11/01/2026
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AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
Primeira Leitura: Isaías 42,1-4.6-7
Salmo Responsorial 28(29) R- Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo.
Segunda Leitura: Atos 10,34-38
Evangelho: Mateus 3,13-17 (ano A)
Naquele tempo: 13Jesus veio da Galiléia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele. 14Mas João protestou, dizendo: 'Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?' 15Jesus, porém, respondeu-lhe: 'Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!' E João concordou. 16Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele. 17E do céu veio uma voz que dizia: 'Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado'. Palavra da Salvação.
O Batismo de Jesus no Jordão levanta espontaneamente uma pergunta: pode o Filho de Deus se submeter ao rito de purificação? Como é possível que aquele que veio salvar o povo do pecado possa descer às águas junto com a multidão de pecadores? Pode confessar os pecados?
Essas questões não são meramente teóricas. Elas refletem, de algum modo, o significado salvador do Batismo de Jesus para nós. Jesus se fez batizar em solidariedade aos pecadores. Ele se apresenta humilde, como servo, se confunde com a massa dos pecadores, mas que tem, com o Pai, uma relação particularíssima.
No Batismo Jesus carrega, sobre si, o peso da culpa de toda a humanidade, para mergulhá-la nas águas do Jordão. Ele começa sua vida pública tomando o lugar dos pecadores. Ao fazer assim antecipa sua cruz, na qual se cumprirá toda a justiça. Assim, a justiça cumprida será revelada não mais como uma aplicação fria da lei e imposição de penas, mas como a vitória definitiva sobre o mal.
A voz do céu: “Este é o meu Filho Amado”, é, já, um anúncio da ressurreição. No Batismo, Jesus revela que é o servo que assume sobre si os pecados da humanidade. Ele é o Filho que vive o seu ser filial ao dar a vida. A justiça que ele comunica é a libertação definitiva do poder do maligno. Seu batismo é o início dessa libertação, e a Páscoa será seu complemento.
Batismo de Jesus - Mt 3, 13- 17 – Ano A - 11-01-2026
“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3,17)
Celebramos hoje o verdadeiro nascimento de Jesus. Ele mesmo nos disse que o “nascimento pela água e pelo Espírito” era o mais importante.
Jesus, já um homem adulto, aproxima-se de João Batista para ser batizado por este profeta, a quem seguramente o escutara atentamente. Provavelmente, a pregação daquele homem de aparência excêntrica, tinha provocado já “algo” no mundo interno de Jesus. Quem sabe, aquelas palavras enérgicas que João gritava com força, junto ao rio Jordão, anunciando a iminente chegada do Messias e a exigência de conversão, tenha lhe despertado uma vibração, desde o mais fundo de seu coração.
Conduzido pela mão do Pai, saiu Jesus de Nazaré e foi batizar-se junto com todos os pecadores e pecadoras de seu tempo, que acudiam a receber o banho regenerador do batismo de João.
Por isso se situou na fila dos pecadores, sem julgar ninguém e sem medo de sua própria humanidade. Assim se mostrou ao mundo e assim reconheceu sua própria vocação de entrega.
Mas Jesus, imediatamente após descer às águas do Jordão, sai do rio, passa da água como lugar da morte à água como símbolo da vida, como no Êxodo de Israel, antecipando sua Páscoa, sua “passagem” da morte à sua gloriosa ressurreição e sua ascensão ao Pai.
O encontro com João Batista foi para Jesus uma experiência que transformou sua vida: ali tomou consciência de ser o Filho amado do Pai, o Messias esperado por gerações. Por isso, depois do batismo, Jesus não voltou mais ao seu cotidiano em Nazaré; tampouco aderiu ao movimento do Batista. Sua vida passou a estar centrada num único objetivo: proclamar a todos a Boa Notícia de um Deus que quer salvar o gênero humano.
O que transformou a trajetória de Jesus não foram as palavras que escutou dos lábios do Batista, nem mesmo o rito de purificação do batismo. Jesus viveu algo mais profundo; sentiu-se inundado pelo Espírito do Pai, aquele mesmo Espírito que pairava sobre as águas no início da Criação. Jesus reconheceu a si mesmo como Filho de Deus. De agora em diante sua vida consistirá em irradiar e contagiar esse amor insondável de um Deus Pai, providente e cuidadoso.
Depois do batismo, Jesus não voltou mais ao seu cotidiano em Nazaré; tampouco aderiu ao movimento do Batista. Sua vida passou a estar centrada num único objetivo: proclamar a todos a Boa Notícia de um Deus que quer salvar o gênero humano – Adroaldo Palaoro
Ao saber-se e sentir-se amado infinitamente por um Deus que o chama “Filho amado”, Jesus descobriu, para si e para todos, o eixo do equilíbrio emocional, mental, espiritual. O amor que experimentou na descida ao Jordão se transforma em chamado vocacional, em investidura para uma missão universal e libertadora.
Cessou o tempo da espera, abriu-se o céu, escutou-se uma voz. E o Homem Jesus, equilibrado pelo Amor que experimentou em seu interior, começou a transformar as mentes e corações desequilibrados por falsas religiosidades que geram temor e submissão.
O batismo e as tentações de Jesus falam da profunda transformação que provocou nele uma experiência que se prolongará durante anos. Duas cenas decisivas que confirmam sua filiação divina e o que Ele devia ser para os demais. Descobriu o sentido de sua vida.
No brevíssimo diálogo entre Jesus e João Batista, Mateus expressa que Jesus rompe todos os esquemas do messianismo judaico. Não é o fato de batizar a Jesus que o Batista custa aceitar, mas o significado de seu batismo, que desloca a ideia do Deus como “juiz poderoso”, que João manifestava em suas pregações.
Só depois de ser batizado, a partir de sua própria experiência interior, Jesus vai além da mensagem de João e começa a pregar sua própria mensagem, na qual a ideia de Messias e de Deus que o Batista havia pregado, fica notavelmente superada.
Tudo isso preparou Jesus para uma experiência única. Os céus se abriram e Ele viu claro que o Pai o confirmava como Filho e o que esperava dele.
Jesus não foi um extraterrestre de natureza divina que estava dispensado da trajetória que todo e qualquer ser humano precisa percorrer para alcançar sua plenitude. Nem sempre levamos a sério essa experiência humana de Jesus. Mas, os primeiros cristãos tomaram muito a sério a humanidade de Jesus. Falar que Jesus fez um ato de humildade ao colocar-se na fila dos pecadores, embora não tivesse pecados, é pensar em um ato teatral que não tem nada a ver com a personalidade de Jesus.
Muitas vezes, nós nos aproximamos do relato do batismo com certos pré-juízos. O primeiro, é esquecer-nos que Jesus era plenamente humano e precisou ir aclarando suas ideias e discernindo sua missão.
Nem sempre levamos a sério essa experiência humana de Jesus. Mas, os primeiros cristãos tomaram muito a sério a humanidade de Jesus – Adroaldo Palaoro
Em segundo lugar, o conceito de pecado e conversão não tem nada a ver com o que até então era compreendido. Entendemos a conversão como um sair de uma situação de pecado. O que é narrado no batismo é uma “autêntica conversão de Jesus”, e isso não tem que supor uma situação de pecado, mas uma tomada de consciência daquilo que significa para um ser humano alcançar a plenitude de uma meta, ainda não conseguida.
Muitos dos estudiosos da Bíblia se perguntam se Jesus tinha neste momento de sua vida uma consciência plena de sua missão, ou se a foi descobrindo pouco a pouco, através dos mesmos acontecimentos históricos que seguiram, a partir desta decisão.
Jesus, no batismo, ao receber o Espírito, é ungido, é consagrado para sua missão, é constituído Messias.
Jesus de Nazaré, a partir do batismo, é o Cristo, que significa o “Ungido”. A partir disso, compreende-se o sentido profundo da sua ida ao deserto, que Mateus narra como fruto da moção do Espírito.
Sabemos que todo ser humano sente em seu interior a força do Espírito que rompe as barreiras de seu egoísmo, que o expande para além de si mesmo, que o arranca de seus “lugares estreitos” ...
Nesse sentido, o batismo significa uma experiência de rompimento de fronteiras profundas, de deslocamento para novos horizontes, de alargamento do coração... um movimento de expansão de todo o ser. “Experiência” que implica emoção e descoberta, com sabor do risco, da criatividade, da ousadia...
Da experiência batismal emerge uma pessoa internamente reconstruída, com vontade de sair daquilo que a limita, empobrece, degrada...; é a experiência de alguém que é impelido a lançar-se, a assumir novos riscos, a deslocar-se para as novas encruzilhadas de si mesmo e da história.
Terminado o “tempo natalino”, começamos o tempo litúrgico conhecido como “tempo comum” (Ano C), ou seja, a vida pública de Jesus, sua missão como Filho em favor dos filhos. Toda a liturgia deste ano (2025) deve estar iluminada pelo tema do “Ano Jubilar: Peregrinos de esperança”.
O relato do batismo – que marca a passagem da vida em Nazaré para a vida peregrina – faz referência a uma experiência fundante de Jesus: confirmado pelo Pai, impulsionado pelo Espírito, Ele descobre o sentido de sua vida e a missão que devia realizar.
Com o seu Batismo, Jesus “começa algo novo”, um movimento de vida, fora das estruturas religiosas de seu tempo. É a primeira coisa que os evangelistas deixam claro. Todo o anterior pertence ao passado. Jesus é o começo de um caminho novo e, com uma presença inconfundível, reacende a esperança nas pessoas, sobretudo naquelas mais excluídas.
O relato do evangelho deste domingo afirma que Jesus deixou Nazaré, sua casa e sua comunidade, e se dirigiu para as margens do Jordão, onde fora batizado por João. Começa sua vida itinerante.
A estrada é a vida e a missão de Jesus, enviado para revelar o rosto misericordioso de Deus à humanidade. A sua estrada é marcada pela solidariedade e cuidado para com os mais excluídos e sofridos.
Ele é o “autor” da estrada; Ele é a estrada do cumprimento da vontade de amor e de salvação do Pai; Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Essa estrada deverá ser a mesma também dos discípulos, a do seguimento, a que conduz à plena bem-aventurança. Um Caminho que faz viver e realiza a comunhão em plenitude.
Com os itinerantes Jesus dá início a um movimento a serviço do Reino e Ele mesmo é um itinerante. Não permanece numa casa, não se fecha em um lugar, não fundou uma instituição vinculada a um tipo de templo, sinagoga ou santuário, mas percorre, com um grupo de discípulos(as)/amigos(as), também itinerantes, os povoados e aldeias da Galileia, anunciando e realizando o Reinado do Pai.
Ele é o inspirador de toda itinerância; com sua peregrinação Ele abre possibilidade de outros caminhos. Ele convoca a todos a um seguimento que está profundamente conectado com o seu próprio destino.
“Fazer caminho” não significa apenas deslocamento geográfico. As travessias nunca são apenas exteriores. Não é simplesmente na cartografia do mundo que o ser humano anda. Isso significa não perceber a profundeza do seu ser; “deslocar-se”, querendo ou não, implica uma mudança de posição, uma expansão do próprio olhar, uma abertura ao novo, uma alteração do ângulo habitual, uma adaptação a realidades, tempos e linguagens, um encontro com o diferente, um diálogo inspirador ou deslumbrado, que deixa necessariamente impressões muito profundas.
Seguir Jesus Cristo é aderir a Ele incondicionalmente, é “entrar” no seu caminho, recriá-lo a cada momento e percorrê-lo até o fim. Seguir é deixar-se “configurar”, isto é, movimento pelo qual cada um vai sendo modelado à imagem d’Ele.
Para entrar em sintonia com o Peregrino, é preciso sair dos lugares estreitos, das posições fechadas, das ideias fixas..., e “fazer estrada” com Ele. Aqui está a verdadeira identidade dos(as) seguidores(as) de Jesus: o(as) “adeptos(as) do caminho”.
De fato, em seus inícios, o cristianismo era conhecido como “o Caminho” (At 18,25-26). Tornar-se cristão não era simplesmente entrar numa nova religião; era encontrar o caminho acertado da vida, caminhando sob as pegadas de Jesus, para viver com sentido e esperança. A fé cristã não era entendida como um “sistema religioso” (leis, ritos, doutrinas, hierarquias...), mas um “caminho novo e vivo” que fora inaugurado por Jesus, um caminho que era percorrido com os olhos fixos n’Ele. Ser cristão significava, para eles, “seguir” a Cristo. Isto era o fundamental, o decisivo.
Por isso, não é estranho que ainda hoje podemos encontrar muitas pessoas que se sentem cristãs simplesmente porque foram batizadas e cumprem alguns deveres religiosos, embora nunca tenham considerado a vida como um seguimento de Jesus Cristo. Este fato, bastante generalizado, seria inimaginável nos primeiros tempos do cristianismo.
Então, qual o sentido do batismo de Jesus? Trata-se de um acontecimento que traz uma mensagem nova e que supera radicalmente o Batista. Os evangelistas cuidaram com esmero desta cena. O céu, que permanecia fechado e impenetrável, se abre para mostrar seu segredo. Ao abrir-se, não descarrega a ira divina que João Batista anunciava, mas revela o amor de Deus, o Espírito, que pousa pacificamente sobre Jesus. Do céu se escuta uma voz: “Tu és o meu Filho amado”.
A alusão aos céus que se abrem definitivamente é a expressão de uma esperança de todo o AT: “Quem dera rasgasses o céu e descesses!” (Is 63,19). A comunicação entre o divino e o humano, que havia ficado interrompida por culpa da infidelidade do povo, é, a partir de agora, possível graças à total fidelidade de Jesus. A distância entre Deus e o ser humano fica superada para sempre. Jesus ouviu a voz dentro de si mesmo e esta lhe deu a garantia absoluta de que Deus estava com Ele para levar a missão a bom termo.
A mensagem é clara: com Jesus Cristo o céu permanece aberto; de Deus só brota amor e paz; podemos viver com confiança. Apesar de nossas limitações e de nossa mediocridade, também para nós “o céu se abre”. Também nós podemos escutar com Jesus a voz do Pai: “tu és para mim um filho amado, uma filha amada”. De agora em diante podemos assumir nossa história de vida como a marca da dignidade de filhos(as) de Deus, e que devemos cuidar com zelo e agradecimento.
Para quem vive a fé no Deus que “rasga os céus e desce”, a vida se revela cheia de momentos de graça: o nascimento de uma criança, o encontro com uma pessoa cheia de bondade, o serviço gratuito, a experiência de um amor oblativo, o cuidado com a criação..., que põem em nossa vida uma luz e um calor novos. De imediato nos parece ver “o céu aberto”. Algo novo começa em nós: sentimo-nos vivos, desperta-se o melhor que há em nosso coração, reacende-se uma nova esperança, novas relações interpessoais são vividas...
Talvez aquilo que sonhávamos secretamente, agora nos é presenteado de forma inesperada: um início novo, uma vida diferente, um “batismo de Espírito”. Por detrás dessas experiências está Deus nos amando como Pai, está seu Amor e seu Espírito, doador de vida.
Recebemos o batismo gratuitamente; talvez, por isso mesmo, não damos o devido valor.
Efetivamente, não fomos consultados para ser batizados, mas tampouco fomos consultados para nascer, nem na família que temos. Tampouco nos pediram opinião para amanhecer em determinado lugar do mapa, nem para ser de uma determinada raça. E, no entanto, tudo isso é decisivo e nos constitui como pessoas.
Por que não damos o devido valor ao nosso batismo? Por que não somos mais humildes e nos coloquemos na fila dos demais? Por que não somos mais agradecidos e, com Jesus, mergulhemos nas águas do Jordão para sermos re-batizados?
Esquecemos que “ser cristão” é “seguir” Jesus Cristo: mover-nos, dar passos, caminhar, construir nossa vida seguindo suas pegadas. Nossa vivência cristã, às vezes, permanece numa fé teórica e inoperante, ou se reduz a uma prática religiosa rotineira, estéril, sem maiores compromissos; não transforma nossa vida em seguimento. “Batiza-nos, Senhor, com teu fogo!”
Para meditar na oração:
Nutramos nosso “ser peregrino” que carregamos dentro de nós! Deixemos que ele se submerja nas águas da vida, para um novo renascimento.
Despertemos a esperança adentrando-nos em “nosso Jordão”! E desfrutemos da paisagem externa, descobrindo assim a paisagem de dentro. Deixemos emergir nosso mapa interior. Contemplemo-lo e agradeçamos... tudo. O bom. O boníssimo e o difícil ou tortuoso. Assim é o caminho da vida.
- Sua vivência batismal se reduz a algumas práticas religiosas egóicas? Ou ela tem a marca de Jesus que, após seu batismo, viveu o compromisso com os pobres e excluídos até a radicalidade?
Para “viver o batismo”, é preciso tornar-se velejador de mar aberto, livre e desprendido, abrir-se para o novo e diferente, deixando-se conduzir pela correnteza do rio... e “passar para a outra margem”.
Essa “travessia” exige mudança de atitude, pôr-se a caminho, êxodo, sair-de-si... Sair da margem conhecida, velha, rotineira... para encontrar a nova margem da relação, do compromisso, dos sonhos...; lugar provocador de mudanças, de onde brotam as grandes experiências, as intuições, os ideais vitais...
Talvez por isso, também nós não tenhamos reconhecido Cristo em nosso batismo. Porque O temos buscado em outras filas, em outros rios e com outros “joãos”. Falta-nos uma iluminação do céu para escutar a voz do Pai e reconhecer a Cristo detrás de nós, ou adiante, ou ao lado, como um de tantos.
Para “viver o batismo”, é preciso tornar-se velejador de mar aberto, livre e desprendido, abrir-se para o novo e diferente, deixando-se conduzir pela correnteza do rio... e “passar para a outra margem” – Adroaldo Palaoro
Recolhamos o essencial do relato do Batismo no qual somos convidados a escutar, como Jesus, essa Voz que indica nossa raiz divina e nossa dignidade humana, nossa identidade de filhos e filhas, cuja consequência nos compromete a olhar os outros como irmãos e irmãs, na solidariedade incondicional, na igualdade enquanto dignidade, direitos e oportunidades.
O importante para nós é buscar descobrir o que aconteceu no interior de Jesus e ver até que ponto podemos nos aproximar dessa mesma experiência.
Só aqueles(as) que se submergem nas águas amorosas da graça, saem empoderados de Espírito e filiação. E vão descobrindo o lugar, a sua missão, a sua maneira original de viver o seguimento de Jesus.
O importante para nós é buscar descobrir o que aconteceu no interior de Jesus e ver até que ponto podemos nos aproximar dessa mesma experiência – Adroaldo Palaoro
Para meditar na oração:
- Oxalá, ao ler ou escutar o evangelho de hoje, sintamos uma sacudida interior e nos despertemos ao perceber que, em Jesus, todos fomos citados pelo Deus-Abbá: “tu es meu(minha) filho(a) amado(a)”.
- Oxalá, o Espírito Santo nos ajude a compreender que somos filhos(as) amados(as), não servos(as); e que fomos salvos gratuitamente. Se descobrirmos que todo ser humano é filho(a) amado(a), terá acontecido um milagre.
Baptismo do Senhor – A (Mateus 3,13-17)
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez
O encontro com João Batista foi para Jesus uma experiência que mudou a sua vida. Após o batismo no Jordão, Jesus já não retorna ao trabalho em Nazaré; nem adere ao movimento do Batista. A Sua vida centra-se agora num único objetivo: gritar a todos a Boa Nova de um Deus que deseja salvar o ser humano.
Mas o que transforma a trajetória de Jesus não são as palavras que escuta dos lábios do Baptista nem o rito purificador do batismo. Jesus vive algo mais profundo. Sente-se inundado pelo Espírito do Pai. Reconhece-se a Si mesmo, como Filho de Deus. A Sua vida consistirá daí em diante em irradiar e contagiar esse amor insondável de um Deus Pai.
Esta experiência de Jesus encerra também um significado para nós. A fé é um itinerário pessoal que cada um de nós deve percorrer. É muito importante, sem dúvida, o que ouvimos desde crianças aos nossos pais e educadores. É importante o que ouvimos de padres e pregadores. Mas, no final, devemos sempre fazer uma pergunta: em quem acredito eu? Acredito em Deus ou acredito naqueles que me falam sobre ele?
Não devemos esquecer que a fé é sempre uma experiência pessoal que não pode ser substituída pela obediência cega ao que os outros nos dizem. Do lado de fora, podem orientar-nos para a fé, mas sou eu mesmo que devo abrir-me a Deus de forma confiada.
Por isso, a fé não consiste tampouco em aceitar, sem mais, um determinado conjunto de fórmulas. Ser crente não depende primariamente do conteúdo doutrinário que se recolhe num catecismo. Tudo isso é muito importante, sem dúvida, para configurar a nossa visão cristã da existência. Mas antes disso e dando sentido a tudo isso, está esse dinamismo interior que, de dentro, nos leva a amar, confiar e esperar sempre no Deus revelado em Jesus Cristo.
A fé também não é um capital que recebemos no batismo e do qual podemos então dispor tranquilamente. Não é algo adquirido em propriedade para sempre. Ser crente é viver permanentemente escutando o Deus encarnado em Jesus, aprendendo a viver dia a dia de forma mais plena e libertada.
Esta fé não está feita apenas de certezas. Ao longo da vida, o crente vive muitas vezes na escuridão. Como dizia aquele grande teólogo que foi Roman Guardini, «a fé é ter luz suficiente para suportar as trevas». A fé é feita, acima de tudo, de fidelidade. O verdadeiro crente sabe como acreditar durante as trevas, no que viu nos momentos de luz. Sempre continua a procurar esse Deus que está além de todas as nossas fórmulas claras ou escuras. O padre P. de Lubac escreveu que «as ideias que fazemos de Deus são como as ondas do mar, sobre as quais o nadador se apoia para as superar». O decisivo é a fidelidade a Deus que se manifesta a nós no Seu Filho Jesus Cristo.
Após as festividades natalinas, o primeiro evento que a liturgia nos apresenta é o batismo do Senhor. Encontramos um Jesus adulto que rompe trinta anos de silêncio em Nazaré.
Na segunda leitura da liturgia deste domingo, encontramos um bom resumo da atividade e missão de Jesus. Segundo o Livro dos Atos dos Apóstolos, Jesus, "ungido por Deus com o Espírito Santo e poder, andava por toda parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele". Jesus andava por toda parte fazendo o bem, isto é, tomando partido; e curando, isto é, lutando com todas as suas forças contra o mal. Sem indiferença: tomando partido pelo bem e contra o mal. A razão: porque Deus estava com ele, porque ele era ungido com o Espírito de Deus. Se Deus está contigo, se o Espírito de Deus se une ao teu espírito, tu também tomarás partido pelo bem e contra o mal.
A unção de Jesus pelo Espírito nos leva ao tema do batismo. Os relatos dos evangelistas Mateus e Lucas mostram a diferença entre o projeto penitencial de João Batista e o projeto evangélico de Jesus. O batismo de João não conferia o Espírito Santo; no máximo, preparava a pessoa para recebê-lo por meio da penitência. Portanto, a concessão do Espírito a Jesus, da qual falam os evangelistas mencionados, não está relacionada ao batismo de João. Os céus se abrem e o Espírito desce quando Jesus emerge das águas do Jordão. O batismo de João não confere o Espírito Santo. Este é um privilégio do batismo cristão. Somente o batismo da Igreja, administrado em nome de Jesus, confere o perdão dos pecados, a incorporação em Cristo ressuscitado, a filiação divina e o dom do Espírito Santo.
Os primeiros cristãos tiveram sérias dificuldades em compreender e aceitar o batismo de Jesus. De fato, um evangelho apócrifo nega explicitamente que Jesus tenha sido batizado por João, argumentando que Jesus não havia cometido pecado algum. Essa dificuldade leva os exegetas a afirmarem que o batismo de Jesus é um dos eventos mais “históricos” de sua vida, no sentido moderno da palavra história: um evento que de fato ocorreu. Se esse for o caso, se Jesus foi ser batizado por alguém de posição inferior, e ainda por cima para o perdão dos pecados, é necessário explicar o significado desse batismo e como ele se alinha com o fato de que Jesus “não cometeu pecado algum, e nenhum engano foi encontrado em sua boca”, como afirma 1 Pedro 2,22.
Jesus conscientemente se coloca no final da fila dos pecadores, descendo às profundezas da terra, pois o Rio Jordão fica em uma depressão de cerca de 408 a 416 metros abaixo do nível do mar; isso o torna o rio com a menor altitude do mundo. É significativo que ele se coloque no final da fila dos pecadores e no ponto mais baixo da terra. Aquele que é sem pecado e acima de tudo se coloca na posição oposta à que lhe pertence. Por quê? Jesus se identifica com os pecadores e confessa seus pecados. Não o seu próprio pecado, mas o pecado do mundo, o pecado de seus semelhantes, que ele toma sobre si. Ele é o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Para tirá-lo, ele primeiro o toma sobre si.
O batismo de Jesus é uma das manifestações mais poderosas do alcance da Encarnação: Jesus não assume uma forma humana ideal, mas a carne da humanidade pecadora. Quando o Evangelho de João diz que "o Verbo se fez carne", essa carne é "carne pecaminosa". Essa é a extensão da solidariedade de Jesus, a extensão do seu amor. E por alcançar esse nível, ele tem o grande poder de tirar o pecado do mundo.
O batismo de Cristo no Jordão é uma epifania, uma manifestação: Deus se identificou com a humanidade, não com uma humanidade idealizada, mas com a humanidade real, a humanidade pecadora. Desde o início de seu ministério, Jesus se revela como aquele que "carrega o pecado do mundo" e, assim, se une a essa história humana de pecado e afastamento de Deus. Ele se une a Deus porque somente através da unidade e da solidariedade é possível a salvação.
A festa do Batismo de Jesus marca o começo de seu ministério público. O texto revela a dificuldade que a comunidade cristã primitiva pode ter tido em relação a esse evento, pois duas perguntas são legítimas: Como Jesus poderia ser batizado por João se era mais velho que ele? E o que Jesus se tornaria se fosse o Filho de Deus? Precisamente por causa dessa dificuldade, Mateus apresenta João Batista resistindo ao batismo e reconhecendo que era Jesus quem precisava ser batizado.
É importante notar que Marcos não contém esses versículos sobre a resistência de João ao batismo, Lucas não apresenta quem batizou Jesus e o Evangelho de João não relata o batismo. Essa própria diferença entre os evangelistas nos ajuda a concluir que Jesus deve ter sido batizado, e esse ato causou controvérsia. De qualquer forma, esse sinal marca o início de sua vida pública que, como sabemos, não será fácil, mas uma vida pública sustentada por Deus, com as palavras que são ouvidas quando os céus se abrem: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”.
Enquanto no Evangelho de Marcos a voz se dirige diretamente a Jesus, no Evangelho de Mateus as palavras são dirigidas a todos os que deveriam estar presentes. Isso torna a missão de Jesus mais explícita e afirma quem ele é e como Deus apoia essa missão.
Agora somos nós que ouvimos esta história, e devemos nos perguntar a que ela nos convida. Primeiro, é importante considerar o gesto de conversão expresso no batismo. Jesus o realiza não porque tenha pecados, mas porque sua pregação implica uma conversão, um caminho diferente daquele indicado pelos profetas de Israel. Jesus enfatizará uma mudança da punição pregada por João Batista para a misericórdia incondicional do reino.
Portanto, é necessário compreender para onde o caminho de Jesus nos levará, para que estejamos prontos para segui-lo. Segundo, o texto nos convida a proclamar não um profeta, mas o próprio Filho de Deus entre nós. E esta é a grande diferença. Profetas continuarão a surgir, mas o profeta Jesus não é apenas mais um; ele é o próprio Filho de Deus.
Acompanharemos o ciclo litúrgico e a missão de Jesus se desdobrará em seus diversos aspectos. Ao longo desse caminho, muitos abandonarão o seu seguimento. O convite para nós é que permaneçamos fiéis à missão que o próprio Filho de Deus realizará entre nós.
O relato faz Jesus vir da Galileia para receber o batismo. Como isso poderia ser interpretado como uma dependência de Jesus com relação a João, vocês incluíram um diálogo entre João e Jesus: “Sou eu que preciso ser batizado por ti e tu vens a mim?” Jesus responde: - “Deixa que se cumpra toda a justiça”. A ação divina passa pela etapa da ação de João para chegar a Jesus. Mais tarde, as autoridades judaicas de Jerusalém viram que ele ensinava no templo e lhe perguntaram: “Que autoridade você tem para fazer isso? (quer dizer: para agir como os antigos profetas que ensinavam na porta do templo). “Quem lhe deu essa autoridade?” (ou “quem fez de você um profeta?”) Jesus respondeu: “Vou lhes fazer uma pergunta. Se me responderem, poderei lhes dizer com que autoridade eu faço isso.
Quando João batizava, isso vinha de Deus, ou dos homens?”. Eles não quiseram responder e Jesus lhes respondeu: - “Então, eu não tenho como lhes explicar com que autoridade faço isso” (Cf. Mateus 21,23-27). Assim, Jesus esclarecia definitivamente que sua autoridade profética vinha do batismo de João. No Jordão, Jesus foi investido da missão profética e o próprio Pai o designa como o verdadeiro Messias que preenche a expectativa do povo. Se as pessoas não reconheciam a legitimidade desse batismo, não podiam reconhecer a missão de Jesus.
Quando Jesus foi batizado, “os céus se abriram”. Na época, havia uma forte consciência de que, depois da volta do cativeiro, por causa do fato de que Israel rompeu a aliança com o Senhor, “os céus se fecharam”. Deus guardava silêncio. Quando muito, podia-se apenas ouvir o eco da sua voz, mas não escutar a sua Palavra através dos profetas. “Não vemos mais sinais de tua presença, não há mais profetas e ninguém sabe até quando” (Salmo 74,9. Cf. também 1 Macabeus 14,41-46). Os profetas prometiam o tempo novo e maravilhoso no qual os céus se abrissem (Cf. Isaías 64,1; Ezequiel 1,1).
Muita gente estranha essa questão de representar o Espírito de Deus como uma pomba. Na tradição bíblica, a pomba é a imagem de Israel, a esposa do Cântico dos Cânticos (Cf. Cântico 2,14; 1,15 e outros). O que o Evangelho diz é que o Espírito desceu sobre Jesus suavemente, como uma pomba. Como o Gênesis dizia que “o Espírito pairava sobre as águas”. Mas, à medida que as comunidades interpretaram que o Espírito desceu em forma de pomba, para nós, hoje, é bom escutar esta interpretação que o Espírito vem na forma de Israel, isto é através da comunidade.
Poucas vezes, na Bíblia, Deus fala diretamente. Em geral, ele fala pelos profetas e profetisas. Aqui a voz divina identifica Jesus: “Este é o meu filho, o amado, em quem ponho minha afeição”. Esta palavra alude à profecia do Servo Sofredor (Isaías 42,1-5). O servo (pais) de Isaías se torna aqui (huios mou) meu filho. O ekkletos (escolhido) de Isaías se torna agapetos (amado) no texto de Mateus. Há quem visse no “filho amado” uma referência à passagem de Abraão levando Isaac, seu único filho, para o sacrifício (Gênesis 22). Por mais que esta passagem não seja histórica e possa ser questionada sobre a imagem de Deus que nos dá, ela foi, em toda a tradição judaica, usada como profecia do Messias. O batismo de Jesus reinicia uma nova época profética e de manifestação da presença do Senhor junto ao seu povo.
Fonte: CEBI Nacional
Neste ano de 2026 estamos lendo, refletindo e rezando o Evangelho de Mateus.
Na verdade, aqui encontramos uma longa e belo complexo dos ensinamentos de Jesus, organizada em volta dos cinco Discursos de Jesus:
1) o Discurso da MONTANHA (Mateus 5-7);
2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mateus 10);
3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mateus 13);
4) o Discurso ECLESIAL (Mateus 18);
5) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mateus 24-25).
Cada um dos Discursos termina com este refrão: “E aconteceu, quando Jesus terminou estas palavras…” (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1).
Aprofundando
No trecho de hoje encontramos algumas peculiaridades de Mateus:
1) ao ver Jesus que vem no meio da multidão (Mateus 3,13-14), como verdadeiro Servo do Senhor, solidário com o seu povo e assumindo as suas faltas, João Batista fica bastante confuso, porque ele tambem esperava um Juiz acima do povo, que vai julgar o povo (cf. Mateus 3,7.10.12), e não um Servo solidário com o povo no pecado (por isso, vem, no meio do povo, para este batismo de penitência);
2) além disso, e contra todas as expetativas de João Batista, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado (Mateus 3,11.13-14);
3) O diálogo entre João e Jesus, em que João manifesta o seu desconforto em ser ele que vai batizar Jesus, e não o contrário (Mateus 3,14-15), é um fato exclusivo de Mateus (nenhum outro Evangelho o descreve);
4) importante reparar as primeiras palavras ditas por Jesus no Evangelho segundo Mateus: «É conveniente para nós cumprir toda a justiça» (3,15); no Evangelho de Mateus, o termo «justiça» indica o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade [= obediência] a esse plano, e faz-se ouvir sete vezes (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32) contra uma única vez em Lucas (1,75) e nenhuma em Marcos, e o verbo «cumprir» aponta para a Escritura;
5) a abertura dos céus e a descida do Espírito evoca e cumpre Isaías 64,1: « 1Como gostaríamos que tu rasgasses os céus e descesses,!»; 6) a voz vinda do céu deve merecer a atenção da gente, porque a frase não aparece usando a segunda pessoa - “Tu és o meu Filho” - , mas na terceira pessoa: « Este é o meu Filho querido, que me dá muita alegria!» (Mateus 3,17); não é, portanto, uma revelação dirigida a Jesus, mas a nós, salientando desde o princípio a perspectiva eclesial de Mateus.
Alargando o assunto do Batismo de Jesus e o nosso Batismo
-. O Rio Jordao. Diante dos olhos de João, e dos nossos, fica, portanto, Jesus que, conosco e no meio de nós, como um de nós, desce ao rio Jordão para ser batizado conosco. É aqui que o rio Jordão nos pode trazer, não apenas água, mas também alguma luz e sentido. O Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. Rasga, de alto-a-baixo, a terra de Israel, e atravessa as páginas dos dois Testamentos!, fazendo um percurso de mais de 300 km (104 km em linha reta). As suas águas curam (2 Reis 5,14: Naamã) e dão acesso à vida nova: é atravessando-o que o Povo entra na Terra Prometida (Josué 3,14-4,24). É ainda belo ver que, depois de um percurso de mais de 300 km, o Jordão entra no Mar Morto, onde, através de uma intensa evaporação, parece subir ao céu.
-. O Meu Servo. Ilustra bem o episódio do Batismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.
-. A Voz que se faz ouvir desde dentro. Não reina com poder, nem a base de dinheiro, sem imposição, armas ou decretos.. Há ainda de reparar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz» (Isaías 42,2). Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, então é porque a faz ouvir desde dentro. Alguém disse uma vez «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, impostos, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então reina desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Está bom de ver que Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua missão. De resto, Mateus diz-nos expressamente que Jesus vem cumprir a missão do Servo de Isaías 42,1-4, texto que este Evangelho cita por inteiro em Mateus 12,18-21.
Finalizando:
Esta missão de Jesus, - Batizado com o Espírito Santo no Jordão e declarado o Filho Amado - deve ser a nossa missão de Batizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus. É ainda como filhos amados que devemos hoje declarar as letras deste Gloria a Deus nas alturas do Antigo Testamento (Salmo 29). A voz que se ouve no Salmo pode ser a Voz do Pai que a nós se dirige, apresentando e revelando seu Filho. São Gregório Magno disse: «A voz de Deus clama admiravelmente porque, como força escondida, penetra nos nossos corações».
Por isso a importância de Ler, Refletir, Meditar, e Ruminar a Palavra de Deus na Natureza, no Povo pobre sofrido e rejeitado, na Bíblia e na Celebração da Comunidade.
(O texto original em espanhol se encontra logo após a tradução feita pelo tradutor GOOGLE)
FESTA DO BATISMO DO SENHOR
Primeira leitura (Is 42,1-4.6-7)
No livro de Isaías, os capítulos 40 a 55 são atribuídos a um profeta do exílio conhecido como Segundo Isaías, que é sem dúvida o profeta da aurora, do despertar após a longa noite de exílio na Babilônia (51:17; 52: 1 ) . Nesses capítulos, encontramos uma primeira seção (Isaías 40:1–48:22) que trata da libertação do exílio babilônico, que o Senhor realizará por meio do rei persa Ciro. Essa seção também proclama o anúncio de que o Senhor escolhe um “ servo ”, a quem envia com a ajuda do seu Espírito para estabelecer a lei e a justiça (cf. Isaías 42:1–7). Nesse primeiro cântico, a figura do “servo” é um tanto enigmática: o versículo 1 o apresenta como um indivíduo que recebe tratamento especial do Senhor : Ele o sustenta, o escolhe, se deleita nele e colocou o Seu Espírito sobre ele . Ele também tem uma missão especial: trazer justiça e retidão às nações (os gentios, os não judeus). Os versículos 2 a 4 descrevem suas ações "negativamente", usando uma série de "nãos" que se referem a atos de violência (gritar, quebrar), o que significa que suas ações serão humildes e pacíficas; não violentas. Mas isso não significa que ele será fraco; pelo contrário, ele perseverará até cumprir sua missão de estabelecer a justiça e a lei (Torá) na Terra.
Em 42:6-7, ele retorna à vocação pessoal ou chamado que este "servo" recebeu e à missão transcendente que lhe foi dada: "Eu te designei para seres uma aliança para o povo, uma luz para os gentios, para abrir os olhos dos cegos, para libertar os cativos da prisão e os que jazem em trevas do cárcere." A aliança de Deus com Israel já havia sido selada com Moisés, mas Israel a quebrou; e agora este escolhido vem para concluir a aliança com Israel de uma maneira nova e definitiva. Mas primeiro, ele deve iluminar e libertar os cativos, isto é, salvá-los.
Evangelho (Mt 3,13-17):
Esta história está estruturada em duas partes: 1) Os preliminares do batismo (vv. 13-15); 2) A teofania (vv. 16-17).
A primeira parte narra a chegada de Jesus ao Jordão para ser batizado. Assim como em Marcos 1:9-11, esta é a primeira aparição pública de Jesus, e Mateus também se dá ao trabalho de especificar os detalhes geográficos e as circunstâncias (3:13). Contudo, seguindo a comparação com Marcos, notamos que Mateus acrescenta um diálogo onde fica claro que João Batista resiste a batizar Jesus (3:14-15). Na recusa de João, o verbo "impediu" está no pretérito imperfeito, denotando a insistência de João em não batizar Jesus. A razão para sua recusa refere-se ao que ele já havia anunciado sobre a superioridade daquele que havia de vir e seu batismo (cf. 3:11). Mas Jesus lhe dá uma ordem (o verbo imperativo ἄφες ἄρτι): "Deixe/permita", e especifica que é algo temporário e provisório: "agora".
O que se segue à resposta de Jesus contém vocabulário típico de Mateus, especialmente a expressão "cumprir toda a justiça", que soa um tanto misteriosa. Para entender o significado do termo "justiça" (δικαιοσύνη) aqui, será útil examinar o uso do verbo que o acompanha (plhro,w), que aparece 16 vezes em Mateus, 13 na voz passiva. Destas, 12 referem-se ao cumprimento das Escrituras, enquanto a ocorrência restante carece de significado teológico (13:38, "encher uma rede"). Este verbo, na voz ativa como em 3:15, também aparece em 5:17 e 23:32. Em ambos os casos, refere-se ao cumprimento ou à conclusão de um padrão ou medida estabelecida, seja a Lei e os Profetas ou a medida dos antepassados. Portanto, podemos dizer que a expressão "cumprir toda a justiça" aqui significa levar à perfeição, cumprir plenamente a vontade de Deus . Vale ressaltar que ambos devem cumprir a vontade de Deus: Jesus porque, ao fazê-lo, demonstra sua solidariedade com os homens; e João Batista porque deve admitir que o Messias pode agir de maneira diferente da que ele esperava.
Com relação à teofania, e comparando-a com Marcos 1:10-11, notamos que em Mateus o ato batismal é pouco mencionado, usando apenas um particípio, e que a ênfase está no derramamento de água. Nesta cena, como em Marcos, há uma abertura dos céus, a descida do Espírito como uma pomba e uma voz celestial. A abertura ou o rasgar dos céus poderia ser uma referência a Isaías 63:19: “Oh, se fendesses os céus e descesses!”, visto que, no contexto desta súplica, Deus é chamado de Pai (cf. Isaías 63:16; 64:7) e o Espírito é mencionado três vezes (cf. Isaías 63:10, 11, 14). Outros, especialmente em relação a Mateus, consideram Ezequiel 1:1: “Os céus se abriram, e eu vi visões de Deus (hvnoi, cqhsan oi ` ouvranoi, kai . ei=don)”. A pomba, em relação ao Espírito, também possui múltiplas referências no Antigo Testamento, como em Gênesis 1:2; 8:8; Isaías 38:14; Oséias 7:11; Salmo 55:7.
Quanto ao que foi dito pela voz celestial, há certo consenso de que nos remete ao Salmo 2:7, onde o Filho recebe a investidura real e messiânica; e ao Servo sofredor de Isaías 42:1; 44:2,21, na medida em que ele é amado e objeto do prazer do Pai.
A diferença em relação a Marcos reside no fato de que, em Mateus, a abertura dos céus é um evento público, assim como a voz celestial, que se dirige ao povo e aos leitores ou ouvintes — isto é, à comunidade — e não apenas a Jesus, como em Marcos (“ Este é o meu Filho amado” em vez de “ Tu és o meu Filho…”). Aqui, vemos o aspecto eclesial tão característico de Mateus, complementando a afirmação cristológica . Assim, a cena conclui com uma revelação pública de Jesus como Filho de Deus, sendo a comunidade mateana a receptora dessa revelação e, portanto, também incumbida da missão de revelar a verdadeira identidade de Jesus. Em contraste, a visão do Espírito é algo específico de Jesus, como em Marcos. A diferença está no fato de Mateus especificar que se trata do Espírito de Deus .
Além de sua filiação divina , afirma-se a unção messiânica de Jesus , constituído Messias pela Palavra do Pai e pelo dom do seu Espírito. O querigma inicial sustentava que Jesus foi ungido com o poder do Espírito após o seu batismo (cf. Atos 10,37-38: "Vocês sabem o que aconteceu em toda a Judeia, começando na Galileia, depois do batismo que João pregou: como Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder ", segunda leitura de hoje). Além disso, considerando que a cena é inspirada em Isaías 42,1, que também lemos hoje ("Eis o meu servo, a quem sustento, o meu escolhido, em quem me comprazo; porei sobre ele o meu Espírito, e ele trará justiça às nações…"), mas mudando a expressão "servo" para "filho", podemos concluir que a voz de Deus apresenta Jesus como Messias-Filho na tradição do servo sofredor.
Em resumo, A. Rodríguez Carmona 3 afirma : "O texto tem dois centros de atenção intimamente relacionados: no primeiro, Jesus professa sua determinação de cumprir a vontade do Pai a cada instante; no segundo, o Pai o reconhece publicamente como Filho: obediência e filiação são o anverso e o reverso da mesma realidade."
Algumas reflexões:
A Festa do Batismo do Senhor encerra o tempo natalino e, portanto, deve ser compreendida e celebrada em continuidade com a solenidade do nascimento de Jesus. É precisamente no sacramento do Batismo que ocorre a “troca maravilhosa” celebrada no Natal. Essa teologia se reflete na liturgia desta solenidade em suas orações: o Verbo de Deus, que, manifestando-se na realidade da nossa carne, se tornou como nós exteriormente, nos transforma interiormente — como afirma a segunda oração da festa; Jesus, ao entrar na água, quis lavar os pecados do mundo — como afirma a oração sobre as oferendas — e fomos feitos filhos adotivos pela água e pelo Espírito Santo ; este novo batismo no Jordão foi “marcado” com sinais maravilhosos — como expressa o prefácio.
A continuidade com o Natal deve também estar ligada à mensagem da Palavra de Deus. Na Missa do Natal, ouvimos o testemunho do Evangelho de João: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1,18). O Verbo Eterno do Pai assumiu a natureza humana e veio habitar em nosso mundo. Com esta obra de infinito amor, Deus cumpriu e superou o que havia anunciado ao seu povo Israel: Jesus é o Verbo pessoal do Pai, Ele é o Filho de Deus. Isto é solenemente declarado pelo Pai, que, por meio de sua voz celestial, testemunha a identidade de Jesus: Ele é o seu Filho amado .
Do ponto de vista litúrgico, destaca-se também a importância de vincular esta festa à Epifania: “O Batismo do Senhor é uma festa de Epifania, isto é, de manifestação. No Oriente, o ícone do Batismo do Senhor, que é um dos ícones de culto bem definidos, é o ícone da Grande Teofania, pois no Batismo é proclamada a divindade de Cristo e, portanto, é dado testemunho da Trindade. No Natal, Cristo se manifesta no cenário humilde de Belém. A Epifania é a manifestação aos gentios. O Batismo é a manifestação da unção de Cristo, a manifestação absoluta da divindade de Cristo na Trindade . ” 5
João Batista havia anunciado que aquele que viesse depois dele batizaria com o Espírito, pois seria alguém cheio — ungido — com o Espírito que desce sobre ele e o guia em sua missão. O prefácio desta festa proclama isso assim: "Vós quisestes expressar, com sinais maravilhosos no rio Jordão, o mistério do novo batismo, para que, por vossa voz celestial, se revelasse que vossa Palavra habitava entre os homens e, pelo Espírito, que desceu em forma de pomba, se reconhecesse que Cristo, vosso servo, fora ungido com o óleo da alegria e enviado para evangelizar os pobres."
A teofania que se segue ao batismo nos conecta, de certo modo, ao próprio Mistério da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. As três pessoas divinas estão presentes aqui. A relação de Jesus como Filho com o Pai e o Espírito é eterna, mas desde a Encarnação, ela entrou no tempo e se manifesta nele, incluindo agora a humanidade de Jesus. No Natal, junto com o Menino Jesus, vimos sua Mãe e São José, sua família humana. Hoje, sua Família Trinitária nos é revelada: o Pai e o Espírito Santo em comunhão com o Filho feito homem em Jesus.
Aqui Jesus recebe o Espírito Santo e a "declaração de amor" de seu Pai. Este é o início e o fundamento da vida de Jesus como Filho de Deus: saber que é amado pelo Pai, saber que é aprovado pelo Pai que se alegra nele . Aqui reside o segredo da liberdade interior e emocional de Jesus. Ele não implora por amor porque já o possui. Ele não implora pela aprovação dos homens porque já tem a aprovação do Pai. Jesus recebe o amor pessoal de Deus, o Espírito Santo. Ele é ungido pelo Espírito. Portanto, sua vida terá a liberdade que o Espírito Santo lhe dá, a qual guiará sua missão neste mundo.
Nós também devemos descobrir, nesse "sentimento de ser amado e aprovado pelo Pai", o princípio e o fundamento de nossa vida e a fonte de nossa liberdade interior e emocional. H. Nouwen escreve a esse respeito : "Sua verdadeira identidade é ser filho de Deus. Essa é a identidade que você deve aceitar. Uma vez que a tenha reivindicado e se estabelecido nela, você poderá viver em um mundo que lhe trará muita alegria e também muita dor. Você poderá receber elogios ou calúnias, que lhe chegam como uma oportunidade para fortalecer sua identidade fundamental, porque a identidade que o liberta se ancorou além de todo elogio e calúnia humana. Você pertence a Deus e, como filho de Deus, foi enviado ao mundo."
A Festa do Batismo do Senhor, que encerra o tempo natalino, comemora não apenas o batismo de Jesus, mas também o batismo dos cristãos . Assim como enfatizamos a importância de reviver o nascimento do Senhor em nós mesmos como parte essencial do mistério do Natal celebrado na liturgia, também somos convidados a reviver nosso próprio batismo na Festa do Batismo do Senhor.
Nós, ao sermos batizados, recebemos a filiação adotiva, pela qual o Pai nos ama como seus filhos em seu Filho Jesus; e Ele se alegra em nós como se alegra nEle. Esta é a vida de filhos de Deus que "nos foi transmitida no dia do Batismo, quando, 'participando da morte e ressurreição de Cristo', começou para nós a alegre e estimulante aventura do discipulado" (Bento XVI, Homilia sobre a Festa do Batismo do Senhor , 10 de janeiro de 2010). Por sua vez, o Papa Francisco, no Ângelus de 12 de janeiro de 2020, disse: "Na festa do Batismo de Jesus, redescobrimos o nosso batismo. Assim como Jesus é o Filho amado do Pai, também nós, renascidos da água e do Espírito Santo, sabemos que somos filhos amados — o Pai nos ama a todos!" —que somos objeto do prazer de Deus, irmãos e irmãs de muitos outros, com a grande missão de testemunhar e proclamar a todos os homens e mulheres o amor ilimitado do Pai.”
Finalmente, também nós recebemos o Espírito Santo, que nos ungiu como apóstolos e testemunhas de Jesus, como seus discípulos e missionários. E isso precisa ser evidente.
PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
Este é o meu amado filho.
Os céus se abrem todos os dias.
Quando levanto os olhos e observo
O imenso azul
E eu espero, respiro fundo.
Permaneço em silêncio.
Escute atentamente as palavras:
“Este é o meu amado filho, o meu favorito.”
Quão poderoso é o amor do Pai!
Isso preenche nossa capacidade de amar.
Até a morte, mártir
Nada é mais
E na boca do santo
Só Deus basta.
Sem hesitar, Juan apontou para isso.
Eu te imagino, Senhor, diante do profeta.
6 A Voz Interior do Amor (Madrid 1998).
5
Como um daqueles
Entre os curiosos
A partir do seu tempo.
Batismo de sangue e fogo
Você veio para nos ensinar isso
A face do Pai Eterno.
Nossa imagem
Está em suas mãos, Potter.
Faça-nos dóceis à dor do seu trabalho.
Recomeçar todos os dias
Permanecer em silêncio
Escute atentamente as palavras:
“Este é o meu filho amado, o meu escolhido.” Amém.
1 Existe um consenso geral em datar as ações deste profeta como sendo do final do exílio, por volta de 540 a.C., quando o império babilônico começou a ruir após a ascensão dos persas liderados por Ciro.
2 Nisto seguimos K. Stock, Discorso della Montagna , 76. Por sua vez, Davies-Allison, Matthew , 326-327, supõe que, quando Jesus cumpre toda a justiça, ele está cumprindo as profecias das Escrituras e encontra confirmação em 3:17 com as citações de Sl 2:7 e Is 42:1. Na mesma linha, A. Rodríguez Carmona, Evangelio de Mateo , 52, sustenta que Jesus recebe o batismo para realizar um gesto do Servo de Javé, para tomar sobre si a culpa dos pecadores. U. Luz, Mateo , 215-218, não encontra dificuldade em aceitar que a expressão se refere à ação humana de cumprir a vontade de Deus em sua totalidade, tudo o que é justo. Além disso, ele enfatiza corretamente o aspecto cristológico e a natureza antecipatória de 5:17. Como estas são as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de Mateus e como encontramos uma frase inegavelmente redacional (o vocabulário é exclusivo de Mateus e está ausente nos paralelos de Marcos 1:9-11 e Lucas 3:21-22), compartilhamos da opinião de Luz: “A frase adquire um caráter programático. Jesus, obediente à vontade de Deus, torna-se o modelo e exemplo dos cristãos”, 217.
3 Evangelho de Mateus , 53.
4 Cf. A. Bottoli, "Natal. História. Teologia. Espiritualidade. Pastoral", para uso dos alunos. 5 R. Grandez, "Celebração do Batismo do Senhor", em CPL, Natal e Epifania , Barcelona, 1991, pp. 67-68.
1
FIESTA DEL EL BAUTISMO DEL SEÑOR
Primera lectura (Is 42,1-4.6-7)
Dentro del libro de Isaías tenemos los capítulos 40 a 55 que se atribuyen a un profeta del exilio al que se denomina Segundo Isaías y que es, sin duda, el profeta del amanecer, del despertar después de la larga noche del exilio en Babilonia (51,17; 52,1)1. A su vez dentro de estos capítulos tenemos una 1ª sección (Is 40,1–48,22) que trata sobre la liberación del destierro de Babilonia que llevará a cabo el Señor a través del rey persa Ciro. En esta sección también se proclama el anuncio de que el Señor elige a un «siervo», al que envía con el auxilio de su Espíritu para implantar la ley y la justicia (cf. Is 42, 1-7). En este primer cántico la figura del «siervo» resulta algo enigmática: el v.1 lo presenta como un individuo que recibe del Señor un trato especial: lo sostiene, lo elige, en él se complace su alma y ha puesto su espíritu sobre él. Y con una misión también especial: llevar el derecho, la justicia a las naciones (los paganos, los no judíos). Los vv. 2-4 nos describen "negativamente" su modo de obrar pues lo hacen con una serie de "no" que se refieren a acciones de cierta violencia (gritar, quebrar), es decir, su acción será humilde y pacífica; no-violenta. Pero esto no significa que será débil; al contrario, será perseverante hasta lograr su misión de instaurar el derecho justicia y la ley (Torá) sobre la tierra.
En 42,6-7 vuelve sobre la vocación o llamado personal que ha recibido este "siervo" y sobre la misión trascendente que recibe: "te destiné a ser la alianza del pueblo, la luz de las naciones, para abrir los ojos de los ciegos, para hacer salir de la prisión a los cautivos y de la cárcel a los que habitan en las tinieblas." La alianza de Dios con Israel ya había sido sellada con Moisés, pero Israel la rompió; y ahora este elegido viene a concluir la alianza con Israel de un modo nuevo y definitivo. Pero antes debe iluminar y hacer salir a los cautivos, o sea, liberarlos, salvarlos.
Evangelio (Mt 3,13-17):
Este relato se estructura en dos partes: 1) Los preliminares del bautismo (vv. 13-15); 2) La teofanía (vv. 16-17).
La primera parte narra la venida de Jesús al Jordán para ser bautizado. Al igual que en Mc 1,9-11, es la primera aparición pública de Jesús por lo cual también Mateo se detiene en precisar los datos geográficos y la circunstancia (3,13). Pero, siguiendo la comparación con Mc, notamos que Mateo añade un diálogo donde queda claro que Juan Bautista se resiste a bautizar a Jesús (3,14-15). En la negativa de Juan el verbo "impedía" está en imperfecto denotando la insistencia de Juan en no bautizar a Jesús. La razón de su negativa remite a lo que ya había anunciado sobre la superioridad del que había de venir y de su bautismo (cf. 3,11). Pero Jesús le da una orden (verbo en imperativo ἄφες ἄρτι): "permítelo/déjalo" y precisa que se trata algo transitorio y provisional: "ahora".
Lo que sigue de la respuesta de Jesús contiene un vocabulario típico de Mateo, en especial la expresión “cumplir toda justicia”, que suena un poco misteriosa. Para comprender el significado del término “justicia” (δικαιοσύνη) aquí nos ayudará ver el uso del verbo que lo acompaña (plhro,w) que en Mateo aparece 16 veces, 13 en pasivo, de las cuales 12 se refiere al cumplimiento de las Escrituras, mientras que la vez restante carece de significado teológico (13,38 "llenarse una red"). Este verbo, en voz activa como aquí en 3,15, aparece también en 5,17 y 23,32. En ambos casos se trata de cumplir o llenar una norma o medida fijada, sea la Ley y los profetas o la medida de los antepasados. Por tanto, podemos decir que la expresión "cumplir toda justicia" significa aquí llevar a plenitud, cumplir perfectamente la voluntad de Dios2. Vale decir que ambos deben cumplir la voluntad de Dios: Jesús porque así manifiesta su solidaridad con los hombres; y Juan Bautista porque debe admitir que el Mesías puede obrar de modo distinto a cómo él esperaba.
En cuanto a la teofanía, y comparándolo con Mc 1,10-11, notamos que en Mt el acto bautismal apenas se menciona mediante un participio y que el acento está puesto en la salida del agua. En esta escena, al igual que en Mc, hay apertura de los cielos, descenso del Espíritu como una paloma y una voz celestial. El abrirse o desgarrarse los cielos podría ser una referencia a Is 63,19: “Ojalá rasgases el cielo y bajases” dado que en el contexto de esta súplica Dios es llamado Padre (cf. Is 63,16; 64,7) y el Espíritu es mencionado tres veces (cf. Is 63,10.11.14). Otros piensan, sobre todo para Mt, en Ez 1,1: “Se abrió el cielo y contemplé visiones divinas (hvnoi ,cqhsan oi ` ouvranoi, kai . ei=don)”. La paloma en relación al Espíritu tiene también múltiples reclamos al AT, como ser Gn 1,2; 8,8; Is 38,14; Os 7,11; Sal 55,7.-
Por lo que respecta a lo dicho por la voz celestial, hay un cierto acuerdo en que nos remite al Sal 2,7 donde el Hijo recibe la investidura real y mesiánica; y al Siervo sufriente de Is 42,1; 44,2.21 en cuanto es amado y objeto de complacencia por parte del Padre.
La diferencia con Mc es que en Mt la apertura de los cielos es algo público al igual que la voz celestial la cual se dirige a la gente y a los lectores u oyentes, o sea a la comunidad y no a Jesús sólo como en Mc (“este es mi hijo amado” en vez de “Tú eres mi hijo…). Vemos aparecer aquí el aspecto eclesial tan propio de Mateo complementando la afirmación cristológica. Así la escena concluye con una revelación pública de Jesús como Hijo de Dios, siendo la comunidad mateana la destinataria de esta revelación y, por ello, quien tiene también la misión de revelar la verdadera identidad de Jesús. En cambio, la visión del Espíritu es algo propio de Jesús al igual que en Mc. La diferencia está en que Mt precisa que se trata del Espíritu de Dios.
Además de la filiación Divina, se afirma la unción mesiánica de Jesús, constituido Mesías por la Palabra del Padre y la donación de su Espíritu. El kerigma primitivo sostenía que Jesús fue ungido con el poder del Espíritu después de su bautismo (cf. He 10,37-38: "Ustedes ya saben qué ha ocurrido en toda Judea, comenzando por Galilea, después del bautismo que predicaba Juan: cómo Dios ungió a Jesús de Nazaret con el Espíritu Santo, llenándolo de poder", segunda lectura de hoy). Por su parte, considerando que la escena se inspira en Is 42,1 que también leemos hoy ("He aquí mi siervo a quien yo sostengo, mi elegido en quien se complace mi alma. He puesto mi espíritu sobre él: dictará ley a las naciones…"), pero cambiando la expresión "siervo" por "hijo", podemos concluir que la voz de Dios presenta a Jesús como Mesías-Hijo en la línea del siervo sufriente.
A modo de síntesis vale lo que dice A. Rodríguez Carmona3: "El texto tiene dos centros de atención íntimamente relacionados: en el primero Jesús profesa su determinación de cumplir en cada momento la voluntad del Padre; en el segundo el Padre lo reconoce públicamente como Hijo: obediencia y filiación son anverso y reverso de la misma realidad".
Algunas reflexiones:
La fiesta del Bautismo del Señor cierra el tiempo de Navidad y, por ello, hay que entenderla y celebrarla en continuidad con la solemnidad del nacimiento de Jesús. Justamente es en el sacramento del Bautismo donde se verifica el "admirable intercambio" celebrado en la Navidad. Esta teología la refleja la liturgia de esta solemnidad en sus oraciones: el Verbo de Dios, quien al manifestarse en la realidad de nuestra carne se hizo semejante a nosotros en lo exterior, nos transforma interiormente -reza la segunda colecta de la fiesta-; Jesús al entrar en el agua, quiso lavar los pecados del mundo -reza la oración sobre las ofrendas- y nosotros fuimos hechos hijos adoptivos por el agua y el Espíritu Santo; este nuevo bautismo en el Jordán ha sido “señalado” con signos admirables -expresión del prefacio-.4
La continuidad con la Navidad también hay que referirla al mensaje de la Palabra de Dios. En la misa del día de Navidad hemos escuchado el testimonio del evangelio de Juan: "La Palabra se hizo carne y habitó entre nosotros" (Jn 1,18). La Palabra Eterna del Padre asumió la condición humana y vino a habitar en nuestro mundo. Con esta obra de infinito amor Dios cumplió y superó lo que había anunciado a su pueblo Israel: Jesús es la Palabra personal del Padre, es el Hijo de Dios. Esto lo declara solemnemente el Padre quien mediante su voz celestial nos da testimonio de la identidad de Jesús: es Su Hijo amado.
Desde el punto de vista litúrgico también se nos señala la importancia de unir esta fiesta con la Epifanía: “El Bautismo del Señor es una fiesta de Epifanía, es decir de manifestación. En Oriente el icono del Bautismo del Señor, que es uno de los iconos cultuales bien determinados, es el icono de la Gran Teofanía, pues en el Bautismo se proclama la divinidad de Cristo y por lo mismo se da testimonio de la Trinidad. En la Natividad se manifiesta Cristo en el ámbito humilde de Belén. La Epifanía es la manifestación a los gentiles. El Bautismo es la manifestación de la unción de Cristo, la manifestación absoluta de la divinidad de Cristo en la Trinidad”5.
Juan Bautista había anunciado que el que viene después de él bautizará con el Espíritu, pues es alguien que estará lleno – ungido – del Espíritu que desciende sobre Él y lo conduce en su misión. Justamente el prefacio de esta fiesta lo proclama así: "Tu quisiste expresar, con signos admirables en el río Jordán, el misterio del nuevo bautismo, para que, por tu voz celestial, se manifestase que tu Palabra habitaba entre los hombres, y, por el Espíritu, que bajó en forma de paloma, se reconociera que Cristo, tu servidor, había sido ungido con el óleo de la alegría y enviado a evangelizar a los pobres".
La teofanía que sigue al bautismo nos conecta, en cierto modo, con el mismo Misterio de la Santísima Trinidad: el Padre, el Hijo y el Espíritu Santo. Las Tres personas divinas se hacen presentes aquí. La relación de la persona de Jesús como Hijo con el Padre y el Espíritu es Eterna, pero desde la Encarnación ha entrado en el tiempo y se manifiesta en el tiempo incluyendo ahora a la humanidad de Jesús. En Navidad, junto al Niño Jesús, veíamos a su Madre y a San José, su familia humana. Hoy se nos revela su Familia Trinitaria, el Padre y el Espíritu Santo en comunión con el Hijo hecho hombre en Jesús.
Jesús recibe aquí el Espíritu Santo y la "declaración de amor" de su Padre. Este es el principio y fundamento de la vida de Jesús como Hijo de Dios: saberse amado por el Padre, saberse aprobado por el Padre que se complace en Él. Aquí está el secreto de la libertad interior y afectiva de Jesús. No va mendigando amor porque ya lo tiene. No va mendigando la aprobación de los hombres porque ya tiene la aprobación del Padre. Jesús recibe el Amor personal de Dios, el Espíritu Santo. Es ungido por el Espíritu. Por eso su vida tendrá la libertad que da el Espíritu Santo, que conducirá su misión en este mundo.
También nosotros tenemos que descubrir en este "sentirse amados y aprobados por el Padre" el principio y fundamento de nuestra vida y la fuente de nuestra libertad interior y afectiva. Al respecto escribe H. Nouwen6: "Tu verdadera identidad es ser hijo de Dios. Es ésta la identidad que debes aceptar. Una vez que la has reivindicado y te has instalado en ella, puedes vivir en un mundo que te da mucha alegría y también mucho dolor. Puedes recibir alabanzas o calumnias que llegan a ti como una ocasión para fortalecer tu identidad fundamental, porque la identidad que te hace libre ha clavado su ancla más allá de toda alabanza y de toda calumnia humana. Tú perteneces a Dios, y como hijo de Dios has sido enviado al mundo."
El día del Bautismo del Señor, con que concluye el tiempo de Navidad, recuerda no solamente el bautismo de Jesús sino también el bautismo del cristiano. Al igual que subrayamos tanto la importancia de re-vivir en nosotros el nacimiento del Señor como parte esencial del misterio de Navidad celebrado en la liturgia; así también somos invitados a revivir nuestro propio bautismo en la fiesta del bautismo del Señor.
Nosotros, al ser bautizados, hemos recibido la filiación adoptiva por la cual el Padre nos ama como a hijos suyos en su Hijo Jesús; y se complace en nosotros como se complació en Él. Se trata de la vida de Hijos de Dios que "se nos transmitió el día del Bautismo, cuando «al participar de la muerte y resurrección de Cristo» comenzó para nosotros «la aventura gozosa y entusiasmante del discípulo» (Benedicto XVI, Homilía en la fiesta del Bautismo del Señor, 10 de enero de 2010). Por parte el Papa Francisco en el ángelus del 12 de Enero de 2020 decía: "En la fiesta del Bautismo de Jesús redescubrimos nuestro bautismo. Así como Jesús es el Hijo amado del Padre, también nosotros, renacidos del agua y del Espíritu Santo, sabemos que somos hijos amados ― ¡el Padre nos ama a todos! ―, que somos objeto de la satisfacción de Dios, hermanos y hermanas de muchos otros, con una gran misión de testimoniar y anunciar a todos los hombres y mujeres el amor ilimitado del Padre”.
En fin, nosotros hemos recibido también el Espíritu Santo que nos ha ungido como apóstoles y testigos de Jesús, como sus discípulos y misioneros. Y esto tiene que notarse.
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
Este es mi Hijo muy querido
Cada día se abren los cielos
Cuando levanto mis ojos y observo
El azul inmenso
Y espero, respiro profundo
Me quedo en silencio
Oídos atentos a las Palabras:
“Este es mi hijo muy querido, mi predilecto”
¡Cuánta fuerza la del Amor del Padre!
Colma nuestra capacidad de amar
Hasta dar la vida, mártir
Nada es más
Y en boca de la santa
Solo Dios basta.
Juan sin dudar, lo señalaba.
Te imagino Señor, ante el profeta
6 La voz interior del amor (Madrid 1998).
5
Como uno más de aquellos
Entre los curiosos
De tu época.
Bautismo de sangre y fuego
Viniste a enseñarnos eso
El rostro del Padre Eterno.
La imagen nuestra
Está en tus manos, Alfarero
Haznos dóciles al dolor de tu labor
Volver a empezar cada día
Quedarnos en silencio
Oídos atentos a las Palabras:
“Este es mi hijo muy querido, mi predilecto”. Amén
1 En general hay aceptación en datar la acción de este profeta al final del exilio, cerca del año 540 a.C. cuando el imperio babilónico comienza a colapsar habiendo surgido los persas capitaneados por Ciro.
2 En esto seguimos a K. Stock, Discorso della Montagna, 76. Por su parte Davies-Allison, Matthew, 326-327 supone que cuando Jesús cumple toda justicia está cumpliendo las profecías de la Escritura y encuentra una confirmación en 3,17 con las citas de Sl 2,7 e Is 42,1. En la misma línea A. Rodríguez Carmona, Evangelio de Mateo, 52, sostiene que Jesús recibe el bautismo para realizar un gesto del Siervo de Yahvé, tomar sobre sí la culpa de los pecadores. U. Luz, Mateo, 215-218, no encuentra dificultad en aceptar que la expresión se refiere a la acción humana de cumplir la voluntad de Dios en su globalidad, todo lo que es justo. Además, pone el acento - con razón- en el aspecto cristológico y en el carácter anticipador de 5,17. Dado que son las primeras palabras de Jesús en el evangelio de Mateo y que nos encontramos con una frase indiscutiblemente redaccional (el vocabulario es propio de Mateo y falta en los paralelos de Mc 1,9-11 y Lc 3,21-22) compartimos la opinión de Luz: "La frase adquiere un carácter programático. Jesús, obediente a la voluntad de Dios, pasa a ser el modelo y ejemplar de los cristianos", 217.
3 Evangelio de Mateo, 53.
4 Cf. A. Bottoli, "Navidad. Historia. Teología. Espiritualidad. Pastoral", para uso de los estudiantes. 5 R. Grandez, “Celebración del bautismo del Señor”, en CPL, Navidad y Epifanía, Barcelona, 1991, págs. 67-68.