18/01/2026
1ª leitura: Isaías 49,3.5-6
Salmo 39(40) R- Eu disse: eis que venho Senhor, com prazer faço a vossa vontade!
2ª leitura: 1 Coríntios 1,1-3
Evangelho de João 1,29-34
Naquele tempo: 29João viu Jesus aproximar-se dele e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. 30Dele é que eu disse: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim. 31Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel'. 32E João deu testemunho, dizendo: 'Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele. 33Também eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar com água me disse: `Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo'. 34Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!' Palavra da Salvação.
João Batista conta o Batismo de Jesus de maneira indireta. Ele não narra o episódio, mas faz João Batista dar testemunho de um evento decisivo para a história da salvação. E o testemunho do Batista é este: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.
A palavra cordeiro, Cordeiro de Deus, tão importante para São João Batista, pode parecer para nós sem grande significado. Podemos até mesmo entender essa palavra como sinônimo de pessoa tranquila: cordeirinhos, bobinhos, inofensivos. Pode significar uma personalidade fraca, tipo “Maria vai com as outras”. Para nós, cordeiro é uma metáfora negativa. Por isso, precisamos nos purificar desse preconceito.
Se o significado nos parece negativo, não o é como título messiânico. Precisamos cair na conta que cordeiro é um título messiânico que João aplica a Jesus.
Para a cultura bíblica, o título “cordeiro” é um dos mais importantes da história da salvação e carrega uma carga existencial e emotiva muito forte.
Um dia os judeus estavam escravizados no Egito e Deus os libertou da opressão do faraó na noite em que sacrificaram o cordeiro. Essa noite, o anjo exterminador passou de casa em casa e poupou apenas os habitantes daqueles cujos umbrais estavam assinalados pelo sangue do cordeiro.
Os judeus aprenderam, com esse episódio, que há um sangue que defende da morte e salva o povo oprimido pela escravidão. Pensemos nisso quando estivermos na fila da comunhão: Jesus é o Cordeiro de Deus que nos defende da morte eterna, cujo sangue nos protege, no qual fomos lavados em nossa culpa e pecado. “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.
Outro rico significado do cordeiro, encontramos na própria celebração da páscoa dos judeus. Eles celebravam comendo em família um cordeiro, sacrificado sem que nenhum dos seus ossos fosse quebrado.
Quando Jesus foi sacrificado na cruz, o evangelista João dirá, especificamente, que nenhum dos seus ossos foi quebrado. Naquela época muitos dos crucificados agonizavam longamente até por dias. Por isso, para abreviar o suplício, era comum que os soldados quebrassem as pernas dos crucificados. Sem o sustento das pernas, os crucificados morriam mais rapidamente por asfixia.
Como o cordeiro pascal dos judeus, o nosso Cordeiro Pascal Jesus não teve suas pernas quebradas. Como é rica a imagem do cordeiro: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
O cordeiro pascal dos judeus era consumido na noite da passagem do anjo exterminador. Em torno dele as famílias dos judeus se reuniam para se alimentarem e para fazerem a passagem da escravidão para a liberdade.
Em torno do Cordeiro de Deus, Jesus, nós celebramos a Eucaristia, novo banquete pascal, no qual somos alimentados pelo Pão da Vida e somos saciados pelo cálice da salvação.
Em torno da mesa formamos uma unidade que nos torna o próprio Corpo de Cristo. Somos alimentados com o Corpo de Cristo, para sermos nós mesmos o que recebemos. Somos inebriados de uma bebida espiritual, que é o sangue derramado na cruz. Não o sangue da vingança, mas o sangue do sacrifício por amor.
A proximidade desta mesa nos faz cair na conta da nossa enorme indignidade. Por isso à aclamação: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, respondemos humildemente: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha morada, mas dize uma só palavra e eu serei salvo”.
Confessar que Jesus é o Cordeiro de Deus tem consequências para nós. A primeira consciência prática é a nossa entrega confiante de nossa vida a Cristo. Ele nos protege, nos livra do pecado, da morte eterna. Hoje o mundo de nossas crianças está contaminado de protetores: super-homem, mulher maravilha, batman, e assim por diante. Infelizmente são também personagens pouco heroicas, que se tornam de alguma forma modelos de identificação para nossas crianças.
Precisamos proteger nossas crianças dessa simbologia doente e insana. Precisamos ajudar nossas crianças, e a nós mesmos, a entregarem sua confiança ao verdadeiro protetor, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Assim nos tornamos os cordeiros que protegem os pequeninos.
Confessar que Jesus é o “Cordeiro de Deus” tem como consequência para os cristãos o imperativo de entrega no amor. Como ele se entrega total e cordialmente a nós em seu corpo e em seu sangue, assim o cristão se empenha em entregar sua vida por amor, entregar o seu tempo de serviço aos necessitados, entregar suas capacidades e competências, ao usá-las para a construção de uma sociedade mais fraterna, partilhar os seus bens, partilhando-os com os mais pobres. Assim nos tornamos cordeiros que alimentam os outros. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.
2º DomTComum - Jo 1,29-34 - Ano A- 18-01-2026
“Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo”
Neste início do chamado “Tempo Comum”, após a celebração do batismo de Jesus, a liturgia continua nos pedindo e nos propondo que “façamos memória”, mais uma vez, daquele evento tão significativo.
De fato, o grande protagonista da liturgia de hoje é o Espírito Santo.
As primeiras comunidades cristãs se preocuparam em diferenciar bem o batismo de João, que submergia as pessoas nas águas do Jordão, e o batismo de Jesus que comunicava seu Espírito para purificar, renovar e transformar o coração de seus seguidores e seguidoras. João Batista anunciou que o Messias batizaria no Espírito. Para João Evangelista, ser batizado por Jesus de Nazaré é participar de seu destino, é já se abrir para o Espírito que pousou sobre Ele em plenitude. Jesus se deixou conduzir pelo Espírito e o seu batismo move as pessoas a entrarem no mesmo movimento do Espírito.
Sem esse Espírito de Jesus a comunidade cristã se apaga e se extingue.
“Ver” o Espírito descer, descobrir que o Espírito pousou em Jesus, é a chave do testemunho de João. Esta sensibilidade não procede de seu esforço ou de sua vida austera e sacrificada; é um dom de Deus. Por isso, João vai além das aparências.
Nossa fé em Jesus nos leva a essa profundidade de visão, a descobrir o Espírito de Deus presente e atuando em nosso mundo, em nossa história. Esta é a consequência do tempo natalino que acabamos de celebrar.
Sem esse Espírito de Jesus a comunidade cristã se apaga e se extingue – Adroaldo Palaoro
Sabemos que o batismo é um processo; há um momento especial para seu ritual no seio da comunidade cristã. Mas a consciência de nossa identidade profunda só vai chegando lenta e profundamente.
Pode ser que chegue lentamente porque é demasiado grande para ser assimilado com rapidez. Como um bálsamo, desliza-se pela pele de nossa interioridade, impregnando cada poro, hidratando a secura de nosso coração, tão cansado de buscar fora o que já habita dentro. Somos seres habitados pelo mesmo Espírito de Jesus. É a água que abre nossa vida à “Santa Ruah”, a água que elimina o pó de nossos espaços interiores, para que sejamos capazes de compreender, pouco a pouco, quem somos de verdade.
Entrar no fluxo do dinamismo profundo da Ruah é entrar em um espaço e refúgio seguro. A Santa Ruah entende de processos e de profundidades e, se permanecemos quietos, em silêncio expectante do qual nos fala o Evangelho, Ela realiza seu trabalho de transformação de nossas vidas.
A Santa Ruah entende de processos e de profundidades e, se permanecemos quietos, em silêncio expectante do qual nos fala o Evangelho, Ela realiza seu trabalho de transformação de nossas vidas – Adroaldo Palaoro
É neste movimento do Espírito em nós e através de nós onde o batismo, recebido ritualmente uma vez, adquire de novo seu significado: cresce em nós a consciência e a experiência da nossa filiação divina. E o movimento da vida começa a se expandir de novo, deixando para trás tudo o que atrofia a mesma vida: medo, solidão, sofrimento...; e, ao nos fazer passar pela água, o batismo desperta o sentido da própria existência, ativa o amor como dinamismo vital, nos possibilita respirar de novo, cura as feridas, nos faz ver o futuro com nova luz...
Sabemos muito bem que o maior obstáculo para colocar nossa vida em marcha, no seguimento de Jesus, é a mediocridade espiritual, o ritualismo estéril, o legalismo doentio... Movidos pelo “sopro” da Ruah, aspiramos, com todas as nossas forças, uma vida mais ardente, alegre, criativa, generosa, audaz, cheia de amor até o fim; em outras palavras, uma vida contagiante. Mas, tudo será insuficiente se não arde nos nossos corações o fogo do Espírito.
Só o Espírito de Jesus pode tornar a vivência cristã atual mais verdadeira e evangélica; só seu Espírito pode nos ajudar a recuperar nossa verdadeira identidade cristã, abandonando caminhos que nos desviam do Evangelho; só esse Espírito pode nos dar luz e força para empreender a renovação que a Igreja precisa hoje.
Essa renovação atual não é possível quando a falta de uma espiritualidade profunda se traduz em pessimismo, fatalismo e desconfiança, ou quando nos leva a pensar que nada pode mudar, ou quando sentimos que é inútil esforçar-nos, ou quando baixamos os braços definitivamente, dominados por um descontentamento crônico ou por um esfriamento que seca a alma.
Segundo o Papa Francisco, “às vezes perdemos o entusiasmo ao esquecer que o Evangelho responde às necessidades mais profundas das pessoas”. Tudo isto temos de descobrir através da experiência pessoal de identificação com Jesus; somos seguidores de uma Pessoa, e não de uma religião. Quem não alimenta uma paixão pelo seguimento e pela vivência do evangelho logo lhe faltará a força e a criatividade.
O maior obstáculo para colocar nossa vida em marcha, no seguimento de Jesus, é a mediocridade espiritual, o ritualismo estéril, o legalismo doentio... – Adroaldo Palaoro
Com Jesus chega um “novo tempo”, um tempo decisivo para a história da humanidade. “Tempo carregado” da presença do Espírito; por isso, tempo criativo, inspirador...
É Deus quem irrompe de maneira definitiva na temporalidade. A partir desse momento, a história fica dividida em dois tempos: o anterior e o posterior ao nascimento de Jesus.
Desta maneira, o “Senhor dos tempos” faz de Jesus o centro e o ponto de referência do tempo dos homens. Todos os acontecimentos do mundo, tanto passados como futuros, encontrarão seu lugar e sentido a partir do “tempo central”, que é o tempo de Jesus.
O Espírito é aquele que habita o tempo, e nos habita. Estamos no tempo do Espírito que nos faz perceber o “espírito do tempo”; só assim viveremos o tempo de maneira criativa e ousada, como Jesus. Aos seus olhos, as realidades da vida cotidiana se tornavam transparências; Ele as olhava com olhos contemplativos; todas lhe falavam do Reino de Deus e do Deus do Reino que está sempre a caminho.
Não é raro encontrar-nos numa situação na qual vivemos o tempo como um túnel, contínuo, repetitivo... Tempo que absorve, desgasta, esgota... e nos faz entrar numa frenética corrida por rentabilizar ao máximo os minutos e as horas. O tempo torna-se cada vez mais veloz, fugaz, estressante...
Diante desse tempo não há futuro auspicioso, nem esperança que se sustenta. Nesse “tempo apertado” o Espírito não consegue entrar e a nossa maneira de viver fica desabitada e estéril.
Somos seguidores de uma Pessoa, e não de uma religião. Quem não alimenta uma paixão pelo seguimento e pela vivência do evangelho logo lhe faltará a força e a criatividade – Adroaldo Palaoro
O Espírito está no coração do tempo; Ele está ali como força explosiva que dá à nossa vida nova dimensão e uma densidade de sentido à nossa existência. De agora em diante, cada um de nossos momentos está cheio de Sua presença, transformando o “cronos” em “kairós”; de agora em diante nada em nossas vidas é insignificante, nem rotineiro. A ação mais simples é transfigurada e assume uma dimensão divina. Nada é banal, nada é comum para alguém que se deixa conduzir pelo Espírito.
É nesse nível do tempo inspirador onde respiram nossos desejos, onde nossa esperança bebe, onde nossos sonhos criam raízes... É nele que podemos moldar a arte de viver.
Nossa biografia humana se estende e se distende no tempo cotidiano. Sob o impulso do Espírito quere-mos viver este tempo de forma extraordinária: queremos enchê-lo de sonhos, de aspirações, de criatividade. Queremos viver o tempo intensamente, vivificá-lo, cuidá-lo e artisticamente orientá-lo para aquilo que desejamos. Queremos viver de uma maneira original como tempo de sentido único, como tempo irreversível. Este “tempo presente” é oportuno, precioso e não volta mais. Não há um “segundo tempo”. “A vida não dá duas safras”.
O grande programa da vida é precisamente aprender a viver, acolhendo a novidade e a surpresa de cada tempo. Como o sedento busca a fonte, como o peregrino busca a meta, como o náufrago a orientação do farol, o ser humano vive no rio do tempo; está sempre a caminho; é sentinela do futuro.
Não é raro encontrar-nos numa situação na qual vivemos o tempo como um túnel, contínuo, repetitivo... Tempo que absorve, desgasta, esgota... e nos faz entrar numa frenética corrida por rentabilizar ao máximo os minutos e as horas. (…) Nesse “tempo apertado” o Espírito não consegue entrar e a nossa maneira de viver fica desabitada e estéril – Adroaldo Palaoro
O Espírito é “atmosfera de Deus”, “herança de Jesus” e “ambiente de realização do ser humano”; n’Ele a vida adquire profundidade, consistência; n’Ele o tempo é vivido sem sobressaltos e sem pressas.
Carregamos dentro de nós o melhor da vida. Somos uma história sagrada. É preciso exercitar o olhar contemplativo, buscando “ler” a vida pessoal e comunitária com o olhar mesmo de Deus.
Para meditar na oração
Enquanto seguidores de Jesus, não somos homens e mulheres escravos da regularidade, dos costumes, dos horários e das normas; somos pessoas “tocadas pelo Espírito”, inspiradas por Ele. Fazer “experiência do Espírito” é abrir-nos à novidade, à criatividade, à mobilidade...
- Quem prevalece mais em sua vida: o costume, as normas, as expectativas dos outros... ou a inspiração do Espírito?
- Diante das mudanças sociais, eclesiais e pastorais..., você se vê na defensiva? É capaz de olhar com simpatia e empatia a sociedade que o cerca e ver nela os sinais do Reino? Que implicações tem o batismo na sua vivência cristã?
Alguns ambientes cristãos do primeiro século estavam muito interessados em não serem confundidos com os seguidores do Batista. A diferença, segundo eles, era abismal. Os “batistas” viviam de um rito externo que não transformava as pessoas: um batismo de água. Os “cristãos”, pelo contrário, deixavam-se transformar internamente pelo Espírito de Jesus.
Esquecer isso é mortal para a Igreja. O movimento de Jesus não se sustenta com doutrinas, normas ou ritos vividos do exterior. É o próprio Jesus que deve “batizar” ou “encher” os seus seguidores com o seu Espírito. E é este Espírito que os deve animar, impulsionar e transformar. Sem esse “batismo do Espírito”, não há cristianismo.
Não devemos esquecer. A fé que há na Igreja não está nos documentos do magistério ou nos livros de teólogos. A única fé real é a que o Espírito de Jesus desperta nos corações e mentes dos seus seguidores. Esses cristãos simples e honestos, de intuição evangélica e coração compassivo, são os que realmente “reproduzem” Jesus e introduzem seu Espírito no mundo. Eles são o melhor que temos na Igreja.
Infelizmente, existem muitos outros que não conhecem por experiência essa força do Espírito de Jesus. Eles vivem uma “religião de segunda mão”. Não conhecem nem amam Jesus. Simplesmente acreditam no que dizem outros. A sua fé consiste em acreditar no que diz a Igreja, no que ensina a hierarquia ou no que escrevem os entendidos, embora não experimentem no seu coração nada do que viveu Jesus. Como é natural, com o passar dos anos, a sua adesão ao cristianismo vai-se dissolvendo.
A primeira coisa que precisamos hoje, os cristãos, não são catecismos que definam corretamente a doutrina cristã ou exortações que precisem com rigor as normas morais. Só com isso não se transformam as pessoas. Há algo prévio e mais decisivo: narrar nas comunidades a figura de Jesus, ajudar os crentes a entrar em contato direto com o evangelho, ensinar a conhecer e amar Jesus, aprender juntos a viver com seu estilo de vida e seu espírito. Recuperar o “batismo do Espírito”, não é essa a primeira tarefa da Igreja?
Jesus nos reaviva para "vermos o Espírito descer", não para o extinguir, para vencermos a lei que nos escraviza e nos adormece, para abrirmos novos caminhos... O espírito evangélico deveria brilhar com mais intensidade na estrutura eclesial do que o direito canônico.
O segundo testemunho do Batista, "quando viu Jesus vindo em sua direção ", inclui duas declarações: "Este é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo..." (v. 29-31) e "Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre ele" (32-34).
Na teologia bíblica, “Cordeiro de Deus” possui pelo menos três significados:
a) O significado encontrado na literatura apocalíptica: Cordeiro do fim dos tempos, digno de abrir o livro que julga a vida. Este seria o significado original do Batista, que acreditava que o julgamento messiânico era iminente (Mt 3,7, 12; Lc 3,7, 17). “ O Cordeiro os guiará às fontes de água viva ” (Ap 7,17). “ O Cordeiro os vencerá, pois é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis…” (Ap 17,14).
b) Servo de Deus, prefigurado por Isaías: sem vingança apocalíptica, oferecida por todos: “Ele foi oprimido e afligido, contudo não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca” (Isaías 53,7). Assim o viam as primeiras igrejas: “Ele estava lendo esta passagem da Escritura: ‘Como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. Na sua humilhação, foi-lhe negada a justiça… A sua vida foi tirada da terra.’ O eunuco perguntou a Filipe: ‘O profeta está falando de si mesmo ou de outra pessoa?’ Filipe, guiando-se por essa passagem, anunciou-lhe as boas-novas a respeito de Jesus ” (Atos 8,32-35).
c) O Cordeiro Pascal: nutre e livra da morte (Êx 12,1-23). Perceptível nos símbolos da Páscoa. A condenação ao meio-dia da Vigília Pascal, quando os sacerdotes imolavam os cordeiros (Êx 12,6): “ Era o dia da Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia ” (Jo 19,14). Oferecem-lhe um hissopo (Êx 12,22): “ E, prendendo uma esponja embebida em vinagre a um ramo de hissopo, levaram-na à sua boca ” (Jo 19,29). “ Isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura: ‘Nenhum dos seus ossos será quebrado’” (Jo 19,36).
João testemunha a presença permanente do Espírito em Jesus:
a) “Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre ele.” Em Marcos, Jesus “viu os céus se abrirem e o Espírito descer sobre ele como uma pomba” (Marcos 1,10).
b) “Eu não o conhecia, mas aquele que me enviou para batizar com água me disse: ‘Aquele sobre quem você vir o Espírito descer e permanecer, esse é o que batiza com o Espírito Santo’”. Esta é a prefiguração de Isaías: “Pus o meu Espírito sobre ele” (Is 42,1). “Permanecer sobre ele” (μένον: permanecer) expressa permanência. Lucas enfatiza isso: “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e o Espírito o arrebatou…; voltou para a Galileia no poder do Espírito… ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu’” (Lc 4,1, 14, 18). A ligação entre Jesus e o Espírito é um fato indiscutível do Evangelho.
c) “E eu vi e testemunhei que este é o Filho de Deus.” Ecoando a declaração de Marcos: “Uma voz veio do céu e disse: ‘Tu és o meu Filho amado, em quem me comprazo’” (Marcos 1,11).
A teologia mais amplamente aceita hoje sustenta que Jesus não é o “Cordeiro de Deus”, uma vítima, um bode expiatório para os nossos pecados. O Deus de Jesus não é “o Deus das religiões” que “sem derramar o seu sangue não perdoa” (Hebreus 9,22). Os Evangelhos simbolizam o Espírito de Jesus com uma pomba, uma imagem bíblica de amor. “Levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem comigo. Minha pomba, deixa-me ver a tua forma, deixa-me ouvir a tua voz: a tua voz é muito doce, a tua forma é encantadora” (Cântico dos Cânticos 2,13-14). “Eu estava dormindo, mas o meu coração estava desperto. Um sussurro… O meu amado chama: ‘Abre-te para mim, minha irmã, minha amada, minha pomba imaculada’” (Cântico dos Cânticos 5,2). Esta imagem transmite o amor do “Deus de Jesus”: amor incondicional. Jesus o representa no Pai do filho pródigo, que o abraça sem remorso.
Esta presença do Espírito de Jesus deve ser evidente na Igreja. “O Espírito Santo é a Novidade pessoal em ação no mundo, a Presença de Deus conosco, ‘unido ao nosso espírito’ (Rm 8,16). Sem Ele, Deus está distante; Cristo está no passado; o Evangelho, letra morta; a Igreja, mera organização; a autoridade, despotismo; a missão, propaganda; o culto, mera evocação; a vida cristã, uma moralidade escrava” (Inácio IV de Antioquia, na abertura da Conferência Ecumênica de Uppsala, Suécia, 5 de agosto de 1968. “Irenikon”, revista ecumênica da Abadia de Chevetogne, Bélgica, n.º 42, 1968, p. 351-352). O espírito evangélico deve brilhar na estrutura eclesial com mais intensidade do que o direito canônico. Na Igreja, “ o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade ” (2 Coríntios 3,17). Sob essa perspectiva, não há espaço para imposições evangelicamente desnecessárias (por exemplo, o celibato obrigatório).
Oração: “Vi o Espírito descer do céu como uma pomba” (João 1,29-34).
Jesus, cheio do Espírito Santo:
João Batista viu o Espírito descer sobre vocês,
como uma pomba sobre seus filhotes,
Trazendo o calor da vida, comida, amor apaixonado.
Como João viu o Espírito descer e permanecer sobre você?
Foi uma revelação direta de Deus?
Foi a sua proximidade com os doentes, com as crianças, com as mulheres,
Para os marginalizados social e religiosamente…?
João enviou seus discípulos para perguntar a vocês:
“És tu quem há de vir, ou temos de esperar por outra pessoa?”
Sua resposta: “ Vá e conte a John o que você está vendo e ouvindo:
Os cegos enxergam e os coxos andam;
Os leprosos são purificados e os surdos ouvem;
Os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados.
“Bem-aventurado aquele que não se escandaliza comigo!” (Mt 11:3-6).
Você diz algo semelhante aos seus compatriotas de Nazaré:
“O Espírito do Senhor está sobre mim,
Porque ele me ungiu.
Ele me enviou para evangelizar os pobres,
proclamar a liberdade aos cativos,
Os cegos têm visão;
Libertar os oprimidos;
proclamar o ano da graça do Senhor...
Hoje se cumpriu esta Escritura aos vossos ouvidos” (Lc 4,18-19.21).
Nós também somos inspirados pelo Espírito de Deus.
“Aquele que enviou João para batizar com água”;
Nós também recebemos os mesmos critérios:
“sobre quem virdes o Espírito descer e repousar,
"Esse é aquele que batiza com o Espírito Santo."
Hoje, a sociedade, nós mesmos, podemos nos perguntar:
“Sobre quem vemos o Espírito descer e repousar?”
Será que vemos isso na Igreja, em seus pastores e fiéis?
Os crentes às vezes "velam em vez de revelar"
a verdadeira face de Deus e da religião” (GS 19);
“A Igreja é a instituição que gera mais desconfiança.”
entre a maioria dos jovens:
40,7% deles declaram não ter confiança na Igreja;
Os jovens confiam mais na política e na Coroa.
ou as multinacionais que estão na Igreja.
González-Anleo e López-Ruiz, 2017: 43. Fundação SM no relatório Jovens Espanhóis entre dois séculos (1984-2017).
Nós, cristãos, somos gratos à Igreja:
Por nos dares o teu evangelho, por nos dares o teu Espírito,
Por nos alimentar com os sinais da tua vida;
por nos libertar de muitas formas de escravidão;
Porque é uma boa notícia para os necessitados e marginalizados...
Mas também reconhecemos suas falhas:
Ele cumpre a lei, aconteça o que acontecer;
Proclama o Evangelho, mas vive segundo o código canônico;
Ele prega a democracia, mas não a pratica quando pode;
Continua a 'silenciar' em vez de 'fazer as pessoas pensarem';
desconfiados de comunidades participativas
que respeitam diferentes habilidades, vocações, carismas...;
Mantém comunidades sem a Eucaristia, tendo padres casados;
As mulheres não são plenamente sujeitas aos direitos eclesiásticos...
Senhor Jesus, cheio do Espírito, aviva-nos:
“Ver o Espírito descer…”
para que o vosso Espírito não se apague,
ter coragem evangélica,
Para superar a lei que escraviza e acalma,
Viver em fraternidade nas comunidades,
Abrir novos caminhos, mais humanos.
A liturgia deste domingo oferece-nos uma narrativa do Evangelho de João que continua respondendo à pergunta sobre a identidade da pessoa de Jesus. Quem é ele?
Começa o texto dizendo “no dia seguinte”, ou seja, no segundo dia da primeira semana da vida de Jesus que culminara com as bodas de Caná. Num primeiro momento o evangelista narra o testemunho de João, quando “As autoridades dos judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntarem a João: ‘Quem é você?’” (Jo 1, 19). Ele se apresenta como uma voz que chama à conversão, a preparar o caminho do Senhor. Diante do questionamento do seu batismo, João tinha comunicado que é um batismo de água, mostrando com humildade sua missão de anunciar aquele que vem depois dele. Ele disse: “eu não mereço nem sequer desamarrar a correia das sandálias dele”.
“No dia seguinte” a estes acontecimentos, o texto evangélico diz-nos que “João viu Jesus, que se aproximava dele”. Jesus aparece pela primeira vez no evangelho de João no ato de “vir” assim como foi anunciado pelo profeta Isaías: “O Senhor vem” (Is 40,10). E neste momento João reconhece Jesus como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.
Foquemo-nos na pessoa de João Batista: como terá sido o processo progressivo de reconhecimento da identidade de Jesus como o Cordeiro de Deus na sua vida? Sua figura e sua atitude diante do Messias interpelam e questionam as limitações com as que muitas vezes tenta-se enquadrar o Mistério que há em Jesus.
João Batista, a voz que clama no deserto, designa aquele que ele anuncia: “Eis”! E o sinala fazendo referência ao Cordeiro Pascal narrado no livro do Êxodo (Ex 12). Neste rito celebra-se a libertação do povo de Israel. Na primeira leitura do Profeta Isaías que a liturgia nos oferece neste domingo, apresenta-se o servidor de Israel como o cordeiro imolado que carrega os pecados do povo, aquele que “tal como cordeiro, ele foi levado para o matadouro; como ovelha muda diante do tosquiador, ele não abriu a boca”.
Ele é o servo justo que devolverá ao povo a verdadeira justiça, pois carregou o crime deles” (Cfr. Is 53). Nessas imagens sugere-se que a pessoa de Jesus está ligada à libertação dos homens. Já no primeiro capítulo João anuncia a missão redentora de Jesus, aquele que está no meio de nós para nossa salvação, para oferecer-nos uma vida nova.
No primeiro capítulo do Evangelho de João aparecem várias figuras que podem ser consideradas representações das atitudes de toda pessoa humana diante da presença de Jesus. Como aconteceu com as autoridades dos judeus, também hoje algumas pessoas, grupos sociais e religiosos procuram demarcar a identidade de João Batista e sua missão, dentro dos padrões conhecidos: o Messias, Elias, o Profeta.
Mas João aguarda o Salvador! Ele O sinala e apresenta-O: o Cristo, aquele que é realmente o Messias. Pelo seu testemunho convida seus discípulos, e também as pessoas que o procuram para ser batizado, a seguirem Jesus e receberem assim o Espírito que habita nele. É ele quem realmente traz a libertação profunda, a libertação de tudo aquilo que oprime as pessoas, seja o sistema político, econômico, social, e também das opressões que toda pessoa humana carrega no silêncio durante a vida.
Como João Batista, somos chamados a reconhecer a presença de Jesus que “está no meio de nós”, mas possivelmente não o conhecemos. Mas para que isso seja possível, como disse o Papa Francisco, é preciso “Aprender a escutar o Povo de Deus”, que significa nos descalçar de nossos preconceitos e racionalismos, de nossos esquemas funcionalistas para conhecer como o Espírito atua no coração de tantos homens e mulheres que, com grande resiliência, não deixam de lançar as redes e lutam para tornar o Evangelho credível, “aprender da fé de nossa gente”. E continua: “Não tenhamos medo de nos sujar por nossa gente. Não tenhamos medo da lama da história, a fim de resgatar e renovar a esperança”. “Não tenhamos medo de nos sujar por nosso povo. Não tenhamos medo da lama da história, a fim de resgatar e renovar a esperança", pede Francisco aos bispos latino-americanos.
João batiza com água e reconhece em Jesus a presença do Espírito Santo que o habita. Por meio de João, Jesus é apresentado como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e o Filho de Deus que possui a plenitude do Espírito!
A segunda afirmação sobre a pessoa de Jesus realizada por João como o "Filho de Deus" que possui a plenitude do Espírito Santo e que “batiza no Espírito” (cf. Jo 1,32-34) complementa a primeira. Jesus recebeu a plenitude do Espírito e sua missão é batizar todas as pessoas no Espírito. Pelas suas palavras João convida-nos a “ver” Jesus desde um novo olhar e acolher sua proposta libertadora como Filho de Deus.
Peçamos ao Espírito ser batizados com sua presença. Que seu fogo arda em nossa vida e transforme nosso olhar para reconhecer a presença de Jesus que continuamente está “vindo até nós”.
Oração
Existimos desde o ilimitado
Duvidamos de nós
e nos desvalorizamos,
mas vamos sob o olhar
da Bondade.
Nos dividimos
e nos enfrentamos,
mas todos recebemos a vida
desde A Unidade.
Nos classificamos
em perfeitos e deformados,
mas todos somos habitados
pela Beleza.
Tememos nossa obscuridade
e nos escondemos,
mas somos iluminados
pela Verdade.
Quem pode
pôr limites
ao amor de deus
por nós?
Quem pode
por-nos limites
se somente podemos ser
no amor de Deus?
Benjamin González Buelta
A liturgia deste domingo coloca a questão da vocação; e convida-nos a situá-la no contexto do projeto de Deus para os homens e para o mundo. Deus tem um projeto de vida plena para oferecer aos homens; e elege pessoas para serem testemunhas desse projeto na história e no tempo.
A primeira leitura apresenta-nos uma personagem misteriosa – Servo de Jahwéh – a quem Deus elegeu desde o seio materno, para que fosse um sinal no mundo e levasse aos povos de toda a terra a Boa Nova do projeto libertador de Deus.
A segunda leitura apresenta-nos um “chamado” (Paulo) a recordar aos cristãos da cidade grega de Corinto que todos eles são “chamados à santidade” – isto é, são chamados por Deus a viver realmente comprometidos com os valores do Reino.
O Evangelho apresenta-nos Jesus, “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Ele é o Deus que veio ao nosso encontro, investido de uma missão pelo Pai; e essa missão consiste em libertar os homens do “pecado” que oprime e não deixa ter acesso à vida plena.
EVANGELHO – Jo 1,29-34
A perícopa que nos é proposta integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Aí o autor, com consumada mestria, procura responder à questão: “quem é Jesus?”
João dispõe as peças num enquadramento cénico. As diversas personagens que vão entrando no palco procuram apresentar Jesus. Um a um, os atores chamados ao palco por João vão fazendo afirmações carregadas de significado teológico sobre Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.
João Batista, o profeta/percursor do Messias, desempenha aqui um papel especial na apresentação de Jesus (o seu testemunho aparece no início e no fim da secção – cf. Jo 1,19-37; 3,22-36). Ele vai definir aquele que chega e apresentá-lo aos homens. Ao não assinalar-se o auditório, sugere-se que o testemunho de João é perene, dirigido aos homens de todos os tempos e com eco permanente na comunidade cristã.
João é, portanto, o apresentador oficial de Jesus. De que forma e em que termos o vai apresentar?
A catequese sobre Jesus que aqui é feita expressa-se através de duas afirmações com um profundo impacto teológico: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; e é o Filho de Deus que possui a plenitude do Espírito.
A primeira afirmação (“o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” – Jo 1,29) evoca, provavelmente, duas imagens tradicionais extremamente sugestivas. Por um lado, evoca a imagem do “servo sofredor”, o cordeiro levado para o matadouro, que assume os pecados do seu Povo e realiza a expiação (cf. Is 52,13-53,12); por outro lado, evoca a imagem do cordeiro pascal, símbolo da ação libertadora de Deus em favor de Israel (cf. Ex 12,1-28). Qualquer uma destas imagens sugere que a pessoa de Jesus está ligada à libertação dos homens.
A ideia é, aliás, explicitada pela definição da missão de Jesus: Ele veio para tirar (“eliminar”) “o pecado do mundo”. A palavra “pecado” aparece, aqui, no singular: não designa os “pecados” dos homens, mas um “pecado” único que oprime a humanidade inteira; esse “pecado” parece ter a ver, no contexto da catequese joânica, com a recusa da proposta de vida com que Deus, desde sempre, quis presentear a humanidade (é dessa recusa que resulta o pecado histórico, que desfeia o mundo e que oprime os homens). O “mundo” designa, neste contexto, a humanidade que resiste à salvação, reduzida à escravidão e que recusa a luz/vida que Jesus lhe pretende oferecer… Deus propôs-se tirar a humanidade da situação de escravidão em que esta se encontra; enviou ao mundo Jesus, com a missão de realizar um novo êxodo, que leve os homens da terra da escravidão para a terra da liberdade.
A segunda afirmação (o “Filho de Deus” que possui a plenitude do Espírito Santo e que batiza no Espírito – cf. Jo 1,32-34) completa a anterior. Há aqui vários elementos bem sugestivos: o “cordeiro” é o Filho de Deus; Ele recebeu a plenitude do Espírito; e tem por missão batizar os homens no Espírito.
Dizer que Jesus é o Filho de Deus é dizer que Ele é o Deus que se faz pessoa, que vem ao encontro dos homens, que monta a sua tenda no meio dos homens, a fim de lhes oferecer a plenitude da vida divina. A sua missão consiste em eliminar “o pecado” que torna o homem escravo e que o impede de abrir o coração a Deus.
Dizer que o Espírito desce sobre Jesus e permanece sobre Ele sugere que Jesus possui definitivamente a plenitude da vida de Deus, toda a sua riqueza, todo o seu amor. Por outro lado, a descida do Espírito sobre Jesus é a sua investidura messiânica, a sua unção (“messias” = “ungido”). O quadro leva-nos aos textos do Deutero-Isaías, onde o “Servo” aparece como o eleito de Jahwéh, sobre quem Deus derramou o seu Espírito (cf. Is 42,1), a quem ungiu e a quem enviou para “anunciar a Boa Nova aos pobres, para curar os corações destroçados, para proclamar a libertação aos cativos, para anunciar aos prisioneiros a liberdade” (Is 61,1-2).
Jesus é, finalmente, aquele que batiza no Espírito Santo. O verbo “batizar” aqui utilizado tem, em grego, duas traduções: “submergir” e “empapar (como a chuva empapa a terra)”; refere-se, em qualquer caso, a um contato total entre a água e o sujeito. “Batizar no Espírito” significa, portanto, um contato total entre o Espírito e o homem, uma chuva de Espírito que cai sobre o homem e lhe empapa o coração. A missão de Jesus consiste, portanto, em derramar o Espírito sobre o homem; e o homem que adere a Jesus, “empapado” do Espírito e transformado por essa fonte de vida que é o Espírito, abandona a experiência da escuridão (“o pecado”) e alcança o seu pleno desenvolvimento, a plenitude da vida.
A declaração de João convida os homens de todas as épocas a voltarem-se para Jesus e a acolherem a proposta libertadora que, em nome de Deus, Ele faz: só a partir do encontro com Jesus será possível chegar à vida plena, à meta final do Homem Novo.
ATUALIZAÇÃO
A reflexão pessoal e comunitária pode tocar os seguintes pontos:
• Em primeiro lugar, importa termos consciência de que Deus tem um projeto de salvação para o mundo e para os homens. A história humana não é, portanto, uma história de fracasso, de caminhada sem sentido para um beco sem saída; mas é uma história onde é preciso ver Deus a conduzir o homem pela mão e a apontar-lhe, em cada curva do caminho, a realidade feliz do novo céu e da nova terra. É verdade que, em certos momentos da história, parecem erguer-se muros intransponíveis que nos impedem de contemplar com esperança os horizontes finais da caminhada humana; mas a consciência da presença salvadora e amorosa de Deus na história deve animar-nos, dar-nos confiança e acender nos nossos olhos e no nosso coração a certeza da vida plena e da vitória final de Deus.
• Jesus não foi mais um “homem bom”, que coloriu a história com o sonho ingénuo de um mundo melhor e desapareceu do nosso horizonte (como os líderes do Maio de 68 ou os fazedores de revoluções políticas que a história absorveu e digeriu); mas Jesus é o Deus que Se fez pessoa, que assumiu a nossa humanidade, que trouxe até nós uma proposta objetiva e válida de salvação e que hoje continua presente e cativo na nossa caminhada, concretizando o plano libertador do Pai e oferecendo-nos a vida plena e definitiva. Ele é, agora e sempre, a verdadeira fonte da vida e da liberdade. Onde é que eu mato a minha sede de liberdade e de vida plena: em Jesus e no projeto do Reino ou em pseudo-messias e miragens ilusórias de felicidade que só me afastam do essencial?
• O Pai investiu Jesus de uma missão: eliminar o pecado do mundo. No entanto, o “pecado” continua a enegrecer o nosso horizonte diário, traduzido em guerras, vinganças, terrorismo, exploração, egoísmo, corrupção, injustiça… Jesus falhou? É o nosso testemunho que está a falhar? Deus propõe ao homem o seu projeto de salvação, mas não impõe nada e respeita absolutamente a liberdade das nossas opções. Ora, muitas vezes, os homens pretendem descobrir a felicidade em caminhos onde ela não está. De resto, é preciso termos consciência de que a nossa humanidade implica um quadro de fragilidade e de limitação e que, portanto, o pecado vai fazer sempre parte da nossa experiência histórica. A libertação plena e definitiva do “pecado” acontecerá só nesse novo céu e nova terra que nos espera para além da nossa caminhada terrena.
• Isso não significa, no entanto, pactuar com o pecado, ou assumir uma atitude passiva diante do pecado. A nossa missão – na sequência da de Jesus – consiste em lutar objetivamente contra “o pecado” instalado no coração de cada um de nós e instalado em cada degrau da nossa vida coletiva. A missão dos seguidores de Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que impede a sua concretização na história.
(Se desejar confira a tradução com o original espanhol logo a seguir)
SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM, ANO A
Primeira leitura (Is 49:3-6)
Os estudiosos concordam unanimemente que existem quatro cânticos dedicados ao Servo de Javé (cf. Is 42:1-9; 49:1-6; 50:4-9; 52:13-53:12). No primeiro cântico do Servo do Senhor (Is 42:1-9), o "servo" é apresentado e sua tarefa de libertar o povo exilado é descrita. No segundo cântico — parte do qual lemos hoje — o servo começa a falar diretamente, e assim podemos distinguir entre o que o Senhor diz e o que o profeta-servo diz .
Em primeiro lugar, há o chamado ou vocação do profeta vindo de Deus, que abrange toda a sua existência (desde o ventre de sua mãe) e implica uma difícil missão para com o povo: a sua palavra é como uma espada afiada e uma flecha penetrante. Mas a sua força reside no Senhor, que o reconhece como seu "servo" e em quem ele se glorificará (Is 49:1-3).
O profeta continua, com palavras que misturam desilusão e desânimo: "Trabalhei em vão, gastei minha vida inutilmente, em vão". Aqui, vale a pena recordar o contexto histórico deste profeta, o chamado Segundo Isaías, que é, sem dúvida, o profeta da aurora, do despertar (51:17; 52: 1 ) . Ele foi escolhido para anunciar uma mensagem de consolo porque Javé considera que o povo já pagou a pena pelo seu pecado e, portanto, decidiu trazer os exilados de volta à terra de Judá (Is 40:1-2). Assim como Nabucodonosor foi anteriormente o instrumento de punição para Jerusalém usado por Javé (Jr 25:9; 27:6), Ciro é agora apresentado como o ungido e o instrumento nas mãos de Javé para libertar o seu povo (Is 41:2; 44:28; 45:1-4; 48:12-15). É bem possível que esse anúncio de sua libertação por um pagão como Ciro tenha gerado resistência entre os exilados. Em sua essência, essa resistência representa um desejo de limitar as ações de Deus; ou, em outras palavras, de rejeitar tudo o que não se encaixa em sua estrutura mental.
Portanto, esse sentimento de fracasso do profeta é iluminado pela palavra do Senhor, que não só o confirma na missão já concedida ("trazer Jacó de volta a ele e reunir Israel a ele"), mas também amplia seus horizontes, estendendo-a a todas as nações ("Eu te constituí luz para as nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra").
Na leitura litúrgica deste texto — que leva em conta sua relação com o Evangelho do dia e especialmente com a figura do “Cordeiro de Deus” — deve-se dar mais atenção à eleição e à missão do “servo do Senhor”, especialmente a de trazer a “salvação” a todas as nações . Ou seja, “a figura do servo encontra sua plena realização em Jesus, a luz que veio ao mundo para iluminar todos os homens, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. A humanidade não precisa mais esperar; enfim, a esperança se preenche de um conteúdo preciso. ” ²
Segunda leitura (1 Coríntios 1:1-3)
Como na maioria de suas cartas e seguindo o costume da época, Paulo começa apresentando-se como remetente e, em seguida, nomeia e saúda os destinatários.
Paulo apresenta-se com o que considera sua identidade mais profunda: "Paulo, chamado para ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus". Paulo reafirma sua vocação como apóstolo, como alguém escolhido e enviado por Cristo Jesus segundo a vontade ou beneplácito de Deus. Aqui, o título de Apóstolo não tem o significado técnico e exclusivo encontrado em Lucas e Atos, onde é reservado ao grupo dos doze. Paulo reconhece a autoridade dos doze como um grupo instituído por Jesus (cf. 1 Cor 15,5), mas não reserva o título de apóstolo apenas a eles; antes, aplica-o a todos os enviados pelo Senhor para evangelizar (cf. 1 Cor 15,7).
Paulo também acrescenta "Sóstenes, o irmão" como remetente. Trata-se de um colaborador próximo na obra de evangelização, a quem ele chama de irmão, um termo comum usado para se referir a membros da comunidade.
Então Paulo nomeia os destinatários: "à igreja de Deus em Corinto". O termo grego ekklēsía (do qual deriva nossa palavra latinizada "igreja") vem de um verbo composto: ek-kaléō , que significa chamar de ou para fora de . Portanto, refere-se àqueles que são chamados , aqueles convocados para formar a comunidade de fé. Ora, essa comunidade dos chamados recebe uma designação local: "em Corinto". Portanto, a Igreja subsiste em uma realidade local, em uma comunidade específica.
Paulo então especifica ainda mais a realidade daqueles que compõem esta ekklēsía : "os que foram santificados em Cristo Jesus e chamados para serem santos". Os cristãos, membros da Igreja, são santos e chamados à santidade . São santos na medida em que se apropriaram da santidade de Cristo. Pelo batismo, participam e compartilham de Sua vida: de Seu ser Filho de Deus e de Seu ser cheio do Espírito Santo; e, portanto, de Sua santidade (cf. Rm 6,4; 8,9.14-15). Mas essa santidade é uma vida no Espírito e, portanto, deve crescer e se desenvolver para alcançar sua plenitude. É por isso que Paulo frequentemente se refere aos cristãos como "santos" e, ao mesmo tempo, como "chamados para serem santos". Assim, depois de se apropriarem da santidade de Cristo, continuam a imitá-Lo, visto que nossa vida cristã deve crescer no caminho que o próprio Jesus nos mostrou. Alcançado pela santidade de Deus, o discípulo de Jesus vive pelo Espírito e expressa a novidade de sua vida deixando-se guiar pelo mesmo Espírito e manifestando o fruto de sua presença santificadora (Gl 5,18.22).
Evangelho (João 1:29-34)
Este texto faz parte da primeira seção (Jo 1,19-34) que se segue ao prólogo de João (Jo 1,1-18), onde já se fez referência ao testemunho de João Batista, sem o aprofundar (Jo 1,6.15). Esta seção começa dizendo: "Este é o testemunho que João deu..." (1,19). Quanto ao conteúdo do testemunho do Batista, podemos dizer que é duplo. Por um lado, é "negativo", na medida em que ele afirma não ser a luz, nem o Cristo, nem Elias, nem o Profeta. Por outro lado, é "positivo" em referência à pessoa de Jesus (e este é o texto que lemos hoje), pois o proclama como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (v. 29), o preexistente (v. 30), aquele sobre quem o Espírito Santo desceu (v. 32) como cumprimento de uma promessa divina (v. 33a). aquele que batiza com o Espírito Santo (v. 33b) e o Filho de Deus (v. 34) 3 .
O título "Cordeiro de Deus" aplicado a Jesus é exclusivo da tradição joanina, e sua origem é um tanto misteriosa. É muito provável que seja uma referência ao cordeiro pascal, visto que em João 19:36, diante de Jesus crucificado, essa comparação se repete quando se afirma que nenhum dos seus ossos será quebrado (cf. Êxodo 12:46). Devemos também considerar as referências ao sacrifício de Isaac (Gênesis 22) e ao servo sofredor (Isaías 53), que os rabinos já associavam ao cordeiro pascal.
J. Ratzinger<sup> 4 </sup> sustenta essa visão, seguindo Joachim Jeremias, que “também chama a atenção para o fato de que a palavra hebraica talcha significa tanto ‘cordeiro’ quanto ‘servo’ (ThWNT I 343). Assim, as palavras do Batista podem ter se referido sobretudo ao servo de Deus que, com suas penitências vicárias, ‘carrega’ os pecados do mundo; mas nelas ele também poderia ser reconhecido como o verdadeiro Cordeiro Pascal, que com sua expiação apaga os pecados do mundo. ‘Paciente como um cordeiro oferecido em sacrifício, o Salvador foi à morte por nós na cruz; com o poder expiatório de sua morte inocente, ele apagou a culpa de toda a humanidade’ (ThWNT 1343-1344). Se nas dificuldades da opressão egípcia o sangue do cordeiro pascal foi decisivo para a libertação de Israel, ele, o Filho que se tornou servo — o pastor que se tornou cordeiro — tornou-se “uma garantia não apenas para Israel, mas pela libertação do 'mundo', por toda a humanidade."
Por sua vez, X. León Dufuor pensa que “Jesus é certamente o ‘cordeiro’ de Deus, mas não no mesmo sentido (e muito menos no mesmo nível) que os cordeiros dos sacrifícios judaicos; ele o é porque, por si só, a sua vinda elimina, da parte de Deus, a necessidade dos ritos pelos quais, durante o tempo de espera, Israel tinha de renovar continuamente o seu vínculo existencial com o Senhor. Observando que, com a presença do Messias, a promessa de salvação já se cumpriu — o pecado de Jerusalém foi perdoado, como diz Is 40:2 —, o Batista expressa numa densa imagem que, com Jesus, Deus concede a plenitude do perdão a Israel e ao mundo. Jesus não é aqui a nova vítima do culto, mas aquele por meio de quem Deus intervém, oferecendo aos homens a perfeita reconciliação com ele . ” 5
Talvez, como o próprio X. León-Dufour observa, devamos prestar mais atenção ao genitivo "de Deus" e entendê-lo como significando que Jesus é o cordeiro dado por Deus para tirar o pecado do mundo . Pois é claro que somente Deus pode perdoar pecados; mas João Batista anuncia que agora o fará por meio de Jesus. F. Moloney compartilha uma visão semelhante, para quem "Jesus não é uma vítima ritual, mas aquele por meio de quem Deus entra na história humana, oferecendo reconciliação. Como ocorre frequentemente no quarto Evangelho, um símbolo antigo é usado de uma nova maneira."
Notemos também que ele fala do "pecado do mundo" no singular – que em João consiste em rejeitar a Deus, em rejeitar a Palavra como Luz que veio para iluminar todos os homens (cf. João 1:9) – o que implica a ação messiânica e escatológica de pôr fim ao reinado do pecado sobre o mundo; para estabelecer em seu lugar o reinado de Deus.
No que se segue (1:31-33), João Batista recorda e revisita seu testemunho anterior e, confrontado com o fato do batismo de Jesus (que o evangelista presume ser conhecido e não narra), adquire uma compreensão mais profunda e verdadeira de Jesus. "Depois de chegar a este ponto de compreensão do mistério que é Jesus, João entende melhor sua própria missão, o batismo nas águas (1:31). Esta reflexão sobre o passado, à luz de um conhecimento ligado ao Espírito, está certamente em consonância com João. À sua maneira, o Precursor retorna à sua própria experiência para apreender sua verdade mais profunda: Deus quis 'manifestar' o Messias em Jesus de Nazaré desta forma . " 7
Como G. Zevini (PG Cabra 8) observa acertadamente : “Seu testemunho é expresso em três frases de teologia robusta: Jesus é ‘o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’ (v. 29); o Espírito desceu sobre ele e permanece para sempre (v. 32); Jesus é o escolhido de Deus, isto é, o ‘Filho de Deus’ (v. 34). Essas três afirmações interligadas revelam a compreensão de João sobre o Messias. Essas três imagens encontram correspondência parcial nos cânticos do ‘Servo de YHWH’ e explicam por que foram escolhidos como primeira leitura.”
O ponto culminante do testemunho de João Batista baseia-se no que ele viu (no batismo de Jesus) e é a confissão de Jesus como Filho de Deus: "Eu vi e testifico que este é o Filho de Deus" (1:34). Tendo como pano de fundo o prólogo do Evangelho, este título transcende sua referência ao Messias, elevando-o ao nível teológico de Jesus como o Filho Unigênito e preexistente de Deus. E, de fato, este é o propósito para o qual o Evangelho de João foi escrito: "Estas coisas foram escritas para que vocês creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida em seu nome" (João 20:31).
Algumas reflexões:
O objetivo das leituras destes primeiros domingos do ano é uma apresentação inicial de Jesus. Enquanto no domingo passado o Pai testemunhou a identidade divina de Jesus – “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3,17) – neste domingo é João Batista quem o confessa como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; e como o Filho unigênito e preexistente de Deus .
É interessante notar que, com o início do ano, a profunda identidade de Jesus nos é revelada: quem é Ele e qual é a Sua missão?
Devemos começar por reconhecer que nunca conheceremos plenamente o Senhor nesta vida; portanto, seria uma atitude incorreta e improdutiva pensar que já sabemos tudo sobre Ele. Como disse recentemente o Papa Francisco: “Diante do Evangelho, permanecemos como crianças que precisam aprender. Acreditar que já aprendemos tudo nos leva ao orgulho espiritual. Este ano marcou o sexagésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II. O que foi o evento do Concílio senão uma grande oportunidade de conversão para toda a Igreja? A este respeito, São João XXIII disse: ‘Não é o Evangelho que muda, mas nós que começamos a compreendê-lo melhor.’ A conversão que o Concílio nos proporcionou é a oportunidade de compreender melhor o Evangelho, de torná-lo relevante, vivo e atuante neste momento histórico” (Discurso à Cúria Romana, 22 de dezembro de 2022).
Além disso, devemos ter em mente que a realidade do conhecimento na Bíblia, e particularmente no Evangelho de João, não se limita ao intelecto, às ideias, mas envolve comunhão, intimidade e experiência.
Neste contexto espiritual, devemos acolher o testemunho de João Batista, em particular a imagem de Jesus como o "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". O "cordeiro" é um símbolo de inocência, incapaz de prejudicar alguém, mas apenas de receber o mal. Isso se torna ainda mais evidente quando consideramos o contexto do Antigo Testamento, que fala do "cordeiro mudo levado ao matadouro" e "que será morto por nossos pecados, esmagado por nossas iniquidades, e por suas feridas seremos curados". É evidente que Jesus é inocente, Filho de Deus e sem pecado; contudo, Ele assume o pecado do mundo para tirá-lo do mundo.
A missão de Jesus profetizada no cântico do servo de Isaías (primeira leitura de hoje) tem o selo da universalidade, pois ele será "uma luz para as nações, para que a salvação chegue até os confins da terra"; isto é, ele tirará o pecado "do mundo".
O “pecado do mundo”, no singular, é mais amplo e profundo do que os pecados pessoais que cada um de nós comete individualmente. É todo o mal que aprisiona a humanidade neste mundo; é o mal que reina neste mundo. Como bem disse R. Cantalamessa: “Jesus assumiu sobre si todo o orgulho humano, toda a rebeldia contra Deus, toda a luxúria, toda a hipocrisia, toda a injustiça, toda a violência, toda a mentira, todo o ódio…” 9 .
Esta tem sido e é a sua missão; foi por isso que ele veio ao mundo. A imagem do Cordeiro ajuda-nos a unir a Encarnação à Paixão, como fizeram os Padres da Igreja quando disseram que "Cristo nasceu para morrer".
João Batista viu Jesus chegando e reconheceu nele o Cordeiro de Deus, o preexistente, o cheio do Espírito Santo, o Filho de Deus. Ele viu, creu e testemunhou .
Cabe a nós seguir os passos de João Batista: ver, crer e testemunhar . O Papa Francisco disse em sua mensagem do Angelus de 19 de janeiro de 2020: “O Batista não conseguiu conter seu desejo urgente de testemunhar Jesus e declarou: ‘Eu vi e testifico’ (v. 34). João viu algo impressionante, ou seja, o Filho amado de Deus em solidariedade com os pecadores; e o Espírito Santo o capacitou a compreender essa novidade sem precedentes, um verdadeiro ponto de virada. De fato, enquanto em todas as religiões é a humanidade que oferece e sacrifica algo a Deus, no caso de Jesus é Deus quem oferece seu Filho para a salvação da humanidade. João expressa seu espanto e sua aceitação dessa novidade trazida por Jesus por meio de uma expressão significativa que repetimos todos os dias na Missa: ‘ Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! ’ (v. 29).”
O testemunho de João Batista nos convida a recomeçar sempre nossa jornada de fé: a recomeçar com Jesus Cristo, o Cordeiro cheio de misericórdia que o Pai nos deu. Que nos maravilhemos mais uma vez com a escolha de Deus de estar ao nosso lado, de se solidarizar conosco, pecadores, e de salvar o mundo do mal, assumindo total responsabilidade por ele.
O testemunho de João é que Jesus não só tira o pecado, mas também possui o Espírito Santo permanentemente e pode comunicá-lo aos fiéis: “A salvação que Deus nos oferece é obra da sua misericórdia. Nenhuma ação humana, por melhor que seja, pode nos tornar merecedores de tão grande dom. Deus, por pura graça, nos atrai a si. Ele envia o seu Espírito aos nossos corações para nos tornar seus filhos, para nos transformar e para nos tornar capazes de responder com a nossa vida a esse amor. A Igreja é enviada por Jesus Cristo como sacramento da salvação oferecida por Deus” (EG n. 112).
Em resumo, devemos aceitar nossa condição permanente de “pecadores em conversão […] Porque estar em conversão é passar continuamente para o mistério do pecado e da graça. Isso significa abandonar toda justificação, toda justiça própria, e reconhecer nosso pecado para nos abrirmos à graça de Deus” (A. Louf).
PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
Isso é
Figura imponente
Um nazareno com um andar majestoso
Sua realeza transcende sua aparência.
Olhos amorosos contemplam sua beleza.
Ela tem um olhar profundo.
E embora ele permaneça à distância
Ele parece estar se aproximando de todos.
Tudo nele é pura graça.
Os homens se calam ao vê-lo.
E também as águas
Apenas o bater de asas de um pássaro.
É possível ouvi-lo enquanto desce calmamente.
A voz de João dará testemunho.
Mas primeiro, a Palavra foi ouvida.
O Pai reconheceu lá do alto
Ao Filho Unigênito, três vezes Santo
Cordeiro de Deus, que tira o pecado de Deus.
Batiza-nos no Espírito Santo
E nós seremos testemunhas do seu amor.
Neste mundo desolado. Amém.
1 Existe um consenso geral em datar as ações deste profeta como sendo do final do exílio, por volta de 540 a.C., quando o império babilônico começou a ruir após a ascensão dos persas liderados por Ciro.
2 G. Zevini – PG Cabra (eds.), Lectio Divina para cada dia do ano. Vol. 13 , Verbo Divino, Estella, 2003, 14.
3 Como F. Moloney observa em The Gospel of John , Verbo Divino, Estella, 2005, 59: “Parte da tradição manuscrita (P5 ; Sinaiticus, Vetus Latina e algumas traduções siríacas) lê ‘o escolhido de Deus’. Mas a tradição textual onde encontramos ‘Filho de Deus’ é muito mais forte, e a leitura ‘o Filho’, em vez de ‘o Escolhido’, está mais em harmonia com o vocabulário e a teologia joanina.”
4 Jesus de Nazaré. Do Batismo à Transfiguração , Planeta, Buenos Aires, 2007, 38-40.
5 Leitura do Evangelho de João. Jo 1-4 ; Sígueme, Salamanca, 1989, 138.
6 O Evangelho de João ; Verbo Divino, Estella, 2005, 57.
7 X. León-Dufour, Leitura do Evangelho de João. Jo 1-4 ; Sígueme, Salamanca, 1989, 140.
8 Lectio Divina para cada dia do ano , Vol. 13, Verbo Divino, Estella, 2003, 17.
9 Vida em Cristo , PPC, Madrid, 1998, 87.
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SEGUNDO DOMINGO DURANTE EL AÑO CICLO "A"
Primera lectura (Is 49,3-6)
Existe unanimidad entre los críticos en señalar la existencia de cuatro cantos dedicados al Siervo de Yahvé (cf. Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12). En el primer canto del Siervo del Señor (Is 42,1-9) se presentaba al «siervo» y se hablaba de su tarea de liberación del pueblo exiliado. En el segundo cántico – que leemos en parte hoy – el siervo comienza a tomar directamente la palabra y, por esto, podemos distinguir entre lo que dice el Señor y lo que dice el profeta-siervo.
En primer lugar está la llamada o vocación del profeta por parte de Dios, que asume toda su existencia (desde el seno de su madre) y que implica una difícil misión de cara al pueblo: su palabra es como una espada afilada y una flecha punzante. Pero su fuerza está en el Señor que lo reconoce como su "servidor" y en él se gloriará (Is 49,1-3).
Sigue lo que dice el profeta, mezcla de desilusión y desaliento: "En vano me fatigué, para nada, inútilmente, he gastado mi vida". Aquí vale recordar la situación histórica de este profeta, el llamado segundo-Isaías, quien es sin duda el profeta del amanecer, del despertar (51,17; 52,1)1. A él le ha tocado en suerte anunciar un mensaje de consolación porque Yavé considera que el pueblo ya ha cumplido con el castigo por su pecado y por ello ha decidido devolver a los desterrados a la tierra de Judá (Is 40,1-2). Así como antes Nabuconodosor fue el instrumento de castigo para Jerusalén del que se valió Yavé (Jer 25,9; 27,6), ahora se presenta a Ciro como el ungido y el instrumento en manos de Yavé para liberar a su pueblo (Is 41,2; 44,28; 45,1-4; 48,12-15). Es muy posible que este anuncio de ser liberados por un pagano como Ciro haya generado resistencia entre los exiliados. En el fondo esta resistencia supone querer poner límites al obrar de Dios; o en otros términos, rechazar todo aquello que no entra en sus esquemas mentales.
Por tanto, esta sensación de fracaso del profeta es iluminada por la palabra del Señor, quien no sólo lo confirma en la misión ya concedida ("hacer que Jacob vuelva a él y se le reúna Israel"), sino también le amplia el horizonte de la misma extendiéndola a todas las naciones ("te destino a ser luz de las naciones, para que llegue mi salvación hasta los confines de la tierra").
En la lectura litúrgica de este texto - que tiene en cuenta la relación con el evangelio del día y especialmente con la figura del “Cordero de Dios”- hay que prestar más atención a la elección y a la misión del "siervo del Señor", en especial la de llevar la "salvación" a todas las naciones. Es decir, “la figura del siervo encuentra pleno cumplimiento en Jesús, la luz venida al mundo para alumbrar a todos los hombres, el cordero de Dios, que quita el pecado del mundo. La humanidad no tiene que seguir esperando; por fin, la esperanza se llena con un contenido preciso”2.
Segunda lectura (1Cor 1,1-3)
Como en la mayoría de sus cartas y siguiendo la costumbre en uso de la época, Pablo comienza presentándose primero a sí mismo como remitente y, después, nombra y saluda a los destinatarios.
Pablo se presenta con lo que él considera su identidad más profunda: "Pablo, llamado a ser Apóstol de Jesucristo por la voluntad de Dios". Pablo reafirma su vocación de apóstol, de elegido y enviado por Cristo Jesús según la voluntad o beneplácito de Dios. Aquí el título de Apóstol no tiene el sentido técnico y exclusivo que encontramos en Lucas y Hechos donde se reserva para el grupo de los doce. Pablo reconoce la autoridad de los doce como grupo instituido por Jesús (cf. 1Cor 15,5), pero no reserva para ellos el título de apóstol sino que lo refiere a todos los enviados por el Señor a evangelizar (cf. 1Cor 15,7).
Pablo añade también como remitente a "Sóstenes, el hermano". Se trata de un estrecho colaborador suyo en la obra evangelizadora, a quien llama hermano, apelativo frecuente para referirse a los miembros de la comunidad.
Luego Pablo nombra a los destinatarios: "a la Iglesia de Dios que está en Corinto". El término griego ekklēsía (de donde deriva latinizado nuestro “iglesia”) procede de un verbo compuesto: ek-kaléō que significa llamar de o desde. Por tanto, se trata de los con-vocados, los llamados a formar la comunidad creyente. Ahora bien esta comunidad de llamados recibe una determinación local: "que está en Corinto". Por tanto la Iglesia subsiste en una realidad local, en una comunidad concreta.
A continuación Pablo especifica más la realidad de los que componen esta ekklēsía: "a los que han sido santificados en Cristo Jesús y llamados a ser santos". Los cristianos, miembros de la Iglesia, son santos y llamados a la santidad. Son santos por cuanto se han apropiado de la santidad de Cristo. Por el bautismo participan, tienen parte, de Su vida: su Ser Hijo de Dios y su Estar lleno del Espíritu Santo; y por tanto de su santidad (cf. Rom 6,4; 8,9.14-15). Pero esta santidad es una vida en el Espíritu y, por tanto, debe crecer y desarrollarse para llegar a plenitud. Por eso Pablo designa con frecuencia a los cristianos como “santos”; y al mismo tiempo como “llamados a ser santos”. Así, luego de la apropiación de la santidad de Cristo, sigue su imitación por cuanto nuestra vida cristiana debe crecer por el camino que Jesús mismo nos indicó. Alcanzado por la santidad de Dios, el discípulo de Jesús vive del Espíritu y expresa la novedad de su vida dejándose guiar por el mismo Espíritu y manifestando el fruto de su presencia santificadora (Gal 5,18.22).
Evangelio (Jn 1,29-34)
Este texto forma parte del primer cuadro o sección (Jn 1,19-34) que sigue al prólogo de Juan (Jn 1,1-18) donde ya se hizo referencia al testimonio de Juan el Bautista, sin precisarlo demasiado (Jn 1,6.15). Pues bien, esta sección comienza diciendo que "este es el testimonio que dio Juan..." (1,19). Con respecto al contenido del testimonio del Bautista podemos decir que es doble. Por un lado, es "negativo" por cuanto dice que Él no es la luz, ni el Cristo, ni Elías, ni el Profeta. Por otro lado, es "positivo" en referencia a la persona de Jesús (y es el texto que leemos hoy), ya que lo proclama como el Cordero de Dios que quita el pecado del mundo (v. 29), el preexistente (v. 30), aquél sobre quien ha descendido el Espíritu (v. 32) como cumplimiento de una promesa divina (v. 33a); el que bautiza con Espíritu Santo (v. 33b) y el Hijo de Dios (v. 34)3.
El título de "Cordero de Dios" aplicado a Jesús es exclusivo de la tradición joánica y su origen es algo misterioso. Muy probablemente hay que considerarlo como una referencia al cordero pascual pues en Jn 19,36 ante Jesús crucificado se repite esta comparación al decir que no le quebrarán ningún hueso (cf. Ex 12,46). Habría que considerar también sendas referencias al sacrificio de Isaac (Gn 22) y al siervo sufriente (Is 53) que los rabinos ya vinculaban con el cordero pascual.
J. Ratzinger4sostiene esta opinión, siguiendo a Joachim Jeremías, quien "llama también la atención sobre el hecho de que la palabra hebrea talja significa tanto «cordero» como «mozo», «siervo» (ThWNT I 343). Así, las palabras del Bautista pueden haber hecho referencia ante todo al siervo de Dios que, con sus penitencias vicarias, «carga» con los pecados del mundo; pero en ellas también se le podría reconocer como el verdadero cordero pascual, que con su expiación borra los pecados del mundo. «Paciente como un cordero ofrecido en sacrificio, el Salvador se ha encaminado hacia la muerte por nosotros en la cruz; con la fuerza expiatoria de su muerte inocente ha borrado la culpa de toda la humanidad» (ThWNT 1343s). Si en las penurias de la opresión egipcia la sangre del cordero pascual había sido decisiva para la liberación de Israel, Él, el Hijo que se ha hecho siervo — el pastor que se ha convertido en cordero — se ha hecho garantía ya no sólo para Israel, sino para la liberación del «mundo», para toda la humanidad".
Por su parte X. León Dufuor piensa que "Jesús es ciertamente el «cordero» de Dios, pero no en el mismo sentido (y mucho menos en el mismo plano) que los corderos de los sacrificios judíos; lo es por el hecho de que, por sí sola, su venida suprime de parte de Dios la necesidad de los ritos por los cuales, durante el tiempo de la espera, Israel tenía que renovar continuamente su vínculo existencial con YHWH. Constatando que con la presencia del Mesías se ha hecho ya realidad la promesa de la salvación — se ha perdonado el pecado de Jerusalén, decía Is 40,2 — el Bautista expresa en una imagen densa de contenido que con Jesús Dios concede la plenitud del perdón a Israel y al mundo. Jesús no es aquí la nueva víctima cultual, sino aquel por el que Dios interviene ofreciendo a los hombres la reconciliación perfecta con él"5.
Tal vez, como nota el mismo X. León-Dufour, hay que prestar más atención al genitivo "de Dios" y entenderlo en el sentido de que Jesús es el cordero dado por Dios para quitar el pecado del mundo. Porque es claro que sólo Dios puede perdonar los pecados; pero Juan Bautista anuncia que ahora lo hará por medio de Jesús. De modo semejante opina F. Moloney6para quien “Jesús no es una víctima ritual, sino aquel mediante el cual Dios entra en la historia humana ofreciéndole la reconciliación. Como ocurre frecuentemente en el cuarto evangelio, se utiliza un símbolo antiguo de una forma nueva”.
Notemos también que habla del "pecado del mundo" en singular – que en Jn consiste en rechazar a Dios, en rechazar al Verbo como Luz venido para iluminar a todos los hombres (cf. Jn 1,9) – lo cual supone la acción mesiánica y escatológica de poner fin al reinado del pecado sobre el mundo; para establecer en su lugar el reinado de Dios.
En lo que sigue (1,31-33) Juan Bautista recuerda y retoma su testimonio anterior y, ante el hecho del bautismo de Jesús (que el evangelista lo supone conocido y no lo narra), adquiere un conocimiento más profundo y verdadero de Jesús. "Después de llegar a este punto de la inteligencia del misterio que es Jesús, Juan comprende mejor su propia misión, el bautismo en el agua (1,31). Esta reflexión sobre el pasado, a la luz de un conocimiento ligado al Espíritu, está ciertamente en la línea de Jn. A su manera, el Precursor vuelve sobre su propia experiencia para captar su verdad más profunda: Dios quería «manifestar» de este modo al Mesías en Jesús de Nazaret"7.
Como bien notan G. Zevini - P. G. Cabra8: “Su testimonio se expresa con tres frases de recia teología: Jesús es «el cordero de Dios, que quita el pecado del mundo» (v. 29); el Espíritu se ha posado sobre él y permanece de forma estable (v. 32); Jesús es el elegido de Dios, es decir, el «Hijo de Dios» (v.34). Son tres afirmaciones, ligadas entre sí, que desveIan la idea que tiene Juan sobre el Mesías. Las tres imágenes encuentran correspondencia parcial en los cantos del «Siervo de YHWH» y el por qué de su elección como primera lectura”
La cumbre del testimonio de Juan Bautista se fundamenta en lo que ha visto (en el bautismo de Jesús) y es la confesión de Jesús como Hijo de Dios: "Yo lo he visto y doy testimonio de que él es el Hijo de Dios" (1,34). Con el trasfondo del prólogo del evangelio este título supera su referencia al Mesías para elevarlo al nivel teológico de Jesús como Hijo Único y Preexistente de Dios. Y de hecho esta es la finalidad con que se escribió el evangelio de Juan: "Estos han sido escritos para que ustedes crean que Jesús es el Mesías, el Hijo de Dios, y creyendo, tengan Vida en su Nombre" (Jn 20,31).
Algunas reflexiones:
El objetivo de las lecturas de estos primeros domingos durante el año es una presentación inicial de Jesús. Mientras el domingo pasado el Padre nos daba testimonio de la identidad divina de Jesús – "Este es mi Hijo muy querido, en quien tengo puesta toda mi predilección" (Mt 3,17) –, este domingo es Juan el Bautista quien lo confiesa como el Cordero de Dios que quita el pecado del mundo; y como Hijo único y preexistente de Dios.
Es interesante que, al comenzar el tiempo durante el año, se nos vaya presentando la identidad profunda de Jesús: ¿quién es Él y cuál es su misión?
Hay que partir reconociendo como un hecho que nunca en esta vida llegaremos a conocer plenamente al Señor, por eso sería una actitud incorrecta e infecunda pensar que uno ya sabe todo acerca de Él. Como dijo recientemente el Papa Francisco: “Ante el Evangelio seguimos siendo siempre como niños que necesitan aprender. Creer que hemos aprendido todo nos hace caer en la soberbia espiritual. Este año se celebraron los sesenta años de la apertura del Concilio Vaticano II. ¿Qué ha sido el acontecimiento del Concilio sino una gran ocasión de conversión para toda la Iglesia? A este respecto, dijo san Juan XXIII: «No es el Evangelio el que cambia, somos nosotros los que empezamos a comprenderlo mejor». La conversión que nos dio el Concilio es la oportunidad de comprender mejor el Evangelio, de hacerlo actual, vivo y operante en este momento histórico” (Discurso a la curia romana, 22 de diciembre de 2022).
Además, debemos tener en cuenta que la realidad del conocimiento en la Biblia, y particularmente en el evangelio de san Juan, no se reduce a lo intelectual, a las ideas, sino que implica comunión, intimidad, experiencia.
En este contexto espiritual debemos recibir el testimonio de Juan Bautista, en particular la imagen de Jesús como "Cordero de Dios que quita el pecado del mundo". El “cordero” es el símbolo del ser inocente, que no puede hacer mal a nadie sino sólo recibirlo. En especial si tenemos en cuenta el contexto del Antiguo Testamento que habla del “cordero mudo conducido al matadero" y "que será sacrificado por nuestros pecados, molido por nuestros crímenes, y por cuyas llagas nosotros somos curados". Es claro que Jesús es inocente, es el Hijo de Dios y no hay pecado en Él; pero asume el pecado del mundo para quitarlo.
La misión de Jesús profetizada por el cántico del siervo de Isaías (primera lectura de hoy) tiene el sello de la universalidad, pues será “luz de las naciones para que la salvación llegue a los confines de la tierra”; o sea que quitará el pecado “del mundo”.
El “pecado del mundo”, en singular, es más amplio y profundo que los pecados personales que cometemos individualmente cada una de las personas humanas. Es todo el mal que aprisiona a los hombres en este mundo, es el mal que reina en este mundo. Como bien dice R. Cantalamessa: "Jesús cargó sobre sí con todo el orgullo humano, con toda la rebelión contra Dios, con toda la lujuria, con toda la hipocresía, con toda la injusticia, con toda la violencia, con toda la mentira, con todo el odio..."9.
Esta ha sido y es su misión; para esto ha venido al mundo. La imagen del Cordero nos ayuda a unir la encarnación con la pasión, como hacían los Padres de la Iglesia cuando decían que "Cristo nació para morir".
Juan Bautista ve a Jesús que viene y reconoce en Él al Cordero de Dios, al preexistente, al lleno del Espíritu Santo, al Hijo de Dios. Vio, creyó y testimonió.
Nos toca a nosotros seguir los pasos de Juan el Bautista: ver, creer y testimoniar. Al respecto decía el Papa Francisco en el ángelus del 19 de enero de 2020: “El Bautista no puede frenar el urgente deseo de dar testimonio de Jesús y declara: «Y yo lo he visto y doy testimonio» (v. 34). Juan vio algo impactante, es decir, al Hijo amado de Dios en solidaridad con los pecadores; y el Espíritu Santo le hizo comprender la novedad inaudita, un verdadero cambio de rumbo. De hecho, mientras que en todas las religiones es el hombre quien ofrece y sacrifica algo para Dios, en el caso de Jesús es Dios quien ofrece a su Hijo para la salvación de la humanidad. Juan manifiesta su asombro y su consentimiento ante esta novedad traída por Jesús, a través de una expresión significativa que repetimos cada día en la misa: «¡He ahí el Cordero de Dios, que quita el pecado del mundo!» (v. 29).
El testimonio de Juan el Bautista nos invita a empezar una y otra vez en nuestro camino de fe: empezar de nuevo desde Jesucristo, el Cordero lleno de misericordia que el Padre ha dado por nosotros. Sorprendámonos una vez más por la elección de Dios de estar de nuestro lado, de solidarizarse con nosotros los pecadores, y de salvar al mundo del mal haciéndose cargo de él totalmente”.
El testimonio de Juan es que Jesús no sólo quita el pecado sino que tiene el Espíritu de modo permanente y puede comunicarlo a los creyentes: “La salvación que Dios nos ofrece es obra de su misericordia. No hay acciones humanas, por más buenas que sean, que nos hagan merecer un don tan grande. Dios, por pura gracia, nos atrae para unirnos a sí. Él envía su Espíritu a nuestros corazones para hacernos sus hijos, para transformarnos y para volvernos capaces de responder con nuestra vida a ese amor. La Iglesia es enviada por Jesucristo como sacramento de la salvación ofrecida por Dios” (EG n° 112).
En síntesis, hay que asumir nuestra condición permanente de “pecadores en conversión […] Porque estar en conversión es pasar continuamente al misterio del pecado y de la gracia. Esto significa el abandono de toda justificación, de toda justicia propia, y el reconocimiento de nuestro pecado para abrirnos a la gracia de Dios”, (A. Louf).
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
Éste ES
Imponente figura
Un Nazareno de caminar majestuoso
Su realeza excede su apariencia
Los ojos amantes observan su belleza
Tiene una mirada profunda
Y aunque permanece a distancia
Parece acercarse a todos
Todo en Él es pura Gracia
Enmudecen los hombres al verlo
Y también las aguas
Solo el aleteo de un Ave
Se oye, al descender con calma
La voz de Juan dará testimonio
Pero antes, se escuchó la Palabra
El Padre reconoció desde lo alto
Al Hijo Único, tres veces Santo
Cordero de Dios, que quitas el pecado
Bautízanos en el Espíritu Santo
Y seremos testigos de tu Amor
En este mundo desolado. Amén.
1 En general hay aceptación en datar la acción de este profeta al final del exilio, cerca del año 540 a.C. cuando el imperio Babilónico comienza a colapsar habiendo surgido los persas capitaneados por Ciro.
2 G. Zevini – P. G. Cabra (eds.), Lectio Divina para cada día del año. Vol. 13, Verbo Divino, Estella, 2003, 14.
3 Como nota F. Moloney, El evangelio de Juan, Verbo Divino, Estella, 2005, 59: “Parte de la tradición manuscrita (Ƥ5; Sinaítico, Vetus Latina y algunas traducciones siríacas) lee «el elegido de Dios» Pero es mucho más fuerte la tradición textual donde se encuentra «Hijo de Dios», y la lectura «el Hijo», en lugar del «Elegido», está más en armonía con el vocabulario y la teología joánica”.
4Jesús de Nazaret. Desde el Bautismo a la Transfiguración, Planeta, Buenos Aires, 2007, 38-40.
5 Lectura del Evangelio de Juan. Jn 1-4; Sígueme, Salamanca, 1989, 138.
6 El Evangelio de Juan; Verbo Divino, Estella, 2005, 57.
7 X. León-Dufour, Lectura del Evangelio de Juan. Jn 1-4; Sígueme, Salamanca, 1989, 140.
8 Lectio Divina para cada día del año, Vol. 13, Verbo Divino, Estella, 2003, 17.
9 La vida en Cristo, PPC, Madrid, 1998, 87.