Falácia da Poça D’Água

Uma falácia lógica peculiar, ultimamente muito utilizada


Um pequeno ensaio sobre uma falácia lógica que é muito utilizada pelos Criacionistas Biblicistas e ultimamente pelos defensores do chamado Design Inteligente.


A falácia

 
falácia da poça d’água pode ser apresentada pelo texto abaixo, que explica muito de seu nome:
 
O volume de água contido em uma poça d’água apresenta exatamente a forma que possui porque houve um planejamento para o buraco que contém tal volume d’água ter aquele formato. “Logo”, há um planejamento em sua forma.
 
A falácia da poça d’água é uma combinação da falácia non sequitur (um argumento no qual a(s) conclusão(ões) não segue(m) as premissas) com o uso de premissas falsas, e mais que tudo, uma falsa analogia, tal como veremos adiante, dependendo de sua aplicação numa argumentação.
 
Seu (se é que podemos dizer assim) objetivo é apresentar uma teleologia (do grego τέλος, fim, y -logía) para qualquer coisa da natureza e com isso, servir como um argumento por uma divindade (deus) consciente, inteligente e principalmente, para determinadas vertentes religiosas, atuante.
 
Este objetivo é mais claro quando, por similaridade, fazemos:
 
A forma e funcionalidade perfeita da tromba de um elefante apresenta exatamente tal conjunto de características porque houve um planejamento para a tromba que tal animal apresenta. “Logo”, há um planejamento em sua natureza.
 
Tal raciocínio é também utilizado para evoluções conjuntas entre seres vivos, como a da flor do maracujá e da mamangava (abelhão) cujas costas adaptam-se perfeitamente as dimensões dos componentes da flor, propiciando uma melhor polinização, “logo”, deve haver um planejamento para tal ser obtido.

                                                          Imagem que mostra muito do que pode ser extraído como
                                                          argumento da falácia da poça d’água (www.iplay.com.br).


Sua Origem

 
A falácia, e seu tratamento com este nome, nasce de um texto do escritor Douglas Adams, autor da série de comédia/ficção científica  ”Guia do Mochileiro das Galáxias”. 
“Imagine uma poça d’água acordando um dia e pensando, “Que mundo interessante este em que me encontro, um buraco interessante, ele me serve direitinho, não? Na verdade, ele me serve perfeitamente bem, só pode ter sido feito para me ter dentro dele!”. E essa é uma idéia tão poderosa que, enquanto o sol nasce no céu e o ar se aquece e, gradualmente, a poça vai ficando menor e menor, ela ainda se agarra desesperadamente à noção de que tudo dará certo, porque o mundo foi criado para tê-la dentro dele; assim, o momento em que ela desaparece por completo a pega de surpresa. Eu acho que isso é algo que nós devemos estar de olho”.[1]

Douglas Adams (1952 – 2001)

O Criacionismo Biblicista e esta Falácia

 
Os Criacionistas Biblicistas (que afimam que os seres vivos e até a Terra e sua geologia e qualquer corpo celeste se formou conforme o quadro e ordem descrito no Gênesis, literalmente) utilizam esta falácia como “evidência” de que por trás de toda estrutura biológica e até na relação entre os seres vivos, tem de haver um planejamento, e “logo”, este tem de ser o deus judaico-cristão.
 
Como exemplos de afirmações deste naipe, citam-se como fruto de planejamento a distância da Terra ao Sol (como se esta não tivesse variado no tempo e a própria história da Terra aponta que variações grandes de sua temperatura existiram), a existência da Lua e sua distância (quando na verdade tudo aponta para que a Lua seja fruto de um impacto e posterior agregação e afastamento de uma massa expelida neste), a atmosfera terrestre e até mesmo seu teor de oxigênio (quando sabemos que o oxigênio atmosférico só surgiu depois dos organismos fotossintetizantes), etc. Toma-se o estado atual da Terra e a vida que ele abriga, incluindo a humana, como prova de planejamento, quando vemos que apenas somos, junto com todas as outras formas de vida existentes no planeta, e nas variações destas em toda a história da terra, sobreviventes – mais aptos - ao ambiente em permanente mudança.
 
As implicações filosóficas desta questão e até a questão do “embate” Criacionismo versusEvolucionismo ganham inclusive estudos acadêmicos.[2]


Design Inteligente e suas Afirmações

 
Os defensores da mais recente vertente de afirmações de cunho religioso que pretende-se como científica afirmam que os seres vivos passam por um processo evolutivo, mas determinados passos, como as estruturas dos olhos e determinadas estruturas bioquímicas, de escala molecular ou polimolecular, como os flagelos bacterianos, pela sua funcionalidade, são igualmente fruto de um planejamento inteligente, logo, em última instância, de uma divindade.
 

A Falsa Analogia

 
O problema maior com a aplicação desta falácia quando trata-se dos seres vivos e suas estruturas é que seres vivos não são projetos, e sim resultado de processos naturais, e sobreviventes de gerações em enfrentamento mútuo e ao ambiente, assim, por exemplo, elefantes não possuem trombas porque foram desenhados para ter, e sim porque seu processo evolutivo, geração após geração, dotou-os de narizes fundidos aos lábios, mobilidade e controle, e alongados ao ponto de realizarem as tarefas de que são capazes.
 
Quanto às estruturas celulares, ou mesmo o olho, o mesmo se aplica, pois os olhos apresentam variações de complexidade na natureza, e seu aparecimento igualmente mostra-se no processo evolutivo evidenciado pelo registro fóssil, e em perfeito acordo com os cladogramas (aproximadamente os mapas, ou “árvores”, que descrevem as separações entre as espécies e sua distribuição no tempo) da Biologia. Para a questão das estruturas moleculares, o erro dos defensores do design inteligente é considerar que as estruturas tem de funcionar com todas as suas atuais componentes e não passar por etapas de baixa eficiência e funcionalidade, como argumentam, especialmente, os biólogos que tratam de tais questões, como H. Allen Orr[3], em especial quando trata da obra do mais destacado dos defensores do design inteligente, Michael J. Behe, e seu mais vendido livro Darwin’s Black Box: The Biochemical Challenge to Evolution (A Caixa Preta de Darwin).[4]
 
Aqui, podemos ser acusados de estar usando de outra falácia (ou mesmo um conjunto delas), como o raciocínio circular ou mesmo um Circulus in Demonstrando, mas como veremos adiante, os seres vivos não apresentam-se como um projeto exatamente inteligente, muito menos como pensaram filósofos do passado, na então “Filosofia Natural” (pois a Biologia só passou a existir com a Teoria da Evolução de Darwin e outros).
 

Hume e a Questão Teleológica

 
O filósofo escocês David Hume (1711 – 1776) tratou assim a questão:
 
  1. Para o argumento teleológico funcionar, seria necessário que só nos pudéssemos aperceber de ordem quando essa ordem resulta do desígnio (criação). Mas nós vemos “ordem” constantemente, resultante de processos presumivelmente sem consciência, como a geração e a vegetação. O desígnio (criação) diz apenas respeito a uma pequena parte da nossa experiência de “ordem” e “objectivo”.
  2. O argumento do desígnio, mesmo que funcionasse, não poderia suportar uma robusta fé em Deus. Tudo o que se pode esperar é a conclusão de que a configuração do universo é o resultado de algum agente (ou agentes) moralmente ambíguo, possivelmente não inteligente, cujos métodos possuam alguma semelhança com a criação humana.
  3. Pelos próprios princípios do argumento teleológico, a ordem mental de Deus e a funcionalidade necessitam de explicação. Senão, podemos considerar a ordem do universo, etc, inexplicada.
  4. Muitas vezes, o que parece ser objectivo, onde parece que o objecto X tem o aspecto A por forma a assegurar o fim F, é melhor explicado pelo processo da filtragem: ou seja, o objecto X não existiria se não possuisse o aspecto A, e o fim F é apenas interessante para nós. Uma projecção humana de objectivos na natureza. Esta explicação mecânica da teleologia antecipou a seleção natural, e é de se observar que um século antes de Charles Darwin.
 (Texto extraído da Wikipédia em português)


                                                                                                David Hume

Paley e a Argumentação Teleológica

 
Assim, em especial para a parte destacada anteriormente em negrito, é conveniente lembrar da brilhante frase de Richard Dawkins, zoólogo nascido no Quênia, professor da Universidade de Oxford e divulgador científico: “o relojoeiro é cego”, frase chave que leva ao nome de seu livro “O Relojoeiro Cego” (1986). Este título é uma referência ao, talvez último, grande filósofo natural (Biologia não existia antes da Teoria da Evolução) com nuances criacionistas, William Paley (1743 – 1805), que desenvolveu o chamado o argumento (ou analogia) do relojoeiro, um argumento teleológico pela existência de deus, exatamente observando as espécies de seres vivos.
 
Duas de suas frases: “Conheça o Criador estudando a criação. Conheça o relojoeiro estudando o relógio.”
 


In crossing a heath, suppose I pitched my foot against a stone, and were asked how the stone came to be there; I might possibly answer, that, for anything I knew to the contrary, it had lain there forever: nor would it perhaps be very easy to show the absurdity of this answer. But suppose I had found a watch upon the ground, and it should be inquired how the watch happened to be in that place; I should hardly think of the answer I had before given, that for anything I knew, the watch might have always been there. (…) There must have existed, at some time, and at some place or other, an artificer or artificers, who formed [the watch] for the purpose which we find it actually to answer; who comprehended its construction, and designed its use. (…) Every indication of contrivance, every manifestation of design, which existed in the watch, exists in the works of nature; with the difference, on the side of nature, of being greater or more, and that in a degree which exceeds all computation.

– William Paley, Natural Theology (1802)

(extraído da Wikipédia em sua versão em inglês)

Em suma, o argumento de Paley é que se há um relógio que é encontrado, tem e existir um relojoeiro que o tenha construído, já que algo tão perfeito e complexo como um relógio não pode ser fruto de um conjunto de acasos (ou um único acaso). Desde raciocínio aparentemente correto, Paley estende seu argumento, afirmando que a perfeição e complexidade dos seres vivos também não pode ser fruto do acaso.

O argumento de Paley entretanto é errôneo por dois pontos. Primeiramente, os seres vivos não são o que possa se chamar de perfeitos, possuem órgãos sem nenhuma função útil, estruturas insuficientes e inadequadas que não são perfeitas para as funções que executam, no máximo podemos afirmar que são utilizadas a um nível suficiente (quando não os prejudicam, vide galhas de alces que morrem presos após lutas). Um exemplo seria a dentição das baleias, que se alimentam por filtragem com suas barbatanas. Se alimentam-se por filtragem por estas estruturas, não necessitam dentes, sendo este um desperdício de tecidos e energia.

Pior questão ainda é que o argumento de Paley cai numa “regressão ao infinito”, e neste ponto, Dawkins esgota a questão, assim como muitos pensadores posteriores a Darwin e sua influência, pela Teoria da Evolução, na Biologia e numa argumentação pela capacidade que a natureza tem de produzir estruturas mais complexas a partir de outras mais simples, e o pseudo argumento é: se, para que algo complexo exista, é necessário que um algo ainda mais complexo ou capaz o tenha produzido, ou no caso, para um relógio existir, é necessário que exista um relojoeiro, logo, para que o relojoeiro exista, é necessário que uma divindade o tenha criado. De onde como argumentou Bertrand Russel (“Por que não sou um Cristão”), qualquer criança perguntaria “Quem criou deus?”, e assim, infinitamente.


                                                                                                  Willian Paley


Uma Questão Teológica, em Tomás de Aquino e Aristóteles 

 
Um problema com uma argumentação como a de Paley, e consequentemente uma argumentação pela falácia da poça d’água pelos criacionistas e defensores do DesignInteligente, é que uma possível divindade (aos moldes de Aristóteles e posteriormente em Tomás de Aquino), se onisciente, teria de conhecer todos os passos a serem dados pela sua criação, logo, sua interferência seria desnecessária. Se onipotente, seria contraditória ao não poder ser capaz de criar um obra capaz de se modificar no tempo (o “artesão atrapalhado” da argumentação de Collins).

                                                                                        Tomás de Aquino

Mas esta questão é uma “discussão bizantina”, que não nos levaria a coisa alguma, pois antes disto, necessitamos de um tratamento em Filosofia da Ciência para a questão.
 

Teleologia à Luz da Filosofia da Ciência

 
Quando obervamos a natureza, ao longo dos últimos duzentos anos de uma mais moderna e formal Física, Química, Biologia e demais ciências, observamos que em nível algum uma teleologia se evidencia, e se tal fosse evidente, ainda que fosse, não poderíamos atribuir tal “planejamento” a uma divindade/entidade sobrenatural não detectável (por isso mesmo sobrenatural) não pode ser usada como premissa científica, ou uma hipotese, no que se chama Princípio de Demarcação, como tratado por Karl Popper, e igualmente, não pode ser falseada (nos critérios do que seja Falseabilidade em Filosofia da Ciência).

                                                                                                Karl Popper


Referências

Obs: Ao ser realizada a transferência dos artigos do Google Knol para o Anottum, houve a perda parcial das referências deste artigo. Assim que possível, sua referenciação será recuperada e aprimorada. Contando com sua compreensão, grato.

  1. Adams, Douglas (2002). The Salmon of Doubt: Hitchhiking the Galaxy One Last Time. Edited by Peter Guzzardi (First UK hardcover edition ed.). Macmillan. pp. 131–2. ISBN 0-333-76657-1.
  2. Regner, Anna Carolina Krebs Pereira; A natureza teleológica do princípio darwiniano de seleção natural : a articulação do metafísico e do epistemológico na origem das espécies; Tese de Doutorado; Universidade Federal do Rio Grande do Sul
    www.lume.ufrgs.br
  3. H. Allen Orr; Devolution - Why intelligent design isn’t.
    www.newyorker.com
  4. H. Allen Orr; Darwin v. Intelligent Design (Again)
    bostonreview.net

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