15/02/2026
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AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
1ª Leitura: Eclesiástico 15,16-21
Salmo 118(119) R- Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo!
2ª Leitura: 1 Coríntios 2,6-10
Evangelho de Mateus 5,17-37
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 17Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. 18Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra. 19Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus. 20Porque eu vos digo: Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus. 21Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal'. 22Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno. 23Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta. 25Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. 26Em verdade eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo. 27Ouvistes o que foi dito: 'Não cometerás adultério'. 28Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. 29Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. 30Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno. 3lFoi dito também: 'Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio'. 32Eu, porém, vos digo: Todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério. 33Vós ouvistes também o que foi dito aos antigos: 'Não jurarás falso', mas 'cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor'. 34Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; 35nem pela terra, porque é o suporte onde apóia os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei. 36Não jures tão pouco pela tua cabeça, porque tu não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo. 37Seja o vosso 'sim': 'Sim', e o vosso 'não': 'Não'. Tudo o que for além disso vem do Maligno. Palavra da Salvação.
Mt 5,17-37
Este evangelho faz parte do Sermão da Montanha e é continuação das bem-aventuranças. Ele começa com uma advertência: “Não penseis que vim para abolir a Lei e os profetas. Não vim para abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento (...). Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus”.
As bem-aventuranças podem ser mal interpretadas ou manipuladas como uma licença para a desobediência aos mandamentos de Deus. Jesus não veio abolir a Lei e os Profetas, ou seja, não veio para se opor à Palavra de Deus revelada no AT. Isso seria o mesmo que opor Deus a Deus. Jesus veio para levar a perfeição a Palavra revelada. “Muitas vezes e muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho” (Hb 1,1). Jesus veio dar pleno cumprimento à Lei e aos Profetas. Ele é pessoalmente o sentido autêntico e definitivo do que Deus revelou outrora aos pais pelos profetas. Se quisermos entender o AT, é preciso ouvir o que Jesus ensina e ver como Jesus vive a Lei e os Profetas.
Com a sua exigência: “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus”, Jesus não quer tornar os seus discípulos mais legalistas e tradicionalistas do que os fariseus. A justiça que Jesus quer não se baseia na mera observância, mas na superação da Lei. É importante cumprir a Lei, mas é mais necessário ir além da Lei. É exatamente isso o que falta aos doutores da lei e aos fariseus: a justiça deles é falsa por três motivos: ou porque não cumprem o que ensinam aos outros, ou porque invalidam a lei com a sua casuística, ou porque se fixam na letra sem penetrar no seu espírito. Parar ter “uma justiça superior” é preciso ser justo como Jesus; cumprir a Lei como Jesus a cumpriu.
Como foi isso? Jesus mesmo dá alguns exemplos concretos.
“Não matarás”. Essa é a Lei, mas é preciso ir além da Lei. Não basta não matar o irmão. Também a ira, o insulto e o desprezo são formas iniciais, preparatória e preliminares de matar o irmão. O homicídio nunca acontece “de repente”; ele é precedido pela ruptura da fraternidade no coração e pela nossa língua que fala mal do irmão. O Eclesiastes diz: “Muitos caíram ao fio da espada, mas não tantos quantos pereceram por culpa da língua” (28,18).
A Lei proíbe matar o outro; Jesus, porém, superou essa Lei, ensinando a não insultar o outro chamando-o de patife ou de tolo. Os insultos que nós proferimos, nascem no nosso coração, de preconceitos que formamos dos outros. Com os insultos rotulamos o irmão de “ignorante”, “besta”, “bobo”, “tapado”. Com os insultos “patife” e “tolo” expressamos nosso desprezo pelo outro e também nosso rancor e inveja. Ao fazer isso impomos ao outro o que nós concebemos sobre ele: são os preconceitos. Com os preconceitos criamos o inimigo e depois começamos a inventar as formas de nos livrar deles. Todas as guerras tiveram também como causa os preconceitos.
Como remédio ao nosso vício de insultar o irmão, Jesus recomenda a reconciliação: Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão! Estamos obrigados ao culto a Deus, porque queremos estar perto Dele. Nossa oferta não acrescenta nada a Deus, mas nos aproxima Dele. Estar próximo de Deus, ser seu íntimo, amar e ser amado por Deus constitui nossa felicidade mais autêntica. Mas nossa oferta a Deus não pode ser falsa. Apresentar uma oferta injusta não agrada a Deus. Nossa oferta é injusta, quando ela é fruto de roubo, de sonegação dos direitos dos outros.
Jesus nos ensina a “justiça superior”, ao nos revelar que a oferta está indissoluvelmente vinculada com o ofertante. Se o ofertante não agrada a Deus, também a sua oferta não lhe será agradável. Por isso Jesus exige que antes de oferecer a Deus é preciso se reconciliar com os que tem algo contra nós. Jesus nos mostra que os mandamentos foram um todo indivisível. Não se pode escolher entre eles, como se estivessem na prateleira do supermercado, escolhendo respeitar os mandamentos que se referem a Deus e deixando de lado os que se referem aos irmãos.
Conta-se que um missionário explicava aos índios esta passagem na homilia e, como não falava a língua dos índios, era ajudado por um tradutor. Em certo momento, uma parte dos índios saiu da missa. O missionário ficou indignado com isso e reclamou com o tradutor. O tradutor lhe respondeu: “Não se preocupe, eles entenderam o evangelho e foram se reconciliar com os irmãos. Em breve estarão todos de volta na missa”.
Não cometerás adultério! Essa Lei proíbe romper os laços familiares de amor. O adultério é um pecado grave por causa do bem que ele destrói: o amor conjugal e a família. Por isso a pena é severíssima: a morte. Jesus vai além desse mandamento; ele interioriza essa Lei. É preciso também evitar o desejo desregrado consentido, o olhar cobiçoso e o pensamento malicioso. Assim entendemos a exigência de Jesus: se o teu olho é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o longe de ti! Se o olho é malicioso, melhor não ter olhos.
Da mesma forma que o olho, as mãos devem fazer o bem. É com elas que trabalhamos e ganhamos o pão de cada dia. Se as usamos para fazer o mal, seria melhor não ter mãos. Jesus não quer a automutilação, isso também é pecado grave! Ele nos ensina a evitar as ocasiões de pecado, mesmo que isso nos custe grandes sacrifícios e a usar os membros de nosso corpo (também a inteligência, a saúde, o tempo) para fazer o bem.
Todo aquele que se divorcia de sua mulher, faz com que ela se torne adúltera. Moisés havia permitido o divórcio, por isso o homem deveria dar uma certidão de divórcio à sua ex-mulher. Jesus supera a lei de Moisés ao transpor o divórcio do plano jurídico para o plano do amor. O amor conjugal é indissolúvel por sua própria natureza e porque se torna sinal do “grande mistério” do amor de Cristo e da Igreja. Por isso o homem não pode separar o que Deus uniu.
Seja o vosso sim: sim! O juramento não foi abolido. Continuamos a fazer juramento em algumas ocasiões muito precisas. Mas não fazemos juramento a todo momento. Nós abusamos do juramento, quando precisamos dar à nossa palavra uma credibilidade que ela não tem por si mesma: porque não fazemos o que prometemos; porque mentimos e enganamos os outros com frequência; porque manipulamos os outros com nossa linguagem dúbia. Para corrigir esse comportamento reprovável, o único remédio é o que Jesus nos dá: que estejamos tão enraizados na verdade que não sejam necessários juramentos. Se o juramento nos é pedido por justa causa, não devemos recusá-lo, mas nosso comportamento deveria ser tal que o juramento fosse dispensável.
6º DomTComum - Mt 5, 17-37 Ano A - 15-02-2026
“Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20)
A liturgia deste domingo nos apresenta um longo texto do evangelho de Mateus. É importante que descubramos a mensagem central, essencial e sumamente importante ali presente, se não quisermos correr o risco de nos enredar em cada detalhe, perdendo aquilo que, de verdade, Jesus desejava para as comunidades cristãs.
O primeiro parágrafo já nos dá a chave de leitura de todo o texto. Mateus explicita a atitude de Jesus frente à Lei: “Vim para dar-lhe plenitude”; ou seja, Ele não se limita a analisar os detalhes da Lei, nem criticar alguns preceitos, mas dar plenitude e sentido profundo.
E esta plenitude não significa melhorar a lei com novas normas que Jesus confrontaria com as antigas, por considerá-las mais perfeitas. A plenitude que o evangelho nos apresenta não vai na direção de “maior perfeição” da lei, mas de uma mudança radical: Jesus mesmo é a plenitude da Lei. Sua pessoa, sua identidade, sua mensagem, sua maneira de viver é a Lei mesma em sua plenitude. Por isso, acolhê-Lo, crer n’Ele, identificar-nos com Ele, vivendo como discípulos seus, nos torna “grandes no Reino dos céus”.
Os evangelistas deixam claro que Jesus não vive centrado na Lei; não se dedica a estudá-la nem a explicá-la a seus discípulos. Nunca o vemos preocupado por observá-la de maneira escrupulosa. Certamente, não põe em marcha uma campanha contra a Lei, mas esta não ocupa um lugar central em seu coração. Jesus não foi contra a Lei, mas foi além da Lei. Quis dizer-nos que sempre temos que ir mais além da letra, da pura formulação, até descobrir o espírito da lei. “A lei mata, o espírito vivifica” (S. Paulo).
Jesus busca a Vontade de Deus a partir de outra experiência diferente, ou seja, procurando abrir caminho entre os homens para construir com eles um mundo mais justo e fraterno. Isto muda tudo. A Lei já não é o decisivo para saber o que Deus espera de nós. O primeiro é “buscar o reino de Deus e sua justiça”.
“Justiça” é um termo particularmente especial para Mateus, e que poderia ser traduzido como “ajustar-se ao modo de agir Deus” “sintonizar-se à sua vontade” – uma justiça que é infinitamente superior à Lei.
Para ressaltar a “novidade” da mensagem de Jesus, o evangelista Mateus realça que “se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus”.
O texto aponta para algo de grande profundidade e que toca uma questão básica do caminho espiritual: “a partir de onde eu vivo? vivo a partir da lei externa ou a partir do coração?”
Os códigos morais insistem nas ações: “não matar”, “não cometer adultério”, “não jurar”. Mas, provavelmente, todos temos experiência de que é possível não ter cometido nada disso e, no entanto, vivemos com o coração endurecido, desconectado daquilo que é realmente importante.
A mensagem de Jesus é radical pois quer chegar à raiz. E por isso nos confronta com nossa própria verdade interior. O evangelho deste domingo nos revela um Jesus que vem para dar plenitude à lei. Mas essa plenitude está muito distante do mero cumprimento externo: não matar, não cometer adultério, não jurar falso... Supõe ir mais adentro, mais a fundo, examinando nossas atitudes, nossas razões, nossos sentimentos e tudo aquilo que nos constrói e define como pessoas. É aí, no centro de nossa humanidade, onde conectamos com o espírito e o divino em nós; onde todos somos uno e nossas ações são um fluir dessa unidade interior.
Viver a partir do “coração” significa viver a partir do amor que nasce da compreensão da unidade que somos, e que se modela na “regra de outro”: “faça aos outros o que gostaria que eles fizessem a você”.
A nova situação que se instaurou a partir da vinda do Messias não é como a antiga aliança, a aliança da lei exterior ao homem; é, pelo contrário, a aliança da interioridade, a situação que se define pelas atitudes que brotam do coração.
Há uma frase que se repete três vezes no texto deste domingo, e que, ao mesmo tempo, é novidade e ruptura. Certamente, ela se revelou escandalosa para muitos contemporâneos de Jesus, judeus fiéis à lei de Moisés, à qual consideravam-na como voz de Deus: “Vós ouvistes o que foi dito... Eu, porém, vos digo”.
A novidade e a ruptura estão na afirmação: “Eu, porém, vos digo”. A força da expressão é o “eu”. Sua autoridade reside em sua pessoa. Sua maneira de ser e viver é nossa “lei” e referência. A partir de agora, cumprir a lei é crer n’Ele e segui-lo. A coerência de Jesus é a origem de sua autoridade; não é a dos escribas e fariseus que dizem, mas não fazem.
O evangelho pede de todos nós uma mudança absoluta. É como se Jesus nos dissesse: “não fiques só em tuas ações, a lei está dirigida ao coração, ao interior de tua pessoa, às tuas atitudes profundas, às tuas razões para agir, aos teus sentimentos, àquilo que te constrói e te define como pessoa. Tu não podes te limitar em não atacar teu irmão; és chamado a amá-lo, compreendê-lo, perdoá-lo...”
Com a novidade do anúncio e da prática de Jesus, realizou-se uma transformação radical nas relações do ser humano com Deus e com os outros. Esta transformação consiste em que o regime da observância da lei foi sucedido por outro regime, o regime filial, que comporta uma situação muito diferente.
Por conseguinte, a nova situação consiste em que não só fomos libertados da lei, senão que, além disso – e sobretudo – Deus nos fez verdadeiros(as) filhos(as) seus(suas).
Nesse sentido, as relações de intimidade familiar não se fundamentam a partir de um regulamento ou de uma codificação legal. Seria simplesmente absurdo que duas pessoas, que se amam, se pusessem a redatar um regulamento no qual se estipulasse taxativamente como dever-se-iam agradar mutuamente.
Quando se trata de uma relação pessoal, vivida nessa profundidade, é o dinamismo do amor que faz cada um inventar sua própria conduta, descobrir o que agrada ao outro e evitar a todo custo o que pode causar distância entre eles.
Pode-se e deve-se dizer: a liberdade que a fé exige é viver o amor com todas as suas consequências. As exigências da lei são sempre limitadas; as exigências do amor, pelo contrário, não têm limites.
O único limite do amor é amar sem limites, é a disponibilidade e o serviço incondicional aos outros.
Ou seja, no amor não há limite possível. E isso, no fundo, é o que nos dá medo e nos assusta a ideia de uma vida cristã na qual tudo depende, não da observância de algumas leis (com seus limites e casuísticas), senão do grau e da dose de amor sincero, da bondade sem limites que alguém tenha frente aos outros com quem convive.
É preciso superar o legalismo que se contenta com o cumprimento literal de leis e normas. O empenho de Jesus consistiu em fazer as pessoas passarem de uma religiosidade externa a uma atitude interna, ou seja, passar de um cumprimento de leis a uma descoberta das exigências de nosso próprio ser.
Nosso cristianismo será mais humano e evangélico quando aprendermos a viver as leis, normas, preceitos e tradições como Jesus os vivia: buscando esse mundo mais justo e fraterno que o Pai tanto deseja.
Nesse sentido, o Sermão da Montanha não é Lei, mas Evangelho.
Esta é a diferença entre a Lei e o Evangelho: a Lei deixa a pessoa abandonada às suas próprias forças, impõe-lhe preceitos que é preciso esforçar-se por cumpri-los, ameaça-a, premia-a, exige-lhe empenho…
O Evangelho, no entanto, coloca a pessoa diante do dom de Deus, faz-lhe conhecer seu Pai, converte-a em filho(a), transforma-a por dentro… e não a obriga a nada. No amor não há imposição, mas acolhida.
Eclo 15,16-21; Sl 119,1-34; 1Cor 2,6-10; Mt 5,17-37.
O texto do evangelho de hoje está dentro da unidade maior de Mt 5,20 até Mt 5,48. Nela Mateus mostra como Jesus interpretava e explicava a Lei de Deus. Por cinco vezes ele repetiu a frase: “Antigamente foi dito, eu, porém, lhes digo!” (Mt 5,21.27.33.38.43). Na opinião de alguns fariseus, Jesus estava acabando com a lei. Mas era exatamente o contrário. Ele dizia: “Não pensem que vim acabar com a Lei e os Profetas.
Não vim acabar, mas sim dar-lhes pleno cumprimento (Mt 5,17). Frente à Lei de Moisés, Jesus tem uma atitude de ruptura e de continuidade. Ele rompe com as interpretações erradas que se fechavam na prisão da letra, mas reafirma categoricamente o objetivo último da lei: alcançar a justiça maior que é o Amor.
Nas comunidades para as quais Mateus escreve o seu Evangelho havia opiniões diferentes frente à Lei de Moisés. Para alguns, ela não tinha mais sentido. Para outros, ela devia ser observada até nos mínimos detalhes. Por isso, havia muitos conflitos e brigas. Uns chamavam os outros de imbecil e de idiota. Mateus tenta ajudar os dois grupos a entender melhor o verdadeiro sentido da Lei e traz alguns conselhos de Jesus para ajudar a enfrentar e superar os conflitos que surgem dentro da família e dentro da comunidade.
Mateus 5,20: A justiça de vocês deve ser maior que a justiça dos fariseus.
Este primeiro versículo dá a chave geral de tudo que segue no conjunto de Mt 5,20-48. O evangelista vai mostrar às comunidades como elas devem praticar a justiça maior que supera a justiça dos escribas e dos fariseus e que levará à observância plena da lei. Em seguida, depois desta chave geral sobre a justiça maior, Mateus traz cinco exemplos bem concretos de como praticar a Lei de tal maneira que a sua observância leve à prática perfeita do amor. No primeiro exemplo do evangelho de hoje, Jesus revela o que Deus queria quando entregou a Moisés o quinto mandamento “Não Matarás!”.
Mateus 5,21-22: Não Matar
“Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: Não mate! Quem matar será condenado pelo tribunal” (Ex 20,13) Para observar plenamente este quinto mandamento não basta evitar o assassinato. É preciso arrancar de dentro de si tudo aquilo que, de uma ou de outra maneira, possa levar ao assassinato, como por exemplo, raiva, ódio, xingamento, desejo de vingança, exploração, etc. “Todo aquele que fica com raiva do seu irmão, se torna réu perante o tribunal”. Ou seja, quem fica com raiva do irmão já merece o mesmo castigo de condenação pelo tribunal que, na antiga lei, era reservado para o assassino! E Jesus vai mais longe ainda. Ele quer arrancar a raiz do assassinato: Quem diz ao seu irmão: ‘imbecil’, se torna réu perante o Sinédrio; e quem chama o irmão de ‘idiota’, merece o fogo da geena. Com outras palavras, eu só observei plenamente o mandamento Não Matar se consegui tirar de dentro do meu coração qualquer sentimento de raiva que leva a insultar o irmão. Ou seja, se cheguei à perfeição do amor.
Mateus 5,23-24: O culto perfeito que Deus quer
“Portanto, se você for até o altar para levar a sua oferta, e aí se lembrar de que o seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe a oferta aí diante do altar, e vá primeiro fazer as pazes com seu irmão; depois, volte para apresentar a oferta”. Para poder ser aceito por Deus e estar unido a ele, é preciso estar reconciliado com o irmão, com a irmã. Antes da destruição do Templo do ano 70, quando os cristãos ainda participavam das romarias a Jerusalém para fazer suas ofertas no altar do Templo, eles sempre se lembravam desta frase de Jesus. Agora, nos anos 80, no momento em que Mateus escreve, o Templo e o Altar já não existiam. A própria comunidade passou ser o Templo e o Altar de Deus (1Cor 3,16).
Mateus 5,25-26: Reconciliar
Um dos pontos em que o Evangelho de Mateus mais insiste é a reconciliação, pois nas comunidades daquela época, havia muitas tensões entre grupos radicais com tendências diferentes, sem diálogo. Ninguém queria ceder diante do outro. Mateus ilumina esta situação com palavras de Jesus sobre a reconciliação que pedem acolhimento e compreensão. Pois o único pecado que Deus não consegue perdoar é a nossa falta de perdão aos outros (Mt 6,14). Por isso, procure a reconciliação, antes que seja tarde demais!
O ideal da justiça maior
Por cinco vezes, Jesus cita um mandamento ou um costume da lei antiga: Não matar (Mt 5,21), Não cometer adultério (Mt 5,27), Não jurar falso (Mt 5,33), Olho por olho, dente por dente (Mt 5,38), Amar o próximo e odiar o inimigo (Mt 5,43). E por cinco vezes, ele critica a maneira antiga de observar estes mandamentos e aponta um caminho novo para atingir a justiça, o objetivo da lei (Mt 5,22-26; 5, 28-32; 5,34-37; 5,39-42; 5,44-48). A palavra Justiça aparece sete vezes no Evangelho de Mateus (Mt 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32). O ideal religioso dos judeus da época era “ser justo diante de Deus”. Os fariseus ensinavam: “A pessoa alcança a justiça diante de Deus quando chega a observar todas as normas da lei em todos os seus detalhes!” Este ensinamento gerava uma opressão legalista e trazia muitas angústias para as pessoas de boa vontade, pois era muito difícil alguém observar todas as normas (Rom 7,21-24).
Por isso, Mateus recolhe palavras de Jesus sobre a justiça mostrando que ela deve ultrapassar a justiça dos fariseus (Mt 5,20). Para Jesus, a justiça não vem daquilo que eu faço para Deus observando a lei, mas sim vem do que Deus faz por mim, me acolhendo com amor como filho ou filha. O novo ideal que Jesus propõe é este: “Ser perfeito com o Pai do céu é perfeito!” (Mt 5,48). Isto quer dizer: eu serei justo diante de Deus, quando procuro acolher e perdoar as pessoas da mesma maneira como Deus me acolhe e me perdoa gratuitamente, apesar dos meus muitos defeitos e pecados.
Mateus 5,27-28: Não cometer adultério
O que pede de nós este mandamento? A resposta antiga era esta: o homem não pode dormir com a mulher do outro. É o que exigia a letra do mandamento. Mas Jesus vai além da letra e diz: “Eu, porém, lhes digo: todo aquele que olha para uma mulher e deseja possuí-la, já cometeu adultério com ela no coração”.O objetivo do mandamento é a fidelidade mútua entre o homem e a mulher que assumiram viver juntos como casados. E esta fidelidade só será completa, se os dois souberam manter a fidelidade mútua até no pensamento e no desejo e se souberem chegar a uma total transparência entre si.
Mateus 5,29-30: Arrancar o olho e cortar a mão
Para ilustrar o que acaba de dizer Jesus traz uma palavra forte que ele usou também em outra ocasião quando tratava do escândalo aos pequenos (Mt 18,9 e Mc 9,47). Ele diz: “Se o olho direito leva você a pecar, arranque-o e jogue-o fora! É melhor perder um membro, do que o seu corpo todo ser jogado no inferno”. E ele afirma o mesmo a respeito da mão. Estas afirmações não podem ser tomadas ao pé da letra. Elas indicam a radicalidade e a seriedade com que Jesus insiste na observância deste mandamento.
Mateus 5,31-32: A questão do divórcio
Ao homem era permitido dar uma certidão de divórcio para a mulher. Jesus dirá no Sermão da Comunidade que Moisés o permitiu por causa da dureza do coração do povo (Mt 19,8). “Eu, porém, lhes digo: todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por causa de fornicação, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada, comete adultério”. Muita discussão já foi feita em torno deste assunto. Baseando-se nesta afirmação de Jesus, a igreja oriental permite o divórcio no caso de “fornicação”, isto é, de infidelidade. Outros dizem que, aqui, a palavra fornicação traduz um termo aramaico ou hebraico zenuth que indicava um casamento dentro de um grau parentesco proibido. Não seria um casamento válido.
Qualquer que seja a interpretação correta desta palavra, o que importa é ver o objetivo e o sentido geral das afirmações de Jesus na nova leitura que ele faz dos Dez Mandamentos. Jesus aponta um ideal que deve estar sempre diante dos meus olhos. O ideal último é este: “ser perfeito como o pai de céu é perfeito” (Mt 5,48). Este ideal vale para todos os mandamentos revistos por Jesus. Na releitura do mandamento “Não cometer adultério“, este ideal se traduz na total e radical transparência e honestidade entre marido e mulher.
Ninguém nunca vai poder dizer: “Sou perfeito como o Pai do céu é perfeito”. Estaremos sempre abaixo da medida. Nunca vamos poder merecer o prêmio pela nossa observância que sempre será abaixo da medida. O que importa é manter-se na caminhada, manter o ideal diante dos olhos, sempre! Mas ao mesmo tempo, como Jesus, devemos saber aceitar as pessoas com a mesma misericórdia com que ele aceitava as pessoas e as orientava para o ideal. Por isso, certas exigências jurídicas da igreja hoje, como por exemplo, não permitir a comunhão a pessoas que vivem em segundas núpcias, parecem mais com os fariseus do que com a atitude de Jesus. Ninguém aplica ao pé da letra a explicação do mandamento “Não Matar”, onde Jesus diz que todo aquele que chama seu irmão de idiota merece o fogo da geena (Mt 5,22). Pois neste caso, todos já teríamos viagem garantida até lá e ninguém se salvaria. Por que a doutrina nossa usa medidas diferentes no caso do quinto e do nono mandamento?
Mateus 5,33: Foi dito aos antigos: não jurar falso
A lei do AT dizia: “Não jurar falso”. E acrescentava que a pessoa deve cumprir os seus juramentos para com o Senhor (cf. Nm 30,2). Na oração dos salmos se diz que só pode subir a montanha de Javé e chegar no lugar santo “aquele que tem mãos inocentes e coração puro, que não confia nos ídolos, nem faz juramento para enganar”(Sl 24,4). O mesmo é dito em vários outros lugares do AT (Ecle 5,3-4), pois deve-se poder confiar nas palavras do outro. Para favorecer esta confiança mútua, a tradição tinha inventado a ajuda do juramento. Para dar força à sua palavra, a pessoa jurava por alguém ou por algo que era maior do que ela e que poderia vir castiga-la caso ela não cumprisse o que prometeu. E assim é até hoje. Tanto na igreja como na sociedade, há momentos e ocasiões em que se exigem juramentos solenes das pessoas. No fundo, o juramento é a expressão da convicção de que nunca se pode confiar inteiramente na palavra do outro.
Mateus 5,34-36: Mas eu digo: não jurar nunca
Jesus quer sanar esta deficiência. Não basta “não jurar falso”. Ele vai mais além e afirma: “Eu, porém, lhes digo: não jurem de modo algum: nem pelo Céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o suporte onde ele apóia os pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. Não jure nem mesmo pela sua própria cabeça, porque você não pode fazer um só fio de cabelo ficar branco ou preto. Faziam juramento pelo céu, pela terra, pela cidade de Jerusalém, pela própria cabeça. Jesus mostra que tudo isto é remédio que não cura a doença da falta de transparência no relacionamento entre as pessoas. Qual é a solução que ele propõe?
Mateus 5,37: O Sim seja sim, e o não seja não.
A solução que Jesus propõe é esta: “Diga apenas ‘sim’, quando é ‘sim’; e ‘não’, quando é ‘não’. O que você disser além disso, vem do Maligno”. Ele propõe a total e radical honestidade. Nada mais do que isto. O que você disser além disso, vem do Maligno. Aqui, novamente, aqui somos confrontado com um objetivo que ficará sempre na nossa frente e que nunca chegaremos a cumprir totalmente. É uma outra expressão do novo ideal de justiça que Jesus propõe: “ser perfeito como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Jesus elimina pela raiz qualquer tentativa de eu criar em mim a convicção de que me salvo pela minha observância da lei. Ninguém poderá merecer a graça de Deus. Já não seria graça. Observamos a Lei, não para merecera salvação, mas para agradecer de coração a imensa bondade gratuita de Deus que nos acolhe, perdoa e salva sem merecimento algum da nossa parte.
Os judeus falavam com orgulho da Lei de Moisés. Segundo a tradição, foi Deus que a ofereceu a seu povo. É o melhor que receberam Dele. Nessa Lei, acha-se a vontade do único Deus verdadeiro. Aí podem encontrar tudo o que necessitam para serem fiéis a Deus.
Para Jesus, também a Lei é importante, mas já não ocupa o lugar central. Ele vive e comunica outra experiência: está a chegar o reino de Deus; o Pai procura abrir um caminho entre nós para fazer um mundo mais humano. Não basta nos contentarmos em cumprir a Lei de Moisés. É necessário abrir-nos ao Pai e colaborar com Ele para fazer a vida mais justa e fraterna.
Por isso, segundo Jesus, não basta cumprir a Lei, que ordena «não matarás». É necessário, também, arrancar da nossa vida a agressividade, o desprezo pelo outro, os insultos ou as vinganças. Aquele que não mata cumpre a Lei, mas, se não se liberta da violência, no seu coração não reina ainda esse Deus que procura construir conosco uma vida mais humana.
Conforme alguns observadores, está se espalhando na sociedade atual uma linguagem que reflete o crescimento da agressividade. Cada vez são mais frequentes os insultos ofensivos, proferidos tão somente para humilhar, desprezar e ferir. Palavras nascidas da rejeição, do ressentimento, do ódio ou da vingança.
Por outro lado, as conversações estão frequentemente tecidas de palavras injustas que distribuem condenações e semeiam suspeitas. Palavras ditas sem amor e sem respeito que viciam a convivência e fazem mal. Palavras nascidas quase sempre da irritação, da mesquinhez ou da baixeza.
Esta não é uma situação que se dê apenas na convivência social. É também um grave problema no interior da Igreja atual. O papa Francisco sofre ao ver divisões, conflitos e confrontos de «cristãos em guerra contra outros cristãos». É um cenário tão contrário ao Evangelho que ele sentiu a necessidade de nos dirigir uma chamada urgente: «Não à guerra entre nós».
Assim fala o Papa: “Dói-me comprovar como em algumas comunidades cristãs, e entre pessoas consagradas, consentimos diversas formas de ódios, calúnias, difamações, vinganças, ciúmes, desejo de impor as próprias ideias à custa de qualquer coisa e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. A quem vamos evangelizar com esses comportamentos?”. O Papa trabalha por uma Igreja na qual «todos podem admirar como vos cuidais uns aos outros, como vos dais alento mutuamente e como vos acompanhais».
Neste domingo, continua-se lendo e aprofundando o discurso do Sermão da Montanha. Lembremos que a comunidade para quem está dirigido o texto é principalmente um grupo de pessoas que anteriormente pertencia ao judaísmo. Precisam clareza sobre as novas orientações da vida cristã no seguimento de Jesus, principalmente respeito aos antigos costumes.
Como é preciso atuar? Qual é o paradigma ou modelo a seguir neste novo estilo de vida?
Não é difícil pensar que existam entre eles dificuldades na nova vida nas comunidades cristãs, principalmente no decorrer do tempo que iam incorporando-se gerações novas.
Há dois domingos, lemos o texto das bem-aventuranças com o tesouro escondido nele. No domingo passado, continuamos com as parábolas do sal e da luz prometidas por Jesus aos cristãos.
A comparação com o sal e a luz do mundo relembra de uma forma muito simples a forma de vida dos discípulos de Jesus. Neles há uma grande riqueza, mas “se perde seu sabor já não serve para nada” ou, como uma luz escondida numa gaveta, não ilumina ninguém.
O Reino proclamado por Jesus é Boa Notícia se seus seguidores vivem o estilo de vida anunciado por ele, com sua novidade, arriscando a vida, doando-se aos outros.
Hoje Jesus expõe o modo de viver diante do judaísmo, em particular a Lei. Neste momento, podemos perguntar-nos qual é nossa prioridade na nossa vida cristã?
Consideramos o cumprimento externo de algumas leis, sejam estabelecidas pelo costume ou pela tradição, como prioritários? Ou consideramos o espírito que essas prescrições simplesmente tentam comunicar?
Desde o início, Jesus esclarece que não veio para abolir a lei senão para dar cumprimento. Que significa isto? Ele defende o rigor das normas?
Às vezes este texto recebe uma leitura legalista que procura nele a justificação do cumprimento de mandamentos de forma perfeccionista. Atua-se quase por capricho, procurando uma sorte de ambição pessoal.
Com suas palavras, Jesus esclarece que o mais importante é sempre o que habita no coração do homem. Fica claro que ele não gosta dos escribas e fariseus que, possuidores de muito conhecimento da Lei, se transformam em “administradores” da Vontade de Deus. A lei foi criada para garantir e preservar a vida, mas não sempre foi bem entendida.
Jesus fala das normas da Lei, porém traz um nível superior: as atitudes e a forma de proceder de uma comunidade cristã. Ela permanece no espírito do Reino à medida que as comunidades o escolham sempre seu instrutor, a quem obedecer e seguir.
Jesus não se limita às normas ou preceitos estabelecidos. Vai além delas! As prescrições são simples manifestações de uma realidade muito mais profunda e comprometida. È um modo de viver o seguimento de Jesus. Ser seus discípulos é um estilo de vida, de comportamento religioso, social e cultural.
Como disse o Papa Francisco: “Não deixemos que nos tirem a alegria de ser discípulos do Senhor. ‘Mas, padre, eu sou um pecador…’: deixa-te levar por Jesus, sente sobre ti a Sua misericórdia, e o teu coração será preenchido de alegria e perdão. Não nos deixemos roubar a esperança de viver esta vida junto com Ele e com a força da Sua consolação”.
Unimo-nos a tantos e tantas pessoas que ao longo da história souberam ser fieis ao seguimento de Jesus indo além de uma letra, a lei, aquecendo-se continuamente do fogo interior do Espírito que nos transforma em verdadeiros seguidores e testemunhos de Jesus.
Alegria do pecador
Foi dito a ti:
Tem um nome sem mancha como um bom fariseu.
Tu jejuas e economizas nos dias assinalados
e os papéis de tua vida estão assinados e absolvidos.
Livra-te de dar a mão ao doente de aids
saudando seu passado, ou perguntando seu nome
olhando-o nos olhos.
Os pobres são um abismo de ignorância e preguiça
que devora ao que se aproxima com seu tempo e seus bens.
A ansiedade do solitário pode envolver tua companhia
como um redemoinho de naufrágio.
Talvez baste uma esmola depositada por telefone
na mão fria de uma conta de banco.
Mas A Palavra diz:
Os pecadores e excluídos chamam a Deus, e Deus desce até eles.
Nós os descobrimos juntos no mesmo encontro:
prostitutas de avenida, emigrantes sem papéis, presos sob grades.
Deus enlodado com fracasso de pecadores perdidos,
sobrenome divino triturado por mecanismos
de aço mercantil e de confusões pessoais.
Aí descobrimos a dignidade indestrutível
dos chamados a escória da terra.
Um Deus tão solidário nos rouba o coração
e nos oferece a alegria de entregar a vida
para a festa universal que a tudo refaz.
(ACESSE O ORIGINAL EM ESPANHOL APÓS ESTA TRADUÇÃO FEITA PELO TRADUTOR GOOGLE)
SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM, ANO A
Primeira leitura (Eclesiástico 15,15-20)
Teria sido apropriado começar este texto com o versículo 15:14, pois ali se lê: "Ele criou o homem no princípio e o deixou nas mãos do seu livre-arbítrio (ἀφῆκεν αὐτὸν ἐν χειρὶ διαβουλίου αὐτοῦ)." Isso se refere a Deus, que criou o homem livre desde o princípio; e o que se segue são as consequências dessa liberdade do homem e sua relação com a vontade de Deus manifestada em seus mandamentos. Assim, em 15:15, ele começa afirmando que é possível ao homem guardar os mandamentos e agradar a Deus. De fato, para o autor do livro, Deus criou o homem livre, isto é, com a capacidade de escolher "entre o fogo e a água, entre a vida e a morte". Este ensinamento, já presente em outros livros do Antigo Testamento, é conhecido como o tema dos "dois caminhos" que Deus apresenta à humanidade para que ela escolha (cf. Dt 30,15-20; Jr 21,8; Pv 2,8-9.12-20). Contudo, essa liberdade implica responsabilidade, ou seja, aceitar as consequências das próprias escolhas, pois cada pessoa prestará contas delas ao Senhor. Deus é sábio e poderoso; nada escapa ao Seu olhar onisciente e, portanto, Ele será um juiz justo das ações humanas. O sábio conclui refutando aqueles que tentam justificar seus próprios erros acusando Deus de tê-los desviado. Isso já havia sido dito alguns versículos antes do nosso texto. E todo o parágrafo é uma refutação dessa falácia: "Não digam: 'Foi o Senhor quem me fez tropeçar', pois ele nunca faz o que odeia. Não digam: 'Ele me fez desviar-me', pois ele não precisa de um homem pecador" (15:11-12).
Segunda leitura (1 Coríntios 2:6-10)
São Paulo, após demonstrar a insensatez da sabedoria humana diante da sabedoria da cruz, busca aqui provar a existência da verdadeira sabedoria cristã no anúncio apostólico, enfatizando que ela é de origem divina e fruto exclusivo do Espírito de Deus. Essa sabedoria divina só pode ser compreendida pela " pessoa espiritual ", enquanto para a " pessoa psíquica ", isto é, aquela que age segundo suas capacidades naturais, ela é insensatez, e permanece fechada a ela.
O argumento teológico de Paulo agora se concentra mais no pneumatológico (a raiz pneuma* – espírito – aparece 12 vezes em 2:10-15), e sua lógica é perfeita: o que é humano ou próprio do homem só pode ser conhecido pelo espírito do homem; o que é divino ou próprio de Deus só pode ser conhecido pelo Espírito de Deus . Portanto, existem duas ordens válidas em si mesmas, mas de níveis diferentes; e o nível inferior, o humano, não tem acesso ao conhecimento do nível superior, o divino.
Finalmente, o versículo 10 declara a necessidade da revelação por meio do Espírito de Deus para conhecer a Deus e suas obras.
Evangelho (Mt 5, 17-37)
Nesta seção do Sermão da Montanha, devemos distinguir entre os versículos 17-20, que são uma introdução às regras específicas ; e os versículos 21-48, que contêm as regras específicas referentes ao nosso relacionamento com o próximo . Leremos os versículos 21-37 destes últimos.
Os versículos 17-20 apresentam o valor que "a Lei e os Profetas" têm para Jesus e, ao mesmo tempo, fornecem a chave para interpretar a novidade que Jesus traz com a chegada do Reino. Assim, o versículo 17 é uma declaração de princípio a respeito das antíteses ou antinomias que se seguirão (5:21-47), baseada na categoria de cumprimento . Observe que o verbo "cumprir" (plhro,w ) aparece 16 vezes em Mateus; 12 delas se referem a citações do Antigo Testamento que encontram seu cumprimento no evento de Jesus. Esse procedimento deraico em Mateus tem como ponto de apoio ou eixo o evento de Jesus, a partir do qual relê o Antigo Testamento. Portanto, esse cumprimento não se dá por substituição, revogação ou anulação do que veio antes, mas sim pela plenitude do significado, pelo "cumprimento total ". Ou seja, a Lei e os Profetas estarão em vigor, com seu pleno significado, nos ensinamentos de Jesus. E esta é precisamente a missão de Jesus (“Eu vim”) como Mestre: revelar o significado completo das Escrituras . M. Grilli 1 , após uma análise profunda deste versículo, conclui afirmando que “Jesus revelou o significado definitivo do Antigo Testamento; Jesus cumpre a antiga lei na medida em que é o intérprete autorizado”.
Para que não restem dúvidas sobre a validade da Lei, os versículos 18-19 são uma exortação à sua observância meticulosa; mas sem esquecer que o versículo 19 já se refere à vontade de Deus em seu sentido mais pleno, transmitida por Cristo, a qual Mateus explicará posteriormente. Essa mudança em direção à novidade cristã é reforçada pelo versículo 20, que agora usa o termo justiça (dikaiosu,nh), significando a vontade de Deus em Mateus, e nos convida a superar ou exceder as ações dos escribas e fariseus em seu cumprimento (cf. Mt 6,1-18).
De fato, em 5:20, proclama-se uma justiça que deve ser superior à dos escribas e fariseus, e que é condição para entrar no Reino dos Céus . Essa “ justiça superior ” é então concretizada ou exemplificada pelas antíteses (cf. 5:21-48). De acordo com esse contexto imediato, podemos dizer que, em 5:20, a justiça consiste em agir segundo as exigências de Jesus , que implicam um “mais” (plei/on) em relação à justiça dos escribas e fariseus — uma exigência maior na interpretação e consequente cumprimento da lei. Esse “ mais” é entendido em relação a 5:17-19 em um sentido quantitativo . Mas, ao examinarmos os exemplos em 5:21-48, o aspecto qualitativo também se torna evidente . Não se trata, portanto, de multiplicar os preceitos, mas de interpretá-los radicalmente e vivê-los de forma integral. Essa ideia de totalidade é reafirmada em 5:48, que encerra a subseção com a expressão te,leioi, que significa “perfeito”, algo completo e que nada lhe falta. Trata-se, portanto, de viver uma justiça perfeita e completa, sem outro limite senão a perfeição divina. J. Lambrecht, após estudar Mt 5:17-48, propõe corretamente uma tríplice dimensão da “justiça”: “A maior justiça que Jesus tem em mente abrange a pessoa inteira; seu centro de gravidade é o amor; a perfeição de Deus é seu modelo . ” ²
Podemos concluir com L. Sánchez Navarro 3 que "no geral, estes versículos introduzem a parte central do EM (Ensinamento da Montanha: 5,21-7,11), do qual constituem o critério hermenêutico fundamental".
A seção de 5:21-48 tem uma estrutura clara: consiste em seis antíteses ou contra-argumentos apresentados em dois grupos de três (5:21-32 e 5:33-47). Todos os seis começam com uma fórmula semelhante: "Ouvistes que foi dito" (5:21, 17, 31, 33, 38, 43), onde "foi dito" é uma voz passiva teológica e, portanto, deve ser entendida como "dito por Deus". De fato, segue-se uma citação (literal ou livre) das Escrituras como a Palavra de Deus que foi ouvida pelo povo, possivelmente referindo-se à leitura litúrgica da mesma passagem na sinagoga.
Os três primeiros se relacionam a mandamentos do Decálogo (assassinato e adultério), enquanto os outros três se referem a mandamentos encontrados na Torá, mas fora do Decálogo. Além disso, pode-se aceitar uma certa progressão ética, pois começa com a proibição do assassinato e culmina no amor pelos inimigos.
A primeira antítese refere-se, como citação bíblica, ao quinto mandamento do Decálogo: "Não matarás" (Êx 20,13; Dt 5,17). Esta proibição apodítica expressa o respeito absoluto devido à vida humana. Em outros textos, acrescenta-se a pena correspondente a um pecado tão grave (cf. Êx 21,12-14: morte ou prisão se não houve dolo). Jesus, sem especificar a pena, diz que o culpado deve ser julgado, deve ser levado a julgamento.
Jesus, com seu "mas eu vos digo", coloca-se no mesmo nível de Deus no Sinai e aprofunda essa proibição, estendendo-a à ira e ao abuso verbal ou agressão contra o próximo. Ou seja, na interpretação de Jesus, o mandamento é quebrado não apenas pela morte física, mas também pela agressão verbal. Em Mateus 5:22, são apresentados um princípio geral e dois casos que exemplificam essa interpretação mais radical do mandamento "Não matarás". Primeiro, discute-se a ira em geral, esclarecendo que se trata de uma ira injustificada, visto que o mesmo verbo (ovrgizo, mai) é justificadamente usado para expressar a "indignação ou ira" do senhor ou mestre para com o servo que não mostrou misericórdia para com seu companheiro (cf. Mateus 18:34); e a do rei que organizou um banquete de casamento para seu filho e mandou matar os servos enviados para convidá-lo (cf. Mateus 22:7). Essa raiva é dirigida a "seu irmão" (τῷ ἀδελφῷ αὐτοῦ), ou seja, ele está com raiva de "seu irmão". Quem está com raiva ou enfurecido "deve ser levado a julgamento", uma expressão idêntica à do versículo anterior. Esse paralelo sugere que quem está com raiva de seu irmão deve sofrer as mesmas consequências que alguém que mata. Portanto, da perspectiva das consequências da ação, da punição, matar e estar com raiva do irmão também são traçados em paralelo .
Em seguida, vêm os insultos como formas de agressão e expressões externas de raiva. O primeiro é raká , um insulto relativamente leve de origem aramaica, comum na época de Jesus, que poderia ser traduzido como "tolo" ou "cabeça-dura". O segundo é mōré , aparentemente um insulto grego comum que alguns traduzem como "renegado" e outros como "idiota". Assim como a raiva, esses insultos seriam injustificados ou gratuitos, visto que Jesus usa termos mais fortes para se referir aos fariseus, como hipócritas, guias cegos e raça de víboras (cf. Mt 23). Aqui também, especifica-se que os insultos são dirigidos contra "seu irmão, seu irmão". Quanto ao julgamento, apresenta dois exemplos: o comunitário ( Sinédrio ) e o escatológico ( Geena de fogo).
Os versículos 23-24, começando com "portanto", são a consequência prática do que foi dito anteriormente. Se um irmão ("teu irmão") foi ofendido, a reconciliação é necessária. Nossas ofertas e dádivas não podem agradar a Deus se um irmão tiver uma razão justificável para reclamar de nós. A comunhão entre irmãos dá valor e validade à oferta feita a Deus .
Os versículos 25-26 reforçam a motivação para a reconciliação e insistem em sua prontidão, exortando-a a ser feita o mais breve possível . Mas observe que não se fala de um "irmão", mas de um adversário ou inimigo. De 5:26, pode-se deduzir que se trata de alguém a quem se deve algo, alguém a quem se tem uma dívida.
Qual o alcance do conceito de "irmão" nesses textos? Primeiramente, refere-se a alguém com quem se compartilha a vida, alguém próximo. Parece também se referir a alguém com quem se compartilha a adoração. Tudo isso, somado ao contexto imediato do Sermão da Montanha e ao contexto mais amplo do Evangelho de Mateus, nos leva a interpretar "irmão" como referente principalmente a um membro da comunidade cristã . Ou seja, esses preceitos são dirigidos principalmente àqueles que aceitaram o reino de Deus, sua paternidade, oferecida e tornada presente por Jesus, e que, portanto, foram incorporados a uma nova família; eles são irmãos de Jesus e irmãos uns dos outros .
Em resumo , o significado desta primeira antítese (5,21-26) é que o Pai, sabendo que os seus filhos, os seus irmãos, podem ficar irados e brigar, exorta-os, sob ameaça, a evitar toda agressão; e, no caso de uma ofensa já cometida, convida-os à reconciliação. Portanto, aqueles que buscam a paz, fruto da reconciliação, agirão segundo o modelo de perfeição do Pai e serão considerados seus filhos (cf. Mt 5,9).
A segunda antítese (5:27-30) refere-se ao sexto e nono mandamentos do Decálogo: "Não cometerás adultério" (Êxodo 20:14; Deuteronômio 5:18) e "Não cobiçarás a mulher do teu próximo" (Êxodo 20:17; Deuteronômio 5:21). Os adúlteros eram punidos com a morte, de acordo com Levítico 20:10. Para Jesus, o casamento é rompido não apenas pelo ato de adultério , mas também pelo desejo voluntário de cometê-lo , simbolizado pelo olhar.
Olhar para uma mulher casada com lascívia implica a intenção de cometer adultério e é julgado por Jesus como um ato consumado. Como no caso anterior, o mandamento torna-se mais radical. Seguem-se dois conselhos práticos, exortando as pessoas a evitarem firmemente toda ocasião de pecado, motivadas pelo temor da condenação escatológica (ser lançado no inferno ).
A terceira antítese (5:31-32) diz respeito ao divórcio, referindo-se à permissão da certidão de divórcio estabelecida por Moisés, segundo Deuteronômio 24:1-4. Nesse caso, Jesus contradiz o ensinamento de Moisés e a interpretação comum dos rabinos, que, com base em Deuteronômio 24:1-4, permitiam o divórcio por qualquer motivo. Para Jesus, tanto a mulher divorciada que se casa novamente quanto o homem que se casa com uma mulher divorciada cometem adultério. Ele retornará a esse tema mais tarde (cf. Mateus 19:3-9), fundamentando a indissolubilidade do casamento em Gênesis 1:27 e 2:24 e condenando como adultério o homem que se separa de sua esposa e se casa com outra.
A segunda e a terceira antíteses estão intimamente ligadas, referindo-se a duas formas de adultério: o do coração, por meio do desejo, e o que se segue ao divórcio. Buscar o modelo de perfeição divina no sexto mandamento não implica uma renúncia à realidade corporal para atingir um estado de espírito puro além da nossa natureza humana. Trata-se, antes, de fidelidade inabalável a um ser humano amado . Deus Pai pode ser o modelo mais perfeito disso por causa da sua fidelidade constante à aliança com o seu povo. Além disso, essa fidelidade divina foi reforçada na nova aliança selada com o sangue do seu Filho (cf. Mt 26,27-28).
A quarta antítese refere-se à proibição de jurar falsamente em Levítico 19:12. Em contraste, Jesus proíbe radical e absolutamente todos os juramentos e exige sinceridade incondicional na fala (cf. Mateus 5:33-37). No Antigo Testamento, os juramentos eram um meio legítimo de garantir a veracidade das palavras humanas, invocando Deus como testemunha incorruptível e infalível. A quarta antítese não nega essa prática, mas a banaliza, chegando a usar termos substitutos para Deus, como céu, terra ou Jerusalém. Jesus é mais explícito sobre esse ponto em Mateus 23:16-22. O mesmo se aplica ao juramento feito por si mesmo, visto que não somos senhores absolutos de nós mesmos. Por trás de tudo isso, há uma manipulação e profanação do sagrado.
A seguir, Jesus nos convida a uma sinceridade na nossa fala que torna os juramentos desnecessários. Portanto, com a chegada do Reino de Deus, aqueles que vivem nele e segundo ele devem subordinar a sua fala cotidiana e as suas relações humanas comuns a Deus. Viver na verdade significa participar da verdade de Deus, ou, por outras palavras, ser e viver como filhos de Deus, o verdadeiro Pai.
Algumas reflexões:
Tal como no domingo passado, é importante recordar os Evangelhos já lidos para não interpretarmos mal as "exigências do Reino".
Primeiro , Jesus anunciou a vinda do Reino de Deus, da sua soberania. Segundo , o Reino de Deus traz a promessa de felicidade eterna, que os pobres de espírito, os pacientes, já podem antecipar neste mundo…
Em terceiro lugar , Jesus insiste que este Reino, a sua vida, os seus valores, a sua mensagem, devem ser vividos e partilhados, pois, ao vivê-los, tornamo-nos o sal da terra e a luz do mundo . Em quarto lugar , ele delineia as exigências específicas que nós, que aceitamos o senhorio de Cristo nas nossas vidas, devemos cumprir. De facto, no Evangelho de Mateus, a missão de Jesus Filho é revelar-nos, através das suas palavras e da sua vida, a vontade do Pai — isto é, as regras de vida que o Pai estabelece para os seus filhos . Por esta razão, Deus é apresentado como um Pai que deseja ordenar as relações recíprocas dos seus filhos, que se tornaram irmãos e irmãs. Mas estas novas exigências, mais radicais e mais interiores, só podem ser vividas através da ação da graça de Deus nas nossas vidas. Deus, em Cristo, comunica-nos o seu amor, e este amor manifesta-se numa nova forma de nos relacionarmos uns com os outros, tanto como irmãos e irmãs como como cônjuges. Dessa perspectiva teológica, devemos ler as antíteses ou superações do Evangelho deste domingo .
Isso nos alerta contra uma leitura puramente moralizante ou voluntarista dos preceitos do Sermão da Montanha. Tal visão interpreta essas exigências apenas como Lei, ou melhor, como uma nova Lei quando vista em relação à Torá do Antigo Testamento, e considera o Sermão da Montanha primordialmente como uma ética de obediência em continuidade com a ética do Antigo Testamento, cujo significado é: “ obedeçam, guardem os mandamentos e viverão ”. A esse respeito, o Papa Leão XIV disse: “O anúncio do Evangelho, a catequese e as diversas formas de atividade pastoral devem estar sempre livres de formas de coerção, rigidez e moralização, para que não suscitem sentimentos de culpa e medo em vez de libertação interior” (Discurso ao Caminho Neocatecumenal, 19 de janeiro de 2026). Não podemos negar que Jesus, no início (5,17-20), insiste claramente no cumprimento e na observância desses preceitos. Portanto, reconhecemos o valor dos mandamentos como uma manifestação da vontade de Deus e a exigência de cumpri-los que Jesus pede no evangelho; mas notamos que a verdadeira novidade da "lei do Reino" não está tanto em sua radicalidade ou integralidade, mas no espírito com que ela deve ser cumprida .
A este respeito, S. Pinckaers 5 afirma que, para São Tomás de Aquino, a diferença entre a Lei de Moisés e o Sermão da Montanha não reside no texto, visto que a nova lei consiste primordialmente na ação direta do Espírito Santo nos corações dos fiéis por meio da fé e da caridade . Citemos o próprio Doutor Angélico: “O principal na Lei do Novo Testamento, e no qual reside todo o seu poder, é a graça do Espírito Santo, que é dada pela fé em Cristo” (ST I-II, q. 106, a. 1). Portanto, a ênfase desloca-se do externo para o interno, do eu livre do homem para a ação do Espírito Santo. Neste sentido correto, ele interpreta São Tomás VM Fernández 6 : “Tomás não nega que possa haver leis ou regras de conduta no Novo Testamento. Mas mesmo as nobres leis do próprio Evangelho de Cristo ainda são “a letra que mata”, preceitos externos que não dão vida e que apenas “secundariamente” fazem parte da nova lei (ST I-II, 106,1). Tomás, fiel ao pensamento paulino, quer mostrar que a principal novidade da lei do Novo Testamento não é que ela contenha preceitos mais nobres, mas a graça do Espírito Santo, visto que mesmo o que o Evangelho nos ordena é incapaz de nos justificar como uma lei externa, e sem a graça o Evangelho também nos levaria à morte (e ele se refere a ST I-II, 106,2).”
Em geral, os autores católicos contemporâneos também seguem essa interpretação integrativa, pois, embora mantenham o valor da Antiga Lei, reconhecem a "justiça superior" do Evangelho de Jesus, ao mesmo tempo que a necessidade da Graça para cumpri-la.
Este é também o ensinamento do Catecismo da Igreja Católica:
Nº 1966: A nova lei é a graça do Espírito Santo concedida aos fiéis pela fé em Cristo. Ela opera por meio da caridade, utiliza o Sermão do Senhor para nos ensinar o que devemos fazer e os sacramentos para nos comunicar a graça de fazê-lo.
N° 1972: A nova Lei é chamada de lei do amor , porque nos faz agir pelo amor que o Espírito Santo infunde, e não pelo medo; a lei da graça , porque nos confere o poder da graça para agir pela fé e pelos sacramentos; a lei da liberdade (cf. Tg 1,25; 2,12), porque nos liberta das observâncias rituais e legais da antiga Lei, nos inclina a agir espontaneamente sob o impulso da caridade e nos faz passar da condição de servo 'que não sabe o que o seu senhor faz' para a de amigo de Cristo, 'pois tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer' (Jo 15,15), ou ainda para a condição de herdeiro filho (cf. Gl 4,1-7.21-31; Rm 8,15).
Portanto, a nova lei é “ uma lei de amor, uma lei de graça e uma lei de liberdade ”, segundo o Catecismo. Diante disso, devemos levar as exigências de Jesus muito a sério. Além disso, seu exemplo será para nós um indicador ou um barômetro da nossa aceitação do Reino de Deus, da Sua obra em nossas vidas. Se ainda somos dominados pela raiva, pela fúria, pela agressão contra os outros e pela falta de reconciliação, é porque Jesus ainda não se tornou o Senhor de nossas vidas e o Seu amor não preenche completamente nossos corações. Sempre sentiremos os primeiros sinais de raiva e fúria porque “há outra lei atuando em mim, guerreando contra a lei da minha mente e me tornando prisioneiro da lei do pecado que atua em mim” (Rm 7,23). Mas “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! […] a lei do Espírito da vida me libertou da lei do pecado e da morte em Cristo Jesus” (Rm 7,25; 8,2).
O mesmo se pode dizer da experiência da fidelidade conjugal, que inclui também não nos deixarmos dominar pelos desejos desordenados do nosso coração em relação à esposa do nosso próximo. E isto graças à ação do Espírito Santo nos cônjuges, que receberam no Sacramento.
E também, se analisarmos nossa fala, veremos se ela é direta e verdadeira, ou enganosa e incerta a ponto de precisar ser endossada por um juramento.
O Papa Francisco comentou esta passagem do Evangelho, afirmando que “Jesus nos ajuda a compreender que as regras religiosas são úteis, são boas, mas são apenas o começo: para cumpri-las, é necessário ir além da letra e viver o seu significado. Os mandamentos que Deus nos deu não devem ser trancados no cofre sufocante da observância formal, porque, do contrário, permanecemos numa religiosidade externa e distante, servos de um ‘deus senhor’ em vez de filhos de Deus Pai. Jesus quer isso, que não tenhamos a ideia de servir a um deus senhor, mas ao Pai, e por isso é necessário ir além da letra.”
Irmãos e irmãs, esse problema não existia apenas na época de Jesus; ele existe hoje também. Às vezes, por exemplo, ouvimos: “Pai, eu não matei, não roubei, não machuquei ninguém…”, como se dissessem: “Cumpri meu dever”. Essa é uma observância formal, que se contenta com o mínimo , enquanto Jesus nos convida ao máximo possível . Ou seja, Deus não raciocina com cálculos e tabelas; Ele nos ama como um amante: não ao mínimo, mas ao máximo!” (Angelus, 12 de fevereiro de 2023).
Proposta mais concisa para a homilia:
O Evangelho que lemos hoje começa com uma clara exortação de Jesus para cumprirmos os mandamentos da Lei de Deus, mesmo os menores. Não há como fugir disso, pois ele nos diz que veio para cumprir, isto é, para levar os mandamentos de Deus à sua plenitude. Não se trata, portanto, de uma utopia ou algo impossível, mas sim de colocá-los em prática, de vivê-los. Neles, revela-se a vontade de Deus, o que o Pai quer que vivamos como seus filhos, para que possamos nos manifestar como tal e sermos o sal da terra e a luz do mundo. É importante não perdermos de vista isso: a "justiça" que deve ser praticada, os mandamentos que devem ser guardados, são, acima de tudo, a Vontade do Pai revelada por Jesus.
Agora, nossa "justiça", nossa observância desses mandamentos, deve superar a dos escribas e fariseus. E como essas figuras observavam os mandamentos? Faziam isso apenas exteriormente, aderindo estritamente à letra, movidos por uma busca orgulhosa pela perfeição pessoal a fim de obter a aprovação dos outros. Jesus nos pede que "superemos" essa maneira de observar, o que implica abraçar de todo o coração o que o Pai nos pede, incorporar o espírito que dá sentido à letra dos mandamentos, permitir que o Espírito Santo opere em nós e buscar agradar ao Pai que vê e habita em segredo.
Especificamente, o que Jesus nos pede para vivermos a fim de cumprir a vontade do Pai? ⇒ O Senhor nos ordena a amar nossos irmãos e irmãs, membros de nossas famílias e comunidades, com um amor terno que não se irrita nem se ofende facilmente, e que sempre busca a reconciliação e a paz. ⇒ O Senhor ordena aos cônjuges que se amem com um amor fiel e completo, sem fissuras ou engano, nem na realidade nem em seus desejos.
⇒ O Senhor nos ordena que sejamos verdadeiros e retos em nossa fala; que nossa vida honesta seja a melhor garantia de nossas palavras e que toda falsidade ou interesse próprio esteja longe de nós.
Se cumprir isso parece muito exigente e impossível, estamos no caminho certo, mas não o abandonemos. Em vez disso, peçamos ao Espírito Santo o dom da Sabedoria divina. Como diz São Paulo, só o Espírito Santo pode nos fazer participar da mente de Cristo e reconhecer, nessa exigência de um amor terno, fiel e verdadeiro, a verdadeira Sabedoria Divina. E uma vez que tenhamos recebido esse dom da sabedoria para compreender e aceitar, peçamos também "a graça do Espírito de Amor para que possamos cumprir livremente a lei de Deus". De fato, Jesus nos apresenta uma nova lei cuja novidade reside não tanto na letra, mas no Espírito Santo que nos ajuda a vivê-la. Essa nova lei é " uma lei de amor, uma lei de graça e uma lei de liberdade ", segundo o Catecismo. Portanto, só "o Espírito que é Amor" pode preencher nossos corações, transformar nossas paixões, para que possamos amar com um amor terno, fiel e verdadeiro.
Que sentimentos este Evangelho evoca em nós? Parece-me que, antes de mais nada, desperta um sentimento de culpa. Quem nunca se irritou, foi agressivo ou insultou alguém? Quem nunca olhou para alguém com má vontade? Quem nunca contou meias-verdades ou mentiras descaradas, desde pequenas mentiras para se livrar de problemas até as mais graves? Penso que é importante não nos determos apenas neste sentimento de culpa, que por si só é improdutivo, mas irmos mais longe, encontrarmos o amor misericordioso do Pai, onde alcançaremos uma serena aceitação da nossa condição pecaminosa. Com um realismo saudável, devemos reconhecer que não podemos, por nós mesmos, amar sempre como Jesus nos pede, com um amor terno, fiel e verdadeiro . Podemos dar um passo além e fazer nossa a oração de Santo Agostinho: "Senhor, peça-me o que quiseres, mas dá-me o que me pedires".
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PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
Se o seu sistema de justiça...
Jesus, nosso Senhor e Deus
Tu que vieste para aperfeiçoar a Lei
Fale-nos de sua beleza, sua origem, sua realeza.
Gravado no primeiro coração criado
Quando a harmonia reinava
E o futuro era eterno
Era fácil andar descalço e nu.
Entre as árvores e os animais
Do paraíso
Mas decidimos virar-lhes as costas.
Ao Amor que tão ternamente nos criou.
E na ignorância afundamos.
Hoje ouvimos a sua voz, distraída.
Para este seu amado mundo
Vagamos por aí ignorantes e adormecidos.
Não pare de nos mostrar o caminho.
Aumenta a nossa fé para que ela se transforme em amor.
A Lei Perfeita, Senhor
E se nos infundires a tua força divina
Para muitos outros, seremos uma dádiva.
Amor transbordado, saúde e perdão.
Ligue-nos com urgência, não demore!
Teu Reino está tão perto!
Abramos as portas dos nossos corações.
E a Lei será o caminho e o objetivo.
Para o louvor da Tua glória
Até os confins do céu e da terra. Amém.
1 O Sermão da Montanha (EDB; Bolonha 2016) 93.
2 J. Lambrecht, Mas eu te digo , Siga-me, Salamanca, 1994, 114.
3 O Ensino do Monte. Comentário Contextual sobre Mateus 5-7 (Palavra Divina; Estella 2005) 59.
4 Cf. U. Luz, O Evangelho Segundo São Mateus. Vol. I (Sígueme; Salamanca 1993) 353.
5 Em Busca da Felicidade , (Word; Madrid 1981) 22-23.
6 VM Fernández, Graça e a totalidade da vida. Dimensões da amizade com Deus (Agape-Herder; Bs. As. 2003) 244.
SEXTO DOMINGO DURANTE EL AÑO CICLO "A"
Primera lectura (Eclo 15,15-20)
Hubiera sido conveniente comenzar este texto por el versículo 15,14 pues allí dice: "El hizo al hombre en el principio y lo dejó en manos de su propia deliberación (ἀφῆκεν αὐτὸν ἐν χειρὶ διαβουλίου αὐτοῦ)". Se refiere a Dios quien ha creado al hombre libre desde el principio; y lo que sigue son las consecuencias de esta libertad del hombre y su relación con la voluntad de Dios manifestada en sus mandamientos. Así, en 15,15 comienza afirmando que es posible al hombre cumplir los mandamientos y agradar a Dios. En efecto, para el autor del libro Dios ha creado al hombre libre, es decir, con capacidad de elegir "entre el fuego y el agua, entre la vida y la muerte". Esta enseñanza, presente ya en otros libros del Antiguo Testamento anteriores, se conoce como el tema de "los dos caminos" que Dios pone frente al hombre para que opte (Cf. Dt 30,15-20; Jr 21,8; Prov 2,8-9; 12- 20). Ahora bien, esta libertad conlleva la responsabilidad, o sea asumir las consecuencias de las propias elecciones, pues cada hombre dará cuenta al Señor de las mismas. Dios es sabio y poderoso, nada escapa a su mirada que todo lo ve, por lo que será un justo juez de las acciones del hombre. El sabio termina refutando a quienes quieren excusarse del propio mal cometido acusando a Dios de orientarlos al mal. Esto ya lo había dicho unos versículos antes de nuestro texto; y todo el párrafo es una refutación de esta falacia: "No digas: "Fue el Señor el que me hizo claudicar", porque él no hace nunca lo que detesta. No digas: "El me hizo extraviar", porque él no necesita de un hombre pecador" (15,11-12).
Segunda lectura (1Cor 2,6-10)
San Pablo, después de demostrar la necedad de la sabiduría humana ante la sabiduría de la cruz, busca aquí probar la existencia de una verdadera sabiduría cristiana en el anuncio apostólico, pero remarcando que la misma es de orden divino y fruto exclusivo del Espíritu de Dios. Esta sabiduría divina sólo puede comprenderla el "hombre espiritual" mientras que para el "hombre psíquico", o sea según sus capacidades naturales, es locura y permanece cerrado a la misma.
La argumentación teológica paulina se centra ahora más en lo pneumatológico (la raíz pneuma* - espíritu - aparece 12 veces en 2,10-15), y su lógica es perfecta: lo humano o propio del hombre sólo puede conocerlo el espíritu del hombre; lo divino o propio de Dios sólo pude conocerlo el Espíritu de Dios. Existen, por tanto, dos órdenes válidos en sí mismos, pero de distinto nivel; y el nivel inferior, el humano, no tiene acceso al conocimiento del nivel superior, el divino.
Al final el v. 10 declara la necesidad de la revelación por medio del Espíritu de Dios para conocer al mismo Dios y sus obras.
Evangelio (Mt 5, 17-37)
En esta sección del Sermón del monte debemos distinguir entre los versículos 17-20 que son una introducción a las normas particulares; y los versículos 21-48 que contienen las normas particulares referidas a la relación con el prójimo. De esta segunda leemos los versículos 21-37.
Los versículos 17-20 nos presentan el valor que tienen "la ley y los profetas" para Jesús y, al mismo tiempo, nos dan la clave para interpretar la novedad que Jesús trae con la llegada del Reino. Así, el versículo 17 es una declaración de principio con respecto a las antítesis o antinomias que seguirán (5,21-47) en base a la categoría de cumplimiento. Notemos que el verbo “cumplir” plhro,w (plerów) aparece 16 veces en Mateo; de las cuales 12 se refieren a las citas del Antiguo Testamento que encuentran su cumplimiento en el acontecimiento Jesús. Este procedimiento derásico en Mateo tiene como punto de apoyo o eje el acontecimiento-Jesús, desde el cual relee el Antiguo Testamento. Por tanto, este cumplimiento no es por sustitución, abrogación o anulación de lo anterior, sino al contrario, por plenitud de sentido, por “llenado total”. Vale decir que la ley y los profetas estarán vigentes, con su sentido pleno, en las enseñanzas de Jesús. Y esta es justamente la misión de Jesús (“he venido”) como Maestro: revelar el sentido pleno de la Escritura. M. Grilli1, después de un profundo análisis de este versículo, concluye afirmando que “Jesús ha revelado el sentido definitivo del Antiguo Testamento; Jesús cumple la ley antigua en cuanto él es el intérprete autorizado”.
Por si quedase alguna duda de la vigencia de la Ley, los versículos 18-19 son una exhortación a su detallada observancia; pero sin olvidar que en el versículo 19 se refiere ya a la voluntad de Dios en sentido pleno transmitida por Cristo y que Mateo expondrá a continuación. Este desplazamiento hacia la novedad cristiana viene reforzado por el v. 20 utilizando ahora el término justicia (dikaiosu,nh) que en Mateo significa la voluntad de Dios, e invitando a superar o sobreabundar en el cumplimiento de la misma el obrar de los escribas y fariseos (cf. Mt 6,1-18).
En efecto, en 5,20 se anuncia una justicia que debe ser superior en comparación con la de escribas y fariseos, y que es condición de ingreso en el Reino de los cielos. Esta "justicia superior" viene a continuación concretizada o ejemplificada con las antítesis (cf. 5,21-48). Según este contexto inmediato podemos decir que en 5,20 la justicia consiste en obrar según las exigencias de Jesús que suponen un "plus" (plei/on) en relación a la justicia de los escribas y fariseos, una mayor exigencia en la interpretación y consecuente cumplimiento de la ley. Este plus se entiende por la relación con 5,17-19 en sentido cuantitativo. Pero al ver las ejemplificaciones en 5,21-48 se deduce también el aspecto cualitativo. No se trata, por tanto, de multiplicar los preceptos sino de interpretarlos radicalmente y de vivirlos de manera integral. Esta idea de totalidad viene reafirmada en 5,48 que cierra la subsección con la expresión te,leioi con su sentido de “perfectos”, de algo completo y que no carece de nada. Se trata, por tanto, de vivir una justicia perfecta, completa, sin otro límite que la perfección divina. J. Lambrecht, después de estudiar Mt 5,17-48, propone correctamente una triple dimensión de la "justicia": "La justicia más grande en la que piensa Jesús engloba toda la persona entera; tiene su centro de gravedad en el amor; la perfección de Dios es su modelo"2.
Podemos concluir con L. Sánchez Navarro3que "en su conjunto estos versículos introducen la parte central de la EM (Enseñanza de la Montaña: 5,21-7,11), de la cual constituyen el criterio hermenéutico fundamental".
La sección de 5,21-48 tiene una estructura clara: son seis antítesis o superaciones presentadas en dos grupos de tres (5,21-32 y 5,33-47). Las seis comienzan con una fórmula semejante: "Ustedes han oído que se dijo" (5,21.17.31.33.38.43) dónde el "se dijo o fue dicho" es un pasivo teológico y, por tanto, debe entenderse como "dicho por Dios". De hecho, sigue una cita (literal o libre) de la Escritura como Palabra de Dios que ha sido escuchada por el pueblo, en una posible referencia a la lectura litúrgica sinagogal de la misma.
Las tres primeras están relacionadas con mandamientos del decálogo (homicidio y adulterio) mientras que las otras tres remiten a mandamientos presentes en la Torá, pero fuera del decálogo. A su vez puede aceptarse una cierta progresión ética por cuanto se parte de la prohibición del homicidio hasta llegar al amor a los enemigos.
La primera antítesis remite como cita escriturística al quinto mandamiento del decálogo: "No matarás" (Ex 20,13; Dt 5,17). Con esta prohibición apodíctica se expresa el respecto absoluto que merece la vida humana. En otros textos se añade el castigo correspondiente a un pecado tan grave (cf. Ex 21,12-14: pena de muerte o reclusión si faltó intención). Jesús, sin especificar el castigo, dice que el culpable debe ser juzgado, debe ser llevado a juicio.
Jesús con su "pero yo les digo" se coloca al mismo nivel que Dios en el Sinaí y profundiza esta prohibición extendiéndola al enojo y al insulto o agresión verbal al prójimo. Vale decir que en la interpretación que hace Jesús se quebranta el mandamiento no sólo con la muerte física sino con la agresión verbal. En 5,22 se presenta un principio general y dos casos que ejemplifican esta interpretación más radicalizada del mandamiento "no matarás". En primer lugar se habla en general del enojo aclarando que se trata aquí de una cólera injustificada por cuanto el mismo verbo (ovrgizo,mai) se utiliza, justificadamente, para expresar la "indignación o enojo" del amo o señor ante el siervo que no tuvo misericordia de su consiervo (cf. Mt 18,34); y la del rey que organizó el banquete de bodas para su hijo y le mataron a los siervos que fueron enviados para invitar al mismo (cf. Mt 22,7). Este enojo tiene como objeto "al hermano de él" (τῷ ἀδελφῷ αὐτοῦ), o sea se enoja con "su hermano". Quien se enoja o encoleriza "debe ser llevado a juicio", expresión idéntica a la del versículo anterior. Con este paralelismo se dice que quien se enoja con su hermano debe sufrir las mismas consecuencias que quien mata a alguien. Por tanto, desde el punto de vista de las consecuencias de la acción, del castigo, se ponen en paralelo también el matar y el enojarse con el hermano.
Siguen luego los insultos como formas de agresión y de manifestación externa del enojo. El primero es raká, que sería un insulto en cierto modo leve, de origen arameo, frecuente en tiempos de Jesús y que se podría traducir por "imbécil" o "cabeza hueca". El segundo es mōré, al parecer un insulto griego corriente que algunos traducen por "renegado" y otros por "idiota"4. Al igual que con el enojo, estos insultos serían injustificados o gratuitos por cuanto Jesús utiliza algunos más fuertes para referirse a los fariseos, como ser hipócritas, guías ciegos, raza de víboras (cf. Mt 23). También aquí se especifica que los insultos son dirigidos contra "el hermano de él, su hermano". En cuanto al juicio, presenta dos instancias: la comunitaria (sanedrín) y la escatológica (gehenna del fuego).
Los versículos 23-24, iniciados con un "por tanto", son la consecuencia práctica de lo anterior. Si se ofendió al hermano ("tu hermano"), hay que reconciliarse. No pueden agradar a Dios nuestras ofrendas y dones si un hermano tiene un motivo justificado de queja contra nosotros. La comunión entre hermanos da valor y validez a la ofrenda hecha a Dios.
Los versículos 25-26 refuerzan la motivación de la reconciliación y exhortan a su prontitud, a hacerlo cuanto antes. Pero notemos que no habla de "hermano" sino de adversario o enemigo. Por 5,26 se deduce que es alguien a quien se le debe algo, con quien se está en deuda.
¿Cuál es el alcance del concepto "hermano" en estos textos? Por de pronto es alguien con quien se comparte la vida, alguien cercano. También, al parecer, es alguien con quien se comparte la celebración cultual. Todo esto, más el contexto inmediato del Sermón del Monte y el contexto mayor del evangelio de Mateo, nos llevaría a interpretar que "hermano" se refiere principalmente al miembro de la comunidad cristiana. Es decir, estas normas están dirigidas primariamente a quienes han aceptado el reinado de Dios, su paternidad, ofrecida y hecha presente por Jesús y, de este modo, se han incorporado a una nueva familia, son hermanos de Jesús y hermanos entre sí.
En síntesis, el sentido de esta primera antítesis (5,21-26) es que el Padre, sabiendo que sus hijos, los hermanos, se pueden enojar y pelear, los exhorta bajo amenaza a evitar toda agresión; y dado el caso de una ofensa ya hecha, los invita a la reconciliación. Por ello los que buscan la paz, fruto de la reconciliación, obrarán según el modelo de perfección del Padre y serán considerados sus hijos (cf. Mt 5,9).
La segunda antítesis (5,27-30) se refiere al sexto y noveno mandamiento del decálogo: "no cometerás adulterio" (Ex 20,14; Dt 5,18) y "no desearás la mujer de tu prójimo" (Ex 20,17; Dt 5,21). Los adúlteros estaban penados con la muerte según Lv 20,10. Para Jesús el matrimonio no se quebranta sólo con el acto de adulterio, sino ya con el deseo voluntario de hacerlo, simbolizado con la mirada.
Mirar a una mujer casada deseándola implica la intención de realizar la acción adúltera y es juzgado por Jesús como un hecho consumado. Al igual que en el caso anterior, el mandamiento es radicalizado. Le siguen dos consejos prácticos que exhortan a evitar firmemente toda ocasión de pecado, con la motivación de la condenación escatológica (ser arrojado a la Gehena).
La tercera antítesis (5,31-32) se refiere al divorcio remitiéndose a la permisión del acta de repudio que estableció Moisés según Dt 24,1-4. En este caso Jesús contradice la enseñanza de Moisés y la interpretación común de los rabinos que basándose en Dt 24,1-4 permitían por cualquier motivo el divorcio. Para Jesús, tanto la mujer divorciada que contrae nuevo matrimonio como el que se casa con una divorciada, cometen adulterio. Sobre este tema volverá más adelante (cf. Mt 19,3-9) fundamentando con Gn 1,27 y 2,24 la indisolubilidad del matrimonio y condenando como adulterio que un hombre se separe de su mujer y se case con otra.
La segunda y la tercera antítesis están íntimamente vinculadas entre sí al referirse a dos formas de adulterio: el del corazón por el deseo y el que sigue al divorcio. Al buscar el modelo de perfección divina en el sexto mandamiento no se trata de una renuncia a la realidad corporal para alcanzar la condición de espíritu puro que escapa a nuestra naturaleza humana. Se trata de una fidelidad inquebrantable a un ser humano querido. De esto Dios Padre puede ser el modelo más perfecto por su permanente fidelidad a la alianza con su pueblo. Además, esta fidelidad Divina se ha visto reforzada en la nueva Alianza sellada con la sangre de su Hijo (cf. Mt 26,27-28).
La cuarta antítesis remite a la prohibición de jurar falsamente de Lv 19,12. En contraposición, Jesús prohíbe radical y absolutamente todo juramento y exige una veracidad incondicional en el hablar (cf. Mt 5,33-37). En el Antiguo Testamento el juramento era un medio lícito para garantizar la veracidad de las palabras humanas al poner a Dios como testigo incorruptible y exento de error. La cuarta antítesis no niega tanto esta práctica como su vanalización, incluso utilizando términos sustitutivos de Dios como serían el cielo, la tierra o Jerusalén. Sobre esto mismo Jesús es más explícito en Mt 23,16-22. Y lo mismo vale para el jurar sobre uno mismo, ya que no somos nuestros dueños absolutos. Hay detrás de todo esto una manipulación y profanación de lo sagrado.
En lo que sigue Jesús invita a una sinceridad tal en el hablar que no haga necesario el recurso al juramento. Por tanto, con la llegada del Reino de Dios, los que vivan en él y según él deben subordinar a Dios el modo cotidiano de expresarse y las relaciones corrientes de los hombres. Vivir en la verdad significa participar de la verdad de Dios o, en otros términos, ser y vivir como hijos de Dios, el Padre veraz.
Algunas reflexiones:
Al igual que para el domingo pasado, es importante recordar los evangelios ya leídos anteriormente para no malinterpretar las "exigencias del Reino".
En primer lugar, Jesús anunció la llegada del Reino de Dios, de su soberanía. En segundo lugar, el Reino de Dios trae una promesa de felicidad eterna, que ya pueden anticiparla en este mundo los pobres de espíritu, los pacientes…
En tercer lugar, Jesús insiste en que este Reino, su vida, sus valores, su mensaje, son para vivirlos y transmitirlos pues mediante su vivencia nos volvemos sal de la tierra y luz del mundo. Ahora, en cuarto lugar, siguen las exigencias concretas que debemos vivir los que aceptamos el señorío de Cristo en nuestras vidas. En efecto, en el evangelio de Mateo la misión del Hijo Jesús es darnos a conocer, con sus palabras y con su vida, la voluntad del Padre, es decir las normas de vida que el Padre establece para sus hijos. Por esto se presenta a Dios como un Padre que quiere poner orden en las relaciones recíprocas de sus hijos, devenidos en hermanos. Pero estas nuevas exigencias, más radicales y más interiores, podrán vivirse mediante la acción de la Gracia de Dios en nuestras vidas. Dios, en Cristo, nos comunica su amor y este amor se manifiesta en un nuevo modo de vincularse entre los hermanos y entre los esposos. Desde esta perspectiva teológica debemos leer las antítesis o superaciones del evangelio de este domingo.
Esto nos previene contra una lectura sólo moralizante o voluntarista de las normas del Sermón del Monte. En esta postura se interpretan estas exigencias sólo como Ley o, más bien, como nueva Ley al verla en relación con la Torá veterotestamentaria y considerando al Sermón del Monte (SM) primeramente como una ética de obediencia en continuidad con la ética del Antiguo Testamento donde el sentido es: ‘obedece, cumple los mandamientos y vivirás’. Al respecto decía el Papa León XIV: “el anuncio del Evangelio, la catequesis y las distintas formas de actividad pastoral deben estar siempre libres de formas de constricción, rigidez y moralismos, para que no susciten sentimientos de culpa y temor en lugar de liberación interior” (Discurso al Movimiento Neocatecumenal el 19 de enero de 2026). No podemos negar que Jesús al comienzo (5,17-20) insiste claramente en el cumplimiento y observancia de estas normas. Por tanto, rescatamos el valor de los mandamientos como manifestación de la voluntad de Dios y la exigencia de cumplirlos que pide Jesús en el evangelio; pero notamos que la verdadera novedad de la "ley del Reino" no está tanto en su radicalidad o integralidad, sino en el espíritu con que se ha de cumplir.
Al respecto, S. Pinckaers5dice que para S. Tomás de Aquino la diferencia entre la Ley de Moisés y el Sermón de la Montaña no reside en el texto ya que la ley nueva consiste principalmente en la acción directa del Espíritu Santo en el corazón de los fieles por medio de la fe y de la caridad. Citemos las mismas palabras del doctor angélico: “Lo principal en la Ley del Nuevo Testamento y en lo que está toda su virtud es la gracia del Espíritu Santo, que se da por la fe en Cristo” (ST I-II, q. 106, a. 1). Por tanto, se desplaza el acento de lo exterior al interior, del yo libre del hombre a la acción del Espíritu Santo. En este correcto sentido interpreta a Sto. Tomás V. M. Fernández6: “Tomás no niega que en el Nuevo Testamento pueda haber leyes o normas de conducta. Pero incluso las leyes tan nobles del mismo Evangelio de Cristo no dejan de ser “letra que mata”, preceptos exteriores que no dan vida, y que sólo “secundariamente” forman parte de la ley nueva (ST I-II, 106,1). Tomás, fiel al pensamiento paulino, quiere mostrar que la principal novedad de la ley del Nuevo Testamento no está en que contenga preceptos más nobles, sino en la gracia del Espíritu Santo, ya que incluso lo que nos manda el Evangelio es incapaz de justificarnos como ley exterior, y sin la gracia también el Evangelio nos llevaría a la muerte (y remite a ST I-II, 106,2)”.
En general, los autores católicos actuales siguen también esta interpretación integradora, pues manteniendo el valor de la Ley Antigua, reconocen la "justicia superior" propia del Evangelio de Jesús al mismo tiempo que la necesidad de la Gracia para cumplirla.
Esta es también la enseñanza del Catecismo de la Iglesia Católica:
Nº 1966: La Ley nueva es la gracia del Espíritu Santo dada a los fieles mediante la fe en Cristo. Actúa por la caridad, utiliza el Sermón del Señor para enseñarnos lo que hay que hacer, y los sacramentos para comunicarnos la gracia de realizarlo.
Nº 1972: La Ley nueva es llamada ley de amor, porque hace obrar por el amor que infunde el Espíritu Santo más que por el temor; ley de gracia, porque confiere la fuerza de la gracia para obrar mediante la fe y los sacramentos; ley de libertad (cf. St 1,25; 2,12), porque nos libera de las observancias rituales y jurídicas de la Ley antigua, nos inclina a obrar espontáneamente bajo el impulso de la caridad y nos hace pasar de la condición del siervo ‘que ignora lo que hace su señor’, a la de amigo de Cristo, ‘porque todo lo que he oído a mi Padre os lo he dado a conocer’ (Jn 15, 15), o también a la condición de hijo heredero (cf. Gal 4,1-7.21-31; Rm 8,15).
Por tanto, la nueva ley es "ley de amor, ley de gracia y ley de libertad", según el Catecismo. Supuesto esto, hay que tomar muy en serio las exigencias de Jesús. Más aún, su vivencia será para nosotros un indicativo o un termómetro de nuestra aceptación del Reinado de Dios, de Su obra en nuestras vidas. Si todavía nos domina la ira, el enojo, la agresión a los demás y la falta de reconciliación es porque Jesús no ha llegado a ser todavía el Señor de nuestra vida y su Amor no llena todo nuestro corazón. Siempre sentiremos primeros movimientos de ira y de enojo porque "hay en mis miembros otra ley que lucha contra la ley de mi razón y me ata a la ley del pecado que está en mis miembros" (Rom 7,23). Pero "¡Gracias a Dios, por Jesucristo, nuestro Señor! […] la ley del Espíritu, que da la Vida, me libró, en Cristo Jesús, de la ley del pecado y de la muerte" (Rom 7,25; 8,2).
Y lo mismo podemos decir de la vivencia de la fidelidad matrimonial, que incluye también no dejarse dominar por los deseos desordenados de nuestro corazón hacia la mujer del prójimo. Y esto gracias a la acción del Espíritu Santo en los esposos, que han recibido en el Sacramento.
Y también si miramos nuestro hablar, si es directo y veraz; o engañoso e inseguro al punto de necesitar ser refrendado por un juramento.
El Papa Francisco comentaba este evangelio afirmando que “Jesús nos hace comprender que las reglas religiosas son útiles, son buenas, pero son solo el inicio: para darles cumplimiento, es necesario ir más allá de la letra y vivir su sentido. Los mandamientos que Dios nos ha dado no deben encerrarse en la caja fuerte asfixiante de la observancia formal, pues de lo contrario nos quedamos en una religiosidad externa y desapegada, siervos de un “dios amo” en lugar de hijos de Dios Padre. Jesús quiere esto, que no tengamos la idea de servir a un Dios amo, sino al Padre, y por esto es necesario ir más allá de la letra.
Hermanos y hermanas, este problema no existía solo en tiempos de Jesús, existe también hoy. A veces, por ejemplo, oímos: “Padre, no he matado, no he robado, no he hecho daño a nadie...”, como diciendo: “He cumplido”. Esta es la observancia formal, que se conforma con el mínimo indispensable, mientras que Jesús nos invita al máximo posible. Es decir, Dios no razona con cálculos y tablas; Él nos ama como un enamorado: ¡no hasta el mínimo, sino hasta el máximo!”, (Ángelus del 12 de febrero de 2023).
Propuesta más breve para la homilía:
El evangelio que leemos hoy comienza con una clara exhortación de Jesús a cumplir con los mandamientos de la Ley de Dios, incluso con los más pequeños. En esto no hay vuelta que darle pues nos dice que Él mismo vino a cumplir, esto es, a llevar a su plenitud los mandamientos de Dios. No se trata, por tanto, de una utopía o de algo imposible, sino que se trata de llevarlos a la vida, de vivirlos. En ellos se revela la voluntad de Dios, lo que el Padre quiere que vivamos como sus hijos para manifestarnos como tales y ser sal de la tierra y luz del mundo. Es importante no perder de vista esto: la "justicia" que hay que practicar, los mandamientos que hay que cumplir, son ante todo la Voluntad del Padre revelada por Jesús.
Ahora bien, nuestra "justicia", nuestro cumplimiento de estos mandamientos, debe ser superior a la de los escribas y fariseos. ¿Y cómo cumplían los mandamientos estos personajes? Lo hacían sólo exteriormente, apegados a la letra de los mismos, movidos por la búsqueda orgullosa de su perfección personal para ser aprobados por los demás. Jesús nos pide "superar" este modo de cumplimiento, lo que implica la adhesión del corazón a lo que el Padre nos pide, realizando el espíritu que da sentido a la letra de los mandamientos, dejando obrar al Espíritu Santo en nosotros y buscando agradar al Padre que ve y está en lo secreto.
En concreto, ¿qué nos pide Jesús que vivamos para cumplir la voluntad del Padre? ⇒ El Señor nos manda amar al hermano, al miembro de mi familia y de mi comunidad, con un amor delicado, que no se irrita ni ofende, que busca siempre la reconciliación y la paz. ⇒ El Señor manda a los esposos amarse con un amor fiel e íntegro, sin fisuras ni engaños, ni en la realidad ni en los deseos.
⇒ El Señor nos manda ser veraces e íntegros en nuestro hablar; que nuestra vida honesta sea el mejor garante de nuestras palabras y que esté lejos de nosotros toda falsedad o conveniencia.
Si cumplir esto nos parece demasiado exigente e imposible de vivir estamos en la buena senda, pero no la abandonemos sino pidamos al Espíritu Santo el don de la Sabiduría divina. Como dice san Pablo, sólo el Espíritu Santo puede hacernos participar de la mente de Cristo y reconocer en esta exigencia de un amor delicado, fiel y veraz, la verdadera Sabiduría Divina. Y una vez recibido este don de sabiduría para comprender y aceptar, pidamos también "la gracia del Espíritu de Amor para poder cumplir libremente la ley de Dios". En efecto, Jesús nos presenta una nueva ley cuya novedad no está tanto en la letra como en el Espíritu Santo que nos ayuda a vivirla. Esta nueva ley es "ley de amor, ley de gracia y ley de libertad", según el Catecismo. Por eso sólo "el Espíritu que es Amor" puede llenar nuestros corazones, transformar nuestras pasiones, para amar con un amor delicado, fiel y veraz.
¿Qué sentimientos nos provoca este evangelio? Me parece que en primer lugar despierta en nosotros un sentimiento de culpa. ¿Quién no se enojó o agredió o insultó alguna vez a alguien? ¿Quién no miró alguna vez con mal deseo a otra persona? ¿Quién no ha dicho medias verdades o mentiras, desde las chicas para zafar hasta las otras? Me parece importante no quedarse sólo en este sentimiento de culpa, que por sí solo es infecundo, sino ir más allá, al encuentro del amor misericordioso del Padre donde alcanzaremos una serena aceptación de nuestra condición de pecadores. Con sano realismo tenemos que reconocer que no podemos, por nosotros mismos, amar siempre como nos pide Jesús con un amor delicado, fiel y veraz. Podemos dar un paso más y hacer nuestra la oración de San Agustín: "Señor pídeme lo que quieras, pero dame lo que me pides".
- 7 -
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
Si la justicia de Uds…
Jesús, Señor y Dios nuestros
Tú que viniste a perfeccionar la Ley
Dinos de su belleza, de su origen, de su realeza
Grabada en el corazón creado primero
Cuando reinaba la armonía
Y el futuro era eterno
Era sencillo andar descalzo y desnudo
Entre los árboles y animales
Del paraíso
Pero decidimos dar la espalda
Al Amor que tan tiernamente nos hizo
Y en la ignorancia nos hundimos
Hoy escuchamos tu Voz, distraídos
Por este tu mundo amado
Vagamos ignorantes y dormidos
No dejes de enseñarnos el camino
Aumenta nuestra fe para que sea el Amor
La Ley Perfecta, Señor
Y si nos infundes tu divina Fuerza
Para tantos otros seremos don
Amor derramado, salud y perdón
Llámanos con insistencia, no tardes!
Tu Reino está tan cerca!
Abramos las puertas del corazón
Y la Ley será el camino y la meta
Para alabanza de tu Gloria
Hasta el fin del cielo y de la tierra. Amén.
1Il discorso della montagna (EDB; Bologna 2016) 93.
2 J. Lambrecht, Pero Yo os digo, Sígueme, Salamanca, 1994, 114.
3 La Enseñanza de la Montaña. Comentario contextual a Mateo 5-7 (Verbo Divino; Estella 2005) 59.
4 Cf. U. Luz, El evangelio según San Mateo. Vol. I (Sígueme; Salamanca 1993) 353.
5 En busca de la felicidad, (Palabra; Madrid 1981) 22-23.
6 V. M. Fernández, La gracia y la vida entera. Dimensiones de la amistad con Dios (Agape-Herder; Bs. As. 2003) 244.