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“Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: ‘Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?’ Jesus respondeu: ‘Não sete, mas até setenta vezes sete’.
Depois que Jesus insistiu no cuidado com os pequenos, os humildes, os humilhados, os abandonados, com a ovelha desgarrada e também na busca da reconciliação e do perdão, Pedro interrogou Jesus. Quer saber até onde devem os discípulos ir por esse caminho do perdão:
“Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim?” (Mt 18-21-35).
Arrisca uma métrica generosa:
“Até sete vezes?”
Jesus surpreendeu-o com resposta desconcertante:
“Não te digo, até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (18, 22).
E começa a explicar qual a lógica do Reino dos Céus. Propõe a parábola do rei que decidiu fazer um acerto de contas com seus empregados.
Começou com aquele que lhe devia enorme fortuna. Como não tinha com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, ele com a mulher, os filhos e tudo o que possuía.
Diante, porém, do seu desespero e choro, movido de compaixão, o patrão perdoou-lhe a dívida toda.
O que sucedeu depois chocou os empregados que presenciaram a cena:
“Ao sair dali aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufoca-lo dizendo: ‘Paga o que me deves’. O companheiro, caindo a seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo e eu te pagarei’. Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia” (18, 28-30).
Os outros empregados correram contar para o patrão o sucedido.
“Então, o patrão mandou chama-lo e disse-lhe: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti? O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida” (18, 32-34).
A conclusão de todo este capítulo indica o vínculo incontornável entre o perdão que pedimos a Deus e aquele que o meu próximo me suplica.
“É assim, que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão” (18, 35).
A nós que no Pai Nosso, pedimos: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos ofenderam”, o evangelista Mateus assevera:
“Pois, se perdoais aos homens as ofensas, vosso Pai dos céus vos perdoará, mas se não perdoais aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará vossas ofensas” (Mt 6,14-15).
XXIV Domingo Comum: Mt 18,21-36.
Neste domingo, o evangelho nos traz uma das parábolas mais estranhas e deslocadas do evangelho. É verdade que Jesus não inventou suas parábolas. Tirou-as de fatos que ocorriam no cotidiano da vida. Para compreendê-las melhor, precisamos distinguir parábola e alegoria. Na alegoria, cada termo da história tem um significado. A Igreja primitiva fez da parábola da semente uma alegoria: a semente é a Palavra de Deus. O semeador é o missionário. Os terrenos são os ambientes humanos nos quais a palavra é semeada.
Na parábola não adianta querer associar cada termo. O sentido é geral e a história tem apenas um objetivo, mas contém incoerências. Geralmente, o que vale é o final da história. Essa parábola que o Evangelho de Mateus coloca no final do discurso sobre a comunidade é estranha. Conforme Mateus, Jesus contou para explicar a Pedro e aos discípulos o dever de perdoar sempre, mutuamente, as dívidas econômicas, sociais e morais.
Provavelmente, baseados nessa parábola, sem consistência de uma base bíblica sólida, não poucos bispos, padres e pastores/as falarão de Deus como um senhor, proprietário de terra, que vendeu um dos seus servos, assim como a mulher e os seus filhos como escravos, afim de saldar uma dívida. O tal senhor fez isso para vingar-se do fato de que esse servo tinha sido perdoado por ele de uma dívida imensa e não perdoou o pequeno débito de um companheiro. Distorcendo o sentido do evangelho, muitos pregadores repetirão a palavra que o Evangelho de Mateus pôs na boca de Jesus: “Assim o Pai do céu tratará a vocês, se não perdoarem de coração a seus irmãos e irmãs” ( Mt, 18. 35). E alimentarão, assim, a ideia esdrúxula como se Deus fosse um juiz castigado, vingativo, o que não é justo atribuir a Deus, pois “Deus é amor” (1 Jo 4,8).
Por aí, podemos ver que não são apenas grupos pentecostais, católicos carismáticos e criacionistas da Terra Plana que fazem leitura fundamentalista dos textos bíblicos.
A leitura fundamentalista dessa parábola do servo infiel dificilmente vai perceber a contradição entre o que Jesus tinha dito poucos versículos antes no mesmo evangelho e a história que a comunidade de Mateus fez ele contar. Ele tinha acabado de ensinar que “se teu irmão pecar contra ti, o corrige em um diálogo a sós com ele. Se ele não ouvir ainda tem a chance de ouvir duas ou três testemunhas e finalmente a comunidade reunida” (Mt 18, 15). E quando Pedro pergunta “quantas vezes tenho de perdoar ao outro que pecou contra mim”, Jesus responde “até setenta vezes sete vezes”. Mas, o tal senhor do servo infiel não admitiu segunda chance. Mandou vender a família inteira, pais e filhos, como escravos.
E a parábola termina comparando isso com a forma como Deus agirá conosco se não perdoarmos uns aos outros.
É claro que esta parábola foi inserida nesse contexto do final do discurso de Jesus sobre a comunidade, mas ficou deslocada e a conclusão é inadequada. Dificilmente, Jesus teria dito isso desse modo. Se fosse assim, a visão de Deus que ele revela nessa parábola é totalmente oposta à imagem que ele mesmo, Jesus, dá do seu Paizinho (Abba) quando diz no discurso da montanha: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem. Assim vos tornareis filhos e filhas do vosso Pai dos céus, pois ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5, 44- 45).
É claro que a parábola retrata a realidade social de uma Palestina na qual as pessoas podiam ser vendidas como escravas, por causa de dívidas impagáveis. Nessa parábola, pode estar implícito que não devem existir dívidas impagáveis e que todos temos uma dívida com Deus. Ele nos perdoa, mas espera que também perdoemos aos nossos devedores.
Perdoar não é apenas atitude moral ou de bondade. É opção de fé e de quem quer transformar o mundo. Jesus revela que o seu Abba (Paizinho) não quer que ninguém se perca. Sobretudo, vive perdoando, sempre, setenta vezes sete vezes. Nós todos e todas somos pecadores e pecadoras sempre perdoados. Sem essa consciência, não acontece o projeto divino no mundo. Sem essa prática, não deveria haver Igreja, apesar de que o Direito Canônico não manda que se perdoe gratuitamente. Assim sendo, a hierarquia nem sempre dá o melhor exemplo de quem perdoa.
Seja como for, todos e todas que são de Jesus devem orar no Pai Nosso: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12).
A parábola contada pela comunidade de Mateus nos anos 80 pertence à sociedade política da época. Hoje no mundo, países inteiros são esmagados por outros e impedidos de proporcionar uma vida digna ao seu povo por causa da dívida externa. O Banco Mundial, o FMI e governos ricos exigem, só de juros anuais da dívida, o triplo do que foi emprestado.
Hoje, as mais diferentes religiões e caminhos espirituais propõem que a humanidade se organize como uma única família de irmãos e irmãs e dentro de uma comunidade maior que abrange todos os seres vivos.
É nessa perspectiva que temos de encontrar os meios para que a sociedade civil possa ter voz e vez na ONU (não somente os governantes). Isso supõe superar esse modelo econômico depredador e desumano que, atualmente, domina o mundo. Para isso, é necessário o total e imediato cancelamento da dívida externa dos países pobres, o fim da fabricação e consumo de armamentos e que a ONU exija de todos os países o compromisso do cuidado com a Terra.
Não adianta dizermos estar de acordo com essas propostas para a sociedade internacional se, na vida pessoal e nas relações interpessoais, agirmos de forma contrária. É importante perdoarmos uns aos outros e cancelarmos as dívidas, para vivermos a gratuidade do reino de Deus.
A primeira mulher negra a liderar uma universidade jesuíta fala sobre o verdadeiro significado da diversidade.
entrevista é de Will Martino
Em um tranquilo recanto arborizado a apenas oito quilômetros do centro de Denver, no Colorado, Shawna Cooper Whitehead deu as boas-vindas aos alunos de volta ao campus para seu primeiro ano histórico como presidente da Universidade Regis.
A Dra. Cooper Whitehead iniciou oficialmente seu mandato como presidente da universidade jesuíta em 1º de julho, e os alunos começaram as aulas em 24 de agosto.
Veterana experiente no ensino superior, ela vem do Boston College, onde atuou como vice-presidente de assuntos estudantis. Ela também ocupou cargos na Seton Hall, na Loyola University Chicago, na University of Chicago, na Northwestern University, no Massachusetts Institute of Technology e na Boston University.
A Dra. Cooper Whitehead não é apenas a primeira mulher a ocupar a presidência da Regis, mas também a primeira mulher negra a presidir uma faculdade ou universidade jesuíta nos Estados Unidos. E ela assume o cargo em um momento em que universidades de todo o país enfrentam ameaças ao ensino superior representadas pela inteligência artificial e pelo declínio da população em idade universitária.
A revista America conversou virtualmente com a Dra. Cooper Whitehead para falar sobre sua trajetória, sua abordagem à educação jesuíta e seus planos para o mandato.
Eis a entrevista.
Dr. Cooper Whitehead, de onde a senhora é?
Sou originária de Champaign-Urbana, Illinois, cidade que abriga a Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, a principal instituição estadual do meu estado natal. Então, provavelmente foi por isso que escolhi a área da educação superior — por ter convivido com ela a vida toda.
Você começou sua carreira trabalhando em algumas instituições não religiosas, como a Universidade de Boston, o MIT e a Northwestern, antes de ingressar em universidades católicas. Essa mudança foi intencional?
Sim, era. Eu trabalhava principalmente na área de assuntos estudantis e atividades estudantis, e realmente adorava esse trabalho, mas acho que o que faltava era missão e valores. Eu sou católica. Nasci e fui criada católica. E então a Loyola Chicago tinha uma vaga na área acadêmica. Uma das experiências mais marcantes que tive foi quando os alunos de graduação da Loyola Chicago se mobilizaram para votar pelo aumento da taxa estudantil para financiar bolsas de estudo para estudantes indocumentados. E eu pensei: "É disso que quero fazer parte". Porque não se tratava apenas de falar sobre isso; havia ações concretas. Isso é o que torna realmente especial trabalhar em uma instituição guiada por uma missão.
Eu também diria que sou muito grato por trabalhar não apenas com os alunos, mas também com as organizações estudantis, na seleção de pessoas que vêm ao campus. Quando se trata de instituições jesuítas e com forte missão, podemos dizer: "Não, essa pessoa vai contra os nossos valores". Não vamos trazer para nossos campi alguém que vá disseminar ódio. Não temos problema em educar ou participar de debates, mas não com alguém ou uma entidade que vá se afastar da nossa identidade como instituição católica jesuíta.
Para um estudante do último ano do ensino médio, de 17 anos, o que distingue uma universidade jesuíta? O que faz alguém que não está familiarizado com esse mundo dizer: "É isso que eu quero"?
Precisamos redobrar nossos esforços em nossa missão. É isso que nos diferencia de outras instituições. Mas quando converso com futuros alunos sobre a possibilidade de virem para uma instituição, o foco é a afinidade. Para nós, somos a única instituição jesuíta católica [de ensino superior] na região das Montanhas Rochosas. Então, se você gosta das montanhas, gosta de estar ao ar livre e quer uma educação um pouco mais intimista, temos uma população estudantil de graduação menor e somos reconhecidos não apenas por nossas artes liberais, que são a base de grande parte da educação jesuíta, mas também por nossas ciências da saúde. Ainda não visitei nenhum ambiente de saúde aqui que não tenha uma enfermeira formada pela Regis. E o que as enfermeiras da Regis dizem é: "É essa base em artes liberais pela qual somos conhecidos que nos diferencia de outras escolas de enfermagem da região."
Algumas de suas primeiras experiências no mundo do ensino superior foram focadas em promover a diversidade nos campi universitários — você foi conselheira da Associação de Estudantes Negros de Pós-Graduação e da União de Estudantes Negros no MIT, e atuou como diretora de assuntos estudantis afro-americanos na Northwestern. Agora, você não é apenas a primeira mulher a presidir a Universidade Regis, mas também a primeira mulher negra a presidir uma faculdade jesuíta. Como o investimento em diversidade se reflete em sua ética de liderança?
A diversidade não tem uma definição única, e acredito que, às vezes, o mundo se concentra imediatamente em raça ou gênero, mas é muito mais abrangente do que isso. Trata-se de realmente pensar em como servir às pessoas marginalizadas. Quando penso em diversidade, certamente incluo raça e gênero, mas como ela se expande além disso? Quero garantir que estou sempre incluindo a todos. Não se trata apenas das identidades que eu possuo; trata-se também das identidades que eu não possuo.
Eu sempre digo que, se você sair da universidade do mesmo jeito que entrou, então não cumprimos nossa missão. Trata-se de expor as pessoas a coisas diferentes, não necessariamente para mudá-las, mas para que compreendam. É isso que eu acho que significa diversidade.
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Quais aspectos da sua educação e vida pessoal mais influenciam sua abordagem à liderança?
Fui educada em uma escola católica do jardim de infância até a oitava série. Lá, fui a única menina negra por nove anos. Naquela época da minha vida, eu estava tentando provar meu valor — provar que mulheres negras são inteligentes. Então, eu era do tipo super dedicada e tudo mais. Mas também quero garantir que nossos alunos, independentemente de sua origem, não precisem sempre sentir que precisam provar seu valor. É uma competição constante. Estou apenas tentando ser a melhor Shawna Cooper Whitehead que posso ser.
Você assume a presidência em um momento difícil para o ensino superior. Nos últimos anos, diversas instituições têm enfrentado dificuldades públicas para lidar com protestos estudantis e manifestações de liberdade de expressão em seus campi. Quase todas as universidades têm sido obrigadas a lidar com as ameaças que a inteligência artificial representa para o ensino superior. Qual é a sua filosofia para lidar com as dificuldades e mudanças que podem surgir durante seu mandato como presidente?
Parte da razão pela qual me senti confortável em assumir um papel de liderança nesse ambiente específico é que eu não conseguia me imaginar preocupado com minha profissão e meu setor sem contribuir de forma positiva.
Parte disso consiste em aplicar o valor jesuíta do acompanhamento. Com isso, quero dizer que não faço essas coisas sozinho. Posso, sim, tomar uma decisão individual, mas frequentemente consulto meus colegas, professores ou alunos.
Eu lidero com humildade e curiosidade — não fingindo que sei tudo e fazendo muitas perguntas.
O que há de novo na presidência de Shawna Cooper Whitehead? O que distingue seu mandato do legado que o precede?
Em minha função anterior como vice-presidente de assuntos estudantis no Boston College, eu precisava garantir que a experiência dos alunos fosse positiva e que a missão da instituição estivesse no centro de tudo. Nesta função, em vez de executar tarefas, o foco é mais em fazer as perguntas certas e aproveitar o talento que já existe aqui. A Regis passou por diversas mudanças de liderança, e espero proporcionar estabilidade, mas também trazer conhecimento e vozes que possam contribuir para isso. E acredito que isso fará diferença para as pessoas.
Tivemos que tomar algumas decisões difíceis – sabe, muitas instituições de ensino superior estão de olho nas finanças. E nós estamos analisando tudo, desde quais são os programas certos até como nos mantermos fiéis à nossa missão, como motivar as pessoas, como pensar em arrecadação de fundos e admissões – todos esses aspectos que fazem parte da universidade. Muitas das funções da reitoria envolvem arrecadação de fundos, relações governamentais e outras coisas do tipo, que certamente exercerei, mas agora, a prioridade é esta comunidade e focar no corpo docente, nos funcionários e nos alunos que estão aqui no campus, para que se sintam empoderados.
Em termos pessoais, o que significa assumir esse papel neste momento?
Já disse isso para várias pessoas: é quase inacreditável. Sempre quis ajudar as pessoas, e essa é a única razão pela qual busquei cargos de liderança. Sempre acreditei na intervenção divina, e fiz uma oração de discernimento no início da minha entrevista, na qual disse: “Vocês vão escolher o presidente certo”. E, falando sério, não estou infeliz no meu cargo atual. Mas quero ajudar mais, e acho que Regis poderia se beneficiar de algumas das minhas habilidades.
É de Mahatma Gandhi, nascido em 02 de outubro de 1869, que vem um pensamento muito forte sobre os sete pecados da sociedade moderna que eu quero compartilhar com você para iniciar a nossa reflexão.
Ele diz assim, a sociedade está fundamentada, está baseada, está construída sobre sete pecados capitais, como fundamentos que vão levar a humanidade a ruína. Dizia ele, ou nós destruamos esta sociedade nesse contexto, do mundo moderno, essa modernidade, estes sete pecados na sua raiz ou a humanidade não terá futuro.
Então dizia ele, primeiro pecado capital dos tempos modernos, Riqueza sem trabalho, segundo pecado capital dos tempos modernos, Comércio sem ética, terceiro pecado capital dos tempos modernos, Prazer sem escrúpulo, quarto pecado capital dos tempos modernos, Ciência sem humanidade, quinto pecado capital dos tempos modernos Conhecimento sem sabedoria, sexto pecado capital dos tempos modernos, Religião sem sacrifício e o sétimo e último pecado capital dos tempos modernos segundo Mahatma Gandhi é Política sem idealismo.
Baseado nestes sete pecados capitais, nós podemos dizer que nós estamos agora colhendo os frutos amargos desses sete pecados capitais que foram criando raiz, capital é caput, cabeça, são a cabeça de todos os outros pecados, então, raiz também de todos os outros pecados, por isso esses sete pecados capitais se entrelaçaram entre si e nós agora colhemos o fruto amargo desta sociedade sem alma.
E é nesse sentido que o Papa São João 23 já falava no começo da década de 1960, que nós vivíamos uma sociedade pós cristã, porque os valores do Evangelho não eram mais levado em consideração para pensar a vida em sociedade, ele falava que nós vivíamos numa sociedade idolátrica e não evangélica, pós cristã porque ela está baseada em cima de três princípios idolátricos, poder, lucro e eficiência.
A política fez uma ruptura com a ética que só visa o poder a todo custo. Houve também uma ruptura da economia com a ética que só visa lucro e também uma ruptura da ciência, da técnica com a ética que só visa eficiência. Então uma sociedade idolátrica baseada nesses três princípios idolátricos.
Se nós quisermos construir uma sociedade cristã deveríamos basear-nos pelo menos em três das oito bem-aventuranças de Mateus:
Bem aventurado os puros de coração, porque verão a Deus, é o princípio da mística, da espiritualidade, da transcendência, dimensão da Fé.
Bem aventurados os mansos porque possuirão a terra, é dimensão ambiental, ecológica da proteção e do cuidado da casa comum e
Bem aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia que é a dimensão relacional, pautada pela misericórdia.
Vem o Papa Paulo VI, Sao Paulo VI que também constatou o mesmo que São João 23. E ele fala que nós vivemos em uma sociedade pós ética e vai denunciar isso profundamente na populurum progressio e conclama a todos a construirmos a civilização do amor.
Depois vem São João Paulo II que percebe que nós vivermos em uma sociedade pós cultura da vida, uma sociedade fundamentada na cultura da morte e ele denunciou isso de uma maneira reiterada, e uma sociedade fundamentada na cultura da morte, não tem futuro.
Vem o Papa Bento 16 e dizia que nós vivemos numa sociedade pos transcendência, que cortou a relação com a transcendência. Vem o Papa Francisco e fala no início de seu pontificado, agora vivemos numa sociedade pos humana, o ser humano não é mais levado em consideração para pensar a vida em sociedade. Dois anos depois ele fala, agora ja é uma sociedade pós democrática, os princípios da democracia não são mais levados em consideração para se pensar a vida em sociedade.
Dois anos depois ele fala, agora já piorou mais ainda, agora é a sociedade da pós-verdade, dos fake News, os princípios da verdade não são mais levados em consideração para pensar a vida em sociedade e agora no sínodo Pan amazônico, ele falava piorou, já estamos no Eclipse da Razão, parece que a razão perdeu a razão, perdeu o sentido de pensar a vida em sociedade, é o embrutecimento, é a sociedade da Barbárie. Isso é muito triste. Nós estamos caminhando para isso a passos largos e hoje o Papa Francisco lança a sua Encíclica, Todos Somos Irmãos e Irmas, que é o pensamento de Jesus, todos são irmãos, irmãs- Não chamo vocês de servos e escravos, de empregados, porque o servo não sabe o que pensa o seu senhor, chamo vocês de irmãos e irmãs porque tudo o que conheci do coração do meu pai, revelei a vocês.
Então Fratelli Tutti é exatamente esse pensamento de Jesus Cristo, e, em oito capítulos o Papa Francisco vai desenhando essa realidade que está aí, tentando mapeá-la e mostrar qual é o nosso específico da vida cristã para poder reencantar a vida e o mundo, eu diria salvar a vida no planeta e a vida do planeta.
De maneira didática e profética Francisco chama todos nós a uma corresponsabilidade pessoal, social em todas as suas dimensões. E ele trabalha também a partir do pensamento de Bento XXVI em Deus Cáritas Est, quando ele fala que existem várias modalidades do amor, existe o amor filia, que é o amor da amizade, existe o amor eros, que é o amor erótico, existe também a perversão do amor que é a pornéia, mas existe também o amor agape, que é justamente o amor altruísta, capaz de dialogar, de acreditar no outro, de superar toda e qualquer divisão e é capaz de promover o outro fazendo com que através da nossa cooresponsabilidade com o amor Ágape, que é o amor ao inimigo, amor ao diferente, o amor ao estrangeiro, ao migrante, o acolhimento ao outro, nós podemos assim reencantar a vida, e inclusive ele nos chama atenção sobre o amor político, a caridade política, o reencantamento da política e vai dizer desse amor social e mostrar para nós e chamar a nossa atenção e a nossa cooresponsabilidade na vida política como a forma mais elevada da caridade social.
Creio eu que o Papa Francisco esteja de acordo com o pensamento do autor da obra “O Príncipe”, ao afirmar que, a política não leva ninguém para o céu, mas se não fosse a política, a vida aqui na terra seria um inferno. Pois tudo que temos na sociedade é fruto de decisões políticas, então que nós tenhamos a coragem de reencantar a política, pensando no bem comum, pensando que as nossas opções sejam para fazer da vida em sociedade o céu e não o inferno. Com certeza vamos optar, pela vida, como nos adverte o livro do Deuteronômio: eis que eu coloco diante de vós a vida e a morte, escolhei pois a vida e viverás.
Bairrismo significa apego exagerado pela sua cidade, seu bairro ou até seu local de nascimento. Realmente devemos valorizar aquilo que nos toca mais de perto, que envolve relacionamentos e desejo de progresso. Não há nada de mal nisto. Mas aqui quero dizer de um bairrismo diferente, de uma questão que afeta muito a vida de uma cidade ou de toda uma região, questão referente às eleições.
Existem as afinidades naturais, os sentimentos individuais e paixão por determinados candidatos ao pleito eleitoral. Sabemos que o voto é uma expressão da consciência e de total liberdade do eleitor, para credenciar, e digo mais, em nome de Deus, para o sufrágio de seu voto. Todo poder vem de Deus, senão ele não é verdadeiro, pelo fato de votar sem liberdade, que identifica o ser mesmo do eleitor.
Sabemos que há um número grande de partidos, formados por muitos candidatos, e os votos ficam muitos desconcentrados. Acaba, ninguém sendo eleito e a região fica desamparada. Assim é Uberaba, com uma população de quase quatrocentos mil habitantes, que passou quatro anos sem nenhum representante federal e nem estadual. É prejuízo, porque muitas verbas não chegam na cidade.
O que estou querendo dizer com tudo isto, e isento de qualquer espírito de politicagem, é que devemos votar em candidatos da própria região, naqueles que têm condição de intermediar verbas para os Municípios. O eleitor estará contribuindo para ajudar no desenvolvimento econômico local. Os municípios dependem também de verbas estaduais e federais, que veem através dos políticos.
A política faz parte da vida humana. Aliás, política é a arte de bem governar, não governar só para dentro, para os interesses pessoais, mas para a coletividade. Votar é dar crédito a quem pensa e luta pelo bem de todos, que está preocupado com o bem comum da população. É uma dimensão de espiritualidade, porque “vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,8).
A reflexão que faço, nesta matéria, significa tarefa da Igreja no trabalho de orientar a sociedade da importância de votar bem e com plena consciência. Se fazemos isto com seriedade e liberdade, estamos dando a nossa contribuição para o bem público. Da parte do eleito, fica a esperança de ser um bom e responsável gestor público, agindo com despojamento, honestidade e proteção divina.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
Na sinodalidade,
No modo próprio
De ser Igreja,
Marcando seu estilo
E sua missão na comunhão,
Na participação e na escuta mútua.
Para caminhar
Com corresponsabilidade
E maturidade,
Para que a Igreja
Cresça na fé e no amor,
Na missão compartilhada.
Na comunhão viva
Do povo de Deus,
Que caminha unido,
Escutando e discernindo conjuntamente
A vontade divina
Para o ser e agir da Igreja.
E, assim, fortalecer a experiência
De unidade na diversidade,
De vivência trinitária,
Onde cada membro é ouvido
E sua contribuição é valorizada
Para o crescimento da fé e da evangelização.
Promovendo um diálogo respeitoso
E aberto para todos:
Pastores, leigos e consagrados,
Em constante conversão,
Para superar divisões
E promover o protagonismo dos batizados.
Valorizando os carismas
E os variados dons
Distribuídos pelo Espírito Santo
Para o bem comum
E a edificação do Corpo de Cristo,
A sua Igreja.
Pela vivência sinodal,
Somos chamados
A uma conversão vocacional
Que nos impele
À escuta e à oração,
Ao diálogo fraterno.
Para superar conflitos,
Medos e tensões internas,
Promovendo a comunhão
Que nos faz crescer juntos
E testemunhar com alegria
A presença do Espírito que guia a Igreja.
Que a sinodalidade
Nos leve
A construir comunidades vivas,
Em constante diálogo e oração,
Em constante proximidade,
Em constante escuta e missão.
+ Fontinele