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A Campanha da Fraternidade 2026 nos convida a olhar com mais atenção para uma realidade que toca profundamente a vida do nosso povo: a moradia. Ter um lar não é apenas ter um teto, mas viver com dignidade, segurança, pertencimento e esperança. É ter um lugar onde a vida possa florescer.
Ao escolher o tema “Fraternidade e Moradia”, a Igreja nos chama a reconhecer que a falta de moradia, ou a moradia precária, não é um problema distante, mas uma ferida social que atinge milhões de famílias em nosso país. São pessoas vivendo em áreas de risco, sem infraestrutura, sem saneamento, sem acesso a serviços básicos e, sem proteção contra a violência e as injustiças.
A moradia digna é um direito humano fundamental. E, para nós cristãos, é também expressão concreta do Evangelho. Jesus sempre se aproximou dos pobres, dos que viviam à margem e dos que eram invisibilizados. Ele nos ensina que cuidar da vida do povo é parte essencial da fé.
Por isso, a Campanha da Fraternidade 2026 nos provoca a ir além da reflexão: nos chama à conversão. Conversão pessoal, comunitária e social. Somos convidados a construir fraternidade quando acolhemos, quando defendemos os direitos, quando nos organizamos e quando nos comprometemos com políticas públicas que garantam moradia para todos.
A moradia também se conecta diretamente com a missão das Comunidades Eclesiais de Base: estar perto do povo, ouvir suas dores, fortalecer a organização popular e cultivar uma espiritualidade que se transforma em compromisso. Onde falta moradia, falta dignidade. E onde falta dignidade, o Reino de Deus ainda precisa ser anunciado com gestos concretos.
Também vale recordar o que foi partilhado na live promovida pelo CNLB e pelas CEBs do Regional Leste 2, pelo Ir. Denilson Mariano, do Mobon: a moradia não pode ser vista apenas como “quatro paredes”, mas como lugar de vida, de dignidade, respeito e de amor.
Mariano nos lembrou que lar é mais do que casa. Lar é onde a pessoa se sente acolhida, respeitada, reconhecida e amada. É onde a vida deve florescer com segurança, com esperança e com paz.
Por isso, quando falamos de Fraternidade e Moradia, estamos falando também da necessidade de construirmos: lares onde haja respeito, ambientes de convivência saudável, espaços de alegria, relações marcadas pela ternura e pela dignidade.
Essa reflexão nos ajuda a perceber que a Campanha da Fraternidade 2026 é, ao mesmo tempo, um chamado social e espiritual: lutar por moradia digna, mas também cultivar lares fraternos, onde a presença de Deus se faça sentir no cuidado, na escuta e na partilha.
Que a Campanha da Fraternidade nos ajude a fortalecer a solidariedade, a justiça social e a esperança. E que possamos, como Igreja, ser sinal de um mundo onde cada pessoa tenha o direito de viver com dignidade, com segurança e com paz.
A construção da verdadeira fraternidade entre as pessoas depende, e muito, de envolvimento e cultivo dos laços de afeto, de solidariedade e de amor ao próximo. Para isto é necessário superar as diferenças existentes no campo das ideologias e de uma sociedade que exclui, portanto, injusta. Supõe cuidado e proximidade dos mais vulneráveis para assim promover uma cultura da paz.
Praticar a fraternidade depende da ousadia das pessoas, e da sabedoria, que vem de Deus. É escolher fazer o bem ou fazer o mal, amar ou desprezar o outro, ou ficar numa atitude de ostracismo, indiferente no espaço de convivência. Não foi esta a prática de Jesus, que incomodava quem convivia com ele. Jesus manifestava apreço pelas pessoas, de modo especial com os mais sofridos e desprezados.
Construir a fraternidade é envolver e cultivar laços de afeto, solidariedade e amor ao próximo, superando diferenças ideológicas e culturais para criar uma sociedade mais justa e inclusiva. Envolve o diálogo, a partilha, o perdão e o compromisso comum com o bem-estar coletivo, frequentemente manifestado em ações concretas de cuidado com os mais vulneráveis e na promoção da cultura da paz.
A prática da fraternidade é feita por opção livre, sabendo que isto é uma identificação com a sabedoria divina. Portanto, é sábio todo aquele que faz escolha, com bom senso e ama o próximo, pois, é sabedoria que vem de Deus, que quer que tenhamos vida humana na fraternidade. Neste contexto está o sentido da existência de uma comunidade cristã, onde há calor humano na convivência.
A construção da fraternidade depende muito de abertura à vontade de Deus e é uma importante missão diante de uma cultura com profundas marcas de individualismo. O fechamento, isto é, a falta de discernimento da razão, provoca isolamento, que é um fato natural e generalizado do distanciamento. Assim se torna impossível a construção de uma sociedade fraterna e local de solidariedade.
A fraternidade comunitária é espaço propício para o encontro com Deus. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,20). Significa, que as agressões e as palavras ofensivas impedem o diálogo, desorganizam e dificultam a harmonia comunitária e levam ao distanciamento de Jesus Cristo. Fica então difícil a construção da fraternidade.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
A Igreja do Brasil realiza todos os anos, durante a quaresma, uma Campanha da Fraternidade (CF), chamando atenção para a ruptura da fraternidade na sociedade (pecado social) e convidando todas as pessoas à construção de uma sociedade mais justa e fraterna, de acordo com o projeto de Deus anunciado por Jesus de Nazaré (conversão social). A CF é realizada no espírito quaresmal de penitência e conversão, que não se reduz à uma dimensão pessoal (conversão do coração), mas tem também uma dimensão social fundamental (transformação da sociedade). Ela nem substitui nem prejudica a espiritualidade quaresmal, mas é sua concretização no âmbito social.
O Tema da CF 2026 é “fraternidade e moradia” e o lema é “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Jesus de Nazaré é a Palavra de Deus encarnada no meio de nós. Ele nos revela que “Deus é amor” e nos chama à vivência do amor fraterno (1Jo 4,8). A negação do direito à moradia, assim como as condições precárias e até desumanas de moradia de tanta gente em nosso país, é um sinal claro da negação do amor de Deus em nossa sociedade. Isso exige de nós reconhecimento e denúncia desse pecado que clama ao céu (confissão desse pecado social) e compromisso em colaborar com as lutas pela garantia desse direito em nossa sociedade (conversão social).
A falta de moradia e as condições precárias de moradia são um dos problemas sociais mais gritantes e urgentes do Brasil. Falando de moradia, não falamos apenas da casa. Falamos também dos equipamentos e serviços públicos (água, energia, saneamento, escola, saúde, lazer, transporte, segurança etc.) e das relações familiares e sociais. Não podemos reduzir o problema da moradia a unidade habitacional, por mais que ela seja a base fundamental desse direito. No Brasil, mais de 365 mil pessoas vivem em situação de rua; mais de 6 milhões de famílias necessitam de uma casa, por estarem em habitação precária, em coabitação ou com aluguel muito caro; mais de 26 milhões de famílias moram em situação inadequada (área de risco, ausência ou insuficiente infraestrutura, distância dos equipamentos públicos, domínio do crime organizado etc.); mais de 16 milhões de pessoas (8,1% da população do país!) vivem em favelas e comunidades urbanas. Nunca é demais lembrar que o problema da moradia tem classe, raça e gênero e é também um problema ambiental: predomina em famílias com renda de até 2 salários-mínimos, formadas por pessoas pardas e pretas e chefiadas por mulheres; essas famílias são as primeiras e maiores vítimas das catástrofes e dos crimes ambientais.
Essa história vem de longe. Tem raízes no sistema colonial e escravagista no Brasil que excluiu a população pobre e preta do direito à terra e à cidade, empurrando-a para as periferias e áreas de risco e abandonando-a à sua própria sorte. Aprofunda-se com o processo de industrialização e urbanização que provoca êxodo rural massivo, sem jamais incluir a população do campo no direito à cidade. E se agrava com a ideologia neoliberal do chamado “Estado mínimo” que significa redução dos recursos destinados às políticas sociais. Não existe “teto de gastos” nem “arcabouço fiscal” para pagamento de juros da dívida. Em 2024, quase metade de todo o orçamento federal foi destinado a pagamento de juros e amortizações da dívida (42,96%). Isso foi produzindo uma sociedade extremamente desigual, cujo resultado é uma “cidade para poucos”.
O Texto-Base da CF chama atenção para dois fatores que alimentam e reproduzem essa desigualdade no Brasil: 1) O sistema tributário, centrado no consumo e não nos lucros e dividendos, faz com que os pobres paguem mais imposto que os ricos. Quem recebe o bolsa família, por exemplo, paga quase metade do que recebe em impostos cobrados na compra de produtos; 2) O sistema da dívida pública, que destina quase metade do orçamento federal para pagamentos de juros da dívida. Além de cobrar muito mais imposto dos pobres que dos ricos, ainda destina quase metade do orçamento para os ricos. Isso significa na prática uma transferência de renda da maioria pobre para uma pequena elite que vai concentrando cada vez mais renda e riqueza.
Não podemos ficar indiferentes a essa situação. Precisamos tomar consciência de que moradia é um direito fundamental de toda pessoa e não pode ser tratada como um problema meramente individual. Precisamos denunciar essa situação como injustiça e pecado que clama ao céu. Precisamos sensibilizar nossas comunidades a lutarem por condições dignas de moradia nas periferias: água, esgoto, calçamento, escola, lazer etc. Precisamos colaborar com os movimentos populares em nossa região ou pelo Brasil afora na luta por “terra, teto e trabalho”. E devemos fazer isso a partir do nosso território: dando visibilidade ao problema da moradia e reivindicando condições dignas de moradia.
Fraternidade e moradia: Convertei-vos e crede no Evangelho!
VI Domingo Comum – Mt 5, 17-37
Enquanto a maior parte do Brasil festeja o Domingo de Carnaval, o lecionário ecumênico propõe às várias Igrejas que o seguem palavras de Jesus, que a comunidade cristã dos anos 80 do primeiro século da era cristã reuniu no Discurso da Montanha (Mt 5, 17- 37).
São palavras que vêm a nós como boa notícia e mensagem de alegria. Podem ser acolhidas dentro do espírito de alegria e de confraternização que o Carnaval nos convida a viver. Só que o Evangelho propõe isso não só para esses dias e sim para todo o tempo, para a vida inteira. São palavras muito provocativas que martelam no nosso ouvido de forma inquietante. Por seis vezes, o Jesus do Evangelho de Mateus diz: “vocês ouviram o que foi dito, mas agora eu lhes digo...”.
Ele vai em uma ordem crescente. Começa pelo sentido da lei. Diz que a lei sem amor é incompleta e insuficiente. Religião sem fé é vazia e pode cair em idolatria. Celebração religiosa sem a prática da justiça é inútil. Jesus dá vida e coração à lei e a religião ao dizer: está escrito assim, mas agora, eu digo a vocês. E aí nos toma pela mão e nos conduz para além da lei e das estruturas. Coloca-nos no coração da vida. Como o Carnaval faz ao tirar as pessoas do sério. Nesse evangelho, Jesus nos propõe ir ao coração da vida e das outras pessoas. Sua proposta é exigentíssima: amem os inimigos, orem pelas pessoas que perseguem vocês... Não é possível ser, verdadeiramente, feliz e brincar, interiormente, sem nos entregar ao amor. Para isso, temos de vencer a indiferença e o desamor.
Nos anos 80 do primeiro século da era cristã, em comunidades formadas majoritariamente por pessoas de origem judaica, as comunidades de Mateus reuniram essas palavras para mostrar que Jesus não quis romper com a essência original da religião institucional, nem com a cultura do povo. No entanto, pede que os seus discípulos e discípulas tornem-se capazes de ir além da instituição. Procurem não o simples cumprimento da lei, mas o espírito que a lei visa.
Durante o seu ministério, o Papa Francisco propôs uma “Igreja em saída”. De certa forma, Jesus propõe uma lei “em saída”, ou para fora de si mesma. Quando a lei se torna o eixo central da fé, torna-se absoluta e opressiva. Serve apenas ao grupo de poder que a produziu. No mundo atual, isso se chama Fundamentalismo.
Depois de revelar nas bem-aventuranças uma espécie de programa de Deus, ao estabelecer o seu reinado sobre o mundo, Jesus dá alguns exemplos de como realizar a inversão social e humana proposta pelas bem-aventuranças. Ele mostra como em seis situações concretas, quem entra nos caminhos das bem-aventuranças deve fazer. Retoma algumas normas judaicas e propõe que sejam interpretadas no sentido do seu espírito original. Começa pelo mandamento de não matar. Não basta respeitar a vida. É preciso defendê-la.
No tempo de Jesus, a mulher podia ser repudiada pelo marido, simplesmente, porque ele preferia trocar de mulher. Jesus defende o direito da mulher e insiste na igualdade de gêneros. Também, propõe confiança na palavra dada, de tal modo que o juramento não seja necessário.
Jesus propõe que superemos a mania de dividir as pessoas em boas e más e reconheçamos a dignidade e direitos até dos nossos adversários. O marido cuide da esposa e a respeite, mesmo quando, por acaso, não a ame mais. Assim como, na Índia, na sua ação libertadora não violenta, o Mahatma Gandhi ensinava, Jesus propunha desarmar alguém que nos odeia, com respeito e atenção que devemos dar a toda pessoa humana. A nossa missão é testemunhar o amor divino. Quando fazemos isso, a lei ajuda a construir novas relações sociais. A atenção ao irmão vale mais do que as oferendas apresentadas no altar.
Na sociedade da época de Jesus e dos evangelhos, a palavra tinha muita importância e força. Antigamente, havia costume de proferir maldição ou "rogar praga" e desejar mal a outra pessoa (Cf. Mt 5, 21- 26). Jesus proíbe isso. Quem quer viver a justiça nova do reino não pode deixar dominar-se pela ira, nem condenar um irmão ou irmã por meio de uma palavra má. Hoje, a publicidade e a comunicação banal esvaziam a força das palavras. No entanto, as palavras não são sem consequências. Quantas vezes, nas comunidades, uma palavra destrói profundamente o outro e as relações. Uma comunidade pode ser destruída apenas pelo uso irresponsável e imprudente da palavra contra o outro. Por isso, Jesus exige muito cuidado com as palavras que usamos. O trabalho e o caminho da libertação social e política, mas também a nossa relação na comunidade, exige ética profunda e permanente. Temos de zelar que nossas relações sejam orientadas pela ética, ou seja, pelo cuidado amoroso. Muitas vezes, mesmo nós que nos dizemos “da libertação”, não somos éticos (as), ao tecer comentários sobre outras pessoas e pecamos contra esse evangelho.
Outro assunto é o desejo ou libido (Mt 5, 27- 30). Tomar consciência do nosso desejo afetivo-sexual mais profundo favorece o esforço de orientá-lo na direção daquilo que cremos e desejamos no plano social. Nós não somos inteiros sozinhos. Precisamos da outra pessoa, mas não podemos fazer dela objeto do nosso desejo. Temos de lidar com o desejo, de modo que respeitemos a liberdade e autonomia das outras pessoas.
Desde antigamente, a Bíblia proibia jurar em nome de Deus (Ex 20, 17). O que está por trás é a força da palavra. Gandhi usou a força da verdade como instrumento da sua luta não violenta. Jesus diz: “seja o seu sim, sim, e o seu não, não”. Quem jura em nome de Deus age como se tivesse recebido procuração de Deus para falar em seu nome. É a tentação das religiões. Jesus adverte: ninguém deve usar o nome de Deus para fortalecer interesses próprios e as causas que defende.
Esse evangelho propõe unir a coerência evangélica com a radicalidade (ir à raiz das questões) e, ao mesmo tempo, manter a abertura para colocar a outra pessoa como referência desse caminho em direção ao reino. A questão principal não é cumprir ou não as leis, mas quê leis e com que espírito?
É frequente vermos grupos de esquerda que propõem mudanças estruturais e se centram somente nas análises coletivas e institucionais. Ao contrário, grupos espiritualistas pensam que se se conseguem mudar o pensamento e sentimento íntimo de cada pessoa, pode-se mudar o mundo. O evangelho nos adverte que é necessário unir as duas dimensões – o social e o pessoal. É preciso cuidar tanto da dimensão subjetiva quanto das mudanças estruturais. É nessa dialética que caminhamos para uma nova Ética social e revolucionária, baseada no Amor Maior.
Os povos indígenas propõem que organizemos nossas vidas a partir do princípio do bem-viver que supõe o bem-pensar, o bem-sentir e o bem-fazer. Isso significa encontrar o equilíbrio entre o corpo, o coração e a mente e situar-nos no seio da comunidade humana e comunhão de todos os seres vivos.
Iniciamos na quarta-feira de cinzas, a grande celebração anual da páscoa, num único tempo pascal. Embora a quaresma venha antes, não se trata de primeiro celebrar a cruz para depois celebrar a ressurreição. Apesar de que na prática das celebrações esse processo acontece, não devemos separá-las.
Jesus, ao aparecer aos seus discípulos após a ressurreição, ele mostra-lhes as mãos e o lado, testemunhando que o Ressuscitado é o Crucificado e o Crucificado é o Ressuscitado (João 20,20; 25-27).
Quem melhor expressou esta união foi Santo Agostinho, ao afirmar que foi instituída a celebração de dois tempos: um antes da Páscoa e outro depois da Páscoa. O tempo precedente à Páscoa figura a tribulação em que nos achamos; o que celebramos após a Páscoa lembra a felicidade futura em que nos acharemos. Antes da Páscoa, portanto, celebramos o que vivemos; depois da Páscoa celebramos, assinalando, o que ainda não temos. Por isso, no primeiro tempo exercitamo-nos em jejuns e orações; agora, terminados os jejuns, passamos o tempo em louvores. Tal é o sentido do Aleluia que cantamos. Aleluia se traduz para o latim, como sabeis, por: ‘Louvai ao Senhor’. O primeiro tempo, portanto, representa a fase anterior à ressurreição; o segundo, a posterior à ressurreição do Senhor. Significa a vida futura, que ainda não possuímos.
A celebração da páscoa nasceu entre os monges no Egito por volta de 384 d.C e a sua preparação foi se estendendo para seis semanas, surgindo assim a quaresma, introduzindo o símbolo litúrgico do número 40.
Na tradição religiosa 40 é o número da espera, da preparação, da provação e do aniquilamento.
Os escritos bíblicos descrevem a história do povo aplicando esta simbologia, assim temos o reinado de Davi por quarenta anos (2 Samuel 5,4); e também o reinado de Salomão (1Reis 11,42).
Temos os quarenta dias e quarenta noites de chuva no dilúvio (Gênesis 7,17); Moisés é convocado por Deus aos quarenta anos; quarenta anos de caminhada do povo pelo deserto; quarenta dias de Moisés no Monte Sinai (Êxodo 34,28); quarenta dias de afronto de Golias contra o povo até quando Davi o enfrentou e o abateu (1Samuel 17,16); quarenta dias de caminhada de Elias para o monte de Deus, o Horeb (1Reis 19,8); quarenta dias da pregação de Jonas em Nínive (Jn 3,4).
E lembramos principalmente o retiro de quarenta dias de Jesus no deserto (Mateus 4,1-11; Marcos 1,12-13; Lc 4,1-13). Jesus pregou quarenta meses, morreu e ressuscitou e volta ao Pai depois de quarenta dias de ressurreição. Este número está presente em tantas outras passagens bíblicas.
Trata-se de um número simbólico que nos convida a voltarmos para Deus, neste tempo de quaresma, como foi o convite feito por Jonas durante sua pregação ao povo de Nínive, que teve quarenta dias para se converter e alcançar a misericórdia de Deus (Jonas 3,1-16).
A espiritualidade quaresmal tem seu sentido verdadeiro no mistério pascal de Jesus Cristo, que culmina no tríduo pascal e que é o fundamento de todas as nossas celebrações cristãs.
A Sacrossanctum Concilium nos diz, no número 109: tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica esclareça-se melhor a dupla índole do tempo quaresmal, que, principalmente pela lembrança ou preparação do batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a Palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do mistério pascal.
Na quaresma somos convidados a fazer uma verdadeira experiência na participação do mistério pascal de Jesus Cristo. Sofremos com Cristo para participar de sua glória (cf. Romanos 8,17).
A quaresma tem caráter essencialmente batismal, sobre o qual se baseia o caráter penitencial. Na verdade, a Igreja é comunidade pascal porque é batismal. Isso deve ser afirmado não só no sentido de que nela entramos mediante o batismo, mas principalmente porque a Igreja é chamada a exprimir em sua vivência de contínua conversão o sacramento que gera. Daí também o caráter eclesial da quaresma. Ela é o tempo de grande convocação de todo o povo de Deus, para que se deixe purificar e santificar por Jesus de Nazaré, o Cristo da fé, Senhor da história.
A Ele sejam dadas a honra, a glória, a riqueza, a sabedoria, a força e o poder (Ap 5, 12).
VI Domingo do Tempo Comum:
Jesus encontrou uma constante e crescente oposição ao que dizia e, sobretudo, ao que fazia: curar em dia de sábado, sentar-se à mesa com publicanos e pecadores, acolher mulher pagã e curar sua filha, ir comer e pedir pouso na casa de Zaqueu, um cobrador de impostos odiado pelo povo.
Esta animosidade de fariseus, escribas e doutores da lei continuou atormentando as primeiras comunidades de judeus que passaram a seguir Jesus, até o momento em que foram todas elas expulsas das sinagogas.
Quando Jesus apresentou seu programa no Sermão da Montanha, ele trocou “mandamentos” por “felicidades”: felizes os pobres, felizes os aflitos, felizes os puros de coração, felizes os promotores da paz, felizes, quando vos perseguirem, por causa de mim. A cada grupo dessas pessoas, prometeu o Reino dos céus, o reinado do seu Pai, bem diferente da opressão e desamparo a que estavam submetidas.
A pergunta que ficava no ar era óbvia: Isto significa que Jesus estava ignorando e abandonando os mandamentos, a Lei e os Profetas?
Face às dúvidas e perplexidades levantadas pelo próprio João Batista que mandara perguntar a Jesus se ele era mesmo o Messias ou deviam esperar um outro, temos no evangelho de hoje a solene afirmação de Jesus:
“Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5, 17-37).
Para os que estavam entrando nesse novo território do Reino de Deus, significava uma mudança profunda no coração, nas atitudes e no relacionamento com os demais irmãos e irmãs e empenho em estabelecer a justiça.
Jesus vai exemplificar essa mudança, contrapondo o que se encontrava escrito na Lei e o que ele agora propunha, como seu “pleno cumprimento”:
“Porque eu vos digo, se a vossa justiça não for maior do que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (5, 20).
Começa, então, Jesus, pelo radical compromisso com a vida, a vida de todas as pessoas, sobretudo das mais desamparadas e descartadas:
“Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás!’ Quem matar será condenado pelo tribunal. Eu, porém, vos digo, todo que se encoleriza com seu irmão, será réu em juízo; quem disser ao seu irmão ‘patife’ será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de tolo, será condenado ao fogo do inferno’ (5, 21-22).
Podemos parar um pouco e nos perguntar a nós mesmos: por que cresceu tanto entre nós a agressividade dentro de casa, no trabalho, na rua, nas redes sociais e mesmo dentro das igrejas? Por um nada, já alteramos a voz, saímos gritando, xingando, ameaçando, agredindo e mesmo matando, como mostra a disparada dos feminicídios. E nem é preciso citar o que vem acontecendo no trânsito, nos estádios de futebol. Disparou o número de mortos e feridos ao atravessar a faixa de pedestres, por acidentes nas estradas que, certamente vão se multiplicar, neste feriado de carnaval. Chegamos ao número de cerca de 50 mil mortos por ano, nas estradas e ruas das cidades por acidentes causados por excesso de velocidade, pelo criminoso uso de bebida alcoólica e também do celular, enquanto se está dirigindo.
Jesus toca então na ferida de comportamentos que julgamos que nada tem a ver, um como o outro: a separação entre ritos religiosos e a própria vida.
“Portanto, quando tu estiveres levando tua oferta para o altar e aí te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão. Só, então, vai apresentar a tua oferta” (5, 23-24).
Que o tempo de preparação para a Páscoa da Ressurreição, que iniciamos logo mais nesta semana, como graça e momento favorável, nos ajude a rever nossa vida e fortalecer nosso compromisso com a justiça, a bondade, a partilha e verdadeira mudança no modo de tratarmos cada pessoa em casa, no trabalho, na comunidade e na vida social e política.
José Oscar Beozzo – jbeozzo@terra.com.br