Os textos ficam aqui por uma semana, a partir do sábado depois das 12 ou 13 h. Os textos dos que possuem blogs ou sites podem também ser buscados pelos links a seguir: INÁCIO VALE - MAGDA MELO - PE. NELITO DORNELAS - MARCELO BARROS- PE. GEOVANE - - LEONARDO BOFF - DOM WALMOR - DOM FONTINELE - VATICAN NEWS - DOM OTACÍLIO
Jesus começou a pregar dizendo:
Arrependei-vos, porque o Reinado de Deus está próximo (Mt 4, 12-23).
O evangelho deste domingo, começa com uma notícia triste e preocupante. Surge como uma ameaça e vai alterar o rumo da vida de Jesus:
"Ao ouvir que João (Batista), havia sido preso, Jesus retirou-se para a Galileia" (Mt 4, 12).
Herodes, ao prender o Batista, quis desbaratar seu movimento que atraia cada vez mais gente para as margens do rio Jordão, longe do controle que exercia desde a capital Jerusalém. Jesus também tinha vindo procurar João para ser batizado. Bate agora em retirada para longe da Judeia, onde Herodes havia desencadeado a repressão.
Vai para a Galileia desprezada pelos judeus, acusada de se deixar paganizar e ser um lugar de trevas, mas Mateus evoca o profeta Isaias, para dizer:
“O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz, e para os que viviam na região escura da morte, brilhou uma luz” (4, 16).
Não volta, porém, para Nazaré, a cidade onde fora criado. Busca Cafarnaum, a cidade maior à beira do lago, de onde saia o peixe para toda a região e aonde chegava o trigo da fértil planície de Esdrelon, que se estendia do mar até o lago. Ali reinava abundância e fome, pois pesado era o tributo sobre os camponeses e o trigo era drenado para abastecer as legiões romanas estacionadas à beira mar em Cesareia, a cidade de César.
Daí em diante Jesus começa a pregar, de forma clara e direta:
“Convertei-vos, porque o Reinado de Deus está próximo” (4, 17).
Mais adiante, no Sermão da montanha, vai explicitar este Reino de Deus, onde os pobres serão felizes, os aflitos serão consolados, os despossuídos herdarão a terra, os que tem fome e sede de justiça serão saciados... (5, 2-10).
Jesus sai também em busca de quem pudesse se juntar a ele na sua missão:
“Quando andava à beira do mar da Galileia viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse a eles: ‘Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens’. Eles, imediatamente deixaram as redes e o seguiram. Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu, consertando as redes. Jesus os chamou. Eles imediatamente deixaram a barca e o pai e o seguiram” (4, 18-22).
Mateus conclui fazendo um resumo da atividade de Jesus: “... andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo” (4, 23).
Jesus convoca também a nós, para sermos seus seguidores para introduzir em nossas vidas, nas nossas comunidades uma nova dinâmica, que Pagola resume em três pontos:
“Primeiro. A compaixão deve ser sempre o princípio de atuação. É preciso introduzir compaixão no mundo para com os que sofrem: ‘Sede compassivos, como vosso Pai’.
Segundo. A dignidade dos últimos deve ser a primeira meta. ‘Os últimos serão os primeiros’. É preciso imprimir na história uma nova direção. É preciso direcionar a cultura, a economia, a democracia e as igrejas tendo em vista os que não podem viver de forma digna.
Terceiro. Deve ser impulsionado um processo de cura que liberte a humanidade do que a destrói e degrada: ‘Ide e curai’. Jesus não encontrou uma linguagem melhor. O decisivo é curar, aliviar o sofrimento, sanar a vida, construir uma convivência orientada para uma vida mais sadia, digna e feliz para todos, uma vida que alcançará sua plenitude no encontro definitivo com Deus”.
José Oscar Beozzo – jbeozzo@terra.com.br
III Domingo Comum: Mt 4, 12-23
Neste 3º domingo comum do ano A, o evangelho de Mateus nos traz hoje o início da atividade profética-libertadora de Jesus e a interpretação do seu projeto de vida (Mateus 4, 12- 23).
O evangelho dá uma dica para compreendermos o rumo que a missão de Jesus toma. Mateus é o único que acentua a continuidade da história entre João Batista e Jesus. Assim que João Batista é preso, Jesus assume a mesma missão de profeta. No entanto, muda a mensagem, o lugar de atuação e o modo de ser profeta. João realizava sua missão de profeta nas margens do rio Jordão e no deserto. Jesus vai para a Galileia e vai morar em Cafarnaum. Ao fazer isso, muda os destinatários da sua missão e o modo de testemunhar o projeto divino no mundo.
João testemunha o reinado divino através do rito do batismo, como mergulho na vida nova. Jesus não faz nenhum rito. Sua atuação consiste em curar as pessoas e reuni-las em comunidade. João atuava nas fronteiras da Judéia. Jesus vai à Galileia, região considerada como “dos pagãos”. João anunciava a justiça de Deus. Sem negar isso, Jesus diz que Deus é Pai amoroso que acolhe a todas as pessoas e, de graça, salva a todos e todas.
João é profeta para as pessoas marginalizadas pelo Judaísmo. Jesus inclui as pessoas estrangeiras e de religiões diferentes da fé bíblica. Ele vai a Cafarnaum, a “aldeia da consolação”, na margem norte do lago de Genesaré, próxima do rio Jordão, na fronteira entre a Galileia e o território do Filipe, filho de Herodes. Era a periferia extrema do território bíblico.
No fato de Jesus ir para a região mais pobre e desprezada do país, Mateus vê a realização de uma profecia de Isaías que tinha anunciado a restauração do antigo reino do norte. Essa esperança não vem dos centros de poder e sim dos periferizados, do meio dos pequenos e considerados descartáveis.
Ainda hoje no Brasil, há quem veja os pobres como provocadores da crise e dos problemas que o país enfrenta. Ao contrário, o evangelho de hoje nos diz que os mais pobres são portadores da luz e da esperança de libertação para toda a humanidade e para o universo. Jesus sinaliza isso chamando um pequeno grupo de pessoas para acompanhá-lo em sua missão. Ele chama e convoca os primeiros desses companheiros (discípulos) entre pescadores, trabalhadores artesanais. Na Bíblia, o mar era considerado símbolo do mal e do perigo. Sendo assim, pescar gente significa escolher como lugar e como grupo os que estão à margem da organização social e política do mundo.
Ser “pescador de gente” poderia ser, hoje, uma expressão inadequada, visto que ninguém quer ser pescado (na pesca, o peixe é morto). Para a cultura daquela época e no contexto do evangelho, pescar significava sim sobreviver do peixe que pescou, mas o sentido era principalmente tirar as pessoas do mar que era considerado ambiente hostil e libertá-las de toda dominação, além de que a imagem da rede de pesca é a imagem de reunir os peixes, como a imagem da colheita. Hoje, seria retirar trabalhadores que, por falta de opção, se tornam trabalhadores de grandes mineradoras e, sem perceber, serão cúmplices de grandes devastações. Ou retirar pessoas que são incentivadas a trabalhar em órgãos de repressão que violam a dignidade humana.
Ser pescador de gente é participar da missão de Jesus em sua luta contra o mar das estruturas assassinas que domina o mundo. É ali na beira do mar, no mundo dos trabalhadores, que Jesus começa o seu grupo como pequena minoria subversiva que vai revolucionar o mundo opressor e transformá-lo em um mundo de justiça, paz, respeito e amor.
A primeira consequência disso será assumir o conflito em favor dos pequenos na luta pela vida. Jesus faz isso como alguém que tem consciência de ser pequeno e impotente e escolhe correr o risco. Diante de um acontecimento político de um Estado repressor, ao saber que João Batista – um profeta - foi preso, Jesus decide continuar a missão profética de João e na mesma Galileia. Isso é quase loucura, mas é a coragem e a sabedoria necessária nas horas decisivas. Jesus inicia com os menores no meio deles.
O texto de Isaías 9, 1 – 6, que o evangelho cita, mostra que a esperança messiânica do reinado divino é política. Vem de baixo. É da periferia que virá a liderança que poderá realizar a paz, o direito e a justiça, termos que os profetas relacionam com a realização da aliança divina no mundo.
Infelizmente, nas Igrejas cristãs, essa mensagem do reinado divino foi espiritualizada e, desencarnada, se tornou apenas individual para as almas das pessoas e não para o mundo. Jesus anunciou uma mensagem de libertação espiritual, mas não espiritualista. Para quem crê, é urgente reintegrar a esperança messiânica da salvação trazida por Jesus e a mediação concreta da esperança social e política que precisamos para o Brasil e para o mundo de hoje.
Jesus anuncia o reinado divino pedindo conversão: “Mudem o modo de pensar! (Metanoien). O Reino dos céus está próximo!”(4, 17). Jesus não diz: “Está tudo dominado. A terceira guerra está aí e com o ela o fim do mundo”. Jesus resgata a luz e a força divina capaz de transformar o mundo a partir dos últimos e “das minorias abraâmicas”, dizia dom Helder Câmara.
Enquanto Marcos e Lucas falam em reinado divino, ou reino de Deus, a comunidade de Mateus usa o termo “reino dos céus”. Assim, evita pronunciar o nome de Deus para respeitar a sua transcendência. É a obediência ao mandamento do Sinai. De fato, o importante é assumir a realização, mesmo parcial e fragmentada, do projeto divino no mundo. Até hoje, a proposta do testemunho do reinado divino ocorre mais através de nossa inserção nas instâncias laicais e sociais do mundo do que nos ambientes eclesiásticos. Somos chamados e chamadas a viver o evangelho de Jesus Cristo, sem precisar carimbar nada de cristão e sim trabalhar por um novo mundo possível, nas bases da sociedade e na luta pela organização mais justa das estruturas sociais e políticas.
Precisamos buscar a intimidade divina, mas ao mesmo tempo, respeitar o seu mistério. Deus se torna próximo, se manifesta em nós, mas sempre por trás de uma nuvem escura. É no cotidiano de nossas lutas e no meio da nossa caminhada social e política que temos de escutar o chamado de Jesus: Segue-me e o apelo permanente: Mudem o modo de pensar e de agir! O Reino dos céus está próximo!” (Mt 4, 17).
O Deus que me criou, me quis, me consagrou
Para anunciar o Seu amor (bis)
Eu sou como a chuva em terra seca (bis)
Pra saciar, fazer brotar
Eu vivo pra amar e pra servir (bis)
É missão de todos nós,
Deus chama, eu quero ouvir a sua voz (bis).
O Deus que me criou ...
Eu sou como a flor por sobre o muro (bis)
Eu tenho mel, sabor do céu (bis)
Eu vivo pra amar e pra servir (bis).
Eu sou como estrela em noite escura (bis).
Eu levo a luz, sigo a Jesus
Eu vivo pra amar e pra servir (bis).
O Deus que me criou...
Eu sou como abelha na colmeia (bis).
Eu vou voar, vou trabalhar
Eu vivo pra amar e pra servir (bis)
É missão de todos nós ...
O Deus que me criou ...
Eu sou, sou profeta da verdade (bis)
Canto a justiça e a liberdade
Eu vivo pra amar e pra servir.
É missão de todos nós ... (Zé Vicente).
A ordem democrática, em sua essência, está destinada à realização plena das pessoas e da sociedade em sua totalidade. Uma verdadeira democracia não pode prescindir de valores fundamentais como justiça, liberdade, soberania e autodeterminação, entre outros; do contrário, toda ordem democrática deixaria de atingir seus fins primordiais. Para que a democracia realize seu propósito, é indispensável o respeito ao ordenamento jurídico nacional e internacional, que lhe confere legitimidade.
Diante do recrudescimento da extrema direita, com sua ideologia radicalizada, toda ordem democrática atravessa uma crise significativa. O país mais poderoso do mundo no campo militar pretende impor aos seus desafetos uma democracia terrorista. Mas de que forma esse terrorismo americano se manifesta?
O terrorismo não é um crime, mas uma paixão. Essa definição do professor Jürgen Brauer está na base de todo ato terrorista, seja ele praticado por grupos ou por Estados. A lógica utilizada por uns e outros é a mesma. Atentados, invasões e sequestros — como no caso do presidente da Venezuela — sustentam-se em uma racionalidade que visa a objetivos claros e previamente desejados. O que os americanos buscaram na Líbia, no Afeganistão, na Síria, no Iraque e, por último, na Venezuela? O petróleo é a causa central da beligerância americana.
Os atos terroristas dos Estados Unidos nada têm de irracional; ao contrário, são movimentos bem planejados e calculados com precisão, como em uma partida de xadrez. Questões econômicas, aliadas a uma política imperialista, justificam as ações violentas perpetradas pelos americanos em várias partes do mundo. Essas ações terroristas passam, invariavelmente, pelo elemento econômico. Um país como os Estados Unidos da América, antes de agir, mede custos e benefícios, buscando sempre maximizar os resultados econômicos provenientes desse crime.
O terrorismo praticado pelos americanos possui maior alcance porque não se dirige apenas contra indivíduos, mas contra Estados soberanos. Os ganhos dessa opressão promovida pelos EUA são de duas naturezas: monetária e psicológica. Os ganhos psicológicos recebem ampla atenção da mídia burguesa, enquanto os monetários se manifestam na arrecadação de recursos, na conquista de territórios e na derrubada de governos.
A democracia, apesar de suas vulnerabilidades, ainda é o melhor sistema, pois regula as relações entre o Estado e a sociedade. Em síntese, democracia implica respeito ao Estado de Direito e à soberania dos países. Os americanos, em vez de fortalecerem esse sistema, acabam por enfraquecê-lo em diversas partes do mundo.
Sob a narrativa de combate ao narcotráfico, os EUA atuam no submundo da civilização, na ilegalidade, violando as normas do direito internacional. Com uma mentalidade imperialista, princípios democráticos são constantemente colocados em xeque, sempre em nome de interesses econômicos. É comum, nas ações americanas, a exploração do medo, ao proclamarem guerra contra o narcotráfico, o que gera desconfiança da população em relação às próprias instituições de seus países. Essa guerra contra as drogas existe apenas no plano metafórico, pois o suposto inimigo não possui capacidade real de implementar um contra-ataque à altura.
Os EUA, com seu projeto imperial, alimentam a pretensão de dominação global, embora já não se considerem invulneráveis. O dólar, como moeda creditícia, não possui mais a mesma força, visto que alguns países passaram a utilizar suas próprias moedas. Tal movimento representou um golpe significativo nos interesses americanos. Utilizar a força militar mais poderosa do planeta sob o pretexto de preservar os direitos humanos é subestimar a inteligência das pessoas. A narrativa americana de defesa dos direitos humanos é risível: não se trata de um favor à humanidade, mas da imposição de interesses próprios.
Diante das arbitrariedades cometidas pelos americanos no mundo, um país invadido somente resistirá se contar com apoio popular; caso contrário, sucumbirá.
Pe. Waldemir Santana
Arquidiocese da Paraíba
Exibindo 3º.docx 25-01-26.docx.
A ONU consagra o 21 de janeiro como “dia mundial das religiões”. Essa data se tornou importante em um mundo cada vez mais marcado pela diversidade cultural e religiosa. No Brasil, onde, historicamente, as religiões de matriz africana e as tradições espirituais indígenas, sempre foram marginalizadas e hostilizadas, nas últimas décadas, vimos crescer ações de preconceitos e violações aos direitos dos grupos religiosos considerados minoritários. Por isso, a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, alterada pela Lei nº 9.459, de 15 de maio de 1997, considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões. Apesar disso, em todo o país, diariamente, ocorrem ataques a templos de cultos afro-brasileiros e agressões a comunidades que os praticam.
No dia 21 de janeiro de 2000, Gildásia dos Santos, conhecida como Mãe Gilda de Ogum, Ilyaorixá do Ilê Abassá em Salvador, BA, morreu em decorrência de agressões e humilhações sofridas por parte de grupos neopentecostais. Em sua memória, em 2007, Lula, então Presidente da República, instituiu o 21 de janeiro como o Dia de combate à intolerância religiosa.
É claro que não basta combater a intolerância e viver a tolerância. As pessoas toleram aquilo que não podem evitar. A lei pede respeito. Só uma cultura aberta à pluralidade e uma espiritualidade amorosa suscita abertura de coração para aprender uns dos outros.
De 2007 até hoje, em vários estados do país, criaram-se comissões de defesa da diversidade. Apesar disso, em todo o Brasil, continuam a ocorrer atos de discriminação e de violência, principalmente contra religiões e cultos de matriz africana. Às vezes, a intolerância é clara, outras vezes, camuflada sob o pretexto de protesto contra barulho dos tambores ou contra sacrifício de animais.
Em todo o país, a cultura vigente ainda tem resquícios dos tempos nos quais a religião dos senhores brancos era a única aceita e condenava às religiões negras e indígenas. Hoje, isso configura-se como racismo religioso e precisa ser denunciado e combatido. Infelizmente, nos dias de hoje, grupos pentecostais e também católicos parecem herdar da velha Cristandade sua herança mais negativa e trágica: a pretensão de ser religião dominante. Alguns grupos religiosos ainda vivem a fé como ideologia de conquista guerreira que não admite o direito do outro e do diferente. Querer que o Brasil seja católico ou pentecostal é não somente desrespeito à Constituição Federal que prescreve a laicidade, aberta a todas as formas de crença, como é contrário ao que a própria espiritualidade cristã propõe: amor universal e o profundo respeito pelas diferenças.
Conforme o evangelho, o próprio Jesus advertiu: “Na casa do meu Pai, há muitas moradas” (Jo 14, 1). Em outro texto, apesar de, no início, ter rejeitado, Ele acabou por aceitar curar a filha da mulher sírio-fenícia que tinha outra religião e chegou a elogiar a sua fé (Mc 7, 24- 30). Curou o filho do oficial romano e predisse que muitos virão do Ocidente e do Oriente e se sentarão à mesa de Deus, enquanto alguns que se consideram fieis, ficarão de fora (Mt 8, 11- 12).
Todas as religiões pregam amor, compaixão e misericórdia. Entretanto, quando se tornam dogmáticas e autoritárias, transformam-se em instrumentos de fanatismo e canais de intolerância. Confundem a verdade com uma forma cultural de expressar a verdade. Absolutizam dogmas e acabam justificando conflitos e guerras em nome de Deus.
Atualmente, a diversidade cultural e religiosa não é só um fato que, queiramos ou não, se impõe à humanidade. É principalmente graça divina e bênção para todas as tradições religiosas. Para que entre as religiões, o diálogo possa ser profundo, cada grupo tem de reconhecer o que Deus lhe revela, não só a partir da sua própria tradição, mas do caminho religioso do outro. No tempo do nazismo, de uma prisão alemã, escrevia o pastor Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano: “Deus está em mim, mas para me abrir ao outro. Em mim, é uma presença fraca para mim mesmo e é forte para o outro. Ele está no diferente, mas a sua presença é para mim. Assim, Deus é amor e se encontra quando encontramos o outro, o diferente”.
SE APROXIMANDO DOS ÚLTIMOS E COM ELES IRRADIA JUSTIÇA (Mt 4,12-23)
Nos dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus fala-se das origens de Jesus. Mateus 1-2 é para explicar para as comunidades cristãs oriundas principalmente da cultura judaico-semita Marcos 1,1, isto é, para dizer que “Jesus é o Cristo, Filho de Deus, Messias”, mas não messias conforme esperado pelos saduceus – “messias da ideologia do domínio e da prosperidade” -, pelos fariseus – “messias legalista cumpridor de leis” - e nem pelos chefes dos sacerdotes - “messias da pureza cultual” - , mas um Messias que vem do meio do povo marginalizado, “gente da gente”, que só nasceu porque houve gente, principalmente mulheres, que rompeu com o lugar que a sociedade patriarcal e machista lhes impunha. Um Messias que provoca o pânico no poder estabelecido e nos Herodes de plantão, apenas por ter nascido. Um Messias que refaz o caminho do povo libertando-se da escravidão do imperialismo egípcio e que convoca seus seguidores e suas seguidoras a fazer o mesmo caminho libertador.
Inspirando-se na caminhada libertadora dos povos oprimidos no deserto em busca da terra prometida, em Mateus 3,1-12, temos a atuação do profeta João Batista, chamando à conversão e ao acolhimento do “reino dos céus que está próximo”, batizando e animando para a prática da justiça. Jesus embarca na missão proposta por João Batista, pede para ser batizado e é confirmado por “uma voz do céu” como Filho muito amado.
Em Mateus 4,1-11, Jesus, por “quarenta dias”, supera as grandes tentações e diz um não contundente à idolatria do poder, à visão mágica segundo a qual com um poder não humano se resolveria em um passe de mágica a fome do povo e refuta com firmeza também a idolatria religiosa que mente ao dizer que “pessoas ungidas” são protegidas de forma especial por Deus.
Em sintonia com o exposto acima, em Mt 4,12-23, Evangelho do Terceiro Domingo do Tempo Comum (Ano A), se narra como foi o início, onde e como Jesus iniciou sua missão pública. Antenado com os acontecimentos da realidade “ao saber que o profeta João Batista tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia, deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, à beira-mar, nos confins de Zabulon e Neftali” (Mt 4,12-13). Um acontecimento político, a prisão de um profeta, ato repressor do Estado, foi o que deu o estalo na consciência de Jesus de que era chegada sua hora de arregaçar as mangas e abraçar pra valer a bandeira empunhada pelo profeta João que acabara de ser preso e, segundo pesquisas arqueológicas e informações do historiador Flávio Josefo, provavelmente jogado algemado em uma prisão de segurança máxima.
Jesus poderia ter fugido como outros discípulos de João fugiram, mas, ao contrário, envolvido por uma ira santa, Jesus viu a voz de Deus o chamando naquela repressão político-militar que tentava abafar um movimento popular religioso que se dedicava lutar por justiça social e combater as desigualdades socioeconômicas.
Jesus não se faz neutro diante dos conflitos políticos e socioeconômicos da sociedade. Jesus se posiciona ao lado de quem luta por justiça, mesmo sabendo que poderá ser preso como foi o mestre João Batista. Jesus não aceita as desculpas religiosas levantadas por pessoas que se dizem religiosas e que são cúmplices das opressões políticas e das explorações econômicas.
Jesus não inicia sua missão pela capital, pela classe dominante, nem pela pequena burguesia eufemisticamente chamada de “classe média”, nem pelos religiosos de várias matizes. Jesus sabe que seria “bater em ferro frio”, pois em uma sociedade desigual, que cultua a mentira que é a meritocracia, “quem está na sombra” curtindo algum privilégio, não vai, salvo raras exceções, por iniciativa própria, partilhar a sombra com quem se queima no sol escaldante. Jesus vai para a “beira-mar”, nos “confins da Galileia”, - de onde nada se espera -, se aproxima e começa a conviver com trabalhadores manuais artesanais, pescadores, que conquistam o pão cotidiano com o próprio suor do trabalho.
Jesus tece aliança com as pessoas que estavam marginalizadas, na “Galileia das Nações/gentios”, região periférica longe do centro econômico, político e religioso do país. Ao conviver e reconhecer a dignidade de quem era considerado “povos das trevas”, Jesus é compreendido como “uma grande luz”. Esta convivência desperta seguimento e, por outro lado, desperta o ódio e a intolerância de quem ganha ao manter o povo explorado nos “confins”.
Este Evangelho acontece atualmente pelo mundo afora, por exemplo, com o padre Júlio Lancellotti no meio do povo em situação de rua na capital de São Paulo. Padre Júlio, luz para o povo da rua, mas execrado por quem insiste em violar e pisotear na dignidade de milhares de pessoas forçadas a sobreviver nas ruas por muitos motivos.
Qual a mensagem de Jesus neste início de missão? “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). Se Jesus tivesse absorvido a ideologia dominante, diria: “Abandonem o movimento de João Batista, pois vocês podem ser presos e terem o mesmo destino dele. Cultivem a pureza, pois o mundo está acabando, o julgamento está chegando.” Entretanto, ouvindo a voz divina nas entranhas dos acontecimentos, Jesus intui no meio de gravíssimo conflito e de crise existencial inclusive que era hora de fazer autocrítica, mudar o jeito de pensar e de agir, se libertar do que aprisionava e se irmanar na construção do reinado divino. Este era o apelo a ser seguido.
Jesus descobre que é ignorância agir sozinho e procura construir seu movimento inspirando-se em parte no movimento popular religioso de João Batista. No meio do povo trabalhador, convivendo, Jesus chama dois, Simão (Pedro) e André, que eram pescadores artesanais. A partir do mundo deles Jesus propõe: Venham comigo e vamos juntos “pescar” pessoas para o reinado divino. Estes deixam sua profissão o seguem imediatamente. O mesmo se deu com outros dois irmãos, Tiago e João, que deixando o barco e seu pai/sua família, seguem Jesus. Para seguir Jesus de verdade é preciso se libertar de amarras que muitas vezes a sociedade injusta nos impõe.
A expressão “pescar homens...”, à primeira vista, tem tom pejorativo, pois insinua fazer proselitismo e fisgar o outro para “meu barco”, minha igreja, minha religião. E pior, se pensarmos que a pesca implica sempre na morte dos peixes. Mas exegeticamente não é este o sentido proposto pelo Evangelho de Mateus. Na maioria das narrativas bíblicas envolvendo acontecimento no mar, normalmente, o mar é considerado o lugar das forças do mal. Assim sendo, “pescar pessoas” retirando-as do “mar” indica salvar as pessoas de lógicas e estruturas opressoras e exploradoras, ou seja, libertá-las para participar de uma sociabilidade com justiça, respeito, amor e paz. Não é buscar oásis no mundo, mas transformar o mundo criando relações humanas e sociais justas, éticas, solidárias, de justiça e paz, de empatia pelo outro principalmente pelos mais enfraquecidos/as.
Assim, a partir dos últimos e com eles, Jesus ensina nas sinagogas da Galileia periferizada, anuncia o reinado divino e cura doenças e enfermidades. Jesus ensina o que nos liberta e pratica o que ensina, tem coerência entre discurso e postura prática.
Atualizando, podemos dizer que “de onde menos se espera” vem libertação, amorosidade, respeito, ética, empatia, solidariedade, amor gratuito... Podemos perceber este Evangelho de Mt 4,12-23 acontecendo no meio dos Povos Indígenas, no meio dos Povos Tradicionais, Quilombolas, no Povo em situação de rua, nos povos das favelas, de ocupações urbanas e camponesas, em mulheres vítimas de violência, em pessoas com orientação homoafetiva vítimas de homofobia, em pessoas de Terreiros de Candomblé, de Umbanda...
Enfim, no meio de pessoas discriminadas, muitas vezes a luz divina brilha e o amor divino é testemunhado. É preciso termos a sensibilidade de captar esta luz no meio de tantos que são empurrados para “as trevas”. Eis o caminho que liberta e salva. Jesus e os primeiros pescadores nos deram o exemplo. Feliz quem segue neste caminho de contramão do que é hegemônico e enaltecido pelos arautos do status quo opressor.
A opção revolucionária de Jesus pelos excluídos, desprezados, "impuros", indica para a defesa da vida, para a luta pela libertação de todos os males que ferem a dignidade de filhos e filhas de Deus. Seguir Jesus implica em comprometer-se com essa causa. Que tenhamos a coragem necessária de assumir verdadeiramente nossa missão de cristãos.
20/01/2026, dia de São Sebastião.
Considerando que a fé cristã fundamenta-se na encarnação de Jesus Cristo, experiência única e concreta na história da humanidade e não numa doutrina abstrata, o seu núcleo central envolve a totalidade da vida de Jesus, desde sua encarnação, até sua ascensão aos céus, passando por sua morte e ressurreição. Assim anunciava São João Paulo II, citando São Paulo VI, no Discurso Inaugural de Puebla:
“Não há evangelização verdadeira, enquanto não se anunciar o nome, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus” (cf. 1.2).
Visitar a pessoa de Jesus implica em um constante aprendizado. Para acolher este mistério temos que partir de sua própria vida diante de Deus e da humanidade. Trata-se de compreender Jesus Cristo a partir dele mesmo e do testemunho da Palavra de Deus a seu respeito.
Neste aprendizado surgem dois níveis distintos:
1- O nível histórico-factual, onde se situa o fato bruto, acontecido e documentável pelo testemunho bíblico e de relatos históricos. Podemos saber pela história que Jesus era judeu, que viveu entre os anos 7 a.C a 30 d.C.
2- O nível da significação do evento Jesus de Nazaré. Este nível é o da sua repercussão e influência na consciência histórica da humanidade, refletindo o sentido para a vida e o seu destino. É o nível em que se percebe a relação entre o fato histórico e quem o interpreta. Descobrimos que é Deus mesmo quem dá sentido ao acontecimento Jesus Cristo e, que nós o acolhemos em nossa vida, como sendo a revelação definitiva de Deus para nós. Por isso o Jesus histórico, como revelação de Deus, torna-se a referência máxima da fé e de todo o seguimento à sua pessoa e critério absoluto para a própria instituição eclesial.
A fé cristã sofre a permanente tentação do reducionismo e do espiritualismo. Enquanto o primeiro tenta reduzir o princípio da fé à dimensão puramente humana e histórica, o segundo desumaniza a fé e a desliga da história e do compromisso sócio transformador.
Quando pensamos e vivemos a fé, só podemos fazer isso na mediação de uma prática pessoal e social, encarnada em nossa própria história, transcendendo-a, elevando-a, para além dos nossos estreitos horizontes, abrindo-nos à plenitude da vida e à eternidade.
De fato, como a fé está no nível da significação, ela não possui existência própria, ela se alimenta do acontecimento da encarnação de Jesus, que é seu permanente suporte e critério de juízo crítico de cada contexto histórico.
Somente a significação da fé que possui suporte na vida de Jesus torna-se história e faz-se história, continuando a encarnação do verbo. Como afirmava Santo Agostinho: Deus que criou o gênero humano sem sua participação, não o salvará sem sua colaboração.
A fé continua sendo o ato mais sublime e livre do ser humano que se dispõe, livremente, a estabelecer uma aventura existencial, tendo Jesus de Nazaré como parceiro principal e absoluto.
Jesus Cristo, ao nascer, foi apresentado como luz, que brilhou em meio à escuridão da história. Ele é fruto do cumprimento daquilo que tinha sido profetizado no Antigo Testamento. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1). Todos os males, as guerras, o desrespeito aos direitos internacionais, são trevas, porque escondem o brilho da luz e provocam todo tipo de destruição.
Há um cenário de trevas rondando o mundo. Não estamos diante de apenas narrativas, mas de atos concretos de destruição, de atitudes desoladoras e causadoras de medo. A luz da fraternidade e do respeito, proclamada por Cristo, tem ficado no esquecimento. Por isso, reina o autoritarismo ditatorial e o domínio indiscriminado sobre outros em busca de interesses econômicos e de poder.
A tradição mostra a derrocada dos grandes impérios, porque eles não se sustentam por muito tempo. Existe uma vulnerabilidade e limites no poder da ação humana. Normalmente, fica a instituição e passam os seus gestores, correndo até o perigo da descontinuidade e falência. Sem Deus, tudo passa e cai no vazio da existência. Aliás, “Deus abate os orgulhosos e eleva os humildes” (Tg 4,6).
As divisões geram contendas e polarizações na população. Dessa realidade vem todo tipo de ataques e afrontas à dignidade do outro, chegando à medição de força de poder, como tem acontecido nos cenários de guerras, pelo mundo afora. Não é este o propósito do ensinamento de Jesus, porque ele não descarta a prática do amor, de valorização dos direitos e da identidade das criaturas.
A vida do ser humano, no contexto da cultura moderna, tem perdido seu brilho, sua estabilidade e serenidade. São muitas tensões e insegurança causadores de medo generalizado, principalmente para quem tem sua confiança em Deus fragilizada. Só Deus é capaz de dar segurança e esperança para a existência. O importante é caminhar na luz de Cristo, um coração que tenha a presença divina.
As sombras de morte têm que ser iluminas pela luz, que vem de Cristo. Supõe um processo de conversão, de percepção da beleza da vida, em sintonia com a vida de Deus. Sem consciência clara sobre isto, nunca estaremos livres das amarraras e com vida feliz. É necessário deixar muita coisa e seguir o Evangelho: “Eles, de imediato, deixaram a barca e o pai, e seguiram a Jesus” (Mt 4,22).
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.