21/12/2025
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AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
1ª Leitura: Isaías 7,10-14
Salmo Responsorial 23(24)-R-O rei da glória é o Senhor onipotente; abri as portas para que ele possa entrar!
2ª Leitura: Romanos 1,1-7
Evangelho de Mateus 1,18-24
Proclamação do evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus – 18A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. 19José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria em segredo. 20Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe em sonho e lhe disse: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. 22Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: 23“Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco”. 24Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado e aceitou sua esposa. – Palavra da salvação.
Mt 1,18-24
No evangelho de Mateus que acabamos de ouvir, vemos o cumprimento da profecia de Jeremias “farei nascer um descendente de Davi; reinará como rei e será sábio, fará valer a justiça e a retidão na terra”.
José, descendente de Davi, recebeu o anúncio desse nascimento prometido, que já tinha sido também profetizado por Isaías: “eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho”.
Ao mesmo tempo, vemos que esse nascimento tão aguardado e esperado não se realizou sem um drama pessoal muito doloroso para José e Maria. José chegou à convicção de que deveria renunciar a Maria, que precisava renunciar ao casamento com ela que era o tesouro de sua vida. Podemos imaginar o sacrifício que seria para José ter que renunciar a Maria, mas ele estava disposto a tal renúncia. De fato, os grandes dons de Deus são, muitas vezes precedidos de grandes tribulações e provas: Deus alarga assim o nosso coração para poder preenchê-lo ainda mais do seu dom. O dom de Deus é sempre muito grande, e nós precisamos dessa preparação, muitas vezes dolorosa, de nosso coração.
O mesmo aconteceu com José. Ele foi preparado para receber a graça de Jesus. O dom de Jesus foi dado não somente a José, mas ao mundo todo. Assim o drama pessoal de José o levou a viver uma grande alegria na castidade perfeita de uma união espiritual profunda com Maria. Sempre pensamos que a castidade de José o distanciou de Maria e de Jesus. Essa compreensão, porém, é preconceituosa e errada. Foi a castidade que permitiu a José viver em uma comunhão de intimidade e de unidade com Maria muito profunda.
Podemos também admirar a força de alma e a obediência de São José. Ele, sendo um homem justo, decidiu renunciar a Maria, mas sem fazer escândalo. Aceitou o sacrifício no silêncio. Isso é sinal de grandeza e força de alma. Mas o mais admirável é a sua obediência a vontade de Deus.
Quando fazemos grandes sacrifícios, normalmente nós nos endurecemos e o nosso coração se fecha. Não queremos mais ouvir mais nada porque queremos nos manter no sacrifício assumido. Mas S. José, mesmo pronto ao sacrifício, se mantem aberto à Palavra de Deus. O anjo, ao vir ao encontro de José, encontra o seu coração aberto para as grandes promessas de Deus.
Peçamos ao Senhor, a força de alma para fazer sacrifícios por amor. Peçamos também que, mesmo dispostos a grandes sacrifícios, nos mantenhamos abertos a vontade de Deus, sem nos enrijecer em nossas decisões. Que estejamos sempre abertos às promessas divinas.
4º Dom Advento - Mt 1,18-24 – Ano A – 21-12-25
“Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa” (v. 24)
O Advento nos oferece uma excelente oportunidade para nos aproximar dos verdadeiros protagonistas da história: homens e mulheres de todos os tempos, pessoas pouco ou quase nada conhecidas que, com sua passagem humilde por esta terra, com sua presença despojada, sua espiritualidade do serviço, sua confiança no Deus providente, nos inspiram e nos conduzem a viver o verdadeiro progresso humano e espiritual.
Os Evangelhos narram a história vivida e contada por protagonistas de “segunda fila”, ocultos nos relatos históricos “oficiais” e que só narram as façanhas dos poderosos, com suas ambições, seus privilégios e a opressão que exercem sobre os povos.
O tempo do Advento nos faz entrar em sintonia com S. José e seu assombro diante daqueles momentos tão desconcertantes que ele viveu. E, nele, podemos todos nos reconhecer. Quem não experimentou em seu interior a insatisfação cheia de resistências frente às mudanças que fizeram cair o que fora planificado com toda expectativa. A mudança de planos, seguida de dúvidas, nos alteram, nos dividem por dentro, nos deixam na obscuridade. E é na resposta confiada onde aparece o caminho que nos faz crescer de verdade como pessoas.
A figura de S. José nos permite retornar à essência dos Evangelhos. “A boa notícia do Evangelho consiste em mostrar como, apesar da arrogância e da violência dos governantes terrenos, Deus sempre encontra um caminho para cumprir seu plano de salvação” (Papa Francisco, Patris Corde, 5).
É preciso, portanto, reorientar nosso olhar: primeiro para ler a história a partir dos últimos, dos pequenos e descartados; e, segundo, para desejar profundamente permanecer entre os que estão “à margem”. É por ali que Deus “entra” na história; é ali que surge o broto de um novo tempo e de uma nova esperança.
O testemunho de José vem, além disso, reafirmar a convicção de que nos mais humildes repousa o melhor e mais belo da humanidade. Das periferias, dos “menos-valorizados” ..., surgem valores e experiências que nos fazem progredir a todos, nos propõem perguntas e apontam para novos horizontes...
O evangelista Mateus inseriu o personagem José, "o esposo de Maria" (Mt 1,16), no início de sua catequese, e o descreveu como modelo de quem adere ao discipulado do Reino, proclamado e vivido por Jesus de Nazaré. O leitor-ouvinte de sua catequese, ao longo da narração, deve se dispor a assumir atitudes idênticas às de José na relação com o querer divino, inspirando-se nesse discípulo ideal.
O testemunho de José vem, além disso, reafirmar a convicção de que nos mais humildes repousa o melhor e mais belo da humanidade – Adroaldo Palaoro
O texto evangélico de hoje afirma claramente o conflito vivido por José. Ele viveu a experiência de uma verdadeira “noite escura”, do “silêncio de Deus”. Mais uma vez é Deus quem toma a iniciativa.
José era um pobre noivo, pertencente a uma nação oprimida e a uma categoria social esquecida, mas conservava límpidos os olhos do espírito, prontos para perceber e acolher a presença surpreendente de Deus em sua vida. Na narração de Mateus, o anjo comunicou ao confuso José o mistério que estava acontecendo com sua esposa Maria. Por essa revelação do anjo, José foi atingido como que por um raio, foi tomado de surpresa: sua noite, seu silêncio, seu sono, sua rotina diária foram quebrados por uma novidade absoluta.
O que José recebeu no sonho foi o chamado a uma existência marcada por constantes “deslocamentos”, pois, a mulher que entrou em sua vida e vai entrar em sua casa, Maria, levava em suas entranhas Aquele que para muitos será uma presença provocativa, uma ameaça ao poder estabelecido, um transgressor das leis e normas religiosas... A vida inteira de José, o justo, vai ficar desestabilizada a partir deste momento porque foi convidado a aproximar-se do mistério surpreendente do Deus feito homem.
Exteriormente, o mundo permanecia como estava, aparentemente nada mudou; mas, ao associar-se ao destino do “Deus que se humaniza”, também José se revelará como presença surpresa, marcada pelo cuidado, pelo silêncio e pela prontidão ao chamado de Deus.
José de Nazaré é o ícone da maior parte dos homens da humanidade que, a partir do silêncio e do anonimato, transitam pelo caminho do trabalho e da família, ambas primitivas vocações dadas no Genesis, no momento da Criação. Na era da imagem em que vivemos, na qual é mais importante “aparecer” que “ser”, a figura de S. José é contracultural e ilumina milhares de seres humanos, para que sejam pessoas com dignidade e não massa amorfa de consumidores e excluídos, presos nas redes sociais e caminhando em direção ao abismo da solidão e do sem-sentido.
A essência da figura de S. José continua sendo seu amor comprometido e kenótico (esvaziamento); não se pode assumir tanto amor sem um esvaziamento e um desmonte do egoísmo e da vaidade. S. José é a imagem daqueles que estão continuamente abertos à Graça transformadora e, portanto, plenamente humanos, em sintonia com a humanidade nova dos construtores do Reino; aqueles que sabem que não são ilhas perdidas de boas intenções, mas que sentem sua pertença a uma História e a um Povo; aqueles que sabem que, para além do êxito ou fracassos pessoais, visibilidade ou invisibilidade midiática, contribuem com suas vidas a um plano maior, a do amor de Deus.
No evangelho de Mateus, a personalidade de José está marcada por uma atitude eloquente de silêncio e discernimento. Um silêncio que não era um vazio, mas um espaço rico na alma, para escutar continuamente, em seu interior, a voz de Deus e o clamor dos demais. Seu silêncio também era habitado por incertezas e sofrimentos, momentos de solidão, de conflito interior, de escuta...
Como discípulos autênticos do Reino entramos em sintonia com o querer e o desejar de Deus nas situações onde nos falta clareza e parece nos encontrar num impasse. São muitas as circunstâncias em que, como José, devemos trilhar o caminho da justiça confrontado com decisões dramáticas a serem tomadas.
O discípulo do Reino, em hipótese alguma, age por impulso, tampouco movido por razões arbitrárias. Antes, nos momentos difíceis, quando deve tomar decisões importantes, valoriza o discernimento como tempo de ponderar tudo diante de Deus, com o desejo de ouvir sua voz, como José na escuta do anjo do Senhor. A voz divina faz-se ouvir de muitas maneiras, de modo especial, nas palavras das pessoas carregadas de sabedoria espiritual e experientes na arte de discernir o desejo de Deus no emaranhado de vozes e apelos em que o ser humano se vê enredado. Nas encruzilhadas difíceis da vida, vale a pena escutá-las!
O evangelista Mateus aponta outro detalhe: “José, era justo...”. Esta expressão na linguagem bíblica é qualificativo de uma pessoa honrada, que se abre à Presença do Deus Amor sem colocar resistência, que busca fazer o bem e retificar o que está torto. É o “anawin” na linguagem bíblica (o pobre de Javé). Como a Virgem Maria, também S. José é o “pobre do Senhor” e pode cantar o “Magnificat”. José é “justo” porque não sucumbiu à tentação do poder, do prestígio social, da febre obsessiva de tudo possuir.
São muitas as circunstâncias em que, como José, devemos trilhar o caminho da justiça confrontado com decisões dramáticas a serem tomadas – Adroaldo Palaoro
Como homem “justo”, José acolheu Maria sem impor condições prévias. Um gesto inspirador para este nosso mundo onde a violência psicológica, verbal e física sobre a mulher é patente.
Acolhendo Maria numa situação de pessoa “suspeitosa e indefesa”, José nos convida a acolher os outros, sem exclusões, tal como são, com preferência pelos mais fracos. Cada necessitado, pobre, sofredor, estrangeiro, prisioneiro, enfermo, é “o Menino” que José protege e cuida. Neste sentido, sua figura evoca a multidão de pessoas “justas” cuja conduta, em todos os rincões do mundo, é gérmen de vida e sinal de esperança.
Para meditar na oração:
A espiritualidade do Advento pede de nós uma docilidade à audição da Voz que nos habita; é também o sussurro que vem da realidade e das coisas, carregada da Presença d’Aquele que desperta o nosso ser para o assombro, para a maravilha e para o milagre.
Diante do “Mistério” que nos envolve e nos escapa, brota do mais profundo do nosso ser, o grito cheio de surpresa.
Eis a plenitude da vida: mergulhar naquela Presença benfazeja que nos enche de sentido, de alegria, e nos surpreende a cada momento, nos invade e nos conduz a caminhos novos.
- Fazer memória das “surpresas” de Deus que despertaram um novo “movimento” em sua vida.
Após narrar a genealogia de Jesus, o evangelho interrompe o ritmo para detalhar sua origem, como quem abre espaço para contemplar o mistério do início. Conhecer nossas raízes é sempre significativo: buscamos compreender nossa história, o momento em que fomos concebidos, o ambiente que acolheu a vida nascente, o contexto político, social e econômico em que nossos pais viviam.
Quando não tivemos a oportunidade de conhecer algum deles, procuramos vestígios: relatos, fotos, memórias que nos ajudem a reconstruir quem eram e como viviam. Perguntamo-nos se fomos desejados, se éramos esperados como filho ou filha, ou se chegamos de forma inesperada — mas, no fim, acolhidos com alegria.
Assim, pouco a pouco, vamos desenhando nossa árvore genealógica, reconhecendo que nossa história não começa no dia do nascimento, mas muito antes. Esse “antes” nos alimenta, dá consistência à nossa identidade e nos ajuda a compreender quem somos.
O texto que lemos neste domingo nos diz: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria, em segredo.
Nossa história não começa no dia do nascimento, mas muito antes. Esse “antes” nos alimenta, dá consistência à nossa identidade e nos ajuda a compreender quem somos – Ana Casarotti
Como muitas jovens daquela época, e também hoje em dia, Maria era prometida em casamento a José, e seu futuro estava planejado como o de tantas mulheres: casar-se, ser mãe – com o desejo de ter um filho homem –, cuidar da casa, educar os filhos. Assim começa a história que meditamos neste domingo, mas acontece algo que muda radicalmente a realidade: antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo.
No coração dessa narrativa surge um acontecimento inesperado, que rompe com o projeto já traçado: Maria fica grávida pela ação do Espírito Santo. Não era algo previsível, e por isso José, homem justo e cheio de amor por Maria, se vê diante da perplexidade. Em sua vida também irrompe o imprevisto, e sua resposta nasce do amor: não a expõe, não a denuncia.
José não compreende plenamente o que está acontecendo, mas tampouco duvida de Maria, sua noiva. Permanece aberto, carregando em silêncio suas perguntas e preocupações sobre como agir diante dessa situação. É nesse espaço de incerteza que Deus intervém: fala a José por meio de um sonho, como tantas vezes aconteceu nas histórias do Antigo Testamento, revelando-lhe o caminho e inserindo-o no mistério da promessa.
“Eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: "José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados".
Deus se revela na vida de José, trazendo serenidade e iluminando suas dúvidas e inquietações. É um convite à confiança que o integra na novidade que se forma no ventre de Maria. A ele cabe a missão de dar nome ao filho que nascerá: Jesus, aquele que salvará seu povo de seus pecados. José não permanece como simples espectador do que acontece em Maria; ele é parte viva desse mistério, pois deverá cuidar dela e do menino, protegê-los e oferecer tudo o que necessitam para crescer e se fortalecer: em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens.
Este tempo do Advento convida-nos a aproximar-nos de José, a reconhecer a sua confiança em Deus, a sua capacidade de se inclinar perante o mistério que tem diante de si e de caminhar descalço por terreno sagrado – Ana Casarotti
Os evangelhos — especialmente Mateus — nos oferecem poucos detalhes sobre sua vida, mas justamente o essencial. José participa do mistério da encarnação, dando ao Filho de Deus o nome que revela sua missão: Jesus, o Salvador!
Este tempo do Advento convida-nos a aproximar-nos de José, a reconhecer a sua confiança em Deus, a sua capacidade de se inclinar perante o mistério que tem diante de si e de caminhar descalço por terreno sagrado. Apesar de seu temor diante do mistério que o transborda, José acolhe a presença de Deus que se faz carne no ventre de Maria e age de acordo com o que o anjo lhe disse: dá-lhe o nome que será sua identidade: o Salvador. Recordamos as palavras do Papa Francisco quando se dirige às famílias reunidas em Manila, nas Filipinas: “O presente da Sagrada Família foi encomendado a São José para que o levasse adiante [...] “José escutou o anjo do Senhor, e respondeu ao chamado de Deus para cuidar de Jesus e Maria. Desta maneira, cumpriu seu papel no plano de Deus, e chegou a ser uma bênção, não só para a Sagrada Família, como para toda a humanidade. Com Maria, José serviu de modelo para o Menino Jesus, enquanto crescia em sabedoria, idade e graça”. Francisco: “São José: o homem dos sonhos, com os pés na terra”
Neste quarto domingo do Advento, ressoa em nós o chamado de tantas pessoas que desejam abrir-se ao mistério de Deus. Um mistério que desorganiza nossos planos, desfaz certezas e nos convida a acolher a novidade de sua presença no meio de nós. Invoquemos a intercessão de José, para que nos ensine a não temer o inesperado, mas a reconhecê-lo como lugar de revelação. Que ele nos inspire a sermos guardiões da vida que desponta, da semente frágil que começa a germinar, da luz pequena que insiste em brilhar na escuridão.
O INDIZÍVEL
Não importa
que seja impossível
dizer o indizível
nesse horizonte sem fim
onde se debruçam as palavras.
Ele atravessa as ruas
em trânsito miúdo,
em rajadas breves,
para que não extraviemos
os pés sobre o asfalto.
A borboleta
o faz alçar voo
em sua passagem tênue
de névoa de cores
desenha-o o sorriso
que nasce nos olhos
e acaba em abraço.
Somente uma vez
o indizível
se fez palavra,
inteira eternidade
em carne passageira.
E desde então
um sonho impossível
agita cada letra.
Não importa.
O indizível
já aparece,
com seu olhar discreto,
em cada tentativa
de expressá-lo.
Benjamin Gonzalez Buelta
Salmos para sentir e saborear internamente as coisas
Há uma pergunta que todos os anos me ronda desde que começo a observar nas ruas os preparativos que anunciam a proximidade do Natal: que pode haver ainda de verdade no fundo destas festas tão estragadas pelos interesses consumistas e pela nossa própria mediocridade?
Não sou o único. Ouço muitas pessoas falarem da superficialidade do Natal, da perda do seu caráter familiar e caseiro, da vergonhosa manipulação dos símbolos religiosos e de tantos excessos e despropósitos que deterioram hoje o Natal.
Mas, em minha opinião, o problema é mais profundo. Como pode celebrar o mistério de um “Deus feito homem” uma sociedade que vive praticamente de costas para Deus e que destrói de tantas formas a dignidade do ser humano?
Como pode celebrar o “nascimento de Deus” uma sociedade em que o famoso professor francês G. Lipovetsky, ao descrever a atual indiferença, foi capaz de dizer estas palavras: “Deus morreu, os grandes objetivos extinguem-se, mas para todo o mundo é igual, esta é a feliz notícia”?
Aparentemente, são muitas as pessoas para quem é exatamente igual acreditar ou não acreditar, ouvir que “Deus está morto” ou que “Deus nasceu”. Sua vida continua funcionando como de costume. Não parecem necessitar já de Deus.
E, no entanto, a história contemporânea já nos está obrigando a colocar algumas questões sérias. Algum tempo atrás, falava-se “da morte de Deus”; hoje se fala “da morte do homem”. Há alguns anos se proclamava “o desaparecimento de Deus”; hoje se anuncia “o desaparecimento do homem”. Não será que a morte de Deus traga consigo inevitavelmente a morte do homem?
Expulso Deus das nossas vidas, encerrados num mundo criado por nós mesmos e que reflete apenas as nossas próprias contradições e misérias, quem nos pode dizer quem somos e o que realmente queremos?
Não precisaremos que Deus nasça novamente entre nós, que brote com luz nova nas nossas consciências, que abra caminho no meio de nossos conflitos e contradições? Para nos encontrarmos com esse Deus, não devemos ir muito longe. Basta aproximar-nos silenciosamente de nós mesmos.
Basta mergulharmos nas nossas interrogações e desejos mais profundos.
Esta é a mensagem do Natal: Deus está perto de ti, onde tu estás, com tal que te abras ao seu Mistério. O Deus inacessível fez-se humano e a sua proximidade misteriosa envolve-nos. Em cada um de nós, pode nascer Deus.
1a. Leitura (Is 7,10-14) O rei Acaz estava com medo de dois reis que planejavam guerra contra ele. Isaías dá-lhe coragem. Fala de uma moça (a esposa de Acaz), que terá um filho. O nome dele será Emanuel, DEUS-CONOSCO. Em Jesus essas palavras terão significado mais profundo.
Salmo (24 [23],1-6) Cantamos a chegada de Deus. Dele só se aproximam os que têm a consciência limpa.
2a. Leitura (Rm 1,1-7) Paulo escreve a comunidades de cristãos judeus e gentios. Os judeus eram discriminados. Já de início ele lembra que Jesus é judeu de nascimento, da família de Davi, mas pela ressurreição tornou-se o salvador de toda a humanidade.
3a. L. Evangelho (Mt 1,18-24) Mateus fala do nascimento de Jesus por intervenção direta de Deus. Quer dizer que ele é Filho de Deus, é a presença de Deus na humanidade, é o Emanuel, o Deus-conosco.
A Realidade
Dizem os teóricos do capitalismo: ninguém faz nada sem interesse. O padeiro levanta de madrugada todo dia para fazer pão, não para servir ou agradar os clientes, mas para ganhar dinheiro. Ninguém faz nada sem interesse, é o interesse que move o mundo, é a energia do lucro e da vantagem individual que faz funcionar a máquina da sociedade.
A Palavra
Todo filho traz à mãe a lembrança do pai. A Maria, porém, Jesus não lembra José, lembra o Espírito de Deus, não lembra uma experiência vivida com o marido, lembra Deus que a quis. Seu amor ao filho não passa pelo amor do marido, vai direto ao Filho. Seu amor a Jesus é isento que qualquer segundo interesse, é totalmente puro.
O filho da virgem mãe será chamado Emanuel. No diálogo de Isaías com Acaz (1ª. Leitura) esse nome poderia lembrar apenas um grito de guerra. Aqui tem significado pleno. Ele é Deus conosco, não apenas para nos dar ânimo, como a aclamação guerreira pretendia, mas é a presença de Deus no meio da humanidade, é Deus que vem caminhar com a gente.
José era um homem justo. Sua justiça, porém, não se reduzia àquela coisa pequenina de só ver a lei. Se só visse a lei, teria denunciado Maria publicamente. Sua justiça, muito além da lei, era reger-se pelos critérios de Deus, pai de todos, que respeita a todos, que entende e compreende todos. Sua justiça superava “a justiça dos escribas e fariseus”.
Maria passa quase despercebida. É a figura principal e a gente quase nem nota. É a figura principal exatamente por isso, porque não pretende aparecer, não está em busca dos holofotes nem das câmeras. É a figura principal porque foi na sua humildade, em todos os sentidos, que Deus quis se fazer presente na humanidade.
Nosso amor não é puro, nada fazemos sem um pouco de interesse próprio, sem uma ou mais segundas intenções. A fecundidade de Maria é tão grande a ponto de gerar Deus, porque é virginal, porque é pura, isenta de qualquer segunda intenção.
O Mistério
Na Eucaristia celebramos a entrega desinteressada que Jesus faz de si mesmo à mais humilhante das mortes. Servindo sem buscar ser servido, ele abre o caminho para a partilha desinteressada da comunhão. Com ele celebramos a virgindade fecunda de Maria.
fundador da Comunidade de Bose
O anúncio da vinda na glória do Senhor Jesus domina o tempo do Advento e, neste quarto e último domingo, torna-se anúncio da sua vinda na carne, da humanização do Filho de Deus que celebraremos no Natal já próximo: e o anúncio que escutamos neste ano é dirigido a José, “filho de Davi”, pai de Jesus, segundo a Lei.
“A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo.”(V18)
Graças a essas palavras introdutórias, somos levados a conhecer o mistério central da nossa fé: Jesus, nascido de Maria, é o Filho de Deus, gerado no poder do Espírito Santo, é o homem que somente Deus nos podia dar. José, porém, que ainda não conhece essa revelação, vê-se tendo que lidar com uma realidade enigmática e dolorosa: a gravidez inesperada da sua noiva põe em crise a história que ele estava projetando com ela.
Diante desse evento escandaloso, José não reage impulsivamente nem opta por praticar os mandamentos de modo legalista, mas se comporta como “homem justo”, que, na linguagem bíblica, significa um homem capaz de viver na justiça, na paz, no amor fraterno até a compaixão e o perdão. José tem um comportamento humaníssimo: não repudia Maria, não a expõe à vergonha e ao desprezo, mas decide dispensá-la em segredo: isto é, encobre aquilo que poderia ser interpretado como pecado de Maria.
E, enquanto José, homem de fé, medita no seu coração sobre o que está acontecendo com ele, enquanto habita naquela condição de silêncio que é espaço para o trabalho interior e a oração, espaço para o domínio de si e o discernimento na fé, eis que um anjo, um mensageiro do Senhor, atualiza para ele em sonho a palavra de Deus: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo “.
A grande revelação é explicada por uma palavra que interpreta e aprofunda o anúncio: “Maria dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. A criança que nascerá, portanto, será chamada com um Nome que indica sua total pertença a Deus e, ao mesmo tempo, a missão que ele levará a termo vivendo a serviço dos homens e das mulheres, seus irmãos e irmãs: Jesus, Jeshu‘a, que significa “o Senhor salva” e, portanto, Salvador.
O escândalo, assim, se transforma para José em revelação, o evento de contradição por ocasião da obediência pontual a Deus: José aprofunda a sua fé, chegando a compreender em primeira pessoa que “nada é impossível para Deus” (Lc 1,37). Nesse ponto, o evangelista pode comentar:
“Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: ‘Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel (Is 7,14), que significa: Deus está conosco’”.
Sim, “na plenitude dos tempos” (Gl 4,4), no cumprimento de todas as promessas e as alianças, Deus visitou o seu povo de modo único e i-repetível: fez-se ‘Immanu-El, Deus-conosco, em Jesus, o Filho da Virgem Maria, o Messias “nascido da estirpe de Davi segundo a carne” (Rm 3,3).
“Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado e aceitou sua esposa.” Essa conclusão lacônica expressa toda a grandeza de José, que consiste na sua fé-obediência: como Maria, ele abriu totalmente espaço em si para a vontade de Deus, aceitando cumprir até aquilo que talvez não compreendesse plenamente. Nenhuma palavra sai da sua boca, mas, com o seu comportamento, ele vive a boa notícia que, mais tarde, será anunciada por Jesus Cristo, Filho de Deus, e, segundo a lei, também seu filho: “Nada é impossível para quem crê” (cf. Mt 17,20).
Acesse o vídeo neste linK:
https://www.youtube.com/watch?v=XOHhc0WSUuY
I. INTRODUÇÃO GERAL
Finalmente, neste 4º domingo do Advento, as leituras proclamadas nos permitem iniciar a contemplação do mistério da encarnação que celebramos no Natal: Jesus é o Deus-conosco que veio ao encontro da humanidade para oferecer uma proposta de salvação e vida nova.
A primeira leitura traz o relato do encontro do profeta Isaías com o rei Acaz, propondo-lhe que peça um sinal ao Senhor Deus. O rei recusa dirigir-se a Deus pedindo um sinal de sua intervenção, mas o profeta insiste que, apesar da obstinação de Acaz, Deus lhe dará um grande sinal: enviará o Emanuel, que será concebido por uma virgem.
A segunda leitura, retirada da carta de Paulo aos Romanos, sugere que nosso encontro com Jesus deve resultar em um testemunho de busca de santidade. Quem recebe a Boa-nova da salvação não a pode guardar somente para si, mas deve estar disposto a partilhá-la com aqueles que caminham ao seu lado.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 7,10-14)
O rei Acaz governou o Reino de Judá por volta do ano 734 a.C., em um período de estabilidade política e desenvolvimento econômico. A prosperidade trouxe às tribos de Judá certa tranquilidade. No entanto, no cenário da Mesopotâmia estava despontando grande ameaça, vinda da Assíria. O profeta Isaías, atento à realidade de seu tempo, prevê que essa tranquilidade será temporária. Israel tem de tomar cuidado com seu futuro. Enquanto o rei Acaz deposita toda a sua segurança na prosperidade, o profeta deposita toda a sua confiança no Deus da Aliança. É nesse contexto que o profeta se dirige ao rei, para alertá-lo e lhe recomendar que peça um sinal a Deus, em vista de decidir o que é melhor para seu povo. Acaz recusa-se a pedir a ajuda de Deus. Isaías, porém, insiste em buscar no Senhor as razões para seu discernimento.
O sinal de que Deus atua na história será este: uma virgem conceberá e dará à luz um filho; seu nome será Emanuel, que significa Deus-conosco. Ele será a garantia da continuidade da descendência de Davi, porque Deus manterá sua promessa de enviar alguém que cuide do povo. A mensagem central do texto é a afirmação de que Deus não abandona sua Aliança. Isaías chama a atenção para as falsas seguranças do rei Acaz, que podem levar o povo à ruína. Ele confia excessivamente na força militar, e tal postura resultará em fracasso, culminando em uma guerra que devastará Judá.
2. II leitura (Rm 1,1-7)
A carta de Paulo aos Romanos foi escrita por volta do ano 57 ou 58 d.C., provavelmente quando o apóstolo se encontrava em Corinto e se preparava para deixar sua missão no Mediterrâneo oriental e partir para nova missão no Ocidente. O texto proposto na segunda leitura é a introdução da carta. Essa comunidade não foi fundada por Paulo, por isso ele tem muito cuidado ao se dirigir aos irmãos e irmãs que estão em Roma.
O apóstolo tem a intenção de partir em direção à Espanha e a Roma, porém antes deve visitar a comunidade mãe, Jerusalém, a fim de entregar a coleta das comunidades da Ásia Menor. Um dos objetivos da carta era se apresentar aos cristãos de Roma, ter um primeiro contato e anunciar sua futura visita. Paulo define a si mesmo como servo de Jesus Cristo, apóstolo por chamado divino e eleito para anunciar o Evangelho às nações.
Entender-se como servo de Jesus Cristo, para ele, significava pôr incondicionalmente toda sua vida a serviço da Igreja. Ser servo, para Paulo, não implica ser escravo, e sim uma escolha livre de quem está convencido de que deve se dedicar inteiramente à causa do Evangelho. Ao apresentar-se como apóstolo por meio de um chamado divino, ele quer dizer que seu testemunho é verdadeiro, pois pregar o Evangelho não é algo que partiu de sua iniciativa. Foi Deus quem o chamou e o designou para a missão evangelizadora, e seu passado confirma sua vocação missionária. O ministério apostólico indica a exclusividade do serviço à proclamação da Palavra. Na Igreja primitiva, já havia a distinção entre apóstolos, diáconos ou diaconisas e presbíteros.
O ministério de Paulo no Ocidente exige uma dedicação total à causa do Evangelho. Ele suplica aos cristãos romanos que orem pela sua ida a Jerusalém, pois ainda nem todos os irmãos judeus da comunidade mãe o conheciam. A coleta em favor da comunidade mãe destinava-se aos pobres. Era um gesto de solidariedade dos gentios convertidos, como sinal de profunda gratidão por terem recebido a fé cristã mediante o testemunho da comunidade mãe.
3. Evangelho (Mt 1,18-24)
A narrativa do nascimento de Jesus, no relato de Mateus, compõe a seção dos textos sobre a infância de Jesus. O texto é verdadeira catequese sobre a origem de Jesus. O evangelista ensina que a concepção virginal de Jesus foi obra divina. José nos é apresentado como um homem justo, o que, na concepção veterotestamentária, significa obediente à Lei mosaica. Como fiel observante das Escrituras, José tem compaixão por Maria, no sentido de que não permite a execução do apedrejamento, pena prescrita à mulher que concebesse antes da consumação do matrimônio. José, como os sábios do Antigo Testamento, soube interpretar corretamente seus sonhos. Tal sabedoria era um dom concedido por Deus aos que eram fiéis aos ensinamentos da Torá e justos em suas relações com os demais.
O anjo do Senhor explica a José que Maria não é adúltera, algo que os leitores de Mateus sabiam muito bem, porque conheciam as leis da tradição contida nas Escrituras. O anúncio do anjo a José segue o estilo dos relatos veterotestamentários, quando se anunciava o nascimento de uma personagem muito importante para o povo escolhido. Esse anúncio é cercado de sinais divinos que provocam perplexidade e medo. O mensageiro de Deus comunica o nome da criança que irá nascer. A etimologia do nome indica sua missão de salvador. O Emanuel, Deus-conosco, recorda toda a história de Israel, de um Deus que sempre está no meio de seu povo. Portanto, o nascimento dessa criança faz parte do projeto divino para a humanidade.
As figuras de José e Maria desempenham um papel muito importante como colaboradores do plano salvífico de Deus. Os dois enfrentam desafios e impasses diferentes na obra da salvação. José recebe dupla missão: acolher Maria e dar o nome à criança, o que significa tomá-la por filho. Maria, implicitamente, é aquela na qual se cumpre a profecia de que uma virgem conceberia. A encarnação de Jesus se torna possível mediante a obediência de Maria e José aos planos de Deus.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
As leituras nos recordam que, na história da salvação, há pessoas como o rei Acaz, que depositam sua confiança em falsas seguranças. Muitos depositam sua esperança nos poderosos deste mundo. O profeta Isaías pertence à categoria de pessoas que depositam sua esperança somente em Deus. Os poderes deste mundo são falíveis, ao passo que Deus é o único que permanece fiel do início ao fim da história. Neste tempo em que nos preparamos para celebrar a vinda do Senhor, somos convidados a tomar consciência da fidelidade amorosa de Deus, questionando-nos onde depositamos nossa confiança e esperança.
Nós, cristãos, que acreditamos no Emanuel, Deus-conosco, somos chamados a testemunhar, no mundo, sua proposta de vida e liberdade. O exemplo de Paulo apóstolo nos serve de inspiração, para que também nós venhamos a pôr nossa vida totalmente a serviço do Reino que Jesus veio construir. A vida de cada um de nós é uma missão, como nos falou recentemente o papa Francisco. A missão que Deus me confia é única, exclusiva e necessária para o bem das pessoas que convivem comigo.
Segundo a catequese primitiva da comunidade de Mateus, Jesus é o Deus que vem ao encontro da criatura humana na fragilidade de uma criança, acolhida por José e Maria. Ele foi enviado por Deus como o grande dom para a vida e a salvação da humanidade. A celebração do Natal que se aproxima é o momento de cada pessoa experimentar esse encontro pessoal com o menino Jesus. Esse encontro, porém, só é possível se estivermos com o coração aberto para acolhê-lo.
As figuras de José e Maria nos interpelam. Eles foram pessoas capazes de escutar e discernir os apelos de Deus na própria vida. Mudaram seus planos e projetos para poderem acolher a missão que Deus lhes confiou. Até que ponto somos capazes de mudar nossos esquemas mentais e desorganizar nossos projetos, quando precisamos estar disponíveis para o que Deus nos pede?
Izabel Patuzzo-pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica. E-mail: isabellapatuzzo@hotmail.com
(Se desejar, confira a tradução do Google com o texto original em espanhol logo depois da tradução)
QUARTO DOMINGO DO CICLO DO ADVENTO "A"
RECEBA MARIA E SEU FILHO JESUS, DEUS CONOSCO
Primeira Leitura (Is 7,10-14):
Este texto faz parte de uma unidade narrativa e teológica que abrange Is 7:1-8:20. Consiste em um prólogo histórico (7:1-2) seguido por três cenas (7:3-9; 7:10-17; 8:1-4) que têm em comum a presença de uma criança cujo nome tem valor simbólico .
Para compreender esta profecia, é necessário conhecer seu contexto histórico imediato: a Guerra Siro-Efraimita de 734/33 a.C. (cf. 2 Reis 16). A Síria e Efraim (o Reino do Norte) formaram uma aliança militar e planejaram atacar Jerusalém, a capital do Reino do Sul, com a intenção de depor seu rei legítimo, Acaz, o que constituiria um ataque contra a dinastia davídica . A reação do rei e do povo foi de profundo temor (cf. Isaías 7:3). Então Isaías interveio, exortando-os a não temerem, pois Deus é quem governa as nações estabelecendo reis, e anunciou que o plano da Síria e de Efraim contra Acaz fracassaria completamente. Em 7:4a, a exortação é: mantenham a calma e não temam; enquanto em 9b, é: confiem (apoiem-se) no único fundamento sólido, que é Deus .
Neste contexto, as palavras do profeta Isaías ao rei Acaz, no início da leitura de hoje, tornam-se mais claras: “Peça um sinal ao Senhor, seja nas profundezas do Sheol ou nas alturas” (Isaías 7:11). A função de um sinal, que geralmente acompanha os pronunciamentos divinos, é garantir ou confirmar essa palavra dada por Deus (cf. Isaías 38:22ss; 37:30-32; Juízes 6:36-40; Êxodo 3-4). Em outras palavras, Isaías quer que o rei Acaz declare que crê na palavra de Deus a seu favor e, então, peça o sinal que a confirma . Mas Acaz não quer pedir o sinal porque, no fundo, não aceita a palavra de Deus; não confia somente nEle. Rejeitar a ajuda divina é presunção e desconfiança disfarçadas de piedade, uma relutância em pôr Deus à prova . Lembremos que Acaz é o sucessor da dinastia davídica e, portanto, o sujeito da promessa em 2 Samuel 7:16. Sua atitude incrédula e temerosa cansa tanto os homens quanto Deus. O texto então enfatiza que é o próprio Deus quem dará o sinal , e temos um oráculo clássico de anunciação: "A virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel" (Isaías 7:14).
Primeiro, o oráculo fala da “jovem mulher”. O termo hebraico ha±almâ usado aqui pode significar tanto “moça” quanto “jovem esposa”. O contexto histórico, somado à presença do artigo definido (“a”), indica que provavelmente se trata da jovem esposa do rei, que ainda não tinha filhos. A versão grega da Septuaginta traduz como párzenos (pa,rqenoj), que significa
literalmente "virgem", e daí passa para Mt 1,23 e a tradição cristã que a aplica à Bem-Aventurada Virgem Maria.
Bem, esta jovem " está grávida e dará à luz um filho " . Quem é este sinal infantil? Numa primeira interpretação, trata-se de Ezequias, filho de Acaz e futuro rei de Judá. Isso é confirmado pelo contexto histórico, visto que o anúncio da iminente libertação de Jerusalém sugere um evento num futuro próximo. A cronologia também corrobora essa hipótese, já que o nascimento de Ezequias é estimado por volta de 733/32 a.C. O gênero literário também apoia essa afirmação, pois os anúncios de nascimento sempre se referem a figuras históricas específicas. Portanto, Deus anuncia a Acaz que um de seus filhos dará continuidade à dinastia davídica à qual ele pertence, confirmando assim o fracasso da tentativa da Síria e de Efraim de destroná-lo.
O que chama a atenção é o nome da criança, em hebraico ἱimmṣnûṣl, que significa literalmente “ Deus conosco ”. Por ser uma expressão nominal (sem verbo), também pode ser traduzida como um convite à confiança: “ Deus (está) conosco ”, ou como uma súplica: “ Que Deus (esteja) conosco ”. Assim como os nomes dos filhos de Isaías, seu valor é simbólico e indica que essa presença de Deus com seu povo é o sinal ou a garantia de sua ajuda e libertação .
Segunda Lectura (Rom 1,1-7):
Como em todas as suas cartas, São Paulo começa apresentando-se como Apóstolo de Jesus Cristo, escolhido para proclamar o Evangelho. No contexto litúrgico, estamos particularmente interessados na apresentação de Jesus nos versículos 3 e 4, identificando-o com o próprio conteúdo do Evangelho de Deus. Segundo estudiosos, trata-se de uma confissão de fé que Paulo extrai da Tradição Cristã e apresenta desde o início para conquistar a confiança dos romanos, uma comunidade que não o conhecia pessoalmente. Primeiramente, ele considera Jesus o Filho de Deus prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras . Nessa declaração inicial, há uma referência implícita à pré-existência de Cristo, complementada posteriormente por uma referência à sua Encarnação, afirmando que ele "nasceu da linhagem de Davi segundo a carne". Como bem observa U. Wilckens, "este é o documento de identidade do Filho de Deus feito homem " .¹
Esta declaração é completada em uma segunda parte onde Jesus é apresentado como "constituído Filho de Deus em poder segundo o Espírito santificador pela sua ressurreição dentre os mortos". A este respeito, U. Wilckens diz que "Paulo entende a declaração na segunda parte da fórmula não no sentido de que Cristo se tornou o Filho de Deus no momento de sua ressurreição, mas que Deus, como seu Filho, confiou a ele, a partir de sua ressurreição, a posição de poder do Soberano celestial (Filipenses 2:9-11; 1 Coríntios 15:23-28)" 2 . X. Alegre compartilha uma visão semelhante, afirmando que a expressão " en dynamei ", que significa "com poder", é típica de São Paulo e que "com este acréscimo, em sua concepção teológica, ele evita a noção de que Jesus só começa a ser Filho após a ressurreição. O que ele quer indicar é que Jesus só age com poder absoluto após a ressurreição. Com este acréscimo, Paulo enfatiza que o homem Jesus é, e continua sendo, o Messias de Israel na medida em que é o Filho de Deus que, a partir de sua ressurreição, tem o poder salvífico de abrir a todos os seres humanos, judeus e gentios, uma nova maneira de se relacionar com Deus. " 3
Ou seja, a partir de sua ressurreição e glorificação, a filiação do homem Jesus em relação a Deus é completa e absoluta. A humanidade de Cristo, nascido da linhagem de Davi segundo a carne, glorificada pela obra do Espírito Santificador em sua ressurreição, participa da filiação eterna do Filho de Deus . <sup>4</sup> E, como J. Fitzmyer observa acertadamente, a partir de sua ressurreição, o Jesus ressuscitado tem o poder de dar vida a todos os seres humanos .<sup> 5 </sup> Dessa forma, a humanidade glorificada de Jesus é tanto a causa quanto o prenúncio de nossa própria glorificação. Este seria o alcance salvífico do Evangelho que Paulo prega.
Evangelho (Mt 1,18-24):
O primeiro capítulo do Evangelho de Mateus é eminentemente cristológico, pois desde o início declara sua intenção de nos dizer quem é Jesus Cristo, revelando sua origem: "Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão" (Mt 1,1). Jesus Cristo é "filho de Davi, filho de Abraão" e, portanto, plenamente integrado ao povo judeu, cumprindo as esperanças messiânicas-davídicas preditas pelos profetas. A este respeito, observemos que José, no Evangelho de hoje, é chamado de "filho de Davi" pelo anjo, pois tem a missão de introduzir Jesus na dinastia davídica (cf. 1,18-21), sendo seu pai legal ou adotivo.
Agora, Mateus quer ensinar que Jesus é muito mais do que o descendente de Davi prometido pelos profetas, pois ele é o Filho de Deus, e o faz narrando como foi concebido . Tanto o versículo 18 quanto o versículo 25 enfatizam a concepção virginal de Jesus. Anteriormente, em Mateus 1:16, uma voz passiva teológica foi usada para se referir ao nascimento de Jesus, deixando claro que José era o marido de Maria, mas não o pai biológico de Jesus. Agora, o versículo 18 explica esse fato, afirmando que, embora Maria estivesse prometida em casamento a José, ela engravidou pelo Espírito Santo . É importante esclarecer que Mateus, ao dizer que Maria estava prometida em casamento a José, mas que eles ainda não haviam começado a viver juntos, está descrevendo os costumes daquela época e cultura. De fato, o casamento judaico naquela época ocorria em duas etapas. Primeiro, havia o noivado, quando o "contrato de casamento" era assinado, e onde o envolvimento dos pais era significativo, já que a noiva geralmente tinha doze ou treze anos. E embora ainda não vivessem juntos, para efeitos legais, a união tinha o mesmo valor que o próprio casamento; portanto, a infidelidade durante esse período era considerada adultério e punida com a mesma pena (cf. Dt 22,13-24). Após algum tempo, ocorria a segunda etapa, que era a transferência formal da esposa para a casa do marido , e eles começavam a viver juntos.
O evento narrado por Mateus ocorreu no "entre" esses dois momentos, pois fica claro que eles estavam noivos, mas ainda não viviam juntos. Portanto, assim como em Lucas 1:27, ele usa o verbo mnesteuein (noivos, comprometidos) para descrever o relacionamento entre José e Maria, evitando os verbos gamein e gamizein, que claramente significam casar. Assim, ao deixar claro que eles não tinham relações sexuais, Mateus informa ao leitor que a concepção de Jesus vem diretamente de Deus, da ação do Espírito Santo, cuja intervenção é, portanto, criacional e não sexual .
O versículo 19 descreve a reação de José à gravidez de Maria. Primeiramente, observe que este versículo especifica que José era "justo", e em Mateus — assim como no Antigo Testamento — isso significa alguém que cumpriu a vontade de Deus revelada na lei; obediente à lei de Deus. E lembre-se de que Deuteronômio 22:20-21 estabelece o apedrejamento como punição para uma mulher prometida em casamento que não é virgem e cujo marido a acusa de adultério. Portanto, José, desconhecendo a origem divina da criança, presume que Maria transgrediu essa lei; mas, ao mesmo tempo, parece incapaz de aceitá-la completamente, pois não quer expô-la publicamente como a lei ordena (este seria o significado de desmembrar usado apenas aqui e em Colossenses 2:15).
Considerando que o verbo grego apolyein em Mateus (cf. 5:31-32; 19:3, 7-9) se refere a repúdio ou divórcio, a decisão de José foi divorciar-se e demitir Maria, mas secretamente . Não sabemos se esse costume de divórcio privado existia naquela época, mas o que melhor se encaixa no texto e na era é que José a repudiaria como esposa sem denunciá-la publicamente por adultério, mas sim citando outros motivos. Podemos supor que essa foi a única maneira que ele encontrou, dada essa situação inesperada e confusa, de agir sem violar a Lei de Deus ou causar dano mortal a Maria. Ele era, sem dúvida , um homem justo .
Outros autores, por sua vez, pensam que a decisão de São José foi abandonar Maria secretamente para não carregar a culpa ele mesmo; e a motivação para sua fuga não seria a suspeita sobre Maria, mas sim seu temor ou medo diante do mistério da concepção virginal, razão pela qual ele considerou melhor se afastar da situação para não impedir a obra de Deus em Maria.7 Esta interpretação pressupõe que José conhece a origem divina de Jesus, mas de acordo com o texto isso lhe é revelado mais tarde pelo anjo (v. 20).
Então Deus intervém para dissipar as dúvidas e medos de José. Na verdade, em 1:20-21, somos informados de que um anjo lhe aparece em sonho e revela o que ele deve fazer: receber – tomar Maria como sua esposa, sua esposa (μὴ φοβηθῇς παραλαβεῖν Μαρίαν τὴν γυναῖκά σου·) . Isto implica realizar a segunda etapa do casamento judaico: que o marido leve a esposa para sua casa ("ele levou consigo a esposa" παρέλαβεν τὴν γυναῖκα αὐτοῦ, em 1:24). A motivação ou justificativa para essa ação reside no fato de Maria ter concebido pelo Espírito Santo; a gravidez é obra de Deus (cf. 1:18). Além disso, ela é instruída a dar ao menino o nome de Jesus, cujo significado, segundo a etimologia popular, é "Deus Salva", daí a missão da criança. Os antigos diziam Nomen omen (o nome carrega uma missão); assim, em Mateus 1:21, nos são dados o nome e a missão de Jesus: "Ele salvará o seu povo de todos os seus pecados (σώσει τὸν λαὸν αὐτοῦ ἀπὸ τῶν ἁμαρτιῶν αὐτῶν)." Ademais, segundo a lei judaica, o ato do pai de dar um nome constitui o reconhecimento legal da criança como seu filho. Portanto, Deus pede a José, filho de Davi, que reconheça a criança como sua e, assim, a incorpore à linhagem davídica .
Nos versículos 22-23 aparece a primeira citação de cumprimento: "Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor tinha dito por meio do profeta". A citação de Isaías 7:14 que se segue é da Septuaginta (LXX) e, portanto, fala de uma "virgem" (h` parqe ,noj); isso tem sido muito apropriado, visto que apresenta ambas as filiações juntas: a de Davi e a de Deus. Segundo A. Diez Macho , nem a virgindade de Maria, nem a nomeação por José, nem a presença de "Deus conosco" são meras deduções de uma exegese inconsistente; pelo contrário, são realidades que Mateus tenta confirmar com um texto do Antigo Testamento, interpretado segundo uma hermenêutica convencional. Dessa forma, a citação do Antigo Testamento confirma o fato da concepção virginal de Jesus, conforme predito por Deus; mas não a explica . Assim como nas duas referências anteriores à concepção pelo Espírito Santo, o evento em si permanece um mistério; apenas qualquer indício de geração sexual é excluído.
Nos versículos 24-25, somos informados de como José, ao despertar de seu sono, cumpriu à risca o que o anjo, isto é, o Senhor, lhe havia ordenado. Ele era um homem justo. Em suma , este texto declara especificamente a filiação divina de Jesus, que é apresentado como Emanuel , Deus conosco, e como Filho de Deus. Essa profunda identidade de Jesus é atestada pelas Escrituras, que se cumprem nele, e confirmada pela revelação do anjo do Senhor. Além de revelar quem Jesus é — "filho de Davi" e "filho de Deus" — esta narrativa explica como ele se tornou assim. Portanto, ele é "filho de Davi" em relação ao seu pai adotivo, José, que pertencia à família de Davi, conforme estabelecido na genealogia. Ele é "filho de Deus" porque foi concebido virginalmente, sem a intervenção de um homem, pelo poder do Espírito Santo. Portanto, o profundo significado teológico da concepção virginal é que Deus age além das capacidades humanas por meio do seu Espírito Santo. A ausência de uma disputa masculina destaca a paternidade absoluta de Deus sobre Jesus. Além disso, indica que o nascimento de Jesus marca o início de algo inteiramente novo e nos remete à obra criativa de Deus em Gênesis 1 .
Orientações para a homilia:
Neste quarto domingo, todas as leituras se concentram na Criança que há de nascer, em Jesus, para nos revelar sua verdadeira identidade: Ele é o Filho de Deus. Como diz A. Nocent: "Passamos para o outro aspecto da liturgia do Advento: a expectativa da Encarnação do Verbo. " 9
No domingo passado, vimos como o próprio João Batista teve que purificar suas expectativas messiânicas para que se alinhassem com o objeto da esperança cristã . Neste domingo, somos convidados a continuar nessa mesma trajetória, a nos sintonizarmos com aquele que há de vir. Ou seja, trata-se de esperar verdadeiramente por aquele que realmente virá até nós . Portanto, as três leituras se concentram na pessoa e na missão de Jesus: aquele que há de vir e a quem devemos aguardar .
Na primeira leitura , o profeta Isaías, num momento dramático para Jerusalém, anuncia o nascimento de uma criança como sinal de esperança para o povo, porque Deus está com eles . A tradução grega, providencialmente, considerou a "jovem donzela" como uma "virgem que concebe", destacando assim a obra de Deus. Desta forma, profetiza-se a concepção virginal de Maria. São Paulo, na sua introdução à Carta aos Romanos, também aponta a "dupla origem" que determina a identidade de Jesus: filho de Davi segundo a carne, segundo a sua origem humana (verdadeiro homem); filho de Deus segundo o Espírito, segundo a sua origem divina (verdadeiro Deus). O Evangelho narra o cumprimento da profecia de Isaías 7:14, indicando tanto a sua continuidade com o Antigo Testamento como a sua superação pela novidade do Cristianismo. O evangelista Mateus vê uma continuidade entre Ezequias, filho de Acaz (o histórico Emanuel ), e Jesus, uma vez que ambos são sinais da fidelidade divina à promessa de salvação. Mas isso também significa que em Jesus esse oráculo messiânico ou profecia se realiza plenamente. Ele é, literalmente e no sentido mais amplo, Emanuel , Deus conosco.
Dando continuidade ao Evangelho do último domingo, lembremos que não aguardamos o juízo de Deus, mas a salvação . Isso é reforçado no Evangelho de hoje pelo nome que, por indicação do anjo, será dado ao menino: Jesus , porque ele salvará o seu povo dos seus pecados . Em outras palavras, Emanuel , Deus conosco, é Jesus , Deus que nos salva. Emanuel é Deus que vem para nos salvar.
A grande questão é se realmente estamos sentindo a necessidade da salvação de Deus . O mundo parece não precisar dela e até a despreza. Mas, no fundo, será que é mesmo assim? O coração humano é verdadeiramente feliz se recebe apenas presentes materiais e a bondade do Papai Noel? Não deseja algo mais, não precisa de algo mais? É por isso que é tão importante "estar posicionado, de pé, no lugar por onde o Senhor passará , para onde Ele virá".
Para nós, este lugar representa a necessidade de sermos salvos, de sermos amados, de sermos aceitos incondicionalmente. É preciso coragem para adentrar as profundezas de nossos corações, onde a necessidade de salvação se expressa por meio de diversas vozes que clamam a Deus por diferentes nomes, mas que, em última análise, anseiam somente por Ele. Se descobrirmos pecado em nossos corações, clamaremos por Seu perdão. Se houver inquietação ou angústia, pediremos paz de espírito, harmonia interior. Se houver solidão, pediremos Sua presença, Seu amor e Seu consolo . Este não é outro senão o caminho das Bem-aventuranças, dos pobres de espírito a quem Jesus promete o Reino. Se ali permanecermos, o Senhor virá a nós com Seus dons de paz e alegria interior. Como nos diz Bento XVI: “A verdadeira e grande esperança do homem que persevera apesar de todas as decepções só pode ser Deus, o Deus que nos amou e continua a nos amar 'até o fim', 'na plenitude'” (Spe Salvi, n. 27).
A salvação não é meramente um evento divino; é uma Pessoa divina . Este é o próprio objeto da nossa esperança cristã. Aguardamos o próprio Filho de Deus, infinitamente maior do que as nossas aspirações e méritos. Um vislumbre, ainda que superficial, disso nos conduz ao reino da dúvida e do medo, como aconteceu com São José, um homem justo que se sentiu surpreendido e subjugado pelo mistério da Encarnação. Contudo, ele respondeu com um grande ato de fé e completa obediência à Palavra de Deus. Portanto, o momento de escuridão e confusão que São José vivenciou deve nos ajudar a dar um passo adiante na nossa fé, sabendo que a saída está em ouvir e obedecer a Deus, mesmo nos nossos momentos mais sombrios. A respeito disso, o Papa Francisco disse em sua mensagem do Angelus de 18 de dezembro de 2022: “O que José nos diz hoje? Nós também temos nossos sonhos, e talvez no Natal pensemos mais neles, conversemos sobre eles. Talvez ansiemos por alguns sonhos desfeitos e vejamos que nossas maiores esperanças muitas vezes precisam enfrentar situações inesperadas e desconcertantes. E quando isso acontece, José nos mostra o caminho: não devemos ceder a sentimentos negativos, como a raiva e a mente fechada – esse é o caminho errado! Pelo contrário, devemos acolher as surpresas, as surpresas da vida, inclusive as crises… Quando atravessamos uma crise sem ceder à mente fechada, à raiva e ao medo, mantendo a porta aberta para Deus, Ele pode intervir. Ele é especialista em transformar crises em sonhos: sim, Deus abre as crises para novas perspectivas que não havíamos imaginado, talvez não como esperávamos, mas como Ele sabe melhor. E esses, irmãos e irmãs, são os horizontes de Deus: surpreendentes, mas infinitamente mais amplos e mais belos que os nossos. Que a Virgem Maria nos ajude.” Viver aberto às surpresas de Deus.”
Em resumo, podemos considerar as palavras do anjo a José, "Não tenha medo de receber Maria como sua esposa", como dirigidas a nós. Não tenhamos medo de receber Maria e, com ela, o Menino Jesus. Se o recebermos das mãos de Maria, o medo e o tremor desaparecem, pois em Maria Deus se faz carne, se torna humano, se torna proximidade e ternura.
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PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
Eu gostaria de ser como José.
Eu gostaria de ser como José.
Sonhando com Deus à noite
Que ele ordene meus desejos.
E minhas paixões
Acordar de manhã
Colocar-me em suas mãos.
Sem cansaço ou repreensões
Seu mandato foi compreendido.
Prepare minha casa
Abra as janelas com alegria.
Bem-vindos à sua doce expectativa.
À Virgem Maria
Com ela, aguarda a Criança.
Isso nascerá em breve
Ele fará novas todas as coisas.
E isso nos dará uma nova vida.
Vou perguntar a ele em caso de dúvidas.
Venha aos meus sonhos à noite.
Filho Deus, amor que eu desejo
Acalma minhas paixões. Amém.
1 U. Wilckens, A Carta aos Romanos vol. I (Sígueme; Salamanca 1997) 87.
2 U. Wilckens, A Carta aos Romanos vol. I (Sígueme; Salamanca 1997) 87.
3 Carta aos Romanos (Palavra Divina; Estella 2012) 41.
4 Cf. F.-X. Durrwell, O Pai. Deus em seu mistério (Paris 1993) 27-33; e CATIC n° 445.
5 J. Fitzmyer, Romanos (AB; Doubleday; Nova Iorque 1993) 235.
6 R. Brown, em *O Nascimento do Messias* , pp. 124-127, apoia e defende fortemente essa posição . Segundo ele, essa teoria era defendida na antiguidade por Justino Mártir, Ambrósio, Agostinho e Crisóstomo. J. Ratzinger, em * Jesus de Nazaré: As Narrativas da Infância* , p. 26, escreve: “O que Mateus antecipa aqui sobre a origem da criança José ainda não sabe. Ele deve presumir que Maria havia rompido o noivado e — de acordo com a lei — deveria divorciar-se dela. Nesse aspecto, ele pode escolher entre um ato legal público e um privado: ele pode levar Maria ao tribunal ou entregar-lhe uma carta particular de divórcio. José escolhe a segunda opção para não ‘denunciá-la’ ( Mt 1:19). Nessa decisão, Mateus vê um sinal de que José era um ‘homem justo’”.
7 Este já era o pensamento de São Jerônimo e Santo Efrém, seguidos por São Bernardo. Entre os estudiosos modernos, L.H. Rivas, Jesus Speaks to His People 2 (CEA; Buenos Aires 2001) 40 e A. Rodríguez Carmona, The Gospel of Matthew (DDB; Bilbao 2006) 40, também se inclinam para esta posição.
8 Alejandro Diez Macho, A historicidade dos evangelhos da infância, 21-22.
9 Celebrar a Jesucristo I (Sal Térrea; Santander 1987) 141.
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CUARTO DOMINGO DE ADVIENTO CICLO "A"
RECIBIR A MARÍA Y A SU HIJO JESÚS, DIOS CON NOSOTROS
Primera Lectura (Is 7,10-14):
Este texto forma parte de una unidad narrativa y teológica que abarca Is 7,1-8,20. La misma consta de un prólogo histórico (7,1-2) seguido por tres escenas (7,3-9; 7,10-17; 8,1-4) que tienen en común la presencia de un niño cuyo nombre tiene valor simbólico.
Para comprender esta profecía hay que conocer su contexto histórico inmediato: la guerra siro-efraimita del 734/33 a C. (cf. 2Re 16). Siria y Efraín (Reino del norte) hacen una alianza militar y planean atacar la capital del Reino del Sur, Jerusalén, con la intención de derrocar a su legítimo rey, Acaz, lo cual supone un atentado contra la dinastía davídica. La reacción del rey y del pueblo es un profundo temor (cf. Is 7,3). Entonces interviene Isaías, quien invita a no tener miedo porque Dios es quien domina sobre las naciones estableciendo los reyes y le anuncia que va a fracasar totalmente el proyecto de Siria y Efraín contra Acaz. En 7,4a la exhortación es: tener calma y no temer; mientras que en 9b es: confiar (apoyarse) en el único fundamento sólido que es Dios.
En este contexto se entiende mejor la frase del profeta Isaías al rey Acaz al inicio del texto de hoy: “Pide para ti un signo de parte del Señor, en lo profundo del Abismo, o arriba, en las alturas" (Is 7,11). La función del signo, que suele seguir a los anuncios divinos, es garantizar o confirmar esta palabra como dada por Dios (cf. Is 38,22ss; 37,30-32; Jue 6,36-40; Ex 3-4). Vale decir que Isaías quiere que el rey Acaz declare que ha creído al anuncio de Dios en favor suyo y le pida, entonces, el signo que lo confirma. Pero Acaz no quiere pedir el signo porque en el fondo no acepta el anuncio de Dios, no confía sólo en Él. Rechazar la ayuda divina es presunción y desconfianza bajo la apariencia de piedad por no querer tentar a Dios. Recordemos que Acaz es el continuador de la dinastía davídica y, por tanto, sujeto de la promesa de 2Sam 7,16. Su actitud incrédula y temerosa cansa a los hombres y a Dios. Entonces el texto resalta que es Dios mismo quien dará el signo, y tenemos entonces un clásico oráculo de anunciación: "la joven está embarazada y dará a luz un hijo, y lo llamará con el nombre de Emanuel" (Is 7,14).
En primer lugar, el oráculo habla de “la joven”. El término hebreo ha±almâ utilizado aquí puede significar tanto "muchacha" como "joven esposa". El contexto histórico, más la presencia del artículo (“la”), indican que se trata con mayor probabilidad de la joven esposa del rey que aún no ha tenido un hijo. La versión griega de la LXX lo traduce por párzenos (pa,rqenoj), que significa
literalmente "virgen", y de aquí pasa a Mt 1,23 y a la tradición cristiana que lo aplica a la Sma. Virgen María.
Pues bien, esta joven "está embarazada y dará a luz un hijo”. ¿Quién es este niño-signo? En un primer nivel de lectura se trata de Ezequías, hijo de Acaz y futuro rey de Judá. Lo confirma el contexto histórico pues el anuncio de la inminente liberación de Jerusalén invita a pensar en un acontecimiento próximo. Con esto coincide la cronología pues el nacimiento de Ezequías se calcula sucedió alrededor de los años 733/32 a. C. También el género literario apoya esta afirmación pues los anuncios de nacimiento siempre se refieren a personas concretas e históricas. Por tanto, Dios le anuncia a Acaz que un hijo suyo continuará la dinastía davídica a la que pertenece y de este modo confirma el fracaso del intento de derrocarlo por parte de Siria y Efraín.
Lo que llama la atención es el nombre del niño, en hebreo ±imm¹nû°¢l, que literalmente significa “con-nosotros-Dios”. Dado que se trata de una frase nominal (sin verbo) también podría traducirse como una invitación a la confianza: “Dios (está) con nosotros” o como una súplica: “Dios (esté) con nosotros”. Al igual que los nombres de los hijos de Isaías, su valor es simbólico e indica que esta presencia de Dios con los suyos es el signo o garantía de su auxilio y liberación.
Segunda Lectura (Rom 1,1-7):
Como en todas sus cartas, San Pablo comienza presentándose como Apóstol de Jesucristo, elegido para anunciar el Evangelio. En el contexto litúrgico nos interesa mayormente la presentación que hace de Jesús en los versículos 3 y 4 identificándolo con el contenido del mismo Evangelio de Dios. Se trata, según los estudiosos, de una confesión de fe que Pablo toma de la Tradición cristiana y la presenta desde el inicio para ganarse la confianza de los romanos, comunidad que no lo conoce personalmente. En primer lugar, considera a Jesús como el Hijo de Dios prometido por los profetas en las Sagradas Escrituras. En esta primera afirmación hay una implícita referencia a la pre-existencia de Cristo por cuanto viene a continuación completada con una referencia a su Encarnación al afirmar que "nació de la descendencia de David según la carne". Como bien dice U. Wilckens, "este es el documento de identidad del Hijo de Dios hecho hombre"1.
Esta afirmación viene completada en un segundo miembro donde se presenta a Jesús "constituido Hijo de Dios con poder según el Espíritu santificador por su resurrección de entre los muertos". Al respecto dice U. Wilckens que "Pablo entiende la afirmación del segundo miembro de la fórmula no en el sentido de que Cristo se convirtió en Hijo de Dios en el momento de su resurrección, sino que Dios, como a Hijo suyo, le confió, desde su resurrección, la posición de poder del Soberano celeste (Flp 2,9-11; 1Cor 15, 23-28)"2. De modo semejante opina X. Alegre al decir que la expresión «en dynamei», con poder, es típica de san Pablo y “con este añadido evita, en su concepción teológica, que se pueda pensar que Jesús empieza a ser Hijo a partir de la resurrección. Lo que quiere indicar es que Jesús sólo actúa con poder absoluto a partir de la resurrección. Con este añadido, Pablo subraya que el hombre Jesús es, y continúa siendo, el Mesías de Israel en cuanto es el Hijo de Dios que, a partir de su resurrección, tiene el poder salvífico de abrir a todos los seres humanos, judíos y paganos, un modo nuevo de relación con Dios”3.
Es decir, a partir de su resurrección y glorificación la filiación del hombre Jesús con respecto a Dios es íntegra y absoluta. La humanidad de Cristo, nacido del linaje de David según la carne, glorificada por obra del Espíritu Santificador en su resurrección, participa de la filiación eterna del Hijo de Dios4. Y como bien nota J. Fitzmyer, a partir de su resurrección Jesús resucitado tiene el poder de vivificar a todos los seres humanos5. De este modo, la humanidad glorificada de Jesús es causa y anticipo de nuestra propia glorificación. Este sería el alcance salvífico del Evangelio que Pablo predica.
Evangelio (Mt 1,18-24):
El capítulo primero del evangelio de Mateo es eminentemente cristológico pues ya desde el comienzo declara que intenta decirnos quién es Jesucristo revelándonos su origen: "Libro del origen de Jesucristo, hijo de David, hijo de Abrahán" (Mt 1,1). Jesucristo es “hijo de David, hijo de Abraham”, por tanto está inserto plenamente en el pueblo judío y cumple las esperanzas mesiánico-davídicas que anunciaron los profetas. Al respecto, notemos que José en el evangelio de hoy es llamado por el ángel ‘hijo de David’ pues tiene la misión de introducir a Jesús en la dinastía davídica (cf. 1,18-21) siendo su padre legal o adoptivo.
Ahora bien, Mateo quiere enseñar que Jesús es mucho más que el descendiente de David prometido por los profetas porque es el Hijo de Dios, y lo hace narrándonos cómo fue engendrado. Tanto el versículo 18 como el 25 insisten en la concepción virginal de Jesús. Ya antes en Mt 1,16 se utilizó un pasivo teológico para referirse al nacimiento de Jesús dejando en claro que José fue el esposo de María, pero no el padre biológico de Jesús. Ahora el v. 18 explica este hecho afirmando que, si bien María estaba desposada con José, quedó embarazada por obra del Espíritu Santo. Importa aclarar que Mateo, al decir que María estaba desposada con José pero que todavía no habían empezado a vivir juntos, está describiendo las costumbres propias de aquella época y cultura. En efecto, el matrimonio judío de entonces se realizaba en dos momentos. Primero tenían lugar los desposorios cuando se firmaba el "contrato matrimonial" y donde era fuerte la intervención de los padres pues la novia solía tener doce o trece años. Y si bien todavía no convivían, a los efectos legales tenía el mismo valor que el matrimonio mismo; por ello la infidelidad en este período era considerada adulterio y estaba penada con el mismo castigo (cf. Dt 22,13-24). Al cabo de un tiempo tenía lugar el segundo momento que era el traslado formal de la esposa a la casa del esposo y comenzaban a vivir juntos.
El hecho narrado por Mateo sucedió en el 'entretiempo' de estos dos momentos, pues claramente se señala que estaban desposados pero que todavía no convivían, no tenían vida en común. Por eso utiliza, al igual que Lc 1,27, el verbo mnesteuein (desposada, comprometida) para describir la relación entre José y María, evitando los verbos gamein y gamizein que significan claramente casarse. Entonces, dejando en claro que no tenían relaciones sexuales, Mateo informa al lector que la concepción de Jesús viene directamente de Dios, de la acción del Espíritu Santo cuya intervención, es, por tanto, creacional y no sexual.
El versículo 19 nos describe la reacción de José ante el embarazo de María. Notemos, en primer lugar, que en este versículo se precisa que José era "justo" y esto en Mateo – como en el AT - significa cumplidor de la voluntad de Dios manifestada en la ley; obediente a la ley de Dios. Y recordemos que en Dt 22,20-21 se establece la lapidación (ser apedreada) como castigo a la mujer desposada que no llega virgen al matrimonio y el esposo la acusa de adulterio. Por tanto, José, que no conoce el origen divino del niño, supone que María ha faltado a esta ley; pero al mismo tiempo parece que no termina de aceptarlo pues no quiere exponerla públicamente como manda la ley (tal sería el sentido de deigmatizein utilizado sólo aquí y en Col 2,15).
La decisión de José, si tenemos en cuenta que el uso del verbo griego apolyein en Mateo (cf. 5,31-32; 19,3.7-9) es para referirse al repudio o divorcio, es la de divorciarse y despedir a María, pero en secreto. No sabemos si existía por aquellos tiempos esta costumbre del divorcio en privado, pero lo que más concuerda con el texto y con la época es que José la repudiaría como esposa sin denunciarla públicamente de adulterio, sino alegando otras razones. Podemos suponer que fue la única salida que encontró, ante esta inesperada y confusa situación, para obrar sin faltar a la Ley de Dios ni causar un perjuicio mortal a María. Sin duda era un hombre justo6.
Otros autores, por su parte, piensan que la decisión de San José era abandonar en secreto a María como para cargar él con la culpa; y la motivación de su huída sería, no la sospecha sobre María, sino más bien su pavor o temor ante el misterio de la concepción virginal, por lo cual consideró que lo mejor era quitarse del medio para no entorpecer la obra de Dios en María7. Esta interpretación presupone que José conoce el origen divino de Jesús, pero según el texto esto le viene revelado después por el ángel (v. 20).
Entonces interviene Dios para disipar las dudas y temores de José. En efecto, en 1,20-21 nos dice que un ángel se le aparece en sueños y le revela lo que tiene que hacer: recibe-toma a María como tu mujer, tu esposa (μὴ φοβηθῇς παραλαβεῖν Μαρίαν τὴν γυναῖκά σου·). Esto implica llevar a cabo el segundo momento del matrimonio judío: que el marido lleve a la esposa a su casa ("tomó consigo a su mujer" παρέλαβεν τὴν γυναῖκα αὐτοῦ, en 1,24). Y la motivación o justificación de esta acción está en que María ha concebido por obra del Espíritu Santo, el embarazo es obra de Dios (cf. 1,18). Más aún, se le ordena ponerle al niño el nombre de Jesús cuyo significado según la etimología popular es "Dios Salva", de aquí la misión del niño. Los antiguos decían Nomen omen (el nombre conlleva una misión); así en Mt 1,21 se nos da el nombre y la misión de Jesús: “salvará a su Pueblo de todos sus pecados (σώσει τὸν λαὸν αὐτοῦ ἀπὸ τῶν ἁμαρτιῶν αὐτῶν)”. Además, según la ley judía, la imposición del nombre por parte del padre supone el reconocimiento legal del niño como hijo suyo. Por tanto, Dios le pide a José, hijo de David, que reconozca al niño como propio y de este modo lo incorpore a la descendencia davídica.
En los versículos 22-23 aparece la primera cita de cumplimiento: "Todo esto sucedió para que se cumpliese lo dicho por el Señor por medio del profeta". La cita de Is 7,14 que sigue está tomada de la versión de la LXX y por ello habla de “virgen” (h` parqe ,noj); lo cual ha sido muy oportuna pues en ella aparecen juntas las dos filiaciones: la de David y la de Dios. Según A. Diez Macho8ni la virginidad de María, ni la imposición del nombre por José, ni la presencia de “Dios con nosotros” son meras deducciones de una exégesis sin consistencia; por el contrario, son realidades que Mateo intenta confirmar con un texto del Viejo Testamento, interpretado según una hermenéutica al uso. De esta manera la cita del AT confirma el hecho de la concepción virginal de Jesús como preanunciado por Dios; pero no lo explica. Al igual que las dos referencias anteriores a la concepción por obra del Espíritu Santo, el suceso en sí permanece en el misterio, solamente se excluye cualquier atisbo de generación sexual.
En los versículos 24-25 se nos relata cómo José, una vez despierto del sueño, cumple al pie de la letra lo que le fue ordenado por el ángel, es decir por el Señor. Era un hombre justo En síntesis, en este texto se declara específicamente la filiación divina de Jesús, quien es presentado como el Enmanuel, Dios con nosotros; y como el Hijo de Dios. Esta identidad profunda de Jesús la atestigua la Escritura que se cumple en Él y la confirma la revelación del ángel del Señor. Además de revelarnos quién es Jesús – "hijo de David" e "hijo de Dios" – esta narración nos explica cómo llegó a serlo. Así, es “hijo de David” por relación a su padre adoptivo, José, quien pertenecía a la familia de David, según quedó establecido en la genealogía. Es “hijo de Dios” porque fue concebido virginalmente, sin concurso de varón, por obra del Espíritu Santo. Por tanto, el sentido teológico profundo de la concepción virginal es que Dios actúa más allá de las posibilidades humanas por medio de su Espíritu Santo. Al no haber concurso de varón se resalta la paternidad absoluta de Dios sobre Jesús. Además, se indica que el nacimiento de Jesús marca el comienzo de algo totalmente nuevo y nos vuelve a remitir a la obra creadora de Dios de Gn 1.
Orientaciones para la homilía:
En este cuarto domingo todas las lecturas están enfocadas hacia el Niño que nacerá, hacia Jesús, para revelarnos su verdadera identidad: es el Hijo de Dios. Como dice A. Nocent: "Hemos pasado al otro aspecto de la liturgia del Adviento: la espera de la Encarnación del Verbo"9.
El domingo pasado vimos cómo el mismo Juan el Bautista tuvo que purificar sus expectativas mesiánicas para que concuerden con el objeto de la esperanza cristiana. Este domingo se nos invita a proseguir por este mismo camino para "sintonizar" con aquel que vendrá a nosotros. Es decir, se trata de esperar de verdad a quien verdaderamente viene a nosotros. Por eso las tres lecturas se centran en la persona y la misión de Jesús: Aquel que vendrá y debemos esperar.
En la primera lectura, el profeta Isaías, en un momento dramático para Jerusalén, anuncia el nacimiento de un niño como signo de esperanza para el pueblo porque Dios está con ellos. La traducción griega de modo providencial consideró a la "joven doncella" como una "virgen que concibe" resaltando así la obra de Dios. De este modo se profetiza la concepción virginal de María. San Pablo en su introducción a la carta a los romanos también señala el "doble origen" que determina la identidad de Jesús: hijo de David según la carne, según su origen humano (verdadero hombre); hijo de Dios según el Espíritu, según su origen Divino (verdadero Dios). El evangelio nos narra el cumplimiento de la profecía de Is 7,14, señalando tanto la continuidad con el Antiguo Testamento como su superación por la novedad cristiana. El evangelista Mateo ve una continuidad entre Ezequías, el hijo de Acaz (el Enmanuel histórico) y Jesús, pues los dos son signo de la fidelidad divina a la promesa de salvación; pero también supone que en Jesús se cumple plenamente aquel oráculo o profecía mesiánica. Él es literalmente y en sentido pleno Enmanuel, Dios con nosotros.
En continuidad con el evangelio del domingo pasado recordemos que no esperamos el juicio de Dios sino la salvación. Esto se refuerza en el evangelio de hoy con el nombre que, por indicación del ángel, se le pondrá al niño: Jesús, porque el salvará a su pueblo de sus pecados. Vale decir que el Enmanuel, Dios con nosotros, es Jesús, Dios que nos salva. El Enmanuel es Dios que viene a salvarnos.
La gran cuestión es si verdaderamente estamos experimentando la necesidad de esta salvación de Dios. El mundo parece no necesitarla y la desprecia. Pero en el fondo, ¿es realmente así? ¿Se siente profundamente feliz el corazón del hombre si sólo recibe regalos materiales y la bondad de papa Noel? ¿No desea algo más, no tiene necesidad de algo más? Por ello es tan importante "estar ubicados, parados, en el lugar por el cual el Señor pasará, al cual vendrá".
Para nosotros este lugar es la necesidad de ser salvados, de ser amados, de ser aceptados incondicionalmente. Hay que tener valor para entrar en lo profundo de nuestro corazón donde la necesidad de salvación se expresa con variadas voces que gritan a Dios con nombres diversos, pero que en el fondo claman sólo por Él. Si descubrimos que hay en nuestro corazón pecado, gritaremos pidiendo Su perdón. Si hay inquietud o angustia, pediremos la paz del corazón, la armonía interior. Si hay soledad, pediremos Su presencia, Su amor y Su consuelo. Este no es otro que el camino de las bienaventuranzas, de los pobres de espíritu a los que Jesús promete el Reino. Si habitamos allí, hasta allí llegará el Señor con sus dones de paz y alegría interior. Como nos dice Benedicto XVI: "La verdadera, la gran esperanza del hombre que resiste a pesar de todas las desilusiones, sólo puede ser Dios, el Dios que nos ha amado y que nos sigue amando «hasta el extremo», «hasta el total cumplimiento»" (Spe Salvi nº 27).
La salvación no es sólo un hecho divino, es una Persona divina. Este es el objeto propio de nuestra esperanza cristiana. Esperamos al mismo Hijo de Dios, infinitamente más grande que nuestras aspiraciones y nuestros méritos. Vislumbrar un poco esto nos hace entrar en el terreno de la duda y del temor, como le sucedió a san José, hombre justo, pero que se sintió sorprendido y sobrepasado por el misterio de la Encarnación. Sin embargo, respondió con un gran acto de fe y de plena obediencia a la Palabra de Dios. Por tanto, el momento de oscuridad y confusión que pasó San José nos debe ayudar a dar un paso más en nuestra fe, sabiendo que el camino de salida está en escuchar y obedecer a Dios más allá de nuestras noches. Al respecto dijo el Papa Francisco en el ángelus de 18 de diciembre de 2022: “¿qué nos dice José hoy a nosotros? También nosotros tenemos nuestros sueños, y quizá en Navidad pensamos más en ellos, los discutimos juntos. Quizá añoramos algunos sueños rotos, y vemos que las mejores esperanzas a menudo deben enfrentarse a situaciones inesperadas, desconcertantes. Y cuando esto sucede, José nos indica el camino: no hay que ceder a los sentimientos negativos, como la rabia y la cerrazón, ¡este es un camino equivocado! Por el contrario, debemos acoger las sorpresas, las sorpresas de la vida, incluidas las crisis… Cuando se habita la crisis sin ceder a la cerrazón, a la rabia y al miedo, teniendo la puerta abierta a Dios, Él puede intervenir. Él es experto en transformar las crisis en sueños: sí, Dios abre las crisis a perspectivas nuevas que no imaginábamos, quizá no como nosotros nos esperamos, sino como Él sabe. Y estos son, hermanos y hermanas, los horizontes de Dios: sorprendentes, pero infinitamente más amplios y hermosos que los nuestros. Que la Virgen María nos ayude a vivir abiertos a las sorpresas de Dios”.
En fin, bien podemos considerar como dirigidas a nosotros las palabras que le dice el ángel a José: "no temas recibir a María". No temamos recibir a María y con Ella al Niño Dios. Si lo recibimos de las manos de María, desaparecen el temor y el temblor pues en María Dios se hace carne, se hace humano, se hace cercanía y ternura.
6
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
Quisiera como José
Quisiera como José
Soñar con Dios por las noches
Dejarlo ordenar mis deseos
Y mis pasiones
Despertar por las mañanas
Ponerme en sus manos
Sin cansancio ni reproches
Entendido su mandato
Preparar mi casa
Abrir las ventanas con alegría
Recibir en su dulce espera
A la Virgen María
Con ella aguardar al Niño
Que nacerá enseguida
Hará nueva todas las cosas
Y nos dará nueva vida
Le pediré en mis dudas
Ven a mis sueños por las noches
Dios Niño, Amor que yo deseo
Calma de mis pasiones. Amén.
1 U. Wilckens, La carta a los Romanos vol. I (Sígueme; Salamanca 1997) 87.
2 U. Wilckens, La carta a los Romanos vol. I (Sígueme; Salamanca 1997) 87.
3 Carta a los Romanos (Verbo Divino; Estella 2012) 41.
4 Cf. F.-X. Durrwell, Le Père. Dieu en son mystère (Paris 1993) 27-33; y CATIC n° 445.
5J. Fitzmyer, Romans (AB; Doubleday; New York 1993) 235.
6Sostiene y defiende esta postura con fuertes argumentos R. Brown, El nacimiento del Mesías, 124-127. Según este autor esta teoría fue sostenida en la antigüedad por Justino, Ambrosio, Agustín y Crisóstomo. Al respecto escribe J. Ratzinger, La Infancia de Jesús, 26: "lo que Mateo anticipa aquí sobre el origen del niño José aún no lo sabe. Ha de suponer que María había roto el compromiso y —según la ley— debe abandonarla. A este respecto, puede elegir entre un acto jurídico público y una forma privada: puede llevar a María ante un tribunal o entregarle una carta privada de repudio. José escoge el segundo procedimiento para no «denunciarla» (Mt 1,19). En esa decisión, Mateo ve un signo de que José era un «hombre justo»".
7 Así pensaban ya San Jerónimo y san Efrén, a quienes sigue San Bernardo. Por esta postura se inclinan también, entre los modernos, L. H. Rivas, Jesús habla a su pueblo 2 (CEA; Buenos Aires 2001) 40 y A. Rodríguez Carmona, El Evangelio de Mateo (DDB; Bilbao 2006) 40.
8 Alejandro Diez Macho, La historicidad de los evangelios de la infancia, 21-22.
9 Celebrar a Jesucristo I (Sal Térrea; Santander 1987) 141.