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A cada ano, a humanidade celebra o dia internacional da mulher e constata que, na sociedade, a condição feminina ainda não foi radicalmente transformada. No Brasil, as estatísticas mostram que, apesar de leis mais claras e até de um Ministério das Mulheres, como organismo de governo e muito competentemente dirigido pela querida irmã e companheira Márcia Lopes, muitas mulheres ainda sofrem abusos e violências.
Infelizmente, as religiões que deveriam ser instrumentos de humanização e justiça, quase todas têm sido injustas com as mulheres. Desenvolvem uma visão patriarcal de Deus e da fé. Fazem leitura fundamentalista de textos sagrados, escritos em antigas culturas patriarcais. Por isso, sustentam que o homem deve ser o chefe da família e discriminam a mulher no acesso aos ministérios de coordenação eclesial. No Judaísmo, só na corrente mais aberta, as mulheres podem ser rabinas e ainda não são muitas as que conseguem. Na Bíblia, os primeiros textos proféticos vieram de mulheres e foram redigidos em forma de poemas e canções: o cântico de Míriam, irmã de Moisés (Ex 15, 20 – 21); o cântico de Débora, a juíza que, em tempos de fixação na terra, teria dirigido o povo bíblico nas lutas contra seus inimigos (Jz 5), o cântico de Ana, mãe do profeta Samuel (1 Sm 2). Também no Novo Testamento, de acordo com o evangelho, as primeiras manifestações proféticas ocorreram no encontro de Maria, mãe de Jesus e Isabel, mãe de João Batista (Lc 1, 39 - 47).
No Islã, em geral, os imãs são homens. No Hinduísmo não existem mulheres reconhecidas como lamas (gurus). No Cristianismo, as Igrejas orientais e a Católica não aceitam o sacerdócio feminino. Igrejas evangélicas aceitam, mas em um modelo de ministério, ainda pensado a partir do masculino e dentro de uma Igreja ainda patriarcal.
Apesar da marginalização injusta que as mulheres sofrem por parte da maioria das religiões, nas diversas tradições espirituais, elas formam a maioria das comunidades e, nelas, assumem responsabilidades.
As religiões de matriz africana são quase as únicas, nas quais as mulheres sempre tiveram papel importante. Vários templos do Candomblé são coordenados por Yalorixás, ou mães de santo, reconhecidas como sacerdotisas e guardiãs das culturas afrodescendentes.
Entre todas as grandes mudanças sociais, características do século XX, o feminismo foi uma das principais conquistas da sociedade. Foi a maior revolução pacífica da nossa história recente. O feminismo nasceu fora das religiões, transformou a democracia e os direitos humanos individuais e coletivos. Incluiu as mulheres como protagonistas da história e da libertação da humanidade e da Mãe-Terra. O feminismo surgiu na sociedade civil, mas acabou contagiando a caminhada das comunidades das principais tradições espirituais.
Desde 1970, o Ecofeminismo é uma corrente do feminismo que liga a exploração da natureza com as opressões que as mulheres sofrem. São opressões, todas enraizadas na cultura patriarcal e capitalista. Esse movimento mostra que a dominação masculina e patriarcal sobre a natureza e sobre o corpo feminino tem a mesma lógica. Por isso, o ecofeminismo propõe justiça socioambiental, que valorize o cuidado com as pessoas, a sustentabilidade ecossocial e não mais a maximização do lucro.
Nas últimas décadas, em diversas religiões e, especialmente, nas Igrejas, desenvolvem-se teologias feministas que ressaltam a profecia da mulher nas Igrejas e no mundo. Reescrevem a história das religiões e das espiritualidades, a partir da perspectiva de gênero e dão voz e protagonismo às mulheres. Assim, era normal que, no mundo inteiro, surgisse, também, uma teologia ecofeminista, que liga à luta pela libertação da mulher à opressão que a terra e a natureza têm sofrido.
Na década de 1960, em vários países da América Latina, surgiu a Teologia da Libertação, a partir das experiências de participação de cristãos e cristãs nos movimentos de libertação social e política. Esse movimento teológico nasceu em Igrejas de cultura patriarcal e no mundo, no qual, mesmo os grupos considerados de esquerda, eram machistas. Por isso, infelizmente, os teólogos que iniciaram a Teologia da Libertação levantaram a questão das classes e das opressões sociais, mas só despertaram para a iniquidade que é o patriarcalismo e todas as suas consequências, a partir do momento em que abriram o estudo da teologia às mulheres e, nos organismos teológicos, serem por elas liderados. Por isso, no nosso continente, com toda razão, algumas das primeiras teólogas feministas acusaram a Teologia da Libertação de ser ainda uma construção patriarcal e não suficientemente atenta às questões de gênero.
As teólogas feministas latino-americanas converteram os seus irmãos da Teologia da libertação e revelaram que a causa da igualdade de gêneros e da defesa da mulher é tarefa de mulheres e homens que, juntos, aprendem vida e teologia. Embora com enfoques que podem ser diversos, a causa é a mesma. Atualmente, as teologias da libertação expressam-se em várias correntes, como a ecoteologia, as teologias negras, indígenas, feministas e outras. Se um teólogo (homem) não assumir as causas da teologia feminista, como sendo causa sua, esse teólogo pode fazer pesquisa sobre teologia da libertação, mas não é teólogo da libertação.
Uma anedota judaica conta que, no início de tudo, Deus tinha criado a mulher. Como esta sentiu-se sozinha, pediu a Deus um companheiro e este hesitou:
- Você sabe que, por natureza, o homem (macho) é arrogante. Tem sempre a sensação de ser o primeiro. Quer ser mais importante de tudo. Não se conformará em ser o segundo.
A mulher respondeu:
- Então, isso fica um segredo entre nós. E para mim mesmo viver sossegada, é melhor que ele pense que foi o primeiro a ser criado.
Deus aceitou:
- Tudo bem. Guardemos então esse segredo e deixemos o homem pensar que foi o primeiro.
A mulher quis garantir:
- Então, você, Deus, promete mesmo manter esse segredo? Dá-me a sua palavra de que guardará isso só para nós?
Deus respondeu:
- Prometo. Palavra de Mulher!
3º Domingo da Quaresma – ano A: Jo 4, 5-42
Neste 3º Domingo da Quaresma, antigamente, realizavam-se os primeiros escrutínios, isso é, a consulta e verificação para que a comunidade pudesse sentir se, de fato, as pessoas adultas que faziam o catecumenato para serem batizadas na Noite da Páscoa estavam preparadas para receber o sacramento da vida nova. Por isso, desde aqueles tempos, nesse domingo, as Igrejas costumam meditar sobre o evangelho do encontro de Jesus, na beira de um poço, com a mulher da Samaria (João 4, 5- 42).
Nas regiões semiáridas, como no sertão do nordeste brasileiro, os poços são essenciais. Assim como as cisternas e a captação de água da chuva podem transformar a vida. Na cultura bíblica, na região semiárida, os poços representam o centro da vida. É o local onde as pessoas se encontram e no qual firmam-se as alianças de vida.
Alguém já afirmou que todo deserto sempre esconde ao menos um poço. A vida humana consiste em caminhar na direção do poço, para que as águas da Vida renovem em nós a energia do viver e do amar. No deserto do mundo, somos sempre atraídos por algum poço. Existem poços que são miragens. Quando deles nos aproximamos, vemos que estão secos. Em alguns desses poços, as águas não são potáveis. No entanto, existem poços de águas límpidas, que nos fazem gostar de ter sede, só para saborear aquelas águas repousantes e renovadoras.
Apesar de que o encontro de Jesus com a samaritana é relato simbólico, no qual Jesus representa a comunidade do quarto evangelho e a mulher samaritana simboliza um grupo da religião samaritana, malvista na época, mas que se aproxima da comunidade cristã. O evangelho quer formar a comunidade para acolher as pessoas de outra cultura. Provavelmente, o texto parte de recordações ocorridas na história de Jesus.
A primeira coisa que chama a atenção nesse evangelho é que, naquela época e desde séculos, as famílias e grupos judaicos, vindos da região norte da Galileia para ir em peregrinação ao templo de Jerusalém, no sul, evitavam a Samaria, para não serem contaminados(as) pelo contato com algum dos templos pagãos que os samaritanos construíram em seu território. Na volta da peregrinação, como já voltavam do templo, alguns menos rigorosos preocupavam-se menos com isso. Aceitavam tomar o caminho mais direto e passavam pela Samaria. Conforme o relato de João 4, parece ser o caso de Jesus e os discípulos e discípulas. Eles e elas voltam da Judeia para a Galileia, passando pela Samaria.
O evangelho afirma que Jesus devia passar por ali. Assim como a comunidade cristã deve ir às pessoas excluídas, hereges e malvistas. Era como se, hoje, dissesse: para fazer uma verdadeira inserção na realidade das pessoas mais pobres, é preciso entrar na relação com outras culturas e outras religiões.
O texto salienta que era meio dia. Isso indica que aquela mulher era muito marginalizada. Qualquer pessoa com pouco mais de direito humano reconhecido iria ao poço pela manhã ou à tarde, em horário mais adequado para buscar água. Naquele clima semiárido, só iria ao poço buscar água ao meio dia quem não tinha direito de ir em outro horário. O evangelho diz que o próprio Jesus está cansado e senta à beira do poço. É ali, naquela situação que ele rompe as barreiras do preconceito, ao aproximar-se de uma mulher samaritana e faz isso, não como mestre e sim como alguém que precisa dela. Coloca-se como necessitado e lhe pede água.
Na Bíblia, o poço é o lugar no qual se selam alianças. Conforme o relato bíblico, patriarcas como Isaac, Jacó e mesmo Moisés conhecem a mulher com a qual se casariam na beira de um poço e o juramento do casamento ocorreu na beira de um poço. Agora, conforme o evangelho, é Jesus que, na beira de um poço, encontra a samaritana. É no poço de nossos desejos e nossas sedes que Jesus nos encontra. Mas, será que temos claro qual é nossa sede mais profunda e onde está o poço do qual tiramos a água para renovar nossa vida?
Esse encontro de Jesus com a mulher samaritana nos fala de várias sedes. A samaritana vem buscar água no poço. Jesus fala de uma água que quem bebe nunca mais precisará voltar ao poço. Isso faz a mulher perguntar sobre o Messias e sobre as questões sociais e religiosas que existiam entre judeus e samaritanos. Jesus responde: Sou eu que estou falando com você.
No Candomblé de tradição Ketu, uma das grandes festas anuais é a das Águas de Oxalá. À noite, todos os membros da casa purificam-se com um bori e preparam-se para carregar as águas. Antes do nascer do sol, a comunidade é acordada pela Ialorixá. Todas as pessoas, vestidas de branco, saem em silêncio, em procissão, carregando potes e moringas, tendo à frente a Ialorixá tocando o seu Ajá. É como se fosse um rito de pedido de perdão pelas injustiças sofridas por Oxalá, em sua visita ao reino do seu filho Xangô. Neste ritual, é a água que purifica e que simboliza o perdão. É a água que faz o Orixá Oxalá retomar o seu trono de rei, pai de Xangô.
No Cristianismo é a água que nos faz filhos e filhas de Deus e tem a característica de despertar em nós mais sede. Sede da intimidade divina e sede de justiça e Paz. Para nós e para as Igrejas é sempre um desafio unir a sede mais íntima que temos no coração e a expectativa social e política da libertação. Até hoje, nas Igrejas, ainda vemos certa divisão. Muitas vezes, as pessoas que cultivam a espiritualidade interior não ligam para o social e as pessoas que se dedicam mais ao social nem sempre sabem como ligar a sua sede de justiça e libertação com a sede do coração que só se sacia em Deus.
Nos anos 1980, Gustavo Gutierrez escreveu o livro “Beber do próprio poço”. Baseado em um verso do livro dos Provérbios, propõe viver a espiritualidade a partir da realidade de nossas vidas, tanto no plano afetivo, como no social e político. Precisamos descolonizar a fé e a espiritualidade, como queremos descolonizar a nossa cultura e a própria vida.
Cada página do evangelho sempre possibilita várias leituras que não se excluem. A conversa de Jesus com a samaritana é muito subversiva porque ali, claramente, Jesus revela a superação da religião do templo. Ele diz à mulher que chegou a hora, na qual não se deve mais adorar a Deus nos templos, de forma cultual e formal. Deus é espírito e verdade e seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade. Em sua tradução desse evangelho, Jean-Yves Leloup mostra que, na cultura de Jesus, o espírito é sopro. É respiração vital. A verdade é o amor solidário. Então, a verdadeira adoração de Deus é retomar o mais profundo sopro de vida. É o que hoje os povos indígenas chamam o bem-viver. A verdade não é apenas conceito intelectual e sim práxis da justiça social libertadora. Quem restringe a espiritualidade ao templo e ao cultual não descobriu ainda esse apelo de Jesus no evangelho.
Neste ano, esse 3º Domingo da Quaresma cai exatamente na data em que a humanidade comemora o Dia Mundial da Mulher. No Brasil inteiro, somos chamados e chamadas a nos mobilizar contra a violência contra a mulher e, especificamente, o feminicídio, ou seja, o crime contra a vida da mulher que tem se tornado como uma epidemia que fere e dilacera a todos nós, homens e mulheres. Que a nossa conversão quaresmal nos comprometa na defesa intransigente e radical da vida e da segurança das mulheres. Neste ano, a Campanha da Fraternidade chama-nos à solidariedade com as pessoas que não têm garantido o direito humano à habitação digna. Nesses dias, o Brasil tem testemunhado a calamidade provocada pelas inundações e temporais na zona da Mata de Minas Gerais e em outras regiões. Mais uma vez, quem mais sofre com essas tragédias são as mulheres e as crianças desabrigadas.
Pior ainda do que o desastre natural é o pouco caso praticado por alguns governos estaduais e pela naturalidade que a repetição frequente de tragédias como essa provoca na sociedade. É importante a mobilização de solidariedade às vítimas e, ao mesmo tempo, o nosso clamor coletivo para que essa realidade receba dos poderes públicos a prioridade que merece e o direito à moradia digna e segura seja sinal de um país mais justo com o seu povo.
Baião da nova mulher
Zé Vicente
Viva, viva, a mulher desta nação
Que vai gerando no ventre
A nova semente da libertação!
E vem trazendo no sangue
A semente nova da revolução!
Não é alusão ao trabalho de um governo, que deve construir as pontes na sua administração, mas às atitudes da pessoa humana, principalmente ao colocar em prática a vida comunitária, pois aproxima as pessoas e cria relacionamento fraterno. Assim fez Jesus em conversa e interação no encontro com a mulher samaritana diante do Poço de Jacó, apresentando-se como “água viva” (cf. Jo 4,13-15).
A ponte, no contexto do Evangelho, é a água, a motivação para Jesus dialogar com aquela senhora que buscava água naquele poço. Sabe-se que havia uma total aridez na relação entre um judeu e um samaritano, um homem e uma mulher. Era como se faltasse uma ponte, que deveria ser construída por alguém, usando o material que fosse possível. Jesus a constrói e aproxima as pessoas entre si.
Durante a travessia do deserto, o povo de Deus passou necessidade de água para beber. Moisés, com uma vara, por iniciativa divina, fez jorrar abundante água da pedra e saciou a sede de todo o povo (cf. Ex 17,3-6), que estava perdendo a confiança em Deus. Então, Moisés e sua vara mágica transformaram-se em ponte para a recuperação da relação das pessoas com o Senhor.
A Quaresma pode ser construtora de pontes, de recuperação da fraternidade entre as pessoas e delas com Deus. A centralidade de tudo isto está na Pessoa de Jesus Cristo, porque Ele é a verdadeira ponte construída entre o divino e o humano, dando possibilidade ao ser humano de alcançar o inalcançável, o Senhor da eternidade. E o caminho se faz na esperança de um futuro de felicidade.
As pontes construídas, no caminhar da história, dão muitas possibilidades para a prática de diversas experiências comunitárias. Elas eliminam as diferenças, as barreiras e superam o individualismo. Isto era evidente entre judeus e samaritanos, como uma verdadeira cultura no tempo de Jesus. Como ponte, Ele foi ao encontro de uma mulher samaritana e dialogou com ela diante de um poço de água.
Aproximar as pessoas, com preconceito, é uma tarefa de humanidade, porque supera as divisões e facilita muito as relações fraternas. As palavras da samaritana, preconceituosa, para Jesus, “Senhor, dai-me dessa água”, revela sede de sentido, uma questão existencial que deveria ser superada na vida dela. Situação que só é capaz de mudança quem se abre para a ajuda de Deus.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
Bispo de Araçuaí (MG)
Neste tempo da Quaresma em que a Igreja no Brasil reflete sobre o grave desafio da moradia, assistimos atônitos, tantas moradias sendo arrastadas pelas águas ou simplesmente se desmoronando em morros e encostas, especialmente na Zona da Mata Mineira. Lamentamos profundamente as várias perdas humanas, os incontáveis danos materiais causados e as sérias consequências ecológicas sofridas. A fúria das águas tragava tudo que vinha pela frente.
É triste pensar no choro das mães que perderam seus filhos, na desolação de filhos que perderam seus pais, na dor de pessoas que perderam suas famílias inteiras. Prestamos nossa profunda solidariedade a esses nossos irmãos e irmãs que buscam consolo na esperança que não decepciona! Também nos consternamos com vítimas que viram seus bens sendo levados pela correnteza dos rios que voltavam a seus cursos de outrora, invadindo ruas e avenidas… As enchentes desfaziam economias de uma vida inteira e sonhos que foram se edificando ao longo de décadas…
Os avisos de fortes temporais foram, certamente, emitidos pelos órgãos responsáveis, orientando as pessoas a deixarem suas moradias. O testemunho de Osvaldo Moraes sobre o desastre na Zona da Mata Mineira ilustra, com eloquência, essa triste realidade: “o que adianta uma pessoa que mora em área de risco receber um aviso de chuva intensa se ela não tem para onde ir ou não sabe o que fazer?”. Falta de alternativa e de sérias políticas públicas geram catástrofes anunciadas.
O Texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano, no número 38, nos chama atenção para um fenômeno que incha nossas cidades, até mesmo no interior, em cidades pequenas: o êxodo rural. “As pessoas que vieram do campo jamais foram incluídas na vida urbana em sentido pleno. Foi um modelo de urbanização excludente, sem disponibilizar terra, moradia e infraestrutura urbana para quem chegou, além do baixo salário. 0 seu lugar foi sendo construído por quem chegava. Os mais pobres, que sempre foram a maioria — 70% das cidades são constituídas de pobres —, autoproduziram suas casas nas cidades a partir de relações de solidariedade, sem ter nenhum recurso para isso”.
O nosso pensamento vai primeiro para a falta de controle urbanístico, definição de plano diretor das cidades e políticas públicas de habitação. De outro lado, é importante observar a importância de fiscalização por parte dos poderes municipais e do Ministério Público. Quase sempre isso não é politicamente correto, pois não traz vantagens políticas para pessoas que se interessam em permanecer no poder, uma vez que contrariariam interesses, além de ter que destinar sérios investimentos financeiros, como desapropriação de imóveis para a construção de novos bairros e moradias dignas. Seja como for, é necessário investir na organização urbanística, elaborar um plano diretor condizente com a realidade do solo e da topografia local e implementar políticas públicas eficientes.
De outro lado, alarguemos nossa reflexão para além da moradia circunstancial. As intempéries do tempo presente, como aquelas ocorridas no passado recente em Santa Catarina, Porto Alegre, Petrópolis e, agora, na Zona da Mata Mineira, nos fazem pensar na relação moradia e ecologia. O saudoso e querido Papa Francisco sempre nos alertava que “tudo está interligado na Casa Comum”. A natureza manifesta as consequências de tantas intervenções que vêm sendo feitas: poluição, desmatamento, monoculturas, atividades minerárias, canalização de riachos, inchaço das cidades, construções em locais de risco, que antes eram leitos de rios etc.
O índice pluviométrico vem se descompassando consideravelmente. De um lado, vemos a concentração das chuvas em poucos dias, e até horas intensas, numa só região. Em contrapartida, verificamos secas intensas em outras localidades. É preciso saber diagnosticar esses sinais da natureza e constatar que a nossa Casa Comum está doente. E essa doença é causada por tantas interferências que pessoas e empresas têm feito na natureza, iludidas pela ganância do lucro fácil e do acúmulo de bens materiais. Percebe-se claramente que o desrespeito pela ecologia integral afeta os ecossistemas.
Assim sendo, provocamos o diálogo entre a temática abordada pela Campanha da Fraternidade deste ano, que é “Fraternidade e Moradia”, com o tema abordado por essa mesma campanha no ano passado “Fraternidade e Ecologia integral”. Os desafios enfrentados hoje em relação à moradia, provocados pela força da natureza, podem ter suas raízes nas agressões que temos infringido à Casa Comum.
O Texto-base da Campanha de 2025 nos alertava e apontava caminhos com acenos de esperança. E o texto continua atual, chamando-nos à ação. Proponho revisitá-lo com olhar de esperança: “É preciso alimentar um olhar otimista e realista (cf. LD, n. 16-18), convictos de que ainda podemos evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Embora o tempo esteja se esgotando, temos um potencial de resistência que nos permite propor e buscar, através de um comprometido processo de conversão, medidas sustentáveis para manter um mínimo de equilíbrio na nossa Casa Comum. Mesmo com a deterioração da nossa relação com a sociedade e a natureza, a Esperança nos move a unir os esforços das ciências ao profetismo da fé, acreditando que, fazendo a experiência dos limites do planeta, poderemos superar o impasse existencial e ambiental em que vivemos” (Texto-base CF/2025, nº 136).
Por fim, o Texto-base deste ano confirma essa realidade: “A crise ecológica ajudou a perceber que não se pode separar o ambiental e o social, que não há um problema ambiental e outro social, mas um único problema socioambiental. 0 problema da moradia é um problema de ecologia: tanto no que se refere a saneamento, resíduos sólidos, mobilidade, habitações precárias e em áreas de risco etc., quanto no sentido mais amplo e fundamental da natureza como nossa casa comum. É preciso desenvolver políticas de moradia digna e de proteção ambiental” (TB/2026, nº 149).
Certa ocasião ouvi do Plínio Arruda Sampaio uma história que muito me marcou. Posteriormente me foram apresentadas outras versões interessantes da mesma. Neste artigo vou reproduzir aquela que ouvi originalmente.
Conta-se que uma congregação religiosa europeia resolveu abrir uma comunidade religiosa em um país da África. Tudo pronto. Início da empreitada. Por meio de intérpretes, o superior conseguiu autorização do líder tribal local para a instalação da referida comunidade religiosa no interior de sua tribo.
Nas negociações realizadas, o superior religioso conseguiu também autorização do líder tribal para levar um de seus filhos para estudar na Europa. Tudo pronto, acordos selados e uma nova realidade totalmente desconhecida para ambas as partes.
Ao chegar na Europa, o jovem africano contraiu um vírus que o debilitou completamente. Fracassadas todas as tentativas para contê-lo, o religioso temeu pela morte do jovem bem como as consequências desta possível morte para a vida dos missionários que lá ficaram.
O superior religioso decidiu voltar à África e buscar o líder tribal para ver pessoalmente o seu filho e os cuidados que lhe eram dispensados para sanar qualquer dúvida.
Novamente, por meio de interprete, o líder tribal foi convencido de sair de sua tribo e ir ao encontro de seu filho. Esta seria uma viagem muito estranha para quem conhecia somente sua aldeia.
Começaram a viagem de carro por estradas inadequadas até ao aeroporto mais próximo. Depois de algum tempo de viagem, o líder tribal pediu para que parassem o carro diante de uma árvore. Ele desceu e foi ao encontro daquela árvore à qual se agarrou, apoiando todo seu corpo. Após um certo tempo de espera e de desespero dos membros daquela expedição, chegaram até o líder tribal para solicitar-lhe a continuidade da viagem. Ao que ele respondeu: andamos muito rápido e eu perdi a minha alma. Estou aqui aguardando até que ela volte. Só prosseguirei a viagem quando a minha alma chegar ao meu corpo.
Talvez seja isto que esteja acontecendo com a humanidade. Corremos muito e perdemos nossa alma! A globalização da indiferença pode ter sido a que produziu esta pandemia do corona vírus. Temos que nos desacelerar. A Santa Madre Tereza de Calcutá denunciava o pecado da indiferença como o responsável por mais mortes no mundo do que as guerras. É a indiferença que permitiu a construção do sistema de mundialização e acumulação capitalista que gerou esta pandemia.
Está na hora de aplicarmos o princípio apontado pelo Pe. Antony de Mello: nunca compreenderão os outros aqueles que não tenham escutado a si mesmos; nem a verdade dos outros poderá ver quem não tenha explorado a si mesmo.
Temos que fazer como as águias que possuem a maior longevidade da espécie, chegando a viver setenta anos. Mas, para chegar a essa idade, aos quarenta anos elas têm que tomar uma séria e difícil decisão. Neste período, suas unhas estão compridas e flexíveis, por isso não conseguem mais agarrar as presas das quais se alimentam. Os bicos alongados e pontiagudos estão curvos, apontando contra o peito. As asas estão envelhecidas e pesadas por causa da espessura das penas, e voar é quase impossível.
Nesse momento, a águia só tem duas alternativas: morrer ou enfrentar um doloroso processo de renovação que terá duração de cento e cinquenta dias. Esse processo consiste em voar para o alto de uma montanha e se recolher em um ninho próximo a um paredão onde ela não necessite voar. Ao encontrar esse lugar, a águia começa a bater com o bico em uma parede até arrancá-lo com grande dor.
Então ela espera nascer um novo bico, com o qual arrancará suas unhas velhas. Quando as novas unhas começam a nascer, ela passa a arrancar as velhas penas. E só após cinco meses sai para o famoso voo de renovação e mais trinta anos de vida.
Quando não se pode modificar o destino, é preciso assumir uma atitude positiva diante dele. É o que se chama de valor de atitude. Como dizia Victor Frankl: o que realmente importa é a atitude que o homem adota ante um destino irremissível.
Mahatma Gandhi afirma: Eu tenho a dolorosa consciência de minha imperfeição e é neste reconhecimento que reside a força que possuo, pois é raro uma pessoa que conheça os seus limites.
Emanuel Mounier afirma que o ser humano é um fato nu, cego. Está aí, sem razão alguma. Somos viajantes num navio conduzido por ventos misteriosos. Este sentimento é tão terrível que dá ao ser humano a sensação de estar sobrando.
É nesta hora que todos temos que tomar o timão de nosso navio e nos tornarmos timoneiros, observando as recomendações de Paulinho da Viola: Não sou eu que me navega, quem me navega é o mar. É ele que me carrega como nem fosse levar.
Que ninguém solte a mão de ninguém e nos agarremos na mão de Deus!
“Mas quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede”.
Neste domingo, assistimos a três deslocamentos significativos:
- no foco da liturgia, que se volta para a catequese batismal e passa do evangelho de Mateus para o de João;
- no cenário geográfico, com Jesus e os discípulos deixando a pregação e batizados às margens do rio Jordão na Judeia e indo para a Galileia, “tendo que passar pela Samaria”:
- e, finalmente, a passagem da pregação às multidões, para o inusitado encontro e a longa conversa pessoal de Jesus com uma mulher samaritana, à beira do poço de Jacó na aldeia de Sicar, a antiga Siquém.
Na antiga liturgia, o tempo quaresmal era todo ele concentrado nos últimos passos da catequese batismal para os catecúmenos que iriam receber os sacramentos da iniciação cristã, batismo, crisma e eucaristia, na Vigília da Páscoa. A vigília é ela mesma uma liturgia batismal, com a bênção da água, a recepção da Profissão de Fé, o Credo, o batismo, a imposição da veste batismal, a unção do Crisma e a festa eucarística com toda a comunidade, na celebração da Páscoa da Ressurreição.
Neste e nos dois próximos domingos, é o evangelista João quem nos guia:
- com o símbolo da ÁGUA, no seu diálogo com a samaritana e sua afirmação, “Eu sou a água viva” (Jo 4, 5-42), neste III domingo;
- com o símbolo da LUZ, na cura do cego de nascença: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 9, 1-41), no IV domingo;
- com o símbolo da VIDA, com sua vitória sobre a morte, na ressurreição de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11, 1-45), no quinto domingo.
No diálogo de Jesus com a samaritana, pode-se ressaltar primeiramente, os “estranhamentos” da mulher e depois dos discípulos:
“Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” (Jo 4, 9). E João comenta e esclarece: “De fato, os judeus não se dão com os samaritanos” (4, 9b).
Os discípulos haviam ido providenciar comida na cidade. Chegaram ao final da conversa e diz o evangelho:
“Nesse momento chegaram os discípulos e ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher. Mas ninguém perguntou: ‘Que desejas?’ ou ‘Por que falas com ela?’ “(4, 27).
Há um crescendo na busca tateante da samaritana para decifrar quem é aquele judeu que lhe pede água para beber e lhe faz uma promessa desconcertante:
“Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva’” (4, 10). A mulher disse a Jesus: ‘Senhor, nem sequer tens balde e o poço é profundo. De onde vais tirar água viva? Por acaso es maior que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço e dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?’” (4, 11-12).
“Jesus lhe respondeu: ‘Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna’” (4, 13-14).
Depois de Jesus lhe dizer que fala a verdade, ao responder que não tem marido, pois já teve cinco e o que está com ela não é seu marido, ela exclama:
“Vejo que es um profeta” (4, 20).
À sua dúvida se era em Jerusalém na Judeia ou no monte Garizim na Samaria, que se devia adorar a Deus, Jesus responde:
“Acredita-me, mulher, está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, esses são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e aqueles que o adoram, devem adorá-lo em espírito e verdade” (4, 21).
A mulher adianta um passo a mais no seu escrutínio acerca da identidade de Jesus:
“Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas” (4, 25).
Jesus revela então a esta mulher o mistério de sua identidade messiânica:
“Sou eu que estou falando contigo”.
De imediato, a mulher tida por muitos como prostituta na cidade torna-se a anunciadora, a apóstola, da boa notícia de Jesus, o Profeta, o Messias, para os renegados samaritanos, como Maria Madalena o foi para os apóstolos após a ressurreição:
“Então, a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo:
‘Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?” (4, 21-22).
Jesus aceitou o convite dos moradores da cidade e ficou por dois dias com eles, com surpreendentes adesões a ele. À identidade de Profeta e Messias, intuída pela mulher, eles acrescentaram a de Salvador do Mundo:
“Muitos samaritanos daquela cidade, abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhara: ‘Ele me disse tudo o que eu fiz’, mas lhe disseram também:
“Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (4, 42).