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AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
1ª Leitura: Gênesis 12,1-4a
Salmo 32(33)-R- Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, venha a vossa salvação!
2ª Leitura: 2 Timóteo 1,8b-10
Evangelho de Mateus 17,1-9
Naquele tempo: 1Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. 2E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. 3Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 4Então Pedro tomou a palavra e disse: 'Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias.' 5Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: 'Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!' 6Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. 7Jesus se aproximou, tocou neles e disse: 'Levantai-vos, e não tenhais medo.' 8Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. 9Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: 'Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos.' Palavra da Salvação.
Mt 17,1-9
Celebramos hoje o dia em que Jesus se transfigurou no monte diante dos discípulos Pedro, Tiago e João. A liturgia da palavra nos fala do significado deste acontecimento.
O acontecimento da transfiguração de Jesus é descrito não apenas por S. Mateus, mas está presente também nos evangelhos de Lucas e de Marcos. Isto já nos mostra como este acontecimento é importante para a fé cristã.
1. O que a transfiguração significa em si mesma? Qual é a sua importância para a fé cristã?
A transfiguração revela para nós quem é Jesus Cristo. Ela possui um valor em si mesma como um fato miraculoso pelo qual se nos revela quem é finalmente Jesus. Neste momento o véu que encobria o mistério de sua pessoa é retirado. Por detrás de suas origens humildes, de sua pobreza, da insignificância de seus meios se esconde, verdadeiramente, a glória do Filho eterno do Pai.
Os discípulos não ficaram imunes ao conflito que se armara ao redor de Jesus. Quase todas as pessoas e as instituições daquele tempo se voltaram contra Ele. Jesus foi acusado de falso profeta, de herege, de possesso, de charlatão. Os sacerdotes acusaram Jesus de tudo isto. As pessoas piedosas e religiosas confirmaram estas acusações. Os políticos fizeram coro a esta interpretação. Ora, diante de tudo isso se levanta a pergunta: com quem está a verdade? Com a minoria - Jesus e os discípulos - ou com a maioria da sociedade e da religião daquela época?
A transfiguração desfaz todas as ambigüidades. É o próprio Deus do céu que se pronuncia em favor de Jesus: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo, ouvi-o sempre!".
Diante deste homem fraco e contestado nos encontramos diante do próprio Filho de Deus que visitou o seu povo para o libertar. A fé dos apóstolos e a nossa sai fortalecida porque o escândalo da insignificância histórica de Jesus é superado: vemos a glória de Deus, a Lei e os Profetas que dão testemunho dEle.
2. Qual o significado da Transfiguração para Jesus?
A transfiguração também tem um sentido para o próprio Jesus. Este acontecimento pode ser considerado dentro do contexto da vida de Jesus. O que estava acontecendo na vida de Jesus quando se deu a transfiguração? Jesus estava vivendo um momento de crise provocado pela sua própria pregação, pelas suas atitudes e pela sua vida.
A primeira fase do ministério público de Jesus tinha se caracterizado pelo entusiasmo, pela reação positiva do povo e dos apóstolos. Na medida, porém, que ia ficando claro o que Jesus queria com o anúncio do Reino uma crise começou a se armar. Por quê? Jesus pregava um Reino que era a transformação total do homem e do mundo mediante a conversão radical, de um novo tipo de relacionamento para com Deus, Pai de infinita bondade e para com todos os irmãos. E não era isso que o povo esperava: ansiava por um Messias libertador que iria instaurar um novo poder terrestre. Ora, Jesus não aceitou este tipo de messianismo. Por isso ele foi ficando cada vez mais só.
Jesus não só provocou a crise, mas também entrou na crise. Jesus se torna mais sério em sua linguagem, começa a entrever sua morte. Como é possível que Jesus entre em crise? É só lermos Hb: “embora fosse Filho, teve que se assemelhar em tudo a seus irmãos. Padeceu sendo tentado. Em sua vida mortal ofereceu a Deus preces e súplicas àquele que o podia salvar e foi escutado”.
Jesus se coloca em oração. É um momento importante, decisivo na vida de Jesus. É assim que neste clima de crise e tentação, mas também de oração que o Pai se manifesta ao Filho.
Jesus jamais quebrou a fidelidade ao seu Pai. Sofreu, mas assume aquilo que se revelou como vontade concreta de Deus: seguir fiel, mesmo tendo de morrer rejeitado na cruz.
A transfiguração significou para Jesus a certeza de que Deus não o havia abandonado. Todos podiam tê-lo rejeitado, os discípulos podiam ter compreendido mal suas palavras, Deus, entretanto, confirmou a justeza das decisões de Jesus.
A voz do Pai é clara: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo, ouvi-o sempre!”. Não somente os apóstolos, mas também Jesus sai fortalecido em sua fidelidade e obediência ao Pai.
3. Qual o sentido da transfiguração para os apóstolos?
Os apóstolos guardaram viva a lembrança deste acontecimento e os evangelistas nos transmitiram isto não apenas com a intenção de nos revelar o mistério da pessoa de Jesus, o Filho de Deus encarnado, nem somente para mostrar o apoio do Pai no meio das tentações de Jesus, mas também para nos comunicar uma lição.
Qual lição? O seguimento de Jesus implica comungar de sua vida e também de seu destino. Seguir Jesus significa abraçar o Reino de Deus e rejeitar o reino deste mundo, o pecado. Este seguimento inclui conversão, sacrifícios, rupturas. Mas o sentido de todo este empenho nos é revelado pela transfiguração: na cruz de Cristo há ressurreição, em todo o sacrifício vigora uma redenção e na morte por amor triunfa uma vida. Seguir Jesus não é só carregar a cruz, mas também ser glorificado, ser transfigurado nEle. Eis a grande lição que se tira da transfiguração de Jesus.
Nesta CF somos convidados a reconhecer no rosto desfigurado dos que morrem de fome o rosto de Jesus. Que nosso compromisso cristão possa fazer resplandecer no rosto desfigurado dos nossos irmãos a glória de filhos de Deus.
Os direitos à alimentação e à água revestem um papel importante para a consecução de outros direitos, a começar pelo direito primário à vida. Por isso, é necessária a maturação duma consciência solidária que considere a alimentação e o acesso à água como direitos universais de todos os seres humanos, sem distinções nem discriminações.
Gn 12,1-4a; Sl 33; 2Tm 1,8b-10; Mt 17,1-9
No segundo Domingo da Quaresma, a Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir: é o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus projetos, da obediência total e radical aos planos do Pai.
O Evangelho relata a transfiguração de Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo Testamento, o autor apresenta-nos uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que vai concretizar o seu projeto libertador em favor dos homens através do dom da vida. Aos discípulos, desanimados e assustados, Jesus diz: o caminho do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Segui-o, vós também.
Na primeira leitura apresenta-se a figura de Abraão. Abraão é o homem de fé, que vive numa constante escuta de Deus, que sabe ler os seus sinais, que aceita os apelos de Deus e que lhes responde com a obediência total e com a entrega confiada. Nesta perspectiva, ele é o modelo do crente que percebe o projeto de Deus e o segue de todo o coração.
Na segunda leitura, há um apelo aos seguidores de Jesus, no sentido de que sejam, de forma verdadeira, empenhada e coerente, as testemunhas do projeto de Deus no mundo. Nada – muito menos o medo, o comodismo e a instalação – pode distrair o discípulo dessa responsabilidade.
“E foi transfigurado diante deles” (Mt 17,2)
O relato da Transfiguração em Mateus começa por um dado significativo: “Seis dias depois...”
Inevitavelmente, o leitor se pergunta o que tinha ocorrido de tão importante seis dias antes e se encontra com o primeiro anúncio da paixão.
Mateus compõe seu evangelho tendo como horizonte a nova Criação. O relato da Transfiguração “acontece” seis dias depois. Estamos no sétimo dia. A criação não se conclui na “desfiguração” (morte), mas na Transfiguração (ressurreição).
O sexto dia precede o sábado no calendário judaico. É a véspera do Shabbath no qual se celebra o final da Criação, o descanso de Deus por ter completado sua obra. É o dia da comunhão universal, dia da integração festiva de todas as criaturas, dia do repouso como prolongamento do repouso do Criador.
Mas o “sexto dia” é o que nos ocupa hoje, e nesse dia, que precede o Shabbath, acontece algo no monte.
Neste sexto dia de nossa vida, quando reconhecemos que há algo inacabado em nós e ao nosso redor, na maneira de viver e conviver, somos convidados a “subir” o monte, em companhia de outros.
Subir e tomar distância da agitação diária; subir para ter outra perspectiva da vida, acolher a experiência que nos é oferecida.
A Montanha nos faz perceber (a partir do alto) certos aspectos do vale que passam desapercebidos.
Permanecer no vale, sem ter momentos de Montanha, é fechar-nos, cair na rotina, não perceber novos horizontes, não alargar a cabeça e o coração, não ampliar a visão das coisas, da realidade, da história...
O vale é o lugar do compromisso, do trabalho, da construção..., mas iluminado pela experiência da Montanha. Todo gesto no vale tem plenitude, tem ressonâncias... a partir da Montanha – Adroaldo Palaoro
Nosso compromisso no vale deve ser fruto do discernimento acolhido na Montanha; esta, nos devolve ao vale com outra visão, outro dinamismo; a Montanha ilumina, dá sentido e sabor à nossa vida no vale.
O vale é o lugar do compromisso, do trabalho, da construção..., mas iluminado pela experiência da Montanha. Todo gesto no vale tem plenitude, tem ressonâncias... a partir da Montanha.
A Montanha também nos revela que Deus continua “trabalhando” no vale da vida e nos impulsionando a “trabalhar” com Ele na mesma direção.
Como seguidores(as) de Jesus, devemos saber criar, em nossas vidas, espaço e momentos de Montanha (plenitude, silêncio, interioridade, escuta, discernimento); isso possibilita uma prática eficaz, um compromisso duradouro, uma decisão enraizada, uma presença transformadora nos “vale da vida”.
Subir à Montanha nos possibilita ler os horizontes e perceber se estamos caminhando na direção certa; isso implica tomar distância do ritmo diário, descobrir novos caminhos e novas decisões...
É na montanha que temos mais sensibilidade para escutar a voz do Senhor: “este(a) é o(a) meu(minha) filho(a) amado(a). A experiência do amor incondicional de Deus derruba grossos muros, arranca nossas máscaras, revela-nos quanto valemos aos Seus olhos e dá-nos uma nova liberdade para sermos nós mesmos.
Na Montanha somos olhados por Ele em profundidade e esse olhar revela nossa verdade mais original, nossa identidade mais profunda.
Trata-se de um olhar de aceitação, de amor, que nos faz descobrir o quanto valemos, que nos chama à vida, que nos livra do mundo de sombras, medos e inseguranças, que nos faz descobrir o gosto de viver sem máscaras, como alguém respirando ar puro.
Rostos resplandecentes, luz, vestes luminosas: a partir da Luz, a partir de Deus, todas as realidades humanas são vistas de maneira diferente, contemplativa.
Cedo ou tarde, todos corremos o risco de nos instalarmos na vida, buscando o refúgio cômodo que nos permita viver tranquilos, sem sobressaltos ou preocupações, renunciando a qualquer outra aspiração.
A humanidade de Jesus deixa transparecer a proximidade de Deus. O Pai se revela presente na humanidade de Jesus. Por isso, seu rosto era luminoso como o sol. “Eu sou a luz”.
Não temos de caminhar para uma meta fantástica que nos prometem, mas descobrir já, em cada um de nós, o mais sublime dom, o próprio Deus. Somos transfigurados porque somos habitados por uma Presença, sempre providente e cuidadosa – Adroaldo Palaoro
Jesus era totalmente luz porque Deus o inundava; esse é o ponto de partida para Ele e para nós. Não devemos esperar nenhuma transfiguração, mas descobrir nosso ser não desfigurado. Já somos “transfigurados”, e não sabíamos. Não temos de caminhar para uma meta fantástica que nos prometem, mas descobrir já, em cada um de nós, o mais sublime dom, o próprio Deus. Somos transfigurados porque somos habitados por uma Presença, sempre providente e cuidadosa.
Sabemos, por experiência, que há um modo de “instalar-nos” que pode ser falsamente reforçado com “tons cristãos”. É a eterna tentação de Pedro que nos espreita sempre: “construir tendas no alto da montanha”. Ou seja, buscar na religião um bem-estar interior, fechando-nos em práticas “piegas”, ritos estéreis, devoções vazias..., fugindo da responsabilidade de construir uma convivência mais humana, um compromisso solidário e uma atuação em favor da transformação da realidade, tão injusta e tão desumana. É preciso também “transfigurar” nossa vivência religiosa e “descer” da montanha para prolongar o modo de ser e viver de Jesus junto aos marginalizados e excluídos.
A mensagem de Jesus é clara. Uma experiência religiosa não é verdadeiramente cristã se nos isola dos irmãos, se nos instala comodamente na vida e nos afasta do serviço aos mais necessitados.
Essa transfiguração interna se revela também na transfiguração das nossas atividades cotidianas mais comuns e nos encontros com os outros.
Como seres humanos, fazemos muitas coisas que os animais fazem, mas fazemo-las de maneira diferente e com sentidos mais profundas: comemos, mas nossa refeição torna-se encontro, festa, celebração; transfiguramos o alimento. Trabalhamos, mas como uma intenção nobre, com uma inspiração que transcende o próprio trabalho. Convivemos, mas, vamos além da proteção grupal: transfiguramos as relações, os encontros, os diferentes laços humanos. Nossa sexualidade não é mera genitalidade, mas afeto e amor; transfiguramos a dimensão afetiva humana. Viver humanamente é transfigurar a existência.
A transfiguração é uma vivência luminosa, um ver a vida a partir da perspectiva de Deus. Na vida temos de ter um pouco mais de lucidez e de sensatez para olhar em profundidade, para transfigurar as realidades cotidianas: uma experiência de elevação, de sentimentos “oceânicos”, de uma consolação intensa...
Talvez isso já tenha ocorrido alguma vez quando escutamos uma música, vimos a bondade de uma pessoa, a fidelidade silenciosa no trabalho, a leitura de um salmo ou uma poesia, a contemplação da natureza, etc... Tantas vezes vemos as mesmas realidades cotidianas e, num belo dia, de maneira surpreendente, tais realidade provocam um impacto profundo em nós e, assim, caímos na conta de aspectos e valores aos quais não éramos conscientes. Muitas vezes, quando nos encontramos com determinadas pessoas, “não vemos nada”, não transluzem nada; outras vezes, encontramos uma pessoa simples, humilde, que transmite luz, bondade, proximidade... São vivências transfiguradas.
Para meditar na oração:
A voz do céu, a voz que ressoa no interior de cada um é de amor: “este(a) é meu(minha) filho(a) amado(a)”. Deus se compraz em seu Filho e em nós, que também somos seus filhos(as). O melhor que pode nos acontecer é que nos sintamos queridos(as), amados(as) e acolhidos(as) por Deus.
- A oração faz emergir à consciência uma nova imagem de nós mesmos e indica com o dedo uma área da nossa personalidade que necessita ser transfigurada com criatividade; ela promove um desenvolvimento criativo, eliminando a distância entre a imagem real e as falsas imagens que habitam o nosso interior.
- Através do encontro com o Senhor, no silêncio da montanha, a oração revela quem somos realmente, e amplia nossa vida para além de nossas pequenas fronteiras. Com efeito, orar é aproximar-nos da “verdade que nos faz livres”; livres para sermos “nós mesmos”, chegar a ser aquilo para o qual somos chamados a ser.
Há poucos anos, a religião oferecia à maioria das pessoas critérios para interpretar a vida e princípios para guiá-la com significado e responsabilidade. Hoje, ao contrário, muitas pessoas ignoram Deus para enfrentar sozinhas suas vidas, desejos, medos e expectativas.
Não é uma tarefa fácil. Provavelmente nunca foi tão difícil e problemático para um indivíduo parar para pensar, refletir e tomar decisões sobre si mesmo e sobre o que é verdadeiramente importante em sua vida. Vivemos imersos em uma "cultura da trivialidade", que prende as pessoas ao "aqui" e ao "agora", fazendo-as viver apenas para o imediato, sem qualquer abertura para o mistério último da vida. Movemo-nos dentro de uma "cultura do entretenimento" que distancia as pessoas de si mesmas e as faz esquecer as grandes questões que carregam em seus corações.
O homem moderno aprendeu muitas coisas, está informado sobre tudo o que acontece no mundo ao seu redor, mas desconhece o caminho para o autoconhecimento e para a construção da sua liberdade. Muitos concordariam com a descrição sombria feita há alguns anos pelo diretor de La Croix, G. Hourdin: "O homem está se tornando incapaz de amar, de ser livre, de julgar por si mesmo, de mudar seu modo de vida. Ele está se tornando o robô disciplinado que trabalha para ganhar dinheiro, que depois desfrutará em férias coletivas. Lê revistas de moda, assiste aos programas de televisão que todos os outros assistem. Dessa forma, aprende o que é, o que quer e como deve pensar e viver."
Agora, mais do que nunca, precisamos atender ao chamado do Evangelho: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ouçam-no!” Precisamos parar, silenciar e escutar com mais atenção o Deus revelado em Jesus. Essa escuta interior nos ajuda a viver na verdade, a saborear a vida em sua essência, a não desperdiçá-la de forma alguma, a não passar superficialmente pelo essencial. Ao escutarmos Deus encarnado em Jesus, descobrimos nossa pequenez e pobreza, mas também nossa grandeza como seres infinitamente amados por Ele.
Cada pessoa é livre para viver ouvindo a Deus ou virando-Lhe as costas. Mas, em qualquer caso, há algo que todos devemos lembrar, por mais escandaloso e contrário à cultura dominante que possa parecer: viver sem um propósito final é viver "insensatamente "; agir sem ouvir a voz interior da consciência é ser "inconsciente".
Seis dias depois, Jesus chamou Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os levou para um alto monte, onde estavam sozinhos. Ali, ele foi transfigurado diante deles. Seu rosto brilhou como o sol, e suas roupas tornaram-se brancas como a luz. De repente, Moisés e Elias apareceram diante deles, conversando com Jesus. Pedro disse a Jesus: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se quiseres, construirei três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”. Enquanto ele ainda falava, uma nuvem brilhante os envolveu, e dela saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ouçam-no!”. Ao ouvirem isso, os discípulos prostraram-se com o rosto em terra, tremendo de medo. Mas Jesus aproximou-se, tocou-os e disse: “Levantem-se! Não tenham medo”. Quando olharam para cima, viram apenas Jesus. Enquanto desciam da montanha, Jesus os instruiu: “Não contém a ninguém o que vocês viram, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos” (Mateus 17,1-9).
Este relato da Transfiguração ocorre depois que Jesus fez sua primeira predição da Paixão aos seus discípulos (Mt 16,21). Pedro o repreende por dizer tais coisas, e Jesus o repreende severamente, chamando-o de "Satanás", porque ele parece não o compreender e, além disso, quer impedir que Jesus sofra esse destino. Nesse contexto, o relato da Transfiguração prenuncia, de certa forma, que a morte não tem a palavra final, pois a glória virá, a qual envolverá Jesus e aqueles que estão com ele. Por essa razão, Jesus leva Pedro, Tiago e João consigo, e eles sobem ao monte onde a Transfiguração ocorrerá.
No Evangelho de Mateus, a imagem da montanha aparece diversas vezes. Ela é usada nas tentações, quando o diabo o leva a uma montanha muito alta (Mt 4,8-10), e é também em uma montanha que Jesus profere seu sermão inaugural (capítulos 5-7). É também em uma montanha que ele se despede de seus discípulos (Mt 28,18-20). Para Mateus, a montanha é o lugar onde Deus se manifesta, como fez com Moisés, entregando-lhe as tábuas da Lei (Êx 31,18), ou com Elias, quando o profeta está em crise e sobe o Monte Horebe em busca de Deus (1 Reis 19,1-18).
Nesta passagem, Jesus vai com seus discípulos à montanha, e ali ocorre o mistério da Transfiguração, onde os apóstolos veem Jesus brilhando como o sol e vestindo roupas brancas; ele também é visto conversando com Moisés e Elias. Nesse momento, Pedro se pronuncia e sugere a construção de três tendas. Sem dúvida, todos queremos nos deter nos momentos de glória e fugir das dificuldades. Mas a experiência continua, e uma voz do céu confirma que Jesus é o Filho amado, o escolhido a quem eles devem ouvir. É então que os discípulos sentem medo. Esse medo é mais uma “reverência reverencial” diante do divino, ou seja, o reconhecimento daquela realidade transcendente que eles são capazes de perceber. Jesus lhes diz para não terem medo e os adverte para não contarem a ninguém até depois da ressurreição.
Se interpretarmos essa passagem literalmente, poderíamos pensar que os discípulos já sabiam tudo o que iria acontecer a Jesus: sua morte e sua futura ressurreição. Portanto, não faria sentido Pedro negá-lo mais tarde e todos os discípulos fugirem no momento de sua morte. Por isso, é necessário lembrar que todos os Evangelhos foram escritos no contexto da Páscoa; ou seja, todos os eventos já haviam ocorrido, e foi então que as diferentes comunidades começaram a registrar suas experiências vividas por escrito.
Nesse sentido, o que na vida histórica dos discípulos era talvez uma intuição, uma certa certeza — e por isso seguiam Jesus — na escrita dos Evangelhos já aparece como um fato consumado, como um momento em que, contrariamente à perseguição que Jesus logo sofreria, eles se convenciam de que esse era o caminho que Deus queria, porque, de fato, Jesus era o Filho amado de Deus.
Em nossas vidas, também temos momentos de certeza, quando nossas escolhas se fortalecem e nos impulsionam para um maior comprometimento e radicalismo. Devemos manter esses momentos em mente para que nos sustentem em tempos de dúvida e incerteza. Jesus é o Filho de Deus, e o seu reino é a vontade de Deus para a humanidade. Acreditemos na sua mensagem, apesar das dificuldades, com a firme esperança de que Deus tem a palavra final, e essa palavra é de vida e salvação.
A gente tende a esquecer que além de serem um resumo dos momentos mais marcantes da vida de Jesus os quatro Evangelhos eram para as comunidades doa anos 70 depois de Jesus, e para nós mais de 2000 anos mais tarde, uma fonte de consolo para o sofrimento do momento presente (ser seguidor exige passar pela Cruz?), uma nova maneira de entender o passado (ser seguidor tem que ser tão radical) e uma prática que abria o caminho para o futuro com Deus (como não ter medo, e como ouvir o que Ele tem a nos dizer.
O relato da Transfiguração, da Leitura Orante deste domingo é um exemplo disso. A Transfiguração acontece depois do primeiro anúncio da Morte de Jesus. “Daí em diante, Jesus começou a dizer claramente aos discípulos: Eu preciso ir para Jerusalém, e ali os líderes judeus, os chefes dos sacerdotes e os mestres da Lei farão com que eu sofra muito. Eu serei morto e, no terceiro dia, serei ressuscitado (Mt 16,21).
Este anúncio mexeu com a cabeça dos discípulos, sobretudo de Pedro (Mt 16,22-23). Eles tinham os pés no meio dos pobres, mas a cabeça estava perdida no jeito de pensar da classe rica e dominante da época. Eles esperavam, e queriam, um messias glorioso. A cruz era um impedimento para crer em Jesus.
Lembrar a Transfiguração de Jesus, um momento glorioso no alto da montanha, era uma ajuda para eles poderem superar o trauma da Cruz e descobrir em Jesus o verdadeiro Messias. Muitos anos depois, quando a Boa Nova já estava sendo anunciada naquela região, a Cruz continuava sendo um grande impedimento para os judeus e para os pagãos aceitarem Jesus como Messias. “A cruz é uma loucura e um escândalo!”, assim diziam (1Cor 1,23).
Um dos maiores esforços dos primeiros cristãos consistia em tentar ajudar as pessoas a perceberem que a cruz não era escândalo nem loucura, mas sim a expressão mais bonita e mais forte do poder e da sabedoria de Deus (1Cor 1,22-31). A leitura de hoje mostra que a Cruz era, e é hoje, o caminho para a Glória. Não há outro caminho.
Vamos meditar a leitura
Jesus muda de aspecto – vs1-3
Jesus sobe a uma montanha alta. Lucas acrescenta que ele subiu para rezar (Lc 9,28). Lá em cima, Jesus aparece na glória diante de Pedro, Tiago e João. Junto com Jesus aparecem Moisés e Elias.
A montanha alta lembra o Monte Sinai, onde, no passado, Deus tinha manifestado sua vontade ao povo, entregando as tábuas da lei. As vestes brancas lembram Moisés que ficava intensamente brilhante quando conversava com Deus e dele recebia as tabuas da lei (Ex 34,29-35). Elias e Moisés (as duas maiores autoridades do Antigo Testamento) conversam com Jesus. Moisés representa a Lei, Elias, a profecia. Lucas descreve a cena com mais detalhes “Eles falavam com Jesus a respeito da morte que, de acordo com a vontade de Deus, ele ia sofrer em Jerusalém” (Lc 9,31). O Antigo Testamento, Lei (Moises) e Profetas (Elias), já ensinava que, para o Messias, o caminho da glória tinha de passar pela cruz.
Pedro gostou, mas não entendeu – v 4
Pedro gostou e quis segurar o momento agradável na Montanha. Ele se oferece para construir três tendas. Marcos (Mc 9,6), diz que Pedro estava com medo, sem saber o que estava dizendo. Lucas acrescenta que os discípulos estavam com sono (Lc 9,32). Eles são como nós: têm dificuldade para entender a Cruz!
A voz do céu esclarece os fatos- v 5-8
Enquanto Jesus é envolvido pela glória, uma voz do céu diz: "Este é o meu Filho amado, que muito me agrada. Escutem o que ele diz". A expressão “Filho amado” faz lembrar a figura do Servo, do profeta Isaías – “aqui está o meu servo, o meu escolhido, que dá muita alegria ao meu coração” (Is 42,1). A expressão “Escutem o que ele diz” evoca a profecia, “do meio de vocês Deus escolherá para vocês um profeta que será parecido comigo, e vocês vão lhe obedecer” (Dt 18,15).
Em Jesus, as profecias do AT estão se realizando. Os discípulos já não podem duvidar. Jesus é realmente o Messias glorioso e o caminho para a glória passa pela cruz, conforme tinha sido anunciado na profecia do Messias Servo (Is 53,3-9). A glória deste momento é prova disso. Moisés e Elias o confirmam. O Pai o garante. Jesus o aceita.
Diante de tudo que estava acontecendo os discípulos ficam com muito medo e caíram com o rosto por terra. Jesus se aproxima, toca neles e diz: "Levantem-se, e não tenham medo." Os discípulos levantam os olhos e veem só Jesus e ninguém mais. Daqui para a frente, Jesus é a única revelação de Deus, tanto para eles como para nós! Jesus, e só ele, é a chave para podermos entender a Escritura e a Vida.
Saber guardar o silêncio – v 9
Jesus pedia aos discípulos para não dizer nada a ninguém até que ele tivesse ressuscitado dos mortos. Segundo São Marcos eles não compreenderam o que significava ressurreição dos mortos (Mc 9,10). De fato, quem não liga o sofrimento com a ressurreição não entende o significado da Cruz. A Cruz de Jesus é a prova de que a vida é mais forte que a morte. A gente obtém a compreensão do seguimento de Jesus somente pelo compromisso prático, caminhando com ele no caminho do servir.
Para um confronto pessoal
1-Você já teve algum momento de transfiguração e de alegria intensa de Deus? De que jeito essa experiência serve como força na hora das dificuldades?
2- Nós temos 33 milhões de conterrâneos passando fome. Como transfigurar, hoje, essa situação? Jesus disse “Dai-lhes, vós mesmos de comer”
O texto que hoje a Igreja é convidada a ler e meditar inicia-se com a breve frase “seis dias depois”. Mas, que aconteceu anteriormente? No final do capítulo 16 lemos que Jesus anuncia a Paixão e a Ressurreição e as dificuldades dos discípulos de aceitar esse tipo de Messianismo. Pedro aparece como opositor a essa imagem do Messias, ele não pode aceitar que seu Mestre seja morto dessa forma, e por isso reage provocando ao mesmo tempo o rechaço de Jesus às suas palavras que procuram afastá-lo da Vontade do Pai.
Todos os/as discípulos/as devem ter a mesma sorte que Jesus, por isso a necessidade de carregar com a cruz e dar a vida como seu Mestre. É a cruz sofrida por tantas e tantas pessoas: a cruz da injustiça, da miséria, dos excluídos, a cruz que gera intolerância, exclusão e miséria.
Seis dias depois Jesus escolhe três discípulos e os leva a um monte alto. Jesus terá uma nova manifestação que fortalecerá a fé e a esperança dos discípulos nele.
O Evangelista recolhe um acontecimento recebido pela tradição (oral e escrita) e preocupa-se também com os discípulos que recebem seu texto. No meio de perseguições é necessário fortalecer sua fé e alentar seu ânimo.
Para entender melhor sua mensagem, deixemos que as palavras nos comuniquem sua riqueza.
Lembremos que no evangelho de Mateus o monte aparece em várias oportunidades: como lemos no domingo passado, Jesus é levado pelo diabo “para um monte muito alto” (4,8-10). Num monte ele pronuncia seu primeiro discurso: “Jesus viu as multidões, subiu à montanha e sentou-se”. ”Os discípulos se aproximaram, e Jesus começou a ensiná-los”.
Depois da multiplicação dos pães e de “despedir as multidões, Jesus subiu sozinho ao monte, para rezar” (14, 23). Depois da ressurreição, quando ele se despede dos discípulos, convida-os para ir a um monte: “Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado (28,16).”
Hoje Jesus escolhe Pedro, Tiago e João e os leva a “uma montanha alta”. Ao longo de toda sua vida Jesus sobe a Jerusalém para ser conduzido, levando uma cruz e suportando os insultos de todas as pessoas que estão ao seu redor. Aí ele deve carregar uma cruz onde será crucificado e morto: no Calvário.
No monte alto “Jesus se transfigurou diante deles: o seu rosto brilhou como o sol, e as suas roupas ficaram brancas como a luz”. E apareceram duas pessoas conversando com Jesus: Moisés e Elias.
Moisés é uma figura muito importante, representa a Lei. Elias simboliza os Profetas. Jesus é o novo Moisés e o novo Elias, a Ele é a quem devem escutar.
Este encontro de Jesus com eles nesse momento particular remete a diferentes momentos de sua vida, onde se escuta a voz de Deus que lhes encomenda uma missão.
O monte é também para eles um espaço de encontro com Deus. Moisés é chamado na montanha de Deus (Ex 19,3) e mais adiante recebe os mandamentos na montanha: Javé disse a Moisés: «Suba até junto de mim na montanha, pois eu estarei aí para lhe dar as tábuas de pedra com a lei e os mandamentos que escrevi, para você os instruir». Moisés se levantou com seu ajudante Josué. E subiram à montanha de Deus. (Ex 24, 12-14). Elias num monte tem seu encontro pessoal com Deus que “passa como uma brisa suave” (1Rs 19,13) e encomenda-lhe uma missão.
Os discípulos experimentam o agrado de ser introduzidos no mistério de Jesus, na luz de sua presença. Uma profunda alegria os inunda. Pedro expressa o desejo de toda pessoa quando experimenta um momento de profunda paz e alegria interior: Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias.
Mas essa experiência não é para ficar assim eternamente. Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra, e da nuvem saiu uma voz que dizia: «Este é o meu Filho amado, que muito me agrada. Escutem o que ele diz.»
Eles recebem uma missão, que é escutar o Filho amado do Pai! Possivelmente esta experiência lhes é oferecida para sustentar sua fé, aqueles que estavam junto a Jesus e também para as comunidades a quem está dirigido o Evangelho. É uma palavra de coragem no meio de diferentes situações difíceis que acontecerão a toda pessoa que siga Jesus: perseguições, dúvidas e desesperança no interno das comunidades, como também acontecem hoje. Podemos ler o texto: “Cristãos em terra do Islã. Bem-aventurados os perseguidos”.
Jesus manifesta-se desde a Vitória sobre a morte, para fortalecer sua fé e confiança nele. Faze-lhes participar de seu alento e a paz que vem de Deus.
Jesus conhece a debilidade de seus amigos, e procura fortalecê-los. Por isso suas primeiras palavras são: não tenham medo. Eles ficaram com um medo sagrado diante da presença de Deus, mas uma vez mais, Jesus apresenta-se como um Deus amigo, que está ao seu lado. Não devemos ter medo. Ele está aí, conhece nossa debilidade e fraqueza e sempre está disposto a fortalecê-la. O texto revela-nos a possibilidade dessa intimidade com Deus, com seu Amor que envolve os discípulos.
Neste domingo de Quaresma somos convidados a deixar-nos iluminar pela presença de Jesus que nos comunica a misericórdia do Pai, como lembra Francisco no seu livro-entrevista: “O nome de Deus é Misericórdia”.
É um tempo de renúncia a nós mesmos para dar espaço ao Amor de Deus que liberta e purifica nossas obscuridades, se as abrimos a serem iluminadas pela sua graça. Dessa forma participaremos mais profundamente na ressurreição de Jesus, deixando-nos transfigurar pela sua Vida.
É um convite pessoal e para contribuir com nossa luz na vida daqueles que nos rodeiam. Assim tinha dito Jesus “Vocês são a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte porque uma luz acima de um monte não pode ser ocultada” (Mt 5, 14).
(A TRADUÇÃO PODE SER CONFERIDA COM O ORIGINAL, QUE ESTÁ POSTADO LOGO APÓS)
SEGUNDO DOMINGO: A TRANSFIGURAÇÃO do mal
1ª Leitura (Gênesis 12:1-4):
Em Gênesis 12:1-4, Deus interrompe inesperadamente a narrativa para dar a Abrão uma ordem para partir (imperativo presente: agora, imediatamente!) e várias promessas (futuro: mais tarde!) que serão repetidas. É notável que não foi Abraão quem buscou a Deus, mas sim Deus quem buscou Abrão. A Palavra de Deus entra em diálogo com Abrão e desenvolve com ele a história da salvação. Deus, antes de tudo, exige que Abrão rompa todos os laços naturais, que são descritos como formando um círculo mais fechado: sua terra natal, seus parentes e sua família (a casa de seu pai). Abrão deve deixar tudo — pura e simplesmente — e confiar-se à orientação de Deus, à Palavra de Deus. Em troca do que ele deixa para trás, Deus oferece a Abrão uma série de promessas . Nessas promessas de Deus, a ideia central é a bênção , visto que essa palavra aparece cinco vezes em Gênesis 12:2-3, em contraste com as cinco vezes em que a palavra maldição aparece em Gênesis 1-11 (3:14, 17; 4:11; 5:29; 9:25). No Antigo Testamento, o conteúdo fundamental de toda bênção divina é uma vida longa e frutífera, ou seja, um grande número de descendentes (cf. Gênesis 1:22, 28). A promessa é ainda reforçada pela frase " engrandecerei o teu nome ", que significa dar-lhe glória.
O versículo 3 nos mostra que o alcance da bênção vai além da pessoa singular de Abrão, pois a situação dos homens dependerá da atitude que assumirem em relação a essa intervenção histórica de Deus: a quem abençoa, bênção; a quem amaldiçoa, maldição .
Abrão permanece em silêncio e obedece prontamente, apesar da terrível ordem de se desarraigar . Como J. Loew observa acertadamente: “Não temos palavras, por assim dizer, de Abraão: sua própria vida é a resposta.” ¹ A resposta de Abrão é partir em obediência à palavra de Deus (12:4). Essa obediência à palavra de Deus já constitui um ato de fé (cf. Gn 15:6; Rm 4:3, 9, 16-22). Poderíamos dizer, esquematicamente, que essa fé é tanto uma jornada quanto uma descoberta . A aventura de Abrão é uma marcha para o desconhecido com a única garantia de uma promessa divina.
A mensagem deste texto, no contexto do livro de Gênesis, é que Deus intervém na história da humanidade para restaurar seu significado positivo. O pecado humano introduziu a maldição; agora Deus reintroduz a bênção por meio de Abrão. A maldição entrou no mundo pela desconfiança e desobediência; a bênção entrará pela fé, ou seja, pela confiança e obediência. Portanto, Abrão crê e obedece . Isso não significa um retorno a Gênesis 1-2, onde tudo era uma bênção. Ao longo da história, haverá tanto bênção quanto maldição, e a presença de uma ou de outra dependerá da resposta da humanidade à dádiva de Deus.
A fé de Abrão não é um salto no vazio, mas uma entrega confiante à promessa de Deus. Em última análise, a fé de Abrão é sustentada por essas palavras de conforto, por essa promessa que será a força motriz de toda a sua vida.
2a. Lectura (2Tm 1,8-10):
Esta segunda leitura dá continuidade aos temas das duas anteriores. O apóstolo procura encorajar seu discípulo Timóteo a aceitar o que deve ser sofrido por amor ao Evangelho. Para isso, primeiro o lembra da iniciativa de Deus em nos salvar e nos escolher ; e depois apresenta-lhe o fruto e o propósito dessa vocação, que é a vida e a imortalidade (Zon kastha 1:10). Desta forma, ele o guia para o significado eterno contido no Evangelho.
Evangelho (Mt 17,1-9):
O relato da Transfiguração é situado nos três Evangelhos Sinópticos imediatamente após o primeiro anúncio da Paixão e a exigência de renúncia total para seguir Jesus. Em Mateus, essa conexão é explicitada pela referência cronológica com que o relato começa: “Seis dias depois”. Isso remete ao anúncio anterior de Jesus em Mateus 16:28: “Em verdade vos digo que alguns dos que aqui estão não provarão a morte antes de verem o Filho do Homem vindo em seu reino”; uma profecia que encontraria seu cumprimento na Transfiguração (Mateus 17:1-9).
Relacionando a transfiguração ao primeiro anúncio da paixão, podemos dizer que era necessário que pelo menos alguns de seus discípulos ( Pedro, Tiago e João, aqueles considerados como colunas em Gálatas 2:9 ) tivessem uma experiência que dissipasse o medo e a angústia gerados por tal anúncio, e para esse propósito, foi-lhes concedida uma visão antecipada da glória prometida após o sofrimento .
Em Mateus, esses três discípulos são os mais próximos de Jesus e aparecem com ele em dois momentos cruciais: a Transfiguração e o Jardim do Getsêmani (cf. Mt 26,37). Portanto, Pedro, Tiago e João estão associados tanto à agonia quanto à glória de Jesus. Essa associação dos três discípulos com o Mistério Pascal é paradigmática para todos os outros discípulos de Jesus.
Jesus leva Pedro, Tiago e João a um monte alto. A presença de Moisés e Elias posteriormente nos permite ver os eventos no Monte Sinai (cf. Ex 19-34) ou Horebe (cf. Dt 5), onde Deus estabeleceu sua aliança com Israel e revelou sua vontade por meio de Moisés, como pano de fundo para a Transfiguração. Talvez mais especificamente, relaciona-se à cena narrada em Ex 24, onde Moisés sobe acompanhado por três homens (Arão, Nadabe e Abiú), e ali a nuvem os envolve, e eles ouvem a voz de Deus. Mateus, por sua vez, também liga isso ao "monte alto" onde o diabo leva Jesus para submetê-lo à terceira tentação (cf. Mt 4,8), e onde Jesus se recusa a reconhecer o diabo como Senhor do mundo e mantém sua divindade, seu ser Filho de Deus, oculta. Em contraste, na Transfiguração, Jesus revelará sua divindade aos seus seguidores para que possam vencer a tentação do desânimo provocada por seu ocultamento e pela cruz.
No monte, Jesus foi transfigurado diante dos três apóstolos. O termo grego usado no Evangelho para descrever a transfiguração (metamorphomai) implica uma transformação ou mudança de forma, imagem ou figura. Referindo-se a Cristo, os Padres da Igreja entenderam-na como uma manifestação de sua divindade, que até então permanecera oculta sob o véu de sua humanidade. Essa transformação se expressa por meio de dois efeitos externos visíveis: seu rosto brilhando como o sol e suas vestes brancas como a luz . Essas imagens luminosas remetem à forma como a glória de Deus se manifestava no Antigo Testamento e também nos apontam para a figura gloriosa de Cristo ressuscitado. R. Cantalamessa diz sobre o que aconteceu a Cristo em sua transfiguração: “Jesus, naquele dia, em sua humanidade, entrou em êxtase! Esta é talvez a categoria menos inadequada que possuímos para descrever o que então aconteceu em Jesus […] Ele estava feliz. A Transfiguração é um mistério da felicidade divina. Toda a torrente de alegria que flui entre o Pai e o Filho, que é o mesmo Espírito Santo, naquela ocasião 'transbordou' o vaso da humanidade de Cristo . ” 3
Na cena, Moisés e Elias aparecem ao lado de Jesus. Isso é interessante porque, além de representarem a Lei e os Profetas, são dois homens de oração que jejuaram por 40 dias e subiram ao Monte Sinai para encontrar Deus face a face, para ver o seu semblante (cf. Ex 33,8; 1 Reis 19,17). De certa forma, pode-se dizer que eles alcançaram o objetivo de sua jornada quaresmal.
Nessa cena, Pedro reage com uma exclamação genuína: "Senhor, como é bom ( kalós ) estarmos aqui!" A Transfiguração é um mistério de beleza divina, do esplendor da verdade e da própria bondade de Deus. Pedro se sente "cativado" por essa visão e deseja construir três tendas para ali permanecer. Segundo Santo Agostinho, Pedro experimentou a alegria da contemplação e não quer mais retornar às preocupações e aos trabalhos da vida cotidiana. Portanto, ele deseja, de certa forma, "eternizar" aquele momento.
3 R. Cantalamessa, O Mistério da Transfiguração (Monte Carmelo; Burgos 2003) 32.
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Enquanto Pedro dizia isso, uma nuvem brilhante, sinal da presença de Deus e do Espírito Santo, os envolveu. De lá veio uma voz: não há dúvida de que era a voz do Pai. Para Mateus, diferentemente dos outros Evangelhos sinópticos, a voz de Deus é central para a narrativa (v. 5: οὗτός ἐστιν ὁ υἱός μου ὁ ἀγαπητός, ἐν ᾧ εὐδόκησα· ἀκούετε αὐτοῦ.) e, portanto, o mais importante é ouvir, e não ver, o transfigurado. A Voz de Deus revela quem é Jesus, seu Filho amado e escolhido, e o que seus discípulos devem fazer: ouvir Jesus, isto é, obedecer-lhe, segui-lo . É a mesma voz do Pai que se ouviu quando Jesus saiu do Jordão após ser batizado (cf. Mt 3,17). Em ambos os casos, Deus afirma Jesus como Filho com a mesma autoridade que Ele próprio possui. A novidade reside na ordem de ouvi-lo, de modo que a palavra de Jesus Filho é agora a palavra de Deus que deve ser ouvida .
O efeito dessa voz sobre os discípulos — eles caem com o rosto em terra e são tomados pelo medo — confirma claramente que se trata de uma manifestação de Deus, uma teofania. Então, quando o Senhor lhes pede que se levantem e não tenham medo, eles veem Jesus sozinho (Ἰησοῦν μόνον). As outras vozes de Deus, Moisés e Elias, a Lei e os Profetas, desapareceram; agora temos a Palavra do Filho como a única expressão plena e definitiva da vontade do Pai. O final da história é muito importante, especialmente para Mateus 4. Os discípulos são convidados por “Jesus sozinho” a se levantarem e não terem medo. Segue-se uma referência à ressurreição do Filho do Homem dentre os mortos (ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου ἐκ νεκρῶν ἐγερθῇ.), o que confere a toda a narrativa o caráter de uma glória pascal antecipada, porém fugaz. É preciso descer da montanha e seguir o caminho da humilhação característico do Filho do Homem.
Algumas reflexões:
A primeira leitura deste domingo destaca a iniciativa de Deus ao chamar livremente Abrão para formar o povo da Aliança a partir de seus descendentes. No contexto litúrgico, esta primeira leitura é um convite ao discípulo que inicia a jornada da fé cristã a abandonar sua vida anterior e partir sem outro fardo senão a confiança em Deus que o chamou. É necessário deixar o passado para trás e começar a caminhada rumo à terra prometida, que será revelada no Evangelho de hoje. Desta forma, o tema da conversão quaresmal é introduzido em sua primeira dimensão: deixar para trás o pecado passado e voltar-se para Deus pela fé .
Isso também pode nos ajudar a recordar a iniciativa do amor de Deus que nos chamou no momento do nosso batismo, "quando, 'participando da morte e ressurreição de Cristo', começou para nós 'a alegre e emocionante aventura do discípulo'" (Bento XVI, Mensagem da Quaresma de 2011, n.º 1).
A leitura do Evangelho de hoje está ligada ao relato das tentações do domingo passado, pois revela a dimensão da vitória de Cristo: ela toca a nossa própria natureza na sua dimensão corporal. Em Cristo, a humanidade é chamada a ser transfigurada pela Graça Pascal .
Notemos também que o verbo "ser transfigurado", além de seu uso nas narrativas da transfiguração, é usado duas vezes por São Paulo aplicando-o aos cristãos:
Romanos 12:2: "Não se conformem com este mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."
2 Coríntios 3:18: "Mas nós, com o rosto descoberto, contemplando a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua semelhança, como pelo Espírito do Senhor."
Portanto, a transfiguração, como todos os mistérios da vida de Cristo, afeta não apenas a Ele, mas também os cristãos como parte do Seu Corpo.
No Evangelho de hoje, Jesus convida três de seus discípulos a subirem a uma alta montanha, onde se transfigura diante deles, concedendo-lhes uma experiência de profunda alegria e consolação. Nós também, em nossa jornada quaresmal, somos convidados a subir um pouco mais, a nos elevarmos acima da rotina diária e a encontrarmos o Senhor transfigurado na oração. Pois a oração é um meio necessário, como uma janela que se abre para aquela realidade última que tanto almejamos: nossa transformação em Deus.
Em nossa oração, somos chamados a reviver a experiência da Transfiguração de Jesus vivida pelos discípulos; a encontrar o Cristo glorioso e radiante que encherá nossas mentes de luz e nossos corações de calor, a ponto de, como Pedro, querermos permanecer ali. A respeito disso, o Papa Francisco nos diz: “Deus é Amor, e por isso os discípulos viram com seus próprios olhos a beleza e o esplendor do Amor divino encarnado em Cristo . Eles tiveram um vislumbre do paraíso! Que surpresa para os discípulos! Eles tiveram a face do Amor diante de seus olhos por tanto tempo e não haviam percebido quão bela ela era! Só agora eles a percebem, e com tanta alegria, com imensa alegria.”
Jesus, na verdade, está os moldando com essa experiência, preparando-os para um passo ainda mais importante. Logo depois, de fato, eles terão que reconhecer nEle a mesma beleza, quando Ele subir à cruz e Seu rosto estiver desfigurado . Pedro se esforça para compreender: gostaria de parar o tempo, de pausar a cena, de estar ali e prolongar essa experiência maravilhosa; mas Jesus não o permite. Sua luz, de fato, não pode ser reduzida a um “momento mágico”. Isso a tornaria algo falso, artificial, que se dissolve na névoa de sentimentos passageiros. Pelo contrário, Cristo é a luz que guia o caminho, como a coluna de fogo para o povo no deserto (cf. Ex 13,21). A beleza de Jesus não separa os discípulos da realidade da vida, mas antes lhes dá forças para segui-Lo até Jerusalém, até a cruz. A beleza de Cristo não aliena; ela sempre te impulsiona para a frente, não te faz esconder: siga em frente! (Angelus, 5 de março de 2023).
A oração cristã começa necessariamente com a escuta da Palavra de Deus, a Palavra de Jesus . Este é precisamente o convite do Pai: "escutem Jesus, o Filho amado". A Palavra definitiva de Deus não nos chega mais por meio da Lei e dos Profetas (Moisés e Elias), mas por meio de Jesus Cristo, o Filho. Viver em Aliança é viver escutando a Sua Palavra. Este é o requisito que implica rejeitar tantas outras vozes ou tentações que nos assaltam. Como bem destaca o Papa Leão XIV em sua mensagem quaresmal deste ano: “Toda jornada de conversão começa quando nos deixamos tocar pela Palavra e a recebemos com docilidade de espírito. Há, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, o espaço de hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela produz. Por isso, a jornada quaresmal torna-se uma ocasião propícia para escutar a voz do Senhor e renovar nossa decisão de seguir a Cristo, caminhando com Ele pelo caminho que leva a Jerusalém, onde se cumpre o mistério de sua paixão, morte e ressurreição […] Entre as muitas vozes que permeiam nossas vidas pessoais e sociais, a Sagrada Escritura nos permite reconhecer a voz que clama em meio ao sofrimento e à injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nessa disposição interior de receptividade significa deixar-nos instruir por Deus hoje a escutar como Ele escuta, até reconhecermos que ‘a condição dos pobres representa um clamor que, ao longo da história da humanidade, desafia constantemente nossas vidas, nossas sociedades, nossos sistemas políticos e econômicos, e especialmente a Igreja’”.
As tentações de Jesus no início da Quaresma nos fizeram tomar consciência da presença do mal em nossas vidas e da inevitável luta entre o bem e o mal, entre a morte e a vida, dando-nos esperança através do triunfo alcançado por Cristo. Hoje, essa esperança se torna realidade ao nos apresentar a possibilidade não só de vencer o mal, mas também de transfigurá-lo . De fato, no processo de integração do mal em nossas vidas, A. Cencini reconhece três estágios: 1. A aceitação de sua presença; 2. O perdão e a reconciliação; 3. A transfiguração ou transformação. E essa transfiguração ocorre quando: o mal é reconhecido com humildade, integrado com clareza, entregue à graça e se torna fonte de vida para os outros . <sup>5 </sup> Ou seja, o mal não pode ser eliminado, mas Deus pode transformá-lo ou transfigurá-lo por meio de seu amor. Isso é algo muito difícil de expressar e ainda mais difícil de explicar; portanto, é melhor adotar uma linguagem poética, como faz São João da Cruz em sua "Gloss sobre Si Mesmo", canto 5:
1 Aquele Jesus que é chamado Cristo (Madrid 1971) 67.
2 A. Ibáñez Arana, Para entender o livro de Gênesis (Estella 1999) 90.
4 “A modificação mais importante de Mateus no relato da transfiguração é a adição dos versículos 6 e seguintes, referentes ao medo dos discípulos e às palavras tranquilizadoras de Jesus. O relato oferece um desfecho completamente novo, positivo para os discípulos”, U. Luz, O Evangelho Segundo São Mateus , 660.
“O amor realiza tal obra.”
Depois que o conheci
Se existe em mim o bem ou o mal,
Tudo tem o mesmo gosto.
E a alma se transforma.”
Então, devemos também estar preparados para descer da montanha, para retornar mais uma vez às mesmas coisas de sempre, ao cotidiano. Mas não seremos mais os mesmos. A esse respeito, é muito interessante como Santo Agostinho completa sua explicação das palavras de Pedro com esta recomendação: "Desce, Pedro, tu desejaste repousar na montanha: desce, prega a palavra de Deus, repreende, exorta, encoraja, usando toda a tua paciência e capacidade de ensinar. Trabalha, cansa-te muito, aceita também o sofrimento e os tormentos. No hino da caridade está escrito que ela 'não busca o seu próprio interesse'. Cristo reserva essa felicidade para ti depois da morte, ó Pedro! Agora, porém, Ele mesmo te diz: desce para te cansar na terra, para servir na terra, para ser desprezado, para ser crucificado na terra."
PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
Reconhecido
Essa visão se transformou em uma promessa.
E sua paixão desapareceu por algumas horas.
Sua memória…
Eles eram tão humanos, tão infantis!
Eles queriam guardar aquele momento para sempre.
E foi instantâneo…
O discípulo ficou tomado de admiração e espanto.
Diante da grandeza de Deus
No entanto…
Você se revelou poderoso e divino.
A voz do Pai soou, ordenando-nos que escutássemos.
Ao seu filho…
Horas depois, você não será mais reconhecido.
Torturado e desfigurado, pregado a uma cruz.
Abandonado…
Nós te imploramos, Senhor, que vejas somente a ti transfigurado.
Escute a voz amiga e não tenha medo.
Você ressuscitará em breve. Amém.
1 Aquele Jesus que é chamado Cristo (Madrid 1971) 67.
2 A. Ibáñez Arana, Para entender o livro de Gênesis (Estella 1999) 90.
4 “A modificação mais importante de Mateus no relato da transfiguração é a adição dos versículos 6 e seguintes, referentes ao medo dos discípulos e às palavras tranquilizadoras de Jesus. O relato oferece um desfecho completamente novo, positivo para os discípulos”, U. Luz, O Evangelho Segundo São Mateus , 660.
5 Cf. A. Cencini, Vivendo Reconciliados , Edições Paulinas, Buenos Aires, 1995, 154.
SEGUNDO DOMINGO: LA TRANSFIGURACIÓN del mal
1a. Lectura (Gn 12,1-4):
En Gn 12,1-4 Dios irrumpe de improviso la narración para darle a Abrám una orden de partida (imperativo presente: ¡ahora, ya!) y varias promesas (futuro, ¡más adelante!) que luego se repetirán. Es llamativo que no fue Abraham quien buscó a Dios sino Dios quien buscó a Abrám. La Palabra de Dios entra en diálogo con Abrám y realiza con él la historia de la salvación. Dios, en primer lugar, exige a Abrám la ruptura con todas las vinculaciones naturales que están nombradas como estrechando un cerco: la patria, la parentela y la familia (casa paterna). Abrám tiene que dejarlo todo - pura y simplemente - y confiarse a la guía de Dios, de la Palabra de Dios. A cambio de lo que deja Dios ofrece a Abrám una serie de promesas. En estas promesas de Dios la idea clave es la bendición pues esta palabra aparece 5 veces en Gn 12,2-3 y estaría en contraposición a las 5 veces que aparece la palabra maldición en Gn 1-11 (3,14.17; 4,11; 5,29; 9,25). En el Antiguo Testamento el contenido fundamental que encierra toda bendición divina es una larga vida y el ser fecundo, o sea, una gran descendencia (cf. Gn 1,22.28). Se añade a la promesa el ‘engrandeceré tu nombre’, o sea el darle gloria.
El v. 3 nos hace ver que los alcances de la bendición van más allá de la persona singular de Abrám pues la situación de los hombres dependerá de la actitud que asuman ante esta intervención histórica de Dios: al que bendice, bendición, y al que maldice, maldición.
Abrám permanece mudo y obedece con prontitud a pesar de lo terrible del mandato de desarraigarse. Como bien comenta J. Loew: "De Abraham no tenemos, por así decir, palabras: su vida misma es respuesta"1. La respuesta de Abrám es ponerse en marcha en obediencia a la palabra de Dios (12,4). Esta obediencia a la Palabra de Dios supone ya un acto de fe (cf. Gn 15,6; Rom 4,3.9.16-22). Podríamos decir de forma esquemática que esta fe es un itinerario y un descubrimiento. La aventura de Abrám es la de una marcha hacia lo desconocido con la única garantía de una promesa divina.
El mensaje de este texto, en el contexto del libro del Génesis, es que Dios interviene en la historia humana para devolverle su sentido positivo. El pecado del hombre introdujo la maldición; ahora Dios vuelve a introducir la bendición por medio de Abrám. La maldición entró al mundo por la desconfianza y la desobediencia; la bendición va a entrar por la fe o confianza y la obediencia. Por ello Abrám cree y obedece2. No se trata de un regreso a Gn 1-2 dónde todo era bendición. En el curso de la historia habrá bendición y maldición, y la presencia de una u otra dependerá de la respuesta de los hombres al don de Dios.
La fe de Abrám no es un salto al vacío, sino un abandono confiado en la Promesa de Dios. En fin, la fe de Abrám está sostenida por estas palabras de consuelo, por esta promesa que será el secreto motor de toda su vida.
2a. Lectura (2Tim 1,8-10):
Esta segunda lectura se encuentra en continuidad con los temas de las otras dos. El apóstol busca animar a su discípulo Timoteo para que acepte lo que es necesario padecer por el evangelio. Para ello, en primer lugar, le recuerda la iniciativa de Dios que nos salva y nos elige; y luego pone ante sus ojos el fruto y fin de la vocación que es la vida y la inmortalidad (ζωὴν καὶ ἀφθαρσίαν 1,10). De este modo lo orienta al sentido de lo eterno que encierra el evangelio.
Evangelio (Mt 17,1-9):
El relato de la transfiguración viene colocado en los tres sinópticos a continuación del primer anuncio de la pasión y de la exigencia de renuncia total para seguir a Jesús. En Mateo esta vinculación se hace explícita con la referencia cronológica con que se inicia el relato: “Seis días después”. Con esto se remite a lo anterior que es el anuncio de Jesús en Mt 16,28: "Les aseguro que algunos de los que están aquí presentes no morirán antes de ver al Hijo del hombre, cuando venga en su Reino"; que tendría su cumplimiento en la transfiguración (Mt 17,1-9).
Relacionando, por tanto, la transfiguración con el primer anuncio de la pasión podemos decir que se hacía necesario que, al menos algunos de sus discípulos (Pedro, Santiago y Juan, los considerados como columnas en Gal 2,9), tuvieran una experiencia que disipara el temor y la angustia generados por tal anuncio y, para ello, se les concede una visión anticipada de la gloria prometida después de padecer.
En Mateo estos tres discípulos son los más cercanos a Jesús y aparecen junto a él en dos momentos claves: la transfiguración y el huerto de los Olivos (cf. Mt 26, 37). Por tanto, Pedro, Santiago y Juan están asociados tanto a la agonía como a la gloria de Jesús. Esta asociación de los tres discípulos al misterio pascual es paradigmática para todos los demás discípulos de Jesús.
Jesús lleva a Pedro, Santiago y Juan a un monte alto. La presencia de Moisés y Elías más adelante nos permiten convalidar como trasfondo de la transfiguración lo sucedido en el monte Sinaí (cf. Ex 19-34) u Horeb (cf. Dt 5) donde Dios estableció su alianza con Israel y reveló su voluntad por medio de Moisés. Y tal vez más concretamente a la escena narrada en Ex 24 donde Moisés sube acompañado de tres hombres (Aarón, Nadad y Abihú) y allí la nube los envuelve y escuchan la voz de Dios. Por su parte Mateo lo vincula también con el "monte alto" donde el demonio lleva a Jesús para someterlo a la tercera tentación (cf. Mt 4,8) y donde Jesús no acepta reconocer al demonio como Señor del mundo y mantiene oculta su divinidad, su ser Hijo de Dios. En cambio, en la transfiguración Jesús revelará a los suyos su divinidad para que superen la tentación del desaliento que provoca su ocultamiento y la cruz.
Una vez en el monte, Jesús se transfigura delante de los tres apóstoles. El término griego que utiliza el evangelio para describir la transfiguración (metamorfo,omai) supone una transformación o cambio de forma, imagen o figura. Referido a Cristo los Padres lo han entendido como una manifestación de su Divinidad que hasta entonces permanecía oculta bajo el velo de su humanidad. Esta transformación viene expresada con dos efectos visibles externos: el rostro brillante como el sol y los vestidos blancos como la luz. Estás imágenes luminosas recuerdan la forma de manifestarse la gloria de Dios en el Antiguo Testamento y también nos remiten a la figura gloriosa de Cristo resucitado. R. Cantalamessa dice acerca de lo que sucedió a Cristo en su transfiguración: "Jesús, aquel día, en su humanidad ¡entró en éxtasis! Esta es quizás la categoría menos inadecuada que poseemos para describir lo que entonces sucedió en Jesús […] Él estaba feliz. La Transfiguración es un misterio de felicidad divina. Todo el torrente de alegría que fluye entre el Padre y el Hijo, que es el mismo Espíritu Santo, en esa ocasión "desbordó" el jarrón de la humanidad de Cristo"3.
En la escena, junto a Jesús, aparecen Moisés y Elías. Es interesante porque además de representar la Ley y los Profetas, son dos hombres de oración que ayunaron durante 40 días y subieron al monte Sinaí para encontrarse cara a cara con Dios, para ver su rostro (cf. Ex 33,8; 1Re 19,17). De algún modo puede decirse que alcanzaron la meta de su camino ‘cuaresmal’.
Ante esta escena Pedro reacciona con una auténtica exclamación: "Señor, que hermoso (kalós) es estarnos aquí". La transfiguración es un misterio de belleza divina, de esplendor de la verdad y del bien de Dios mismo. Pedro se siente "atrapado" por esta visión y quiere hacer tres carpas para quedarse allí. Según San Agustín, Pedro ha gustado el gozo de la contemplación y no quiere ya volver a las preocupaciones y fatigas de la vida cotidiana. Por eso quiere, en cierto modo, "eternizar" ese momento.
3 R. Cantalamessa, El misterio de la Transfiguración (Monte Carmelo; Burgos 2003) 32.
- 3 -
Mientras Pedro decía esto una nube luminosa, signo de la presencia de Dios y del Espíritu Santo, los cubre con su sombra. Desde allí sale una voz: no hay dudas de que se trata de la voz del Padre. Para Mateo, a diferencia de los otros sinópticos, el centro del relato lo forma la voz de Dios (v. 5: οὗτός ἐστιν ὁ υἱός μου ὁ ἀγαπητός, ἐν ᾧ εὐδόκησα· ἀκούετε αὐτοῦ.) y, por tanto, lo más importante es la audición y no la visión del transfigurado. La Voz de Dios revela quién es Jesús, su Hijo amado y predilecto, y lo que sus discípulos tienen que hacer: escuchar a Jesús, es decir, obedecerle, seguirle. Es la misma voz del Padre que se escuchó al salir Jesús del Jordán luego de ser bautizado (cf. Mt 3,17). En ambos casos Dios acredita a Jesús como Hijo con la misma autoridad que Él tiene. Lo nuevo aquí es el mandato de escucharlo, por lo cual la palabra del Hijo Jesús es ahora la palabra de Dios que hay que escuchar.
El efecto de esta voz sobre los discípulos – caen rostro en tierra y se llenan de miedo – confirma claramente que se trata de una manifestación de Dios, de una teofanía. Luego, cuando el Señor les pide que se levanten y que no teman, ven a Jesús sólo (Ἰησοῦν μόνον.), desaparecieron las otras voces de Dios, Moisés y Elías, la Ley y los Profetas; ahora tenemos la Palabra del Hijo como única expresión plena y definitiva de la voluntad del Padre. El final del relato es muy importante, sobre todo para Mateo4. Los discípulos son invitados por “Jesús solo” a levantarse y a no tener miedo. Sigue luego la referencia a la resurrección de entre los muertos del hijo del hombre (ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου ἐκ νεκρῶν ἐγερθῇ.) que le da a toda la narración el carácter de una gloria pascual anticipada, pero pasajera. Hay que bajar del monte y seguir el camino del abajamiento propio del hijo del hombre.
Algunas reflexiones:
La primera lectura de este domingo resalta la iniciativa de Dios quien interviene llamando gratuitamente a Abrám para formar de su descendencia el pueblo de la Alianza. En el contexto litúrgico esta primera lectura es una invitación hecha al discípulo que se inicia en el camino de la fe cristiana para que abandone su vida anterior y se ponga en marcha sin otra "mochila" que la confianza en Dios que lo llamó. Hay que dejar lo pasado y ponerse en camino hacia el país de la promesa que se manifestará en el evangelio de hoy. De este modo se introduce en una primera dimensión el tema de la conversión cuaresmal en el sentido de dejar el pecado pasado y volverse a Dios por la fe.
También puede ayudarnos a recordar la iniciativa del amor de Dios que nos llamó en el momento de nuestro bautismo "cuando «al participar de la muerte y resurrección de Cristo» comenzó para nosotros «la aventura gozosa y entusiasmante del discípulo»" (Benedicto XVI, Mensaje cuaresma 2011, nº 1).
Por su parte, el evangelio de hoy se vincula con el relato de las tentaciones del domingo pasado por cuanto nos revela el alcance de la victoria de Cristo: toca a la misma naturaleza en su dimensión corporal. En Cristo la humanidad está llamada a ser transfigurada por la Gracia Pascual.
Notemos también que el verbo "transfigurarse", además de en las narraciones de la transfiguración, es utilizado dos veces por San Pablo aplicándolo a los cristianos:
Rom 12,2: "No tomen como modelo a este mundo. Por el contrario, transfórmense interiormente renovando su mentalidad, a fin de que puedan discernir cuál es la voluntad de Dios: lo que es bueno, lo que le agrada, lo perfecto".
2Cor 3,18: "Nosotros, en cambio, con el rostro descubierto, reflejamos, como en un espejo, la gloria del Señor, y somos transfigurados a su propia imagen con un esplendor cada vez más glorioso, por la acción del Señor, que es Espíritu."
Por tanto, la transfiguración, como todos los misterios de la vida de Cristo, no lo afectan sólo a Él sino también a los cristianos como parte de Su Cuerpo.
En el evangelio de hoy Jesús invita a tres de sus discípulos a subir al monte elevado y se transfigura delante de ellos y les permite tener una experiencia de gran gozo y consolación. También nosotros, en nuestro camino cuaresmal, somos invitados a subir un poco para ponernos por encima de todo el trajinar cotidiano y encontrarnos con el Señor transfigurado en la oración. Porque la oración es un medio necesario, es como la ventana abierta a esa realidad definitiva que anhelamos: nuestra transformación en Dios.
En nuestra oración estamos llamados a revivir la experiencia de la transfiguración de Jesús que vivieron los discípulos; a encontrarnos con Cristo glorioso y resplandeciente que llenará de luz nuestra inteligencia y de calor nuestro corazón al punto que, como Pedro, querremos permanecer allí. Al respecto, nos dice el Papa Francisco: “Dios es Amor, y, por lo tanto, los discípulos han visto con sus ojos la belleza y el esplendor del Amor divino encarnado en Cristo. ¡Tuvieron un anticipo del paraíso! ¡Qué sorpresa para los discípulos! ¡Habían tenido ante sus ojos durante tanto tiempo el rostro del Amor y no se habían dado cuenta de lo hermoso que era! Solo ahora se dan cuenta y con tanta alegría, con inmensa alegría.
Jesús, en realidad, con esta experiencia los está formando, los está preparando para un paso todavía más importante. Poco después, en efecto, deberán saber reconocer en Él la misma belleza, cuando suba a la cruz y su rostro sea desfigurado. A Pedro le cuesta entender: quisiera detener el tiempo, poner la escena en “pausa”, estar allí y alargar esta experiencia maravillosa; pero Jesús no lo permite. Su luz, de hecho, no se puede reducir a un “momento mágico”. Así se convertiría en algo falso, artificial, que se disuelve en la niebla de los sentimientos pasajeros. Al contrario, Cristo es la luz que orienta el camino, como la columna de fuego para el pueblo en el desierto (cf. Ex 13,21). La belleza de Jesús no aparta a los discípulos de la realidad de la vida, sino que les da la fuerza para seguirlo hasta Jerusalén, hasta la cruz. La belleza de Cristo no es alienante, te lleva siempre adelante, no hace que te escondas: ¡sigue adelante!” (ángelus 5 de marzo de 2023).
La oración del cristiano tiene como punto necesario de partida la escucha de la Palabra de Dios, de Jesús. Justamente esta es la invitación del Padre: "escuchar a Jesús el Hijo amado". La Palabra definitiva de Dios ya no nos llega por la Ley y los Profetas (Moisés y Elías) sino mediante Jesucristo, el Hijo. Vivir en Alianza es vivir en la Escucha de su Palabra. Esta es la exigencia que supone el rechazo de tantas otras voces o solicitaciones que nos invaden. Como bien nos señala el Papa León XIV en su mensaje de cuaresma de este año: “Todo camino de conversión comienza cuando nos dejamos alcanzar por la Palabra y la acogemos con docilidad de espíritu. Existe, por tanto, un vínculo entre el don de la Palabra de Dios, el espacio de hospitalidad que le ofrecemos y la transformación que ella realiza. Por eso, el itinerario cuaresmal se convierte en una ocasión propicia para escuchar la voz del Señor y renovar la decisión de seguir a Cristo, recorriendo con Él el camino que sube a Jerusalén, donde se cumple el misterio de su pasión, muerte y resurrección […] Entre las muchas voces que atraviesan nuestra vida personal y social, las Sagradas Escrituras nos hacen capaces de reconocer la voz que clama desde el sufrimiento y la injusticia, para que no quede sin respuesta. Entrar en esta disposición interior de receptividad significa dejarnos instruir hoy por Dios para escuchar como Él, hasta reconocer que «la condición de los pobres representa un grito que, en la historia de la humanidad, interpela constantemente nuestra vida, nuestras sociedades, los sistemas políticos y económicos, y especialmente a la Iglesia»”
Las tentaciones de Jesús al inicio de la cuaresma nos hicieron tomar conciencia de la presencia del mal en nuestras vidas; y de la inevitable lucha entre mal y bien; entre muerte y vida, dándonos esperanza por el triunfo alcanzado por Cristo. Hoy se hace realidad esa esperanza al presentarnos la posibilidad no sólo de vencer el mal sino transfigurarlo. En efecto, en el camino de integración del mal en nuestras vidas A. Cencini reconoce 3 etapas: 1. La aceptación de su presencia; 2. El perdón y la reconciliación; 3. La transfiguración o transformación. Y esa transfiguración ocurre cuando: se reconoce con humildad, se integra con lucidez, se entrega a la gracia, y se convierte en fuente de vida para otros5. Es decir, el mal no se puede suprimir, pero Dios lo puede transformar o transfigurar por medio de su amor. Es algo muy difícil de expresar y más aún de explicar, por eso lo mejor es asumir el lenguaje poético tal como hace San Juan de la Cruz en la “Glosa de él mismo”, canción 5:
1 Ese Jesús al que se llama Cristo (Madrid 1971) 67.
2 A. Ibáñez Arana, Para comprender El libro del Génesis (Estella 1999) 90.
4 “La modificación mateana más importante en el relato de la transfiguración es el añadido del v. 6s. sobre el temor de los discípulos y las palabras tranquilizadoras de Jesús. El relato ofrece un desenlace totalmente nuevo, positivo para los discípulos”, U. Luz, El evangelio según San Mateo, 660.
“Hace tal obra el amor
Después que le conocí
Que, si hay bien o mal en mí,
Todo lo hace de un sabor,
Y el alma transforma en sí”.
Luego habrá también que estar dispuestos a bajar del monte, a volver otra vez a lo mismo, a lo cotidiano. Pero nosotros ya no seremos los mismos. Al respecto es muy interesante como San Agustín completa su explicación de la frase dicha por Pedro con esta recomendación: "Desciende Pedro, deseabas descansar en el monte: desciende, predica la palabra de Dios, reprocha, exhorta, anima haciendo uso de toda tu paciencia y capacidad de enseñanza. Trabaja, cánsate mucho, acepta también el sufrimiento y suplicios. En el canto de la caridad se dice que ésta "no busca su propio interés". Cristo te reserva esta felicidad para después de la muerte, ¡oh Pedro! Ahora, sin embargo, Él mismo te dice: desciende a cansarte en la tierra, a servir en la tierra, a ser despreciado, a ser crucificado en la tierra".
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
Reconocido
Aquella visión se hizo promesa
Y tu Pasión borró por unas horas
Su recuerdo…
Estaban allí tan humanos, tan niños!
Deseaban retener ese momento
Y fue un instante…
El temor llenó de estupor al discípulo
Ante la Grandeza de Dios
Sin embargo…
Te revelabas poderoso y divino
Sonó la Voz del Padre que mandó escuchar
A su Hijo…
Horas más tardes no serás reconocido
Torturado y desfigurado, clavado en una cruz
Abandonado…
Te imploramos Señor, verte solo a ti transfigurado
Escuchar la Voz amiga y no temer
Pronto habrás resucitado. Amén.
1 Ese Jesús al que se llama Cristo (Madrid 1971) 67.
2 A. Ibáñez Arana, Para comprender El libro del Génesis (Estella 1999) 90.
4 “La modificación mateana más importante en el relato de la transfiguración es el añadido del v. 6s. sobre el temor de los discípulos y las palabras tranquilizadoras de Jesús. El relato ofrece un desenlace totalmente nuevo, positivo para los discípulos”, U. Luz, El evangelio según San Mateo, 660.
5 Cf. A. Cencini, Vivir reconciliados, Ediciones Paulinas, Buenos Aires, 1995, 154.