirituales: antología de textos. Madrid: San Pablo, 2018.
LEÃO XIV. Dilexi Te: exortação apostólica sobre o amor para com os pobres. Brasília: Edições CNBB, 2025.
LOPES, Antonio de Lisboa Lustosa; OTTAVIANI, Edelcio (orgs.). Evangelho e Resistência: Igreja, neoliberalismo e cultura do poder. Campinas: Saber Criativo, 2025.
MALTRAPILHO, Léo (org.). Teologia da Favela: ensaios sobre fé em Deus, nos- sos corpos e territórios. São Paulo: Editora Recriar, 2024.
MCGEOCH, Graham (org.). Teologia da Libertação na América Latina: novas sementes de inquietação. São Paulo: Recriar, 2024.
PEREIRA, William Cesar Castilho. A ideologia da vergonha e o Clero do Brasil.
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PREZIA, Benedito. Paranoá: vida, lutas e conquistas de uma comunidade de Bra- sília. São Paulo: Expressão Popular, 2025.
ROSSI, Luiz Alexandre Solano; PEREIRA, Sandro (orgs.). A violência como es- petáculo: no Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Recriar, 2022.
SOUZA, Ney de (org.). Breve história do Vaticano II: notas sobre o Concílio e sua recepção na América Latina. São Paulo: Recriar, 2021.
TORQUATO, Izaías. Francisco: presente, hoje e sempre! São Leopoldo: CEBI, 2025.
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4 a 31 de janeiro de 2026 – Mês de Nazaré Reserve este mês em sua vida e venha participar!
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6 a 13 de janeiro de 2026
Pregador: Dom Vicente de Paula Ferreira, C.Ss.R. Bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora/BA
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