Quinta-feira Santa - Lava-pés: gesto - ensinamento – missão
João 13,1-15.
Pe Adroaldo
“Compreendeis o que acabo de fazer? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros”
+ Prepare sua oração, ativando uma disposição interna para viver o Mistério do Lava-pés.
+ Dê especial atenção às “adições”: lugar, posição corporal, pacificação interior, consciência de estar diante de Deus...
+ Faça sua oração preparatória, bem como a composição vendo o lugar, a petição da graça...
+ Mobilize seus sentidos para que eles o ajudem a fazer uma contemplação; os “pontos para a oração”, podem preparar o terreno interior para acolher o gesto ousado de Jesus no Lava-pés:
No gesto do Lava-pés, Jesus, antes de sua Paixão e com sua original sabedoria, nos oferece uma outra perspectiva de vida. Sem dúvida alguma, Jesus como Mestre era um provocador, no sentido etimológico da palavra, (pro-vocar: chamar para frente, desinstalar), que motivava as pessoas a verem as coisas a partir de uma perspectiva diferente daquela que era habitual.
Desconcertante: exatamente assim foi Jesus; Ele foi um homem que viveu e falou de tal maneira que se revelou desconcertante para aqueles que o conheceram e se aproximaram dele. Jesus desconcertou sua família que o considerava louco; desconcertou àqueles que o acusavam de “blasfemo”, de “escandaloso”. Jesus desconcertou todo mundo, até o final de sua vida, que foi o mais desconcertante de tudo.
Desconcertou porque assumiu uma postura diferente frente ao contexto social, religioso e político no qual viveu. Jesus não se “encaixou” em nenhum grupo e deixou transparecer sua liberdade frente às leis, às tradições de seu povo, ao templo, aos poderes... Por isso foi incompreendido e rejeitado.
Desconcertante também foi o gesto de Jesus realizado na Última Ceia. O gesto do “lava-pés” tornou-se inspirador e provocativo para todo(a) seguidor(a); constitui um dos gestos mais expressivos da missão e da identidade daqueles(as) que exercem algum serviço em sua comunidade.
Lava-pés é revelação e ensinamento. É amor e mandamento. É gesto-vida, gesto-horizonte, gesto-luz...
É gesto que nos ensina a olhar a vida sob outra perspectiva, pois nos mobiliza a fazer uma contínua travessia dos lugares que controlamos aos lugares onde não somos o centro.
Custa-nos muito modificar nossa perspectiva; estamos acostumados a um modo fechado de viver, com umas viseiras que não nos permitem captar a vida em sua plenitude e riqueza; com isso nos instalamos no já adquirido e conhecido e atrofiamos em nós o dinamismo que busca abrir a mente e alargar o coração à realidade que nos cerca.
Ver as coisas “por uma outra perspectiva” é muito mais instigante.
Um ponto de vista novo, limpo e original é uma grande ajuda para uma vida sadia.
O que Jesus pretende, no gesto do “lava-pés”, é nos oferecer um novo ponto de vista, um novo ângulo, um novo ensinamento, fazendo-nos ver a realidade do outro como se fosse pela primeira vez, com um olhar límpido e uma atitude compassiva.
Rente ao chão e em contato com os pés dos outros, Jesus realiza uma mudança e uma amplitude de visão que lhe faz perceber tanto as riquezas e dons de cada um, como captar a desnudez, a fragilidade e as limitações das pessoas. E, olhadas a partir daí, Ele deixa transparecer que qualquer pretensão de superioridade ou domínio se revela como ridícula e falsa.
Nesse deslocamento a um “lugar entre tantos outros”, Jesus viu de perto e por dentro àqueles que eram considerados distantes e excluídos. Porque, para Ele, os maiores e os mais importantes são aqueles que, segundo nossos critérios, não são contados. O lugar em que Jesus decidiu se situar deu origem à “revolução nas relações pessoais”, que tanto nos sobressalta e ao qual tanto nos resistimos. Só o fato da possibilidade desse deslocamento se revela ameaçadora porque nos tira do terreno do conhecido e nos convida a descobrir novos significados que não coincidem com os que consideramos evidentes.
Com o gesto do lava-pés e ao deslocar-se para o lugar do servo, Jesus rompe a verticalidade e a relação senhor-escravo, os de cima e os de baixo, os de dentro e os de fora, inaugurando, assim, a nova ordem circular do Reino, onde ninguém é descartável.
Ali também Ele nos revela um rosto novo de Deus: o Deus cuidadoso e compassivo, identificado com os últimos e que a partir do último, serve, sustenta, universaliza, iguala, inaugurando, deste modo, a horizon-talidade do Reino e denunciando toda hierarquia e pretensão de poder-dominação.
A verdadeira grandeza humana está na identificação com Jesus que se doa, sem por condições nem reservas.
Como aconteceu com Pedro, o gesto de Jesus no Lava-pés continua nos escandalizando, porque se há algo que incomoda é deslocar-nos até os últimos e nos colocar no lugar deles.
Não é comum deslocar-nos para o lugar do outro, sobretudo o outro que pensa e sente diferente. “Nós pensamos e sentimos a partir de onde estão nossos pés” (Frei Betto).
É tão natural perceber, delimitar, defender e fechar-nos no nosso próprio lugar. E isso o fazemos de maneira tão zelosa que nem vemos o que está para além do nosso próprio lugar.
São grandes os riscos de vivermos em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgentes. O nosso próprio lugar se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que fazemos.
Compreendemos claramente que o que ali estava em jogo, no Lava-pés, não era a humildade, nem sequer uma boa exortação para praticar a caridade. A intenção de Jesus foi muito mais longe, tão longe que Ele mesmo teve de perguntar aos discípulos aturdidos: “Compreendeis o que vos fiz?”
Em muitas culturas e tradições espirituais (como no Evangelho), o Mestre lava os pés dos seus discípulos. De um ponto de vista simbólico, “lavar os pés” de alguém é devolver-lhe a capacidade de sentir-se enrai-zado, é recolocá-lo de pé, ativar nele a autonomia para que possa dar direção à sua vida.
A palavra “pé”, “podos” em grego, está estreitamente relacionada à palavra “paidos”, usada para significar criança. Assim, um “pedagogo” é um especialista que cuida dos pés do ser humano, desde que cuidar dos pés de alguém significa cuidar da criança que está nele.
Eis a missão do(a) seguidor(a) de Jesus: ajudar as pessoas a se colocarem de pé, resgatando-as em sua dignidade para serem capazes de andar pelos seus próprios pés.
Não cabe ao cristão carregar as pessoas com seu paternalismo. Antes, sua missão é vê-las maduras, entrando por seus próprios pés na presença de Deus e assumindo o compromisso com a vida.
“Depois que lhes lavou os pés, retomou o manto, voltou à mesa e lhes disse: ‘compreendeis o que vos fiz?’” Jesus volta ao lugar em que estava antes, mas volta diferente.
Ele repõe o manto, mas não depõe a toalha-avental. Ele assume e visibiliza uma nova realidade que carac-teriza o novo modo de ser e viver, que é próprio dos cristãos. O amor-serviço tem como primeiro símbolo o avental. O avental é o selo de autenticidade que orienta, credita e dignifica a autoridade que se faz serviço. A autoridade cristã nasce do serviço, se sustenta nele, só persevera servindo.
“Tal Cristo, tal cristão”: na vivência do serviço evangélico, somos chamados a vestir o “avental de Jesus”.
“Vestir o coração” com o avental da simplicidade, da ternura acolhedora, da escuta comprometida, da presença atenciosa, do serviço desinteressado...
Jesus pede que a dinâmica iniciada por Ele tenha continuidade, seja progressiva e circular, partindo do meio para a periferia, a fim de atingir a todos.
+ Leia saboreando o relato evangélico de Jo 13,1-15.
+ Na contemplação do Lava-pés, observe silenciosamente os gestos de Jesus. Todos os gestos possuem uma sacralidade própria, uma reverência, uma paz e calma especial. Não há pressa, não há agressividade, não há nada que possa dar a mínima aparência de algo que fosse obrigado.
+ Depois de contemplar com “todo acatamento” os gestos de Jesus, converse com Ele sobre a sua admiração e sobre o seu desejo de prolongar estes mesmos gestos no seu cotidiano.
+ Traga à memória as pessoas que você precisa lavar os pés...
+ Revele sua gratidão para esta experiência tão íntima e tão intensa.
+ Registre no seu caderno as “moções” mais fortes experimentadas na oração.
Tornar-se servidor, assim como Jesus.
Quinta Feira, 14 de abril de 2022: Quinta Feira Santa - Ano C
Marcel Domergue
Jesus lava os pés dos seus discípulos. Em seguida, convida-os a «refazerem» este mesmo gesto no futuro, incitando-os a se tornarem servidores. As primeiras leituras se inscrevem no simbolismo da libertação dos filhos de Israel da servidão do Egito. Paulo conserva a memória da dimensão eucarística da Última Ceia de Jesus. E João dá destaque a um Jesus servidor, que convida seus discípulos a lavarem os pés uns dos outros.
«Amou-os até o fim»
Até o final da condição humana; até o final do amor. Deus não nos teria amado verdadeiramente se, em Cristo, não tivesse vindo viver a nossa condição no que ela tem de mais miserável. Se Deus Se tivesse ausentado dos nossos sofrimentos e aflições, o que significaria que «Ele se fez homem»? Ser homem é também sofrer e morrer. A Cruz de Cristo é a demonstração deste amor «até o fim». No entanto, mesmo sendo muito emocionante ver Deus compartilhar conosco a nossa miséria, isto não basta, não é suficiente para o amor; é preciso também que sejamos libertados do nosso mal, do nosso infortúnio. Um amor ineficaz poderia até nos tocar, mas e daí? A prova da nossa fé é o convite a crer que este amor a que o Cristo se sujeitou, fazendo-o assumir a condição de escravo, é um amor libertador. A primeira coisa da qual ele nos liberta é do pecado, de que nossos sofrimentos são resultado e sinal. Também, neste evangelho, vemos Jesus entregar-se a um gesto, a um rito de purificação, significativo de tudo o que nos acontece na Páscoa.
Justiça e injustiça
O protesto de Pedro se assemelha surpreendentemente ao protesto de João Batista, quando Jesus quis fazer-se batizar. Com João, o surpreendente vinha de que o puro por excelência colocava-se na situação do impuro, do pecador. Aqui, este que é o Senhor, se põe na situação do servidor. Abramos bem os olhos: o pecador é atingido por seu pecado; é por ele adulterado, desumanizado. Mas também Deus é atingido pelo pecado do homem: seu poder criador, «humanizante», é posto em cheque, negado. Deus é expulso, posto para fora. Cristo, contudo, mesmo sendo assim neutralizado, supera os danos sofridos e se põe ao serviço da vida, a favor dos que buscam eliminá-lo. E por aí se manifesta o amor em sua gratuidade: «Foi quando ainda éramos pecadores que o Cristo morreu por nós» (Romanos 5,6-8). De fato, saímos dos domínios da justiça. É «injusto» que o justo assuma a condição do pecador; é «injusto» que o Senhor se faça servidor. Mas esta injustiça só é injustiça para nós: é a justiça de Deus. Justiça justificante: Jesus-servidor purifica, justifica seus discípulos. Habituarmo-nos a enxergar Deus como Amor justificante e restaurador é este o maior problema da nossa fé.
«Vós estais puros»
A partir do versículo 9, o texto se complica. Até aí está tudo claro: o Senhor se põe a serviço, lavando os pés dos discípulos. ‘De jeito nenhum’, responde Pedro (lembremos seu protesto, em Cesareia de Filipe, de Mateus 16); se não aceitas, responde o Cristo, “não terás parte comigo”. E eis que Jesus diz que os discípulos tinham acabado de «tomar banho»! (Penso que este banho seja a estadia deles com Jesus e o fato de o terem seguido.) E que estão puros, não havendo necessidade de se lavarem. Mas, então, por que o gesto do lava-pés? Creio que Jesus quer fazê-los compreender que, mesmo estando «puros», da mesma forma que ele próprio quando se fez batizar por João, também eles se devem colocar em solidariedade com os pecadores. Também aqui a justiça está superada, ultrapassada. O justo se põe no lugar do injusto. E é somente aí, neste lugar, que os discípulos encontrarão o Cristo. Onde está o mestre, aí também deve estar o servidor. Para «se ter parte com Jesus», é preciso estar com ele onde ele está.
«Como eu vos fiz, também vós o façais»
Esta recomendação, de «refazer este gesto», superpõe-se ao «fazei isto em memória de mim» que segue o dom da carne e do sangue. João a repetirá de outra forma em sua 1ª carta (3,16): «Ele (Jesus) deu sua vida por nós: nós também devemos dar nossa vida pelos irmãos.» É isto tudo o Sacramento: a Eucaristia vivida no serviço concreto de «nossos irmãos». Libertados, purificados, tendo parte com o Cristo ressuscitado, a nossa ação de graças consiste em dar de graça o que de graça temos recebido (dar graças: Eucaristia). Dar para quem? Para todo o mundo, porque só chegamos a Deus através dos nossos próximos. Dar graças é dar amor. Uma palavra resume tudo isto: Serviço.
Marcel Domergue, jesuíta (1922-2015)
Tradução livre de www.croire.com pelos irmãos Lara
Quinta Feira Santa (Jo 13,1-15)
Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ
“É na glória da cruz de Cristo que brilha o mandamento do amor (lava-pés); é no brilho dessa cruz que resplandece o sacramento do amor (Eucaristia); é no esplendor dessa cruz que podemos cumprir o pedido do Mestre: ‘fazei isto em memória de mim’” (Dir. da Liturgia – CNBB, p. 35).
O Tríduo Pascal, ápice do ano litúrgico, coloca-nos de forma muito pedagógica e mistagógica diante e no núcleo de nossa fé; favorece-nos, através da oração contemplativa da celebração litúrgica, mergulhar e ser inundados pelo mistério da morte e ressurreição do Senhor, mas também é ocasião de discernimento para sabermos se estamos ou não tomando parte realmente desse Mistério. Não basta apenas crer que o Senhor morreu e ressuscitou, proclamando esta verdade na oração (Eucaristia) que Ele mesmo mandou fazer em sua memória. Mas é preciso, também, ser testemunhas dessa verdade, assumindo o serviço que Ele realizou e nos mandou realizar (“lava-pés”) a fim de que o mundo creia.
Se para nós “culto” e “serviço” têm significados diferentes e, portanto, indicam realidades independentes, para a Sagrada Escritura usa-se a mesma palavra para referir-se a ambas situações (hebraico sharât: servir a Deus, adorá-lo, 1Sm 3,1; servir o ser humano, 1Rs 19,21; grego doulein: servir a Deus, Sl 71,11; At 7,7; serviço a pessoas, Lc 15,29). Portanto, em Jesus, o serviço alcançou a sua expressão mais perfeita, pois glorificou o Pai, “que tinha colocado tudo em suas mãos”, fazendo a sua vontade; e, “amando os seus até o extremo”, prestou à humanidade o maior e imprescindível serviço que ela necessitava. A sua páscoa não se restringe ao momento de sua morte e ressurreição, mas é toda a sua passagem pelo mundo e compreende a sua saída e volta para o Pai. Por conseguinte, o êxodo de Jesus tem início com a sua encarnação, o seu despojamento: “Sendo Deus não se apegou a sua condição divina, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2,6), e alcança o seu ponto alto na cruz onde entrega tudo (vestes, perdão, mãe, sangue, espírito). A ceia e o lava-pés resumem todo o itinerário pascal do Verbo encarnado, que existindo desde toda a eternidade no seio do Pai, entrou na nossa história e armou sua tenda em nós (cf. Jo 1,14); a sua páscoa é culto e serviço.
Celebrar a Ceia do Senhor é estar disposto a aprender as grandes lições do autêntico serviço (a Deus e ao próximo). Contudo, não basta apenas estar na ceia “do Senhor”, é preciso estar na ceia “com o Senhor”: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Diante da resistência e incompreensão de Simão Pedro de não querer que Jesus lhe lavasse os pés, o Mestre declara que não pode ser seu discípulo quem não aceita ser servido por Ele, pois consequentemente não aprenderá com a vida o serviço aos outros. A expressão “não terás parte comigo” (grego ouk echeis meros met’emou: não tens parte em mim, comigo, depois de mim) resume o testamento de Jesus, isto é, deixar ser servido por Ele é herdar a sua vida, a sua missão, pois o seu discípulo continuará a fazer no mundo, o que aprendeu do Mestre. Não basta simplesmente saber o que Ele mandou fazer, mas é preciso aprender com Ele o modo de fazê-lo: “Vós me chamais mestre e Senhor e dizeis bem, pois eu sou…Se eu vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros”. Aqui está a grande novidade do serviço de Jesus, a sua marca fundamental, livre de qualquer ambiguidade ou demagogia. Ele não nega ser Mestre e Senhor, nem mesmo rejeita que os discípulos o chamem assim. Pois, se um servo lava os pés do seu senhor, não há nada de extraordinário nisso, nenhuma lição se pode aprender desse gesto, é sua obrigação. Mas quando o Senhor lava os pés do servo, toda lógica humana e natural estremece, o novo irrompe dando-se uma lição inédita. Jesus não abandonou o seu senhorio ou autoridade, pois os recebeu do Pai: “Todo poder me foi dado no céu e na terra”.
Ao assumir a condição de servo, Jesus não se tornou impotente, fraco, incapaz, mas pelo contrário, manifestou-se nele o poder de Deus, do seu amor que vai até o extremo, pois é “próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua onipotência” (São Tomás de Aquino). Quando a autoridade perde a sua potente capacidade de servir, enfraquece e apela para a violência do autoritarismo.
Apesar de ter tido os pés lavados por Jesus e estar presente à ceia, Judas não aprendeu o exemplo do Mestre, não se deixou purificar: “Vós estais puros, mas não todos”. A impureza de Judas significa justamente essa sua incapacidade de reconhecer que o seu Senhor não é autoritário, mas servidor, que não divide com os seus discípulos armas a fim de que matem para se defender, mas os instrui com a sua palavra (“Vós já estais limpos por causa da palavra que vos fiz ouvir” Jo 15,3) a amar sempre, inclusive os inimigos.
A cada Eucaristia, o Senhor nos convida a sentar-se com Ele à mesa, alimenta-nos com sua palavra, e reparte conosco o seu corpo e sangue, a sua vida entregue como serviço ao Pai e à humanidade, a sua herança; contudo, não basta estar na ceia do Senhor, é preciso estar na ceia com o Senhor, tendo parte com Ele, assumindo a sua herança de amor e fidelidade aos extremos, eis o autêntico serviço.
QUINTA FEIRA SANTA
1ª leitura: Ex 12,1-8.11-14
Nas paróquias, inicia-se o Tríduo Pascal com a missa do Lava-pés a noite.
Como 1ª leitura, a liturgia apresenta-nos o relato da instituição da Páscoa no AT (Antigo Testamento).
O Senhor disse a Moisés e a Aarão no Egito: “Este mês será para vós o começo dos meses; será o primeiro mês do ano (12,1-2).
Já na vocação de Moisés (3,18) e nas audiências com o farão (5,1-3 etc.) se falava da festa ou do sacrifício que o povo hebreu devia celebrar em honra a seu Deus Javé. Em seguida apresenta-se o relato sobre a origem da festa maior dos judeus, a páscoa. Nele, dois elementos se fundem: a narrativa histórica e as práticas litúrgicas. A parte narrativa inclui: a morte dos primogênitos egípcios (12,12.29-30), comer o cordeiro e o rito de marcar com sangue os batentes, a refeição apressada com pão sem fermento (12,1-14), a fuga precipitada com os presentes ou empréstimos dos egípcios (12,31-42). A parte litúrgica inclui: o rito da páscoa com sua rubricas e cerimônias (vv. 2-24.43-49), os pães ázimos (vv. 15-20), a consagração dos primogênitos (13,1.11-16). Misturam-se práticas específicas de pastores (cordeiro), de agricultores (pães ázimos) e outras sem fronteiras (primogênitos; cf. Gn 22).
A origem da festa da Páscoa talvez seja um ritual de pastores nômades: com o sangue de um cordeiro (ou cabrito), colocado na entrada do curral ou da casa, esperava-se a proteção dos males (demônios? invasores?). Em Israel, pastores nômades e agricultores sedentários misturavam-se (não sem conflitos, cf. Gn 4), assim coincide a festa dos pastores com a festa dos agricultores na primavera, a festa dos “pães ázimos” (pães sem fermento por sete dias; v. 8). De fato, páscoa e ázimos são duas festas originariamente distintas: a festa dos ázimos começou a ser celebrada pelos agricultores somente em Canaã e só foi unida à festa da páscoa depois da reforma de Josias (2Rs 22-23). A origem destas duas festas está em tempos remotos, seu conteúdo natural (rebanho, pães de trigo) ganha depois um sentido histórico: a comemoração da libertação do Egito. Assim, a ligação entre a páscoa, a décima praga e a saída do Egito é apenas ocasional: esta saída aconteceu por ocasião da festa.
Ouvimos hoje a primeira parte das instruções do Senhor. Até o v. 11 se lê como ritual de cerimônia que se deve observar ao celebrar a páscoa: qualidade do animal, os que vão comê-lo, como prepará-lo, data exata e hora do dia.
A origem da palavra “Páscoa” (hebraico: pesah) é desconhecida; a explicação tradicional é que significa “passagem” (cf. v. 13.23.27; o verbo hebraico pasahsignifica “passar ou saltar por cima”). A passagem do ano que, na época, começava na primavera (v. 2: “o começo dos meses… o primeiro mês do ano”) torna-se a “passagem do Senhor” (v. 11). O primeiro mês da primavera no hemisfério norte chamava se Abib no antigo calendário (Dt 16,1), ou Nisanno calendário pós-exílio de origem babilônica. O dado supõe um calendário estabelecido com um ano que começa na primavera (nisan); diferente do que faz o ano começar no outono.
Falai a toda a comunidade dos filhos de Israel, dizendo: ‘No décimo dia deste mês, cada um tome um cordeiro por família, um cordeiro para cada casa. Se a família não for bastante numerosa para comer um cordeiro, convidará também o vizinho mais próximo, de acordo com o número de pessoas. Deveis calcular o número de comensais, conforme o tamanho do cordeiro (vv. 3-4).
O filósofo judaico Martin Buber (1878-1965) comparou a sociedade egípcia com uma pirâmide e a comunidade israelita com uma fogueira de acampamento. Enquanto a sociedade egípcia é hierarquia (pirâmide) e opressão, a “comunidade dos filhos de Israel” é comunitária (fogueira), “convidará também o vizinho” (v. 4) evitando também o desperdício. A festa deve ter caráter familiar. A ceia pascal prepara os israelitas para décima e última praga que resultará na libertação da escravidão.
No calendário de Dt 16,1s, ovelhas e bois são sacrificados no templo de Jerusalém, conforme a concentração do culto na capital, que o rei Josias promoveu (622 a.C.).
O cordeiro será sem defeito, macho, de um ano. Podereis escolher tanto um cordeiro, como um cabrito: e devereis guardá-lo preso até ao dia catorze deste mês. Então toda a comunidade de Israel reunida o imolará ao cair da tarde (vv. 5-6).
O cordeiro será sem defeito, porque para uma festa religiosa se deve oferecer o melhor. “Até ao dia catorze… ao cair da tarde”, ou seja, antes que comece o dia 15 ao pôr-do-sol (em Israel, um novo dia não começa a meia noite, mas na véspera).
Enquanto o Egito desenvolveu o calendário solar de 365 dias (Júlio César introduziu-o no Império Romano), Israel tinha um calendário lunar: um mês corresponde exatamente às quatro fases da lua. No dia primeiro de cada mês é lua nova, e na metade do mês é lua cheia: na noite do dia catorze para quinze. Portanto, a festa pascal coincide com a primeira lua cheia na primavera ou seja, depois de 21 de março (equinócio que inicia a primavera no hemisfério norte e o outono no sul).
A páscoa foi celebrada na casa dos pastores e camponeses (vv. 3-4.21-22), mas a relação com o êxodo e a minuciosa regulamentação indicam uma redação da época do rei Josias (640-609) ou do pós-exílio, quando o cordeiro pascal só poderá ser imolado no Templo de Jerusalém (cf. v. 14; Dt 16,1-7; 2Rs 23,21-23).
Tomareis um pouco do seu sangue e untareis os marcos e a travessa da porta, nas casas em que o comerdes (v. 7).
O antigo rito de marcar os batentes da porta com sangue de animal pode ter origem mágico para afastar influxos nefastos. O v. 13 o liga com a história: “O sangue servirá de sinal” de marcação, de separação das casas dos egípcios que serão atingidos: “Ao ver o sangue, passarei adiante, e não vos atingirá a praga exterminadora”. Segundo 11,7, o Senhor se encarrega de distinguir entre egípcios e hebreus, sem recurso ao sinal do sangue. Israelitas separados como povo eleito no meio do mundo pagão é expressão da teologia pós-exílica.
Comereis a carne nessa mesma noite, assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas (v. 8).
A festa dos agricultores, a dos “pães ázimos” que dura sete dias (Ex 23,14s; 34,18), foi juntada à dos pastores e também se comemora a Páscoa, a saída do Egito (cf. Nm 28,16-25; Dt 16,1-8).
Os rabinos reagiram à destruição do templo em 70 d.C. e criaram a seder (ordem) para o povo celebrar a páscoa sem o templo (até hoje), como antes os judeus já o faziam em parte na diáspora. A seder é bastante simbólica e didática, por ex. mergulha-se karpas (batata, ou outro vegetal), em água salgada. Recita-se a bênção e a karpas é comida em lembrança às lágrimas (água salgada) do sofrimento do povo de Israel. Depois divide-se a matzá (“pão ázimo”, sem fermento) do meio em duas partes desiguais.São comidas as “ervas amargas” (raiz forte, escarola, endívia e a alface romana) relembrando a escravidão e o sofrimento dos hebreus no Egito.Depois o chefe da casa fala: “Olhemos, pois, a matzá que está sobre a mesa. Este é pão da pobreza que comeram os nossos antepassados na terra do Egito. Quem tiver fome, e muitos são os que tem fome neste mundo em que vivemos, que venha e coma.”
Nos vv. 9-10 (omitidos pela nossa liturgia) quer-se evitar a profanação, não se deve comer cru (cf. Gn 9,4), mas “inteiro… sem sobrar nada para o dia seguinte”. texto grego acrescenta: “Não se quebrará nenhum osso” (cf. v. 46; citado por Jo 19,36).
Assim devereis comê-lo: com os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. E comereis às pressas, pois é a Páscoa, isto é, a Passagem do Senhor! (v. 11).
Deve-se comer com a roupa da viagem, “com os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão” quer dizer, pronto para marcha para sair em liberdade. Na ceia da época de Jesus, as pessoas ficavam deitadas no chão, encostadas em travesseiros.
A etimologia do termo hebraico pesah (grego: páscoa) é desconhecida. A Vulgata (tradição latina de S. Jerônimo) explica: “isto é passagem”, mas não encontra apoio no hebraico. Ex 12,13.23.27 explica que Javé “saltou”, ou “omitiu”, ou “protegeu” as casas dos israelitas, mas trata-se de uma explicação secundária.
E naquela noite passarei pela terra do Egitoe ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até os animais; e infligirei castigos contra todos os deuses do Egito, eu, o Senhor. O sangue servirá de sinal nas casas onde estiverdes. Ao ver o sangue, passarei adiante, e não vos atingirá a praga exterminadora, quando eu ferir a terra do Egito (vv. 12-13).
Os vv. 12-13 funcionam como explicação histórica do rito no relato, funcionam como anúncio do fato iminente.
“Atravessar” ou “passar”: com o verbo da mesma ou da homófona raiz que “páscoa”. Supõe que os hebreus moravam misturados com a população egípcia, não a parte, na região de Gessen (Gn 46,28-47,6). A confrontação com o rei se eleva ao nível das divindades: Javé julga e condena os deuses do Egito, demonstrando que “não há como ele” (Sl 82); é o conceito universalista de Javé na redação pós-exílica (cf. 9,14).
O flagelo destruidor ou a praga “exterminadora”: desta expressão do v. 23 saiu a fórmula do “anjo exterminador” (pode se ler: “não haverá contra vós um golpe do exterminador” (cf. v. 23).
Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que haveis de celebrar por todas as gerações, como instituição perpétua (v. 14).
O dia será o dia 15 que começa na véspera, na tarde precedente.
Atribui-se ao Senhor a instituição da “festa memorável”, que a fundamenta no fato passado e lhe garante validade perpétua. Para os judeus, “memória” não significa pensar no passado, mas torna-lo presente, atualizar. Assim Jesus pede na última ceia: “Fazei isto em minha memória” (cf. 2ª leitura). Na celebração judaica da Páscoa, em cada geração, todo individuo deve ver a si mesmo como se tivesse saído do Egito (Ex 13,8; Dt 6,23).
Pela tradição, “Páscoa” significa passagem (vv. 11.27), é a “passagem” do ano que começava na primavera (“será o primeiro mês do ano” v.1) e torna-se a “passagem do Senhor” (v. 11). O Senhor, ou seja, o anjo exterminador, “passará” por Egito “matando todos os primogênitos” (v. 12), só poupando as casas dos israelitas, onde o sangue dos cordeiros pascais nos marcos e travessas das portas dos israelitas “servirá de sinal… Passarei adiante e não vos atingirá a praga exterminadora” (v. 13).
Depois desta praga, o faraó deixará sair os escravos em liberdade, mas logo se arrependerá e os perseguirá com seu exército poderoso. Haverá outra “passagem” do povo de Deus: pelo mar Vermelho que salva os israelitas e extermina os egípcios (13,17-15,21; cf. 3ª leitura da vigília pascal).
Os cristãos dão mais outro sentido à Páscoa: A “passagem” de Jesus pela morte a vida (cf. Jo 13,1; evangelho da quinta-feira santa). Ele é verdadeiro Cordeiro pascal imolado (cf. 1Cor 5,7; Jo 1,29.36; Ap 5,6 etc.), cujo sangue na madeira da cruz salva a vida do povo de Deus. Em Jo, Jesus morre na exata hora da imolação dos cordeiros no templo (cf. v. 6 “ao cair da tarde”; Jo 19,31.34.36).
A data da Páscoa judaica continua sendo a primeira lua cheia (noite de dia 14 a 15 no seu calendário lunar) de primavera (no hemisfério norte cai em março ou abril). Para os cristãos, porém, a Páscoa é celebrada no domingo seguinte (por causa da ressurreição “no primeiro dia da semana”). Portanto, na Semana Santa sempre tem lua cheia.
Evangelho: Jo 13,1-15
O quarto evangelista não escreveu sobre a instituição da Eucaristia na última ceia; já fez um discurso longo no capitulo 6 sobre o “pão da vida que desceu do céu”, mas apresenta agora o “lava-pés”, uma ação que fala mais do que muitas palavras e revela o sentido da eucaristia: amor que é doação e serviço.
Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus (vv. 1-2).
Na tradição judaica, Páscoa significa “passagem” (cf. Ex 12,11) com referência à passagem do anjo exterminador dos primogênitos no Egito e a fuga do povo de Israel passando pelo mar Vermelho (Ex 14). Para Jesus, finalmente chegou a “hora” (cf. 2,4; 7,30; 8,20; 12,23.27; 13,1; 17,1) para ele “passar” deste mundo, escravo do pecado, para o Pai, à terra prometida.
Era “antes” da festa da Páscoa. Diferente dos evangelhos sinóticos (Mc 14,12.17p; Mt 26,17-19; Lc 22,7.14s), no quarto evangelho, a última ceia de Jesus não uma ceia pascal, que seria no outro dia (cf. 18,28; 19,14.31,36). Em Jo, Jesus é o verdadeiro Cordeiro pascal (cf. 1,29.36) que morre na exata hora quando os cordeiros pascais estão sendo imolados no templo, “ao cair da tarde”(Ex 12,6) do “dia de preparação da páscoa” (Jo18,28; 19,14.31.42). A última ceia é uma ceia de despedida “antes da festa da Páscoa” (v. 1) em que Jesus pronuncia discursos de despedida (cap. 13-17).
“Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”, pode-se traduzir também “até o extremo”, aludindo à morte na cruz. Em 15,13, Jesus declarará: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos.”
Aqui, a menção do diabo e do futuro traidor dá uma cor sombria à cena. O que prevalecerá, o amor ou o ódio?
Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido (vv. 3-5).
O autor resume a origem e missão divina de Jesus, “de Deus tinha saído e para Deus voltava”, ele é todo-poderoso, “o Pai tinha colocado tudo em suas mãos” (cf. 5,19-27), mas agora se comporta como servo humilde (podemo-nos lembrar do Servo de Javé em Is 53, que servia de modelo para a paixão de Cristo: 1ª leitura de amanhã).
Oferecer ao hóspede água para lavar os pés da poeira do caminho era gesto de cortesia (Gn 18,4; Lc 7,44); quem fazia, um servo ou um discípulo dedicado ao mestre. Jesus inverte os papeis: sua ação e quase escandalosa como provoca o diálogo seguinte.
Chegou a vez de Simão Pedro. Pedro disse: “Senhor, tu me lavas os pés?” Respondeu Jesus: “Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás”. Disse-lhe Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés!” Mas Jesus respondeu: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Simão Pedro disse: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça”. Jesus respondeu: “Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos”. Jesus sabia quem o ia entregar; por isso disse: “Nem todos estais limpos” (vv. 6-11).
Os discípulos não entendem este gesto de Jesus, porque normalmente são os escravos da casa que lavavam os pés empoeirados dos hospedes. Pedro reclama, porque o gesto de Jesus não combina com seu preconceito de autoridade (vv. 6-7, cf. Mt 3,14), mas Jesus insiste na comunhão que ele tem com os seus: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (v. 8). Pedro muda de opinião e quer um banho inteiro, mas Jesus responde: “Quem já se banhou, não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo” (v. 10). Esta frase pode se referir ao batismo de João Batista que Pedro já recebeu (1,40-42), e ao batismo em geral pelo qual o cristão é purificado na alma (no espírito, não numa parte do corpo apenas; cf. 1Pd 3,21) e tem parte com Jesus.
A Bíblia do Peregrino comenta: O diálogo tem um nível realista: a reação apaixonado de Pedro diante do ato de rebaixar-se do Mestre e não menos apaixonado desejo de não afastar-se dele. Tem um nível simbólico indicado por Jesus: ele deve realizar o gesto, é condição inevitável para ter parte na herança (celeste) com Jesus, seu sentido profundo não se entende agora… Costuma-se propor o seguinte simbolismo: a humilhação presente de Jesus, voluntária, incrível, representa a morte que ele vai realizar para obter-nos a vida eterna. Colateralmente, na menção de “tomar banho” pode ressoar uma referência batismal (Ef 5,26; Tt 3,5).
O sacrifício de Jesus é dar sua vida por amor (cf. v. 1; 15,12), é humildade daquele que é Deus, mas se faz homem (1,14) e servo (Is 53):“assumiu a condição de servo/escravo… humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,3-8; a morte na cruz era reservada somente aos escravos ou terroristas, inimigos do estado). O lava-pés resume a vida de Jesus em favor dos outros (“por nós”) e prefigura sua paixão.
Jesus já sabia da traição de Judas, “quem o ia entregar”, por isso disse, “nem todos estais limpos” (v. 11; 6,70-71; 12,6; Mt 26,14-25 cf. leituras de ontem e anteontem).
Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo. E disse aos discípulos: “Compreendeis o que acabo de fazer? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (vv. 12-15).
Depois Jesus explica que o “exemplo” de humildade, amor e serviço que ele deu como “mestre e Senhor” (cf. Mt 10,24; 23,8-12), também nós devemos fazer “uns aos outros”:“Dei-vos um exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (v. 15). Com este gesto surpreendente, Jesus mostrou que autoridade é servir (cf. Mc 10,42-45) e amar os outros. Devemos seguir o exemplo de Jesus: “Assim como eu vos amei, amai-vos uns aos outros” (13,34; 15,12.17) é o novo mandamento na mesma ceia.
Na Idade Média, havia um tempo em que o lava-pés também foi considerado um sacramento. Mas depois de restringir os sacramentos ao número de sete, ficou fora, porque se entendia que Jesus não queria uma imitação literal do lava-pés num rito semanal (como a Eucaristia, “fazei isto em minha memória”), mas dar um exemplo de amor mútuo e serviço.
O serviço de Jesus não era só sua mão de obra como carpinteiro, mas entregar seu corpo todo, seu sangue, “dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10,45p). “Eu vim para servir”, o lema da CF 2015 foi tirado de Mc 10,45p. A Igreja é o sacramento de Cristo, sinal de unidade (cf. LG 1), e deve servir a sociedade.
É interessante, como o lava-pés exerce uma função crítica à uma distorção da Eucaristia e à uma Igreja autorreferencial que não quer servir aos homens e mulheres de hoje (cf. GS 1). É mais fácil apenas crer na presença de Jesus na sagrada hóstia e consumi-la, sem querer envolver-se com os outros, sem assumir um compromisso social, sem partilhar. Paulo critica a divisão entre ricos e pobres na eucaristia em Corintos (1Cor 11; cf. 2ª leitura). Jesus fez um gesto concreto invertendo a hierarquia. A comunidade deve seguir seu exemplo e não reproduzir o esquema da sociedade dominada pelo poder econômico e militar, pela competição e pelo direito do mais forte: “Entre vós não deve ser assim” (cf. Mc 10,42-45p). Já Lc 22,24-27 trouxe estas palavras para a última ceia, e Jo 13 as transformou em gesto.
Jn 13, 1-15 – Servir
Thomas McGrath
Tivemos oportunidade essa semana de pensar juntos sobre a figura central do Profeta Isaias – que aliás era o Livro de cabeceira do AT usado por Jesus – o Servo Sofredor. Mas antes do 4º e último dos cantos, hoje vamos subir para a “sala de cima” e acompanhar a última vez que Jesus senta em volta de uma mesa com os seus amigos – os Doze.
A turma se encontra para celebrar a refeição da Pascoa. Para os judeus, a comunhão de mesa era um momento de muita intimidade, onde só participavam os maiores amigos. No meio da refeição Jesus assume a atitude de empregado e escravo. Coloca um avental e começa a lavar os pés dos discípulos. A realização a profecia do Servo Sofredor, do primeiro cântico (Is 42,1-9) – “As coisas que prometi no passado já se cumpriram, e agora vou lhes anunciar coisas novas, para que vocês as saibam antes mesmo que elas aconteçam”. A imagem de um Deus servidor que contrasta frontalmente com aquela imagem do Deus todo-poderoso - a imagem que estava na cabeça de todo mundo - mesmo dos 12 que foram formados por ele durante 3 anos.
Pedro reage e não quer que Jesus lave os seus pés. Mas Jesus diz que, se ele não aceitar, Pedro não vai poder ter parte com ele. Isso porque a cabeça dura de Pedro - cabeça que só conseguia pensar com os paradigmas do sistema (fermento dos judeus) - tinha dificuldade em aceitar Jesus como Messias Servo que sofre. Pedro queria um Messias Rei, forte e dominador.
Jesus realiza um gesto provocativo: levanta da mesa, distanciando-se do lugar reservado àqueles que presidem e se situou no lugar daqueles que pertencem à categoria dos “servidores”. Jesus sabia que para o Pedro e para nós o lugar em que estamos situados condiciona nosso olhar e nossa atitude e, por isso, tomou distância, mudou o seu ponto de vista que permitia perceber outra dimensão da realidade.
Com o gesto do lava-pés deslocando-se para o lugar de servo, Jesus rompe com a relação vertical de senhor-escravo, os de cima e os de baixo, os de dentro e os de fora, inaugurando, assim, a nova ordem circular do Reino, onde ninguém é descartável.
Aqui ele “des-cobre” (tira o véu) o rosto novo/velho de Deus: um Deus cuidadoso, compassivo, misericordioso como na atitude de Jesus na CF deste ano (Jn 8,1-11), diante da situação da mulher adultera jogada no chão na sua frente pelos defensores da legalidade, inaugurando o Reino e denunciando toda hierarquia e pretensão de poder-dominação.
Não é comum prestar atenção ao lugar ocupado pelo outro, sobretudo o outro que pensa e sente diferente. O normal é perceber, delimitar, defender e fechar-se no próprio lugar. Isso faz que não vê, e muito menos entende, aquilo que está para além do lugar social da gente. O nosso próprio lugar se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte da gente.
O que estava em jogo naquele momento da última Ceia não era a humildade – nem do Pedro, nem do próprio Jesus. A intenção de Jesus ia muito além. Ele perguntou aos discípulos: “Compreendeis o que vos fiz?”. O que Jesus estava dizendo a seus apóstolos era o seguinte: “Eu, que sou o Mestre não me relaciono convosco com base no poder, mas na exemplaridade”.
Jesus termina dizendo: “Pois é um exemplo que eu vos dei: o que eu fiz por vós, fazei-o vós também”. Autoridade, para Jesus- ser Senhor – é um serviço, não uma dominação. A reação de Pedro expressa bem o escândalo que este gesto sempre produz.
Jesus corrige a interpretação de Pedro. O gesto do lava-pés significa que a verdadeira purificação acontece na entrega e no serviço. Significa também que Jesus é o Messias-Servo, anunciado por Isaías. Por isso, se Pedro não aceitar tal gesto, não poderá estar em comunhão com Jesus.
Para Jesus, os que aceitam sua mensagem, suas palavras e seus gestos, (todos que se encaixam nos Cânticos do Servo Sofredor) estão puros e prontos para o Reino.
O que purifica a pessoa não é a observância da Lei, mas sim a prática das palavras de Jesus. Quem for capaz de amar como Jesus amou, receberá o Espírito que é serviço gratuito aos irmãos e irmãs. Este exemplo ele nos deixou. Mas na ceia nem todos estavam puros. O adversário se fazia presente em Judas. Mesmo assim, Jesus lava os pés de Judas antes que ele saia para cumprir sua missão. O amor vence o ódio.