Sphujidhvaja


Pesquisador, tradutor, poeta, mas…


astrólogo. O valor do personagem histórico em questão está em sua participação na História da Matemática e Astronomia, apesar de seu problema com o mundo “pseudo”, mas lembremo-nos que Kepler pensava em sólidos perfeitos coordenando um universo que não distava muito de Ptolomeu em certos aspectos e era assim pois “tal como um deus geômetra, teria de ser também mostra de perfeição”, ou nos erros do grande Galileu, que não entendeu as marés como um fenômeno ligado à influência da Lua ou ao Sol, ou ainda de Newton, com seu apreço pelo misticismo, suas interpretações da Bíblia e sua peculiar alquimia. Ao final, todos somos humanos, e temos nossos humanos erros e vícios de pensar, inclusive, os relacionados quase inquebrantavelmente com o período em que, na fagulha que somos frente ao tempo na escala da História, e mais ainda, da natureza, vivemos.

Sphujidhvaja era aparentemente de origem grega, e teve destaque na Índia Ocidental, sob o patrocínio do governante de Kṣatrapa (Satrapia Ocidental), Rudradāman II. Escreveu o extenso manual de elaboração de mapas astrais, o que em língua inglesa, é associado ao termo genethlialogy (que pode ser levada ao português como “genetialogia”), a adivinhação do destino de um recém-nascido pela arte de unir nascimentos e astrologia, o dito “mapa astral”, o Yavanajātaka (Horóscopo dos Gregos), em 270 d.C. (mais confiavelmente, no período de 269 a 270 d.C.). Tal obra cataloga e mostra a posição e “respectiva” influência dos astros na data do nascimento. Para o fim de sua obra, Sphujidhvaja afirma que antes dele, em 150 d.C., o grande astrólogo grego Yavaneśvara redigiu em prosa em sânscrito uma obra astrológica grega, de modo que pudesse ser estudada por aqueles que não sabia grego, e que ele, Sphujidhvaja, compôs uma redação em versos do trabalho de Yavaneśvara. O trabalho revela Sphujidhvaja como um estudioso competente, um mestre da poesia em sânscrito, e um especialista considerado em seu tempo no campo da astrologia.


Yavanajataka.jpg

Fragmento de Yavanajātaka. -  www.billmak.com


Sphujidhvaja afirma que ele compôs a obra de 4 mil versos. Mas o único manuscrito do trabalho disponível hoje contém apenas 2.300 versos. Neste manuscrito imperfeito, as primeiras seções são numeradas, mas não tão os subsequentes, os quais em número, ao todo, possivelmente 79 diversas seções estão perdidas. Nestas 79 seções, o trabalho abrange um grande número de aspectos de horóscopo e astrologia natural, incluindo:


-Signos zodiacais e planetas, seus símbolos, natureza e relações;

-Iconografia de horās e decons ; [Nota 1]

-Astrologia da concepção, nascimento e natureza

-Horóscopos;

-Posicionamentos planetários, e combinações afetando os humanos.

-Predição na base de questões;

-Reconstrução de horóscopos perdidos;

-Omens e sonhos; e [Nota 2]

-Astrologia militar


Os diversos aspectos de cada um deses tópicos são tratados de diferentes pontos de vista, e alertas, indicações e predições neles baseados são apresentados por categorias.

É interessante que, embora baseado em última análise num texto grego, havia substancial influência da cultura indiana no Yavanajātaka. Isto foi efetuado pelo uso de termos indianos equivalentes aos gregos, adotando divindades hindus no lugar das gregas, incorporando os nomes das castas e ordens profissionais hindus, mencionando maneiras, costumes e afins locais. Yavanajātaka foi encarado como obra de autoridade por genetialogistas indianos posteriores e utilizado como tal, mesmo no lugar de textos indianos como Br̥hajjātaka e Brhatsamhitā, de Varāhamihira, Sārāvali de Kalyānavarman, Praśnavidyā de Bādarāyana, e muitos outros.


A significância doYavanajātaka deriva também de outro ponto. O trabalho refere-se a seus contemporâneos aspectos de ordem social, profissões, classes e grupos religiosos, ítens de uso ordinário, maneiras e costumes, vestimentas, e  um conjunto de outras coisas da vida e sociedade de seu tempo. A informação fornecida pelo trabalho nestes assuntos faz dele uma boa fonte para o estudo da cultura e civilização da Índia durante os primeiros séculos da era cristã.



Notas

1.Horā - Hora (sânscrito होरा, "hora", da palavra ahorātra [1] [2]) é um ramo do sistema tradicional indiana da astrologia conhecido como Jyotisa. Ele lida com os melhores pontos de métodos de previsão, por oposição aos siddhanta (astronomia adequada) e saṁhitā (astrologia mundana). - en.wikipedia.org - Hora (astrology)


Os decans ou deacons, “decanatos”, são 36 grupos de estrelas (pequenas constelações) utilizados na astronomia egípcia antiga. Levantam-se consecutivamente no horizonte ao longo de cada rotação da terra. O surgimento de cada decanato marca o início de uma nova "hora" decanal (hora grega) da noite para os antigos egípcios, e eles foram usados como um relógio estelar sideral começando na, pelo menos, 9ª ou 10ª dinastia (c. 2100 a.C.).

Estas constelações “menores” permitem a divisão dos signos zodiacais em fases, três decanatos, por signo, sendo que os primeiros dez dias configuram o chamado “primeiro decanato”, os dez dias seguintes o segundo, e o restantes o terceiro.
en.wikipedia.org - Decans ; www.wireclub.com


2 Um omen, presságio, é um fenômeno que é acreditado para prever o futuro, muitas vezes significa o advento da mudança. - en.wikipedia.org - Omen



Referências

David W. Kim (edição); Religious Transformation in Modern Asia: A Transnational Movement; BRILL, 2015. - books.google.com.br


Bill M. Mak; The Date and Nature of Sphujidhvaja’s Yavanajātaka Reconsidered in the Light of Some Newly Discovered Materials; History of Science in South Asia; Vol 1 (2013), 1 - 20. www.billmak.com


K. V. Sarma; Encyclopaedia of the History of Science, Technology, and Medicine in Non-Western Cultures; Sphujidhvaja - pp 2016-2016. - link.springer.com


Helaine Selin; Encyclopaedia of the History of Science, Technology, and Medicine in Non-Westen Cultures; Springer Science & Business Media, 2013.  - pg 906 -

books.google.com.br


Comments