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II Domingo do Advento:
É João Batista, o precursor, quem comparece no evangelho deste II Domingo do Advento, em que acendemos na Coroa do Advento, a vela de cor vermelha.
João tornara-se um pregador ambulante ali no deserto de Judá, às margens do Rio Jordão. (Mt 3, 1-12)
Estava bem distante de Jerusalém e do Templo, considerado o coração religioso do povo de Israel. Sua figura contrasta com a dos representantes da religião, sacerdotes e doutores da lei, com suas vestimentas refinadas e caras. Veste-se com uma roupa feita de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno da cintura. Alimenta-se de gafanhotos e mel silvestre.
Noutro momento, é Jesus mesmo quem interpela as pessoas a respeito do Batista:
“Vocês saíram ao deserto para ver o que? Um homem ricamente vestido? Mas os que se vestem ricamente estão em palácios de reis. Então saíram para ver o que? Um profeta? Sim e eu lhes digo, muito mais que um profeta. É dele que está escrito:
‘Eis que eu envio o meu mensageiro à frente de você. Ele vai preparar-lhe o caminho à sua frente. Eu lhes garanto: Entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista. Entretanto, o menor no Reino dos Céus, é maior do que ele’” (Mt 11, 7-11).
O Batista é o elo que liga a mensagem dos antigos profetas, com o anúncio do novo tempo inaugurado por Jesus. Ele evoca Isaias na sua pregação:
“Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas” (Is 40, 3).
João traduz Isaias para o seu tempo para nós nos dias de hoje: “
Convertei-vos porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3, 2). Conversão e urgência é o chamado, pois o tempo se esgotou.
O profeta antecipa os traços do Reino sonhado por Deus, que deverá eliminar sobretudo a injustiça e a violência, as lágrimas e a dor:
Deus “não julgará pelas aparências que vê, nem decidirá somente por ouvir dizer, mas trará justiça para os humildes e uma ordem justa para os homens pacíficos; fustigará a terra com a força de sua palavra e destruirá o mau com o sopro dos seus lábios” (Is 11, 3b-4).
Traz ainda o exemplo dos animais reconciliados entre si para evocar o sonho de Deus para os novos tempos, sem violência, nem guerras:
“O lobo e o cordeiro viverão juntos e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o bezerro e o leão comerão juntos e até mesmo uma criança poderá tangê-los” (Is 11, 6).
“Não haverá danos, nem mortes por todo o meu santo monte: a terra estará tão repleta do saber do Senhor, quanto as águas que cobrem o mar” (Is 11, 9).
Anuncia ainda que aquele toco esturricado, a raiz de Jessé, irá florir, como cantamos pelo Advento afora essa passagem de Isaias musicada pelo Pe. Reginaldo Veloso:
Da cepa brotou a rama
Da rama brotou a flor
Da flor nasceu Maria
De Maria, o Salvador
Não será pela ilusão do olhar, do ouvir falar
Que Ele irá julgar os homens, como é praxe acontecer
Mas os pobres desta Terra com justiça julgará
E dos fracos o direito Ele é quem defenderá.
Neste dia, neste dia, o incrível, verdadeiro
Coisa que nunca se viu: Morar lobo com cordeiro
A comer do mesmo pasto, tigre, boi, burro e leão
Por um menino guiados, se confraternizarão
Da cepa brotou a rama
Da rama brotou a flor
Da flor nasceu Maria
De Maria, o Salvador
2o Domingo do Advento – Mt 3, 1-12
Neste 2º Domingo do Advento, o evangelho lido nas comunidades, Mateus 3, 1 – 12 nos traz a figura de João Batista como quem primeiro anuncia e testemunha a vinda do reinado divino, ou como diz o evangelho de Mateus: reinado dos céus. Para Mateus, quem começou o evangelho foi João Batista, profeta de Israel. A pessoa de João Batista revela que a mensagem do reino é comum aos dois testamentos. Não há solução de continuidade. O fio condutor é a profecia, cuja função é tornar as pessoas capazes de ver os sinais do reino e fazer a vontade do Pai. Esta é que a prioridade da vida seja o núcleo central da missão das pessoas que se colocam no seguimento de Jesus. Como diz o Grito dos Excluídos e Excluídas: A vida em primeiro lugar!
Conforme o evangelho de Mateus, Jesus representa a verdadeira realização do Judaísmo: a plenitude da lei e dos profetas. Então, Jesus deve ser seguido como alguém que está sempre à frente. É como um Advento que vem. E precisa sempre ser preparado. No evangelho, a vinda dele é preparada por um profeta inserido na cultura judaica popular e a partir das referências daquela cultura: o deserto e a profecia. Pelo seu modo de vestir e de viver, João Batista lembra a figura de Elias, o profeta que para a tradição judaica é figura de todo profeta e profetiza de Deus. Ao reverenciar hoje a figura do profeta João, é bom lembrarmos quem hoje, podemos reconhecer como alguém que, no mundo atual e na nossa realidade, age como precursor ou a precursora da profecia do reinado divino que Jesus traz na sua pessoa.
Será uma figura política que simboliza para o povo a aproximação da justiça do reino?
Serão figuras religiosas do Catolicismo Popular ou das religiões afro ou das espiritualidades indígenas que cumprem essa função de precursores do projeto de Deus?
Será que estamos abertos/as e atentos/as a reconhecer em ministros de outras religiões e pessoas de outras culturas essa função de precursores e precursoras da visibilidade do reinado divino no meio de nós?
Na antiga tradição bíblica, o povo hebreu foi preparado para a aliança de intimidade com Deus, através de sua organização para caminhar juntos pelo deserto. Nas mais diversas culturas religiosas, encontramos rituais de iniciação e de preparação para ajudar as pessoas e comunidades a viverem plenamente a fé e a espiritualidade. Nas tradições orientais há a prática do retiro. Em algumas tradições budistas, as pessoas vivem períodos longos como monges ou monjas. Nas comunidades afrodescendentes, a iniciação se dá por um tempo de total isolamento e também pela convivência comunitária no templo. Nos caminhos Xamânicos dos povos originários, há uma grande diversidade. Em geral, essa dimensão da solidão e do discipulado na escola de um mestre são elementos fundamentais. É o que a Bíblia chama do deserto (não apenas geográfico, mas espiritual) e o discipulado em relação à profecia recebida de um profeta (ou profetisa).
As palavras de João Batista pedindo conversão e justiça (e não apenas ritos), são atuais. Ele pede arrependimento, conversão. O texto original diz: “Mudem de mente (metanoiete), porque o projeto divino acabou de chegar (em grego: eggiken). E só Mateus diz isso. Já chegou!
Nos anos 80 do primeiro século, quando surgiu esse evangelho, foi preciso coragem para afirmar que o reinado divino já tinha chegado. Naquele tempo, afirmar que o reinado de Deus chegou era negar o poder do império romano. E o evangelho afirma isso no tempo em que o Império Romano era mais poderoso e atuante do que nunca.
Hoje, o que significa afirmar que o projeto divino já chegou?
Como podemos afirmar que esse reinado chegou, se o mundo parece caminhar na direção contrária ao projeto do reino?
Também na Igreja Católica, como em Igrejas evangélicas e pentecostais, muitos ministros e grupos cristãos se fecham em uma forma de religião narcisista e autorreferencial, descomprometida com a profecia do reino como transformação do mundo.
Ao contrário disso, o projeto divino pede antes regressar a uma relação de aliança de fidelidade e compromisso com Deus. r: “Não é quem me diz: Senhor, Senhor que adere ao projeto divino, mas quem, de fato, realiza a vontade do Pai”(7, 21).
Hoje, podemos atualizar isso dizendo: Para viver a fé cristã como profecia é preciso retomar uma espiritualidade sócio-político libertadora. É quando assumimos as causas da libertação que podemos ser profetas como João Batista e como Jesus e, assim viver o Advento como tempo de retomada da expectativa do projeto que Deus tem para o mundo.
Assumir as causas da libertação, nós assumimos junto com todos os movimentos populares e partidos que lutam pela transformação do país e do mundo. No entanto, talvez alguém de vocês me perguntem se não há algum diferencial característico dessa profecia do reinado divino que é a nossa. A pergunta é: Há uma profecia propriamente cristã?
Não parece que Jesus tenha se preocupado com isso. Ele quis, ele mesmo se inserir no caminho da esperança e do movimento profético do Judaísmo. No entanto, sem dúvida, há algo de próprio e de novo neste anúncio de João Batista sobre o batismo (mergulho) nessa vida nova. A vida nova que propomos para o mundo tem de começar por nós mesmos que devemos nela mergulhar (ser batizados).
Profetas antigos apresentaram a aliança de Deus como casamento de Deus com o seu povo. Agora, João diz que o povo rompeu com este casamento e Jesus é o Casamenteiro que vem reatar a união do Pai com a humanidade. No evangelho, João afirma que não precisará desatar as sandálias de Jesus porque, ali, Jesus representa Deus, o Esposo da humanidade. Por isso, quando afirmou que não era digno de desatar as sandálias de Jesus, João Batista alude à cultura patriarcal da sociedade israelita antiga. Para nós, hoje, a espiritualidade é viver mergulhados e mergulhadas em Deus. Vai além da intimidade do casamento.
Temos de redescobrir como viver uma fé profética, que se expressa no compromisso social e político transformador e, ao mesmo tempo, se renova na relação carinhosa e afetuosa da relação de intimidade com Deus.
Poema meditativo de Dom Helder Câmara sobre esse evangelho:
João, mesmo sendo quem és
não é forte demais tua linguagem?
“Raça de víboras”
e a ameaça de o machado já se achar
na raiz de árvores sem fruto,
são expressões que despertam,
sacodem, convertem,
ou revoltam e afastam?...
Que ao menos, João,
só nos metamos a usar tua linguagem
quando vivermos
a metade da dureza de tua vida... (Recife, 4/5.12.1971)
"Maria e José sofreram ao buscar abrigo para Jesus, mas foi um sofrimento passageiro. Nenhuma dor é eterna; porém, para que a esperança se torne realidade, precisamos assumir a espiritualidade da Palavra de Deus”.
Alvim Aran,
filósofo e irmão formado pelo
Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus,
em Diamantina MG.
O termo espiritualidade é rico em significado. Segundo Gustavo Gutiérrez, espiritualidade é viver segundo o Espírito de Deus, isto é, não fugir do mundo, mas entrar nele e assumi-lo à luz da Palavra. A verdadeira espiritualidade não se separa da história, mas a transforma.
Para reforçar essa compreensão, encontramos também o pensamento do padre Ignacio Ellacuría, S.J., assassinado em 1989 em El Salvador, que entendia espiritualidade como encarar a realidade tal como ela é, especialmente a realidade dos pobres e crucificados da história, e lutar por sua ressurreição histórica. Para Ellacuría, espiritualidade não é evasão, mas compromisso concreto com a vida e com a justiça.
Assim, tanto em Gutiérrez quanto em Ellacuría, a espiritualidade é encarnada, histórica, profundamente ligada ao sofrimento do povo e à ação transformadora. Esse horizonte nos introduz no sentido teológico do Advento, palavra que significa chegada. Mas, para nós católicos, trata-se de uma chegada muito particular: celebramos a vinda de Jesus, a Palavra de Deus que faz morada entre nós (cf. Jo 1,14).
Ao assumir a condição humana, a Palavra de Deus abraça toda a nossa realidade material, com suas luzes e sombras, com o que somos capazes de fazer de belo e de terrível. Contudo, ao contrário do que muitos imaginam, Jesus não vem para dominar com força ou julgar com rigidez. Ele vem como servo sofredor (Is 52, 13; 53, 12), não como rei poderoso, mas como mestre que serve, invertendo toda lógica de poder.
O Natal é, portanto, a manifestação de que Deus se coloca do lado dos pobres; por isso, é tempo de esperança, mas de uma esperança ativa, que nos move a trabalhar pelo Reino de Deus agora. O Advento é tempo de preparação: preparar o coração para acolher Aquele que vem e que nos ensina a viver segundo o Reino.
A espiritualidade do Advento é precisamente isso: dispor o coração para a chegada do Deus-Menino, que poderia ter vindo como Senhor dos senhores, mas escolheu vir como pobre, para elevar os humildes e derrubar os poderosos de seus tronos, despedindo os ricos de mãos vazias (cf. Lc 1,52-53). Em outros termos, trata-se de preparar nossa mente e nosso coração para acolher um Deus que se faz pobre e sofredor, para nos ensinar a nos colocar no lugar do outro.
Esse lugar do outro é o lugar da humildade, da compaixão, do serviço. Se Deus, que tudo podia, se esvaziou de si, quem somos nós para querer conquistar o mundo às custas do irmão? Muitas vezes esquecemos essa lógica do Evangelho e passamos por cima do próximo; ignoramos quem não tem o que comer, quem não tem um salário digno para celebrar o Natal, quem dorme nas calçadas, lugares onde Cristo continua tentando nascer.
Maria e José sofreram ao buscar abrigo para Jesus, mas foi um sofrimento passageiro. Nenhuma dor é eterna; porém, para que a esperança se torne realidade, precisamos assumir a espiritualidade da Palavra de Deus. Isso significa colocar-se a serviço e, como ensina Ellacuría, lutar pela ressurreição histórica do povo, isto é, trabalhar para que a vida vença a morte em nossas realidades concretas. Portanto, a espiritualidade do Advento consiste em viver esse tempo como processo de conversão para acolher o Deus que vem, comprometendo-se com os pobres e com a transformação da história.
Liturgicamente, estamos iniciando o Advento, que este tempo nos sirva para reflexão voltada à lógica do Reino de Deus, que possamos refletir nestes quatro domingos de maneira profunda sobre o verdadeiro poder, que não se trata de mandar, mas sim servir, se fazendo pequeno igual a Palavra de Deus se fez, pois como diz Leonardo Boff: Todo menino quer ser homem, todo homem quer ser rei, todo rei quer ser Deus, mas somente Deus quis ser menino.
Referências
GUTIÉRREZ, Gustavo. Beber no próprio poço: itinerário espiritual de um povo. Petrópolis: Vozes, 1984.
AZEVEDO, Wagner Fernandes. El Salvador e o sangue dos mártires [...]. Instituto Humanitas Unisinos, 2021. Disponível em: <https://www.ihu.unisinos.br/614469-ignacio-ellacuria-martires-el-salvador-%20jesuitas-uca>. Acesso em: 23 novembro 2025.
ELLACURÍA, Ignacio. Escritos Teológicos: Tomo I. San Salvador, El Salvador: UCA Editores, 2000. Colección Teología Latinoamericana Volumen 25.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.
Advento significa vinda, chegada, do verbo latino advenire, chegar a. Do ponto de vista litúrgico é o início do ano e a preparação para o Natal. Tempo de avaliação da própria existência, de arrependimento, de conversão e de expectativa, de revisão do caminho de nossa fé em vista da celebração do nascimento de Jesus. Para muitos é também um momento especial, tanto em termos familiares quanto em termos comunitários e eclesiais, para um novo revigoramento espiritual.
Diante da ansiedade e da euforia que precedem os preparativos da festa, convém ao cristão interrogar-se como está seu compromisso de fé e de engajamento na vida familiar, eclesial, pastoral, social e política nas pegadas do peregrino de Nazaré. Interrogações que podem evitar afogar-se ou asfixiar-se na agitação febril que costuma tomar conta do oceano em que navega nossa frágil embarcação existencial. As ondas provocadas pelo mercado mundial impedem, não raro, distinguir o farol e o porto de nossa meta final. São muitas luzes que se acendem, ofuscando, muitas vezes, a singela estrela da manjedoura de Belém.
A preparação para a celebração de cada Natal é uma oportunidade única para o acolhimento do Reino de Deus, onde todos, após a passagem pela terra estrangeira, como romeiros, migrantes e peregrinos deste vale de lágrimas e de sofrimento, são chamados a ser cidadãos da pátria definitiva. Natal é o reconhecimento de que o planeta Terra constitui a casa de todo ser vivo, vegetal, animal e humano, a biodiversidade e a antessala do Reino eterno, cujo alicerce ergue-se a partir das coordenadas da trajetória da humanidade, não acima, nem fora, nem além, mas dentro de nossa história pessoal e coletiva. O grande Natal tem raízes na história, mas não se esgota no aqui e agora da mesma.
A celebração natalina nos convida, ao mesmo tempo, a concentrarmo-nos sobre nós mesmos e sobre o encontro com Deus, para descentrarmo-nos no amor ao próximo. O êxodo de si mesmo em favor dos outros requer raízes profundas na intimidade com o Pai, como demonstra a prática de Jesus. A oração precede e reforça a caridade.
Diga-me como tu rezas que te direi como tu vives; diga-me como tu vives que te direi como tu rezas. Quem é incapaz de centrar-se em Deus e em sua própria alma, será incapaz de descentrar-se em direção ao próximo. Isso porque a palavra viva, criativa, verdadeira e libertadora é filha do silêncio diante do mistério divino, não da profusão dispersiva das palavras humanas.
A mudança pessoal, a qual o advento nos provoca, se complementa com uma conversão social, pois o reencontro consigo mesmo e com Deus nos conduz necessariamente ao compromisso com os pobres, os excluídos, os indefesos, os doentes, os mais necessitados, os últimos, como tem insistido com tanta frequência o Papa Francisco.
Isto quer dizer que a oração, a meditação e a contemplação – quando profundas e verdadeiras – conferem suporte à caridade. E esta representa a expressão mais viva e verdadeira do cristianismo ativo, como mostra o poema da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (1Cor 13,1-13). Sem a prática concreta do amor solidário não passaríamos de sinos ruidosos ou címbalo estridentes, afirma o apóstolo. Ou latas rolando no asfalto: quanto mais vazias, mais barulho fazem!
Não podemos esquecer, além disso, que semelhante conversão social tem implicações políticas. De fato, o cristão não paira angelicamente nas nuvens, acima dos embates e contradições da vida cotidiana. Ao contrário, como pessoa humana dentro de um contexto histórico concreto, seu modo de agir, querendo ou não, terá sempre consequências de ordem política. Tudo o que dilacera o tecido social, dilacera igualmente a Igreja e seus fiéis. O mito da neutralidade há muito está morto e sepultado!
Dessa forma podemos definir o Natal como esperança para os desesperançados, Boa Nova para os que se desiludiram completamente com os projetos humanos e das formulações político-partidárias, Luz para a imensa multidão do “sem” que habita as periferias e porões da sociedade moderna e pós moderna.
Os três reis magos, guiados por uma estrela, provenientes do Oriente, talvez sejam os protagonistas dessa nova esperança, a qual independe de sexo, cor, raça, língua, povo, credo, ideologia ou nação. Da mesma forma que a estrela e os magos, também é do Oriente que nos chegam os primeiros raios da aurora, anunciando o Astro-Rei, o novo sol que nasce Menino na gruta de Belém, mas já traz em si o esplendor do Reino de Deus, onde a compaixão, a misericórdia e o perdão revestem toda lei e o julgamento.
No advento do Messias, prevalece o primado de que “quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,8). Podemos concluir com as palavras de Bruno Forte: “A esperança da vida sem lágrimas e sem ocaso, que plenifica o coração dos homens, é também a esperança de Deus” (In Gesù di Nazaret, storia di Dio, Dio della storia, Ed. Paoline, Napoli, 1981, pag. 280).
A mãe dos pequeninos,
Do menino Deus.
A nossa mãe intercessora,
Nossa Senhora Auxiliadora,
Nossa mãe protetora.
Jesus criança,
Precisou dos cuidados,
De sua mãe.
Com ela aprendeu,
A rezar e amar.
A fidelidade e a obediência.
Para nós, Maria,
É modelo,
De fé e carinho.
De caridade e proximidade.
De simplicidade,
E humildade.
Ó Maria,
Mãe Imaculada.
Intercede por nossas crianças,
Que passam fome e necessidade.
Vítimas da violência e das guerras,
Da falta de paz.
As crianças precisam,
Conhecer a beleza.
Do amor,
Da fé,
Da esperança,
E da alegria.
A Imaculada Conceição,
É exemplo,
De ternura e misericórdia.
Que inspira as crianças,
Para acreditarem,
Para buscarem o bem.
A mãe Imaculada,
Quer ver os pequeninos,
Protegidos e nutridos.
No corpo,
E no espírito,
Com plena vida.
É a mãe que acolhe
Que escuta e medita
Que ensina
Que nos apresenta Jesus
O caminho para a santidade
E diz: “fazei o que Ele vos disser”.
+ Fontinele
No final deste mês de novembro, Leão XIV fez a sua primeira viagem como papa. Foi a Iznic, antiga Nicéia, a 130 km de Istambul. Ali, há 1700 anos, ocorreu o que se considerou o 1º concílio ecumênico da Igreja. Neste concílio, foi composto o Credo, comum a todo o Cristianismo. De fato, a recordação de Nicéia nos faz reviver tempos nos quais as Igrejas eram diversas, em cada local, mas ainda não se tinham dividido.
Ter um Credo comum a todas as Igrejas foi ótimo, mas, ao fazer isso, Nicéia levou à Igreja a definir a fé pela expressão dogmática. Não fez distinção entre a fé e uma expressão da fé. Além disso, privilegiou o dogma e não a prática, ou seja, a adesão ao projeto divino. Em artigo memorável, Eduardo Hoornaert descreve o momento histórico que a Igreja cristã viveu em Nicéia e o que representou aquele concílio para o futuro do Cristianismo.
De um lado, Nicéia deu à Igreja o direito de existir que, antes, lhe era negado. Possibilitou aos bispos dos diversos recantos do mundo greco-romano a se conhecerem e dialogarem. Teologias divergentes como a da escola de Antioquia e a de Alexandria puderam se encontrar e tentar uma síntese sobre o método de interpretação da Bíblia, mais histórico, ou mais alegórico e sobre quem é o Cristo para nós.
Nicéia representou a unidade do Cristianismo greco-romano da época, mas desconheceu as formas de ser cristãs das comunidades sírias, semitas ou africanas, embora já houvesse comunidades cristãs na Etiópia e em outros locais africanos colonizados pelo Império, mas ainda não romanizados, como já era a Tunísia, ou Hipona de Santo Agostinho.
Nada de estranho que os bispos, vindos de todos os recantos do mundo greco-romano se alegrassem com a acolhida e apoio de Constantino. Afinal, o concílio foi feito no palácio de verão do Imperador. Eusébio de Cesareia, um dos 300 bispos presentes no concílio, escreveu que eles tiveram tratamento de senadores, como o Império fazia antes com os sacerdotes da antiga religião imperial. Por isso, a partir de Nicéia, os bispos cristãos assumiram insígnias que antes eram dos sacerdotes romanos do culto imperial. Até hoje, a maioria dos padres acha normal celebrar com casula e há bispos que pensam que a mitra vem do evangelho, ou pode ajudar na sua missão de pastor. (Ver sobre isso: Crossan, J.D., O Jesus histórico: A Vida de um Camponês judeu do Mediterrâneo, Imago, Rio de Janeiro, 1994, p. 462, também citado por Eduardo Hoornaert).
Não há dúvida de que a principal herança de Nicéia não foi a doutrina. O povo simples e mesmo muitos eclesiásticos, precisariam estudar Filosofia grega para compreenderem o que significa dizer que o Filho é consubstancial ao Pai. Mais tarde as Igrejas do Ocidente se dividiriam das do Oriente, sobre se o Espírito Santo procede do Pai, pelo Filho, ou se procede do Pai e do Filho. A mais concreta herança de Nicéia foi organizar a Igreja no modelo das administrações regionais do Império Romano, que se chamavam dioceses e eram governadas por nobres, cujo título eram vigários. Até alguns séculos depois, os bispos eram eleitos e o Código de Graciano, um dos primeiros textos de Direito Canônico, diz claramente: “nenhum bispo imposto” (Cf. José Ignacio Faus. As eleições episcopais na História da Igreja. Paulus, 1996). Na época do Papa Gregório VII (1075), todos os bispos já eram nomeados pelo papa.
Não podemos culpar Nicéia por transformar o Papa em chefe da Igreja Universal e rei, até o século XIX, dos Estados Pontifícios e, hoje, do Vaticano. O modelo de Nicéia e a compreensão de Deus como poder e daí, a quase divinização dos ministérios eclesiais como representação do poder divino no mundo vigora até hoje. Outros pecados vieram depois de Nicéia.
Para nós da América Latina e do sul, fica o desafio de jogar fora a água do banho, sem perder junto a criança. É o que hoje, em todos os campos da cultura, se chama Decolonialidade. Além de descolonizar a expressão doutrinal e o estilo eclesial, através dos quais vivemos a fé, precisamos, em comunhão com a Igreja Universal, propor a nossa forma própria de viver a fé e sermos Igrejas locais, sem precisar sermos italianos, franceses ou alemães para sermos cristãos.
Qualquer pessoa de bom senso percebe que a organização de dioceses e paróquias não responde mais aos desafios dos nossos dias. O modelo territorial, iniciado em Nicéia, é o da Cristandade e continua organizado no modelo colonial. Atualmente, em quase todo o mundo, qualquer pessoa toma um carro e participa da comunidade que responde mais ao seu estilo de fé e não da paróquia ou diocese onde mora.
Já nos anos 1970, Pedro Casaldáliga e a equipe pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia não criaram paróquias e sim zonas pastorais, coordenadas coletivamente por padres, religiosas e leigos. Como pensar que, no modelo hierárquico de Igreja, vindo de Nicéia e não do evangelho, seja possível estabelecer a sinodalidade proposta pelo Papa Francisco? Quando Francisco instituiu a Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), um cardeal brasileiro confidenciou a amigos: “Deveria ter feito uma conferência episcopal e não eclesial”. E este cardeal é dos mais abertos a uma Igreja dos pobres. Daí se vê que o modelo eclesial definido por Nicéia continua vivo e atual.
Tudo isso nos remete ao nosso modo de ver Jesus Cristo e compreender como o seguimos. Nicéia fez dele o Cristo Senhor e divino, ao qual devemos servir com o nosso culto. A decolonialidade da nossa fé não nega que ele é divino, mas como o Cristo Cósmico, do qual Paulo escreveu aos colossenses (Cl, 1, 15), partilha essa condição com todas as pessoas humanas e até com todos os seres do Universo.
O desafio atual para as nossas Igrejas não é crer no dogma definido há 1700 anos na Turquia e sim fazer um novo concilio ou fórum com participantes de todas as Igrejas Cristãs e em diálogo com irmãs e irmãos de outras religiões, principalmente das tradições dos povos originários e comunidades afrodescentes (em todo o mundo). Precisamos testemunhar que ele veio ao mundo, como pobre de Nazaré para nos fazer ver em toda pessoa humana, mas especialmente, nos povos crucificados, o que no Carnaval de 2020, a Escola de Samba da Mangueira chamou de “Jesus da Gente” e não o Cristo Rei. Este inspirou o Papa Pio XI a assinar com Mussolini o Tratado de Latrão (1925) e, assim voltar a ser chefe de Estado, na única monarquia absoluta do Ocidente. É o Jesus da Gente que com a Mangueira podemos continuar cantando:
“Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no buraco quente
Meu nome é Jesus da Gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro, desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil.
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão
Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi pro cordão da liberdade
Quando lemos todo o Antigo Testamento, sentimos que as palavras dos profetas tinham características específicas de apresentar figuras. Elas tomaram formas no Novo Testamento. Assim foi João Batista, uma figura, apresentada como precursor da chegada do Senhor. Ele não era o esperado, mas foi figura do Cristo, daquele que se tornou acontecimento na encarnação e no nascimento.
João Batista era uma pessoa totalmente despojada, despida de todo tipo de vaidade e de egoísmo. Foi realmente uma autêntica figura de Jesus Cristo e fez o câmbio de um longo passado para uma realidade nova e aberta, para realizar a construção do Reio de Deus. Ele anuncia o nascimento de um descendente de Davi, sobre o qual deverá surgir um mundo de justiça e de paz para a humanidade.
A tônica principal, aquilo que caracteriza mesmo o tempo do Advento, vem da pregação de João Batista, quando ele diz: “Preparai o caminho do Senho, endireitai as veredas para ele” (Mc 1,3). É uma mensagem que atinge a todos nós nesta preparação para a chegada das festas natalinas. Mais ainda, é convite ao arrependimento e ao propósito de vida nova e de intimidade com o Senhor.
Jesus vem como mensageiro da paz e para reconstruir o mundo, porque ele está mergulhado na violência e na injustiça. Em Jesus repousa o Espírito Santo, com todos os seus sete dons, como indica o profeta Isaías (11,2): Sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, entendimento, piedade e tenor de Deus. Não existe verdadeiro Natal sem abertura dos corações para o Espírito de Deus.
O período do Advento, tempo em que acontece a Novena de Natal em família, é a ressonância da ação da Igreja para atingir a prática de fé das pessoas, principalmente dos cristãos, para criar neles proximidade da Palavra de Deus e encontro pessoal com Jesus Cristo. A intenção primeira é a passagem de um Natal do comércio, do Papa Noel, para a presença de Jesus Cristo no coração de todos.
A contundência contida no anúncio proferido por João revela o perfil da identidade do Natal do Senhor. É o porvir profético de tempos inéditos, porque será a consolidação messiânica do amor e de encontro das pessoas com Deus. Essa atitude significa apontar caminho da salvação, aquilo que é revelado na presença de uma criança, que nasce numa manjedoura, nos arredores de Belém.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
A palavra Advento significa vinda, chegada. É o anúncio de uma chegada, de um acontecimento. O termo advento foi aplicado, anteriormente, para indicar a chegada do imperador. A Igreja adotou essa palavra para designar, antes de tudo, o nascimento de Jesus e a celebração desse acontecimento. Por isso, se prepara para tal evento e, por fim, para a expectativa de sua segunda vinda. Agora, devemos buscar um outro significado do Advento, que ultrapasse seu sentido originário e sua dimensão meramente cultual. Reduzir o Advento apenas à questão religiosa, esquecendo-se de sua dimensão existencial, é empobrecê-lo.
O tempo do Advento é muito rico para a Igreja Católica. Estamos no início do ano litúrgico; porém, o Advento não pode ser reduzido apenas a um tempo litúrgico. Podemos dizer que ele é um modus vivendi, ou seja, uma atitude vital que deve percorrer toda a nossa caminhada histórica. Não transformar a vida em sua globalidade é não compreender a mensagem de Jesus. A Palavra de Cristo deve nos inspirar a viver em constante peregrinação, na busca do que se encontra no interior de cada pessoa humana. É necessário reacender a chama do espírito do Advento, para que continuemos sonhando com um novo processo histórico de maior igualdade.
A vigilância é um apelo que deve ressoar na vida de cada cristão ao longo dessa peregrinação, especialmente neste tempo de Advento. Se o Advento é tempo de mudança, sabemos que toda mudança existencial ou social exige empenho e dedicação. Apesar das situações de sofrimento de muitos irmãos e irmãs, o Advento vem despertar e ativar todos os dinamismos de humanidade presentes no coração de cada ser humano.
O Advento, como tempo especial para rever nossos procedimentos em vista do nascimento do Filho de Deus, faz eclodir aquela virtude teologal que parece ausente no contexto social e religioso: a esperança. Essa virtude é um grande recurso para todo aquele e toda aquela que caminham pelos entrechoques e encruzilhadas da vida. Em todo ser humano há uma abertura; por isso, estamos sujeitos a mudanças. Assim, a esperança será nossa guia nesse processo.
Quem acredita no quase impossível sabe viver. A esperança resulta de um acordo entre o pensar e o sentir. É a suave esperança de quem acredita num eu melhor e num mundo mais belo que insufla a vida. As boas esperanças são abraçadas pelas tristezas. Há lágrimas que caem celebrando a existência de uma sensibilidade frágil, mas suficientemente forte para seguir em frente, apesar de tudo. É preciso ser capaz de viver na esperança, e não apenas chamá-la para viver dentro de nós. As obras necessárias à construção da esperança devem ser realizadas pelo esforço daquele que vive por ela. Quanto mais profundas são as esperanças, mais suaves e fortes se tornam. Ter esperança é mais fácil do que acreditar nela, porque quem acredita verdadeiramente aposta na vida, sabendo que nada faz sentido sem a entrega completa. Pobre é aquele que nunca esperou por nada, muito mais do que aquele que, na esperança, passou a vida inteira esperando. Cada esperança abre horizontes infinitos e possibilidades imprevistas. O futuro está absolutamente aberto. Ele é construído pelas mãos dos que sabem esperar.
O certo é que estamos sempre em situação de Advento, pois a vida é processo e não pode ficar congelada em determinados arranjos. Vivemos na esperança de uma plenificação total. O Advento tem um sentido profundamente humano. Ao longo da sua existência, o ser humano precisa crescer para chegar à própria plenitude, na esperança de algo que o complete. Todo crescimento exige paciência histórica; por isso, todo dia é dia de Advento.
O desejo do ser humano era ver a Deus, e Ele veio na carne de uma criança para saciar esse desejo. Deus se humanizou; por isso, o ser humano deve descer à sua humanidade. A paixão de Deus pelo ser humano não conhece limites. Ele veio no Natal ao nosso encontro e, o mais bonito de tudo, esqueceu-se de ir embora.
Neste Advento, devemos pensar a vinda do Filho de Deus não como uma doutrina fria, mas como um fato concreto que mudou o rumo da história. Por isso, no Advento, todos bradamos: “Vinde, Senhor Jesus!”
Pe. Waldemir Santana
Arquidiocese da Paraíba