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Certa vez Dom Helder Câmara comentava que uma das descobertas que muito lhe ajudaram a conter seu coração, diante da brutalidade da vida, foi a tomada de consciência de que o arco-íris nasce, exatamente, da desintegração da luz.
E lendo as obras de Frei Carlos Mesters sobre como o povo da Bíblia manteve a fidelidade à Aliança com Javé durante a dura experiência do cativeiro na cidade da babilônia, uma nova luz nos vem iluminar a caminhada das comunidades eclesiais de base e de tantos lutadores e lutadoras que mantêm acesas a tocha das virtudes teologais: fé, esperança e caridade e das virtudes cardeais: justiça, prudência, temperança e fortaleza.
No cativeiro as comunidades perderam todo quadro de referências: templo, culto, terra, povo. Escuridão total! Qual a saída? Eles encontraram uma luz: não a luz do fim do túnel, mas a luz, que existia dentro do túnel. O que parecia a ausência de Deus era a sua presença. Escuridão luminosa. Três pontos caracterizam estas novas descobertas: uma nova experiência de Deus e da vida; uma nova consciência da missão e uma nova pastoral.
Nova experiência de Deus. A nova leitura da natureza: "O sol vai nascer amanhã!" A redescoberta do Amor Eterno: "Eu amei você com amor eterno. Por isso conservo meu amor por você" (Jr 30,1-3). A nova imagem de Deus, como Deus de família: Pai, Mãe, Marido, Irmão mais velho. Como este novo olhar começam a reler e repensar todas as coisas: a história, os fatos da vida, e a natureza.
Nova consciência da missão. Redescobrem sua missão: ser um povo servo, cuja missão é revelar o amor de Deus, irradiar a bondade de Deus, difundir a justiça, não desanimar nunca e, assim, ser a "Luz das Nações" (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12). Os quatro cânticos do Servo são uma cartilha para ajudar o povo a descobrir e a assumir a sua missão. O Servo é o próprio povo do cativeiro. Jesus escolheu o Servo para apresentar-se ao povo de Nazaré (Lc 4,18). Ele disse: “Eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos” (Mt 20,28). Aprendeu de sua Mãe que disse: "Eis aqui a serva do Senhor!" (Lc 1,38).
Uma nova Pastoral. A gratuidade da presença amorosa e universal de Deus torna-se a fonte de uma nova pastoral que transparece nos capítulos 40 a 66 do livro de Isaías.
Ternura. Para a pessoa machucada e triste, na solidão do cativeiro, não bastam imposições e preceitos. É necessário, antes de tudo, cuidar das feridas do coração, acolhendo-a com muita ternura e bondade: “Consolai! Consolai o meu povo!” (Is 40,1). Há muitas expressões e imagens de ternura espalhadas pelos capítulos 40 a 66 de Isaías: Is 40,1-2ª; 43,1-5; 44,2; 46,3-4; 49,13-16; etc. Eis um exemplo: “Tu és o meu servo! Eu te escolhi, não te rejeitei. Não temas, porque eu estou contigo. Não fique apavorado, pois eu sou o teu Deus. Eu te fortaleço, sim, eu te ajudo, eu te sustento com a minha direita justiceira! Não temas! Sou eu que te ajudo!
Não temas, vermezinho de Jacó, meu bichinho de Israel! Eu mesmo te ajudarei. Oráculo de Javé, teu redentor é o Santo de Israel!” (Is 41,9-10.13-14; cf Is 54,7-8).
Diálogo. Nos capítulos 40 a 66, transparece uma atitude de escuta e diálogo. Eles conversam, fazem perguntas, questionam, criticam, levam o povo a refletir sobre os fatos (cf Is 40,12-14.21.25-27; etc). Ensinam dialogando em pé de igualdade com o povo: “O Senhor me deu uma língua de discípulo para que eu saiba trazer ao cansado uma palavra de conforto. De manhã em manhã ele me desperta, sim, desperta meu ouvido, para que eu ouça como os discípulos” (Is 50,4). Um discípulo não impõe suas ideias, mas sabe ensinar escutando e aprendendo com os outros. Eis um exemplo: “Por que dizes tu, Jacó, e por que afirmas tu, Israel: “O meu caminho está oculto a Javé; meu direito passa despercebido a Deus?” Então não sabes? Por acaso não ouviste isto? Javé é um Deus eterno, criador das regiões mais remotas da terra. Ele não se cansa nem se fatiga, sua inteligência é insondável” (Is 40,27-28). Por este seu jeito de conviver e de tratar com o povo, eles não só falam sobre Deus, mas também o revelam. Eles comunicam algo daquilo que eles mesmos vivem. Deus se faz presente nesta atitude de ternura e de diálogo.
Reunião. É neste período se começa a insistir de novo na observância da lei do sábado (Is 56,2.4; 58,13-14; 66,23; cf Gen 2,2-3). Era para que o povo tivesse ao menos um dia por semana para se encontrar, partilhar sua fé, louvar a Deus e animar-se mutuamente. Faziam reunião de noite e perguntavam: “Levantem os olhos para o céu e observem: Quem criou tudo isso? É Aquele que organiza e põe em marcha o exército das estrelas, chamando cada uma pelo nome. Tão grande é o seu poder e tão firme a sua força, que nenhuma delas deixa de se apresentar. Jacó, por que você anda falando, e você, Israel, por que anda dizendo: “Javé desconhece o meu caminho e o meu Deus ignora a minha causa?” (Is 40,26-27). Nestas reuniões eles refrescavam a memória (Is 43,26; 46,9), contavam as histórias de Noé, de Abraão e Sara, da Criação, lembravam o êxodo (Is 43,16-17), apontavam os fatos da política e perguntavam: “Quem é que faz tudo isto?" (Is 41,2). A resposta era sempre a mesma: "É Javé, o Deus do povo, o nosso Deus!". Por trás de tudo começam a reaparecer os traços do rosto de Javé, o Deus do povo. A natureza, a história e a política deixam de ser estranhos e hostis ao povo e tornam-se aliados dos pobres na sua caminhada como Servo de Deus.
Consciência crítica. Foi necessária muita paciência para o povo se reanimar. Eles eram como o profeta Elias deitado debaixo da árvore querendo morrer (1Rs 19,4).
Este desânimo tinha duas causas: uma externa que, de fora, pesava sobre eles: a destruição de Jerusalém, o exílio; a outra interna que, por dentro esvaziava o coração: a falta de visão e de fé. Deus parecia ter perdido o controle da situação. Nabucodonosor parecia ser o dono de tudo. Isaías ataca as duas causas: desfaz o peso da opressão e enche o vazio do coração. Para desfazer o peso da opressão ele usa o bom senso e faz uma análise crítica da realidade. Desmascara o poder que oprime e a ideologia dominante que engana. Para encher o vazio do coração Isaías ajuda o povo a perceber os sinais da presença amorosa de Javé (Is 54,7-8; 55,8-11; 41,1-5; 44,27-28; 45,1-7). Faz saber que Deus faz opção pelos pobres: "Eu estou contigo!" (Is 41,10). “Troco tudo por ti!” (Is 43,4). É lá que Ele deve ser procurado (Is 55,6), e é de lá que Ele quer irradiar sobre o mundo como "Luz dos Povos" (Is 42,6). A face de Deus reaparece na vida. O povo, animado por esta Boa Notícia, desperta (Is 51,9.17; 52,1), se põe de pé (Is 60,1), começa a cantar (Is 42,10; 49,13; 54,1; 61,10; 63,7) e a resistir (Is 48,20).
Diante desta análise, trazendo este contexto bíblico pra nossa realidade eclesial e social contemporâneas, soam com ares de profecia as palavras do Papa Francisco na Evangelii Gaudium, 85 e 86.
Uma das tentações mais sérias que sufoca o fervor e a ousadia é a sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre. Ninguém pode empreender uma luta, se de antemão não está plenamente confiado no triunfo. Quem começa sem confiança, perdeu de antemão metade da batalha e enterra os seus talentos. Embora com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem se dar por vencido, e recordar o que disse o Senhor a São Paulo: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza» (2 Cor 12, 9). O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal. O mau espírito da derrota é irmão da tentação de separar prematuramente o trigo do joio, resultado de uma desconfiança ansiosa e egocêntrica. Não deixemos que nos roubem a esperança!
Estamos chegando a mais um fim de ano. Muitas interrogações eclodem sobre a nossa vida. Toda vez que atravessamos um ano, parece que alguma coisa do ano anterior continuará com mais virulência. A grande maioria das pessoas, no mundo inteiro, tem a impressão de que este não é um dia exatamente como os outros. O que há de diferente? O que suscita esperança nos seres humanos? Se olharmos os astros, não vemos nenhuma diferença. Tudo já está previsto e calculado pelos astrônomos, tudo cientificamente controlado.
Por sermos seres humanos complexos, e não apenas matemáticos e científicos, é que nos alegramos com a passagem do ano. Na perspectiva de muitos — inclusive de religiosos — esse foi o equívoco da modernidade. A revolução moderna começa no século XVI, ganha força com Descartes no século XVII e se consolida com Kant no século XVIII. Essa revolução cultural acreditava que, uma vez conhecendo a realidade, nós a dominaríamos. Para esses pensadores, tudo o que não fosse estritamente racional, lógico e matemático era superstição. Por isso, a passagem do ano mexe com o emocional das pessoas e com o arquétipo profundo do ser humano.
A realidade, porém, não aponta para nenhum tipo de felicidade automática para o ano que está começando. Acompanhamos, pelos meios de comunicação, conflitos envolvendo países, e isso nos assusta pelo número de vítimas. Essa realidade dolorosa deve nos levar a refletir para além da crueldade cotidiana vivida pelos pobres no Brasil. Para onde caminhará a humanidade diante dos riscos de uma guerra nuclear? Questão inquietante e fundamental. Os conflitos tendem a crescer. Crimes contra a humanidade são cometidos por Israel, sem que instituições internacionais tomem iniciativas eficazes para pôr fim ao holocausto do povo palestino. Milhares de pessoas perderam a vida diante dessa carnificina. A realidade é maior do que as ideias, como assevera o Papa Francisco. É preciso perguntar o que de novo iremos construir ao longo de 2026.
No que diz respeito ao Ano Novo, precisamos ser mais analíticos. Ano novo é simplesmente o conjunto sequencial de 365 dias. Portanto, é a sequência de 365 dias, 12 meses ou 52 semanas. Torna-se claro que, em sentido estritamente cronológico, não há um “ano novo”, mas apenas mais um ano que se inicia. “Feliz Ano Novo” é, antes de tudo, a transmissão de um sentimento humano entre as pessoas.
O desejo de ser feliz é uma aspiração congênita da humanidade. Mas essa felicidade não eclode apenas de um período de 365 dias. Ela exige a consubstanciação de princípios morais e éticos, capazes de reverter a crônica injustiça que estigmatiza pretos, pobres e periféricos.
O Ano Novo é nada mais que o ano seguinte — não necessariamente novo. Para que seja realmente novo, o cenário social, político, econômico, cultural e religioso precisa ser transformado, sobretudo em nosso país, onde a desigualdade é mantida à custa do sacrifício de pessoas humanas submetidas a condições análogas à escravidão. Desejar “feliz ano novo” a quem vive humilhado pela miséria e oprimido por um capitalismo sórdido não é a forma mais respeitosa de se relacionar com o próximo, tornando-se, muitas vezes, uma saudação demagógica.
Um ano só pode ser novo se a sociedade conseguir conjugar, afetiva e efetivamente, os verbos renovar e inovar. Caso contrário, haverá apenas a continuidade do ano anterior, com toda a injustiça dominante que leva seres humanos a viverem excluídos dos benefícios do desenvolvimento econômico. Se essa configuração persistir, o abismo da desigualdade social se aprofundará. Para políticos e religiosos da extrema direita, a saudação do chamado Ano Novo será: “Deixa como está para ver como é que fica”.
A missão mais nobre e improtelável é o compromisso de todos com a desconstrução das bases históricas, culturais, econômicas e sociais do grotesco cenário de desigualdade e injustiça que tortura os pobres e sacrifica vidas humanas. Se o cenário atual persistir, no qual o chamado mercado se locupleta à custa da miséria do povo brasileiro, o próximo ano será apenas a continuidade da trágica degradação da nossa sociedade. Nesse caso, não haverá diferença capaz de dar substância real à expressão “feliz ano novo”.
A capacidade reflexiva do ser humano não pode ser obnubilada pelos fogos e gozos da passagem do ano, que revelam apenas a transição de um dia para o outro. Se não houver justiça nas relações econômicas, prioridade educacional e implementação de políticas públicas que preservem a dignidade dos pobres, o Ano Novo será sempre uma pura ilusão.
Além da realidade social, que precisa ser nova, devemos olhar também para nossa caminhada existencial. Temos a experiência de que, de tempos em tempos, precisamos nos libertar, nos despojar daquilo que acumulamos. O ser humano vai incrustando em si suas experiências, sobretudo as negativas. Elas se assemelham a um musgo que vai se fixando ao corpo, como alguém que nunca toma banho e cria uma crosta espessa. De vez em quando, é preciso pegar uma bucha e arrancar toda essa sujeira para sentir-se novo.
São experiências biológicas, psíquicas e sociológicas. As biológicas, precisamos lavá-las; as psíquicas, tratá-las como propõe a psicanálise. As pessoas pagam caro para se deitar no divã, recordar, arrancar o passado e tentar se libertar. Muito antes de Freud, os gregos já haviam descoberto isso. Tinham o famoso teatro. O que eram as peças de Sófocles, Eurípides e Ésquilo, no grande Teatro de Dionísio, em Atenas? O povo participava das encenações para viver experiências profundas de dor, sofrimento, vida e morte e, assim, libertar-se delas, voltando aliviado para casa. A isso os antigos chamavam de catarse.
O Ano Novo pode ser uma oportunidade de catarse, isto é, de limpeza e purificação psicológica.
Que a novidade do ano aconteça em você e no conjunto da sociedade!
Pe. Waldemir Santana
Arquidiocese da Paraíba
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Com vida nova
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É de praxe em cada final de ano se fazer um balanço, uma espécie de leitura de cego que capta apenas o que é relevante. Seriam demasiadas coisas a serem lembradas. Apenas observamos que há uma lenta e irrefreável degradação do nosso modo de habitar a Terra. O aquecimento global está crescendo cada ano e já mostra seus efeitos catastróficos no mundo todo com grandes inundações, tufões e queimadas fenomenais. Assistimos no Rio Grande do Sul uma enchente desastrosa, destruindo partes de inteiras cidades, além dos danos na agricultura.
Fala-se que entramos numa era geológica nova, o antropoceno, vale dizer, o meteoro rasante, destruidor da natureza não é outro senão o próprio ser humano. Outros vão mais longe e acrescentam que estamos na era do necroceno, quer dizer, a maciça morte (necro) de espécies, na ordem de 70-100 mil segundo o conhecido biólogo Edward Wilson. Ultimamente o número de incêndios cresceram tanto no mundo inteiro que já se fala do piroceno (piros em grego é fogo), a fase mais avançada e perigosa do antropoceno. Acresce ainda a perversa desigualdade social, pois 1% de ricos possuem mais riqueza que mais da metade da humanidade (4,7 bilhões), o que é uma infâmia e uma negação de humanidade.
Face a tal nível de degradação generalizada, nunca vista antes da presença do ser humano no processo de evolução, muitos, entre eles grandes nomes da ciência se perguntam se não estamos próximos do fim possível da espécie humana. E com razão, pois não se trata de fantasmas, mas de sinais perturbadores. O prêmio Nobel de biologia de 1974, Christian de Duve em seu minucioso livro Poeira Vital, a vida como imperativo cósmico (Campus 1997) afirma que nos dias de hoje “a evolução biológica marcha em ritmo acelerado para uma grave instabilidade; de certa forma, o nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evolução, assinaladas por extinções em massa”. O cientista Norman Myers calculou que somente no Brasil, se estão extinguindo nos últimos 35 anos quatro espécies por dia. Théodore Monod, um notável naturalista, deixou como testamento um texto de reflexão com esse título: “E se a aventura humana vier a falhar” (2000)? Assevera: “somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da raça humana”.
Desde que surgiu como homo habilis há mais de dois milhões de anos vem desequilibrando sua relação para com a natureza. Até quarenta mil anos atrás os danos ecológicos eram insignificantes. Mas a partir desta data começou um assalto sistemático à biosfera. Em poucas centenas de anos, os caçadores extinguiram os mamutes, as preguiças-gigantes e outros mamíferos pré-históricos. Na era industrial (1850) foram desenvolvidos instrumentos que tornaram bem-sucedida a dominação/devastação da natureza. Nos dias atuais, este processo se agravou a ponto de que os noves itens (planetary bounderies) que sustentam a vida estão celeramente caindo, no termo, tornando impossível a civilização.
Já há 2 milhões de anos que estamos dentro da Idade do Gelo. A atual fase interglacial quente começou há 11.400 anos (período do Holoceno). Conforme os padrões do passado deveríamos ingressar num novo período de resfriamento. Entretanto nossa espécie alterou profundamente a natureza da atmosfera. Vários gases de efeito estufa como o CO2, o metano e outros importantes estão aquecendo todo o planeta. Até 2030 não poderia alcançar dois graus, pois seria desastroso para grande parte da humanidade e para a natureza. Já agora em 2025 atingimos 1,77ºC.
A estes problemas acresce a carência de água potável (só 3% é doce) e a super população da espécie humana que já ocupou 83% do planeta depredando-o. Poderão os seres humanos viver juntos numa única Casa Comum? Não somos seres pacíficos, mas extremamente agressivos, faltos de cooperação e de cuidado. O astrônomo real Sir Martin Rees da Inglaterra em seu livro “Hora Final: o desastre ambiental ameaça o futuro da humanidade” (2005) estima que, a correrem as coisas como correm, podemos nos liquidar ainda neste século.
Apesar deste quadro sombrio neste final de 2025 mantenho a esperança de que o ser humano, com sua inteligência, razão cordial e sentido de sobrevivência decidirá pela continuidade da vida neste planeta e não pelo suicídio coletivo.
Lógico, precisamos ter paciência para com o ser humano. Ele não está pronto ainda. Tem muito a aprender. Em relação ao tempo cósmico possui menos de um minuto de vida no planeta. Mas com ele, a evolução deu um salto, de inconsciente se fez consciente. E com a consciência pode decidir que destino quer para si. Nesta perspectiva, a situação atual representa antes um desafio que um desastre, a travessia para um patamar mais alto e não um mergulho na autodestruição.
Agora cabe-nos mostrar amor à vida em sua majestática diversidade, ter compaixão para com todos os que sofrem, realizar rapidamente a justiça social necessária e amar a Grande Mãe, a Terra. Incentivam-nos as Escrituras judaico-cristãs: “Escolha a vida e viverás (Deut 30,28)”. Andemos depressa, pois não temos muito tempo a perder.
Leonardo Boff escreveu: Homem: satã ou anjo bom, Record 2008; Cuidar da Casa Comum: pistas para protelar o fim do mundo, Vozes 2024.
O início de cada ano civil leva consigo as influências das festas natalinas, quando Deus se manifesta na Pessoa de Jesus Cristo e nas bençãos concedidas para se ter um novo tempo de esperança. Nesse contexto, aparece a palavra “epifania”, aplicada ao fato da visita dos Reis Magos do oriente ao Menino Jesus, e o encontram depositado em um cocho, em atitude de radical despojamento.
Agora é olhar para frente e deixar para o passado todo tipo de escuridão no trajeto da vida. Viver na claridade é saber dar novo vigor para a história, pessoal e social, e trabalhar para a realização de uma utopia saudável e capaz de ser atingida. Não se pode perder de vista que a verdadeira luz vem de Deus. É por isto que Jesus se manifesta como luz a atingir o coração das pessoas sensíveis a Ele.
A epifania é a manifestação, ou seja, a publicidade de Deus, daquele que veio visitar o mundo, tornando-se humano para que o humano tivesse condição de se tornar, também, divino. Não é uma manifestação privada, destinada apenas para algumas pessoas e de forma privilegiada, mas sem distinção, mostrando que a dignidade humana não é diferente entre os diferentes indivíduos.
Na dimensão da publicidade divina, agora é contemplar a riqueza do acontecimento Cristo, consolidando a glória de Deus em pessoa. Nessa dimensão, é possível encontrar a fonte de sustentação para a fé, a esperança e a caridade. A Palavra de Jesus nos ensina a caminhar na luz, a construir tempos novos e a olhar para frente convencidos de que tudo pode ser melhor e mais belo.
O mistério de Deus é revelado na Pessoa de Cristo, com destaque especial na data do Natal. Jesus nasce como um perfeito dom gratuito do Pai, e tem como finalidade, a salvação de seu povo na via da história. Jesus Cristo veio com uma proposta exigente de alteridade, para construir pontes, conforme disse o Papa Francisco, convocando as pessoas para a prática da unidade e da fraternidade.
Na atual cultura, fica uma pergunta no ar: Onde está Cristo hoje? Na Igreja, no mundo, na comunidade, no comércio, na família? Será que está faltando uma estrela guia, como aconteceu com os Reis do oriente, possibilitando encontrar o Menino-Deus? É importante refletir se tudo caminha no rumo certo, ou há necessidade de mudar de rumo, como aconteceu na volta dos Magos para o oriente.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
Epifania do Senhor – Mt 2, 1-12
Nesta festa da Epifania, ou como o povo chama “festa dos reis”, o evangelho (Mt 2, 1- 12), no Brasil, celebrada no primeiro domingo depois do ano novo, nos recorda a vinda dos magos a Belém para homenagear Jesus recém-nascido. Independentemente do fato desse relato não ser narrativa histórica (de fato é um comentário narrativo a um texto bíblico do primeiro testamento: Isaías 60), é muito bonito, significativo e cheio de apelo ecumênico e inter-religioso para nós e para todas as pessoas chamadas a serem discípulas de Jesus.
No tempo do Evangelho de Mateus, se chamavam magos os sacerdotes da antiga religião persa. E o povo da Bíblia os via como gente não recomendável. Hoje, a tradição fala em “santos reis magos”. O evangelho não diz que eram reis, nem que eram santos. Podemos considerá-los santos, porque se deixaram inundar pela Luz Divina da estrela e do Amor e podemos considerá-los reis se consideramos que todo ser humano é pleno de dignidade e de honra e eles eram migrantes e estrangeiros. Então podemos ver neles a figura de todas as pessoas migrantes e estrangeiras que devem sempre ser tratadas com dignidade e acolhidas com amor.
Conforme o evangelista Mateus, os magos são os primeiros a adorar Jesus. O evangelho não diz quantos eram. A tradição os coloca como três. Pinta um deles como negro e a tradição síria estampava um deles como jovem mulher. Assim, se mostra a universalidade desse encontro ecumênico: Jesus menino e os magos que se aventuram por caminhos desconhecidos, seguindo uma estrela.
É comum padres e pastores lerem esse evangelho (Mt 2, 1 - 12) de forma inclusiva (trazer os outros para nós), etnocêntrica e dogmática. Em análise apologética, s magos teriam vindo de longe para adorar a Jesus, portanto para ser cristãos. Dizem que o Cristianismo é uma religião universal, aberta a todos e acolhe a todos, mas para ser cristãos. Ao contrário, o evangelho diz que depois da visita a Jesus, os magos voltaram a seus países, portanto a suas culturas e religiões (Mt 2, 11- 12).
Uma leitura mais profunda do texto de Mateus nos leva a uma interpretação mais aberta e pluralista. A acolhida de Jesus é abertura ao outro e à outra. Belém e o presépio se tornam lugares que simbolizam um encontro de culturas e de religiões e não apenas a outra pessoa que entra na nossa.
A história começa dizendo: “Tendo Jesus nascido em Belém, nos dias do rei Herodes, magos vieram do Oriente e perguntavam: Onde está o rei dos judaítas que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente e viemos prestar-lhe homenagens”.
Para o evangelho, o povo é Israel (assim Mateus cita Miqueias no verso 6). E judeu é quem mora na Judeia. Judaíta (no grego Ioudaios), o mesmo termo usado no Quarto Evangelho, é o judeu que se coloca como pertencente ao império e pensa a partir do império. São os judeus de Jerusalém que estão sob o domínio do rei Herodes, inclusive os sacerdotes que o aconselham. É a religião a serviço do poder político. Os magos vêm do Oriente buscando outro tipo de rei. O título “rei dos judaítas” é como um título político do Messias.
O evangelho mostra um contraste violento entre os magos que se movimentam, se aventuram e buscam e, do outro lado, os religiosos que são fixos na capital do poder e apenas consultam a tradição nas escrituras. Sabem das coisas porque leem, mas sem experimentar nem viver. Hoje ainda, temos esses dois tipos de pessoas: as que fazem o caminho da fé no meio das dúvidas, das crises e das buscas do que mais nos humaniza e cuida de relações humanas e sociais libertadoras. Essas pessoas são como magos e magas no caminho do presépio de Belém. Outro tipo representa as pessoas que se sentam em cima das certezas, dos dogmas e dos costumes. Parecem com aqueles professores da Bíblia, na Jerusalém do rei Herodes.
A história dos magos é contada para avivar em nós o chamado a viver a fé como aventura nômade, ou como dizemos na Igreja inserida no meio do povo empobrecido: caminhada.
Nessa caminhada, a dos magos e a nossa, as instituições religiosas funcionam como pousadas e estalagens. Às vezes, cômodas ou às vezes incômodas. Nas pousadas que são as instituições religiosas, muita gente se acomoda, se torna "importante" e desiste de caminhar e de luta pelos direitos das pessoas injustiçadas.
Manter-se na estrada implica aceitar ser pequenino, desprotegido e quase sempre marginal... Nem todo mundo aceita isso. Conforme os evangelhos, a Igreja é assembleia (Igreja) e não templo ou em si religião. O templo e os elementos religiosos podem ser expressão, mas serão sempre pousadas provisórias do caminho. Este é guiado pela “estrela de Belém” e não pela pousada.
Cada um, cada uma de nós vive uma busca interior. Uns com intensidade e coragem. Outros e outras deixam a busca meio adormecida e se acomodam no ponto já encontrado. Vivem a banalidade do dia a dia... sem ousar novas interrogações. Alguns nem percebem mais que têm essa busca interior e ela é quem dá sentido à vida. Deus chamou os magos para caminhar, não na direção de algum centro de peregrinação importante ou de uma religião, mas de uma aldeiazinha chamada Belém. No meio do caminho, os magos se perderam. Acharam que deveriam procurar, indo ao centro do poder religioso e político. Esse contato com Herodes e com os sacerdotes só deu problema. Quase foram cooptados. Eles acabaram involuntariamente provocando o massacre dos inocentes e a perseguição de Herodes ao menino Jesus. Os sacerdotes da religião correta sabiam a verdade - interpretaram corretamente a profecia - mas isso não os levou a Deus no humano a partir dos últimos. Os magos eram considerados pagãos e não tinham Bíblia, nem sabiam nada da verdadeira fé, foram adorar e reconheceram em uma criança pobre a presença divina. É verdade que o texto diz que a estrela conduziu os magos, desapareceu quando os magos resolveram entrar em Jerusalém e falar com o rei Herodes, mas depois a estrela reapareceu e os guiou até Belém.
Deus se encontra não no templo, não nos santuários importantes, mas na casa da periferia, na gruta que não tem portas nem muros. Esse episódio simbólico da vinda dos magos a Belém nos ensina que a nossa busca mais profunda do Mistério Divino e o nosso desejo de contemplá-lo e de viver a sua intimidade devem desembocar na proximidade com a pobreza de Belém. Adorar é admirar-se, é reconhecer o divino no humano, em todo ser humano, mas especialmente no mais pequenino e empobrecido. O evangelho dos magos nos chama a buscar o rosto de Jesus e nele o rosto divino do Espírito em tantas epifanias (manifestações) de Deus no mundo, seja nas diversas religiões, seja na caminhada civil e política da humanidade em busca da Paz e da Justiça.
O papa Paulo VI encerrou o Concílio Vaticano II afirmando: "Para se encontrar a Deus, é preciso encontrar o ser humano".
sonhar
Desenha, Deus, no caderno
um arco-íris.
És bom pintor, eu creio,
um bom artista.
Depois cantarola sete notas
como se fosses
meu Deus, um passarinho
desses que cantam
quando o sol vem vindo.
Soletra o meu nome de criança
e depois me dá a mão
como a um amigo.
E que eu te ame assim,
Devagarzinho,
com velas e preces
pão e vinho,
como se eu fosse um deus
e tu, um menino.
(Carlos Brandão).
“A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Rm 5,5).
Há poucos dias, celebramos o Natal de nosso Senhor Jesus Cristo. Naquela noite santa, o anjo já o disse aos pastores, e hoje repete a nós: “Não temais! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo” (Lc 2,10). Por ocasião do encerramento do Ano Jubilar, em nossas dioceses, e praticamente do ano civil, dirigimo-nos ao povo brasileiro com uma mensagem de esperança, mas, ao mesmo tempo, de grave preocupação. Como pastores, exultamos com as vitórias e conquistas e nos inquietamos – e até nos indignamos! – com alguns retrocessos no campo da ética e do cuidado com os pobres.
Neste ano, são várias as notícias que nos fazem felizes e renovam nossas esperanças. No âmbito da saúde, ficamos felizes com o aumento da taxa média de médicos pelo número de habitantes e agradecemos a Deus pelo Sistema Único de Saúde. No campo econômico, alegramo-nos com a retirada de algumas tarifas norte-americanas sobre vários produtos brasileiros, a estabilidade da inflação, a taxa de desemprego em queda, o relativo crescimento do PIB, o significativo aumento do cooperativismo e a abertura de novos mercados internacionais.
Orgulhamo-nos da realização da COP-30, em Belém do Pará, e também nos enleva o fato de o Brasil consolidar sua liderança em energias renováveis. A Igreja se fez presente, não como protagonista político, mas desejosa de contribuir para a construção de caminhos comuns diante da crise climática e o cuidado com a “Casa Comum”. Aumentou significativamente o investimento privado em sustentabilidade, em práticas ambientais, sociais e de governança (ESG). Os movimentos populares se alegram, sobretudo, com a realização do Plebiscito Popular sobre a redução da jornada de trabalho e a taxação proporcional à riqueza.
Constatamos experiências positivas. Contudo, há também várias situações que nos entristecem e preocupam. No âmbito da convivência democrática, o ano de 2025 foi marcado por profundas tensões e retrocessos sociais, que deixaram feridas abertas no tecido social. Algumas experiências fragilizaram seriamente a confiança nas instituições e desafiaram as pessoas de boa vontade, que acreditam numa sociedade mais justa e fraterna. Entre essas, destacam-se: o pagamento exorbitante de juros e amortizações da dívida, que deixa o país sem capacidade de maior investimento em educação, saúde, moradia e segurança; o enfraquecimento da ética e o aumento da corrupção na vida pública; a fragilização dos mecanismos democráticos, por causa de interesses econômicos e disputas de poder; a flexibilização de marcos legais essenciais, como a Lei da Ficha Limpa; o desrespeito pelos povos originários e tradicionais, agravado pela aprovação do Marco Temporal no Congresso Nacional; as ameaças à proteção ambiental, intensificadas pelas mudanças na Lei Geral do Licenciamento; a desigualdade social, que continua marginalizando muitos; o aumento da violência, especialmente o feminicídio e outros crimes motivados pela intolerância; o uso de drogas e o crescimento de “economias ilícitas”; a perda de decoro e a falta de responsabilidade por parte de algumas autoridades, especialmente do nosso Congresso Nacional. Discursos de ódio, manipulação da verdade, violências, radicalismos ideológicos e interesses particulares não podem se sobrepor ao bem comum.
Tais realidades ferem a dignidade humana e obscurecem a vocação democrática do país. O poeta Thiago de Mello traduz esse valor numa bela imagem: “Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar”. A presença do Deus que se faz criança, simples e próxima, renova nossa convicção de que nenhuma escuridão é definitiva e que a esperança é força transformadora para quem caminha em busca do bem comum. Por isso, reafirmamos que nenhum projeto político pode se sobrepor à vida, ao respeito à pessoa humana, à justiça social e ao cuidado com a casa comum.
Reiteramos a sacralidade da vida humana, desde a concepção até seu fim natural. Ela é o primeiro dos direitos, dom gratuito de Deus, e não pode ser relativizada ou negociada. Por isso, manifestamo-nos firmemente contra qualquer iniciativa de legalização do aborto no Brasil. Defender a vida, contudo, implica também lutar contra a fome, a miséria e a desigualdade. Defender a vida significa criar condições para que “todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).
A democracia, com sua exigência de diálogo, suas instituições, seus freios e contrapesos, é patrimônio do povo brasileiro e precisa de cuidado e promoção. Embora imperfeita, ela é terreno fértil onde a justiça e a verdade podem se abraçar (cf. Sl 85,10) e florescer. Como discípulos e discípulas de Jesus Cristo, somos chamados a ser testemunhas credíveis e exemplares, artesãos da paz, construtores de pontes, promotores da caridade política e da responsabilidade social. A nação precisa reencontrar o caminho da pacificação, do diálogo e do respeito mútuo!
Desejamos e trabalhamos pela paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante, por um mundo e por um ser humano pacificados e reconciliados no amor (cf. Ef 2,14), a fim de concretizar o sonho de Jesus Cristo, expresso de modo tão belo por Dom Helder Câmara: “Sem esperança, temos as mãos e os pés amarrados. Somos escravos sem perspectiva de libertação”. Não caminhamos na escuridão; somos peregrinos de esperança!
Que a luz do Menino Deus ilumine nossas famílias, comunidades e nação. Que o Natal acenda em nossos corações a coragem de recomeçar, e que o ano de 2026 nos encontre firmes no testemunho cristão, com o desejo de mudar o mundo, empenhados na oração, nutridos pela Palavra e pela Eucaristia. Que a Mãe Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, nos acompanhe nesta travessia.
Dom Jaime Cardeal Spengler
Arcebispo da Arquidiocese de Porto Alegre-RS
Presidente da CNBB Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo da Arquidiocese de Goiânia-GO
1 º Vice-Presidente da CNBB
Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa
Arcebispo da Arquidiocese
de Olinda e Recife - PE
2° Vice-Presidente da CNBB Dom Ricardo Hoepers
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília - DF
Secretário-Geral da CNBB
Brasília, 29 de dezembro de 2025
No Evangelho de Mateus, em Mt 2,1-12, está a narrativa da visita de magos a Jesus recém-nascido, passagem exclusiva das comunidades de Mateus. Para Mateus foram os magos os que por primeiro experimentaram a chegada do divino no humano a partir dos últimos da sociedade. O Evangelho de Lucas, ao invés de falar de magos, fala de pastores (Lc 2,1-20). Quem são esses magos? O texto só diz que eles vêm do Oriente, de onde o dia nasce a cada dia e a vida recomeça sob a bênção dos raios solares. Os magos são pessoas sábias, porque viram a estrela que indicava o nascimento do “rei dos judaítas”. Os magos têm intenções contrárias às do rei Herodes, que ficou alarmado e junto com ele toda a cidade de Jerusalém. Nem pela consulta às Escrituras Herodes, a elite dos sacerdotes e os escribas se dispõem a reconhecer o divino no humano que acaba de nascer. Acontece então uma oposição muito significativa: aqueles que detêm o conhecimento e o poder da religião oficial ignoram Jesus, enquanto pessoas de outras culturas e práticas, que inclusive seriam condenadas pela lei judaica, como a consulta aos astros, reconhecem o nascimento daquele que iria testemunhar um caminho de salvação e vêm ao seu encontro.
Os magos identificam a estrela que indica Deus se humanizando em/a partir de Jesus. É interessante que depois que os magos saem de Jerusalém a estrela reaparece e os conduz até o lugar em que estava o menino. Curioso é que a estrela desaparece quando os magos chegam a Jerusalém, a capital, o centro político, econômico e religioso! Mas não adianta buscar esta estrela no céu. O texto faz uma ligação entre as atividades dos magos e a estrela que, segundo a tradição judaica, deveria indicar o surgimento do messias. Assim se lia naquela época o texto de Números 24,17: “um astro se levantará de Jacó e um homem surgirá de Israel”.
Depois de adorarem o menino e de lhe oferecerem presentes, os magos retornam por outro caminho para a sua terra. Diz o texto que eles foram avisados “em sonho” para que não voltassem a falar com Herodes. A missão de Jesus é testemunhar um caminho de salvação para todos, inclusive os pagãos, representados pelos magos. Mt 2,1-12 tem duas partes: Mt 2,1-5 e Mt 2,7-12. O v. 6 é o elo de ligação.
Em Mt 2,1-12 temos Herodes contra Jesus, Jerusalém contra Belém. Para os magos, estrangeiros do oriente, Jesus é "rei dos judaítas" (Mt 2,2). Os magos reconhecem o poder alternativo nascido em Belém (etimologicamente Betlehem, em hebraico, significa Casa do Pão). Por isso, segundo o Evangelho de João Jesus passa a ser reconhecido como o “pão da vida” de todos/as (Jo 6,35.48.51).
Belém, cidade do pastor Davi, que organizou os injustiçados da sociedade para lutar por um governo justo. O verdadeiro rei dos judeus não é violento como Herodes, é um recém-nascido, nascido sem-terra e sem-casa. Os magos intuem com sabedoria que o poder alternativo, democrático, participativo e popular vem da periferia, dos excluídos, dos pequenos. A estrela que guia os magos representa as melhores intuições e os anseios mais profundos da humanidade sedenta de justiça, amor, paz e fraternidade.
Os magos vêem o "menino com sua mãe". O gesto de reconhecimento é acompanhado da oferta do que há de melhor em seus países: ouro, incenso e mirra. Para os cristãos da época da Patrística, os presentes oferecidos simbolizam a realeza (ouro), a divindade (incenso) e a paixão de Jesus (mirra). Primeira atitude dos magos foi doar-se a serviço do Salvador (= “prostram-se”) e, em seguida, põem à disposição de Jesus o melhor do que eles possuem, seus dons.
Mais importante do que discutir se os magos eram astrólogos ou se eram astrônomos, é perceber que eram estrangeiros, sábios, perspicazes e muito sensíveis para captar a divindade de Deus se revelando na humanidade mais frágil.
Herodes, o rei sanguinário e opressor, tremendo de medo de perder o seu poder, tentou cooptar os magos secretamente, tentou obter informações que o ajudasse a liquidar a vida frágil. Herodes mentiu, fez propaganda enganosa, para tentar descobrir onde estavam as forças de subversão ao seu poder tirânico. Mas as forças de vida - o divino no humano - foram mais espertas fazendo os magos voltarem por outro caminho e assim driblaram a armadilha de Herodes.
Os magos voltam por outro caminho, com sabedoria. Atualizando uma profecia, isto é, fazendo midrash, Mt 2,12 recorda o profeta anônimo de 1Rs 13,9-10: "Porque assim me ordenou o SENHOR pela sua palavra, dizendo: Não comerás pão, nem beberás água e não voltarás pelo caminho por onde foste. E foi-se por outro caminho e não voltou pelo caminho por onde viera a Betel".
Os magos romperam de uma vez por todas com Herodes, rei opressor, e com Jerusalém, cidade tratada como se fosse uma empresa. O sonho dos magos é a inspiração de que do poder opressor nada nasce de bom para a sociedade. Os magos souberam mudar suas perspectivas e sonhar um mundo novo. Experimentaram que um mundo diferente é necessário e possível de ser construído.
A festa da Epifania, dos santos reis, nos ensina a olharmos o mundo atentamente com benevolência, a sentir com o coração aberto e, com mãos solidárias, percebermos que Deus está fazendo brilhar sua beleza no meio dos pobres e dos desprezados. Aliás, o que acontece não é propriamente uma Epifania (em grego, epifania significa manifestação de Deus sobre), mas uma Diafania (em grego, diafania significa o brilho de Deus que perpassa e permeia tudo).
Em uma perspectiva feminista, devemos perguntar: Já imaginou se os Magos fossem mulheres magas? O que teria acontecido? Elas não teriam pedido informações a Herodes, mas às crianças, prediletas de Jesus. Teriam chegado a tempo. Ajudariam no parto, cuidariam do menino, limpariam o estábulo, fariam o jantar. Além disso, teriam trazido presentes práticos e o mundo viveria em paz.
Mas ainda está em tempo de construirmos um mundo de justiça e paz com todos e tudo. Que nesse Natal e na virada do ano possamos revigorar em nós o desejo e o compromisso de viver e conviver de um jeito parecido com os magos do oriente ou como os pastores de Belém (Lc 2,1-20). Que não sejamos cúmplices dos Herodes de plantão!
29/12/25