Refutações ao Design Inteligente

Argumentos e evidências contra a ação de um "designer" no processo evolutivo


Neste artigo, compilaremos argumentações e evidências científicas, e as referenciaremos, contra as afirmações de que algumas das estruturas moleculares presentes nos seres vivos tenham de ter sido construídas por um “designer”.


Introdução 

 
A evolução da complexidade química é uma velha questão da biologia evolutiva. Embora não exista controvérsia sobre se esse sistema evoluiu, a questão para os cientistas torna-se como ele teria evoluído.
 
De acordo com a teoria darwiniana, a complexidade evolui por um processo em etapas de elaboração e otimização sob a seleção natural. Sistemas biológicos compostos de partes complexas e intimamente integradas desafiariam esta visão, porque não é óbvio como qualquer elemento de tal função pode ser selecionado a menos que os demais componentes com que interage estiverem já presentes.
 
Os céticos do processo evolutivo dos seres vivos questionam como uma progressão de pequenas mudanças poderiam produzir os mecanismos intrincados encontrados nas células vivas, afirmando o que seria uma “complexidade irredutível”, segundo a qual o maquinário celular é complexo demais para ter evoluído gradualmente, pois não pode ser reduzido a seus componentes moleculares.
 
Sobre este questionamento, usam da falácia do apelo à ignorância (argumentum ad ignorantiam), partindo de uma incredulidade pessoal (“eu não acredito que a evolução produza isto”) e afirmam que se não temos explicação para tais processos geradores de tais sistemas, “então” existe a ação de um designer externo aos seres vivos, que constrói tais sistemas químicos, pois tem de agir sobre estes, para modificá-los. Deve-se notar que aqui, ao invés de provar a existência do designer, como a ciência normal tentaria fazer, por meio de claras evidências, observações, experimentação e reprodutibilidade destas, os proponentes do DI tentam achar falhas, lacunas, na teoria da evolução, como se ao invalidar um, automaticamente validasse o outro.
 
Complementando-se, pode-se apontar que a falha no raciocínio de Behe neste campo, em ser um apelo à ignorância, é que ele está partindo de uma argumentação negativa, ou seja: segundo ele, se A não é possível, então B automaticamente é verdade, quando na verdade não é assim que se faz ciência, pois ao invés de provar B, ele tenta provar que A não é possível. Esta argumentação é tão absurda que seria o equivalente a dizer que se a Terra não é plana, então ela pode ser (ou ainda “tem de ser”) cônica, pois Behe e outros, aqui, exercitam o mesmo raciocínio, quando tomam que se a evolução não ocorre em seus exemplos específicos, então só pode ter sido um designer, eliminando qualquer outra possibilidade.[1]
 
Estudos que apresentem que estruturas químicas complexas podem evoluir a partir de partes mais primitivas, independente de integração inquebrantável entre elas refutam a tese da complexidade irredutível invocada pelos criacionistas.
 
Com o processo na paleontologia de reconstrução da carga genética de animais extintos, recentemente tem-se demonstrado o processo gradual pelo qual a evolução produz novas peças do maquinário molecular das células ao reutilizar e modificar partes já existentes.[2][3]

 

A argumentação de Orr

 
H. Allen Orr é um genetista evolutivo estadunidense, professor no departamento de Biologia da Universidade de Rochester. Sua argumentação, segue, basicamente, pela análise das premissas do raciocínio de Behe, um dos expoentes do Design Inteligente, expostas em seu livro [4] mostrando seu argumento é simplesmente errôneo, mostrando que ele não conseguiu descobrir qualquer fato revelador de erros sobre a evolução por mecanismos darwinianos, ou que ele não conhece a bioquímica, mas que o seu argumento – como um argumento – e filosoficamente falando, em suas bases lógicas, é fatalmente errôneo.[5]


Inicia esta explanação apresentando claramente quais tipos de soluções para a complexidade irredutível não estariam abertos à evolução por princípios darwinianos.
 

A complexidade redutível

Primeiramente, Behe é julgado por Orr como não fazendo bem em sugerir que todas as partes necessárias de algumas rotas bioquímicas surgiram simultaneamente por mutação. Embora esta “solução” gera um sistema de funcionamento de uma só vez, alerta que seria tão provável que nenhum darwinista a levaria a sério. Como Behe diz em seu próprio livro, e com razão, não ganha-se nada com a substituição de um problema por um milagre. Em segundo lugar, pode-se pensar que algumas das partes de um sistema irredutivelmente complexo evoluiram passo a passo para algum outro propósito e foram então incorporadas por atacado para uma nova função. Mas isso também é improvável. Pode-se também esperar, fazendo analogias com componentes mecânicos, que metade da transmissão de um carro, de repente, ajude no mecanismo do airbag. Essas coisas poderiam e podem acontecer muito raramente, mas certamente não oferecem uma solução geral para a complexidade irredutível.

Orr afirma que o erro (e usa o termo “colossal”) de Behe é que, ao rejeitar-se estas possibilidades, ele conclui que permanece que não há solução dentro das afirmações da evolução darwiniana. Mas há, e as apresenta, em sua lógica: Um sistema irredutivelmente complexo pode ser construído gradualmente pela adição de peças que, embora inicialmente apenas vantajosas, por causa de alterações posteriores, tornam-se essenciais. Em mais detalhes, se uma parte (A) inicialmente faz algum trabalho (e até não a faça com alta eficiência, talvez), e outra parte (B) depois é adicionado, ajudando A a exercer sua função. Esta nova peça não é essencial, limita-se a apenas melhorar as funções. Mas, mais tarde, A (ou qualquer outro componente do sistema) pode mudar de tal forma que B agora se torna indispensável. Esse processo continua com peças a mais acrescentando-se ao sistema. E no final do período, muitas peças podem ser todas necessárias.

O ponto é que não há nenhuma garantia que as melhorias permanecerão melhorias simples. Certamente porque as alterações sendo posteriormente construídas sobre os anteriores, não há qualquer razão para pensar que refinamentos anteriores, não possam ser necessários.

 
Exemplificando no biológico, a transformação de bexigas de ar para os pulmões, que possibilitou aos animais respirarem oxigênio atmosférico foi inicialmente apenas vantajosa: tais bestas podiam explorar nichos abertos, como a terra seca, que não estavam disponíveis para os seus pares carentes de pulmões. Mas como a evolução construída sobre essa adaptação (membros modificando para caminhadas, por exemplo), nós crescemos completamente terrestres e pulmões, por conseguinte, já não são luxos, são essenciais. Embora este processo seja completamente darwiniano, muitas vezes resultam em um sistema que é irredutivelmente complexo.
 
Orr termina este segmento de sua argumentação concluindo que a reivindicação chave de Behe de que todos os componentes de um sistema irredutivelmente complexo “tem que estar lá desde o começo” está redondamente enganada.


                                      Dipneusti, um filo de peixes pulmonados, pela mesma argumentação de Behe, ele não pode ser mais destituído de seu pulmão, 
                                        pois não possui brânquias, mas tal não implica em que não possa ter primeiramente desenvolvido os pulmões e posteriormente, 
                                                                                                        perdido as brânquias (indianetzone.com).


Por argumentação semelhante, os ovos de “casca seca”, como os dos répteis e aves, e até alguns mamíferos, foram vantajosos para ocupar-se terra seca, e não depender mais de massas de água para sua postura. Tornou-se, para estes animais, essencial. Mas igualmente, as estruturas de útero e placenta, tornou-nos dependentes para nossa reprodução (e consequente sobrevivência) de tal complexidade, dispensando-nos dos ovos. Igualmente, a amamentação e suas estruturas, com a exceção dos humanos, que exploram a produção de leite de outras espécies, obviamente.

Orr apresenta que este cenário não é hipotético nem confinado ao mundo muitas vezes irrecuperável da história biológica, e guarda analogia na programação de computador. Programadores sabem como é fácil escrever-se detalhes: uma mudança que faz com que melhore-se a eficiência pode tornar-se, após novas mudanças, indispensável. As melhorias podem ser feitas numa linha de código em um momento e, em todas as fases, o programa faz seu trabalho. Mas, no final, todas as linhas podem ser necessárias. Esta analogia com programação capta outro ponto importante: Se fosse para entregar-lhe o programa final, é inteiramente possível que não seríamos capazes de reconstruir sua história, qual linha foi adicionada por último e que, em uma versão anterior, alguma outra linha estava entre outras duas. Na verdade, porque o próprio ato de revisão de um programa tem uma maneira de aniquilar pistas para a sua história, pode ser impossível reconstruir o caminho percorrido. Da mesma forma, não temos garantia de que podemos reconstruir a história de uma rota bioquímica. Mas mesmo se não pudermos, a sua complexidade irredutível não pode contar contra a sua evolução gradual da mesma forma que a complexidade irredutível de um programa faz, ou seja, não no todo.

O crédito para este modelo darwiniano de complexidade irredutível foi sugerido pelo geneticista H.J. Muller em 1918 e trabalhado em alguns detalhes, em 1939.[6] Na verdade, Muller (Prêmio Nobel em 1946) dá razões para pensar-se que os genes que, em função melhorada, primeiro rotineiramente tornam-se partes essenciais de um percurso. Assim, a evolução gradual dos sistemas irredutivelmente complexos não é só possível, como é esperada.


Hermann Joseph Muller.

Embora o ensaio de Muller não seja conhecido como deveria ser, a essência da sua idéia é conhecimento comum em biologia evolutiva, e os evolucionistas moleculares tem demonstrado que alguns genes são as duplicações de outros. Em outras palavras, em algum ponto do tempo uma cópia extra de um gene foi feito. A cópia não era essencial, o organismo tem vivido, obviamente, muito bem sem ele. Mas com o tempo esta cópia modificada, pegando uma nova função e, muitas vezes relacionada. Depois de mais evolução, este gene duplicado terá se tornado essencial. (Nós estamos carregados de duplicação de genes que são necessários: a mioglobina, por exemplo, que carrega oxigênio nos músculos, está relacionado com a hemoglobina, que transporta o oxigênio no sangue, e ambos são necessários..) A história de duplicação de genes, que podem ser encontrados em cada texto sobre evolução é apenas um caso especial da teoria de Muller. Mas é um caso extremamente importante: ele explica como surgem novos genes e, assim, finalmente, como são construídas as rotas bioquímicas.

 
Pode-se dizer que a duplicação foi prevista pelo geneticista quase um século atrás (Muller 1918, 463-464 [7]), porém ele chamou de “complexidade interconectada” (Muller 1939 [8]).[1]

Orr observa que Behe não explica os genes duplicados, e relutantemente admite que genes diferentes têm muitas vezes seqüências similares, até admitindo que alguns genes na coagulação do sangue (um dos focos de Behe) são similares.[9] Mas Behe recusa-se a tirar a conclusão óbvia: alguns genes são cópias dos outros, dando a entender, na avaliação de Orr, que Behe acha que sua semelhança seja uma mera coincidência, pois se admitir que um gene é uma cópia de outro, teria de admitir que a cópia foi feita em algum ponto no tempo e, portanto, que o organismo sobreviveu sem problemas sem ele. Mas isto implica que tais sistemas podem surgir passo a passo. Behe evita essa conclusão no julgamento de Orr apenas por fraude pura, marcando a duplicação de genes como “uma hipótese”, deixando a similaridade dos seus genes favoritos inexplicável.


                            Sempre que um sangramento ocorre em qualquer parte do corpo, todas as proteínas responsáveis pela suspensão do sangramento 
                            imediatamente viajam para o tecido lesado. A coagulação, que se realiza com a colaboração de um grande número de proteínas, 
                                é um processo afirmado como irredutivelmente complexo que não pode ser explicado pela evolução, segundo Behe e outros 
                                                            (www.nationalacademyofsciencesrefuted.com, curiosamente, um site criacionista).


A questão da verdadeira complexidade

 
Orr coloca também em análise as afirmações de Behe quando este alega que as provas para o projeto tem que aguardar a nova ciência da bioquímica, sem, no entanto, explicar o que haveria de tão especial sobre a bioquímica. Deixa claro Orr que as moléculas fornecem alguns exemplos agradáveis de complexidade irredutível, mas que este critério de complexidade pode ser encontrado em outros níveis da vida. Cita, por exemplo, o coração, que no humano e outros mamíferos é construído de uma bomba e válvulas. Ao se remover qualquer um destes componentes a morte é a decorrência. Mas Behe parece deixa claro que apenas os exemplos moleculares são os válidos, alegando que é preciso analisar os sistemas moleculares para a evidência de design“, mas a seguir, ele assegura que a descrição do teólogo William Paley do coração como algo irredutivelmente complexo estava certa, sendo, assim, contraditório. A questão é que se o exemplo de Paley é “exatamente correto”, a bioquímica seria dispensável.
 
O exemplo do coração é considerado inválido num momento por Behe certamente porque ele sabe perfeitamente que o coração apresenta uma graduação clara de complexidade desde os vermes até os mamíferos, passando pelos peixes, anfíbios, répteis e aves, e entre os crocodilianos, a amostra do coração mais complexo da natureza, em sua operação conjunta com um complexo sistema respiratório e circulatório.[10]

                                                O complexo coração dos crocodilianos e seu funcionamento variável, possibilitando poupar a irrigação do pulmão, 
                                                    quando não há mais oxigênio a extrair, aumentando sua capacidade de permanecer sob a água.[11]


Orr encerra esta etapa de seu argumento colocando que não necessitaríamos da bioquímica caso a complexidade irredutível, por exemplo do coração, se sustentasse, pois se a anatomia não derruba o darwinismo, a bioquímica não o poderia, igualmente fazer.
 
Orr coloca que a tentativa de Behe para explicar o que há de tão especial sobre as moléculas só atira-nos para mais confusão. Ele sugere que os exemplos bioquímicos são melhores porque são mais simples, claro. Mas eu, por exemplo, tenho dificuldade em conciliar isto com o argumento principal de Behe, a alegação de que a bioquímica é muito, muito complicada. Eu suspeito que a verdadeira razão bioquímica de Behe acha-se tão especial que ele confundiu dois sentidos de “reduzido”. A complexidade irredutível é uma propriedade formal de um sistema, não tendo nada a ver com sua dimensão física (o trivial tamanho). Pode-se dizer que não se pode “reduzir” a função do sistema às suas partes, se eles são necessários. Mas, se quisermos, podemos sempre “reduzir” um tal sistema em seus mínimos componentes moleculares e peças (o coração é feito de miosina, etc). Quando Behe mostra preocupações de que uma estrutura anatômica é feita de muitas moléculas diferentes é difícil saber se ele é irredutivelmente complexo, ou se ele misturou esses dois sentidos do redutível.


                           A ratoeira, analogia inadequada de Behe para o que seja a complexidade irredutível no bioquímico. 


Não há absolutamente nenhuma razão para pensar que temos mais verdadeira complexidade irredutível na escala micro que na macro. Isto é perfeitamente claro pelo próprio exemplo de Behe: ao ver que uma ratoeira é irredutivelmente complexa, não temos de trabalhar a sua química (pouco interessa, por exemplo, que a haste que esmaga o camundongo é de aço ou latão, desde que exerça sua função). Permanece irredutivelmente complexo se feita de um tipo de molécula ou um milhão delas. O resultado é que grande pretensão de Behe na bioquímica que coloca alguns desafios qualitativamente novos ao darwinismo simplesmente não faz sentido. A vida é de complexidade irredutível em todas as suas escalas e seus estados de apresentação, que podem ser, perfeitamente, a seu atual estado no tempo, fruto da evolução, como o nosso coração, que evoluiu de coração de amniota, não muito diferente de um coração de um réptil atual (e encontra evidências na própria genética[12][13][14]), que por sua vez, evoluiu de um coração de um anfíbio, e este de um peixe.



                    Esquemas dos corações de um peixe (1), de um anfíbio (2), de um réptil (3) e de uma ave ou mamífero (4)  
                      (Editado de Evolution of the Heart Over Time - Projects by Students for Students – library.thinkquest.org).



                                    Esquemas comparativos dos corações e o básico do sistema circulatório de anfíbios,
                                            tartarugas (um réptil) e aves e mamíferos (www.coolcompanions.com.au). 



                            Esquemas da morfologia do coração de diversos cordados e até a alteração relacionada à 
                                  mesma genética que propicia uma anomalia humana (www.coolcompanions.com.au).


O trato errôneo sobre o que seja “complexidade” pode levar a confusões, mesmo em áreas não biológicas, como até no trato da matéria, como na Física e na Química. Fios de carbono, nanofios, são de uma simplicidade geométrica característica, e uma composição que pode beirar ao 99,99…% de carbono puro, a depender de sua produção. Mas podem formar, no macro, as mais complexas geometrias que a topologia e o engenho humano puder imaginar. 


                                                                            Nanotubos de carbono e um fulereno.


Por outro lado, gelatina, como quando moldada na forma de um tronco de cone, como um copo de plástico, é extremamente simples, pois a definimos como homogênea, como toda gelatina, e quanto a sua forma, num simples sólido geométrico sem nenhuma reentrãncia, topologicamente simples. Mas quimicamente, sendo um gel de uma proteína, de peso molecular de centenas de milhares de átomos e um polímero de aminoácidos, é de uma complexidade extrema. Assim, o que seja complexidade passa por uma questão de valor atribuído pelo humano. As coisas na natureza, à plena análise, não são simples nem complexas, mas sim, regiões de agregação, até o que se conceitua pelo simples termo “agregado”. As coisas são, pois, compostas, e não especificamente o que se possa dizer “complexas”.



                                                                        Proteínas e suas complexas estruturas. 

Behe oferece-se ainda outra contradição quando nos diz que ele considera a descendência de todas as espécies de um ancestral comum “bastante convincente”, mas que ele não está tão certo sobre a macroevolução. Mas a macroevolução é o processo de ‘obtenção’ de espécies a partir de um ancestral comum. Nas palavras de Orr, ”não se pode acreditar na cerveja sem que se acredite no cervejeiro”, sendo estranho que Behe parece entender o significado das duas palavras. Ele afirma coisas coerentes sobre a descendência comum e, em seguida, sobre a macroevolução, mas simplesmente não vê que os dois conjuntos de declarações são absolutamente contraditórios.

O autor  J. A. Coyne, também enfatiza que a teoria de Behe não é falseável: Como Behe admite tanto a evolução e design, a prova de que uma via bioquímica foi construída gradualmente, não pode ser evidenciada. Ele pode sempre alegar que alguma outra via foi projetada.[15]
 
Por último, em uma das passagens mais estranhas de seu livro, Behe especula que o designer, desde a “célula primária”, com todos os genes de organismos modernos poderiam precisar (ou seja, como se uma bactéria possuísse desde tempos remotos os genes para os centros da fala humana). Se uma linhagem não precisa de genes, eles perdem-se ou silenciam-se (inativam-se). Essa noção deixa muito da evolução molecular inexplicável ao ponto que é difícil saber por onde começar. Aqui tem-se apenas um problema que surge ao se constatar que apesar de alguns genes que são mortos ou silenciados ao longo do tempo (para produção de ”pseudogenes” não-funcionais), teriam de carregar pseudogenes que são destruídos nas cópias de nossos genes reais. Noutras palavras, teríamos de ter um motivo para carregar, como animais, pseudogenes de clorofila ou a estrutura de flores, nos exemplos de Orr.
 
Os humanos, por sua proximidade com os outros primatas, possuirem genes associados as caudas dos macacos é um argumentos razoável, assim como as galinhas possuirem genes dos dentes dos dinossauros, assim como todas as aves os genes das caudas destes, ou de suas visíveis escamas nas patas. Mas os mamíferos todos não necessitam ter os genes dos chifres das vacas, ou das garras retráteis dos felinos, também animais com proximidade. O autor ainda soma com exemplos de absurdos, como pseudogenes de azaléias para as células do cérebro. Behe aqui apresenta uma hipótese que é categoricamente falsa por este e todos os padrões já conhecidos da evolução molecular.
 
Orr coloca que tais non sequitur não são fatais para o argumento central de Behe, mas eles o traem com uma confusão notável, ou ainda pior, uma tendência forte para ver o que ele quer, e desprezar as contradições.
 


Questões adicionais

 
O site Ceticismo.net compila mais algumas questões complementares à esta argumentação, correlatas com os argumentos evolutivos de Orr, da qual esta parte deste artigo é uma edição apenas referenciada e com mínimas adições e correções, além de links.[1]
 
Se dentro da argumentação de Behe é chamado de irredutivelmente complexo um sistema que perde sua função se uma de suas partes for removida, isso significa apenas que um sistema não pode ter evoluído pela adição de partes prontas, que nunca alteram sua função. Isso ainda deixaria livres muitas outras possibilidades evolucionárias, tais como:
 
  • Deleção de partes;
  • Adição de múltiplas partes, por exemplo, a duplicação de grande parte ou da totalidade do sistema (Pennisi 2001 [16]);
  • Mudanças de funções;
  • Adição de uma segunda função para uma das partes (Aharoni et al 2004 [17]);
  • Mudanças graduais das partes.
 
Todos esses mecanismos tem sido observados em mutações genéticas, inclusive a deleção e a duplicação genética são considerados bastante comuns (Dujon et al. 2004 [18]; Hooper and Berg 2003 [19]; Lynch and Conery 2000 [20] e Pennisi 2000 [21]), e tornam a complexidade irredutível não apenas perfeitamente possível, mas também esperável.[1]
 

O site Ceticismo.net aponta ainda outra falha na argumentação de Behe, já que alguns sistemas apontados por ele como irredutivelmente complexos na verdade não o são. Muitos deles podem manter sua função, apesar de não tão bem, sem várias de suas partes, como por exemplo, exatamente no seu modelo mais fundamental de algo irredutivelmente complexo, a ratoeira, apresenta-se como funcionando mesmo sem sua base, sem a isca ou até outras partes normalmente consideradas como necessárias a seu funcionamento (poderíamos citar a mola, substituível por uma tensão na haste, de outra natureza).

Trabalhos recentes sobre a auto-organização de reações químicas põe em xeque a análise de Behe das origens da complexidade bioquímica. Em xeque também é colocado que determinadas estruturas bioquímicas deixam de funcionar se as peças essenciais estão ausentes, pela observação de que típicos sistemas bioquímicos exibem considerável redundância e a sobreposição de função, em sistemas bioquímicos atuais, manifestando complexidade redundante, um resultado característico dos processos evolutivos.[22]
 

A argumentação de Massimo Pigliucci

 

Massimo Pigliucci é professor adjunto de biologia evolutiva e filosofia na Universidade de Stony Brook, em Nova York, um membro da Associação Americana para o Avanço da Ciência, e autor de Denying Evolution: Creationism, Scientism, and the Nature of Science (Negando Evolução: Criacionismo, Cientificismo e a Natureza da Ciência). Seus ensaios podem ser encontradas em rationallyspeaking.org.

A argumentação que segue é uma tradução comentada de seu artigo:

Massimo Pigliucci ;
Design Yes, Intelligent No: A Critique of Intelligent Design Theory and Neocreationism;
Volume 25.5, September / October 2001


Pigliucci inicia apresentando que as reivindicações por Behe, Dembski e outros criacionistas do “design inteligente”, de que a ciência deve ser aberta a explicações sobrenaturais e que estes devem ser autorizados nos currículos escolares acadêmico, bem como do público são infundadas e baseadas em um engano de tanto o design na natureza e de que a teoria neodarwinista da evolução é tudo que necessita-se para tratar o tema. Pigliucci não trata de que explicações sobrenaturais em ciências naturais são necessariamente uma violação do que seja o princípio de demarcação.

Entre os principais expoentes da dita teoria do Design Inteligente (DI), já que assim este novo tipo de criacionismo é chamado, é William Dembski, um filósofo matemático e autor do livroThe Design Inference (1998a). Nesse livro, ele tenta mostrar que deve haver um projetista inteligente por trás dos fenômenos naturais, como a evolução e a origem do Universo (veja Pigliucci 2000 para uma crítica detalhada [23]). O argumento de Dembski (1998b) é que a ciência moderna, desde Francis Bacon tem ilicitamente caido em duas das famosas quatro tipos de causas de consideração de Aristóteles por completo, assim, restringindo desnecessariamente o seu próprio poder explicativo. A ciência é, portanto, incompleta, e a teoria do design inteligente irá corrigir este triste estado de coisas, se apenas os evolucionistas de mente fechada permitissem Dembski e companhia fizessem o trabalho. Neste ponto os defensores do D.I. sempre não tratam da questão lógica de que sua “teoria” é um criacionismo, e apresento o Q.E.D. sobre o ponto em Porque o Design Inteligente é um Criacionismo.


As Quatro Causas de Aristóteles em Ciência


Aristóteles identifica causas materiais, aquilo da qual alguma coisa é feita; causas formais, a estrutura da coisa ou fenômeno; causas eficientes, a atividade imediata produzindo um fenômeno ou objeto; e as causas finais, propósito de qualquer objeto que estamos investigando. Por exemplo, digamos que queremos investigar as “causas” da Ponte do Brooklyn. A causa material englobaria uma descrição dos materiais físicos que entraram em sua construção. A causa formal é o fato de que se trata de uma ponte sobre um curso de água, e não tanto um conjunto aleatório de peças ou de outro tipo de estrutura ordenada (como um arranha-céu). As causas eficientes foram os projetos elaborados pelos engenheiros e do trabalho de homens e máquinas que realmente montou o material físico e colocou-os no lugar. A causa final da Ponte do Brooklyn foi a necessidade de pessoas para caminhar e andar entre duas massas de terra sem se molhar.

Notemos que a causa final depende, no caso, da evidência iniciativa humana, sua racionalidade aliada de suas capacidades, em especial, a de avaliar questões no tempo, com destaque para o que chamamos futuro, um determinado tipo específico de teleologia (o artigo da Wikipédia em português possui algumas tendenciosidades teístas e até questões contraditórias com o atual estado da Filosofia, mas presta-se a entender-se o sentido desta palavra).



                                                                                        A Ponte do Brooklyn.

Dembski afirma que Bacon e seus seguidores acabaram com tanto as causas formais e finais (as causas chamados teleonômicas, porque respondem à pergunta de por que algo é) para ciência livre da especulação filosófica e aterrou-a firmemente em declarações empiricamente verificáveis. Isso pode ser verdade, mas muita coisa se alterou com a obra de Charles Darwin (1859).[24] Darwin estava se dirigindo a uma questão científica complexa de uma forma sem precedentes: ele reconheceu que os organismos vivos são claramente destinados a fim de sobreviver e reproduzir-se no mundo em que vivem, e ainda, como um cientista, ele trabalhou no quadro de explicações naturalistas de tal projeto. Darwin encontrou a resposta em sua bem conhecida teoria da seleção natural. A seleção natural, combinada com o processo básico de mutação, torna possível o desenho (projeto) na natureza sem recorrer a uma explicação sobrenatural porque a seleção é, definitivamente, não aleatória, e tem, portanto, potência “criativa” (ainda que inconsciente). Os criacionistas geralmente não entendem este ponto e acham que a seleção só pode eliminar os menos aptos, mas uma visão poderosa de Darwin era que a seleção também é um processo cumulativo análogo a uma catraca, que pode construir coisas ao longo do tempo, enquanto os passos intermédios são igualmente vantajosos.

É de se observar que nem só de mutações vive a evolução, tendo também papel importantíssimo a deriva genéticaSob toda análise, os seres vivos não são fixos em sua genética, e esta consequentemente modifica-se no tempo, modificando-se as características das populações, que é como realmente a vida organiza-se, e não no nosso conceito de espécie, que é uma classificação humana, mais que tudo.



         Uma catraca. Permite o movimento em rotação livre num sentido, mas sempre estanca o movimento no sentido contrário.


Darwin tornou possível colocar todas as quatro causas aristotélicas de volta à ciência. Por exemplo, se fôssemos perguntar quais são as causas dos dentes de um tigre dentro de um quadro darwiniano, nós iríamos responder da seguinte maneira: A causa material é fornecido pelos materiais biológicos que compõem os dentes, a causa formal é o maquinário genético e de desenvolvimento que distingue os dentes de um tigre de qualquer outro tipo de estrutura biológica, a causa eficiente é a seleção natural promovendo algumas variantes genéticas do tigre ancestral sobre seus concorrentes, e a causa final é fornecida pelo fato de ter dentes estruturados de uma certa forma faz com que seja mais fácil para um tigre conseguir a sua presa e, portanto, para sobreviver e reproduzir-se - as únicas ”metas” de cada ser vivo.




Portanto, design é uma parte muito importante da ciência moderna, pelo menos sempre que há uma necessidade de explicar uma estrutura aparentemente destinada (como um organismo vivo). Todas as quatro causas aristotélicas são totalmente restabelecidas dentro da esfera da investigação científica, e a ciência não é mutilada pelo desrespeito de algumas das causas de agir no mundo. Então o que resta do argumento de Dembski e de outros defensores da DI?Eles, como William Paley (1831 [25]) bem antes deles, cometem o erro de confundir concepção natural e design inteligente, rejeitando a possibilidade da primeira e concluindo que todo o projeto, por definição, deve ser inteligente. Acreditamos que tratamos à exaustão, embora ainda possa e deva-se jogar toneladas de pedras sobre a sepultura da argumentação de Paley: O argumento do relojoeiro de Paley.

                                            Variações de crânios e seus dentes de carnívoros “dentes de sabre”, 
todos 
                                             aparentados proximamente aos atuais felinos (What big teeth you have…).

Para referências das questões sobre evolução dos felinos e sua separação entre os felinos “dentes de sabre” e os atuais, ver os Apêndices.


                                        Crânios de felinos atuais, todos descendentes de uma mesmo ancestral comum, 
                            apenas variações de um design básico (Felid (Cat) Skull Reproductions - Arizona Dry Bones).

Fica-se, na opinião de Pigliucci, com a sensação de que Dembski está sendo hipócrita sobre Filosofia antiga. É evidente, por exemplo, que o próprio Aristóteles nunca em suas causas teleonômicas implicou design inteligente na natureza (Cohen, 2000[26]). Seu mentor, Platão (em Timeu), já havia concluído que o criador do universo não poderia ser um deus onipotente, mas no máximo que ele chamou de Demiurgo, um deus menor que evidentemente “bagunça” com o universo com resultados mistos. Aristóteles acreditava que o alcance de Deus era ainda mais limitado, essencialmente, o papel de força motriz do universo, sem nenhuma interação adicional direto com sua criação (isto é, ele foi um dos primeiro deístas).Em Físicaonde ele discute as quatro causas, Aristóteles trata a própria natureza como um artesão, mas claramente sem premeditação e inteligência. Um tigre transforma-se em um tigre, pois é da sua natureza fazê-lo, e essa natureza é devido a alguma essência física que lhe é dada pelo seu pai (hoje diríamos DNA), onde se inicia o processo de eliminação. Aristóteles faz essa rejeição clara de Deus como uma causa final (Cohen 2000) quando diz que as causas não são externas ao organismo (como um designer seria), mas interno a ele (como a biologia moderna do desenvolvimento demonstra claramente). Em outras palavras, a causa final de um ser vivo não é um plano de intenção, ou objetivo, mas simplesmente intrínseco nas mudanças no desenvolvimento do organismo. O que significa que Aristóteles identificou as causas finais com as causas formais na medida em que os organismos vivos estão em uma única causa. Ele rejeitou a chance e aleatoriedade (como fazem os biólogos modernos), mas não colocou um designer inteligente em seu lugar, contra o argumento de Dembski. Tivemos que esperar até Darwin para um avanço na concepção de Aristóteles sobre a causa final dos organismos vivos e de biologia molecular moderna para alcançar um entendimento da sua causa formal.

Complexidade Irredutível, na abordagem da argumentação de Pigliucci

Há dois argumentos adicionais propostos por teóricos do DI para demonstrar o design inteligente no universo: o conceito de “complexidade irredutível” e o critério de “complexidade-especificação”. A complexidade irredutível é um termo introduzido neste contexto pelo biólogo molecular Michael Behe em seu livro Darwin’s Black Box (1996). A idéia é que a diferença entre um fenômeno natural e um designer inteligente é que um objeto de design é planejado com antecedência, com premeditação. Enquanto um agente inteligente não é limitado por um processo evolutivo passo-a-passo, um processo evolutivo é a única maneira da natureza poder continuar, dado que não tem capacidade de planejamento (este pode ser submetido à complexidade incremental). A complexidade irredutível, então surge quando todas as partes de uma estrutura tem que estar presentes e funcionais ao mesmo tempo para que funcione, indicando, segundo Behe, que a estrutura foi projetada e não poderia ter sido construída gradualmente pela seleção natural.

O exemplo de Behe de um objeto irredutivelmente complexo é uma ratoeira. Se você tirar qualquer um dos elementos mínimos que fazem o trabalho a armadilha vai perder sua função, por outro lado, não há nenhuma maneira de montar uma ratoeira gradualmente a partir de um fenômeno natural, porque não vai trabalhar até o último pedaço ser montado. Premeditação e, portanto, o design inteligente, é necessário. Claro que é. Afinal, como ratoeiras comprados em lojas de ferragens são realmente produtos de origem humana, sabemos que eles são inteligentemente projetados. Mas o que dizer de estruturas biológicas? Behe alega que, embora a evolução pode explicar muita coisa da diversidade visível entre os organismos vivos, não é suficiente quando chegamos ao nível molecular. A célula e vários dos seus componentes fundamentais e vias bioquímicas são, segundo ele, irredutivelmente complexa.

O problema com esta afirmação é que ela está em contradição com a literatura disponível sobre estudos comparativos em microbiologia e biologia molecular, que Behe ignora convenientemente (Miller 1996 [27]). Por exemplo, os geneticistas estão continuamente mostrando caminhos bioquímicos que são parcialmente redundantes. A redundância é uma característica comum dos seres vivos em diferentes genes estão envolvidos na mesma ou em parte, funções sobrepostas. Enquanto isto pode parecer um desperdício, modelos matemáticos mostram que a evolução por seleção natural para produzir redundância molecular porque quando surge uma nova função, é necessário que não pode ser realizada por um gene que já está fazendo outra coisa, sem comprometer a função original. Por outro lado, se o gene se repetiu (por mutação), uma cópia é livre de constrangimentos imediatos e pode lentamente divergir na estrutura do original, eventualmente, assumir novas funções. Este processo leva à formação de ”famílias” de genes, grupos de genes que claramente se originaram a partir de uma seqüência de DNA único ancestral, e que agora são diversificados e executam uma variedade de funções (por exemplo, a globina, que varia de proteínas permitindo a contração muscular às envolvidas na troca de oxigênio e dióxido de carbono no sangue). Como resultado da redundância, as mutações podem derrubar os componentes individuais das vias bioquímicas, sem comprometer a função global ao contrário das expectativas de complexidade irredutível.

(Observe que os criacionistas, que nunca perdem uma oportunidade, também tentaram alegar que a redundância é outra evidência de design inteligente, porque um engenheiro iria produzir sistemas de backup -sistemas redundantes - para minimizar falhas catastróficas se a componentes primários pararem de funcionar. Apesar de muito inteligente, esse argumento ignora mais uma vez a biologia: a maioria dos genes duplicados acaba como pseudogenes, literalmente, pedaços de lixo molecular que, eventualmente, são perdidas para sempre para qualquer utilidade biológica [Max 1986] [28].)

Para sermos corretos, existem vários casos em que os biólogos não sabem o suficiente sobre os constituintes fundamentais da célula para serem capazes de supor ou demonstrar a sua evolução gradual. Mas isto é um argumento da ignorância, e não evidência positiva de complexidade irredutível. William Paley lançava exatamente o mesmo argumento para afirmar que é impossível explicar o aparecimento do olho por meios naturais. No entanto, os biólogos sabem hoje de vários exemplos de formas intermediárias do olho, e há evidências de que essa estrutura evoluiu independentemente várias vezes durante a história da vida na Terra (Gehring e Ikeo 1999 [29]). A resposta para a clássica pergunta criacionista “Para que serve meio olho?” é “Muito melhor em tudo do que nenhum olho!”.



            Os estágios da evolução do olho em artigo de Nilsson e Pelger, com n igual ao número de gerações 
            que passam-se em seu modelo (Nilsson, D.-E., and S. Pelger. 1994. A pessimistic estimate of the time
            required for an eye to evolveProc. Roy. Soc. Lond. B 256:53-58; JERRY COYNE; The biggest problem 


No entanto, Behe tem um ponto sobre a complexidade irredutível. É verdade que algumas estruturas simplesmente não podem ser explicadas por processos lentos e cumulativos da seleção natural. De sua ratoeira para Paley visualizando a ponte do Brooklyn, a complexidade irredutível é realmente associada com o design inteligente. O problema para a teoria do DI é que não há nenhuma evidência até agora de complexidade irredutível em organismos vivos.

O critério da complexidade-especificação

William Dembski usa uma abordagem semelhante à Behe para suas pretensões criacionistas, em que ele também quer demonstrar que o design inteligente é necessário para explicar a complexidade da natureza. Sua proposta, no entanto, é tanto mais geral e mais profundamente falha. Em seu livro The Design Inference, (A Inferência do Design, Dembski 1998a [30]) afirma que existem três tipos essenciais de fenômenos da natureza: “regular”, aleatório, e projetado (que ele supõe ser inteligente). Um fenômeno regular seria uma simples repetição explicável pelas leis fundamentais da física, por exemplo, a rotação da Terra em torno do sol. Fenômenos aleatórios são exemplificados pelo lançar de uma moeda. Projeto entra em qualquer momento em que dois critérios são satisfeitos: complexidade e especificação (Dembski, 1998b [31]).

Há vários problemas com este cenário organizado. Primeiro de tudo, deixando de lado por um momento o projeto, as escolhas ainda não estão limitados a regularidade e aleatoriedade. Caos e teoria da complexidade têm demonstrado a existência de fenômenos de auto-organização (Kauffman 1993 [32]; Shanks e Joplin 1999 [33]), situações em que a ordem espontânea aparece como uma propriedade emergente de interações complexas entre as partes de um sistema. E esta classe de fenômenos, longe de ser apenas uma invenção da imaginação matemática, como Behe afirma, são reais. Por exemplo, certos fenômenos meteorológicos, como furacões não são regulares nem aleatórios, mas são o resultado de processos de auto-organização.



                                Um furacão e a galáxia M-51, exemplos de sistemas onde organização surge naturalmente.

Em resposta a alguns de seus críticos, Dembski (2000) afirma que o design inteligente não significa melhor projeto. A crítica de um design de qualidade inferior tem sido usada pelos evolucionistas que perguntam por que Deus faria um trabalho tão desleixado com a criação que mesmo um simples engenheiro humano pode facilmente determinar onde estão as falhas. Por exemplo, porque é que os seres humanos têm hemorróidas, varizes, dores lombares e dores nos pés? Se você assumir que foi “inteligentemente” projetado, a resposta deve ser que o designer foi bastante incompetente, algo que dificilmente agradaria um criacionista. Em vez disso, a teoria da evolução tem uma única resposta para todas essas perguntas: os seres humanos evoluíram o bipedalismo (andar com uma postura ereta), só muito recentemente, e a seleção natural ainda não plenamente adaptou nosso corpo à esta nova condição (Olshansky et al 2001 [34]). Nossos parentes mais próximos dos primatas, os chimpanzés, gorilas e outros, são melhor adaptados ao seu modo de vida e, portanto, são menos “imperfeitos” do que nós!

Dembski é, naturalmente, correto em dizer que o design inteligente não significa melhor projeto. Assim como a ponte do Brooklyn é uma maravilha da engenharia, não é perfeita, o que significa que teve de ser construído dentro das condições e limitações dos materiais e tecnologias disponíveis, e ainda está sujeita às leis naturais e decadência. A vulnerabilidade da ponte a ventos fortes e terremotos, e sua inadequação para suportar um volume de tráfego maior que para os quais foi construída não pode ser visto como semelhante à dor nas costas causadas por nossa recente história evolutiva. No entanto, a imperfeição dos organismos vivos, já apontado por Darwin, faz desaparecer a ideia de que eles foram criados por um criador onipotente e todo-bondade, que certamente não seria limitado pelas leis da Física que Ele mesmo teria criado a partir do zero.

Os Quatro Tipos Fundamentais de Design e Como Reconhecê-los

Dadas estas considerações, Pigliucci propõe um sistema que inclui sugestões tanto a Behe quanto Dembski, ao mesmo tempo mostrando porque ambos estão errados em concluindo que temos evidência de design inteligente no universo. A Figura 1 resume a minha proposta. Essencialmente, eu acho que existem quatro tipos possíveis de design na natureza que, em conjunto com as categorias de Dembski de fenômenos “regulares” e aleatórios, e a adição de fenômenos caóticos e auto-organização, verdadeiramente esgotam todas as possibilidades conhecidas por nós. A ciência reconhece o regular, o aleatório, e os fenômenos de auto-organização, bem como os dois primeiros tipos de projeto descrito na figura 1.[35] Os outros dois tipos de projeto são em princípio possíveis, mas eu afirmo que não existe nem evidência empírica, nem razão lógica para acreditar que eles realmente ocorrem.

O primeiro tipo de projeto é o não-inteligente-natural, e é exemplificado pela seleção natural dentro da biosfera da Terra (e possivelmente em outros lugares do universo). Os resultados deste projeto, como todos os organismos vivos na Terra, não são irredutivelmente complexos, o que significa que eles podem ser produzidos por incremental, contínua (embora não necessariamente gradual) mudança com o tempo. Esses objetos podem ser claramente atribuídos a processos naturais também por causa de outras duas razões: eles nunca são ótimos (no sentido de engenharia) e são claramente o resultado de processos históricos. Por exemplo, eles estão cheios de lixo, peças não utilizadas ou subutilizadas, e assemelham-se a objetos similares, ocorrendo simultaneamente ou anteriormente no tempo (ver, por exemplo, o registro fóssil). Observe que alguns cientistas e filósofos da ciência se sentem desconfortáveis em considerar este “projeto” porque eles igualam o termo com inteligência. Mas eu não vejo nenhuma razão para adotar tal limitação. Se algo é moldado ao longo do tempo, por qualquer meio, de tal forma que cumpre uma determinada função, então foi concebido e é simplesmente a questão de como o design ocorreu a se concretizar. Os dentes de um tigre são claramente destinados para a eficiência em cortar a carne de sua presa e, portanto, para promover a sobrevivência e reprodução dos tigres ostentam tais dentes.



                                                Figura 1: Os quatro tipos de design na natureza e como distinguí-los.

Nota: aqui somo ao excelente texto de Massimo Pigliucci que além de eficientes para cortar carne, os felinos de todos os tamanhos e em toda sua já longa história, desde quando nos matavam pelas planícies africanas, possuem a abertura mandibular perfeita para abocanhar as traqueias de suas vítimas, os caninos para aprisioná-las e asfixiá-las e no passado, até cortá-las de lado a lado, até, talvez, no abdômen. Assim, o conjunto inteiro os mostra como umdesign natural de excelente projeto para fazer o que fazem melhor dentre os mamíferos: matar. 





                            
    Representação artística (Dr. Gizmo And Ted Hammond) e fotografia (pt.dreamstime.com) 
                                                    mostrando quão adequadas são para matar as armas dos felinos.

O segundo tipo de design é o inteligente-naturalEsses artefatos geralmente são irredutivelmente complexos, como um relógio desenhado por um ser humano. Eles também não são ideais, o que significa que comprometem-se claramente com as soluções para problemas diferentes (trade-offs – econômicos para a sua finalidade, “suficientes”) e estão sujeitos às restrições das leis físicas, materiais disponíveis, a perícia do projetista, etc. Os seres humanos podem não ser os únicos a gerar esses objetos, os artefatos de uma civilização extraterrestre poderiam cair nesta mesma ampla categoria.[36]


Nota: aqui, vale, por exemplo, lembrando a ponte do Brooklyn, de que não necessita suportar o mais absurdo tráfego em toda a sua pretendida eternidade, pois como nós engenheiros aprendemos, os riscos nulos implicam em custos infinitos. Assim, os projetos humanos são o necessário e seguro, jamais o ideal.

O terceiro tipo de projeto, que é difícil, senão impossível, de distinguir a partir do segundo, é o que eu chamo de inteligência sobrenatural desleixadaOs objetos criados dessa maneira são essencialmente indistinguíveis de artefatos humanos ou por ETs, exceto que eles seriam o resultado do que os gregos chamavam de um Demiurgo, um deus menor, com poderes limitados. Alternativamente, eles poderiam ser devidos a um deus onipotente maldoso que só se diverte com produtos de qualidade inferior. A razão pela qual o design inteligente-sobrenatural-desleixado não é distinguível de alguns casos (mas por todos os meios não todos) do design inteligente natural é a famosa terceira lei de Arthur C. Clarke: do ponto de vista de uma civilização tecnologicamente menos avançada, a tecnologia de uma civilização muito avançada é indistinguível de mágica, essencialmente (como o monolito, em 2001: A Space Odyssey – 2001: Uma Odisséia no Espaço). Eu estaria muito interessado se alguém pudesse sugerir um caminho contornando a lei de Clarke.



                                Uma civilização extremamente avançada, propiciando um passo da evolução humana, 
                                                    na visão de Arthur C. Clarke, aqui, na magnífica obra de Kubrick.

Notas:

1) Novamente, caímos na demonstração de mesmo por uma civilização poderosíssima, até inimaginável, ainda sim, em algum momento, tem-se de chegar a uma biopoese e uma evolução ou uma criação.

2) Na verdade, é o representado por Clarke em seu conto O Sentinela, levado ao cinema em “2001″, de Kubrick , com a modificação que no conto se lê como a civilização nos conduz a utilizar instrumentos. De certa maneira, uma ignorância tolerável literariamente por Clarke, pois o uso, por exemplo de um osso como prolongamento dos braços e até instrumentos muito mais “finos”, já é conhecido por nossos primos orangotangos (por exemplo), separados de nós há bem mais de 3 milhões de anos, e o evento do conto se dá há 3 milhões de anos atrás, e exatamente como apresentado por Clarke, chimpanzés atiram pedras, e são igualmente separados de nós há mais tempo. Só os Ardipithecus ramidus já levam a ancestralidade humana, mesmo com discussões sobre suas ramificações, para uns 4 milhões de anos atrás.

Finalmente, temos o design inteligente-sobrenatural-perfeito, que é o resultado da atividade de um deus onipotente e todo-bondade. Esses artefatos seriam tanto irredutivelmente complexo e ótimos. Eles não seriam limitados por qualquer trade-offs ou por leis da física (afinal, Deus criou as próprias leis). Enquanto este é o tipo de Deus, no qual muitos cristãos fundamentalistas acreditam (apesar de algumas acabar com a parte onibenevolente), é evidente, a partir da existência da maldade humana, bem como das catástrofes naturais e doenças, que Deus não exista. Dembski reconhece essa dificuldade e, como já se referiu, admite que o seu design inteligente poderia mesmo ser devido a uma civilização muito avançada extraterrestre, e não a uma entidade sobrenatural em tudo (Dembski 2000 [37]).

Nota: aqui, os pensadores ateístas do século XIX, como por exemplo Sébastien Faure, como em Doze Provas da Inexistência de Deus, sem falar em todo estrago que Friedrich Nietzsche apresenta para a fé cristã-judaica-islâmica e sua pregação (pois não é argumentação nem justificação) de uma divindade bondosa, apresentariam argumentos muito mais sólidos que qualquer conjunto de centenas de páginas que aqui eu escrevesse, e no meu caso, em muito pior estilo.


Conclusões de Massimo Pigliucci

Em resumo, parece-me que os principais argumentos dos teóricos do Design Inteligente não são novos nem convincentes

  1. Simplesmente não é verdade que a ciência não trata todas as causas aristotélicas, sempre que projeto precisa ser explicado;
  2. Enquanto a complexidade irredutível é certamente um critério válido para distinguir entre os designs inteligentes e não-inteligentes, estas não são as únicas duas possibilidades, e os organismos vivos não são irredutivelmente complexos (e.g., ver Shanks and Joplin 1999 [33]);
  3. O critério de complexidade-especificação foi respeitado pela seleção natural, e não pode, portanto, uma forma de distinguir design inteligente de não-inteligente;
  4. Se o projeto sobrenatural existe em tudo (mas onde está a evidência ou lógica convincente?), este certamente não é do tipo que a maioria dos religiosos provavelmente subscrevem, e se confunde com a tecnologia de uma civilização muito avançada.

Portanto, as afirmações de Behe, Dembski e outros criacionistas (e.g., Johnson 1997 [38]) que a ciência deve ser aberta a explicações sobrenaturais e que estes devem ser autorizados nos currículos escolares acadêmicos, bem como do público são infundadas e baseadas em um engano de ambos design na natureza e do que a teoria neo-darwinista da evolução (Mayr e Provine, 1980 [39]) seja tudo sobre o assunto.

 

Contra a complexidade irredutível do flagelo bacteriano

 
Observação: esta parte deste artigo também é uma edição apenas referenciada e contendo links, com mínimas adições e poucas correções, de excelente artigo do siteCeticismo.net.[1]
 
Um dos alvos de Behe quanto a uma complexidade irredutível é o flagelo bacteriano (ou flagelo eucariótico, também chamado cilium ou undulipodium[1]), afirmando que suas partes não funcionais não poderiam ser preservadas pela seleção natural, concluindo que esse sistema só pode ser explicados pelo design inteligente.[40]


                                                Representação em computação gráfica da estrutura de um complexo
                                                                        flagelo bacteriano (www.icb.ufmg.br).

Realmente diversas das proteínas constituintes do flagelo bacteriano guardam similaridade entre si ou com proteínas de outras funções. Sua origem pode ser explicada facilmente pela mesma uma série de duplicações genéticas apresentadas na argumentação de Orr, seguidas por modificação e/ou co-interação, procedendo gradualmente entre sistemas intermediários desde um flagelo simples até o flagelo mais complexo.
 
Um caminho evolutivo plausível para a evolução do flagelo bacteriano segue os seguintes passos básicos, aqui apresentados na forma de um resumo, dispensando apresentar que grandes interações seriam seguidas por longos períodos de otimização das funções desenvolvidas:
 
1) Poros passivos gerais (estruturados em porinas, por exemplo), presentes normalmente em bactérias, evoluem para poros mais específicos pela adição de proteínas a sua estrutura. Este transporte passivo é convertido em transporte ativo pela adição de ATPase à hidrólise de ATPcom aprimorada capacidade de exportação.
 
2) O sistema de exportação do tipo-III é convertido para um sistema de secreção do tipo-III (T3SS) pela adição de membranas protéicas porosas (secretina e secretina-chaperona) do sistema de secreção tipo-II. Estes eventualmente formam os anéis P e L, respectivamente, do flagelo moderno. O sistema secretor moderno tipo-III forma uma estrutura muito parecida com a estrutura de mastro e anel do flagelo (Hueck 1998 [41]; Blocker et al. 2003 [42])
 
3) O T3SS secreta diversas proteínas, uma das quais é a adesina (uma proteína que adere a célula em outras células ou em um substrato). A polimerização dessa adesina forma um filamento primitivo, uma extensão que dá a célula uma melhor capacidade adesiva. Depois da evolução do filamento T3SS, ele se diversifica para várias outras tarefas especializadas, por duplicação e subfuncionalização.
 
4) Um sistema de bomba iônica com outra função na célula se torna associada com a base do sistema secretor da estrutura, convertendo o filamento em um primitivo protoflagelo. A função inicial do protoflagelo é uma melhor dispersão. Homólogos ao motor de proteínas MotA e MotBsão conhecidos e funcionam em diversos procariontes independentes do flagelo.
 
5) A ligação de uma proteína que transmite um sinal na base do sistema secretor regula a velocidade de rotação, dependendo da saúde metabólica da célula. Isso impõe um impulso na direção de regiões favoráveis e para longe de regiões de poucos nutrientes, como aqueles encontrados em habitats com superpopulação. É o começo da mobilidade químico-tática.
 
6) Vários outros melhoramentos continuam no flagelo recém formado. Todos os componentes são originados por duplicação e subfuncionalização da estrutura axial do filamento do flagelo primitivo . Essas proteínas acabam formando a família protéica axial.
 
O flagelo bacteriano nem mesmo é irredutivelmente complexo. Alguns flagelos bacterianos funcionam sem os anéis L e P. Em experimentos com várias bactérias, alguns componentes (por exemplo, FliH, FliD, e o domínio muramidase do FlgJ), são importantes mas não essenciais (Matzke 2003 [43][44]). Um terço dos 497 aminoácidos dos flagelos foram cortados sem prejudicar sua função (Kuwajima 1988 [45]). Mais ainda, muitas bactérias tem proteínas adicionais que são necessárias para o seu próprio flagelo, mas não no bem estudado flagelo “padrão” da E. coli. Diferentes bactérias tem números diferentes de proteínas nos flagelos (no Helicobacter pylori, por exemplo, apenas 33 proteínas são necessárias para produzir um flagelo funcional), então o exemplo favorito de Behe para a complexidade irredutível parece mais mostrar uma grande variedade numérica de partes necessárias (Ussery 1999 [46]).
 
Cílios eucarióticos são constituídos de mais de 200 proteínas distintas, mas até aqui a irredutibilidade é ilusória. Behe (1996 [40]) implica e Denton (1986 [47]) alegam explicitamente que túbulos 9+2 comuns da estrutura dos cílios não podem ser simplificados. No entanto, cílios 3+0, faltando muitos microtúbulos e também outras estruturas, existem e são conhecidos (Miller 2003 [48], 2004 [49]).
 
Outro exemplo de como o flagelo não é irredutivelmente complexo pode ser encontrado na bactéria Yersinia pestis, responsável pela transmissão da peste bubônica. O flagelo dessa bactéria não gira, portanto não é usado como motor, porém é usado como uma agulha para infectar o hospedeiro. Na estrutura do Y. pestis, apesar de extremamente similar, faltam muitas proteínas que estão presentes no flagelo da E. coli, porém ainda assim ele é plenamente funcional.[50][51][52]
 

O site Ceticismo.net ainda aponta que o flagelo bacteriano poderia continuar sendo usado como propulsor mesmo sem várias de suas proteínas. É sabido que muitas das proteínas do flagelo eucariótico são dispensáveis, porque tais flagelos existem e são conhecidos, não possuindo as proteínas, e ainda assim apresentam-se funcionais.

 

Vídeo com uma modelagem para a evolução do flagelo bacteriano:

 
 
Leitura e referências adicionais sobre o flagelo bacteriano e sua desmistificação como argumento pela complexidade irredutível e consequentemente, pelo design inteligente:
 
 
Referências adicionais sobre a origem das células eucariontes e arqueobactérias, a classificação filogenética dos protozoários e a origem do núcleo celular por simbiose:
 
 

O transporte de proteínas

 

Da mesma maneira que o apresentado para o flagelo, o exemplo da complexidade do transporte de proteínas de Behe, existem outras proteínas que não precisam de transporte.[1]

 

O sistema imunológico

 
O sistema imunológico que Behe diz ser irredutivelmente complexo na verdade não o é, porque os anti-corpos que marcam as células invasoras para serem destruídas também podem servir como sistema de defesa, destruindo eles mesmos, apesar de forma não tão eficiente.[1] 
 

O ciclo de Krebs

 
A origem evolutiva do ciclo do ácido cítrico Krebs foi durante muito tempo um caso modelo para a compreensão da origem e evolução das vias metabólicas, mas pendia a pergunta de como poderia ser possível o surgimento de tal via complexa ser explicada.
 
Uma série de estudos especulativos tem sido realizados, chegando à conclusão de que o ciclo de Krebs evoluiu a partir de caminhos para a biossíntese de aminoácidos, mas muitas questões importantes permanecem em aberto, como a do caminho completo para se chegar a sua complexidade e se existem outras alternativas possíveis para a mesma finalidade, sendo se estas seriam melhores ou piores. Igualmente em aberto é a questão de que se tais vias tiveram toda a oportunidade de serem desenvolvidas na evolução do metabolismo celular.
 
Na resolução destas questões, destaca-se o trabalho de Meléndez, Waddell e Cascante, no qual a análise do ciclo de Krebs como um problema de química para a oxidação de acetatos equivalentes de redução cedendo para a cadeia respiratória a produção de ATP, demonstra que, embora existam várias soluções químicas diferentes para este problema, o projeto dessa via metabólica como ocorre em células vivas, é a melhor solução química: tem o menor número possível de etapas e também tem o maior rendimento de ATP. O estudo das possibilidades evolutivas de cada uma tendo os materiais disponíveis para construir novos caminhos, demonstra que o surgimento do ciclo de Krebs foi um caso típico de oportunismo na evolução molecular. A análise demonstra, portanto, que o papel do oportunismo na evolução transformou um problema de várias soluções químicas possíveis em um problema de solução única, com o ciclo de Krebs atual demonstrando ser o melhor design químico possível. Os resultados obtidos também permitem obter-se as regras sob as quais as vias metabólicas surgiram durante a origem da vida.[53] 
 
Trabalhos imediatamente posteriores de Heinrich, Montero e colaboradores já tratavam do projeto estrutural da glicólise contemporânea poder ser explicado teoricamente com base nos princípios de otimização originários da seleção natural durante a evolução, de como as propriedades termodinâmicas e cinéticas da via glicolítica estariam relacionados com a estequiometria no que diz respeito ao número e localização dos sítios de ligação de ATP.[54]
 
Trabalhos posteriores corroboraram tais afirmações, como os de Ebenhöh e Heinrich[55], deMorowitz, Kostelnik, Yang e Cody[56].
 
 

A aldosterona e seu receptor corticóide



                                                    A base estrutural para a “promiscuidade” dos receptores.[57] 

Em artigo do periódico Science, os pesquisadores Jamie T. Bridgham, Sean M. Carroll e Joseph W. Thornton demonstram como um sistema molecular integrado, no caso a interação funcional específica do hormônio esteróide aldosterona e seu parceiro receptor mineral-corticoide, evoluem por um processo darwiniano em etapas. Uma substância é um componente de sistemas de resposta ao estresse, o outro possui uma estrutura similar, mas participa de processos biológicos diferentes, incluindo a função renal em animais. Uma analogia para os hormônios seria que estes e seus receptores funcionam como pares de chave e fechadura. Seu encaixe levou à questão de como novos pares evoluem, já que um sem o outro seria inútil, aparentemente.
 
Usando a “resurreição de genes ancestrais” (ancestral gene resurrection[58][59]), eles mostraram que, muito antes do hormônio evoluir, a afinidade do receptor para a aldosterona estava presente como um subproduto estrutural de sua parceria com ligantes quimicamente similares, mais antigos. Introduzindo duas mudanças de aminoácidos na seqüência ancestral recapitula-se a evolução da especificidade atual do receptor. Os resultados indicam que interações complexas e íntimas podem evoluir por “exploração molecular”, o recrutamento de uma molécula mais velha, anteriormente restrita a um papel diferente, em um novo complexo funcional.[60]
 
Os pesquisadores encontraram os equivalentes modernos ao receptor de hormônio de estresse na lampréia, um peixe primitivo, e também em arraias.[61] Depois de comparar semelhanças e diferenças nos genes, os cientistas concluíram que ele descendia de um gene ancestral comum há 450 milhões de anos, antes do período no qual os animais conquistarem terra firme. O grupo, então, recriou o receptor ancestral em laboratório, e descobriu que ele se encaixava no hormônio de estresse, o cortisol, e no de regulação renal, a aldosterona. Assim, o receptor para a aldosterona existia antes da aldosterona aparecer, e o hormônio só evoluiu em animais terrestres. Ele tinha uma função diferente e foi aproveitado para participar de um novo sistema complexo quando o hormônio apareceu.[62]
 
Este artigo recebeu a corroboração de outros artigos sobre o mesmo mecanismo[63][64][65], com estudos incluindo a aromatase[66], com estudos amplos sobre a evolução dos metazoários[67], com estudos específicos como para as galinhas[68], gerando artigos sobre o conceito do que são chamados ”receptores promíscuos” em elasmobrânquios[57], assim como análises de seu impacto sobre a filogenia dos vertebrados.[69]
 
Técnicas similares tem sido empregadas para traçar o processo evolutivo da fluorescência em corais[70]receptores de sais biliares em vertebrados[71][72], assim como mecanismos da espermatogênese em mamíferos[73] e sistemas de reconhecimento de carboidratos[74]
 
A descoberta mostra sua importância ao ser associada à própria comprovação do processo evolutivo que levou à conquista da terra pelos animais, por serem os hormônios esteróides associados com a conversão ancestral do citocromo P450s da detoxificação do oxigênio à detoxificação xenobiótica e síntese de endobióticos oxigenados com funções úteis na sinalização intercelular[33], e também sendo tratada como “o último suspiro do designinteligente”.[75]
 

Referências

Obs: Ao ser realizada a transferência dos artigos do Google Knol para o Anottum, houve a perda das referências deste artigo. Assim que possível, sua referenciação será recuperada e aprimorada. Contando com sua compreensão, grato.
 


Leituras recomendadas

 
  • Uma análise da argumentação de Behe, sobre a evolução do sistema imunológico pode ser vista em:
 
 
       Nossa tradução da argumentação de H. Allen Orr.
 

Apêndices

Citações de Nietzsche

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje! — NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, §125.

No cristianismo, nem a moral nem a religião têm qualquer ponto de contado com a realidade. São oferecidas causas puramente imaginárias (“Deus”, “alma”, “eu”, “espírito”, “livre arbítrio” — ou mesmo o “não-livre”) e efeitos puramente imaginários (“pecado”, “salvação”, “graça”, “punição”, “remissão dos pecados”). Um intercurso entre seres imaginários (“Deus”, “espíritos”, “almas”); uma história natural imaginária (antropocêntrica; uma negação total do conceito de causas naturais); uma psicologia imaginária (mal-entendidos sobre si, interpretações equivocadas de sentimentos gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, os estados do nervus sympathicus com a ajuda da linguagem simbólica da idiossincrasia moral-religiosa — “arrependimento”, “peso na consciência”, “tentação do demônio”, “a presença de Deus”); uma teleologia imaginária (o “reino de Deus”, “o juízo final”, a “vida eterna”). — Esse mundo puramente fictício, com muita desvantagem, se distingue do mundo dos sonhos; o último ao menos reflete a realidade, enquanto aquele falsifica, desvaloriza e nega a realidade. Após o conceito de “natureza” ter sido usado como oposto ao conceito de “Deus”, a palavra “natural” forçosamente tomou o significado de “abominável” — todo esse mundo fictício tem sua origem no ódio contra o natural (— a realidade! —), é evidência de um profundo mal-estar com a efetividade… Isso explica tudo. Quem tem motivos para fugir da realidade? Quem sofre com ela. Mas sofrer com a realidade significa uma existência malograda… A preponderância do sofrimento sobre o prazer é a causa dessa moral e religião fictícias: mas tal preponderância, no entanto, também fornece a fórmula para a décadence… — Friedrich Nietzsche
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Artigos sobre evolução de felinos

* No qual deve-se destacar:

The felid family consists of two major subgroups, the sabretoothed and the feline cats… (A família dos felídeos consiste de dois subgrupos principais, os dentes de sabre e os gatos felinos…).
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  • Nilsson, D.-E., and S. Pelger. 1994. A pessimistic estimate of the time required for an eye to evolve. Proc. Roy. Soc. Lond. B 256:53-58 – PDF – www.phylosophy.org

Abstract – rspb.royalsocietypublishing.org / adsabs.harvard.edu

Considerações teóricas do design do olho permitem encontrar rotas ao longo das quais as estruturas ópticas dos olhos podem ter evoluído. Se a seleção sempre favorece um aumentona quantidade de informação espacial detectável, uma área determinada sensível à luz irá gradualmente tornar-se uma lente de foco do olho, através da prossecução de pequenas melhorias de design. O limite máximo para o número de gerações necessárias para a completa transformação pode ser calculado com um mínimo de suposições. Mesmo com umaconsistente abordagem pessimista, o tempo necessário se torna incrivelmente curto: apenas algumas centenas de milhares de anos.

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