DOMINGO DA DIVINA MISERICÓRDIA
12/04/2026
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AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
1ª Leitura: Atos 2,42-47
Salmo Responsorial 117 (118) - R- Dai graças ao Senhor porque ele é bom! Eterna é a sua misericórdia!
2ª Leitura: Pedro 1,3-9
Evangelho: João 20,19-31
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, os discípulos estavam reunidos, com as portas fechadas por medo dos judeus. Jesus entrou e pôs-se no meio deles. Disse: “A paz esteja convosco”. 20 Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos, então, se alegraram por verem o Senhor. 21 Jesus disse, de novo: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou também eu vos envio”. 22 Então, soprou sobre eles e falou: “Recebei o Espírito Santo. 23 A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão retidos”. 24 Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 Os outros discípulos contaram-lhe: “Nós vimos o Senhor!” Mas Tomé disse: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos, se eu não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. 26 Oito dias depois, os discípulos encontravam-se reunidos na casa, e Tomé estava com eles. Estando as portas fechadas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. 27 Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!” 28 Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29Jesus lhe disse: “Creste porque me viste? Bem-aventurados os que não viram, e creram!” 30 Jesus fez diante dos discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. 31 Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.
Meu irmão, minha irmã!
Jo 20,19-31
Tomé estava ausente quando Jesus apareceu ressuscitado aos discípulos. Logo que viram Tomé chegar, eles comunicaram a Tomé o que tinha acontecido. “Vimos o Senhor!” Os discípulos, porém, recebem a ducha fria da incredulidade de Tomé. Como acreditar nesse absurdo? Jesus cheio de vida? Eles todos tinham visto Jesus morto na cruz e sepultado. O que eles viram devia ter sido uma outra pessoa parecida.
Os discípulos retrucam que era o próprio Jesus. Tinham visto as marcas dos pregos e o lado aberto de Jesus. Não era um outro parecido, era o próprio Jesus! Diante desse testemunho, Tomé exige ele mesmo ver também as marcas da paixão e da crucifixão. Em relação à ressurreição de Jesus, Tomé só aceita acreditar na própria experiência.
Oito dias depois, Jesus se apresenta de novo aos discípulos. Ele se dirige diretamente a Tomé. Não critica sua posição de incredulidade. Para Jesus, as dúvidas de Tomé não têm nada de ilegítimo ou de escandaloso. Sua resistência em crer revela sua honestidade. Jesus o entende e vem a seu encontro para lhe mostrar as feridas.
As feridas mais do que provas para verificar a verdade da ressurreição são os sinais do amor de Jesus que amou até o fim. Por isso, Jesus convida Tomé a tocar suas feridas.
Não sabemos se Tomé tenha tocado as feridas de Jesus. Ele, porém, não necessita mais de provas, pois agora experimenta a presença do mestre que o ama. Tomé que tinha feito o caminho mais longo para chegar à fé no ressuscitado, foi também aquele que atingiu a maior profundidade na fé: Meu Senhor e meu Deus! Ninguém fez uma confissão como esta.
Não devemos nos assustar se encontramos dificuldades em nossa própria fé. Essas dificuldades podem nos resgatar de uma fé superficial que se contenta em repetir fórmulas, sem crescer em confiança e amor. As dificuldades podem nos levar a um amadurecimento na fé.
“(...) os discípulos estavam com as portas bem fechadas, por medo dos judeus” (Jo 20,19)
O relato pascal deste domingo descreve, com traços fortes, a situação da comunidade cristã quando em seu centro falta a presença do Cristo ressuscitado. Sem sua presença viva, a comunidade se reduz a um grupo de homens e mulheres que vivem “numa casa com as portas fechadas, por medo dos judeus”.
Com as “portas fechadas” não se pode saber o que acontece lá fora; não é possível captar a ação do Espírito no mundo; não dá para abrir espaços de encontro e diálogo com ninguém; apaga-se a confiança no ser humano e crescem os medos e pré-juízos. Uma comunidade que permanece no túmulo, mergulhada no medo e sem capacidade de encontro e diálogo, é uma tragédia, pois os seguidores de Jesus são chamados a tornar visível, no hoje da história, o eterno diálogo de Deus com a humanidade.
Grandes medos não aparecem com frequência; são os pequenos medos que surgem dos encontros diários com a realidade e roubam nossa vitalidade e dinamismo. O medo inibe o pensamento, impede a concentração e é, portanto, muito responsável por fazermos as coisas de modo medíocre, sem valor, abaixo das possibilidades e contra as nossas expectativas.
Os seguidores de Jesus são chamados a tornar visível, no hoje da história, o eterno diálogo de Deus com a humanidade – Adroaldo Palaoro
O medo não é um ato moral nem uma omissão. Sem ser convidado, ele cresce no nosso coração. Em tal atmosfera de medo, a imaginação e todas as energias criativas se atrofiam.
Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do nosso ser. O medo nos deixa vulneráveis à manipulação.
O “medo” pode paralisar o “movimento de vida” iniciado por Jesus e bloquear nossas melhores energias; sob o impacto do medo a tendência é nos fechar nos ritos estéreis, na doutrina fria, no legalismo e no moralismo doentios que nos levam a rejeitar o que é diferente e a condenar o que é novo. Com medo não é possível amar o mundo e as pessoas. E, se não o olhamos a realidade com os olhos de Deus, como vamos comunicar a Boa Notícia? Se vivemos com as portas fechadas, quem deixará o redil para buscar as ovelhas perdidas? Quem se atreverá a tocar a algum doente excluído? Quem se sentará à mesa com pecadores e marginalizados? Quem se aproximará dos esquecidos pela religião?
Aqueles que desejam buscar o Deus de Jesus nos encontrarão com as portas fechadas.
O relato de João é sugestivo e interpelador. Só quando vê a Jesus ressuscitado no meio deles, o grupo de discípulos se transforma, recuperam a paz, desaparecem seus medos, enchem-se de uma alegria desconhecida, recebem o Sopro de Jesus sobre eles e abrem as portas, porque se sentem enviados a viver a mesma missão que Ele havia recebido do Pai.
Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do nosso ser. O medo nos deixa vulneráveis à manipulação – Adroaldo Palaoro
O relato joanino deste domingo traz uma série de expressões que revelam a profunda “ressurreição” vivida pela comunidade dos discípulos; ela precisou fazer a travessia da escuridão para a luz, do medo para a coragem, da timidez para a missão; são expressões carregadas de vida, de futuro, abertas ao novo e que mobilizam a retomar a mesma missão vivida por Jesus durante sua vida pública. O Ressuscitado reconstrói sua comunidade de seguidores, rompe as cadeias do medo e os devolve ao mundo.
* “O primeiro dia da semana”: começa uma nova Criação e com ela, uma nova Aliança. Em Jesus se completa a criação do ser humano, levando a humanidade à sua plenitude.
O local fechado, como consequência do medo, delimita o espaço da comunidade em meio a um mundo hostil. A mensagem de Maria Madalena fazendo-os saber que Jesus vivia, não os havia libertado do medo. Jesus sai ao encontro dos discípulos inesperadamente; sua presença se efetua diretamente. Ele é quem toma sempre a iniciativa e aparece no centro da comunidade, porque, agora, Ele é para eles a única referência e fator de unidade. A presença que experimentam não é uma invenção nem surge de um desejo ou expectativa dos discípulos. A nenhum deles teria passado pela cabeça que Jesus pudesse aparecer, uma vez que tinham testemunhado seu fracasso e sua morte.
* “A paz esteja convosco”: Jesus os saúda; o calor da saudação elimina o medo e as incertezas; é o gesto que conecta o que está acontecendo com o Jesus que viveu e comeu com eles.
A presença de Jesus se impõe como figura próxima e amistosa, que manifesta seu interesse por eles e que busca conduzi-los à sua plenitude de vida.
* “Soprou sobre eles”: É o mesmo gesto do Criador ao fazer do homem de barro um “ser vivente”. Tudo isso é obra do Espírito. Deus atuou em Jesus, atua em nós e atua no mundo. A obra da Criação continua. No sétimo dia, Deus não descansa, o Salvador não descansa até que todos sejam filhos e filhas. Jesus é nova Criação; nós também. Somos criadores com Deus, à sua imagem e semelhança.
* “Meu Senhor e meu Deus”: A resposta de Tomé é tão extrema quanto sua incredulidade. Ao dizer-lhe “Senhor”, reconhece o amor de Jesus e o aceita dando-lhe sua adesão. Ao dizer “meu” expressa sua proximidade, como Madalena. Não precisou tocar as chagas, mas precisou tomar consciência de que o Ressuscitado é infinitamente mais que aquilo que os próprios sentidos podem captar.
E ao reconhecê-Lo, modifica-se também a percepção de sua própria identidade e mergulha no assombro, na admiração e no louvor.
* “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”: O Ressuscitado convida a “crer” porque, quando alguém crê, recupera a capacidade de “ver”. A fé possibilita um olhar contemplativo: vê o que todo mundo vê, mas de maneira diferente. Vê sinais do Ressuscitado em tudo o que existe e compreende que tudo tem um sentido, imperceptível à luz dos sentidos externos. A ressurreição permite um olhar aberto, simples e natural, um olhar encantado diante de cada aspecto da realidade.
O relato evangélico deste domingo vem revelar que a nossa primeira atitude é deixar entrar o Ressuscitado através de tantas barreiras que levantamos para nos defender do medo. Que Jesus ocupe o centro de nossas vidas e de nossas comunidades; que só Ele seja a fonte de vida, de alegria e de paz. Que ninguém ocupe seu lugar; que ninguém se aproprie de sua mensagem; que ninguém imponha um modo de viver diferente do seu. Precisamos, mais do que nunca, abrir-nos ao alento do Ressuscitado para acolher seu Espírito.
Para quem fez a experiência do encontro com o Ressuscitado, não existe mais medo, não existem mais obstáculos nem portas fechadas, etc., que impeçam de realizar os caminhos do anúncio do Evangelho, da comunhão e da missão.
Devemos compreender que é preciso abrir a Grande Porta, que é o Cristo, para permitir que todas as pessoas circulem livremente – Adroaldo Palaoro
A ressurreição nos compromete a abrir as portas para libertar as pessoas de uma religião esclerosada, uma religião de condenação e de exclusão. No Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII abriu as portas e as janelas da Igreja para arejá-la, para lhe permitir uma melhor circulação do ar, para libertar os cristãos que estavam doentes numa Igreja dogmática e doutrinal.
É por isso que o evangelho de hoje deve nos interpelar, a nós que somos seguidores(as) do Ressuscitado. Devemos compreender que é preciso abrir a Grande Porta, que é o Cristo, para permitir que todas as pessoas circulem livremente. Se quisermos ser fiéis a Ele e à nossa missão cristã, devemos abrir a porta para o mundo a fim de que todos possam entrar nas nossas comunidades com toda a liberdade.
Para meditar na oração:
Para fazer a experiência do encontro com o Ressuscitado é preciso quebrar os “ferrolhos” de nossa morada interior: ferrolhos das ideias fixas, dos sentimentos frios, das relações vazias, do legalismo mortal...
- No nível mais amplo: quais são os “ferrolhos” que travam a vida da Igreja, impedindo-se de ser sinal do Ressuscitado? Quais são os “medos” que bloqueiam a criatividade e a ousada da verdadeira comunidade de Jesus?
Neste domingo termina a oitava da Páscoa, um período de oito dias durante o qual prolongamos a celebração da ressurreição de Jesus, assim como no próprio domingo de Páscoa. Ao longo de toda esta semana, foram lidos os textos evangélicos que narram as diferentes aparições de Jesus Ressuscitado. Neles, também observamos diferentes atitudes da comunidade de discípulos diante da notícia do túmulo vazio, do anúncio dos anjos, das mulheres que correram e não encontraram seu corpo. Sentimo-nos identificados com as mulheres que correm ao sepulcro em busca de seu corpo e não o encontram, ou também com os discípulos de Emaús, tomados pela tristeza diante da morte de Jesus, seu mestre e amigo, ou com a dor de Maria Madalena por ter perdido seu mestre, e assim cada um dos relatos nos ofereceu a possibilidade de fazer parte dessa comunidade que se sente desconcertada com o que foi acontecendo, que também se alegra com aqueles que o “viram”, mas que também tem dificuldade em acreditar que Ele está vivo!
O texto deste domingo nos situa no crepúsculo daquele primeiro dia. A comunidade joanina situa este texto no crepúsculo, quando o dia vai se esvaindo e também as esperanças da comunidade que está com as portas fechadas por medo dos judeus.
Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: "A paz esteja convosco".
Diante de uma comunidade amedrontada, mas que continua reunida, Jesus se apresenta no meio deles, oferecendo-lhes a sua paz. Para Jesus, não há portas fechadas, não há nenhum espaço que não possa ser habitado pela sua paz, pela sua vida em abundância. São suas primeiras palavras para a comunidade que hoje se dirigem a todos nós que também estamos reunidos, permanecemos juntos em meio a este conflito sem precedentes, onde o medo e a incerteza nos convidam a nos refugiar em nossa própria insegurança.
Para Jesus, não há portas fechadas, não há nenhum espaço que não possa ser habitado pela sua paz, pela sua vida em abundância – Ana Casarotti
A comunidade experimenta a perplexidade própria daqueles que perderam seu guia. Sentem-se inseguros, temerosos e talvez também se repreendam por atitudes recentes. Quantas vezes, diante de situações que nos desconcertam, buscamos um último responsável e nos custa assumir que cada um tem sua responsabilidade no que está acontecendo, seu pequeno grão de areia a contribuir, sua palavra a dizer ou seu silêncio que colabora na construção de laços estáveis e permanentes.
Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: "A paz esteja convosco".
Jesus mostra-lhes as mãos e o lado, oferecendo assim a prova de que é Ele, aquele que foi morto na cruz, quem agora está vivo, ressuscitado, e lhes oferece a sua paz. Esta nova revelação de Jesus nos deixa com a pergunta sobre essa paz que Ele vive: é a paz daquele que viveu entre nós, que se fez um de nós e sofreu o desprezo, a zombaria e, finalmente, a morte como um assassino. Não é a paz da quietude ou da ignorância da realidade complexa e mutável do ser humano, mas, pelo contrário, Ele percorreu o caminho da vida até chegar à morte, e uma morte na cruz. E Deus O ressuscitou e, com Ele, abre um novo caminho de vida para todo ser humano, que começa no momento mesmo em que abrimos nosso ser à Sua paz; é uma paz que nasce da Sua Páscoa.
Vamos conhecê-la e recebê-la se deixarmos que Jesus Ressuscitado entre em nossa vida, que suas mãos e seu lado acariciem nossa dor e nosso sofrimento… e nos abramos humildemente às suas palavras, ao seu sopro que sopra sobre nós, dando-nos vida. Mas, assim como Tomé, temos dificuldade em acreditar que a dor e o sofrimento possam ser habitados por sua paz. Às vezes preferimos guardar essa dor, encher-nos de perguntas sem respostas… mas Jesus não nos deixa abandonados em nossas incertezas, dúvidas ou discussões.
Esta nova revelação de Jesus nos deixa com a pergunta sobre essa paz que Ele vive. Não é a paz da quietude ou da ignorância da realidade complexa e mutável do ser humano – Ana Casarotti
Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: "A paz esteja convosco".
Após oito dias, Ele aparece novamente aos discípulos, que se encontram na mesma situação em que estavam no início da semana, mas agora Tomé estava com eles. E, pela terceira vez, Ele lhes oferece a Sua paz: "A paz esteja convosco".
Depois disse a Tomé: "Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel". Tomé respondeu: "Meu Senhor e meu Deus!"
Quantas vezes a dor, as injustiças que nos cercam, a indiferença e a opressão daqueles que se acham donos da vida alheia geram perguntas que nos levam a questionar onde está Deus, por que Ele não faz nada, por que não impede que isso aconteça. Jesus oferece sua Paz, aquela que nasce da cruz, do amor entregue, uma paz que não é quietude nem ausência de dor. Jesus convida Tomé a tocar suas chagas, a reconhecer que dali nasce uma vida nova habitada pela paz do Ressuscitado. Desde sua eleição como novo bispo de Roma, o Papa Leão não se cansa de falar da paz, da construção da paz, dos meios e das formas para alcançar a paz. Em sua primeira mensagem ao mundo no desejo e no apelo a “uma paz desarmada e desarmante”. “Uma paz desarmada e desarmante”. A preocupação pastoral maior do Papa Leão XIV. Artigo de Francisco de Aquino Júnior.
Neste segundo domingo da Páscoa, somos chamados a tocar as feridas de nossos irmãos e, unidos a Jesus, oferecer-lhes a Sua paz, aquela paz que acalma a dor e lhe dá um novo sentido, para que todos juntos possamos dizer com Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!" – Ana Casarotti
Neste segundo domingo da Páscoa, somos chamados a tocar as feridas de nossos irmãos e, unidos a Jesus, oferecer-lhes a Sua paz, aquela paz que acalma a dor e lhe dá um novo sentido, para que todos juntos possamos dizer com Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!"
Fazemos nosso o pedido do Papa Leão no Primeiro domingo da Páscoa: “Quem porta armas, que as deponha! Quem tem o poder de desencadear a guerra, que escolha a paz! Não uma paz conquistada pela força, mas pelo diálogo! Não com o desejo de dominar o outro, mas de encontrá-lo! Estamos nos acostumando à violência”, resignamo-nos a ela e tornamo-nos indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas. Indiferentes às consequências do ódio e da divisão que os conflitos semeiam. Indiferentes às consequências econômicas e sociais que produzem, as quais todos sentimos.” (Primeira Páscoa de Leão XIV: "Quem tem o poder de iniciar guerras deve escolher a paz”).
Não foi fácil para os discípulos expressar o que estavam vivendo. Procuraram recorrer a todo o tipo de recursos narrativos. O núcleo, no entanto, é sempre o mesmo: Jesus vive e está de novo com eles. Isto é o decisivo. Recuperam Jesus cheio de vida.
Os discípulos encontram-se com O que os chamou e a quem abandonaram. As mulheres abraçam a quem defendeu sua dignidade e as recebeu como amigas. Pedro chora ao vê-Lo: já não sabe se O quer mais do que os outros, apenas sabe que o ama. Maria de Magdala abre seu coração para quem a seduziu para sempre. Os pobres, as prostitutas e os indesejáveis sentem-no de novo próximo, como naquelas inesquecíveis refeições com Ele.
Já não será como na Galileia. Terão que aprender a viver da fé. Deverão encher-se do seu Espírito. Terão que recordar suas palavras e atualizar seus gestos. Mas Jesus, o Senhor, está com eles, cheio de vida para sempre.
Todos experimentam o mesmo: uma paz profunda e uma alegria incontida. As fontes evangélicas, tão sóbrias sempre para falar de sentimentos, sublinham uma e outra vez: o Ressuscitado desperta neles alegria e paz. É tão central, esta experiência, que se pode dizer, sem exagero, que desta paz e desta alegria nasceu a força evangelizadora dos seguidores de Jesus.
Onde está hoje essa alegria numa igreja às vezes tão cansada, tão séria, tão pouco dada ao sorriso, com tão pouco humor e humildade para reconhecer sem problemas os seus erros e limitações? Onde está essa paz numa igreja tão cheia de medos, tão obcecada pelos seus próprios problemas, procurando tantas vezes a sua própria defesa, antes da felicidade do povo?
Até quando poderemos continuar a defender nossas doutrinas de maneira tão monótona e aborrecida, se, ao mesmo tempo, não experimentamos a alegria de «viver em Cristo»? A quem atrairá nossa fé se às vezes não podemos nem aparentar que vivemos dela?
E, se não vivermos do Ressuscitado, quem vai encher nossos corações? Onde se vai alimentar nossa alegria? E, se falta a alegria que brota Dele, quem vai comunicar algo «novo e bom» aos que duvidam? Quem vai ensinar a acreditar com mais vida? Quem vai contagiar com esperança os que sofrem?
Situando
Na conclusão do capítulo 20 (Jo 20,30-31), o autor diz que Jesus fez “muitos outros sinais que não estão neste livro. Estes, porém, foram escritos (a saber os sete sinais relatados nos capítulos 2 a 11) para que vocês possam crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, acreditando, ter a vida no nome dele” (Jo 20,31). Isso significa que, inicialmente, esta conclusão era o final do Livro dos Sinais. Mais tarde, foi acrescentado o Livro da Glorificação que descreve a hora de Jesus, a sua morte e ressurreição. Assim, o que era o final do Livro dos Sinais passou a ser conclusão também do Livro da Glorificação.
Comentando
1. João 20,19-20: A experiência da ressurreição
Jesus se faz presente na comunidade. As portas fechadas não podem impedir que ele esteja no meio dos que nele acreditam. Até hoje é assim. Quando estamos reunidos, mesmo com todas as portas fechadas, Jesus está no meio de nós. E até hoje, a primeira palavra de Jesus é e será sempre: “A paz esteja com vocês!” Ele mostrou os sinais da paixão nas mãos e no lado. O ressuscitado é o crucificado. O Jesus que está conosco na comunidade não é um Jesus glorioso que não tem mais nada em comum com nossa vida. Mas é o mesmo Jesus que viveu nesta terra, e traz as marcas da sua paixão. As marcas da paixão estão hoje no sofrimento do povo, na fome, nas marcas de tortura, de injustiça. É nas pessoas que reagem, lutam pela vida e não se deixam abater que Jesus ressuscita e se faz presente no meio de nós.
2. João 20,21: O envio: “Como o Pai me enviou, eu envio vocês!”
É deste Jesus, ao mesmo tempo crucificado e ressuscitado, que recebemos a missão, a mesma que ele recebeu do Pai. E ele repete: “A paz esteja com vocês!” Esta dupla repetição acentua a importância da paz. Construir a paz faz parte da missão. Paz significa muito mais do que só ausência de guerra. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, em que as pessoas possam ser elas mesmas, tendo todas o necessário para viver, convivendo felizes e em paz. Esta foi a missão de Jesus, e é também a nossa missão. Numa palavra, é criar comunidade a exemplo da comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
3. João 20,22: Jesus comunica o dom do Espírito Santo
Jesus soprou e disse: “Recebei o Espírito Santo.” É só mesmo com a ajuda do Espírito de Jesus que seremos capazes de realizar a missão que ele nos dá. Para as comunidades do Discípulo Amado, Páscoa (ressurreição) e Pentecostes (efusão do Espírito) são a mesma coisa. Tudo acontece no mesmo momento. Sobre a ação do Espírito, veja o Alargando do 5º Círculo.
4. João 20,23: Jesus comunica o poder de perdoar os pecados
O ponto central da missão de paz está na reconciliação, na tentativa de superar as barreiras que nos separam: “Aqueles a quem vocês perdoarem os pecados serão perdoados e aqueles a quem retiverem serão retidos!” Este poder de reconciliar e de perdoar é dado à comunidade (Jo 20,23; Mt 18,18). No Evangelho de Mateus, é dado também a Pedro (Mt 16,19). Aqui se percebe a enorme responsabilidade da comunidade. O texto deixa claro que uma comunidade sem perdão nem reconciliação já não é comunidade cristã.
5. João 20,24-25: A dúvida de Tomé
Tomé, um dos doze, não estava presente. E ele não crê no testemunho dos outros. Tomé é exigente: quer colocar o dedo nas feridas da mão e do pé de Jesus. Quer ver para poder crer. Não é que ele queria ver milagre para poder crer. Não! Tomé queria ver os sinais nas mãos e no lado. Ele não crê num Jesus glorioso, desligado do Jesus bem humano que sofreu na cruz. Sinal de que havia pessoas que não aceitavam a encarnação (2Jo 7; 1Jo 4,2-3; 2,22). A dúvida de Tomé também deixa transparecer como era difícil crer na ressurreição.
6. João 20,26-29: Felizes os que não viram e creram
O texto começa dizendo: “Uma semana depois”. Tomé foi capaz de sustentar sua opinião durante uma semana inteira. Cabeçudo mesmo! Graças a Deus, para nós! Novamente, durante a reunião da comunidade, eles têm uma experiência profunda da presença de Jesus ressuscitado no meio deles. E novamente recebem a missão de paz: “A paz esteja com vocês!” O que chama a atenção é a bondade de Jesus. Ele não critica nem xinga a incredulidade de Tomé, mas aceita o desafio e diz: “Tomé, venha cá colocar seu dedo nas feridas!”. Jesus confirma a convicção de Tomé, que era a convicção de fé das comunidades do Discípulo Amado, a saber: o ressuscitado glorioso é o crucificado torturado. É neste Cristo que Tomé acredita, e nós também. Com ele digamos: “Meu Senhor e meu Deus!” Esta entrega de Tomé é a atitude ideal da fé. E Jesus completa com a mensagem final: “Você acreditou porque viu. Felizes os que não viram e no entanto creram!” Com esta frase, Jesus declara felizes a todos nós que estamos nesta condição: sem termos visto acreditamos que o Jesus que está no nosso meio é o mesmo que morreu crucificado!
7. João 20,30-31: Objetivo do Evangelho: levar a crer para ter vida
Assim termina o Evangelho, lembrando que a preocupação maior de João é a Vida. É o que Jesus diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Alargando – SHALOM: a construção da paz
O primeiro encontro entre Jesus ressuscitado e seus discípulos é marcado pela saudação feita por ele: “A paz esteja com vocês!” Por duas vezes Jesus deseja a paz a seus amigos. Esta saudação é muito comum entre os judeus e na Bíblia. Ela aparece quando surge um mensageiro da parte de Deus (Jz 6,23; Tb 12,17). Logo em seguida, Jesus os envia em missão, soprando sobre eles o Espírito. Paz, Missão e Espírito! Os três estão juntos. Afinal, construir a paz é a missão dos discípulos e das discípulas de Jesus (Mt 10,13; Lc 10,5). O Reino de Deus, pregado e realizado por Jesus e continuado pelas comunidades animadas pelo Espírito, manifesta-se na paz (Lc 1,79; 2,14). O Evangelho de João mostra que esta paz, para ser verdadeira, deve ser a paz trazida por Jesus (Jo 14,27). Uma paz diferente da paz construída pelo Império Romano.
Paz na Bíblia (em hebraico é shalom) é uma palavra muito rica, significando uma série de atitudes e desejos do ser humano. Paz significa integridade da pessoa diante de Deus e dos outros. Significa também uma vida plena, feliz, abundante (Jo 10,10). A paz é sinal da presença de Deus, porque o nosso Deus é um “Deus da paz” (Jz 6, 24; Rm 15,33). Por isso mesmo, a proposta de paz trazida por Jesus também é sinal de “espada” (Mt 10,34), ou seja, de perseguições para as comunidades. O próprio Jesus faz este alerta sobre as tribulações promovidas pelo Império tentando matar a paz de Deus (Jo 16,33). É preciso confiar, lutar, trabalhar, perseverar no Espírito para que um dia a paz de Deus triunfe. Neste dia, “amor e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam” (Sl 85,11). Então, como ensina Paulo, “o Reino será justiça, paz e alegria como fruto do Espírito Santo” (Rm 14,17), e “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28).
Leitura dos Atos dos Apóstolos 2,42-47
Lucas apresenta a comunidade ideal das origens, caracterizada por quatro elementos: ensino, oração, Eucaristia e partilha de bens, e os repete para dar continuidade ao caminho de Jesus.
O resumo dos Atos apresenta pela primeira vez (cf. 4,32-35) a comunidade original, a comunidade de Jerusalém. A partir do capítulo 6, começa a se referir aos seguidores de Jesus originários da Diáspora, e mais tarde o grupo será aberto para receber gentios.
Em Lucas 2,41, ele havia dito que, em resposta à pregação de Pedro, "os que aceitaram a sua mensagem foram batizados, e naquele dia houve um acréscimo de cerca de três mil pessoas". Estes, portanto, são os que "vinham regularmente"...
A primeira coisa que se afirma sobre esse grupo é que eles frequentavam:
1. O ensinamento dos apóstolos (em 5,28; 13,12; 17,19 refere-se a um ensinamento já estabelecido, então também pode ser traduzido como “doutrina”;
2. Comunhão apenas uma vez em Atos, muito frequentemente em Paulo para aludir à vida compartilhada, à comunhão de vida com Deus ou a bens compartilhados (por exemplo, na Coleta);
3. A partilha do pão em Lc 24,35 alude ao reconhecimento de Jesus pelos peregrinos de Emaús, certamente se refere à Eucaristia;
4. As orações já eram algo que havia sido dito sobre o grupo germinal (1,14) e são algo frequente na comunidade (3,1; 6,4; 12,5).
Em todos eles ocorreu um “grande temor”. O temor reverencial é característico da religiosidade (5,5, 11; 9,31; 19,17; cf. Lc 1,12, 65; 2,9; 5,26; 7,16; 8,37). Pode incluir o temor, mas também o “temor de ofender”, o respeito e a reverência. A referência a “sinais e maravilhas” particularmente a partir de Dt 34,11, alude à profecia (como a de Moisés).
A comunidade dos apóstolos, assim como Jesus, é caracterizada por sua natureza profética na teologia de Lucas-Atos. A profecia a caracteriza ao longo da obra em vários aspectos (cf. 2,19; 4,30; 5,12; 6,8; 7,36; 14,3; 15,12).
Todo o grupo é descrito como “crentes”; eles viviam juntos e tinham tudo em comum. Os antigos gregos falavam de amizade como a de pessoas que compartilham tudo e vivem juntas, razão pela qual — poderíamos dizer — Lucas descreve a comunidade como “irmãos” (uso judaico) e “amigos” (uso grego). A referência ao que é vendido, mantido em comum e distribuído conforme a necessidade será especificada mais claramente nos capítulos 4 e 5: (4,32–35 no resumo, 4,36–37 no exemplo de Barnabé; e em 5,1–11 no contra-testemunho de Ananias e Safira).
Como se tratava da comunidade de Jerusalém, eles iam ao Templo diariamente (prática reiterada em 3,1; 5,25…), e com “perseverança”, como a encontrada na oração (1,14) ou no ensino (didakhê) dos apóstolos, que por sua vez se dedicavam à oração e à pregação da palavra (6,4), e “intimamente” (1,14; 4,24; 5,12; 8,6), mas também “partiam o pão” em suas casas e compartilhavam a comida. O louvor (ainoûntes) é quase exclusivamente lucano no NT (6x de 8x, Rm 15,11; Ap 19,5) e é sempre dirigido a Deus. E eles tinham o “favor” (chárin) de “todo o povo (laos)”.
E, concluindo (como vimos em 2,41), alude-se àqueles a quem “o Senhor” (Jesus?) acrescenta para que possam ser “salvos” (sôzomenous).
Como se pode ver, a narrativa, após ter delineado quatro características da comunidade primitiva em resumo, elabora-as para melhor compreendê-las:
E conclui mostrando – como já o fizera (2,41) e repetirá – que “a comunidade estava crescendo…” (cf. 6,7).
Evangelho segundo João 20,19-31
Em duas cenas, Jesus aparece à sua comunidade, concedendo-lhe todos os dons esperados para o fim dos tempos. Além disso, o Evangelho destaca a identidade entre o Cristo ressuscitado e o Cristo crucificado por meio dos sinais visíveis da cruz, mas — assim como o discípulo amado — dirige-se àqueles que crerão sem ver e, dessa forma, alcançarão a plenitude da vida de Deus.
O dia da ressurreição está chegando ao fim. Ao amanhecer, Maria Madalena foi ao túmulo (20,1); mais tarde, ela encontra Jesus, a quem confunde com o jardineiro (20,15), e conta aos discípulos. Naquela mesma noite, ocorre a aparição aos discípulos. Não sabemos quem estava presente neste relato (razão pela qual os discípulos, como grupo, são os que devem ser considerados na narrativa); sabemos apenas quem estava ausente: Tomé, que será o protagonista, juntamente com Jesus, da próxima e última cena. Esta narrativa, portanto, tem duas partes separadas por uma semana (de modo que a segunda aparição de Cristo ressuscitado ocorre em um domingo). A ausência e a presença de Tomé marcam o elemento — novo na segunda parte — que as conecta, mas não há necessidade de cair no fundamentalismo de perguntar se Tomé não recebe os dons dados por Jesus durante a primeira visita.
Comecemos por observar que a presença de Jesus a portas fechadas (vv. 19, 26) parece sugerir que ele não retornou à sua vida anterior: seu corpo é o mesmo, mas também diferente, glorificado. Como na cena seguinte, as palavras de Jesus reconhecem o dom da paz (shalom, algo necessário em meio ao "medo"; não é correto dizer que a paz já está entre eles — devido à ausência de um verbo, literalmente "a paz esteja convosco" — visto que o medo e a alegria subsequentes parecem contradizer isso) que Jesus lhes concede (vv. 19, 26), e então ele "mostra-lhes as mãos e o lado", reforçando assim a ideia de que "o ressuscitado é o crucificado", continuidade e diferença. Isso antecipa a cena com Tomé, mas também nos diz que o que ele dirá mais tarde sobre aqueles que "creem sem ver" não se refere aos discípulos (que "veem"), mas aos leitores do Evangelho.
A alegria e a paz que lhe foram concedidas assumem, mais uma vez, uma nova dimensão. Não se trata simplesmente de repetir uma saudação e dos discípulos se alegrarem ao vê-lo ressuscitado; a "paz" e a "alegria" são dons escatológicos, assim como toda a atmosfera desta cena. A ressurreição de Jesus começa a derramar sobre seus seguidores, os discípulos, os dons aguardados para os últimos tempos. De fato, o maior dom, aquele que dá origem a todos os outros, é o Espírito que o Cristo ressuscitado agora concede. Nós, leitores, já sabemos que o Espírito foi dado ao pequeno grupo aos pés da cruz — os crentes representados pela mãe e pelo discípulo amado (19,30), como predito (7,39). Mas o espírito – lembrem-se dos ditos do Paráclito (ver 14,16.26; 15,26; 16,7, sempre no discurso de despedida) – não é derramado sobre o pequeno grupo, mas sobre todos os crentes para serem testemunhas (20,22; ver 15,26-27).
Ora, como se pode ver numa leitura abrangente de todo o Evangelho, um dos elementos centrais da cristologia joanina é a apresentação de Jesus como aquele “enviado” pelo Pai. O “enviado” (em hebraico, “sheliah”) é uma instituição característica para a qual a pessoa tem “a mesma autoridade daquele que a envia”, isto é, o que ela diz, o que ela decide, o que ela se abstém de fazer, é feito pelo mesmo “remetente”. Visto que Jesus é “enviado pelo Pai”, ele evidentemente profere as mesmas palavras e realiza as mesmas obras, como fica claro ao longo do Evangelho. “Enviado”, em grego, é expresso por dois termos, pempô e apostellô (de onde deriva “apóstolo”). Assim, podemos dizer que no corpo do Evangelho de João há apenas um “apóstolo”, que é Jesus. No entanto, uma vez ressuscitado, Jesus “envia” seus discípulos “como o Pai me enviou” (cf. 13,16.20; 17,18), e – de acordo com os textos mencionados – é um envio “ao mundo”.
Ele então lhes dá a capacidade de levar o perdão de Deus a todos (em um texto que tem alguma conexão com Mt 16,19; 18,18).
A cena é abruptamente interrompida — não há despedida nem partida — com a referência à ausência de Tomé. Em um diálogo entre as duas cenas, os presentes confirmam que "viram o Senhor" (confirmando mais uma vez que a alusão àqueles "que creem sem ver" não se refere a eles), mas Tomé expressa explicitamente sua incredulidade, indo além da visão; ele quer tocar.
Oito dias depois, a cena inicial se repete, como dissemos, mas agora Jesus fala diretamente com Tomé, convidando-o a fazer o que lhe havia pedido e exortando-o a não ser um incrédulo, mas um crente. A cena termina com a magnífica confissão de fé de Tomé: "Meu Senhor e meu Deus!"
Mas consideremos alguns elementos fundamentais para compreendermos melhor essa unidade: como já foi dito, paz e alegria não são meramente uma saudação. A paz já havia sido anunciada por Jesus para o seu retorno (14,27-28; 16,33; veja Isaías 52,7, 60,17, 66,12); e o mesmo acontecia com a alegria (14,19; 16,21-22; veja Isaías 51,3, 11, Salmo 35,9). O “sopro” poderia aludir ao relato da (nova) criação (Gênesis 2,7; Sabedoria 15,11), mas também parece consistente com a imagem da ressurreição na alusão a Ezequiel 37 no relato dos “ossos secos”; a humanidade é ressuscitada pelo poder criador do Jesus ressuscitado. A referência ao perdão e à retenção oscila entre dois extremos e tem a aparência do que se chama de "merismo", ou seja, uma figura de linguagem que visa significar o todo transitando entre os dois extremos. Neste caso, parece simbolizar o controle total sobre o acesso à casa (veja Isaías 22,22 com termos semelhantes, que também inspiram — como dissemos — Mateus 16,19 e 18,18). Visto que a cena se refere aos "discípulos" sem especificar, parece que se deve entender que toda a comunidade de fiéis recebe esse "ministério".
Os discípulos já tinham ouvido palavras semelhantes de Maria Madalena, que disse ter “visto o Senhor”, mas o texto nada diz sobre as consequências disso (que poderiam ser incluídas se acreditarmos que João desconstruiu o texto — como discutimos na semana passada — e colocou a reação dos discípulos no início da unidade). Os discípulos agora dizem as mesmas palavras a Tomé: “Nós vimos o Senhor”.
A resposta de Tomé aos discípulos marca uma segunda etapa em sua jornada de fé — após a ausência. Ele está disposto a abandonar sua incredulidade se o Cristo ressuscitado atender aos seus critérios, mas, caso contrário, permanecerá incrédulo: "Não crerei". Tomé exige "tocar" em Jesus, assim como Maria quis se apegar ao seu corpo (20,17); Tomé — agora, pelo menos, presente — exige experimentar o corpo ressuscitado do crucificado. Mas o forte sentido de "toque" e "lugar" parece destacar, além disso, a continuidade entre os mundos passado e presente de Jesus (algo que a passagem pelos portões refuta, como dissemos). Para crer, Jesus precisa aceitar suas exigências. Ao aparecer, Jesus mostra que aceita as condições de Tomé, mas, ao mesmo tempo, insiste: "e não sejais incrédulos, mas crentes..." (a reiteração e a importância do verbo "crer" não precisam ser enfatizadas). Nada indica que Tomé tenha tocado no altar; agora é ele quem aceita a condição de Jesus e manifesta a sua fé. O que havia sido revelado no Evangelho a respeito do "Verbo" em 1,1-2, o uso por Jesus do absoluto "Eu Sou" (cf. 4,26, 8,24, 28, 58; 13,19; cf. 18,5, 8) e a sua afirmação "Eu e o Pai somos um" (10,30 e também 10,38) atingem o seu clímax nesta confissão de fé: "Meu Senhor e meu Deus". Foi mencionado que o imperador Domiciano (81-96 d.C.) desejava ser venerado como Dominus et Deus noster ("Nosso Senhor e Deus", Suetônio, Domiciano 13). A atmosfera de "adoração ao imperador" era muito importante no Império Romano, e talvez esse seja o contexto da expressão, mas não faz justiça ao texto entendê-la apenas como uma confrontação. O ditado deve ser compreendido especialmente no contexto do próprio Evangelho e do seu texto (cf. Sl 35,23; Am 5,16).
A confissão conclui com um dito de Jesus: “Bem-aventurados os que não viram e creram”, abrindo assim a narrativa para os leitores do Evangelho em uma nova era histórica (17,20; cf. 1 Pedro 1,8). Mas também não é correto ignorar — da mesma forma que os discípulos e o tempo dos leitores do Evangelho — que foi enfatizado anteriormente que o discípulo amado creu sem ver (20,8). É isso que os destinatários do quarto Evangelho são convidados a confessar, e este é o exemplo que eles (nós) somos convidados a seguir.
Nos versículos 30-31, apresenta-se a conclusão de todo o Evangelho, o "porquê" de ter sido escrito: "para que creiam" e, crendo, "tenham vida" (vida divina). João selecionou sinais nesta obra com este propósito: "para que creiam". Não se deve ignorar que essa crença é explicitamente declarada aqui: "para que creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus", algo que Marta confessa no Evangelho (11,27). Visto que essas palavras são idênticas às de Pedro no que é chamado de "confissão de fé de Pedro" (Mt 16,16), certamente se referem a Marta com a mesma ideia, "confissão de fé de Marta". Portanto, Jesus esclarece-lhe: "Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim jamais morrerá. Crês?" (11,26; observe-se, em ambos os casos — o de Marta e a conclusão do Evangelho —, a centralidade do "crer"). Visto que esta é a mais alta confissão de fé do Evangelho, Marta não deve ser relegada a um papel secundário na sua leitura [a leitura frequentemente sexista refere-se à "confissão de fé de Pedro" e ignora a "confissão de fé de Marta", embora sejam praticamente idênticas]. Mas — neste caso específico da liturgia deste dia — visto que esta é a conclusão de todo o Evangelho, a sua unidade merece uma discussão muito mais extensa. Reiteremos aqui a estreita relação entre fé e vida (divina); é isso que o autor do Evangelho pretende. Estes são os "crentes" — e discípulos amados — e esta é a comunicação da vida "ressurreicionada" para "todos os que creem".
i Eduardo de la Serna, padre argentino, membro do Grupo de Padres na Opção pelos Pobres.
(VEJA O TEXTO ORIGINAL EM ESPANHOL LOGO APÓS ESTA TRADUÇÃO FEITA PELO TRADUTOR GOOGLE)
SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA CICLO "A"
Uma breve introdução aos cinquenta dias da Páscoa:
Ao iniciarmos o Tempo Pascal, é bom termos uma visão geral das leituras de cada domingo. Para isso, recorremos ao documento "Ordem das Leituras da Missa", nº 100: "Até o terceiro domingo da Páscoa, as leituras do Evangelho narram as aparições de Cristo Ressuscitado. As leituras do Bom Pastor são atribuídas ao quarto domingo da Páscoa. No quinto, sexto e sétimo domingos da Páscoa, são lidos trechos selecionados do Discurso e da Oração do Senhor após a Última Ceia. A primeira leitura é extraída dos Atos dos Apóstolos, no ciclo de três anos, de forma paralela e progressiva; assim, cada ano oferece vislumbres da vida, do testemunho e do desenvolvimento da Igreja primitiva. Para a leitura apostólica, no Ano A lê-se a Primeira Carta de Pedro, no Ano B a Primeira Carta de João e no Ano C o Livro do Apocalipse; esses textos estão em perfeita sintonia com o espírito de fé alegre e esperança firme característico deste tempo."
Cabe destacar que na Argentina o sétimo domingo coincide com a Ascensão do Senhor; e que o oitavo domingo é Pentecostes, solenidades que possuem suas próprias leituras e com as quais o mistério pascal atinge sua plenitude.
Quanto ao espírito deste Tempo Pascal, enfatiza-se a sua unidade e o seu caráter festivo. De fato, “o Tempo Pascal deve ser vivido como uma unidade até a noite de Pentecostes. Nesse dia, e não no dia da Ascensão, extingue-se o Círio Pascal, que tem sido o sinal exterior da celebração da Vida Nova do Senhor”.¹ Este tom festivo e alegre deve também refletir-se na pregação, pois é bem possível que “seja sempre mais fácil pregar para que as pessoas se ‘convertam’ do que pregar para que experimentem a alegria da salvação”.² Portanto , o objetivo é enfatizar a Presença de Jesus Ressuscitado na vida da Igreja e nas nossas próprias vidas, para que a possamos descobrir e nos alegrar nela.
Primeira leitura (Atos 2:42-47):
Em três resumos, o livro dos Atos dos Apóstolos (cf. 2:42-47; 4:32-35; 5:11-16) descreve para nós as características essenciais da Igreja Mãe de Jerusalém em sua formação. Precisamente por serem sumários, têm a função de generalizar e tipificar os constituintes essenciais da vida da comunidade : o ensinamento dos Apóstolos (τῇ διδαχῇ τῶν ἀποστόλων) , a vida em comum ( τῇ κοινωνίᾳ ), o partir do pão (τῇ κλάσει τοῦ ἄρτου) e orações (ταῖς προσευχαῖς).
No restante do texto de hoje, encontraremos uma explicação dessas quatro características essenciais da comunidade. Primeiro, fala da admiração de todos pelos milagres e sinais dos Apóstolos ; depois, da unidade dos fiéis expressa na partilha de bens (koina). Em terceiro lugar, refere-se novamente à fração do pão no contexto das refeições comunitárias nos lares (como a Eucaristia era celebrada naquela época); e, finalmente, refere-se ao louvor a Deus, ou oração.
Portanto, nossa primeira observação é o ensinamento ( didache ) dos Apóstolos . Nos demais versículos de Atos onde aparece o termo didache , esclarece-se que se trata da pregação ou do ensinamento sobre Jesus realizado pelos Apóstolos (cf. Atos 5:28; 13:12; 17:19). Isso é muito importante e se refere à própria origem da vida cristã: “A vida, como a do antigo Israel, começa com a escuta (shema') de uma Palavra que vem de Deus, mas que agora é mediada pelos apóstolos que, segundo o mandato pascal, devem proclamar o Evangelho a todo o mundo. ” ³
Em relação à vida comunitária ou koinonia, alguns argumentam que este termo aqui não se refere à comunidade concreta, mas sim a um termo abstrato e espiritual para expressar a fraternidade e a concórdia alcançadas na vida comunitária. No entanto, o contexto sugere que se refere à partilha concreta de bens que surgiu e expressou a vida em comum das primeiras comunidades cristãs, segundo o ideal de Lucas.
A partilha do pão era um dos nomes dados à celebração eucarística em algumas comunidades primitivas.4 De facto, a mesma expressão "partir o pão" é usada com este sentido eucarístico na narrativa dos discípulos de Emaús: "Eles, por sua vez, contaram o que lhes tinha acontecido no caminho e como o tinham reconhecido ao partir o pão" (Lc 24,35).
Quanto às orações ou louvores a Deus, a expressão dispensa comentários. Portanto, temos aqui quatro características essenciais da vida da Igreja . A questão para alguns é se esta é uma comunidade ideal ou um ideal de comunidade . A este respeito, J. Roloff<sup> 5 </sup> afirma que: “A apresentação de Lucas é, sem dúvida, uma imagem ideal dos primeiros dias do cristianismo”, mas depois qualifica a sua afirmação: “Não há dúvida de que a imagem ideal traçada por Lucas contém muita verdade histórica”. É um ideal, não idealismo, visto que o próprio Lucas situa o episódio de Ananias e Safira entre o segundo e o terceiro resumos, um episódio que enfatiza dramaticamente a presença do pecado na Igreja (cf. At 5,1-10). Portanto, a mensagem é que a caridade é um elemento constitutivo essencial da Igreja, mas esta caridade está continuamente ameaçada e deve ser sustentada pela autoridade de Pedro e dos apóstolos . O mesmo se aplica à unidade (“um só coração e uma só alma”, 4:32), que é ameaçada por divisões que Lucas não hesita em relatar, como o problema entre helenistas e hebreus (6:1); ou aquele decorrente do caráter vinculante da Lei de Moisés (15:1-5); ou as diferenças entre Paulo e Barnabé que culminam em sua separação (15:36-40). Em conclusão, por um lado, não podemos duvidar de que, tanto pelo entusiasmo e generosidade do início quanto pelo privilégio de uma ação particular do Espírito Santo e da presença dos Apóstolos, a comunidade primitiva gozou de um caráter exemplar; viveu como a comunidade ideal . Por outro lado, devemos levar em conta o caráter teológico parenético da narrativa de Lucas, que, portanto, nos apresenta o ideal de comunidade .
Segunda leitura (1 Pedro 1:3-9):
Este texto é uma bênção ou elogio (“Bendito seja Deus = Εὐλογητὸς ὁ θεὸς”), que frequentemente se encontra nas epístolas em vez da típica “ação de graças” (cf. Ef 1). Na primeira parte (1:3-5), o tema dominante é a esperança que brota para os cristãos da Ressurreição de Jesus Cristo. Essa esperança tem, por um lado, um caráter definitivo e absoluto, na medida em que é dada por Deus, em sua misericórdia, por meio da Ressurreição de Jesus. Por outro lado, é uma “esperança viva” reservada aos crentes e que se manifestará plenamente no momento final. Embora seu cumprimento seja escatológico, é uma esperança que nos ajuda a viver nossa vida presente .
Contudo, essa esperança não exclui as dificuldades e tribulações desta vida presente, mas antes as ilumina, mostrando sua função purificadora para a fé e a recompensa da glória eterna que elas contêm. A esperança nos abre para a certeza da salvação que a fé promete.
É notável que o mérito da fé reside em amar a Cristo sem tê-lo visto, em crer nele sem o ver: “Porque não o vistes, amais-o (οὐκ ἰδόντες ἀγαπᾶτε), e, mesmo sem o verdes, credes nele (εἰς ὃν ἄρτι μὴ ὁρῶντες, πιστεύοντες), e exultais com alegria indizível e gloriosa” (1 Pedro 1:8).
Evangelho (Jo 20,19-31):
Neste relato encontramos duas aparições do Ressuscitado: uma no dia da ressurreição, com a presença dos apóstolos e a ausência de Tomé, um dos Onze; e a segunda, oito dias depois, com a presença de todo o grupo, incluindo Tomé.
Essas aparições ocorrem "no primeiro dia da semana", que é o nosso domingo, o Dia do Senhor, e que, desde os tempos apostólicos, tem sido o dia das reuniões cristãs. A primeira aparição ocorre "na tarde daquele mesmo dia, o primeiro dia da semana" (20:19) e, portanto, relaciona-se com o relato anterior da aparição às mulheres que aconteceu naquele mesmo dia, mas "de manhã cedo, quando ainda estava escuro" (20:1). O local onde estavam reunidas não é especificado, mas observa-se que as portas estavam trancadas por medo dos judeus. O medo e o confinamento são sinais da falta de fé na comunidade primitiva, ainda abalada pelos eventos dos dias anteriores.
Em sua primeira aparição, Jesus ressuscitado saúda os discípulos, dizendo: “A paz esteja convosco!” (εἰρήνη ὑμῖν). Mais do que um mero presságio ou desejo, esta é a própria concessão da paz , uma presença real da paz como dom escatológico, tal como Jesus havia indicado em seu discurso de despedida: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14,27). Esta paz, segundo o Antigo Testamento ( Shalom ), inclui todos os bens necessários para esta vida e a plenitude das bênçãos na vida futura. Mas o que era uma promessa no Antigo Testamento torna-se realidade através da morte e ressurreição de Cristo. De fato, no Antigo Testamento, a presença de Deus no meio do seu povo é considerada o bem supremo da paz (cf. Lv 26,12; Ez 37,26). Portanto, para o evangelista João, a presença de Jesus ressuscitado entre seus seguidores é a fonte e a realidade da paz que se manifesta. E essa paz não está ligada à sua presença física, mas à sua realidade como Cristo ressuscitado, vitorioso sobre a morte, e por isso ele lhes dá, juntamente com a sua paz, o Espírito Santo e o poder de perdoar pecados (20:22-23) .
F. Moloney 8 argumenta que, como a expressão eirênê hymin (“a paz esteja convosco”) não contém o verbo “ser”, ela deveria ser traduzida como “paz convosco”, significando que Jesus declara que a paz já está presente entre os discípulos. Isso ocorre precisamente porque o Jesus ressuscitado está presente no meio deles.
Finalmente, agora Jesus ressuscitado, com a plenitude da vida que recebeu do Pai, pode dar aos seus seguidores a paz que vem do Pai e que lhes permite viver em comunhão com Deus e com seus irmãos e irmãs.
Então Jesus mostra-lhes as feridas nas mãos e no lado para provar que ele é o crucificado que ressuscitou; que é ele, mas em um estado diferente. Em seguida, faz-lhes novamente o sinal da paz e pronuncia as palavras de comissionamento enquanto faz o gesto de soprar sobre eles. O tema da missão , com diferentes formulações, aparece como uma constante nos relatos das aparições de Jesus nos Evangelhos. Na formulação joanina, enfatiza-se que se trata de uma mesma missão, que se origina no Pai que envia seu Filho Jesus, que agora a compartilha com seus discípulos. Também é comum nos Evangelhos vincular a missão ao dom do Espírito Santo; mas em João, o dom é dado pessoalmente por meio do gesto de soprar sobre eles . <sup>9 </sup> A respeito desse gesto, alguns estudiosos veem aqui uma referência ao gesto primordial de Deus na criação do homem (cf. Gn 2,7) . <sup> 10 </sup> Assim, o sopro de Jesus é o sinal da nova criação: o Jesus glorificado comunica o Espírito que dá à luz o homem (cf. Jo 3,3-8), permitindo-lhe participar da comunhão divina. Além disso, segundo X. Léon Dufour , este é o cumprimento do que João Batista anunciou: que Jesus “tinha de batizar com o Espírito Santo” (Jo 1,32-33); e também da aliança definitiva anunciada pelos profetas e caracterizada pelo derramamento do Espírito (cf. Jer 31,33; Ez 36,26-27).
Com este dom do Espírito Santo aos Apóstolos, foi-lhes também concedido o poder de perdoar ou reter pecados, tornando-se assim transmissores de vida nova. Aliás, este seria o propósito da sua missão: o perdão dos pecados, a misericórdia. A este respeito, I. de la Potterie comenta : “A obra que os discípulos terão de realizar será uma continuação da sua. Pois ele é ‘o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo’ (1,29), o Filho de Deus que com o seu sangue ‘nos purifica de todo o pecado’ (1 João 1,7). Agora, a alusão explícita à cruz na nossa passagem torna-se ainda mais compreensível: as palavras de Jesus sobre o poder de perdoar pecados acompanham o gesto com que mostrou as chagas da sua paixão. É como se quisesse fazer os discípulos entenderem que o seu ministério do perdão será a concretização do sacrifício de Cristo e do seu significado soteriológico, uma vez que Jesus, o Bom Pastor, ‘dá a sua vida pelas ovelhas’ (cf. 10,15).”
O clímax da narrativa ocorre na segunda cena, onde Tomé, o discípulo que esteve ausente da primeira vez, é convidado a acreditar no testemunho da comunidade que viu o Senhor Ressuscitado. No entanto, Tomé se recusa a acreditar se não pode ver.
Os outros apóstolos tinham visto o Senhor e crido; Tomé também desejava ver o Senhor. Tomé queria verificar a afirmação de seus companheiros, confirmando com seus próprios olhos que Aquele que lhes aparecera era de fato o Crucificado. Ele aplicou rigorosamente as categorias do pensamento judaico a respeito da ressurreição dos mortos. Desejava uma estrita continuidade entre os dois mundos, para que pudesse verificar concretamente que Aquele que aparecera era o mesmo Ser de antes. Filipe há muito desejava ver o Pai (cf. Jo 14,8), e agora Tomé queria ver, no sentido fundamental do termo, o Filho glorificado.
Então, o Jesus ressuscitado aparece a ele, trazendo as mesmas marcas de sua crucificação, e repreende Tomé por sua incredulidade. A resposta de Tomé é magnífica, pois constitui a mais alta profissão de fé no Evangelho de João (e no Novo Testamento), visto que ele aplica a Jesus os nomes que o Antigo Testamento reservou para Deus: Javé-Senhor e Elohim . De fato, Tomé chama Jesus de "meu Senhor e meu Deus", o que é a suprema manifestação da fé cristológica em todo o Evangelho.13 Além disso , o possessivo "meu" indica sua adesão pessoal de fé e amor a Jesus.
As últimas palavras de Jesus (20:29) são uma bem-aventurança na qual ele declara bem-aventurados os que creem sem terem visto (μὴ ἰδόντες καὶ πιστεύσαντες). Essas palavras teriam sido dirigidas aos discípulos da segunda geração de cristãos que não foram testemunhas oculares da ressurreição de Jesus e que tinham apenas a palavra pregada pelos Apóstolos. Esses discípulos são declarados bem-aventurados se, pelo poder do Espírito Santo, chegam a crer que Jesus está vivo, mesmo sem terem tido uma aparição tangível como os Apóstolos . <sup>14 </sup> Esta é uma definição do crente cristão de todos os tempos, baseada na ressurreição de Jesus. Como G. Zevini bem afirma : 15 “Um crente é aquele que, vencendo as dúvidas e a pretensão de ver, aceita o testemunho autorizado daqueles que viram. No tempo de Jesus, visão e fé estavam combinadas, mas agora, no tempo da Igreja, os discípulos não devem presumir ver: o testemunho apostólico basta. O sinal que conduz à fé foi transformado: este sinal já não é objeto de visão direta, mas de testemunho. Isto não significa que toda a experiência pessoal do Cristo ressuscitado esteja agora fechada aos crentes. Muito pelo contrário. Aos crentes é agora oferecida a experiência da alegria, da paz, do perdão dos pecados e da presença do Espírito Santo. Mas a ‘história’ de Jesus deve ser aceita por meio do testemunho.”
Algumas reflexões:
A Quaresma nos impeliu à tarefa, por vezes árdua e difícil, de examinar a nós mesmos para reconhecer nossos pecados ou transgressões e embarcar num caminho de conversão. O Tempo Pascal, por outro lado, nos convida a exercer um olhar de fé sobre a nossa realidade para descobrir nela a presença viva e ativa do Senhor Ressuscitado. Portanto, o grande tema deste tempo é a fé , isto é, crer na sua Presença invisível e encontrar alegria em crer sem ver. A este respeito, Santo Agostinho, comentando as palavras de Jesus a Tomé: "Bem-aventurados os que creem sem terem visto", diz: "De quem ele falava, irmãos, senão de nós? E não só de nós, mas também daqueles que vêm depois de nós. De fato, logo após ele se retirar da vista mortal, para que a fé se fortalecesse nos corações, todos os que creram o fizeram sem ver, e a sua fé teve grande mérito. Para ter essa fé, bastava que trouxessem a Deus um coração cheio de piedade, mas não a mão para tocar" ( Sermão 88 , 2).
Sem dúvida, a fé é um dom de Deus para nós. Mas é também o dom que Jesus nos pede; é o "dom da razão" (DV n. 5) que devemos oferecer ao Senhor, e para o qual "precisamos da graça de Deus, que precede e auxilia, e da ajuda interior do Espírito Santo, que move o coração e o converte a Deus, abre os olhos da mente e dá 'a todos mansidão para aceitar e crer na verdade'" (DV n. 5). Devemos pedir ao Senhor o dom da fé.
Não se trata de acreditar no ar ou no vazio; antes, somos chamados a ter uma experiência, pela fé, da Presença de Jesus Ressuscitado em nossas vidas, semelhante à dos Apóstolos. Essa Presença de Jesus transcende os sentidos, pois não podemos vê-lo nem tocá-lo como Tomé; mas podemos sentir os efeitos de sua Presença, de sua presença em nossas vidas . O Evangelho de hoje nos fala, sobretudo, da paz que o Senhor concede aos seus. Junto com a paz , temos a alegria , que o Evangelho de hoje também menciona. Intimamente ligado a essas experiências está o tema da remissão dos pecados confiada à Igreja ( misericórdia ). E, finalmente, a raiz ou causa de tudo: o dom do Espírito Santo.
Além da fé, a outra condição indispensável para essa experiência de Jesus Ressuscitado é o envolvimento ou pertencimento à comunidade . Aqui também, o exemplo de Tomé é claro. Somente quando se juntou à comunidade apostólica, à Igreja nascente, ele pôde encontrar o Senhor.
Portanto, o Senhor se faz presente na comunidade apostólica ampliada pela Igreja, a comunidade dos fiéis, e ali podemos "vê-lo" com os olhos da fé. Podemos afirmar, com razão, que o tema unificador deste domingo é a fé em Cristo Ressuscitado e sua dimensão apostólica e comunitária.
De fato, para nós, a fé consiste em aceitar o testemunho dos Apóstolos, aqueles que viram Jesus Ressuscitado e se tornaram suas testemunhas. Foi com esse critério que Matias foi escolhido para tomar o lugar de Judas: “É necessário que um dos homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus esteve conosco, desde o batismo de João até o dia em que foi elevado ao céu, se torne conosco testemunha da sua ressurreição” (Atos 1:21-22). Portanto, nossa fé, como a Igreja, é apostólica: “A Igreja é apostólica porque está fundada nos apóstolos, e isso em um tríplice sentido:
— Foi e continua sendo construída sobre "o fundamento dos apóstolos" (Ef 2,20; At 21,14), testemunhas escolhidas enviadas em missão pelo próprio Cristo (cf. Mt 28,16-20; At 1,8; 1 Cor 9,1; 15,7-8; Gl 1,1; etc.).
— Guarda e transmite, com a ajuda do Espírito Santo que nela habita, o ensinamento (cf. At 2,42), o bom depósito, as sãs palavras ouvidas dos apóstolos (cf. 2 Tm 1,13-14).
— Continua a ser ensinada, santificada e dirigida pelos apóstolos até o retorno de Cristo, graças àqueles que os sucedem em seu ministério pastoral: o colégio dos bispos, "que são assistidos pelos sacerdotes juntamente com o sucessor de Pedro e Supremo Pastor da Igreja" (AG 5)" (CIC 857).
Ninguém crê sozinho, assim como ninguém se salva sozinho. Tudo se vive em comunidade, na Igreja. Romano Guardini disse a esse respeito : “Se um homem dos primeiros séculos do cristianismo fosse perguntado: ‘O que a Igreja significa para a sua fé?’, certamente responderia: ‘A Igreja é a mãe que deu vida à minha fé, é o ar que respiro, o alicerce sobre o qual a minha fé se fundamenta. Na realidade, é a Igreja que crê: é a fé dela que vive na minha’”.
Ora, para que a Igreja torne visível a Presença de Jesus Ressuscitado a todos, ela deve viver as características descritas na primeira leitura. Uma Igreja que escuta o ensinamento dos Apóstolos; uma Igreja que vive a comunhão até mesmo em questões de bens materiais; uma Igreja que se alimenta da fração do pão; em suma, uma Igreja de oração.
Seguindo HU von Balthasar 17, podemos resumir os pontos essenciais das três leituras:
“A Páscoa é a festa em que a Igreja recebe o poder de perdoar todos os que se arrependem dos seus pecados, e para isso recebe o Espírito Santo de Jesus” (a Misericórdia de Deus é revelada e posta em ação). Para que Jesus opere em nós, precisamos crer nele, no poder da sua graça. E, acima de tudo, precisamos crer que “o que Deus opera em nós é muito maior do que aquilo que pode ser contido no vaso limitado da nossa experiência” (precisamos crer sem ver, sem sentir).
Na segunda leitura, Pedro oferece um memorável elogio àqueles que amam o Senhor sem o verem e experimentam uma alegria inefável que brota da fé que nos dá uma esperança viva. Em certo sentido, essa alegria é uma forma de vivenciar a fé.
“Essa ‘experiência’ de fé, ansiosa por alcançar o objetivo da esperança o mais rápido possível, é encontrada pelo cristão na comunidade da Igreja… Tomé, como um homem incrédulo e cético, havia se isolado da comunidade dos discípulos. Jesus o restaura à comunhão, reintegrando-o a essa comunidade.”
PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
Para que você acredite
Quando a fé fraqueja e a noite nos envolve.
O Senhor não desiste; a sua repreensão é doce.
Exige constantemente nossa confiança.
Ele vivenciou a fragilidade humana em primeira mão.
E a sua promessa era a felicidade.
Para aqueles que creram sem ver, e crerão.
Cristo presente até o fim dos tempos
No centro de cada comunidade
Ele nos é mostrado ressuscitado e nos dá paz.
Nele e por meio Dele toda ansiedade é acalmada.
Aguardamos sua gloriosa chegada em oração.
O triunfo do Senhor da história sobre a morte
Que grande vitória foi a sua para nós!
Derrama, nós vos suplicamos, a graça da vossa misericórdia. Amém.
1 J. Aldazábal, "Os cinquenta dias da Páscoa, um tempo forte, o centro de todo o ano" em Os Cinquenta Dias da Páscoa (CPL; Barcelona 1984) 7.
2 J. Gomis/J. LLigadas, "Pastoral de la celebración", em La Cincuentena Pascual (CPL; Barcelona 1984) 12.
3 Ninguém vem ao Pai senão por mim. Orientações para homilias no Domingo de Ramos, Domingo de Páscoa e Pentecostes. Ciclo A (CEA; Buenos Aires 1999) 46.
4 No que diz respeito à partilha do pão, consulte a excelente obra do Pe. Lic. Alejandro Bóttoli, “O significado do gesto de partir o pão no rito romano”, Pontifical Anselmian Athenaeum, 1996 ( ad usum privatum ).
5 Atos dos Apóstolos , Cristianismo, Madrid, 1984, 128.
6 Cf. CM Martini, O segredo da primeira carta de Pedro , San Pablo, Bogotá, 2007, 35-36.
7 Cf. X. LEÓN-DUFOUR, "Paz" em X. LEÓN-DUFOUR, Vocabulário de Teologia Bíblica , Barcelona, 1978; 659.
8 Cf. F. MOLONEY, O Evangelho de João , Estella, Verbo Divino 2005; 516.
9 Cf. G. Zevini, Evangelho segundo São João (Siga-me; Salamanca 1995) 490.
10 Cf. LH Rivas, O Evangelho de João. Introdução. Teologia. Comentário (Buenos Aires 2005) 530.
11 Cf. Leitura do Evangelho de João. Jo 18-21. Vol. IV , Salamanca, Sígueme 1998; 193.
12 Gênese da fé pascal segundo João 20:206; citado em G. Zevini, Evangelio según san Juan, 491.
13 Cf. LH Rivas, O Evangelho de João, 535.
14 Cf. LH Rivas, O Evangelho de João , 536.
15 Evangelho segundo São João (Siga-me; Salamanca 1995) 495
16 Vida de Fé , 123; em JM Recondo, Crer para Ver. Cartas aos que Buscam a Deus , Buenos Aires, 2025, 185. 17 Luz da Palavra. Comentário sobre as Leituras do Domingo (Encontro; Madrid 1998) 61-62.
SEGUNDO DOMINGO DE PASCUA CICLO "A"
Breve introducción a la cincuentena pascual:
Es bueno, al comenzar el tiempo pascual, tener una visión global de las lecturas propias de los domingos. Para ello recurrimos al documento "Ordenación de las lecturas de la Misa" nº 100: "Hasta el domingo tercero de Pascua, las lecturas del Evangelio relatan las apariciones de Cristo resucitado. Las lecturas del buen Pastor están asignadas al cuarto domingo de Pascua. Los domingos quinto, sexto y séptimo de Pascua se leen pasajes escogidos del discurso y de la oración de Señor después de la última cena. La primera lectura se toma de los Hechos de los Apóstoles, en el ciclo de los tres años, de modo paralelo y progresivo; de este modo cada año se ofrecen algunas manifestaciones de la vida, testimonio y progreso de la Iglesia primitiva. Para la lectura apostólica, el año A se lee la primera carta de Pedro, el año B la primera carta de Juan, el año C el Apocalipsis; estos textos están muy de acuerdo con el espíritu de una fe alegre y una firme esperanza, propio de este tiempo".
Faltaría precisar que en Argentina el séptimo domingo coincide con la Ascensión del Señor; y que el octavo domingo es Pentecostés, solemnidades que tienen lecturas propias y con las cuales llega a su plenitud el misterio pascual.
En cuanto al espíritu de este tiempo pascual, se insiste en su carácter unitario y festivo. En efecto "el tiempo pascual debe vivirse como una unidad hasta la tarde del día de Pentecostés. Aquel día, y no el día de la Ascensión, se apaga el cirio pascual, que ha sido el signo exterior de la celebración de la Nueva Vida del Señor"1. El tono festivo y gozoso debe reflejarse también en las predicaciones pues puede ser cierto que "siempre resulta más fácil predicar para que la gente «se convierta» que predicar para que viva el gozo de la salvación"2. Por tanto, se trata de insistir en la Presencia de Jesús Resucitado en la vida de la Iglesia y en nuestra propia vida; para que la descubramos y gocemos.
Primera lectura (He 2,42-47):
En tres sumarios el libro de los Hechos de los Apóstoles (cf. 2,42-47; 4,32-35; 5,11- 16) nos describe los rasgos esenciales de la Iglesia Madre de Jerusalén en su formación. Justamente por ser sumarios tienen la función de generalizar y tipificar los constitutivos esenciales de la vida de la comunidad: la enseñanza de los Apóstoles (τῇ διδαχῇ τῶν ἀποστόλων), la vida en común (τῇ κοινωνίᾳ), la fracción del pan (τῇ κλάσει τοῦ ἄρτου) y las oraciones (ταῖς προσευχαῖς).
En lo que sigue del texto de hoy tendríamos una explicitación de estas cuatro notas o rasgos esenciales de la comunidad. En efecto se habla primero de la admiración de todos ante los prodigios y signos de los Apóstoles; luego de la unidad de los creyentes expresada en la comunión de bienes (koina). En tercer lugar, vuelve a hacer referencia a la fracción del pan en el ámbito de las comidas comunitarias en las casas (tal como se celebraba la Eucaristía entonces) y, por último, se refiere a la alabanza a Dios u oración.
Por tanto, tenemos como primera nota la enseñanza (didajé) de los Apóstoles. En los otros versículos de Hechos donde aparece el término didajé se aclara que es la predicación o enseñanza acerca de Jesús que hacen los Apóstoles (cf. He 5,28; 13,12; 17,19). Esto es muy importante y hace referencia al origen mismo de la vida cristiana: "La vida, como la del antiguo Israel, comienza por la escucha (shema´) de una Palabra que viene de Dios pero que ahora es mediada por los apóstoles que, según el mandato pascual, deben anunciar a todo el mundo el evangelio"3.
En cuanto a la vida en común o koinonía algunos opinan que aquí este término no se refiere a la comunidad concreta, sino que es un término abstracto y espiritual para expresar la fraternidad y la concordia que se alcanzaba en la vida de la comunidad. Pero el contexto invita a pensar que se refiere a la comunión concreta de bienes que brotaba y expresaba la comunión de vida de las primeras comunidades según el ideal lucano.
La fracción del pan era uno de los nombres que recibía la celebración eucarística en algunas comunidades primitivas4. De hecho, la misma expresión "fracción del pan" se utiliza con este sentido eucarístico en la narración de los discípulos de Emaús: "Ellos, por su parte, contaron lo que había pasado en el camino y cómo le habían conocido en la fracción del pan" (Lc 24,35).
En cuanto a las oraciones o alabanzas a Dios la expresión no necesita comentario. Por tanto, tenemos aquí cuatro notas esenciales de la vida de la Iglesia. La cuestión para algunos es determinar si se trata de una comunidad ideal o un ideal de comunidad. Al respecto J. Roloff5dice que: “La presentación lucana es, sin género de dudas, una imagen ideal de los primeros tiempos del cristianismo”, pero luego matiza su afirmación: “No hay duda de que la imagen ideal trazada por Lucas encierra mucho de verdad histórica”. Se trata de un ideal, no de un idealismo, pues el mismo Lucas coloca entre el segundo y el tercer sumario el episodio de Ananías y Safira que insiste de manera dramática en la presencia del pecado en la Iglesia (cf. He 5,1-10). Por tanto, el mensaje es que la caridad es un constitutivo esencial de la Iglesia, pero esta caridad se ve continuamente amenazada y tiene que ser sostenida por la autoridad de Pedro y los apóstoles. Lo mismo vale para la unidad (“un solo corazón y una sola alma” 4,32) la cual es amenazada por divisiones que Lucas no teme relatar como el problema entre helenistas y hebreos (6,1); o el surgido a causa de la obligatoriedad de la ley de Moisés (15,1- 5) o las diferencias entre Pablo y Bernabé que termina en su separación (15,36-40). En conclusión, por una parte, no podemos dudar que tanto por el entusiasmo y la generosidad del comienzo como por el privilegio de una particular acción del Espíritu Santo y de la presencia de los Apóstoles la primitiva comunidad gozó de un carácter modélico, vivió como la comunidad ideal. Por otra parte, debemos tener en cuenta el carácter teológico parenético del relato lucano y que, por tanto, nos presenta el ideal de comunidad.
Segunda lectura (1Pe 1,3-9):
Este texto es una bendición o eulogia (“Bendito sea Dios = Εὐλογητὸς ὁ θεὸς) que suele estar presente en las epístolas en lugar de la típica "acción de gracias" (cf. Ef 1). En la primera parte (1,3-5) el tema dominante es la esperanza que brota para los cristianos de la Resurrección de Jesucristo. Esta esperanza tiene, por una parte, un carácter definitivo y absoluto en cuanto dada por Dios, en su misericordia, por la Resurrección de Jesús. Por otra parte, se trata de una "esperanza viva" reservada para los creyentes y que se manifestará plenamente en el momento final. Si bien su realización será escatológica, se trata de una esperanza que ayuda vivir la vida presente6.
Ahora bien, esta esperanza no excluye las dificultades y tribulaciones de la vida presente, sino que las ilumina mostrando su función purificadora de la fe y el premio de gloria eterna que encierran. La esperanza nos abre a la certeza de la salvación que promete la fe.
Es de notar que el mérito de la fe está en amar a Cristo sin haberlo visto, de creer en él sin verlo: “Porque ustedes lo aman sin haberlo visto (οὐκ ἰδόντες ἀγαπᾶτε), y creyendo en él sin verlo todavía (εἰς ὃν ἄρτι μὴ ὁρῶντες, πιστεύοντες), se alegran con un gozo indecible y lleno de gloria” (1 Pe 1,8).
Evangelio (Jn 20,19-31):
Encontramos en este relato dos apariciones del Resucitado: una el mismo día de la resurrección con la presencia de los apóstoles y la ausencia de Tomás, uno de los Once; y la segunda, ocho días más tarde, con la presencia del grupo completo, incluido ahora Tomás.
Estas apariciones tienen lugar "el primer día de la semana", que es nuestro domingo, día del Señor, y que desde la época apostólica es entonces el día de la reunión de los cristianos. La primera aparición tiene lugar "al atardecer de ese mismo día, el primero de la semana" (20,19) y, de este modo, se relaciona con el relato precedente de la aparición a las mujeres que tuvo lugar ese mismo día, pero “de madrugada cuando todavía estaba oscuro” (20,1). No se precisa el lugar dónde se encontraban reunidos, pero sí se señala que las puertas estaban cerradas por temor a los judíos. El miedo y el encierro son signos de la falta de fe de la primera comunidad, todavía golpeada por los acontecimientos vividos en los últimos días.
En su primera aparición Jesús Resucitado saluda a los discípulos diciéndoles: “¡Paz a ustedes! (εἰρήνη ὑμῖν)”. Más que de un augurio o deseo, se trata aquí de la donación efectiva de la paz, de una presencia real de la paz como don escatológico tal como lo había indicado Jesús en su discurso de despedida: “Les dejo la paz, les doy mi paz, pero no como la da el mundo” (Jn 14,27). Esta paz, según el trasfondo del Antiguo Testamento (Shalom), incluye todos los bienes necesarios para la vida presente y la plenitud de bienes en la vida futura. Pero lo que en el Antiguo Testamento era promesa, por la muerte y resurrección de Cristo se vuelve realidad. Justamente en el AT se considera que la presencia de Dios en medio de su pueblo es el bien supremo de la paz (cf. Lev 26,12; Ez 37,26). Entonces para el evangelista Juan la presencia de Jesús resucitado en medio de los suyos es la fuente y la realidad de la paz que se hace presente. Y esta paz no está ligada a su presencia corporal sino a su realidad de resucitado, victorioso de la muerte, y por eso les da, junto con su paz, el Espíritu Santo y el poder de perdonar los pecados (20,22-23).7
F. Moloney8sostiene que como en la expresión eirênê hymin (“paz a ustedes”) falta el verbo ser, la misma debe traducirse como "paz con ustedes" en sentido de que Jesús declara que la paz ya está presente entre los discípulos. Y esto se debe justamente a que Jesús resucitado está presente en medio de ellos.
En fin, ahora Jesús resucitado, con la plenitud de vida que ha recibido del Padre, puede dar a los suyos la paz que proviene del Padre y que permite vivir en comunión con Dios y con los hermanos
Luego, Jesús les muestra las heridas de sus manos y su costado para probarles que es el Crucificado que ha Resucitado; que es él mismo, pero en un estado diferente. A continuación, vuelve a darles la paz y pronuncia las palabras de envío mientras realiza el gesto de soplar sobre ellos. El tema de la misión, con distintas formulaciones, aparece como una constante en los relatos de aparición de Jesús en los evangelios. En la formulación joánica se resalta que se trata de una única y misma misión, que se origina en el Padre que envía a su Hijo Jesús, quien ahora hace partícipes de la misma a sus discípulos. También es común en los evangelios unir la misión con el don del Espíritu Santo; pero en san Juan la donación se hace de modo personal mediante el gesto de soplar sobre ellos9. Sobre este gesto, algunos estudiosos ven aquí una referencia al gesto primordial de Dios en la creación del hombre (cf. Gen 2,7)10. Entonces el soplo de Jesús es el signo de la nueva creación: Jesús glorificado comunica el Espíritu que hace renacer al hombre (cf. Jn 3, 3-8), dándole a compartir la comunión divina. Además, según X. León Dufour11, aquí está el cumplimiento de lo anunciado por Juan Bautista de que Jesús "tenía que bautizar en el Espíritu Santo" (Jn 1,32-33); y también de la alianza definitiva anunciada por los profetas y caracterizada por la efusión del Espíritu (cfr. Jer 31,33; Ez 36,26s).
Con esta donación del Espíritu Santo a los Apóstoles se les comunica también el poder perdonar o retener los pecados y, de este modo, son ellos ahora transmisores de la vida nueva. Además, éste sería el objeto de la misión: el perdón de los pecados, la misericordia. Al respecto comenta I. de la Potterie 12 : “La obra que tendrán que cumplir los discípulos será una continuación de la suya. Pues bien, él es ‘el cordero de Dios que quita el pecado del mundo’ (1,29), el Hijo de Dios que con su sangre ‘nos purifica de todo pecado’ (1Jn 1,7). Ahora se comprende todavía mejor la alusión explícita a la cruz en nuestra perícopa: la palabra de Jesús sobre el poder de perdonar los pecados acompaña al gesto con que mostraba las llagas de su pasión. Es como si quisiera hacer comprender a los discípulos que su ministerio de perdón será la actualización del sacrificio de Cristo y de su significación soteriológica, ya que Jesús, el buen Pastor, ‘da su vida por las ovejas’ (cf. 10,15)”.
El punto culminante de la narración se encuentra en la segunda escena donde Tomás, el discípulo ausente la primera vez, es invitado a creer en el testimonio de la comunidad que ha visto al Señor Resucitado. Sin embargo, Tomás se resiste a creer si no puede ver.
Los demás apóstoles han visto al Señor y han creído; Tomás desea también ver al Señor. Tomás quiere verificar la afirmación de sus compañeros comprobando con sus propios ojos que El que se les apareció es en verdad el Crucificado. Aplica rigurosamente las categorías del pensamiento judío sobre la resurrección de los muertos. Quiere una estricta continuidad entre los dos mundos, a fin de poder verificar concretamente que El que se aparece es el mismo ser de antes. Tiempo atrás ya Felipe quería ver al Padre (cf. Jn 14,8), y ahora Tomás quiere ver, en el sentido básico del término, al Hijo glorificado.
Entonces se le aparece Jesús Resucitado con los mismos signos de su crucifixión y le reprocha a Tomás su incredulidad. La respuesta de Tomás es grandiosa por cuanto pronuncia la profesión de fe más elevada del Evangelio de Juan (y del Nuevo Testamento) pues le aplica a Jesús los nombres que el Antiguo Testamento reservaba para Dios: Yahvé-Señor y Elohim. En efecto, Tomás llama a Jesús "Señor mío y Dios mío" que es la manifestación de fe cristológica suprema de todo el evangelio13. Además, el posesivo "mío" indica su adhesión personal de fe y de amor a Jesús.
Las últimas palabras de Jesús (20,29) son una bienaventuranza donde declara dichosos a los que creen sin haber visto (μὴ ἰδόντες καὶ πιστεύσαντες). Estas palabras estarían dirigidas a los discípulos de la segunda generación cristiana que no habían sido testigos oculares de la resurrección de Jesús y contaban sólo con la palabra predicada por los Apóstoles. A estos discípulos se los declara dichosos si, por la fuerza del Espíritu Santo, llegan a creer que Jesús está vivo, aunque no hayan tenido una aparición sensible como los Apóstoles14. Se trata de una definición del creyente cristiano de todos los tiempos, a partir de la resurrección de Jesús. Como bien dice G. Zevini15: “Es creyente aquel que, superando las dudas y las pretensiones de ver, acepta el testimonio autorizado de los que han visto. En el tiempo de Jesús se combinaban la visión y la fe, pero ahora, en el tiempo de la Iglesia, los discípulos no deben tener pretensiones de ver: les basta el testimonio apostólico. Se ha transformado el signo que conduce a la fe: ese signo no es ya objeto de visión directa, sino de testimonio. Lo cual no significa que actualmente esté cerrada para los creyentes toda experiencia personal de Cristo resucitado. Todo lo contrario. A los creyentes se les ofrece ahora la experiencia de la alegría, de la paz, del perdón de los pecados, de la presencia del Espíritu Santo. Pero la «historia» de Jesús tiene que ser aceptada a través del testimonio”.
Algunas reflexiones:
La cuaresma nos impulsó al ejercicio, arduo y difícil a veces, de mirarnos a nosotros mismos para reconocer los pecados o desórdenes y emprender un camino de conversión. El tiempo pascual, más bien, nos invita a ejercitar una mirada de fe sobre nuestra realidad para descubrir allí la presencia viva y operante del Resucitado. Por eso el gran tema de este tiempo es la fe, esto es, creer en su Presencia invisible. Y llegar a ser feliz de creer sin ver. Al respecto dice San Agustín comentando la frase de Jesús a Tomás “felices los que crean sin haber visto”: “¿De quién hablaba, hermanos, sino de nosotros? Y no sólo de nosotros, sino también de los que vengan detrás de nosotros. En efecto, poco tiempo después de haberse alejado de los ojos mortales, para que se reforzara la fe en los corazones, todos los que han creído lo han hecho sin ver, y su fe ha tenido un gran mérito. Para tener esta fe se limitaron a acercar un corazón lleno de piedad a Dios, pero no la mano para tocar” (Sermón 88,2).
Sin duda que la fe es un don o regalo de Dios para nosotros. Pero también es el don o regalo que Jesús nos pide a nosotros; es el "obsequio de la razón" (DV nº 5) que le debemos ofrecer, regalar al Señor y para lo cual “necesitamos la gracia de Dios que previene y ayuda, y los auxilios internos del Espíritu Santo, el cual mueve el corazón y lo convierte a Dios, abre los ojos de la mente y da "a todos la suavidad en el aceptar y creer la verdad" (DV nº 5). Hay que pedir al Señor el don de la Fe.
Ahora bien, no se trata de creer en el aire o en el vacío; sino que estamos llamados a tener una experiencia, en la fe, de la Presencia de Jesús Resucitado en nuestra vida, análoga a la que tuvieron los Apóstoles. Esta Presencia de Jesús escapa a los sentidos pues no lo podemos ver ni tocar como hizo Tomás; pero sí podemos sentir los efectos de su Presencia, de su paso por nuestra vida. El evangelio de hoy nos habla ante todo de la paz que el Señor regala a los suyos. Junto a la paz tenemos la alegría, que también refiere el evangelio de hoy. Íntimamente unido a estas experiencias está el tema del perdón de los pecados confiado a la Iglesia (la misericordia). Y por fin, la raíz o causa de todo: el don del Espíritu Santo.
Además de la fe, la otra condición indispensable para esta experiencia de Jesús Resucitado es la inserción o pertenencia comunitaria. También en esto el ejemplo de Tomás es claro. Sólo cuando se incorporó a la comunidad apostólica, la Iglesia naciente, pudo encontrarse con el Señor.
Por tanto, el Señor se hace presente en la comunidad apostólica prolongada por la Iglesia, comunidad de los creyentes, y allí podremos "verlo" con los ojos de la fe. Bien podemos decir que el tema que unifica este domingo es la fe en Cristo Resucitado y su dimensión apostólica y comunitaria.
En efecto, para nosotros la fe consiste en aceptar el testimonio de los Apóstoles, de los que lo han visto a Jesús Resucitado y se han convertido en sus testigos. Con este criterio se eligió a Matías para que ocupe el lugar de Judas: “Es necesario que uno de los que han estado en nuestra compañía durante todo el tiempo que el Señor Jesús permaneció con nosotros, desde el bautismo de Juan hasta el día de la ascensión, sea constituido junto con nosotros testigo de su resurrección" (He 1,21-22). Por eso nuestra fe, al igual que la Iglesia, es apostólica: “La Iglesia es apostólica porque está fundada sobre los apóstoles, y esto en un triple sentido:
— Fue y permanece edificada sobre "el fundamento de los apóstoles" (Ef 2, 20; Hch 21,14), testigos escogidos y enviados en misión por el mismo Cristo (Cf. Mt 28, 16-20; Hch 1,8; 1 Co 9, 1; 15, 7-8; Ga 1, l; etc.).
— Guarda y transmite, con la ayuda del Espíritu Santo que habita en ella, la enseñanza (Cf. Hch 2, 42), el buen depósito, las sanas palabras oídas a los apóstoles (Cf. 2 Tm 1, 13-14).
— Sigue siendo enseñada, santificada y dirigida por los apóstoles hasta la vuelta de Cristo gracias a aquellos que les suceden en su ministerio pastoral: el colegio de los obispos, "a los que asisten los presbíteros juntamente con el sucesor de Pedro y Sumo Pastor de la Iglesia" (AG 5)” (CATIC 857).
Nadie cree sólo, así como nadie se salva sólo. Todo se vive en la comunidad, en la Iglesia. Al respecto dijo Romano Guardini16: “si se le hubiera preguntado a un hombre de los primeros siglos del cristianismo: «¿Qué significa la Iglesia para tu fe?», seguramente habría respondido: «La Iglesia es la madre que ha dado vida a mi fe, es el aire que respiro, el suelo en que se afirma mi fe. En realidad, es la Iglesia la que cree: es su fe la que vive en la mía»”
Ahora bien, para que la Iglesia haga visible a los hombres la Presencia de Jesús Resucitado tiene que vivir las notas características que nos describía la primera lectura. Iglesia que escucha la enseñanza de los Apóstoles; Iglesia que vive la comunión incluso a nivel de los bienes materiales; Iglesia que se nutre de la fracción del pan; en fin, Iglesia orante.
Siguiendo a H. U. von Balthasar17 podemos resumir lo esencial de las tres lecturas:
“Pascua es la fiesta en que se da a la Iglesia el poder de perdonar a todos que se arrepienten de sus pecados, y para ello recibe el Espíritu Santo de Jesús” (se revela y actúa la Misericordia de Dios). Para que Jesús pueda obrar en nosotros hay que creer en Él, en la fuerza de su gracia. Y sobre todo que “lo que Dios obra en nosotros es mucho más grande que lo que entra en el pequeño recipiente de nuestra experiencia” (hay que creer sin ver, sin sentir).
“Pedro en la segunda lectura pronuncia un elogio memorable de aquellos que aman al Señor sin verlo” y experimentan un gozo inefable que brota de la fe que nos da una esperanza viva. En cierto modo este gozo es una forma de experimentar la fe.
“Esta “experiencia” de la fe, deseosa de llegar cuanto antes a la meta de la esperanza, el cristiano la tiene en la comunidad de la Iglesia… Tomás, como hombre incrédulo y escéptico, se había convertido en un ser aislado con respecto a la comunidad de los discípulos. Jesús le devuelve a la comunión, le integra de nuevo en esta comunidad”.
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
Para que ustedes crean
Cuando se debilita la fe y nos cubre la noche
El Señor no se rinde, es dulce su reproche
Reclama sin cesar nuestra confianza
Conoció en propia piel, la debilidad humana
Y su promesa fue la felicidad
Para quienes sin ver, creyeron y creerán
Cristo presente hasta el fin de los tiempos
En medio de cada comunidad
Se nos muestra resucitado y nos da la paz
En Él y por Él se calma toda ansiedad
En oración esperamos su llegada gloriosa
El triunfo sobre la muerte del Señor de la historia
Qué grande para nosotros fue tu Victoria
Derrama, te rogamos, la Gracia de tu Misericordia. Amén
1J. Aldazábal, "La cincuentena pascual, tiempo fuerte, centro de todo el año" en La Cincuentena Pascual (CPL; Barcelona 1984) 7.
2J. Gomis/J. LLigadas, "Pastoral de la celebración", en La Cincuentena Pascual (CPL; Barcelona 1984) 12.
3 Nadie va al Padre sino por mí. Orientaciones para las homilías del domingo de Ramos, de los domingos de Pascua y Pentecostés. Ciclo A (CEA; Buenos Aires 1999) 46.
4 Acerca de la fracción del pan consultar el excelente trabajo del Pbro. Lic. Alejandro Bóttoli, “El significado del gesto de la fracción del pan en el rito romano”, Pontificio Ateneo Anselmiano, 1996 (ad usum privatum).
5 Hechos de los Apóstoles, Cristiandad, Madrid, 1984, 128.
6 Cf. C. M. Martini, El secreto de la primera carta de Pedro, San Pablo, Bogotá, 2007, 35-36.
7 Cf. X. LEÓN-DUFOUR, "Paz" en X. LEÓN-DUFOUR, Vocabulario de Teología Bíblica, Barcelona, 1978; 659.
8 Cf. F. MOLONEY, El evangelio de Juan, Estella, Verbo Divino 2005; 516.
9 Cf. G. Zevini, Evangelio según san Juan (Sígueme; Salamanca 1995) 490.
10 Cf. L. H. Rivas, El evangelio de Juan. Introducción. Teología. Comentario (Buenos Aires 2005) 530.
11 Cf. Lectura del evangelio de Juan. Jn 18-21. Vol. IV, Salamanca, Sígueme 1998; 193.
12 Genesi della fede pasquale secondo Giovanni 20, 206; citado en G. Zevini, Evangelio según san Juan, 491.
13 Cf. L. H. Rivas, El evangelio de Juan, 535.
14 Cf. L. H. Rivas, El evangelio de Juan, 536.
15 Evangelio según san Juan (Sígueme; Salamanca 1995) 495
16 Vida de la fe, 123; en J. M. Recondo, Creer para ver. Cartas a quien busca a Dios, Buenos Aires, 2025, 185. 17 Luz de la palabra. Comentario a las lecturas dominicales (Encuentro; Madrid 1998) 61-62.