Falácia de Hoyle

Outra falácia usada contra a evolução dos seres vivos


Um quadro dos erros do grande físico ao tratar de questões biológicas e apresentar um argumento contra o processo evolutivo dos seres vivos.


Quem foi Hoyle

 
Fred Hoyle (1915-2001) foi um grande físico, e sua contribuição à Astrofísica e a muito da Física Nuclear é de suma importância, em especial no artigo fundamental da moderna Astrofísica no tratamento dos processos estelares, o chamado artigo B2FH.[1]



Mas quando tratou da biologia, em especial da polimerização das proteínas e o relacionamento desta questão com a Teoria da Evolução e o fato da evolução dos seres vivos, foi desastroso.
 

O “argumento” 

 
A frase que destaca-se em sua argumentação é “a tornado sweeping through a junk-yard might assemble a Boeing 747 from the materials therein.” (um tornado varrendo um depósito de lixo possa fabricar um Boeing 747 a partir dos materiais lá disponíveis).[2]

                                            Um avião Boeing 747, obviamente uma máquina extremamente complexa.

Assim, ele afirmava que uma sequência de áminoácidos não poderia jamais ter se ordenado na sequência que é necessária para formar uma proteína útil a qualquer ser vivo (consequentemente, nenhum ser vivo poderia ter se formado a partir da ordenação de bases nitrogenadas em seu DNA).
 
A assim chamável falácia de Hoyle é uma das mais constantes críticas anti-darwinistas pelos criacionistas, tanto os biblicistas quando os propositores do chamado Design Inteligente (D.I.).
 
Um histórico do uso deste argumento por criacionistas e “DI’stas” (como costumamos nos referir aos defensores do D.I. pode ser visto em site de Gert Korthof, no artigo “A memorable misunderstanding” (”
Um engano memorável”).[3]
 

Chandra Wickramasinge, um companheiro de pesquisas de Hoyle, teceu o seguinte comentário, incorrendo nos mesmo erros:

Ao contrário da noção popular de que só o criacionismo se apóia no sobrenatural, o evolucionismo deve também apoiar-se, desde que as probabilidades da formação da vida ao acaso são tão pequenas que exigem um ‘milagre’ de geração espontânea equivalente a um argumento teológico

František Vyskočil professor de Fisiologia e Neurobiologia na Universidade Charles, renovou o argumento para o caso específico da evolução de bactérias:

catraca de Muller cai por terra pois bactérias simples podem se dividir em média a cada 20 minutos e conter muitas centenas de proteínas , cada uma com 20 tipos de aminoácidos organizados em cadeias que podem ter centenas de elos .Para que essas bactérias simples evoluissem por meio de mutações benéficas, uma de cada vez, levaria muito mais que 3 ou 4bilhões de anos, o mesmo tempo que os cientistas acreditam ter vida na terra. (Despertai! Novembro de 2010)
 
Um tratamento específico sobre este artigo de František Vyskočil pode ser visto em The Atheist Geek;
 
 

Questões bioquímicas

 
O problema maior do argumento de Hoyle é que os aminoácidos, assim como as bases nitrogenadas que compõe o DNA, não se organizam ao acaso, produzindo um ser vivo qualquer, mesmo a mais simples bactéria.
 
Em uma descrição mais modelar, mais matemática da questão, partiremos de um ser vivo e sua carga genética (igualmente poderíamos considerar isto para proteínas e seus aminoácidos constituintes):
 
AAAAAAAAAA
 
Aqui, a letra A não representa a adenina,e sim um conjunto, como se fosse um gene, ou um aminoácido qualquer. Numa próxima geração, (que vai se dar após inclusive algumas gerações), podem surgir indivíduos que tenham outra carga genética (ou produzam uma proteína diversa) e até de dois tipos:
 
AAAAAAAAAB
 
AAAAAAAABA
 
Digamos que o segundo tipo acima não sobreviva, e não deixe descendentes, logo, do primeiro indivíduo, pode surgir uma ou mais gerações como as seguintes:
 
AAAAAAACAB
 
AAAAADAAAB
 
E assim o processo continua, geração após geração, até resultar por exemplo em:
 
ABADBCADFA
 
Deste processo, que inclui inclusive aumentos do comprimento da cadeia, ou mesmo sua divisão, como ocorre no DNA, mais uma vez por modelos simplificados,
 
ABADBCADFADBCA
 
ou
 
ABADBCA + DFADBCA
 
resultam todos os seres vivos da Terra, até prova em contrário, com bioquímica divergente, gerando variabilidade, destacadamente no DNA.
 
 

L.U.C.A.

 
Assim, a partir de um primeiro organismo, um último ancestral comum universal (L.U.C.A., do inglês last universal common ancestor)[4] formado a partir de poucas moléculas simples, por biopoese (do grego bio, vida, mais poiéo, produzir, fazer, criar), chegamos a todos os seres existentes (e suas proteínas), e não, ao acaso, por livre associação de moléculas simples, formando qualquer ser vivo complexo (mesmo uma bactéria)[5], nem muito menos suas proteínas, que são, inclusive ordenadas em sua polimerização de aminoácidos a partir de outras proteínas (enzimas) e a coordenação de DNA e RNA.


                                                                        Molécula do DNA (blog.cmdmc.com.br

Tratamento do “argumento” por autoridades

 
O zoólogo e autor de divulgação científica Richard Dawkins demonstra exaustivamente porque é uma falácia aos olhos da Biologia e da Bioquímica nos seus livros “O Relojoeiro Cego” (que trata pelo próprio título também do argumento do relojoeiro de Paley) e em “Escalando o Monte Improvável”, que no título já descreve que o processo evolutivo é um acúmulo de modificações, e não um resultado fortuito e determinável de um único lançamento. Principalmente, numa argumentação que é válida para o tratamento recente por parte de František Vyskočil, é que não se dá na descendência de um único indivíduo, e sim, numa população, que para praticamente qualquer ser vivo, possui milhares de indivíduos, intercambiando suas alteraçoes genéticas pelas gerações, e no caso específico de bactérias e diversos outros seres assexuados, atinge trilhões de indivíduos.
 

Ian Musgrave (PhD em Farmacologia) trata em “Lies, Damned Lies, Statistics, and Probability of Abiogenesis Calculations” (aproximadamente “Mentiras, mentiras amaldiçoadas, estatísticas, e probabilidade de cálculos de Abiogênese” * )[6], em artigo no site www.talkorigins.org com abundantes referências:

 
“Essas pessoas, inclusive Fred (Hoyle), cometeram um ou mais dos seguintes erros:
 
  1. Calcularam a probabilidade de formação de uma proteína “moderna”, ou até mesmo de uma bactéria completa com todas as proteínas “modernas”, por eventos aleatórios. Essa idéia não tem suporte algum na teoria abiogênica.
  2. Supõem que há um número fixo de proteínas, com sequências fixas, que sejam necessárias para a vida.
  3. Calculam a probabilidade de tentativas em sequência, em vez de simultâneas.
  4. Não compreendem o que se entende por um cálculo de probabilidades.
  5. Subestimam seriamente o número de enzimas funcionais/ribozimas presente em um grupo de sequências aleatórias.” (tradução disponível na Wikipédia em português)
      * Uma tradução para o português deste artigo pode ser encontrada em CesarAKG.
       
      O paleontólogo e autor Niles Eldredge observa que nós sabemos que processos naturais não podem produzir um Boeing 747 porque extrair alumínio de minérios é um processo executado pela ação do homem em processos que só o homem na Terra pode realizar, mas a analogia de Hoyle simplesmente assume na ausência de provas que os processos naturais não podem produzir a complexidade até superior a de um avião nas células.[7]
       
      Brain Charlesworth, biólogo, aponta que a origem das primeiras proteínas, assim como do primeiro DNA e mesmo as primeiras células são um tanto diferentes em fenomenologia que a seleção acumulativa de mutações em poucos pontos dos atuais organismos, e portanto, a evolução de uma forma de vida complexa para outra não pode ser comparada por uma analogia como a de Hoyle, e portanto uma argumentação contra a evolução por esta analogia é inadequada.[8]
       
      John Maynard Smith, biólogo, discute o argumento de Hoyle e faz uma pergunta: “What is wrong with it? Essentially, it is that no biologist imagines that complex structures arise in a single step.” (“O que está errado com isto? Essencialmente, é que nenhum biólogo imagina que estruturas complexas apareçam em um único passo.”).[9] Maynard foi um especialista em utilizar a teoria dos jogos como ferramenta matemática para explicar e modelar determinados fenômenos evolutivos.[10]
       

      Referências


      1. Artigo B²FH
        pt.wikipedia.org
      2. GEORGE JOHNSON; Bright Scientists, Dim Notions
        www.nytimes.com
      3. Gert Korthof; "A memorable misunderstanding" - Fred Hoyle's Boeing-story in the Evolution/Creation literature
        home.planet.nl
      4. Last universal ancestor
        en.wikipedia.org
      5. Bernal, J.D., (1951). "The Physical Basis of Life". Routledge and Kegan Paul, Londres.
      6. Lies, Damned Lies, Statistics, and Probability of Abiogenesis Calculations - An explanation at the TalkOrigins Archive by Ian Musgrave Last Update: December 21, 1998
        www.talkorigins.org
      7. Niles Eldredge (2000): The triumph of evolution, p.141.
      8. Brian Charlesworth (2002): Evolution by design?, Nature, 418, 129, 11 July 2002.
      9. John Maynard Smith (1986): The Problems of Biology, p.49.
      10. John Maynard Smith
        en.wikipedia.org

      Comments