Olho e A Redutibilidade de Sua Complexidade

Um conjunto de notas sobre a evolução dos olhos dos animais.


Neste artigo, trataremos de mostrar que o olho dos animais não é de forma alguma irredutível em sua complexidade, como afirmam os defensores do chamado Design Inteligente, e mesmo entre seres vivos atuais, podemos evidenciar sua composição por partes funcionais.


Criacionistas e defensores do chamado Design Inteligente seguidamente se apegam a uma passagem do livro seminal em evolução, de Charles Darwin, A Origem das Espécies, citando parcialmente uma passagem, muitas vezes distorcida, em que o grande pensador abordou a complexidade do olho:
 

“Supor que o olho com todos os seus dispositivos para ajustar o foco a distâncias diferentes, para admitir quantidades de luz diferentes, e para a correção de aberração esférica e cromática, podia ter sido formado pela seleção natural parece, confesso livremente, absurdo no mais alto grau. Quando foi dito pela primeira vez que o sol estava parado e o mundo girava à sua volta, o senso comum da humanidade declarou que essa doutrina era falsa; mas conforme todos os filósofos sabem, em ciência não se pode confiar no velho lema Vox populi, vox Dei. A razão diz-me que se for possível mostrar que existem numerosas gradações desde um olho simples e imperfeito até um olho complexo e perfeito, cada gradação sendo útil para o seu possuidor, como certamente é o caso; se, além disso, o olho alguma vez variar e as variações forem herdadas, como certamente também é o caso; e se tais variações forem úteis para qualquer animal sob condições de vida em mudança, então a dificuldade em acreditar que um olho perfeito e complexo podia ser formado por seleção natural, embora insuperável pela nossa imaginação, não devia ser considerada como subversiva da teoria.”

Charles Darwin, The Origin of Species (A Origem das Espécies), 1859, p. 133
 
Para uma leitura em português, recomendamos: Google Livros –
 
Apresentaremos diversos olhos na natureza, em ordem crescente de complexidade.

           Olho da atriz Megan Fox

Corpúsculo sensível à luz

 
Dentre as estruturas mais simples que detectam luz na natureza estão as “estigmas” das Euglenas, que são apenas corpúsculos celulares (as euglenas são unicelulares) sensíveis à luz. 

                                        Euglena e seu estigma (editado de www.infovisual.info e scienceblogs.com).

Esta percepção da luz já por um organismo tão simples como a euglena já lança bases sobre o entendimento do que seja a mente e a consciência nos animais.



                                    Euglena e seu comportamento em relação à luz (editado de light.simanonok.com).[1]

Mancha pigmentada



Ou também ocelo, trata-se apenas de um pequeno conjunto de células sensíveis a luz na superfície de um animal, como nos platelmintos. Estes conjuntos de células são capazes de detectar a intensidade e direção da luz, mas são incapazes de produzir imagens.



                                                                Um platelminto (Ken Knezick – www.divetrip.com

Olhos da Platynereis dumerilli

 
Os olhos do anelídeo marinho Platynereis dumerilli, que há aproximadamente 500 milhões de anos não sofre modificações evolutivas significativas apresenta uma difenciaçãoo celular que já propicia a base do que serão os olhos dos vertebrados, nos nossos cones e bastonetes, células responsáveis por nossa visão.[2][3][4]

                                                                Editado de P.Z. Myers; Rhabdomeric and ciliary eyes.



                                                     Platynereis dumerilli (experimentemos.files.wordpress.com).

“Taça” simples pigmentada

 
Ocorre quando um conjunto de células sensíveis à luz aprofunda-se no corpo do animal formando uma depressão (daí o formato de taça) como nos olhos de alguns platelmintos. O formato de uma depressão possibilita ao animal detectar objetos pelo ângulo de incidência da luz.



                                                                                    Planária (www.biol.vt.edu

“Taça” simples ótica

 
A depressão desenvolve-se em uma cavidade, formando uma “taça” de bocal estreito, tal como nos olhos do gastrópode abalone. O incremento da cavidade e seu fechamento propicia ao animal o correspondente aumento da precisão na detecção do ângulo de incidência  da luz.



                                                                                  Abalone (www.divegallery.com).

Abertura “furo de pino”

 
Quando a abertura da cavidade torna-se menor ela forma um orifício (permitindo a construção de uma “câmara escura”) tal como o olho do molusco nautilus. Esta aberturam produz pelo seu efeito uma imagem mais apurada e aumenta a capacidade de detectar o ângulo de incidência da luz, além de permitir a detecção de fontes mais fracas de luminosidade. 


                                            Nautilus e detalhe de seu olho (www.manandmollusc.net e www.iobis.org).


Olho com lente complexo

 
Parte do líquido transparente que preenche o olho torna-se mais denso e forma uma lente. A imagem torna-se ainda mais precisa. Este tipo de olho é encontrado nas lesmas do mar e nos polvos.




                                                Polvo e detalhe de seu olho (img.dailymail.co.uk e www.octopusactivist.org).

Olho dos mamíferos

 
As modificações do olho anterior continuam e formam lentes mais oticamente eficientes e aberturas adequadas a passagem de luz como a íris e chega-se aos olhos dos mamíferos terrestres, com sua percepção de imagens superior. 




                                                    O olho do elefante, que coincidentemente, não é uma amostra de
                                                                 qualidade no trabalho do “designer” (Wikipedia).

Os olhos das aves são igualmente complexos, e apresentam “óticas duplas”, permitindo regiões com ampliações e morfologias de suas “câmaras escuras” diversas do esférico.[5]


                                                            Olho de águia, editado de www.learner.org[6] 



                                                As aves de rapina e sua visão, com grande sensibilidade a movimentos 
                                                                                   (imgsrv.973theeagle.com).

O olho básico, com suas estruturas, que hoje está presente com variações em todos os vertebrados já estava presente no considerado primeiro vertebrado pela maior parte dos autores, o Haikouichthys.[7]


                                                                            Haikouichthys (www.prehistoriclife.net).

Por fim, alguns vídeos sobre a evolução do olho:
 

 

The evolution of eyes
(Este, com a participação do grande Stephen Jay Gould. )

 

Com apresentação de Richard Dawkins, com computação gráfica mostrando a evolução das estruturas celulares responsáveis pela visão e destacando a importância d curvatura na detecção de direção da luz incidente:
 


Referências

Obs: Ao ser realizada a transferência dos artigos do Google Knol para o Anottum, houve a perda das referências deste artigo. Assim que possível, sua referenciação será recuperada e aprimorada. Contando com sua compreensão, grato.


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