Evolução dos Seres Vivos - Argumentação Básica

Um conjunto de argumentos simples sobre o porquê da evolução biológica ser um fato.

Texto inicialmente criado para uma comunidade do ORKUT, e pelo relativo formalismo, digno de ser colocado, inicialmente no Knol, devidamente editado, e agora, neste site. 

Posteriormente, acrescentaremos referências aos conceitos e termos empregados.


Três hipóteses

 
Considerando o que seja vida, independentemente de sua definição plena, podemos tecer três considerações:

    1) Todos os seres vivos podem ter surgido de outros quaisquer (heterogenismo, transformismo brutal, espontaneísmo).

    
    2) Nenhum ser vivo pode ter surgido de qualquer outra coisa (Fixismo). Ou surgiram pormilagre - no sentido de acontecimento sobrenatural (Criacionismo, seja qual for sua descrição plena).

    3) Todo ser vivo proveio de uma outra espécie ligeiramente diferente (num determinado sentido, o que podemos chamar de evolucionismo, embora erroneamente).


Notemos que tais hipóteses cobrem todas as possibilidades possíveis.

 
Nota 1: Esta abordagem das possibilidades para a origem das espécies é tratada na ”Grande Enciclopédia Larousse Cultural”.[1]

A hipótese (1) é descartada de pronto pelo simples fato que jamais se evidenciou e nem teríamos mecanismos possíveis quaisquer imagináveis que permitissem a formação de uma ser vivo de grande porte e/ou complexidade a partir do que chamamos de “reino mineral”, em processos geológicos simples. A formação de uma espécie ao acaso, aleatoriamente ou dentro de limites doutra anteriormente existente, implica em a mais antiga ter se originado conforme a hipótese (1), até uma primeira, ou de um milagre conforme a hipótese (2).

Podemos, assim, exatamente no que chamamos posteriormente de microbiologia, considerar grosseiramente que “vida só se origina de vida”, pelo menos no que sejam os organismos tais como os conhecemos hoje.
 
Nota 2: O mesmo não é tratado para o que seja biopoeise (do grego bio, vida, mais poiéo, produzir, fazer, criar)[2], no surgimento da primeira foma de vida, do primeiro organismo, mas tal não é objeto do que seja evolução dos seres vivos. Para mais detalhes, ver nosso artigo sobre a Falácia de Hoyle.

A hipótese (2) é descartada numa primeira abordagem pelo fato observável que organismos modificam-se no tempo, como nos mostram nossos animais e plantas domésticos e de cultivo, no que sejam as observações em campo e laboratório do que chamamos de especiação[3][4], na qual uma espécie se divide em duas que não mais apresentam reprodução sexuada entre suas respectivas populações.
 
Mas digamos que as espécies seja definidadas dentro de determinados limites de variação. Um fixismo eterno é descartado também porque a própria existência da Terra, local onde vivem todos os seres vivos que conhecemos, não é eterna, assim como o sistema solar que a contém, a galáxia que o produziu a partir de estrelas de geraçao anterior e até mesmo o universo em sua atual apresentação[43], mas limitada no tempo. Logo, os seres vivos (na Terra, pois desconsideraremos aqui vida extraterrestreNota 3) tem de se originar em suas formas em algum momento na história da Terra, e portanto, nesta forma básica de cada espécie a variar, por milagre nesta hipótese.
 
Nota 3: Mesmo na hipótese de panspermia, podemos eliminar a eternidade dos seres vivos, e mesmo, a possibilidade, na prática absurda, de animais marinhos, por exemplo, caírem do espaço.

Restaria ainda uma questão de que se os “filos” sejam estanques, não permitindo que aquilo que chamamos, por exemplo, de réptil (o mais adequado aqui seria dizer um amniota[5][6]) se modificasse naquilo que chamamos de mamífero, para um exemplo extremamente restrito.

Trataremos tal questão adiante.

 

Os seres vivos e seu passado

 
Baseada na exclusão das hipóteses (1) e (2) e ainda guardando desta última uma questão em aberto, temos de considerar a obviedade de que os seres vivos originam-se de outros seres vivos, naquilo que definimos como “modificação das espécies no tempo, sua ancestralidade em comum e diversidade crescente”, ou seja, evolução, no sentido biológico.

Para tanto, nos apoiaremos em qualquer espécie hoje existente, como por exemplo os destacados elefantes (pelo seu próprio tamanho) e outras ciências acessórias de maior formalismo, tal como a Física Nuclear aplicada na datação das rochas (geocronologia[7][8]), e disto, a Geologia.

Ao se localizar um esqueleto de elefante do passado, e ainda não estamos considerando fossilização, notaremos diferenças de tamanho, proporções e mesmo número de dentes, conformações de crânio e outras características, em semelhança com as variações que vemos nos nossos cães, por exemplo, registrados na História, logo dados confiáveis.

 
Nota 4: A evolução dos elefantes, até pelo porte de todos seus antepassados, é das mais conhecidas em paleontologia.[9][10][11]


                                        Ilustração dos diversos proboscídeos (NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY) 

Logo, chegaremos em achado que pela própria idade, será de fósseis[12][13], ou permineralização de ossos enterrados, e como a datação é segura, teremos evidências confiáveis de sua idade. Ao examinarmos tais restos, perceberemos que tais estruturas aumentam as diferenças anatômicas em ainda maior proporção, resistindo a qualquer caracterização como um “não-elefante” pela anatomia.


Neste registro fóssil, em ainda maior tempo passado, chegaremos a uma forma de elefante tão “primitiva” (o melhor seria dizer-se antiga) que não apresentará praticamente qualquer característica dos atuais a não ser para o profissional treinado e neste momento, notaremos semelhança com outros mamíferos, como por exemplo, inúmeras outras formas completamente diversas de proboscídeos extintos (caracterizados inequivocamente pela sua anatomia) e ainda outros mamíferos diversos, porém de anatomia relacionada, como os Hyracoidea (11 espécies existentes de dassie ou hirax).[14][15]



                                                                                        Hirax (www.ib.usp.br




                                                                Comparação do crânio do hirax com o do elefante. 

Neste momento, podemos concluir que todo este ramo (ou “filo”) de uma árvore genealógica se originou de modificações acumuladas, gerando variabilidades múltiplas e diversidade a partir de um ancestral em comum com todos estes animas.

Retrocedendo no registro fóssil ainda mais para trás, veremos que mais formas associadas por modificações à estas surgirão, mas jamais as formas atuais ou posteriores ainda não “no tempo” surgidas.

Logo, a ancestralidade se repetirá como convergente para um determinado mamífero ancestral de inúmeros outros “filos”, sucessivamente até que num determinado ponto, as características serão comuns a de alguns répteis (novamente, o melhor seria dizer-seamniota), também estudados em suas paleontologias específicas e assim, chegaremos a um período em que mamíferos não eram de forma alguma o que hoje consideramos como mamíferos e sim protomamíferos (o “protótipo” dos mamíferos)[16][17], o que se evidencia atualmente pelo elementar fato que temos mamíferos vivos que põe ovos para sua reprodução, como os monotremos.[18][19]


                                                    Ornitorrinco, um monotremado (web.educastur.princast.es).

Recuando ainda mais no passado, descobriremos e descobrimos (devemos destacar) fósseis de ancestrais em comum com todos os animais cordados[20][21] terrestres (dentre os quais alguns retornaram por evidente registro fóssil para o meio aquático, pois o processo evolutivo é caótico, no sentido matemático – o melhor seria dizer estocástico[22] –  e não orientado rigidamente nem em direção e nem em sentido, porém não pode retroceder no tempo pela sua própria natureza).


Nota 5: Há exceções de reversibilidade de alterações evolutivas, o que seriam alterações ao princípio uma vez aceito chamado de Lei de Dollo, tratável no terreno das probabilidades, mas o quadro geral é de irreversibilidade.


Da mesma maneira, chegaremos a um momento em que todos os animais encontráveis não serão nem providos de esqueleto ósseo, e ainda mais no passado, indiferenciáveis em constituição entre o que chamamos de vegetais ou animais, tal como hoje ainda percebemos no que sejam as euglenas[23][24], por exemplo, e outros.






                                                                            Euglena (scienceblogs.com).


Mas a questão não é apenas classificatória e sim de que o processo evolutivo é evidente e inequívoco no tempo.

Assim, podemos concluir que a evolução dos seres vivos é fato, e não pode ser negado.

 

Os filos

 
Agora, pelo meio deste caminho que percorremos, evidenciamos uma verdade clara: não há separação estrita entre os “filos, pelo menos não quando consideramos o tempo passado.

Mas modemos considerar que algum “filo” tenha surgido miraculosamente no passado.

Sim, podemos considerar, mas jamais se evidenciou um “filo” completamente distinto dos demais, nem genética nem paleontologicamente, portanto, podemos considerar uma ancestralidade universal, até prova em contrário, e nos concentrar somente no que seja o objeto de uma Teoria Científica a ser construida para explicar o fato da Evolução, e logicamente, apresentar previsões possíveis e confiáveis.

Para construir tal teoria científica, necessitamos entender os mecanismos físicos e químicos com que se dá tal processo, partimos primeiramente do que seja genética.

Esta, mostra-se relativamente estável, replicando características, mas exatamente por isso, causando sutis, quando não drásticas modificações na descendência, logo em perfeito acordo com o não-fixismo.

 
Portanto, por esta, a evolução dos seres vivos sustenta-se como fato.
 

Teoria eixo

Se modificações genéticas surgem, a descendência pode transmitir ou não estas modificações, e aí temos uma característica peculiar dos seres vivos, de que a descendência é sempre maior em número, restando apenas os sobreviventes numa população, mesmo para animais e plantas de grande porte, evidente até nas baleias.

Se a característica é transmissível, a descendência manterá tal característica e esta será ou não será mais apta ao meio, seja este em que limites ou escala tomemos. Sendo apta, a descendência com tal característica sobreviverá em maior número, e acabará inexoravelmente, por simples matemática, a ser dominante numa população.

 
Esta é uma observação fundamental de Darwin, em “A Origem das Espécies”:
 
    “Assim, os gêneros mais ricos têm uma tendência a tornar-se mais ricos ainda; e, em toda a natureza, as formas vivas, hoje dominantes, manifestam esta tendência cada vez mais, porque produzem muitos descendentes modificados e dominantes.” 
 
                                                                                                                                    A Origem das Espécies, Charles Darwin




Assim, por exemplo, orelhas maiores num elefante africano permitem maior sobrevivência de seus descendentes prevenindo a hipertermia. Da mesma maneira pelos longos em elefantes (mamutes[25]) de hábitos de clima frio, e assim em inúmeros exemplos. .

Geração após geração, tal como concordante com o registro fóssil, populações se modificarão, até um ponto que independentemente de isolamento geográfico, catástrofes geológicas ou outros fatores, duas ou mais populações não serão intercruzáveis, chegando ao ponto de gerarem duas espécies diferentes, tal como evidente por inúmeros caminhos no registro fóssil e tanto em campo quanto laboratório no que chamamos de especiação.

Assim, por este simples raciocínio (que espero fique claro) e evidências: comprovando-se a especiação, comprovada está a evolução.

Mas independentemente de tais evidências, fatos, experimentos e até desprezando o que seriam outras questões na modelagem do processo evolutivo no que seja a Teoria da Evolução, teoria “eixo” em Biologia.

 
“Nada em Biologia faz sentido exceto à luz da evolução”.
Dobzhansky[26]
 
Restaria-nos uma questão pertinente, que se mostrará até pensável, mas de pouca utilidade prática.
 

Considerações finais

 
Poderia existir uma divindadeinteligência superior ou sobrenatural ou alienígena que “criou” os seres vivos sobre a Terra e a partir de determinados “filos básicos” originaram-se todas as formas de vida.

A resposta é sim. Porém, apesar de determinados limites de possibilidades e “fases” de tal processo, como evidente no registro fóssil, por simples Filosofia da Ciência devemos descartar tal hipótese, no que chamamos demarcação.[27] Pois uma hipótese que seja aceitável por “crença” ou “fé” não pode ser considerada como tal, e dentro do que tratamos como Ciência, éinútil, não oferecendo modelo algum.

Portanto, ficamos com o que seja o óbvio não-fixismo das espécies, sua ancestralidade comum universal (até prova em contrário) e destas, a geração de toda a diversidade da vida, presente e passada.

 
Aqui, nem fazemos alusão às questões de que a Genética hoje permite se traçar toda a ancestralidade das formas de vida e sua relação com formas presentes e passadas (extintas, desde que o DNA esteja disponível) e que ao se comprovar a especiação em campo e laboratório, comprova-se o não-fixismo das espécies, pois provada a especiação, provada está a evolução[41][42].
 
Assim,
 
A alternativa à evolução não é o criacionismo, mas a ignorância.



O que é afirmado sem base científica também pode ser descartado sem base científica.
 

Referências

Obs: Ao ser realizada a transferência dos artigos do Google Knol para o Anottum, houve a perda parcial das referências deste artigo. Assim que possível, sua referenciação será recuperada e aprimorada. Contando com sua compreensão, grato. 
 
  1. Grande enciclopédia Larousse Cultural. São Paulo, Círculo do Livro, 1988
  2. Especiação
    pt.wikipedia.org
  3. ESPECIAÇÃO
    www.icb.ufmg.br
  4. Amniota
    pt.wikipedia.org
  5. Introduction to the Amniota
    www.ucmp.berkeley.edu
  6. Geocronologia
    pt.wikipedia.org
  7. Geochronology
    geology.cr.usgs.gov
  8. Elephant Evolution
    www.allelephants.com
  9. Evolution
    elephant.elehost.com
  10. Evolution - Past to Present
    www.eleaid.com
  11. Fóssil
    pt.wikipedia.org
  12. Carlos Marques da Silva; Fóssil
    webpages.fc.ul.pt
  13. Hyracoidea
    pt.wikipedia.org
  14. Chapter LXXIV. Hyracoidea And Proboscidea. Order X. Hyracoidea
    chestofbooks.com
  15. Eucynodontia
    pt.wikipedia.org
  16. Eucynodontia
    www.palaeos.com
  17. Monotremata
    pt.wikipedia.org
  18. Estocástico
    pt.wikipedia.org
  19. Euglena
    pt.wikipedia.org
  20. Género Euglena
    www1.ci.uc.pt
  21. Theodosius Dobzhansky
    pt.wikipedia.org
  22. The Demarcation Problem: What theories should be ranked scientific?
    web.ku.edu
  23. Grande enciclopédia Larousse Cultural. São Paulo, Círculo do Livro, 1988
  24. Especiação
    pt.wikipedia.org
  25. ESPECIAÇÃO
    www.icb.ufmg.br
  26. Amniota
    pt.wikipedia.org
  27. Introduction to the Amniota
    www.ucmp.berkeley.edu
  28. Geocronologia
    pt.wikipedia.org
  29. Geochronology
    geology.cr.usgs.gov
  30. Elephant Evolution
    www.allelephants.com
  31. Evolution
    elephant.elehost.com
  32. Evolution - Past to Present
    www.eleaid.com
  33. Fóssil
    pt.wikipedia.org
  34. Carlos Marques da Silva; Fóssil
    webpages.fc.ul.pt
  35. Hyracoidea
    pt.wikipedia.org

Sugestões de Leitura

 
  • Understanding Evolution – Site da Universidade de Berkeley, com explicação didática e detalhada do processo evolutivo dos seres vivos.
 
 

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