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“’E vós quem dizeis que eu sou?’
Simão Pedro respondeu: ‘Tu es o Messias, o Filho do Deus vivo’”. (Mt 1, 13-20).
A retirada de Jesus para o norte, para os lados de Cesareia de Filipe, perto das faldas do monte Hermon, onde estavam as nascentes do rio Jordão, marca uma virada decisiva no seu ministério.
Ele se afasta da Galileia de Herodes, que acabara de degolar João Batista, para, logo em seguida, tomar o caminho oposto em direção a Jerusalém, na Judeia, onde sua vida será tirada (Mt 16, 21).
“Pelo caminho”, como nos diz Marcos no seu evangelho (Mc 8, 27-30), ou depois de “orar num lugar afastado”, como nos assinala Lucas (Lc 9, 18-21), Jesus interpela os discípulos:
“Quem dizem os homens, que é o Filho do Homem?” (Mt 16, 13-20).
As respostas coincidem: João Batista redivivo, como suspeitava o Rei Herodes; o profeta Elias, que havia multiplicado a farinha e o azeite na casa da viúva estrangeira de Sarepta e curado a lepra de Naaman, o general sírio; talvez Jeremias ou algum dos profetas, como arriscam outros (Mc 8, 28; Lc 9, 19).
Jesus, porém, está interessado em saber a opinião pessoal dos próprios discípulos:
“Mas, vós, quem dizeis que Eu sou?” (Mt 16, 15).
“Simão Pedro respondeu:
‘Tu es o Messias, o Filho do Deus vivo’” (16, 16).
Temos, então, o diálogo registrado apenas pelo evangelho de Mateus, em que Jesus se dirige diretamente a Simão:
“Respondendo, Jesus lhe disse:
‘Feliz es tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está nos céus. Por isso, eu te digo que tu es Pedro (Cefas = rocha) e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus: tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus’” (16, 17-19).
Simão, ganha o nome de Pedro, rocha, e recebe uma missão especial, que será reiterada na noite da despedida:
“E tu, uma vez convertido, fortalece teus irmãos” (Lc 22, 32).
A missão lhe será reconfirmada, depois de ter “chorado amargamente” (Lc. 22, 62), a covarde e vergonhosa negação do seu mestre e amigo, na hora de sua prisão (Mc 14, 53 ss).
Só terá reconfirmada sua especial missão, ao responder positivamente, por três vezes, que amava o mestre que, por três vezes, havia negada e dele ouvir:
“Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros” (Jo 21, 15-19).
A mesma interpelação de Jesus é dirigida a nós, quotidianamente.
Pagola nos diz a este propósito: Percebemos em Jesus “uma entrega aos seres humanos que desmascara nosso egoísmo. Uma paixão pela justiça. que sacode nossas seguranças, privilégios e egoísmos. Uma ternura. que deixa a descoberto nossa mesquinhez. Uma liberdade, que rompe nossas mil escravidões e sujeições”.
Somos convidados “a seguir humildemente os seus passos, abrir-nos com Ele ao Pai, reproduzir os seus gestos de amor e ternura, olhar a vida com os seus olhos, compartilhar seu destino doloroso, esperar sua ressurreição. E, sem dúvida, rezar muitas vezes, do fundo do coração: ‘Creio, Senhor, mas ajuda à minha incredulidade’”.
Rezemos pelo Papa Leão XIV, chamado a prosseguir a missão de Pedro, num mundo desafiado pela Inteligência artificial (IA) e sobre a qual reflete de maneira reconhecida, mas críticamente, com a Magnifica Humanitas.
Agradeçamos também a Deus pelo pastoreio do Papa Francisco que, de maneira profética e corajosa, soube conduzir o rebanho em tempos da crise climática, com a Laudato Si’; da pandemia, de desavenças e guerras entre os povos, com a Fratelli tutti.
XXI Domingo Comum: Mt 16, 13- 20.
Neste domingo, o evangelho faz-nos retomar, hoje, a mesma pergunta que Jesus fez aos discípulos: E vocês, quem dizem que eu sou?
Ela não pede resposta apenas intelectual, a ser dada de acordo com o Credo recitado nas Igrejas. Essa pergunta só pode ser respondida profundamente com o testemunho de nossas vidas. É pelo nosso modo de ser e de viver que as pessoas poderão entender quem é Jesus para nós, ou seja, o papel e a importância que Jesus tem na nossa vida
É normal que a mesma pessoa possa ser vista a partir de ângulos diversos, a depender de quem a vê e da experiência que tem com ela. Durante séculos, habituamo-nos a ver Jesus a partir de imagens europeias. Apresentaram sempre um Jesus branco e identificado com títulos e funções de poder na sociedade ocidental. Foram astutos em trocar a mística do reinado divino no mundo pela espiritualidade do Cristo Rei, cujo poder é exercido através da Igreja e de seus legítimos representantes.
Foi em nome de Jesus que os conquistadores colonizaram nosso continente, escravizaram os seus habitantes originais e estabeleceram uma estrutura, que até hoje mantém as desigualdades e discriminações da colonização. Usaram a cruz e a espada. Não podemos esquecer que as fortalezas de guerra que os colonizadores construíram contra os povos originários chamavam-se e, até hoje, alguns chamam-se: Forte do Bom Jesus, Senhor do Bonfim e outros nomes semelhantes. Até hoje, vemos crucifixos em câmaras municipais e assembleias legislativas, responsáveis por referendar leis injustas e discriminatórias. Vemos eclesiásticos católicos, evangélicos e pentecostais, coniventes com essa estrutura iníqua e sempre em nome de Jesus.
Até hoje, hierarquias eclesiásticas e muitos grupos cristãos apresentam Jesus como o Cristo-rei, Senhor e Deus. Cada vez mais, aumenta número de pessoas que se perguntam sobre se essas imagens de Cristo apresentadas pelas Igrejas têm algo a ver com o Jesus de Nazaré que viveu na Palestina há 21 séculos. De fato, com exceção de duas ou três referências em obras de escritores do final do século I da era cristã, o pouco que sabemos sobre Jesus vem do testemunho dos evangelhos. E esses falam de Jesus, a partir do olhar de comunidades cristãs que, mesmo baseadas em testemunhos mais antigos, escreveram seus relatos mais de 40 ou mais de 50 anos depois da sua condenação à morte e ressurreição. E fazer, não de forma assistencialista, mas com jeito libertador que não gera dependência e contribui para as pessoas e comunidades, em comunhão com os outros marginalizados e marginalizadas, se emancipem.
Estudos contemporâneos comparam relatos e fazem pesquisas arqueológicas sobre as sociedades do Oriente Médio no primeiro século. Em seus escritos, John Crossan mostra Jesus como “camponês judeu do Mediterrâneo”. Reza Aslan descreve o Jesus histórico como zelota, isso é, como militante que lutava para libertar a Palestina e o povo das garras do Império Romano. Ligando história e adesão da fé, José Antonio Pagola publicou vários livros para ajudar-nos a redescobrir a humanidade de Jesus, em seu mundo cultural, suas opções e sua proposta.
Apesar de todos os estudos e pesquisas, Jesus continua desconhecido, não somente para o mundo, mas sobretudo para as próprias Igrejas. Muitos preferem olhar Jesus como mito do que levar a sério sua humanidade e segui-lo como mestre de vida.
O saudoso amigo José Maria Castillo, teólogo espanhol, formado na tradição jesuíta, publicou o livro: O Evangelho marginalizado (Ed. Vozes). Ali, o autor mostrava que o evangelho foi e é marginalizado, em primeiro lugar, pelas próprias Igrejas cristãs.
Quando, a partir do século IV, o Cristianismo foi absorvido pelo Império Romano, os cristãos começaram a falar de Jesus como “Cristo Pantocrator”, isso é como imperador no trono. Este “Senhor de tudo” tinha como vigários na terra os reis e imperadores. Pouco a pouco, ensinaram que esse vigário de Cristo seria o bispo de Roma, o papa.
No século XIII, São Francisco de Assis insistiu na contemplação do Cristo pobre e nu, na Cruz. Inventou como espiritualidade a adoração do presépio de Natal e a devoção ao Caminho da Cruz (a chamada Via Sacra).
Há mais de 50 anos, muitas comunidades latino-americanas, pentecostais, católicas e evangélicas, veem Jesus como o Cristo Libertador e recebem dele força e inspiração para a resistência em um mundo desigual e para testemunhar o projeto divino como justiça, paz, libertação para todos e comunhão com a Terra e toda a natureza.
Para as pessoas comprometidas com a transformação do mundo, o que mais atrai na pessoa de Jesus libertador é que Ele assume essa função a partir da inserção no mundo como pobre. Assim, testemunha o amor de Deus pelas pessoas vulneráveis. Identifica-se com elas, nos diversos tipos de cruz em que até hoje a sociedade dominante crucifica povos inteiros, sacrificados aos interesses dos impérios atuais.
Nenhuma imagem esgota a realidade de Jesus. Temos sempre de perseverar n busca e aprofundar cada vez mais o mistério da sua pessoa e da sua vida.
O desafio para as Igrejas e religiões estabelecidas é que Jesus sempre quis identificar-se com as vítimas da exploração social, política e econômica. Além disso, o que mais escandalizava os religiosos é que Jesus convivia e “comia com as prostitutas e com as pessoas consideradas de má vida”.
Ainda hoje, mesmo eclesiásticos abertos ao social têm dificuldade de alargar essa abertura às relações de gênero, à luta contra o colonialismo, não só econômico e social, mas também cultural e religioso.
Religiosos estranharam que, há alguns anos, na festa de Natal, um grupo de humor apresentasse a figura de um Jesus gay. Ficaram escandalizados com o fato de que, no Rio de Janeiro, no desfile de Carnaval de 2020, a Mangueira tomasse como enredo o Jesus da Gente. Isso é triste, quando sabemos que Jesus sempre colocou-se contra o poder religioso, quando esse pretendia aprisionar Deus em sua gaiola sagrada.
Estudos mais atentos à História lembram que até a abertura do Canal de Suez, em 1864, a região da atual Palestina era considerada como pertencente à África. Portanto, Jesus nasceu, viveu e morreu como africano.
Jesus revela-se nas vítimas e excluídos do mundo. O testemunho que ele pede de nós é claro: “Tudo o que fizerem a um desses pequeninos, é a mim que fazem” (Mt 25, 31ss).
A vida é fruto de uma escolha. Ela precisa ser consciente e responsável, porque traz consequência social. É o caso do voto, por exemplo, na indicação de um candidato, nas próximas eleições. Isto é um ato que expressa liberdade e ação divina. Não significa que o escolhido tenha todas as qualidades para a função, mas temos que acreditar que “Deus capacita os que são escolhidos”, com liberdade.
As formas de um poder legítimo não surgem só da iniciativa humana, mas da justiça de Deus, que dá e tira a autoridade, como aconteceu com Sobna e Eliacim (cf. Is 22,15-23). No contexto eleitoral, o povo escolhe as autoridades políticas, e faz isto em nome de Deus, mas também tem a força para destitui-las do poder, caso governem com irresponsabilidade e sem atenção ao bem comum.
Os caminhos sábios de Deus vão além da compreensão do que é empreendido pelos homens, sinal de que nunca podem dizer que sejam donos da verdade. O ser humano, por muito pouca coisa, se deixa levar pelas inverdades e se torna vulnerável ao assumir papel de responsabilidade. A segurança e a confiança veem de Deus e de seguimento do que nos é transmitido pela Palavra do Evangelho.
O perfil da fé em Deus, como uma consequência natural da revelação divina, é fundamental para quem quer servir, de forma justa e honesta, uma comunidade humana. Na verdade, Deus age na história dos povos e atua como protagonista do bem e de forma gratuita. Ele desaprova o mal na administração pública, quando o poder está concentrado na auto promoção e não no bem comum.
As pessoas precisam ter estabilidade na comunidade onde vivem. Dependem da organização e da ordem pública, administradas pelos políticos, eleitos pelo sufrágio de todos. É tarefa deles combater todos os atos de desordem na vida comunitária e não deixarem que práticas e organizações criminosas tirem a paz das pessoas de bem. Portanto, não é qualquer pessoa a assumir função tão relevante.
Jesus testou Simão Pedro antes que lhe fosse entregue a missão de presidência dos apóstolos e de se tornar uma das colunas da Igreja. Este deve ser também o caminho a ser feito pelo povo brasileiro ao escolher os dirigentes para a próxima gestão legislativa e executiva de nosso país. Não é missão fácil, porque ninguém tem estrela na testa, mas tem história de vida a ser observada.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
“Ser catequista é deixar-se encantar por Jesus Cristo, acolher seu projeto com amor e ajudar outras pessoas a fazerem a experiência do encontro com Ele. Mais do que transmitir ensinamentos, é testemunhar a fé, caminhar junto e favorecer uma relação pessoal e comunitária com Jesus Cristo.”
A catequese nasce de um encontro. Antes de ensinar, o catequista é alguém que também foi chamado, tocado e enviado por Jesus. Por isso, ser catequista é muito mais do que desempenhar uma tarefa pastoral: é assumir uma verdadeira vocação e missão na comunidade cristã.
Jesus não formou seus discípulos de uma só vez. Chamou-os para caminhar com Ele. Houve convivência, escuta, aprendizado, dúvidas, descobertas, amadurecimento e envio. Aos poucos, aqueles homens e mulheres foram compreendendo quem era Jesus e o que significava participar de sua missão.
O Evangelho nos ajuda a perceber esse caminho. Tudo começa com uma busca. Jesus pergunta: “Que procurais?” (Jo 1,38). A busca conduz ao encontro. Os discípulos perguntam: “Onde moras?”, e Jesus responde: “Vinde e vede” (Jo 1,39).
Eles vão, permanecem com Jesus e deixam-se transformar por essa experiência. O encontro gera conversão; a conversão conduz à comunhão; e a comunhão abre o coração para a missão.
Esse mesmo caminho continua sendo percorrido hoje na catequese:
Busca → Encontro → Conversão → Comunhão → Missão.
Por isso, a Iniciação à Vida Cristã não pode ser reduzida à transmissão de conteúdos ou à preparação para receber os sacramentos. Ela é um processo de encontro com Jesus Cristo e de inserção na vida de uma comunidade que procura viver aquilo que anuncia.
A comunidade cristã precisa ser capaz de passar pelo teste do “Vinde e vede”. Quem chega às nossas comunidades encontra acolhida? Encontra pessoas dispostas a escutar e caminhar juntas? Percebe nelas a alegria do Evangelho, a fraternidade, o cuidado com os mais vulneráveis e o compromisso com a vida?
É nesse contexto que a missão do catequista se torna ainda mais importante. O catequista não caminha à frente simplesmente para ensinar, mas também caminha ao lado, escuta, acolhe, acompanha, aprende e ajuda cada pessoa a descobrir a presença de Deus em sua própria história.
A Igreja, ao gerar novos filhos e filhas na fé, é chamada a cuidar deles com ternura e responsabilidade. Isso exige acompanhamento, escuta, paciência e respeito ao processo de cada pessoa. E essa caminhada é sempre uma via de mão dupla: enquanto a comunidade ajuda o catequizando a crescer na fé, também se deixa renovar pelas perguntas, experiências, sonhos e desafios daqueles que chegam.
Assim compreendida, a catequese contribui para a necessária conversão pastoral e sinodal da Igreja. Ajuda-nos a superar uma pastoral voltada apenas para a manutenção e nos impulsiona a ser uma Igreja em saída, capaz de escutar a realidade e responder aos desafios do nosso tempo.
Catequizar é anunciar Jesus Cristo para que sua Palavra alcance a vida concreta. É ajudar crianças, adolescentes, jovens e adultos a conhecer, acolher, celebrar e viver o mistério de Deus; a participar da comunidade; a reconhecer seus dons; e a assumir sua responsabilidade na construção do Reino.
Ser catequista, portanto, é ser discípulo e discípula que faz outros discípulos. É semear sem ter a pretensão de controlar os frutos. É acreditar que uma palavra acolhida, um gesto de cuidado, uma escuta atenta ou um testemunho coerente podem permanecer no coração de alguém por toda a vida.
Queridas(os) catequistas, parabéns por essa grandiosa missão!
Por cada encontro preparado, por cada pessoa acolhida, por cada dificuldade enfrentada e por cada semente do Evangelho lançada. Que Jesus, o Mestre que primeiro nos chama a estar com Ele e depois nos envia em missão, renove em cada catequista a alegria, a esperança, a coragem e a perseverança na caminhada.
Sigamos fazendo ecoar o convite de Jesus: “Vinde e vede”. E, depois de encontrá-lo, tenhamos a coragem de ir e anunciar.
Com carinho e gratidão a todos as(os) catequistas.
Magda Melo
Texto inspirado e reelaborado a partir do artigo “CEBs e Catequese”, de Magda Melo, publicado no livro CEBs e Raízes.
PIOR ESCRAVO “LAMBE BOTAS” DE QUEM O GOLPEIA: Os Povos diante dos Brutais Projetos de Exploração (Dn 1-2)
Por Gilvander Moreira
Como 2º texto subsídio para o mês a Bíblia (Setembro de 2026) sobre o Livro de Daniel queremos refletir mais um pouco sobre os dois primeiros capítulos do Livro de Daniel que podem nos inspirar sobre como resistir diante de opressões e explorações invencíveis à primeira vista.
O livro de Daniel reflete a experiência de pessoas que vivem em comunidade, pautando sua convivência e sua luta na fé no Deus de seus antepassados, que lutaram por libertação. Elas sustentam a postura existencial de que apenas o poder do Deus da vida é inquestionável e imbatível. Os outros poderes, sejam políticos, econômicos, religiosos ou culturais, por mais prepotentes que aparentem ser, são todos derrubáveis pela ação de quem acredita que Deus é o único poder absoluto (Dn 2,31-47). É possível que o autor do Evangelho de Lucas tenha se inspirado em Dn 2,31-47 para afirmar, no Cântico de Maria, que "Deus dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens e despede os ricos de mãos vazias" (Lc 1,51-53).
O livro do profeta Daniel tem a finalidade de animar a esperança, mesmo que esta esteja por um fio, na resistência popular diante dos projetos opressores do grande capital, que atropelam e violentam a dignidade humana e os valores culturais ancestrais e religiosos dos povos das florestas, do campo e da cidade. A profecia de Daniel busca despertar o povo do sono letárgico imposto pela ideologia dominante, que anestesia as consciências e incute subserviência e resignação diante de projetos exploradores. Busca avivar a consciência histórica de um povo que caminha de forma autônoma, com fé no Deus Javé, solidário e libertador (Cf. Ex 13,17-15,19), reproduzindo sua identidade sociocultural, permanentemente ameaçada pelas idolatrias disfarçadas de "progresso", "valor cultural do presente" ou "última novidade", mais do mesmo travestido de economia verde ou de liberdade abstrata. Estas são seduções que, de múltiplas formas, armam ciladas para desumanizar e violar a dignidade da pessoa humana e da natureza.
No início do livro de Daniel, narra-se que "no terceiro ano do reinado de Joaquim em Judá, Nabucodonosor, rei da Babilônia, sitiou Jerusalém com seu exército" (Dn 1,1). Após quase dois anos de cerco, Jerusalém foi invadida e devastada e o templo saqueado e destruído. Nabucodonosor levou para o exílio a família real e outras famílias importantes (Dn 1,3), a melhor força de trabalho: "jovens sem nenhum defeito físico, de boa aparência" e preparados para trabalhar em áreas estratégicas, "cientistas" para servir na corte do rei (Dn 1,4). A eles foi ordenado que estudassem a literatura e a língua da Babilônia (Dn 1,4), ou seja, que assimilassem a cultura do império invasor. Deveriam "ter uma ração diária da comida e do vinho da mesa real", isto é, comer e beber da cultura do inimigo. Isso era estratégia para cooptar os escravizados de forma que eles introjetassem e assimilassem, em si mesmos, o modo de ser e de existir dos escravocratas. O pior escravo é o que “lambe as botas” daquele que o golpeia, imaginando que, assim, irá conseguir uma sobrevida.
O profeta Daniel e seus companheiros Ananias, Misael e Azarias, recusaram-se a comer e a beber da comida e da bebida do palácio do rei Nabucodonosor. "Vamos comer só vegetais e beber só água" (Dn 1,12). Eles fazem a opção de não se contaminarem, como sinal de crítica ao imperialismo e resistência cultural e religiosa, preservando sua identidade ancestral. A alimentação saudável era a “espinha dorsal” da cultura de um povo que sofrera a escravidão no Egito devido ao imperialismo dos faraós e que, para conquistar a terra prometida, teve, antes, que marchar "quarenta anos pelo deserto". A mística que anima a resistência popular passa, necessariamente, pela reprodução e valorização dos valores ancestrais camponeses. Preservar os valores culturais é um princípio ético indispensável na luta para resistir e desmoronar os megaprojetos exploradores.
Em contexto de escassez, tornou-se imprescindível cuidar da qualidade dos alimentos. Por isso, as regras alimentares deviam ser levadas a sério (Cf. Ez 4,13-14; Os 9,3; Est 4,14; Jt 10,5; 1Mc 1,62-63; 2Mc 6,18-31). Após dez dias, o capataz do império babilônico viu que aqueles que se alimentaram apenas com vegetais e água – ou seja, com a "comida de verdade", a dos Macabeus, protagonistas da resistência popular, diante da opressão do rei Antíoco IV Epífanes, que os obrigava a comer carne de porco – estavam mais saudáveis. Ao final de Dn 1, diz-se que "Daniel ficou trabalhando e servindo na casa real até o primeiro ano do reinado de Ciro" (Dn 1,21), cerca de 50 anos.
Na Bíblia, encontramos muitas narrativas de grandes projetos que foram enfrentados por povos injustiçados e marginalizados, entre os quais destacamos seis: 1) A Construção da Torre de Babel (Gênesis 11,1-9); 2) A construção de um bezerro de ouro (Êxodo 32,1-35); 3) A estátua gigante de pés de barro do livro do profeta Daniel (Daniel 2,1-49); 4) O mercado no entorno do templo de Jerusalém (Mateus 21,12-13; João 2,14-16); 5) O comércio ao redor da deusa Ártemis (Atos 19,23-40); 6) O dragão do Apocalipse (Apocalipse 12,1-12).
BH/MG, 18/08/26
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Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br – Canal no You Tube: https://www.youtube.com/@freigilvander – No Instagram: @gilvanderluismoreira – Facebook: Gilvander Moreira III – No https://www.tiktok.com/@frei.gilvander.moreira
Conquista corações.
Por isso, somos chamados
Não apenas a descobrir nossa vocação,
Mas a vivê-la
De maneira verdadeira.
Manifestando a comunhão
Que atrai,
Que convence,
Por meio do amor de Deus
Presente na comunidade
E força para a missão.
O verdadeiro
Testemunho vocacional
Emerge da união,
Da partilha,
Da escuta
E do serviço aos mais pobres.
Cada vocação
É um chamado
Para construir
E fortalecer a comunidade,
A evangelização
E tornar visível o Reino de Deus.
O testemunho
Tem o poder de transformar,
De mudar realidades.
É um testemunho
Que não se limita a palavras,
Mas se manifesta na vida diária.
Por meio de atitudes concretas
De amor,
De solidariedade,
De proximidade,
De acolhida
E de esperança.
Ele transmite
A alegria do Evangelho
E revela
A presença viva de Cristo,
Tornando a fé perceptível
E atraente para todos.
Que o Espírito Santo,
Fonte de toda comunhão
E força para o testemunho,
Nos conduza ao crescimento
Em unidade e autenticidade,
Para viver a vocação.
Nos dê coragem
Para superar medos
E limitações,
E sermos sinais vivos
Do amor de Deus
E da graça divina neste mundo.
+ Fontinele