Os textos ficam aqui por uma semana, a partir do sábado depois das 12 ou 13 h. Os textos dos que possuem blogs ou sites podem também ser buscados pelos links a seguir: INÁCIO VALE - MAGDA MELO - PE. NELITO DORNELAS - MARCELO BARROS- PE. GEOVANE - - LEONARDO BOFF - DOM WALMOR - DOM FONTINELE - VATICAN NEWS - DOM OTACÍLIO
Domingo de Ramos – ano A: Mt 21, 1 - 11
A Semana Santa começa com o Domingo de Ramos. Desde séculos antigos, neste dia, a Liturgia Romana une duas celebrações diferentes e aparentemente distantes uma da outra:
1º - A celebração de Ramos-
Nos séculos antigos, no domingo anterior ao Tríduo Pascal, em Jerusalém, a comunidade cristã costumava recordar a entrada de Jesus em Jerusalém para a Páscoa. Liam o evangelho correspondente a essa cena e faziam uma procissão festiva, com ramos nas mãos.
2º - Domingo da Paixão.
Enquanto em Jerusalém a celebração deste domingo retomava o clima alegre e entusiasmado da entrada de Jesus em Jerusalém, aclamado como Messias, a Igreja de Roma sempre preferiu dedicar esse domingo anterior à festa da Páscoa como Domingo da Paixão.
A liturgia católica atual une essas duas celebrações. As missas começam pela bênção e procissão de Ramos, inclusive com a leitura do evangelho que vamos comentar aqui e depois vem a parte diretamente eucarística que consta da leitura do profeta Isaías sobre o Servo Sofredor, depois, o hino da Carta aos filipenses e, como evangelho, lê-se o relato da paixão de um dos evangelhos sinóticos (neste ano A, lemos a paixão segundo Mateus).
Proponho tomarmos aqui agora esse evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém, que é para nós uma mensagem de esperança social e política. (Para quem quiser, proponho seguir uma meditação sobre o evangelho da paixão de Jesus).
No Brasil, a bênção e a procissão de ramos formam um rito muito popular, já que a maioria das pessoas gosta de procissões e quer levar o ramo como sinal de bênção, para colocar nas portas ou paredes da casa, como sinal de bênção. Atualmente, com a valorização da espiritualidade ecológica, esse rito deve tomar cuidado para não significar corte leviano de árvores. Ao contrário, deve representar a ocasião para a valorização das plantas e dos ramos, como sacramentais do amor divino.
Nas tradições afro-brasileiras, os cultos de tradição Yorubá valorizam Ossaim, o Orixá das folhas e das matas e há vários ritos nos quais as folhas são fundamentais. No Candomblé se diz: “Cosi Ewé, cosi Orijá” (Sem folha, não há Orixá). É importante que a bênção e a procissão de ramos possam retomar essas tradições populares e dialogar com essas culturas.
Com esse espírito de comunhão com as culturas do nosso povo, meditemos o evangelho do domingo de Ramos. Conforme o Evangelho de João, durante sua vida de adulto, Jesus teria ido a Jerusalém, ao menos três vezes, para as festas mais importantes do ano. Nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, Jesus só vai uma vez a Jerusalém e é para celebrar a sua Páscoa e doar a sua vida sob pena de morte na cruz.
Assim, esses evangelhos resumiram várias peregrinações de Jesus em Jerusalém em uma só e contam que Jesus entrou na cidade santa, montado em um/a jumento/a e com o povo camponês que vinha do interior em peregrinação ao templo, para a festa da Páscoa, a mais importante festa judaica na época. Foi esse povo do interior, gente pobre e a maioria de lavradores que também entrava na cidade.
Os evangelhos contam que esse povo do interior o acompanhava. Agitava ramos nas mãos e cantava versos do salmo 118. É desse salmo o verso: Bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana!
Na época de Jesus, esse gesto e esse salmo faziam parte dos ritos não da Páscoa e sim da festa das Tendas (Sucot, em hebraico), que até hoje, as comunidades judaicas celebram no outono do hemisfério norte (em setembro) e recorda a caminhada do povo hebreu no deserto e a esperança da libertação. É uma festa centrada na esperança messiânica, portanto, na fé de que a libertação não foi só do passado, mas é promessa da libertação definitiva e o mais cedo possível.
Conforme os evangelhos, ao menos dessa vez, por ocasião da entrada em Jerusalém, Jesus deixou que o povo pobre o aclamasse como Filho de Davi, portanto, descendente do rei e Messias, isso é, Libertador. Só que ele faz isso, exatamente no momento da vida em que mais assume a pobreza e a impotência. É um pobre camponês da Galileia, vindo em peregrinação a Jerusalém e essa cena ocorre não na entrada solene da cidade e sim ainda nas aldeias da periferia da cidade. Como, no Brasil de hoje, um sertanejo pobre do Nordeste caminha dias e dias até Juazeiro para homenagear o Padinho Cícero. Como em cada região, muita gente simples vai em peregrinação a santuários como Aparecida, Pirapora, Bom Jesus da Lapa, o Círio de Nazaré em Belém e outros.
Mateus diz que Jesus fez isso, inspirado na profecia de Zacarias (Zc 9, 9- 12). Por isso, entra na cidade, não como rei vitorioso, montado em um cavalo branco e cercado de soldados. Jesus entra nas aldeias da periferia de Jerusalém, montado em um jumentinho e cercado por gente do campo, explorada e sofredora. Esse pessoal esperava um Messias que viesse ocupar o trono de um futuro Israel libertado dos romanos. Por isso, as pessoas gritavam: “Filho de Davi!”.
Conforme os evangelhos, o projeto de Jesus não era esse do povo que o aclamava como Messias, ou seja, libertador político. É possível que, historicamente, tenha sido, mas depois da sua morte, no começo do movimento cristão, mal visto pelas autoridades judaicas e também pelo império romano que condenaram Jesus à morte, os discípulos e discípulas não salientaram essa função de Jesus. Precisaram espiritualizar a sua missão para não serem eles também simplesmente extintos do mundo.
Seja como for, o fato que os evangelhos não negaram é que ele teria aceitado a manifestação popular que o saudava como Messias e Libertador. Não proibiu nem interviu de nenhum modo. Pelo modo como agiu naquela ocasião, deixou claro: a libertação só virá através dos próprios pobres. Como diz a canção: “Eu acredito que o mundo será melhor, quando o menor que padece acreditar no menor”.
Jesus transforma a procissão ritual que a tradição judaica fazia com ramos em uma marcha social e política dos pobres explorados da Galileia que entram simbolicamente em Jerusalém, com hinos de libertação como o salmo 118 e gritando Hosana!
Parece que historicamente essa expressão aramaica foi mal entendida. A Igreja a interpretou como expressão de louvor. E colocou nas missas: Santo, santo, santo... Hosana nas alturas! Mas em aramaico, hosana significa “liberta-nos agora”. Não era tanto aclamação de louvor e sim grito quase desesperado de pedido de socorro.
Diante dessa manifestação social e política de Jesus e do povo da roça, entrando na cidade, as reações da elite da cidade e das autoridades são de receio e rejeição. Medo dos romanos. Medo de serem vistos como aliados dos subversivos do campo. No evangelho de hoje, Mateus diz que “toda a cidade de Jerusalém estremeceu”. O verbo é o mesmo que o evangelho usa para dizer que quando Jesus morreu, a terra tremeu. Lucas, no seu Evangelho, diz que os chefes vieram pedir a Jesus que mandasse os discípulos e o povo se calarem. E Jesus responde: - Se eles se calarem até as pedras gritarão!
Já o povo pobre que o acompanhava conclui que quem está ali é o profeta Jesus de Nazaré da Galileia. Então, Jesus não entra na cidade como rei e sim como profeta. É como profeta da esperança da libertação que ele quer, hoje, ser acolhido na nossa vida e nas nossas comunidades.
Atualmente, no mundo inteiro e também no Brasil, todas as pessoas e comunidades de boa vontade e que amam a paz e a justiça não têm muito motivo para ter esperança. Qual o futuro para a humanidade que sofre mais de 50 guerras espalhadas por vários países do mundo? E como imaginar um futuro promissor vendo as injustiças sociais se multiplicarem, os direitos dos pobres serem ignorados e o mundo dominado por meios de comunicação que só informam o que é do interesse da minoria que oprime econômica, social e politicamente o mundo inteiro?
Mais do que nunca, precisamos de novos sinais de esperança, que sejam como os ramos que ainda se distribuem nas comunidades católicas. Que esses ramos sejam como a flor que uma pessoa apaixonada oferece à outra e significa o amor que se partilha. Que possamos assumir a tarefa das pequenas libertações, mas que, às vezes, doem tanto. Hoje, seja com ramos nas mãos, seja apenas com o ramo da esperança que teimamos em viver interior e socialmente, recordemos aquele povo oprimido saudando Jesus como libertador e ele aceitando isso, mesmo sabendo que caminhava para ser condenado à morte e morte de um escravo rebelde na cruz.
Que hoje, nosso ramo não seja apenas de folhas. Pode ser uma palavra que até aqui não sentíamos força de dizer. Pode ser um sinal de amizade ou de carinho afetuoso que hesitávamos em fazer. Pode também ser a coragem de sermos generosos e nos entregarmos de coração e alma a aquilo no qual cremos.
Que esses ramos simbólicos vão nos fazendo acumular energia para as vigílias pela democracia, os bate-panelas para protestar contra o poder que oprime. Os ramos revelam o mais importante: pertencemos a uma rede de solidariedade, de luta por justiça e paz, e de comunhão nessa nova Páscoa que vamos celebrar.
Deixo com vocês um poema do nosso querido patriarca e profeta Dom Pedro Casaldáliga:
“E chegarei de noite,
com o feliz espanto,
de ver, por fim,
que andei, dia após dia,
sobre a palma da tua mão”.
A incerteza é um estado de espírito de quem está envolvido numa total indefinição, acomodado e incapaz de projetar atitudes de progresso e construção de realidades novas. Assim acontece com o cristão desanimado, que não consegue sair da mesmice e não dá passos para um encontro pessoal com Jesus Cristo. Mesmo com a riqueza da Quaresma, chega à Semana Santa com o coração vazio.
A imobilidade não deve ser a consequência para aquele que escuta e absorve as indicações da Palavra de Deus. Também, quem pratica atos de nível indesejável, revela incapacidade para entender que o ser humano foi projetado para construir o bem e é motivado para isso. Não é saudável a pessoa ficar na condição de acomodada e improdutiva, porque é prejuízo para si e para toda a sociedade.
O contexto reflexivo que se vive durante a Semana Santa, com início no Domingo de Ramos, revela a condição da humanidade de Jesus Cristo, Deus feito Homem, para consolidar as pessoas como seres humanos. A Paixão sofredora e humana do Mestre evidencia o nivelamento e a condição de ser identificado e solidário com todos os escanteados, flagelados e sofredores alhures pelo mundo.
A conquista da plenitude sobrenatural da vida não pode ficar no campo da incerteza, no clima de desilusão e total fechamento em relação a Deus. O caminho apresentado por Cristo é a simplicidade e capacidade de sublimação dos que são desprezados e frágeis. É na prática da servidão, do esvaziamento existencial que está a força de Deus, e faz dos humildes instrumentos de construção de seu Reino.
A incerteza não pode ser fruto ou reflexo de neutralidade, de descompromisso com a vida do outro, como faziam os fariseus no tempo de Jesus. Preocupavam-se com atos simplesmente externos, como lavar copos (cf. Mc 7,4) e não davam atenção aos necessitados presentes na comunidade. Não eram atitudes de incerteza, mas de hipocrisia e legalismo, motivo de duras críticas de Jesus.
Para Jesus, a vida é sustentada por situações concretas, por atitudes realmente verdadeiras, não através de incertezas, realizadas simplesmente a partir de ideias. Os gestos falam mais alto do que as palavras, por não ficar na neutralidade e nem no descompromisso. Foi justamente esta a atitude de Jesus, chegando a ser condenado e levado ao martírio, crucificado brutalmente numa cruz.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
Muita gente fala de Páscoa como se só existisse uma. De fato, no mundo religioso, existe a Páscoa judaica e a Páscoa cristã. Na sociedade, existe a Páscoa de quem aproveita o feriado para ir à praia ou passear. Mesmo em cada uma das Páscoas religiosas, há várias formas de viver e celebrar esse evento.
Provavelmente, o termo Páscoa (Peshach) significa passo, ou passagem. Em regiões do antigo Oriente Médio, designava uma dança de primavera. Era o passo (Páscoa) dos abrigos do inverno para o convívio com as outras pessoas e a natureza. Então, por sua origem e em seu DNA, a Páscoa tem caráter ecológico e, até hoje, a humanidade festeja a primavera.
Assim, no hemisfério-sul, em setembro, comunidades indígenas e afrodescendentes mantêm festas, nas quais celebram as manifestações divinas na Mãe-Terra, nas águas e na natureza. É possível que, no Candomblé Ketu, a festa das Águas de Oxalá tenha algo a ver com isso. É um rito de procissão na qual as pessoas carregam água e recordam o mito de Oxalá, que estava preso e foi libertado. É comemoração de uma libertação.
Até hoje, no Judaísmo, a festa de Páscoa, conhecida pelo nome de Peshach ocorre nas sinagogas e comunidades de todo o mundo. Neste ano de 2026, a Páscoa judaica é celebrada de 1º a 9 de abril. Recorda a libertação do povo oprimido que, conforme a Bíblia, era escravizado no Egito, sob o jugo dos faraós e em uma festa de Páscoa, tomou uma refeição apressada, para partir para a libertação.
Desde tempos antigos, essa festa consiste, principalmente, em uma ceia litúrgica chamada Seder. Além disso, durante sete ou oito dias, as pessoas evitam comer alimentos fermentados (chamêts). Consomem matsá (pão ázimo) e outras comidas simbólicas, que lembram o sofrimento e a saída apressada do Egito.
A tradição traduziu o termo hebreu como judeu e, posteriormente, a própria Bíblia identificou hebreu com israelita. Historiadores, exegetas e pesquisadores da história, como o estadunidense Norman Gottwald e o alemão Gerd Theissen, acreditam que o termo hebreu não designava etnia ou raça e sim categoria social, que, hoje, corresponderia a lavrador sem-terra, ou migrante sem-documento.
Infelizmente, hoje, muitos religiosos e religiosas do Judaísmo tradicional celebram liturgicamente a Peshach, mas, ao mesmo tempo, apoiam o governo sionista que massacra o povo palestino e chama o Irã de amalecitas, que, conforme a interpretação fundamentalista de textos do livro de Josué, devem ser simplesmente exterminados.
Mesmo no Judaísmo, não existe uma única forma de celebrar a Páscoa. Existe a celebração da Peshá, que, apenas, faz memória de um passado mítico, mas não se traduz por atitude ética de continuar hoje o que aquele episódio antigo significou. Por todo o mundo, há sinagogas tradicionalistas que celebram a Peshá e, na própria ceia pascal, coletam dinheiro para a guerra. No mesmo bairro, pode haver outra sinagoga que celebra a ceia pascal e proclama ao mundo que Deus é Amor e está sempre do lado dos povos crucificados de hoje. Os ritos, em sua essência, são os mesmos. O que muda é a interpretação e a ética com a qual as pessoas ligam o rito à vida concreta e à realidade de hoje.
Essas comunidades recordam o passado para atualizá-lo. Celebram a Páscoa para testemunhar que a ação divina é sempre libertadora de todas as pessoas oprimidas e da terra maltratada. Nessa Páscoa de 2026, em nome da fé, há soldados israelitas que se negam a participar da guerra.
Desde 1969, em Tel Aviv e em Jerusalém, as comunidades do Neve Shalom, Oásis de Paz, reúnem pessoas judias e árabes. Embora enfrentem sérios problemas de segurança e ameaças de grupos fundamentalistas judeus e muçulmanos, a Neve Shalom mantém escolas bilingues, em hebraico e árabe e presta socorro às famílias, vítimas da guerra. Na quarta-feira, 1 de abril, essa comunidade celebra o SEDER, a ceia pascal judaica. Na quinta-feira, inicia a celebração cristã da Páscoa.
No Cristianismo, nem todas as Igrejas celebram a Páscoa. As Igrejas “novas” não observam, propriamente, calendário litúrgico. Assim, reagem ao ritualismo das Igrejas mais antigas. Se quiser, o pastor prega sobre a morte de Jesus e sua ressurreição. Em geral, só as Igrejas consideradas históricas celebram a Páscoa. Entre elas, há grupos que procuram ligar Liturgia e Vida e outros que se negam até a cantar o hino da Campanha da Fraternidade, porque não o consideram religioso.
As comunidades da caminhada procuram atualizar-se e compreendem a missão como Igreja em saída, na direção das periferias do mundo. Elas têm dificuldade de celebrar a morte e a ressurreição de Jesus, porque todo o aparato litúrgico dos ritos, dos textos e dos cânticos têm uma linguagem sacrificial. Mesmo os textos pascais, baseados nas cartas de Paulo, lidas de forma literal, falam de Jesus como cordeiro pascal que foi imolado e celebram a morte de Jesus como sacrifício oferecido a Deus para salvar a humanidade do inferno. Essa é a linguagem e o conteúdo da maioria dos textos e cânticos católicos e evangélicos de nossos livros litúrgicos. Uns cantam a cruz, na qual Cristo, por sua morte, nos salvou. Outros escrevem nas paredes: O sangue de Cristo tem poder.
Graças a Deus, em todo o mundo, cresce o número de grupos e comunidades que acreditam: não foi por sua morte e seu sangue que Cristo nos salvou. Foi por sua vida doada por amor até a morte e morte de cruz. Cremos na vida e não na morte. Não podemos acreditar em um Deus que precisa que seu filho morra para se reconciliar com a humanidade. Cremos na salvação, não como apenas libertação do pecado e sim como vida nova que, através do Espírito, o Cristo Ressuscitado nos dá, para renovar-nos interiormente e transformar as relações humanas e todo o universo.
No evangelho de João, fica claro que mesmo a Páscoa cristã pode ser celebrada de formas totalmente opostas. Em vários momentos, o evangelho alude à Pascoa e explica tratar-se da “Páscoa dos judeus” (Jo 2:13, 6:4, 11:55). Nesse caso, o termo judeus não significa raça nem população. Designa os chefes religiosos do templo que mantinham a religião como forma de dominação sobre o povo, a serviço do escravocrata império romano. Até hoje, na Igreja Católica e em outras Igrejas, há ministros e grupos que celebram esse tipo de Páscoa, baseada em ritos, obrigações e preceitos a serem cumpridos No entanto, o mesmo 4º Evangelho fala de outro modo de celebrar a Páscoa. No capítulo 5, diz que Jesus, no lugar de subir ao templo para a festa, desce até o fosso onde há uma piscina na qual uma multidão de doentes das mais diferentes enfermidades jaz prostrada esperando um milagre. E ali, no sábado, dia em que era proibido qualquer atividade, Jesus cura um paralítico e manda que ele carregue sua cama até sua casa. No capítulo seguinte, está próxima a Páscoa e Jesus, no lugar de ir a Jerusalém, vai para o outro lado do lago (é simbólico ir para o outro lado) e ali junta uma multidão de pobres para a qual ele faz o sinal da partilha dos pães.
É em uma festa de Páscoa, que Jesus denomina a sua hora (Jo 13, 1), que ele enfrenta pacificamente as autoridades religiosas e políticas e leva a sua profecia até o ponto de entregar a vida. Sofre o martírio e une a comunidade de fé em uma nova forma de celebrar a Páscoa do Senhor. Não mais como sacrifício (em sua ceia, não se fala em cordeiro pascal). A nova forma de viver a Páscoa é marcada pela partilha de vida, força nova de esperança e doação da energia divina do Espírito, para que toda justa insurreição que existir no mundo contra as estruturas iniquas, transforme-se em ressurreição (nova ou dupla insurreição). Assim, podemos afirmar como o apóstolo Paulo: “Se alguém é de Cristo, é criatura nova. Todas as coisas antigas já passaram. Agora, surgiu uma novidade que é total” (2 Cor 5, 17).
Segundo a psicanálise o ser humano é movido por dois princípios ou duas pulsões, o princípio da morte, tânatos e o princípio da vida, eros. Frei Inácio Larrañaga, em Mostra-me o Teu Rosto descreve o duelo entre estas duas pulsões, ao qual denominou desânimo e esperança. Na leveza do diálogo encontram-se duas pessoas boas, honestas e muito realistas, porém com perspectivas opostas sobre a vida depois de a ter vivido. Como uma ajuda no enfrentamento dos dramas destes tempos de pandemia, compartilho o que acabei de ler.
Primeira cena: fala o desânimo. Sou uma pessoa que se encontra curvada ao peso da desilusão e da experiência da vida. Já vivi muito e me considero um velho lobo do mar. Agora, nada mais me entusiasma, nada me entristece, tudo resvala por mim. Estou curtido pela vida, e imunizado. Fui um jovem, sonhei muito, porque só os que ainda não viveram é que sonham. Nesse tempo, minhas árvores floresciam de ilusões, mas cada tarde soprava o tempo e carregava algumas delas.
Levantei-me e caí muito, tornei a levantar-me e caí muitas vezes. No horizonte de minha vista cravei as bandeiras de combate: obediência, humildade, paciência, pureza, contemplação, amor. Vi que os sonhos e a realidade estavam tão distantes como o Oriente do Ocidente.
E, mesmo curvado pelo peso de tantas derrotas pela vida, galguei outra vez o pináculo da ilusão, mas a queda foi ainda pior. Hoje, sou uma pessoa decepcionada e tenho a consciência de que não nasci para as coisas de Deus, enganei-me no caminho.
Olho para trás e só vejo ruínas. Olho a meus pés e tudo é desastre. Não sei se sou culpado disso ou não e nem me interessa mais saber. Ninguém volta atrás. Só tenho certeza de uma coisa: para mim não há esperança. O que fui até hoje e sou agora é o que vou ser até o fim e que minha sepultura vai se levantar sobre as ruínas de meu próprio castelo.
Segunda cena: fala a esperança. Você tinha levantado a sua casa sobre a espuma da ilusão. Por isso, ela desmoronou mil vezes, com o vai e vem das ondas. A areia loura das praias foi o fundamento de suas edificações e a ruína era inevitável. Suas regras do jogo foram o cálculo de probabilidades e as constantes psicológicas. E os resultados estão aí. Mas tenho uma palavra final para lhe dizer neste amanhecer: ainda pode ser. A esperança ainda é possível. Amanhã vai ser melhor. Vamos começar outra vez.
Se até agora houve ruínas, de hoje em diante vai haver castelos de luz apontando, com sua proa, para vértices eternos. Se até agora você colheu desastres, lembre-se que estão chegando primaveras cintilantes. Por trás da noite fechada há altas montanhas e já vem galopando a aurora. Só é belo acreditar na luz quando é noite. Por trás do silêncio, respira o Pai. A solidão é habitada por sua presença e lá em cima nos esperam o descanso e a libertação. Venha! Vamos começar outra vez!
Eu nasci numa tarde escura, em um morro pelado, molhada de sangue, quando todos repetiam em coro: está tudo perdido; não há o que fazer; o sonhador morreu. Nasci do seio da morte. Por isso a morte não pode destruir-me. Sou imortal, porque sou filha primogênita do Deus imortal. Mesmo que você diga mil vezes que tudo está perdido, vou responder mil vezes que ainda estamos em tempo.
Se até agora os êxitos e fracassos foram se alternando em sua vida como os dias e as noites, desde agora, cada manhã, Jesus ressuscitará em você, e florescerá como primavera sobre as folhas mortas de seu outono. Ele vencerá em você o egoísmo e a morte e como seu irmão vai tomar a sua mão para dirigi-lo pelas colinas transformadoras da contemplação. Você vai resplandecer com o fulgor dos antigos profetas no meio do povo. Venha! Vamos começar outra vez.
Os pobres e sofredores vão ocupar o recanto mais privilegiado do seu jardim. Quem são estes que, como um enxame, acorrem pressurosamente para você? São todos os esquecidos do mundo, os que não têm voz nem vez, os que não têm esperança nem amor. Vêm beber das suas primaveras acesas pelo Ressuscitado. Olhe, essas estrelas azuis ou vermelhas faíscam desde a eternidade e até a eternidade. Seja como elas. Não se canse de brilhar. Semeie pelos campos secos e cumes agrestes da misericórdia, a esperança e a paz. Não se canse de semear, mesmo que seus olhos nunca vejam as espigas douradas. Os pobres e os sofredores, um dia, hão de vê-las. Caminhe. O Senhor Deus será luz para os seus olhos, alento para os pulmões, óleo para as feridas, meta para o seu caminho, prêmio para o seu esforço. Venha! Vamos começar outra vez.
Ser o amor
Para caminhar com o Mestre,
Para assumir a missão,
Apesar das decepções
E cansaços,
Dos medos e das frustrações.
É preciso redescobrir Jesus
A partir da Palavra,
Da partilha do pão,
Para fortalecer a fé
E a esperança,
Para ser Igreja em saída.
Para rever o que trazemos
Na nossa mochila existencial,
Na evangelização,
O Reino exige de nós
Coragem e desapego,
Perseverança.
Deus nos leva a descansar,
Para repousar,
Para restaurar,
Para retirar as tralhas,
As coisas velhas
Que atrapalham a missão.
Para tomar consciência
E retomar o caminho
Com mais disposição,
Com mais humildade,
Com mais simplicidade,
Com mais entusiasmo.
Que faz arder o coração
Pela amizade,
Pela convivência fraterna,
Pela comunhão,
Pela oração
E pela boa ação.
O amor é convocação,
O dom maior,
O mais perfeito,
Que tudo abrange,
Que nos alcança
Para servir.
O amor exige de nós
Mais ardor missionário,
Mais motivação,
Mais proximidade,
Para sentar-se à mesa,
Para partir e repartir o pão.
+ Fontinele
Mt 26, 14 – 27, 66.
O martírio do Messias como profeta sofredor
Escutar, nas Igrejas, o relato da paixão de Jesus, ou ver filmes sobre isso, nem sempre ajuda a perceber a mensagem própria com a qual cada evangelho conta como Jesus viveu esse processo que culminou na cruz.
A comunidade de Mateus escreveu nos anos 80 do primeiro século. Formada por uma maioria de irmãos e irmãs, vindos do Judaísmo, a primeira questão parece ter sido como responder à decepção de muitas pessoas das comunidades de fé. Elas esperavam que, como Messias, Jesus tivesse liderado a guerra contra os romanos e instaurado no mundo o projeto divino de liberdade e justiça para todos e todas. Conforme os evangelhos, Jesus nem tentou essa luta.
Conforme os evangelhos, ao investir contra a dominação romana no país, Jesus atacou profeticamente a religião ritual do templo e a espiritualidade legalista dos sacerdotes e professores da lei. Por isso, os chefes do judaísmo o prenderam em Jerusalém, entregaram-no ao governador romano, que o condenou à morte na cruz, como os romanos faziam com os rebeldes que se levantavam contra o império.
Para sustentar a fé de comunidades cristãs de origem judaica, o evangelho de Mateus mostra, em cada página, que Jesus assumiu as profecias sobre o Messias, não como rei, filho de Davi, guerreiro e sim como profeta, servidor sofredor de Deus, como aparece no 2º Isaías e em alguns salmos.
É a partir de uma fonte comum que Mateus, Marcos e Lucas contam as cenas da paixão e morte de Jesus. Por isso, nos três evangelhos, o relato da paixão obedece à mesma sequência: começa pela ceia, a seguir vem o relato da traição de Judas. Depois os três evangelhos contam a oração no jardim de Getsêmani e a prisão de Jesus. A seguir, vem o interrogatório que ele sofreu no tribunal religioso do templo (o sinédrio). Depois, os inimigos o conduzem ao processo e julgamento no tribunal do governador romano (o pretório). Ali, ocorre a condenação à morte.
Jesus foi condenado à morte pelo poder político, mas por insistência dos sacerdotes e líderes religiosos do templo. Já condenado à morte, durante aquela noite, Jesus é torturado, como era o costume. Na manhã seguinte, levam Jesus, com a cruz às costas, pelo caminho entre a cidade e o local onde será crucificado. Assim, o evangelho conta o caminho com a Cruz às costas, a crucifixão, morte e sepultura.
Sobre os detalhes, um evangelho diverge do outro. Para Marcos, Jesus foi crucificado pelas nove da manhã (na terceira hora do dia) e morreu pelo meio-dia. Para Mateus e Lucas, foi crucificado ao meio-dia e morreu às três da tarde.
Diferentemente dos outros, Mateus liga cada cena da paixão com uma passagem bíblica do primeiro testamento para mostrar que Jesus realizou profundamente outro modelo de Messias, diferente do Messias-Rei que o povo esperava. Esse outro modelo do Messias como profeta também tinha sido descrito e previsto na Bíblia. Seria para nós, hoje, um bom estudo bíblico, abrir a nossa Bíblia e verificar a que passagem do primeiro testamento, o evangelho liga cada cena da paixão de Jesus.
Muitas vezes, na história, interpretou-se a argumentação de Mateus, como se o evangelho dissesse que a libertação que Jesus veio realizar não é política e sim espiritual. Essa leitura dualista e alienada acabou por fortalecer uma interpretação religiosa, baseada no sacrifício. Jesus teria morrido como oferenda para aplacar a Deus, irado por causa dos pecados da humanidade. Esse tipo de interpretação é contrária ao que Jesus quis revelar: um Deus todo amor e graça, que jamais pediu ou desejou que o seu Filho morresse para salvar o mundo.
Escrito nos anos 80, Mateus reflete o conflito existente entre as comunidades cristãs e o Judaísmo da época, dirigido pelos rabinos e fariseus. Por isso, ao contar a paixão de Jesus, o evangelho sublinha a culpa dos religiosos do templo, na condenação de Jesus e diminui a responsabilidade de Pilatos e dos romanos. Pode ter sido estratégia para inserir-se com mais aceitação no império romano. No entanto, também revela que a maior revolução de Jesus foi no modo de falar de Deus como Amor incondicional, amigo da humanidade e solidário do povo sofredor. A libertação é integral, mas começa pela espiritualidade.
A opressão que qualquer pessoa, ou todo um povo, sofre no plano social e político é intrinsecamente violenta. No entanto, a opressão religiosa, vestida com aparência espiritual é pior, porque atinge a pessoa e a comunidade em seu ponto mais íntimo: o espírito. Na opressão religiosa, a pessoa é desrespeitada e violentada, em nome de Deus e da fé. Jesus foi torturado e assassinado em nome das duas.
O relato da Paixão segundo Mateus pode ser compreendida à luz dos muitos relatos de martírio que enriquecem nossa Igreja na América Latina, desde massacres dos índios, negros e categorias oprimidas, até o assassinato de pastores, padres e bispos que decidiram ser fieis ao evangelho.
Até hoje, existem autoridades religiosas cristãs, padres e pastores, que legitimam a opressão política, exploram economicamente o povo em nome de Deus e apoiam estruturas sociais e políticas opressoras, sempre usando a religião como instrumento de poder e de domínio. Jesus foi vítima dessa estrutura religiosa e política, ainda vigente no mundo atual.
Em nosso continente, da década de 1960 até hoje, não foram governos comunistas ou ateus que perseguiram e assassinaram irmãos e irmãs militantes das pastorais sociais e das comunidades de base. Foram governos católicos. O Pastor Fred Morris que, em 1974, foi barbaramente torturado, em um quartel militar do Recife pelo, Coronel Meziak, que lhe explicou: - Estou fazendo isso com você para salvar a civilização cristã.
Os irmãos e irmãs mártires da fé e do testemunho do projeto divino no mundo foram acusados de não serem suficientemente fieis à religião e à fé. Foram acusados de ser subversivos, como Jesus que, nesse evangelho, é acusado de ter blasfemado contra o templo e contra o império e por isso é condenado.
Monsenhor Romero afirmava: “Mata-se a quem está atrapalhando. A quem não atrapalha, não se mata”. Jesus foi morto porque atrapalhava e ameaçava a religião ritual, que usava o nome de Deus para exercer poder sobre o povo. Ao deslegitimar os sacerdotes e o poder religioso, aliado do império, Jesus desafiava o próprio império. Fez isso, como pobre e indefeso.
Os textos bíblicos mais citados por Mateus para explicar a paixão de Jesus foram tirados das profecias do Servo Sofredor no 2º Isaías. Em alguns desses textos, o Servo Sofredor aparece como figura individual de um profeta (ou profetiza). Em outros, trata-se de uma figura coletiva. Na América Latina, Ignacio Ellacuría, mártir jesuíta em San Salvador, revelou que, hoje no mundo não são apenas pessoas que continuam a ser condenadas à morte. São povos inteiros, crucificados, pelo poder político e econômico opressor.
Não basta contemplar o Cristo crucificado nos milhões de vítimas desse mundo cruel. A nossa resposta à meditação da paixão segundo Mateus deve levar-nos ao compromisso de fazermos tudo o que for possível para descer da Cruz as pessoas oprimidas e os povos crucificados. As teologias da libertação e a espiritualidade dos irmãos e irmãs, mártires da caminhada, ensinam que essa é a missão de todos e todas nós .
É preciso que a leitura da paixão de Jesus segundo Mateus fortaleça em nós a solidariedade a toda pessoa que, hoje, é vítima da injustiça e da desumanidade da sociedade dominante e daqueles que a governam. Ao mesmo tempo, convida-nos a não desanimar e a ver que, mesmo nos aparentes fracassos das comunidades e movimentos que lutam pacificamente pela transformação do mundo, esses profetizam a transformação do mundo e a vitória da vida, ou seja a ressurreição.
---------------------------------
1- Algumas comunidades têm preferido ler o relato da Paixão em um ofício próprio de leitura e meditação da Palavra. Esse ofício pode ser no domingo ou em algum dia da semana, antes do Tríduo Pascal que começa na 5ª feira à tarde.
2- SOBRINO, Jon. Jesus, o Libertador. I – A história de Jesus de Nazaré. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 288.
3- Cf. TAVARES, Sinivaldo. Cruz de Jesus e o sofrimento do mundo. Petrópolis, Ed. Vozes, 2002, p. 168.