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Celebrar a Solenidade da Santíssima Trindade é reconhecer que estamos diante do mais profundo da fé cristã. Não se trata apenas de uma formulação dogmática construída ao longo dos primeiros séculos do cristianismo, mas da experiência fundamental de um Deus que se revela como comunhão de amor.
A tradição cristã sempre soube que a Trindade não é um problema a ser resolvido, mas um mistério a ser contemplado. A própria palavra "mistério", no sentido teológico, não designa aquilo que permanece oculto, mas uma realidade inesgotável que se revela sem jamais ser totalmente apreendida. Por isso, toda linguagem sobre Deus é simultaneamente necessária e insuficiente.
A formulação trinitária nasce da experiência histórica da comunidade cristã primitiva. O Deus de Israel, revelado como Pai, manifesta-se plenamente em Jesus de Nazaré e permanece atuante na história por meio do Espírito Santo. O dogma não cria essa realidade; procura expressar, com os limites da linguagem humana, a experiência de fé vivida pela Igreja.
Essa perspectiva possui profundas implicações para a compreensão da pessoa humana, da Igreja e da sociedade. Se Deus é comunhão, então a relacionalidade não é um aspecto secundário da existência, mas sua dimensão constitutiva. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27), realiza-se na abertura ao outro, na reciprocidade e na capacidade de construir vínculos que gerem vida.
Em um contexto marcado pelo individualismo, pela fragmentação social e pelas múltiplas formas de exclusão, a teologia trinitária permanece profundamente atual. Ela recorda que a alteridade não é ameaça, mas condição da comunhão; que a unidade não exige uniformidade; e que a diversidade pode encontrar sua plenitude na relação amorosa.
A liturgia da Solenidade da Santíssima Trindade não pretende oferecer explicações exaustivas sobre Deus. Ela nos convida, antes, a entrar no movimento do amor divino que cria, salva e santifica. O Pai continua sustentando a criação; o Filho permanece presente na história; e o Espírito Santo renova incessantemente a face da terra.
Talvez Santo Agostinho tenha expressado essa realidade de forma insuperável ao afirmar que, se alguém pensa ter compreendido plenamente Deus, aquilo que compreendeu não é Deus. O mistério trinitário permanece sempre maior. Não porque esteja distante de nós, mais precisamente porque nos envolve, nos habita e nos transcende.
Diante da Trindade, resta-nos a atitude dos místicos, dos teólogos e dos verdadeiros discípulos: contemplar, agradecer e deixar-se transformar pelo Deus que é eterna comunhão de amor.
No Domingo depois da Festa de Pentecostes:
Santíssima Trindade – ano A: Jo 3, 16-18
Neste domingo, a Igreja Católica e algumas das Igrejas históricas celebram a festa da Santíssima Trindade. No século XI, na França, os monges faziam essa festa como devoção e em 1334, o Papa João XXII a instituiu para toda a Igreja latina. Ela foi criada para reafirmar a fé cristã, diante de grupos que negavam a doutrina da Igreja sobre Deus uno e trino.
De fato, a crença em Deus como Trindade remonta aos primeiros concílios na Igreja já ligada ao Império Romano e responde a questões que, nos séculos IV e V, dividiam as Igrejas locais e o Império. O modo como os antigos pais da Igreja explicaram a fé alimenta até hoje a espiritualidade cristã. Comumente, as comunidades católicas iniciam as orações em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Atualmente, ao falar de Deus, precisamos sempre ter o cuidado de não parecer que queremos explicar Deus, pois Deus como mistério de infinito amor não é captável em nenhum discurso. Nenhum termo ou expressão consegue descrever Deus. Podemos apenas tatear pois Deus como mistério de infinito amor não é captável em nenhum discurso. Podemos apenas tatear.
No mesmo século no qual a Igreja medieval criou essa festa em honra da Santíssima Trindade, o Mestre Eckart, espiritual alemão, afirmava: “Tudo o que você pensa e diz sobre Deus, revela mais sobre você do que sobre Deus. Qualquer tentativa de definir Deus é blasfêmia. Nem todos os mestres de Paris conseguem dizer quem é Deus. Se eu tivesse um Deus que pudesse ser compreendido por mim, nunca o reconheceria como Deus. Por isso, cale-se e não especule sobre ele. Não lhe ponha roupas de atributos e propriedades. Aceite-o sem ser propriedade sua. Respeite-o como ser superior a tudo e, ao mesmo tempo, como um Não Ser superior a tudo”.
Essa palavra adverte-nos contra qualquer tendência de querer definir ou explicar Deus. No Brasil, as pessoas mais velhas ainda recordam com saudade do 6º Encontro intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) em Trindade (GO) em julho de 1986. Ali, as comunidades diziam: "A Santíssima Trindade é a melhor comunidade".
Ao insistir que Deus é Comunhão, as Cebs propõem que, nas Igrejas, nas relações entre ministros, ministras e na relação deles e delas com o povo, pratique-se o mesmo modo de relações que a Igreja ensina existir entre as pessoas da Santíssima Trindade: perfeita igualdade e distinção de funções.
Neste ano A, o texto do evangelho proclamado nas Igrejas é João 3, 16- 18. “Deus amou tanto o mundo que lhe entregou o seu Filho único”. Essa palavra, que, no final do primeiro século da era cristã, o quarto evangelho coloca na boca de Jesus completa o diálogo entre Jesus e Nicodemos, o mestre da lei. Era um diálogo sobre Deus e sobre a necessidade de nascer de novo para se viver em Deus. No tempo dos evangelhos, afirmar que Deus entregou o seu Filho ao mundo era usar uma linguagem sacrificial, comum à cultura da época.
Hoje, cremos e devemos testemunhar que Deus é Amor e nos salva gratuitamente. Então, não podemos continuar dizendo que Deus é um pai que entregou o seu próprio filho à morte para, através do sacrifício de Jesus, reconciliar-se com a humanidade. Precisamos encontrar uma linguagem não sacrificial para expressar o amor do Abba, Paizinho de Jesus, que se comunica a nós através de Jesus e do amor com o qual o seu Filho enfrentou a violência do mundo e para vencê-la, entregou-se a si mesmo. É como se ele decidisse: “Se alguém tem de morrer, que seja eu”. Ao contar como Jesus foi preso no jardim de Getsêmani, o evangelho de João afirma que, aos soldados que procuravam Jesus de Nazaré, ele responde: “Sou eu” e acrescenta: “Se é a mim que vocês buscam, deixem que esses possam ir-se livremente” (Jo 18, 8).
Ao fazer isso, Jesus revela que Deus está do lado dos que são condenados pelo mundo, estruturado de forma opressora e exploradora. Ele transforma a visão de Deus, que quase todas as religiões tinham e muitos grupos atuais ainda têm. Tudo o que falamos de Deus é sempre parábola. No entanto, Jesus revelou-nos que existem parábolas respeitadoras e fieis ao que Deus revela de si mesmo e outras que se mostram consideradas inadequadas e impróprias. Essa distinção, a Bíblia faz quando fala dos ídolos. O ídolo é a imagem errada ou inadequada de Deus, muitas vezes, tentativa de sequestrar e domesticar Deus.
No mundo atual, capitalistas colocam em sedes de banco e até em cédulas de dólar a palavra: Nós confiamos em Deus. Qual Deus? Nas ruas, encontramos carros, nos quais donos, muito religiosos, colocam no vidro do carro a frase: “Esse foi Jesus que me deu”. Não dá aos irmãos e irmãs sem-teto nem um carro de mão, mas dá um carro de luxo a um rico do qual ele gosta. Esse não é o Jesus dos evangelhos, que nos ensinou que um Deus que legitima a ambição e abençoa o egoísmo não pode ser o Deus que ama os pequeninos e se revela aos povos crucificados de hoje como paizinho que os ama com amor de mãe e lhes dá força para resistir e lutar contra a opressão.
Cremos que, através de Jesus, seu Filho amado, o Pai nos dá o seu Espírito, presente e atuante em todo o universo, em todos os povos oprimidos
e nas mais diversas tradições culturais e religiosas. É preciso que sejamos profetas e profetizas dessa humanização de Deus. Não permitamos que imperadores do mundo, ou políticos oportunistas usem o nome de Deus, para legitimar políticas públicas de desamor e a violência contra os povos e a nartureza.
A celebração da Trindade convida-nos, não a definir Deus, não a repetir dogmas, e sim a nos sentir chamados a viver em Deus, como Deus é: comunhão. De fato, neste domingo, em algumas dioceses, celebra-se “o dia das Comunidades Eclesiais de Base”. Vivemos a comunhão com o mistério divino (da Trindade) à medida que tornamos a Igreja uma rede de comunidades locais, reunidas de forma igualitária, no nome de Jesus, como ensaio do projeto do Pai e profecia do Espirito Santo.
Em Salvador da Bahia, um trabalho de amor e solidariedade com as pessoas empobrecidas que vivem literalmente nas ruas reúne muitas dessas pessoas sofridas e alguns irmãos e irmãs solidárias, em uma Igreja antiga do velho centro da cidade. Antes, essa Igreja, dedicada à Santíssima Trindade, estava abandonada. Atualmente serve de abrigo para a “Comunidade da Terna Trindade”, animada por irmãos e irmãs consagrados, que fazem comunidade de vida com sofredores/as de rua e voluntários que moram com eles para testemunhar que Deus é Amor e revela-se em todo amor humano.
O Espírito Santo anima-nos a reconhecê-lo em todo projeto de defesa da Vida e a viver a comunhão divina em todo ato e caminho de amor. “Deus é Amor. Quem vive o amor vive em Deus e Deus vive nele ou nela” (1 Jo 4, 16). Por isso, intuímos que a Trindade Divina não está no céu. É preciso descobri-la no mundo. Vivamos, de forma trinitária, a prática do amor que liberta a todos irmãos e irmãs em humanidade e a Mãe Terra e toda a natureza.
O Sonho de Deus para a Comunidade Humana
Celebrar a Santíssima Trindade é contemplar o coração de Deus pulsando em forma de comunhão. Pai, Filho e Espírito Santo vivem num eterno movimento de entrega, reconhecimento e amor. Não é pura teoria: é a revelação de que Deus é relação, e que toda verdadeira comunidade nasce desse mistério.
Fraternidade, para a fé cristã, não é mera convivência ou proximidade física. É colocar-se diante do outro como quem contempla um sacramento vivo. Na Trindade, o Pai ama o Filho; o Filho nos oferece o amor que recebe; o Espírito é o próprio laço que une. As três Pessoas divinas só sabem amar, e é por isso que a Trindade é, como dizia Leonardo Boff, a melhor comunidade.
Se quisermos compreender o que isso significa para a sociedade, basta recordar o versículo que resume todo o Evangelho: «Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único» (Jo 3,16). Aqui está a chave: Deus não ama ideias, sistemas ou estruturas. Deus ama o mundo (criação), ama as pessoas (humanidade), ama a vida concreta. E esse amor é tão radical que se faz doação total. A Trindade é o modelo e a fonte desse dinamismo: amor que gera vida, vida que se faz comunhão.
Mas quando olhamos a história humana, percebemos o quanto nos afastamos dessa lógica. Autoritarismos, populismos e projetos de poder (guerras) continuam a ameaçar a dignidade humana em nome da ordem ou da segurança. São sistemas que se erguem contra o sonho trinitário, pois alimentam o medo, a exclusão e a tirania, essa forma de governo que, como dizia Platão, se alimenta das vísceras humanas.
Ainda assim, o ideal trinitário não é utopia ingênua. Ele é possível, desde que nos disponhamos a educar novas gerações para a gratuidade e o cuidado. Gratuidade é agir sem buscar vantagem; cuidado é proteger a vida frágil.
Jesus não compactuou com sistemas que excluíam e oprimiam. A sua Carta Magna são as bem-aventuranças, que inauguram uma sociedade fundada na justiça, na misericórdia e na paz. O Reino que Ele anuncia não é um território a ser conquistado ou implantado, mas uma ação contínua de libertação integral. Ele não ocupa espaços, Ele almeja o coração do homem.
Por isso, celebrar a Trindade é assumir o compromisso de construir, no cotidiano, uma sociedade que reflita esse amor que gera vida. É recusar bandeiras de divisão e tornar-se ponte, não muro. É deixar que o amor trinitário nos converta por dentro, para que possamos converter o mundo por fora.
A Trindade nos revela o sonho de Deus: uma humanidade que viva como Ele vive: em comunhão, em cuidado, em amor que se doa.
Que esta solenidade desperte em nós o desejo de sermos cidadãos do Reino, homens e mulheres que acreditam que a comunhão é possível e que o amor - quando é verdadeiro - sempre transborda em vida nova.
28/05/2026
Ao acabar a leitura da primeira encíclica do Papa Leão XIV notamos, com surpresa, a introdução de um novo estilo de argumentação: não é mais aquele eclesiástico clássico, com muitas referências aos pensadores cristãos dos primeiros séculos. Mas um novo, contemporâneo, que dialoga com os vários saberes e autores, homens e mulheres, para além de sua origem confessional. Parece-nos estar lendo um texto de algum teólogo contemporâneo.
Mas ao abordar diretamente o desafio das IA, positivamente, logo afirma que ela continua sempre ser artificial e jamais substitui a natural (MH,97). No entanto “ela pode representar “uma forma de participação do ato divino da criação” (MH,111). Esse dado implica que ela deve assumir “uma responsabilidade ética e espiritual especial, pois cada eleição do desenho, expressa uma visão de humanidade” (MH,111;117;129). Aliás, este ponto é decisivo, na compreensão do Papa: não basta considerar se a técnica e IA são boas ou más e seus fins bons, mas tirar a limpo “a visão subjacente, se elas tratam o ser humano como material a ser aperfeiçoado ou a superar…ou o seu progresso moral e social” (MH,117). A IA “não é moralmente neutra, pois todo artefato técnico implica decisões e prioridades: o que mede, o que ignora, o que otimiza e a forma como classifica as pessoas e as situações…Deve-se perguntar “como é o desenho, que ideia de pessoa e de sociedade se inscreve nos dados e nos modelos que a guiam” (MH,104). Ela é “intrinsecamente ambígua, pode defender como atacar ou a fronteira entre a proteção e a agressão tende a se esfumar” (MH,183).
É nesse ponto que o Papa Leão faz uma crítica contundente a duas ideologias, o transhumanismo e o poshumanismo. Estes “dão centralidade total à técnica e ao sonho de superar os limites da condição humana” (MH,116). O transhumanismo quer exponencialmente exacerbar as capacidades humanas (pela biomedicina, engenharia corporal, algoritmos) para ser mais eficiente e assim alcançar vantagens lucrativas. O poshumanismo “visa ir além do ser humano e conectá-lo de tal forma à máquina e ao meio ambiente que inauguraria uma nova etapa da evolução” (MH,116). Aqui se menosprezam os limites naturais do ser humano e se promete uma “salvação” puramente técnica” (MH 117). Podemos dizer que hoje, como vários analistas têm apontado, vigora uma idolatria da técnica, uma verdadeira religião. Entre nós o tem denunciado publicamente, nosso neurocientista, mundialmente conhecido Migual Nicolelis.
Seria longo comentar os diversos pontos abordados pela encíclica Magnifica Humanitas. Praticamente seu leque se estende das filosofias da vida, passando pela política (os vários radicalismos) pela economia (financeirização e as criptomoedas), pelo resgate do coração, pela educação, pela importância do imaginário social, pela questão do trabalho e da ecologia, desembocando nas utopias com base na cultura digital, tecnológica e cibernética e finalmente, na civilização amor. Esta “não é uma utopia ingênua, mas um projeto exigente” (MH 186).
Esquematizando, é visível o background intelectual, teológico e espiritual do atual Papa. Ele se funda em Santo Agostinho (354-430), inspirador de sua Ordem Religiosa (agostinianos). Como é sabido, o bispo de Hipona, um dos gênios do pensamento ocidental, articula sua visão da história no jogo dialético entre as duas cidades e os dois amores (129-130): a cidade terrenal e a cidade celeste, o amor a Deus e ao próximo e o amor a si mesmo. Biblicamente significa: construir a Babel, protótipo do ser humano que soberbamente só pensa em si, olvidando Deus, e reconstruir Jerusalém, exemplo do ser humano que faz a história pensando em Deus e a partir dele em si mesmo (MH,130).
Leão XIV atualiza esta dialética com aquilo que está ocorrendo atualmente: um sistema de vigilância e controle sobre as populações, proposto por algumas plataformas digitais, especialmente a mais perversa de todas, a Palantir (controlar todas as pessoas de um país e usar a IA para a guerra) e o sistema do cuidado do ser humano, de sua relação respeitosa para com a natureza e a confraternização universal entre os humanos e estes com o Todo. Toda sua reflexão pressupõe este enfrentamento atual. Toma partido claramente pelo cuidado, pelo amor desinteressado, pelo olhcxcxar das vítimas, dos pobres e oprimidos.
Apresenta-nos um texto contemporâneo, atualíssimo, com a linguagem de nosso tempo e por isso acessível a todos, sem sacrificar a gravidade e a profundidade das questões a serem pensadas, assumidas e encaminhadas de forma a gerarem esperança na possibilidade de um mundo diferente, afetuoso, amigo da natureza e aberto ao Infinito.
Concluindo podemos afirmar que o atual Papa, na esteira de Santo Agostinho e da grande tradição doutrinária da Igreja sobre as questões sociais (resumidas na encíclica MH nn.28-44), repropõe o tema da civilização do amor (termo cunhado pelo Papa Paulo VI). Ele assim a define: “consiste traduzir a caridade em estruturas de justiça, em dar corpo institucional à fraternidade e considerar o outro – seja pessoa ou povo – como um aliado necessário para a construção do bem comum…Só este amor pode gerar uma ordem internacional estável, transformando a convivência de uma simples coexistência armada, numa comunidade de destino”(MH,186).
Leonardo Boff escreve para a revista digital LIBERTA do ICL (https://www.revistaliberta.com.br ); escreveu também O cuidado necessário: na vida, na saúde, na educação, na ecologia, na ética e na espiritualidade, Vozes 2012 ((https://www.leonardoboff.org ).
A PEC sobre o fim da escala 6x1, tem provocado debates bastantes acirrados. Os que detém os meios de produção tem asseverado que esse debate acontece de forma açodada. Como se pode ver o confronto de interesses dos trabalhadores com os empresários está capaz mais nítido. É impossível negar que essa PEC, aflora aquilo que no marxismo se denomina de luta de classes. A relação entre as forças produtivas (trabalhadores) e as relações de produção (aqueles que detêm os meios e os lucros) é cada vez mais injusta e desumana.
Os interesses dos grandes grupos empresariais são contrários aos das classes dos trabalhadores e trabalhadoras. O capitalismo que na sua raiz é um sistema sórdido não funciona apenas por meio da exploração do trabalho assalariado. Essa é a sua face mais visível, pois, é dá essência do sistema transformar o ser humano numa peça de uma máquina a ser consumida na linha de produção.
No capitalismo contemporâneo, há zonas onde a própria condição humana se torna precária: trabalhadores resgatados em condições análogas a escravidão, migrantes submetidos a coerção econômica extrema. Todas essas formas modernas do sistema se firmar estão conectadas. O capitalismo brasileiro na sua face mais perversa, funciona a partir de diferentes graus de exploração tais como, coerção, invisibilidade conforme a classe, raça e gênero. Muitos trabalhadores são consumidos pela coerção econômica, violência social ou pela invisibilidade social sem produzir escândalo público, como acima enfatizamos. Os grandes empresários e industriais e outros de menor porte econômico não querem trabalhadores em seus negócios, mas escravos. A escravidão no mundo do trabalho nunca desapareceu, apenas assumiu novas formas de se perpetuar no conjunto da sociedade brasileira.
O luminoso filósofo camaronês Achille Mbembe,ajuda a compreender essa dinâmica que o poder não opera apenas administrando a vida das pessoas, mas também decidindo quem pode ser exposto a morte social, econômica e física. A necropolítica tão bem elaborada pelo referido pensador não se manifesta apenas na guerra ou nos regimes de exceção. Ele também aparece na gestão do cotidiano. As políticas de morte se encontram também na questão trabalhista, onde se explora um ser humano até consumir toda sua força produtiva. Todo rabalho que leva um ser humano a exploração é uma forma de necripolítica.
O neoliberalismo desorganiza a própria arquitetura social. Tudo que cria espaço de morte, como não dar ao trabalhador o direito do descanso onde ele possa desenvolver outras atividades no universo da cultura é enquadrada como necropolítica. A financeirização do sistema capitalista deslocou o centro da economia da produção, para renda financeira. Nesta perspectiva, o trabalho tornou-se precário, terceirizado e intermitente.
O candidato a presidência da extrema direita, Flavio rachadinha, atacou a PEC do fim da escala 6 x1, porque está alinhado ao discurso das entidades empresariais que para manter seus lucros precisam que o sistema escravocrata continue. Para isso eles percorrerem o Congresso Nacional contra a redução da carga horário. O debate da jornada de trabalho é para mostrar que não é o modelo econômico que vai dizer o que vai do ponto de vista da atividade econômica. Esse debate é político, é sobre a centralidade da redução da jornada de trabalho no contexto econômico.
A grande pergunta é: o que é importante na redução da jornada de trabalho? A resposta não precisa de grandes desenvolvimentos. O importante nessa PEC, é a qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras, o bem-estar, que permitem que homens e mulheres possam desfrutar e se dedicar a outras dimensões da vida. O lazer, o estar com a família tudo isso faz parte do desenvolvimento integral da pessoa humana.
Toda extrema direita, juntamente com lobistas dos grupos econômicos procuram desidratar a proposta de emenda a constituição e assim ampliar os prazos de transição e quem fazer morrer essa proposta. O que no fundo tanto a extrema direita com os grandes grupos empresariais, desejam é transformar a discussão da qualidade de vida de trabalhadores e trabalhadoras em mera planilha de custos. É muito difícil tratar das condições de vida no mundo de hoje sem levar em consideração a questão do trabalho.
O Papa Francisco já alertava que era necessário a construção de uma sociedade e de uma economia que permitam conjugar o bem comum e a realização humana de cada pessoa. A aspiração de uma sociedade livre de injustas e exploração da classe trabalhadora não pode ficar restrita aos imperativos do mercado. A economia deve ter como prioridade colocar a dignidade humana no centro de suas preocupações, para que assim, se construam estruturas sociais que possibilitem a realização humana.
O Presidente da Câmara dos Deputados, que é uma pessoa que se utiliza da política para outros fins, bradou que a aprovação dessa PEC, será a maior entrega da história da câmara para classe trabalhadora. Essa afirmação não passa de uma retórica política, pois, estamos em pleno ano eleitoral, e nenhum político seria tão insano em não aprovar essa emenda, pois, correria o risco de perder votos e eleitores. Só nos resta esperar a tramitação dessa matéria e seu resultado.
Como estamos em pleno ano eleitoral, se faz necessário banir do Congresso Nacional aqueles e aquelas que ocupam um mandato parlamentar e que trabalham contra o povo. A frase de autoria desconhecida ainda é válida:”O políticos e fraldas de crianças precisam ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”.
Pe Waldemir Santana
Arquidiocese da Paraíba
A palavra “mistério” parece ser alguma coisa escondida e está em segredo. Dizemos que Deus, para nós, é um mistério, porque não é visto, a não ser na pessoa do outro, porque ele é sua imagem e semelhança. Talvez pudéssemos falar que existe uma excelência no mistério de Deus-Pai, humanizado na Pessoa de Jesus Cristo e agora presente na história através da ação concreta do Espírito Santo.
A excelência do mistério da Santíssima Trindade acontece no exercício da vida fraterna e na maneira como as comunidades cristãs vivem o Amor. Ela deve ter o reflexo da forma como se relacionam, na Trindade Divina, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Neste contexto, a palavra que tem maior expressividade é a “unidade”, com profundo respeito pela natural diversidade entre as pessoas.
A prática da unidade exige renúncias, superação de atitude individualista e fechamento ao outro. As consequências são saudáveis e de alegria, porque faz bem conviver bem, principalmente quando a vivência do Batismo e a prática da fé são colocadas em compromissos comunitários. O isolamento dificulta a unidade e causa desconforto na vida de quem conta com a participação de todos na convivência.
Creio que podemos dizer de mistério da excelência o fato de Deus entregar a Moisés as Tábuas da Lei, os Dez Mandamentos do Decálogo, atualizando a promessa de Aliança que tinha feito com o nômade Abraão no primitivo tempo histórico do Mistério da Salvação. Mistério que se revela como relação entre o divino e o humano. Deus se fez próximo, mesmo preservando o mistério de sua existência.
Deus realmente é mistério para todos os humanos, por ser perfeito e onipotente, exigindo dos crentes uma verdadeira atitude de fé e de abandono nesse grande mistério. Acontece que o ser humano também não deixa de ser mistério, pois ninguém conhece a si mesmo de modo totalmente perfeito. A vida toda é espaço de conhecimento, de trabalho e de amadurecimento, com auxílio da tecnologia.
Nesse mistério da excelência de Deus está presente, como objetivo, o mistério da salvação, que acontece através da mediação de Jesus Cristo. Agora é encontrar, nos sinais realizados por Jesus, as motivações para uma fé madura, com prática comunitária, no caminho de salvação, nossa incorporação ao amor divino. Assim devemos saber que a Trindade não é para ser entendida, mas vivida.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
“Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho unigênito para que tenha a vida eterna”. -
Com este domingo da Santíssima Trindade, concluímos o longo ciclo iniciado no Advento com o mistério da encarnação e nascimento de Jesus no Natal, com o de sua de morte e ressureição na Páscoa, com o do seu retorno para junto do Pai na Ascenção e o envio do Espírito Santo em Pentecostes.
Com a encarnação de Jesus, o próprio Deus plantou sua morada no meio de nós e se fez humano, nascendo de Maria: ”A Palavra se fez homem e acampou no meio de nós” (Jo 1, 14).
E tudo isto por um gesto de amor gratuito: “Deus amou de tal modo o mundo que entregou seu Filho único, para que quem nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).
Se Deus plantou sua morada no meio de nós, com a encarnação do seu Filho, a nossa frágil humanidade foi plantada no coração da Trindade, com a ida de nosso irmão Jesus para o seu seio, arrastando consigo nossa humanidade. O divino se fez humano em Cristo e o humano se faz divino ao nos incorporarmos a Cristo, como nos diz Paulo:
“Não sabeis que todos nós que fomos batizados, consagrando-nos ao Messias Jesus, submergimos em sua morte? Pelo batismo nos sepultamos com ele na morte, para vivermos uma vida nova, assim como Cristo ressuscitou da morte pela ação gloriosa do Pai” (Rm 6, 3-4).
A mãe ou a avó que começa a ensinar uma criancinha a rezar, pega sua mão, traça com ela o sinal da cruz na fronte e no peito, toca o ombro do lado esquerdo e depois do lado direito, junta suas mãos em sinal de prece, invocando ao mesmo tempo a SS. Trindade:
“Em nome do PAI e do FILHO e do ESPÍRITO SANTO. Amém”!
Concluímos também, normalmente, nossas preces, com um “Glória ao PAI, ao FILHO e ao ESPÍRITO SANTO, como era no princípio, agora e sempre, amém”!
A Trindade, como gosta de recordar Leonardo Boff, é a melhor comunidade.
O individualismo tão exaltado: “eu me basto a mim mesmo”, “não preciso de ninguém” é negação da realidade profunda da Trindade e também do que nos faz verdadeiramente humanos, ou seja, somos também um nó de relações, onde o Outro é o horizonte necessário do meu Eu como pessoa.
Na comunidade, nos aproximamos do mistério trinitário, que é relação e relação amorosa, dom total.
Seremos guiados pelos próximos 25 domingos do Tempo comum, pelo evangelista Mateus para vivermos na prática o que Jesus vivenciou e nos ensinou a respeito do seu Pai e do Reino, do Espírito Santo que nos é dado, na certeza de sua promessa:
“Eis que estarei convosco até o fim do mundo” (Mt 28,18).
José Oscar Beozzo