04 e 05/04/2026
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AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
1ª Leitura: Atos 10,34a.37-43
Salmo Responsorial 117(118) R Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos! Aleluia, Aleluia, Aleluia!
2ª Leitura: Colossenses 3,1-4
ou
1 Coríntios 6b-8
Evangelho: João 20,1-9
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João 20,1-9 1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. 2Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: 'Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram.' 3Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. 4Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. 6Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão 7e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. 8Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. 9De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos. Palavra da Salvação.
ou
nas missas vespertinas Lucas 24,13-35
Jo 20,1-9
No quadro dos acontecimentos da Páscoa o primeiro elemento é o túmulo. Ele é mencionado explicitamente 7 vezes ao longo de 9 versículos (só em dois não aparece essa palavra). Outro detalhe (que não é um detalhe) é que o túmulo está vazio. Trata-se de um sinal essencial. Com efeito, não havia dúvida quanto à sepultura de Jesus: José de Arimatéia e Nicodemos tinham deposto o corpo de Jesus no túmulo, e agora Jesus não está mais lá.
Maria Madalena tinha chegado ao túmulo de manhã bem cedo antes do amanhecer. Ela esperou todo o sábado e a noite do dia seguinte, mas se levanta impaciente de madrugada. Ela está ainda envolta nas trevas da dor. Aquela mulher continua a amar o Mestre, mesmo depois de sua morte. Por isso ele vai ao túmulo: deseja encontrar o cadáver de Jesus, que é sinal de sua presença. É uma pobre consolação, porque o corpo de um falecido é sinal de uma presença de alguém ausente. Madalena quer oferecer ao mestre a homenagem do seu amor, um amor impotente porque o mestre morto não pode mais corresponder a seu amor.
Por isso, quando ela chega ao túmulo vazio, experimenta uma outra dor e uma outra decepção. “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram”. Essa é a primeira interpretação do sinal do túmulo vazio: um cadáver não pode sair sozinho e, por isso, alguém deve ter roubado o corpo de Jesus. De qualquer forma, Maria Madalena desempenha a missão de ser anunciadora para os outros discípulos do túmulo vazio.
Simão Pedro e o discípulo amado saem correndo para ver o que tinha acontecido. Os outros discípulos estão muito amedrontados para sair. Somente os dois saem.
Pedro é o chefe indiscutido; mas o outro discípulo é o predileto. Numa espécie de competição os dois correm. Por ser mais jovem, por ter mais energia, por amar mais, o outro discípulo chega antes ao túmulo. Ele viu as faixas de linho que envolviam o corpo de Jesus no chão, constata que o corpo de Jesus não está no túmulo, mas não entra nele. Espera Pedro; só entra depois dele.
Pedro entra no túmulo e constata o que o outro discípulo já tinha vista do lado de fora: as faixas de linho deitadas no chão e o pano que cobria o rosto de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado em lugar à parte. Os dois constatam que não foi roubo de cadáver: o túmulo está vazio, mas não por causa de roubo de cadáver. Com efeito, quem rouba cadáver carrega-o sem ter o cuidado de desenrolá-lo das faixas. Se não foi roubo de cadáver, o que foi então?
O evangelho diz que o outro discípulo entrou e que ele “viu e acreditou”. Os lençóis de linho são sinais da morte que Jesus deixou para trás. Ao constatar a ausência de Jesus, o discípulo amado descobre uma realidade. Ele não tem necessidade de ver Jesus para crer. Ele constata que Jesus não está envolto nos panos de linho porque está vivo.
Jesus ressuscitado se manifestou primeiramente com os sinais de sua ausência: o túmulo vazio, as faixas de linho, o sudário, deitados no chão e a mensagem da Madalena. Depois Jesus se manifestará de modo misterioso: como o jardineiro, o forasteiro que caminha para Emaús, o homem que vem para comprar peixes dos pescadores. Por fim, Jesus se manifestará corporalmente com sua voz e com os sinais da paixão.
Ao mesmo tempo, os discípulos vão progredindo na fé. Primeiro creem sem ver como o discípulo amado; depois reconhecem Jesus ressuscitado pela voz, pela visão e pelo tato como Maria Madalena. Por fim, é o grupo todo que reconhece Jesus vivo, mesmo que haja um teimoso e atrasado que exige ver para crer.
Todas as aparições são acompanhadas de uma missão. A aparição a Maria Madalena a faz Apóstola dos Apóstolos. A aparição aos apóstolos os transforma em portadores dos dons da paz, do Espírito Santo e do Evangelho a todo o mundo. A aparição a Tomé comunica a ele a bem-aventurança de crer sem ter visto.
Domingo de Páscoa – Jo 20, 1-9- Ano A – 05-04-2026
Primeira leitura: Atos 10,34a, 37-43
Resumo: Uma síntese do ministério de Jesus e da Páscoa dá origem à pregação aos gentios, visto que o Espírito é derramado sobre eles, dando origem, assim, à absoluta novidade da universalidade.
O texto dos Atos dos Apóstolos é extenso e repetitivo. De fato, a liturgia se concentra apenas nos pontos centrais e fundamentais, mas vale a pena considerar a ideia principal antes de aprofundá-la. Trata-se de uma narrativa cuidadosamente construída por Lucas, que apresenta os personagens e repete e explica as cenas mais de uma vez. Resumindo: uma vez ele as apresenta, na segunda vez lhes dá significado, e uma terceira vez as explica aos Doze (10,1-26, 27-48; 11,1-18). Por que tanta insistência? Porque a medida que será tomada é quase contrária a tudo o que foi dito no Antigo Testamento e na pregação de Jesus. Como se justifica o batismo de gentios sem exigir nada, como a circuncisão, se o Antigo Testamento fazia distinção entre judeus e gentios e se Jesus disse: “Não ide entre as nações… somente às ovelhas perdidas da casa de Israel”? A mudança que ocorrerá nesta unidade é tão fundamental, tão decisiva, que é preciso deixar perfeitamente claro — insistentemente! — que ela é guiada pelo Espírito Santo (10,19, 44, 45, 47; 11,2, 15, 16), por uma visão extática (10,10, 28; 11,5) ou pelo Anjo do Senhor (10,3, 7, 22, 30; 11,13). No cerne disso está a pregação de Pedro aos gentios para que estes “ouvissem o que o Senhor lhe havia ordenado” (10,33), e, enquanto ele diz isso, o Espírito é derramado (10,44), levando Pedro a “ordenar que fossem batizados” (10,48). O texto que a liturgia nos oferece hoje é precisamente esse discurso de Pedro aos gentios, relatando “o que aconteceu...” (10,37).
Obviamente, a historicidade dos eventos, que é questionável (o primeiro pregador aos pagãos acaba sendo "Pedro" e não Paulo, por exemplo), é irrelevante. Passemos ao texto.
O discurso apresenta uma primeira parte “histórica”, começando com o batismo de João, o ministério de Jesus (resumido como “ele andou fazendo o bem”, v. 39), sua morte e sua ressurreição, aparecendo a testemunhas escolhidas (37-41). Mas isso não termina aí (como é característico de Lucas, cf. Lc 24,46-48) e deve continuar com a pregação, pois agora limitada “ao povo” (isto é, a Israel; v. 42). É então que o próximo passo é dado, quando o Espírito é derramado sobre os gentios, o que surpreende os crentes circuncidados ao verem que o Espírito Santo foi derramado até mesmo sobre os gentios (v. 45); isso tem sido chamado de “Pentecostes dos Gentios” (talvez de forma um tanto simplista, mas talvez preciso no contexto literário de Atos). A introdução: “Vejo que Deus não faz acepção de pessoas” (v. 34) e esta conclusão sobre o dom do Espírito – ambas omitidas na liturgia – são o que dão sentido a toda a unidade.
Vamos examinar brevemente o discurso: Lucas apresenta uma síntese geográfica (na Judeia, começando na Galileia) e histórica (do batismo à morte e ressurreição) do ministério de Jesus. Vários elementos característicos da teologia de Lucas são destacados: o papel do Espírito Santo no ministério de Jesus, o confronto com o diabo, o papel dos apóstolos como testemunhas, identificados como aqueles que comiam e bebiam com ele, o mandamento de pregar, o papel dos profetas e o perdão. Tudo isso — como mencionado — está inserido em um contexto histórico e geográfico, também característico de Lucas. Estamos, portanto, diante de uma síntese da pregação de Lucas, do seu "evangelho", condensada em poucos versículos. Essa é a essência deste discurso, que provoca a aceitação do evangelho pelos gentios e desencadeia aquela que é provavelmente a maior revolução em toda a história da Igreja. Os gentios, desprezados e rejeitados em Israel, são agora convidados a serem integrados pelo batismo e pela aceitação do Evangelho como membros plenos do povo de Deus.
Segunda leitura: Colossenses 3,1-4
Resumo: A “comunhão dos santos” permite uma relação tão íntima entre o Cristo ressuscitado e a comunidade peregrina que vivemos como pessoas ressuscitadas a partir de “agora”.
A liturgia de hoje permite a escolha de uma entre duas leituras; selecionamos o texto de Colossenses.
Um discípulo de Paulo, após algum tempo, decide confrontar, como se o próprio Paulo o estivesse fazendo, uma série de novos problemas. Escrever que o autor é Paulo é uma maneira óbvia de dizer: “Sou seu discípulo e sei que é isso que Paulo diria se estivesse aqui”. Um dos temas — não o principal da carta, mas importante mesmo assim — é que a vinda de Jesus, que era esperada iminentemente (ver 1 Tessalonicenses 4,15-17; 1 Coríntios 15,51-52), está sendo adiada. Nesse sentido, duas respostas fundamentais emergem no cristianismo de segunda geração. Uma — evidente, por exemplo, em 2 Pedro 3,3-4, 8-10 — sugere que ele está sendo adiado para dar a todos a oportunidade de conversão. A outra, comum entre os discípulos de Paulo, como o autor de Colossenses, aponta que, de certa forma, ele já veio, que nós já estamos, em certo sentido, ressuscitados. Poderíamos dizer que “alguns detalhes” ainda precisam ser finalizados. A parte teórica da carta conclui-se em 3,4, visto que em 3,5 apresenta conclusões práticas para a vida da comunidade. 3,1-4 aparece como uma conclusão teórica de tudo o que foi dito, que é claramente cristocêntrico. Um tema característico desta carta, e de sua contraparte, a Epístola aos Efésios, é a ideia de que Cristo é a cabeça do corpo, que é a Igreja. Há uma profunda união entre eles, de tal forma que pode ser vista como a união do corpo com a sua cabeça (1,18, 24; 2,19). Portanto, Cristo é apresentado como "o primogênito dentre os mortos" (1,18), e os outros seguirão os seus passos.
Isso explica a primeira frase do texto litúrgico, que certamente é surpreendente: “ressuscitaram com Cristo”. Não é “ressuscitarão”, mas “ressuscitaram” (em grego, é um aoristo, o que significa que se trata de algo que ocorreu em um momento específico e preciso do passado). É típico de Paulo, e aqui seu discípulo repete isso, para apontar uma tensão entre a realidade (indicativo) e o que deveria ser (imperativo). Aqui, a tensão reside no fato de que, já que ressuscitamos, devemos buscar o que está no alto. O Jesus de João afirmou que é “do alto” (8,23), e ao se dirigir a Deus, Jesus eleva os olhos para cima (11,41). “Alto” refere-se claramente ao céu (veja Atos 2,19); de lá vem a “Jerusalém celestial” (Gálatas 4,26), e do “alto” Jesus chama Paulo para uma recompensa (Filipenses 3,14). De fato, o versículo seguinte contrasta o que está no alto com o que está na “terra”; Acima está Cristo sentado à direita de Deus. Efésios também afirma que Jesus está sentado à direita no céu (1,20). A imagem é tradicional (veja Mateus 26,64; Marcos 14,62; 16:19; Atos 2:34; 7:55-56 (embora nestes versículos ele esteja “em pé”); Hebreus 8,1; 1 Pedro 3,22). Como Atos 2,34 destaca claramente, o texto alude ao Salmo 110,1, um salmo que louva o rei como o “vice-rei” de Deus. O cristianismo primitivo, como evidenciado pela abundância de citações, usou este texto para demonstrar o cumprimento das Escrituras na ressurreição de Jesus e sua subsequente “ausência”.
Buscar o que é do alto e aspirar ao que é do alto são claramente paralelos. Aspirar não é preciso; o verbo fronéô também significa pensar, segurar, e é quase exclusivamente paulino (26 vezes, das quais 22 estão em Paulo [10 em Filipenses e 9 em Romanos], uma em Mateus, Marcos e Atos, e aqui em Colossenses). Há dois textos paulinos que esclarecem o significado: “Pois os que vivem segundo a carne têm a mente voltada para as coisas da carne; mas os que vivem segundo o Espírito têm a mente voltada para as coisas do Espírito” (Romanos 8,5) e “Alguns vivem como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição; o deus deles é o estômago, e a glória deles está na sua vergonha. A mente deles está voltada para as coisas terrenas” (Filipenses 3,19). Em ambos os casos, o desejo é viver de acordo com a novidade que Cristo trouxe, ou viver como se ele não tivesse tocado nossa existência. Não se trata, portanto, de levar uma espécie de vida “espiritual” ou “celestial”, mas de tirar todas as conclusões que a vida “em Cristo” implica para a nossa existência. É por isso que ele afirmará que “morremos” e que “a nossa vida está escondida” em Deus, isto é, “à direita de Deus”.
Visto que já estamos com Cristo em Deus, quando Cristo voltar — como observamos, o que acontecerá sem a tensão das primeiras comunidades cristãs, pois já estamos com ele — sua vinda será menos “espetacular” do que inicialmente pareceu. E aqueles de nós que já estão com ele aparecerão juntamente com ele. “Nossa vida” está escondida — como a de Cristo — com Deus; mas ele aparecerá, e ele já é “a sua vida” (v. 4), e “você aparecerá em glória” (v. 1,27).
Ressuscitados com ele, ocultos com ele, aparecerão como ele, em glória como ele… a união entre o Cristo glorioso e o cristão é tão próxima para o discípulo de Paulo que quase parece que não há mais nada a esperar, é apenas uma questão de viver o que já somos.
Evangelho segundo João 20,1-9
Resumo: Os sinais da ressurreição estão presentes, e ali os amados discípulos devem aprender a “crer sem ver”.
Com uma mudança cronológica, João inicia uma nova unidade, “o primeiro dia da semana”, ou seja, “domingo”. A cena nos apresenta uma mulher sozinha indo ao túmulo. Ela não está com outras pessoas para ungi-lo porque, no Evangelho de João, Jesus foi de fato ungido, e, portanto, ela não espera que ninguém remova a pedra. Foi sugerido, de forma bastante plausível, que o papel das mulheres ao redor do túmulo, com seus cânticos e prantos em memória do morto, parece ter sido o ponto de partida para a proclamação e o anúncio do Evangelho. Nada é dito sobre Maria Madalena, que já havíamos encontrado aos pés da cruz com outras mulheres e o discípulo amado (19,25), olhando para o túmulo, nem o que ela viu, mas em sua mensagem a Pedro e ao outro discípulo, ela lhes diz que “levaram o Senhor, e não sabemos onde o puseram”. Aqui, Maria Madalena desaparece de cena até o versículo 11, onde chora (talvez de tristeza?), olha para o túmulo (agora sim!) e vê dois anjos. Eles, e então Jesus, que lhe aparece, perguntam por que ela está chorando, dando início a uma nova cena. Como essa cena termina com Maria indo até os discípulos para contar o que viu, parece que o autor do quarto Evangelho deliberadamente antecipou a cena de Pedro e do discípulo amado por alguma razão teológica (que apontaremos). Ou seja, os versículos 3-10 parecem ter sido movidos de sua posição original, e a razão parece estar nos papéis que Pedro e o discípulo amado desempenham no Evangelho de João.
Maria não vai até “os discípulos”, mas apenas até Pedro e o discípulo amado, e eles “saem” (v. 3) em direção ao túmulo, “correm” (v. 4). A cena é construída de forma simples. Eles vão, chegam e voltam. Obviamente, o foco temático está no que acontece no túmulo.
Vejamos. Diz que ambos correm, mas há uma diferença entre eles. O discípulo amado corre mais rápido, vê o interior do túmulo, mas não entra. Ele espera por Pedro. Pedro demora mais, "segue-o", entra no túmulo e vê os lençóis e o sudário. O discípulo amado reaparece então, desta vez entrando e "vendo e crendo". Conclui com uma referência às "Escrituras" (sem citar o texto) e à ressurreição. Finalmente (omitido da liturgia), eles retornam para casa.
Como podem ver, a construção é muito simples, mas existem elementos interessantes a considerar.
Pedro e o discípulo amado. Com exceção da cena na cruz, o discípulo amado, herói da comunidade joanina, está sempre com Pedro. Mas ele sempre aparece mais próximo de Jesus do que Pedro (na verdade, ele é “o amado”). Na Última Ceia, é ele quem está ao lado de Jesus, não Pedro (13,23-25). É ele quem, durante a pesca, diz a Pedro que aquele na praia “é o Senhor” (21,7). E quando Pedro confessa seu amor por Jesus três vezes, diz-se do discípulo que ele “permanece com Jesus até o seu retorno” (21,22). Nesse caso, ele corre mais rápido, “vê e crê”. Geralmente se pensa que a comunidade de João, que se refere ao discípulo amado, corre cada vez mais o risco de se tornar sectária, distanciando-se cada vez mais de todos os grupos ao seu redor — até mesmo dos cristãos. Portanto, um redator quer evitar qualquer ruptura, colocando o herói em relação ao herói de outras comunidades, Pedro. É verdade que o discípulo amado é mais numeroso, mas há outras ovelhas que não são deste rebanho, há outras comunidades com as quais estamos em comunhão, e, afinal, elas também amam Jesus. É verdade que ele o negou três vezes, mas três vezes confessou seu amor por ele, mesmo que “nosso herói” permaneça fiel até o fim. Aqui reside a primeira razão para a passagem anterior do texto que mencionamos. Os primeiros a se aproximarem do mistério da Páscoa são Pedro e o discípulo amado, e ambos entram no túmulo e creem na Escritura (observe o plural, apesar do singular precedente, que discutiremos).
Ver e crer: este tema é central no Evangelho de João e fundamental para a cena. Não há aparições do Cristo ressuscitado (essas virão mais tarde no Evangelho), apenas um túmulo e os lençóis mortuários. Diz-se que Pedro "viu" e o discípulo amado "viu e creu". Vamos examinar isso brevemente. A narrativa usa três verbos gregos diferentes: ao chegar, o discípulo amado "vê (blepo) os lençóis mortuários ali estendidos"; então Pedro "olhou (theoreo) para os lençóis mortuários ali estendidos, e o pano que cobria o rosto... não estava junto com os lençóis mortuários, mas dobrado em um lugar separado (talvez para sugerir que o corpo não foi roubado)"; finalmente, ao entrar, o discípulo amado "viu (orao) e creu". O primeiro "ver" (blepo) também é observar. Foi o que Maria fez no versículo 1: "ela viu a pedra ser removida". Encontramos essa expressão 17 vezes em João, 9 das quais estão no relato da cura do cego (capítulo 9).
Como é típico em João, opera em dois níveis: alude claramente à visão física (“agora eu vejo”), mas refere-se a um tipo diferente de ver, aludindo à fé, como se vê no versículo 39: “Disse Jesus: ‘Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os cegos vejam e os que veem se tornem cegos’”. É, portanto, uma visão que prepara para a fé. A segunda “visão” (theôréô) (24 vezes em João) é mais física; no relato do cego, aplica-se aos vizinhos que “viram” o cego mendigando; contudo, também é usada para significar “ver sinais” (2,23; 6,2; 7,3). Não obstante, alguns “veem” o Filho e “creem” (6,40), e ele ressuscitará “no último dia”, porque “quem me vê vê aquele que me enviou” (12,45). Mas, quando se despedirem de Jesus, não o verão, assim como o mundo não vê o Espírito, embora os discípulos o vejam (14,17, 19). Finalmente, o terceiro uso (oraô) é o mais comum (82x). Na parábola do cego, encontramos o verbo no início (v. 1, Jesus o viu) e no fim (v. 37), “aquele que viste”, que é o momento culminante da fé do cego. Já no discurso sobre o pão da vida, esse verbo está intimamente relacionado a “crer”: “Disseram-lhe: ‘Que sinal nos mostrarás para que o vejamos e creiamos em ti?’” (6,30), “eles me viram e não creem” (6,36), aquele que “vê” Jesus, “vê” o Pai (14,9), “ele afirma que não o ‘verão’”, e Jesus declara bem-aventurados “os que não viram e creram” (20,29). Isso nos permite supor que não parece haver muita diferença entre os três, embora o terceiro esteja mais intimamente ligado à "acreditação".
A palavra “crer” é talvez a palavra principal (ou uma delas) de todo o Evangelho (x98). Tudo foi escrito “para que creiam” e “crendo, tenham vida” (20,31). Dizer que o discípulo amado “crê” é dizer que ele alcança a vida. Amor – vida – crença (é interessante notar que o substantivo “fé” nunca aparece em João) constituem o todo. E o interessante é que é este discípulo que se diz “crê”, e sem ver nada além dos sinais da ressurreição. Ele “vê” o mesmo que Pedro, mas este “vê e crê”.
Visto que este é o propósito para o qual o Evangelho foi escrito, visto que aqueles que creem sem terem visto são declarados bem-aventurados, e visto que o discípulo amado – um exemplo do verdadeiro discípulo – crê sem ver nada além dos sinais da ressurreição, a história nos desafia a crer com os sinais (dos tempos) e assim ter a mesma “vida” (que é a vida divina).
“Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20,2)
Em Jesus ocorre algo totalmente novo. Ele traz uma nova maneira de viver que não cabe em nossos esquemas, que não se encaixa em nossos hábitos, sempre limitados e estreitos.
O “mistério pascal” é o salto para a novidade, para a beleza, para a transcendência. Imersos na história e na natureza, a Ressurreição nos faz descobrir a verdadeira extensão da Vida.
Não encontramos o Ressuscitado no sepulcro, mas na vida. Não encontramos o Ressuscitado enfaixado e paralisado pela morte, mas livre como a brisa da vida.
A pedra que fora removida do túmulo de Jesus indicou a Maria Madalena uma novidade que seu coração buscava, uma novidade que espanta, enche o coração do desejo de procura: “Ele vive”.
O caminho dela em direção ao túmulo é símbolo da coragem de atravessar o escuro da madrugada para ver resplandecer uma nova aurora em sua vida, pela força criadora da única Presença que tudo sustenta, tudo recria e enche de amor. A presença do Cristo Ressuscitado.
Na madrugada da Páscoa, Maria Madalena vai ao sepulcro; ela é símbolo daquela comunidade que se movia entre a luz e a obscuridade. Ainda vive focada no sepulcro (morte); por isso, “ainda estava escuro”. Mas, ao mesmo tempo, começava a clarear (“ao amanhecer”) e a “pedra estava removida” (a pedra da dúvida, da tristeza e da resignação fatalista). Tudo parece anunciar algo definitivamente novo: é “o primeiro dia da semana”; trata-se, nada menos, que de uma nova Criação.
Segundo os evangelistas, as mulheres são as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus Cristo, pois Ele aparece primeiramente a elas. Segundo Tomás de Aquino o motivo desta precedência é porque elas estavam melhor preparadas que os homens para entender e acolher a maravilha da Vida.
E estavam melhor preparadas porque O tinham amado mais.
Na ressurreição, a vida emerge de forma misteriosa; ela se impõe, simplesmente. Tal realidade desperta fascinação, provoca admiração e veneração..., porque a vida é sempre sagrada. Diante dela ficamos exta-siados, boquiabertos, escancarados os olhos e afiados os ouvidos. Ela nos atrai por sua força interna.
Portador de uma vida inesgotável, revelada na madrugada pascal, o ser humano vive para mergulhar em algo diferente, novo e melhor. A vida, desde o mais íntimo da pessoa humana, deseja ser despertada e ilu-minada em plenitude. Amar é romper a casca para que a vida se expanda na doação. A morte do falso “eu” é a condição para que a vida se liberte.
Vida plena prometida por Jesus: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo. 10,10).
“Viver como ressuscitado” implica esvaziar-se do “ego”, para deixar transparecer o que há de divino.
Quem se experimenta a si mesmo como “Vida” é já uma pessoa “ressuscitada” e isso faz a grande diferença, pois tem um impacto no seu modo de ser e de viver.
Marcadas pela ressurreição, as pessoas captam muitos detalhes que antes não haviam percebido, vivem intensamente, amam com mais paixão, prestam atenção a muitas coisas que antes lhes passavam desaper-cebidas. Tem um comportamento diferente para com os outros; há, nestas pessoas, mais ternura, são mais sensíveis à dor e à injustiça. Ao saborear o presente da vida, vivem como se fossem ressuscitadas. Crêem que, amando mais a vida, se afastarão mais da morte e resistirão às hostilidades do mundo presente.
E, no entanto, continuam vivendo na mesma casa, no mesmo trabalho, fazendo as mesmas coisas... , mas seu olhar audacioso desperta as consciências, sacode as velhas estruturas, derruba os muros da exclusão.
A Ressurreição não só “dá o que pensar”, mas sobretudo, “dá o que fazer”.
O encontro com o Ressuscitado é fonte de vida e vida em crescente amplitude. Quando nos dispomos a caminhar com Ele, sob a ação do Espírito, realiza-se em nós um processo de abertura e de superação, de crescimento e de reconstrução de nós mesmos...; tomamos consciência de uma dimensão profunda de nosso interior, que nos permite experimentar uma outra vida, que supera tudo o que vivemos até então.
A “vida eterna”, então, não é um prolongamento ao infinito de nossa vida biológica. É a dimensão inesgotável e decisiva de nossa existência. Ela torna-se “eterna” desde já.
A experiência da Ressurreição nos revela que a “vida” é uma totalidade, ou seja, a vida presente, a vida atual, é uma vida que tem tal plenitude que, com toda razão, podemos chamá-la de “vida eterna”, uma vida com tal força e tão sem limites, que nem a morte mesma terá poder sobre ela.
Precisamos adquirir uma consciência mais profunda da vida do espírito, perceber as pulsações desta vida eterna que está em nós, do mesmo modo que, prestando atenção, percebemos as batidas de nosso coração.
A experiência do Ressuscitado nos faz ter um “caso de amor com a vida”.
Pois a vida autêntica é a vida movida, iluminada, impulsionada pelo amor.
Nem sempre sabemos viver: conformamo-nos com uma vida estreita, estéril, fechada ao novo, carregada de “murmurações”. Quando acolhemos a presença do Ressuscitado, nossa vida se destrava e torna-se po-
tencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, com-paixão.... É vida em movimento, gesto de ir além de nós mesmos; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solida-riedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...
Com sua presença compassiva, o Ressuscitado desperta nossa vida, arrancando-a de seus limites estreitos e constituindo-a como vida expansiva em direção a novos horizontes.
O Ressuscitado nos precede, nos sustenta e, na liberdade de seu amor, nos impele a ampliar nossa vida a serviço. Toda peregrinação, em clima de admiração e assombro, se revela rica em descobertas e surpresas, e desperta o coração para dimensões maiores que a rotina de cada dia.
Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição.
Essa nova Vida é capacidade de amar como Jesus amou; é “passar pela vida fazendo o bem”. Somos seres ressuscitados se vivemos os mesmos critérios e valores de Jesus, engajados em seu mesmo projeto.
A “vivência pascal” leva a querer algo mais. É “antecipação criadora”; ela tem “rosto novo”.
É o futuro que ainda pode ser convertido em “história nova”; é vida vivida com encantamento.
A “pedra pesada” da nossa impotência diante da dor, do fracasso e da morte, foi tirada pelo Mestre, que, nos chama pelo “nome” e nos desafia a viver como ressuscitados.
Nossa vida é uma experiência a acolher, uma aventura a amar e um mistério a celebrar. Rompido o túmulo, removida a pedra, resta caminhar...
Deixemo-nos iluminar, levemos a Luz da Ressurreição nas nossas pobres e frá-geis mãos, iluminando os recantos do nosso cotidiano.
Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; é inútil permanecer junto ao túmu-lo. Porque o ausente “aqui” está presente na “Galiléia”. E a Galiléia é o lugar do compromisso com a vida, a justiça e a paz.
Texto bíblico: Jo. 20,1-9
Na oração: Para viver a partir do ser mais profundo, é preciso dedicar uma atenção especial ao próprio coração e aprender a regozijar-se da maravilhosa vida de Deus em cada um. Basta um repouso e o estar presente para fazer acalmar a agitação interior e aproximar-se da fonte da vida.
- É tempo de esvaziar sepulcros; é tempo de remover as pedras da entrada do coração que impedem a entrada da luz, da vida, do canto...? O que lhe impede afastá-las?
- Faça memória das experiências de ressurreição: nos encontros, na missão, sentimentos oceânicos de consola-ção, clareza diante do sentido da vida, amar e sentir-se amado(a), a vivência da bondade e do bem...
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez
Nós, cristãos, não devemos esquecer que a fé em Jesus Cristo ressuscitado é muito mais do que o assentimento a uma fórmula de credo. Muito mais inclusive, que a afirmação de algo extraordinário que aconteceu ao Jesus morto cerca de dois mil anos atrás.
Crer no Ressuscitado é acreditar que agora Cristo está vivo, cheio de força e criatividade, impulsionando a vida em direção ao seu destino final e libertando a humanidade de cair no caos definitivo.
Crer no Ressuscitado é acreditar que Jesus se faz presente no meio dos crentes. É tomar parte activa nos encontros e tarefas da comunidade cristã, sabendo com alegria que, quando dois ou três de nós nos reunimos em Seu nome, ali está Ele colocando esperança nas nossas vidas.
Crer no Ressuscitado é descobrir que a nossa oração a Cristo não é um monólogo vazio, sem interlocutor que escute a nossa invocação, mas um diálogo com alguém vivo que está junto a nós na raiz da vida.
Crer no Ressuscitado é deixar-nos interpelar pela Sua palavra viva recolhida nos evangelhos, e ir descobrindo praticamente que as Suas palavras são «espírito e vida» para quem sabe alimentar-se delas.
Crer no Ressuscitado é viver a experiência pessoal de que Jesus tem força para mudar as nossas vidas, ressuscitar o bem que existe em nós e nos libertar do que mata a nossa liberdade.
Crer no Ressuscitado é saber descobri-lo vivo no último e mais pequeno dos irmãos, chamando-nos à compaixão e à solidariedade.
Crer no Ressuscitado é acreditar que ele é «o primogênito de entre os mortos», em quem se inicia já a nossa ressurreição e em quem se nos abre já a possibilidade de viver eternamente.
Crer no Ressuscitado é acreditar que nem o sofrimento, nem a injustiça, nem o cancro, nem o ataque cardíaco, nem a metralhadora, nem a opressão, nem a morte têm a última palavra. Somente o ressuscitado é o Senhor da vida e da morte.
Chegamos ao ponto mais alto da vida litúrgica e espiritual. Cristo, a Vida, venceu a morte e ressuscitou e, todos nós fomos redimidos e ganhamos a vida plena e feliz, para sempre!
Para muitas pessoas, a paixão, o sofrimento e a morte dizem mais que a celebração da Vida, haja vista o numeroso público presente em nossas igrejas na sexta-feira santa e a ausência na noite em que celebramos a Ressurreição e no dia seguinte, Domingo de Páscoa. O mesmo podemos dizer da presença forte nos funerais e a ausência nos casamentos e missas em ação de graças. Infelizmente o sofrimento e a morte, o luto, falam mais forte e mais alto que a celebração da Vida, que a alegria e o júbilo. Não deveria ser assim, se cremos que nosso Deus é o Deus da Vida, que venceu e destruiu a morte e que Jesus é a nossa alegria! Maria foi a senhora das Dores, mas hoje ela é a senhora da Glória. Mesmo no momento mais duro, mais dolorido de sua vida, aos pés da cruz, vendo seu filho ser supliciado injustamente como um bandido, Maria não caiu, não desmaiou, mas permaneceu firme, porque acreditava nas palavras Dele, de que ressuscitaria.
A primeira leitura deste domingo, retirada do Livro dos Atos dos Apóstolos 10, 34.37-43, conclui relatando a fala de Pedro: “Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados.” Esse é o legado do Senhor, nossa redenção, nossa filiação divina, o perdão de nossos pecados, a Vida Eterna.
A segunda, Colossenses 3, 1-4, nos incentiva a “alcançarmos as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus” e a promessa de que nos revestiremos de glória quando Cristo, nossa vida, aparecer em seu triunfo.
Finalmente, o Evangelho, extraído de João 20, 1-9, nos relata a nova criação. “No primeiro dia da semana...” João relata a criação redimida, o primeiro dia, agora denominado “dies dominica”, dia do Senhor, domingo, marcado não pelo descanso do Senhor como está em Gênesis 2, 1-3, o sétimo dia, mas como o primeiro Gen 1, 1-3 onde Ele separa a luz das trevas, acabando com o caos e agora, inicia a nova criação, dando ao homem a imortalidade e a felicidade sem fim.
Maria Madalena vai ao túmulo ainda quando está escuro, não apenas no tempo, mas também dentro dela, pois seu senhor, seu amado estava morto, assim ela acreditava. Ela encontra o túmulo aberto, sem o corpo de Jesus e o clima interno piora. Diz Jo 20, 11-18 que ela não se cansava de olhar para baixo, para o túmulo vazio e não enxergava mais nada até que homens com vestes brilhantes a questionaram por que chorava tanto e ela fala do desaparecimento do corpo do Senhor. Maria ouve a voz do Senhor, mas crê que seja o jardineiro. Ele havia ressuscitado como prometera. Também nós, enquanto ficarmos com nossos olhares e coração voltados para os sinais de morte e procurando o corpo do Senhor e não Ele ressuscitado, estaremos ‘pra baixo’ tomados pelo desânimo e pela dor. É necessário fazer um pequeno esforço e olhar para o alto, crermos na vitória da Vida.
Mas voltemos para a perícope escolhida para este domingo. Ela, a Madalena vai avisar Pedro e João, do sumiço do corpo de Jesus. Eles chegam ao túmulo, entram, veem as faixas de linho jogadas ao chão e o pano que cobrira a cabeça do Senhor, dobrado e colocado à parte. Diz o versículo 8, que João viu e acreditou. A notícia da ressurreição é tão extraordinária, que apesar de Jesus sempre falar nela, no momento propício para acreditar, todos ficam perplexos e com dificuldade para crer no que estão vendo, até que pela tarde, e com tudo fechado, Jesus aparece a eles, em Jo 20, 19-23. E nós, apesar de sabermos que por trás das nuvens escuras existe um céu azul com um sol brilhante, custamos a acreditar em nossa inteligência e ficamos presos aos nossos sentidos?
Neste tempo de pandemia, tempo longo, mais longo do que imaginávamos, cremos na ação de Deus através da ciência, já que foi Ele que a criou e nos deu o mandamento de dominar e transformar as coisas criadas para o bem nosso e de toda a Criação? A pandemia terá fim e será, não através de atos mágicos e de crendices, mas através da aliança fé e ciência, juntas para a maior glória de Deus e bem de toda a Humanidade!
Como saio após situações difíceis, doloridas? O mesmo, ou melhorado?
Como sairá a Humanidade depois desta pandemia? A mesma, com suas crenças e perversões ou melhorada, mais fraterna, solícita e colhedora?
Neste momento em que estamos vivendo uma pandemia, a meu ver, o que mais precisamos é de Esperança! Força! Fé! E a liturgia de hoje está repleta dessa esperança! Então... vamos refletir um pouco sobre ela.
Na primeira leitura, temos o discurso de Pedro em Cesareia, onde ele faz o anúncio de Jesus, apresenta-o como Cristo, e mostra que Deus está além da lei de Moisés. Pedro fala sobre a abertura da salvação para todas as pessoas. “Todo aquele que crê em Jesus recebe em seu nome, o perdão dos pecados”. No discurso Pedro marca a função histórica privilegiada do povo hebreu, entretanto enfatiza que Jesus é o Salvador de todas as pessoas, indiscriminadamente. O importante é crermos, termos fé.
Em seguida temos o Salmo, que diz: “devemos dar graças porque o Senhor é bom”. Em outro trecho, “A mão direita do Senhor, me levantou”. [...] Não morrerei, viverei para cantar as grandes obras do senhor”. E finalmente, “A pedra que os pedreiros rejeitaram tornou-se a Pedra Angular”.
E não é isso que a ressurreição nos traz? Jesus venceu a morte. E como diz a carta de Paulo aos Colossenses, Cristo encontra-se à direita do Pai. Portanto, se ressuscitamos com Cristo, nossa vida com Cristo em Deus está.
E todas essas passagens se completam com o evangelho de Jo 20, 1-9, onde encontramos o túmulo vazio. Neste evangelho, Maria Madalena, uma mulher, vai ao túmulo, não para passar bálsamos, pois no evangelho de João, outras mulheres já o tinham feito. Ela foi para chorar a morte de Jesus, seu mestre e amigo querido, mas ao chegar vê que a pedra havia sido retirada, e é ela, uma mulher, a primeira a ver o túmulo aberto, e vai ao encontro de Pedro e ao discípulo que Jesus amava dar esta notícia. Ambos, então, correm para ver o que havia acontecido.
E, hoje, nós como discípulos amados, devemos correr para ver o que está acontecendo. Isto me lembra o Papa Francisco solitário, rezando na Praça São Pedro, e quando esta cena chocou a multidão de católicos, alguém logo disse: Ele não estava sozinho, eu estava lá. E muitos foram dizendo através das mídias sociais, que estavam naquele momento, juntos com o Papa Francisco. Sim, nós estávamos lá.
E na Páscoa da Ressurreição, estamos juntos com Pedro, diante do túmulo vazio. Os panos mortuários estão dobrados, o lenço que cobriu a cabeça de Jesus também. O que isto significa? Não pode ter sido ladrão, pois ele não deixaria tudo organizado. Não..., isso mostra a soberania daquele que tem o poder de retomar a vida. Lázaro teve que ser desamarrado de sua mortalha; Jesus, não precisou de ninguém.
Como prescreve a lei, duas testemunhas presenciaram o túmulo vazio, mas o evangelho não deixa Madalena de fora, e nos informa que foi ela quem deu a notícia a Pedro, que com o outro discípulo, o discípulo amado, correu para o local do túmulo. Pedro entrou, e logo depois o outro discípulo, que vê e crê.
Na atualidade, nós somos o outro discípulo, o discípulo amado. E assim precisamos entrar em nosso interior, em nossos corações para ‘ver’ e ‘crer’.
Como diz o evangelho, eles ainda não tinham compreendido as Escrituras, e começaram ali a lembrar que estava escrito que Jesus iria ressuscitar dos mortos.
A ressurreição fez brotar a compreensão das Escrituras para eles, como hoje, deve nos lembrar: Jesus está vivo! Vivo! Espalhando o seu amor! Sofrendo com os que estão dentro de suas casas assustados, chorando com as famílias pelos que morrem, mas também curando com cada profissional de Saúde que trabalha incessantemente para salvar milhões de vidas. Servindo junto àquela pessoa que deixa a sua casa para trabalhar, com o cientista que busca encontrar o remédio certo, a vacina, e tudo o que poderá vir a nos ajudar a vencer essa pandemia, para fazer a vida retornar, acredito que não às condições que vivíamos antes.
Mas da mesma maneira que os discípulos de Jesus, diante da Ressurreição, compreenderam as Escrituras, nós também diante da Ressurreição, venhamos a compreender e nos deixar impregnar pelo amor incondicional de Jesus, que nos mostra o Deus solidário, Deus da vida. E a partir daí perceber que somos uma enorme família interligada entre nós e dependente de uma natureza, que precisa do nosso respeito e cuidado.
A ressurreição é o fundamento da nossa Esperança. E a salvação é para todos, sem distinção de gênero, sexualidade, religião, raça, etnia etc.
Terminamos esta reflexão, lembrando novamente o Salmista que diz: Eterna é a misericórdia de Deus! E assim, desejo a todos e todas uma Feliz Páscoa!