15/03/2026
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AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
1ª Leitura: 1 Samuel 16,1b.6-7.10-13a
Salmo 22(23)-R- O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma
2ª Leitura: Efésios 5,8-14
Evangelho de João 9, 1-41
Naquele tempo: 1Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. 2Os discípulos perguntaram a Jesus: 'Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?' 3Jesus respondeu: 'Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. 4É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5Enquanto estou no mudo, eu sou a luz do mundo.' 6Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. 7E disse-lhe: 'Vai lavar-te na piscina de Siloé' (que quer dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando. 8Os vizinhos e os que costumavam ver o cego - pois ele era mendigo - diziam: 'Não é aquele que ficava pedindo esmola?' 9Uns diziam: 'Sim, é ele!' Outros afirmavam: 'Não é ele, mas alguém parecido com ele.' Ele, porém, dizia: 'Sou eu mesmo!' 10Então lhe perguntaram: 'Como é que se abriram os teus olhos?' 11Ele respondeu: 'Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: 'Vai a Siloé e lava-te'. Então fui, lavei-me e comecei a ver.' 12Perguntaram-lhe: 'Onde está ele?' Respondeu: 'Não sei.' 13Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego. 14Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. 15Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus como tinha recuperado a vista. Respondeu-lhes: 'Colocou lama sobre meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!' 16Disseram, então, alguns dos fariseus: 'Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.' Mas outros diziam: 'Como pode um pecador fazer tais sinais?' 17E havia divergência entre eles. Perguntaram outra vez ao cego: 'E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?' Respondeu: 'É um profeta.' 18Então, os judeus não acreditaram que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista. Chamaram os pais dele 19e perguntaram-lhes: 'Este é o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que ele agora está enxergando?' 20Os seus pais disseram: 'Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. 21Como agora está enxergando, isso não sabemos. E quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Interrogai-o, ele é maior de idade, ele pode falar por si mesmo.' 22Os seus pais disseram isso, porque tinham medo das autoridades judaicas. De fato, os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o Messias. 23Foi por isso que seus pais disseram: 'É maior de idade. Interrogai-o a ele.' 24Então, os judeus chamaram de novo o homem que tinha sido cego. Disseram-lhe: 'Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é um pecador.' 25Então ele respondeu: 'Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo.' 26Perguntaram-lhe então: 'Que é que ele te fez? Como te abriu os olhos?' 27Respondeu ele: 'Eu já vos disse, e não escutastes. Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?' 28Então insultaram-no, dizendo: 'Tu, sim, és discípulo dele! Nós somos discípulos de Moisés. 29Nós sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse, não sabemos de onde é.' 30Respondeu-lhes o homem: 'Espantoso! Vós não sabeis de onde ele é? No entanto, ele abriu-me os olhos! 31Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade. 32Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada'. 34Os fariseus disseram-lhe: 'Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?' E expulsaram-no da comunidade. 35Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: 'Acreditas no Filho do Homem?' 36Respondeu ele: 'Quem é, Senhor, para que eu creia nele?' 37Jesus disse: 'Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo.' Exclamou ele: 38'Eu creio, Senhor'! E prostrou-se diante de Jesus. 39Então, Jesus disse: 'Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem, vejam, e os que veem se tornem cegos.' 40Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto e lhe disseram: 'Porventura, também nós somos cegos?' 41Respondeu-lhes Jesus: 'Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: 'Nós vemos', o vosso pecado permanece.' Palavra da Salvação.
Jo 9,1-41
“Rabi, quem pecou, ele ou seus pais para que nascesse cego?”. Os discípulos procuram a explicação e o sentido dos males e das imperfeições que nos fazem sofrer.
A resposta de Jesus é clara: “Nem ele nem seus pais, mas para que se manifestem as obras de Deus”. As imperfeições que existem neste mundo não são castigo de Deus. Jesus não liga as imperfeições e as doenças humanas com um castigo de Deus.
A imperfeição do cego é vista como ocasião, como pano de fundo da manifestação da ação criadora e salvadora de Deus. Além disso, a resposta de Jesus afirma que a imperfeição do cego não é imperfeição natural. Imperfeição natural indica uma imperfeição imutável que não será superada. Por isso, devemos falar de uma imperfeição inicial.
Todas as imperfeições deste mundo devem ser vistas como imperfeições iniciais. A imperfeição inicial é da vontade de Deus, pois, ao criar o universo, Deus fez tudo bem feito, mas não fez tudo perfeito. Se criasse tudo perfeito, Deus teria excluído o progresso, a evolução e o crescimento. A natureza e o homem foram criados repletos de possibilidades para evoluir e se desenvolver. Assim as imperfeições podem e devem ser superadas. Elas representam um desafio à imaginação, à criatividade e ao amor do homem.
Ao falar do cego, Jesus está falando também de todos nós. Não fomos criados perfeitos para que se manifeste em nós o poder de Deus. Superando as imperfeições, revelaremos a grandeza daquele que nos criou.
O cego não é só curado da cegueira física. Ele recebe a luz da fé. Por isso a cura do cego começa com a cura física, mas termina no dom da fé. Todo este processo se realiza em três etapas.
a. As pessoas perguntam ao cego curado: “Como se abriram os teus olhos?”. Ele responde: “Aquele homem chamado Jesus fez lama, aplicou-a nos meus olhos”. O cego ainda não sabe quem é Jesus, mas adere a ele por causa da cura.
b. De novo as pessoas perguntam ao cego: “Que dizes de quem te abriu os olhos?”. Ele responde: “é um profeta”. Neste ponto, o cego manifesta uma maior profundidade no conhecimento de Jesus Cristo. De fato, Jesus é profeta, mas não somente um profeta.
c. Por fim Jesus lhe pergunta: “Crês no Filho do Homem?”. “Quem é, senhor para que eu creia nele?”. “Tu o estás vendo, é quem fala contigo”. “Creio, Senhor!”. E prostrou-se diante dele. Aqui a profissão de fé marca o término de um processo que começou com a cura física. A visão física prepara a visão espiritual. A fé é fruto do encontro pessoal com o Senhor. Jesus vem ao encontro e se revela. Somente por causa disso a fé é possível.
Os verdadeiros cegos do evangelho são os fariseus que não enxergam aquilo que é evidente: Jesus é o Filho de Deus. Por várias vezes os fariseus interrogam o cego sobre quem o curou; se, de fato, ele foi mesmo curado. Perguntam aos seus pais se ele nasceu mesmo cego. De fato, eles não enxergam um palmo o que é evidente porque não querem ver a realidade.
O argumento que eles usam para não acreditar no milagre de Jesus é ridículo: um milagre feito no dia de sábado não pode ser um milagre. Eles são cegos porque não querem ver.
Fechar os olhos diante do próximo torna cegos diante de Deus (Texto-base, CF 2020, 80).
4º domingo da Quaresma - Jo 9,1-41 - Ano A – 15-03-2026
1Sm 16,1b.6-7.10-13a; Sl 23; Ef 5,8-14; Jo 9,1-41.
As leituras deste Domingo propõem-nos o tema da “luz”. Definem a experiência cristã como “viver na luz”.
No Evangelho, Jesus apresenta-se como “a luz do mundo”; a sua missão é libertar os homens das trevas do egoísmo, do orgulho e da autossuficiência. Aderir à proposta de Jesus é enveredar por um caminho de liberdade e de realização que conduz à vida plena. Da ação de Jesus nasce, assim, o Homem Novo – isto é, o Homem elevado às suas máximas potencialidades pela comunicação do Espírito de Jesus.
Na segunda leitura, Paulo propõe aos cristãos de Éfeso que recusem viver à margem de Deus (“trevas”) e que escolham a “luz”. Em concreto, Paulo explica que viver na “luz” é praticar as obras de Deus (a bondade, a justiça e a verdade).
A primeira leitura não se refere diretamente ao tema da “luz” (o tema central na liturgia deste domingo). No entanto, conta a escolha de David para rei de Israel e a sua unção: é um ótimo pretexto para refletirmos sobre a unção que recebemos no dia do nosso Batismo e que nos constituiu testemunhas da “luz” de Deus no mundo.
“Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença” (Jo 9, 41)
A Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação profunda de vida; os quarenta dias de duração são um tempo propício para viver a “operação saída”, ou seja, expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é rotineiro, estreito e atrofiante.
Este tempo litúrgico especial certamente mobilizará e ativará todas as dimensões de nosso ser: nossos sentidos se expandirão, olhando, escutando e sentindo a realidade que nos envolve; nossa mente tornar-se-á mais clara, sabendo discernir e não se deixando manipular; nosso coração se fará mais atento e misericordioso diante do sofrimento humano; nossa alegria será o fermento do pão cotidiano, compartilhado com os outros. E, se dedicarmos mais tempo ao silêncio e à oração, recobraremos energia e sentido, necessários para sair da “normose doentia” de todos os dias.
Neste percurso transformador, Jesus é o grande “pedagogo” que nos toma pela mão e nos ajuda a fazer a travessia em direção à Terra Prometida. Ele se revela como presença inspiradora e que desperta o “melhor” que há em cada um de nós. Por isso, o tempo litúrgico da quaresma nos situa diante das grandes realidades existenciais que nos humanizam: Fonte de Água viva, Luz, Vida...
No relato catequético deste domingo, o evangelista João resume todo o percurso de qualquer pessoa que se encontra com Jesus, que se deixa recriar por Ele, que caminha na sua fé descobrindo-O aos poucos, até acolhê-lo como Luz do mundo.
A Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação profunda de vida; os quarenta dias de duração são um tempo propício para viver a “operação saída”, ou seja, expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é rotineiro, estreito e atrofiante – Adroaldo Palaoro
No encontro com o “cego de nascença”, Jesus se revela como Luz que desperta a luz atrofiada no interior daquele homem paralisado, impotente, dependente dos outros (marginalizado). Todos o olham como um pecador castigado por Deus. Mas Jesus o olha de maneira diferente; logo que o vê, sente o impulso de resgatá-lo daquela vida de mendigo, desprezado por todos como um amaldiçoado. Ele se sente chamado pelo Pai para defender, acolher e curar precisamente aqueles que vivem excluídos e humilhados.
Depois dos gestos terapêuticos de Jesus, o cego descobre a luz pela primeira vez. Jesus o cura, mas o cego também deve colaborar; ele é confrontado com sua própria força e vontade, pois precisa “descer” até às águas de Siloé, até às profundezas de seu próprio ser.
Com o “toque” das benditas mãos de Jesus, as dimensões mais profundas do pobre homem são despertadas, uma nova energia é ativada, a liberdade é reacendida; reconstruído em sua autonomia, agora ele pode dar direção à sua própria vida.
No encontro com Jesus, o cego obtém a visão; mais ainda, o encontro com Jesus é como um banho que não destrava somente o sentido da visão, mas toda sua vida é reconstruída, prolongando o sexto dia da Criação; finalmente, ele poderá desfrutar de uma vida digna, sem temor de envergonhar-se diante dos outros.
O evangelista João, com uma certa ironia, diz que os vizinhos e as autoridades do Templo discutiam se aquele que agora vê era o mesmo que, um pouco antes, não via. Efetivamente é o mesmo, mas não é o mesmo: sendo o mesmo, é outro. Era “o mesmo”, e graças a Jesus não era mais “o mesmo”, pois agora vê a vida de outra maneira. É a diferença entre o homem dependente, sem iniciativa, sem liberdade..., e o homem livre, capaz de abrir-se às surpresas da vida.
O evangelista João, com uma certa ironia, diz que os vizinhos e as autoridades do Templo discutiam se aquele que agora vê era o mesmo que, um pouco antes, não via. Efetivamente é o mesmo, mas não é o mesmo: sendo o mesmo, é outro – Adroaldo Palaoro
O homem, cego até agora, mendigava, era um personagem marginalizado. O encontro com Jesus o reabilita para a vida; volta a ser uma pessoa na convivência. Ele não sabe se é sábado ou segunda-feira, não sabe se aquele que o curou é pecador ou não; o que ele sabe é que antes não via e agora vê. Aos poucos redescobre sua identidade essencial. Todo aquele que se aproxima do “Eu Sou” (Jesus), redescobre seu “eu sou”, ou seja, participa do mesmo ser, da mesma luz de Jesus. Quem se aproxima de Jesus termina sendo como Ele, “eu sou”. Aquele ex-cego fica transformado por ver a vida a partir de Jesus; recupera sua dignidade.
Mas, ser reconstruído em sua identidade tem um preço; o homem curado provoca conflitos com as autoridades religiosas e acaba sendo expulso da sinagoga. Nessa expulsão se revela um conflito radical dos dirigentes judeus que não aceitam Jesus porque está abrindo os olhos das pessoas, para que estas vejam outro mundo, para que tenham um olhar alternativo. “Vim a este mundo para instaurar um processo, para que os cegos vejam e os que veem fiquem cegos” (9,39).
O conflito de Jesus com os dirigentes vai desembocar na morte. Alguns acolhem a visão e a vida que Jesus traz, mas outros se sentem ameaçados em seus privilégios. São as trevas que rejeitam Jesus. As trevas amam as sombras, as prisões e tumbas desconhecidas, os negócios turvos sem testemunhas, os conluios noturnos, os métodos inconfessáveis, os desaparecidos, os arquivos fechados, as alianças clandestinas. “A luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (1,5).
Mas Jesus não abandona a quem o ama e o busca. Ele tem seus caminhos para se encontrar com aqueles que são rejeitados e expulsos. Ninguém lhe pode impedir. Ele vem sempre ao encontro daqueles que não são acolhidos oficialmente pela religião, daqueles que são excluídos das comunidades e instituições religiosas; aqueles que não têm lugar em nossas igrejas, tem um lugar privilegiado em seu coração.
Quem levará hoje a mensagem da Boa-Nova de Jesus para os grupos ou minorias excluídas que, a todo momento, escutam condenações públicas injustas de dirigentes religiosos cegos, que se aproximam das celebrações cristãs com medo de serem reconhecidos, que não podem comungar com paz em nossas eucaristias, que se veem obrigados a viver sua fé em Jesus no silêncio de seu coração de maneira secreta e clandestina?
Como seguidores(as) de Jesus, precisamos passar por um processo de desobstrução de nossas “cataratas existenciais” que impedem viver em atitude de contínuo assombro e vibrar com a vida do outro. É preciso “cristificar” nosso olhar para sermos reconstruídos em nossa essência.
Jesus olha cada ser humano como tal, mas este gesto não é um simples “ver” as pessoas, mas um olhá-las a fundo; ou seja, Jesus dirige seu olhar às pessoas para perceber nelas aquilo que para Ele é o mais importante: os traços e a imagem de Deus que elas deixam transparecer para quem as olha.
O olhar de Jesus não se restringe ao exercício da visão; seu olhar possui uma eficácia transformadora, encarnada em sua capacidade de amar, isto é, de olhar as pessoas com o amor de seu Pai. Ao olhar as pessoas, Jesus faz emergir a dignidade que elas carregam: filhas de Deus, as criaturas mais apreciadas pelo Criador.
Jesus olha cada ser humano como tal, mas este gesto não é um simples “ver” as pessoas, mas um olhá-las a fundo; ou seja, Jesus dirige seu olhar às pessoas para perceber nelas aquilo que para Ele é o mais importante: os traços e a imagem de Deus que elas deixam transparecer para quem as olha – Adroaldo Palaoro
Na verdade, o que imobiliza e petrifica é o olhar que se fecha no egocentrismo, que não se abre ao outro numa atitude de respeito, de fidelidade criativa. “Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo” (Eugênio Bucci).
Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a alguém é um olhar diferente; o futuro, a acolhida, o perdão, a alegria... dessa pessoa podem depender desse olhar novo, cheio de afeto e confiança.
Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar.
Num contexto de relações afetivas, onde os sentimentos são determinantes, qualquer caminho de volta ou de diálogo inicia-se sempre com um olhar conciliador ou reconciliador.
Olhar admirado e gratuito, como aquele de Jesus, que transforma, que liberta e que se comove diante da realidade humana, sobretudo daqueles que “não são olhados”.
Para meditar na oração:
- Torne o seu coração vulnerável ao olhar do Pai, receptivo a todo apelo que vem D’Ele, deixando-se tocar pelo inesperado, pela novidade, pela iniciativa amorosa d’Ele; o Amor d’Ele é sempre re-criador, suscitando em você lampejos de ressurreição.
- Orar é ter acesso ao seu “eu profundo” sob o olhar de Deus e desejar ser visto por Ele até as profundidades mais secretas do seu próprio ser;
- Evangelize seu olhar para aprender a olhar como Jesus Cristo, ultrapassando as aparências.
- Como você “olha” as pessoas, as coisas, os fatos, o mundo...?
Há uma característica que define Jesus e molda todas as suas ações: sua vontade de viver na verdade. Sua decisão de viver na realidade, sem enganar a si mesmo ou a qualquer outra pessoa, é notável. É raro encontrar um homem assim na história. Jesus não apenas fala a verdade; ele acredita na verdade e a busca. Ele está convencido de que a verdade humaniza a todos.
É por isso que ele não tolera mentiras nem encobrimentos. Ele não suporta distorções nem manipulações. Não há nele qualquer indício de ocultar a verdade ou transformá-la em propaganda. Sua honestidade com a realidade o torna livre para falar toda a verdade. Jesus se tornará "a voz dos que não têm voz e uma voz contra aqueles que têm voz demais" (Jon Sobrino).
Jesus sempre vai direto ao ponto. Ele fala com autoridade porque fala a partir da verdade. Ele não precisa de falso autoritarismo – José Antonio Pagola
Jesus sempre vai direto ao ponto. Ele fala com autoridade porque fala a partir da verdade. Ele não precisa de falso autoritarismo. Ele fala com convicção, mas sem dogmatismo. Ele não precisa pressionar ninguém. A sua verdade basta. Ele não grita contra os ignorantes, mas contra aqueles que distorcem deliberadamente a verdade para agir injustamente.
Jesus nos convida a buscar a verdade. Ele não fala como fanáticos, que a impõem, nem como autoridades, que a "defendem" por obrigação. Ele fala com absoluta simplicidade e autoridade. O que ele diz e faz é claro e fácil de entender. As pessoas percebem isso imediatamente. Em contato com Jesus, cada pessoa encontra a si mesma e o melhor que há em si. Jesus nos conduz à nossa própria verdade.
Quando esse homem fala de um Deus que deseja uma vida digna para os mais desafortunados e indefesos, ele se torna crível. Suas palavras não são as de um charlatão interesseiro. Nem são as de um religioso piedoso em busca de seu próprio bem-estar espiritual. São as palavras de alguém que leva a verdade de Deus àqueles que desejam recebê-la.
Segundo o quarto Evangelho, Jesus diz: “Eu vim a este mundo para que os cegos vejam e os que veem se tornem cegos”. É assim mesmo. Quando reconhecemos nossa cegueira e abraçamos o seu Evangelho, começamos a ver a verdade.
Neste domingo continuamos caminhando com Jesus rumo a Jerusalém, à festa da Páscoa. A narrativa que lemos é o relato do cego de nascença que recobra a visão, um milagre seguido de uma controvérsia entre o cego que “agora está enxergando” e as autoridades dos judeus que não podem aceitar “que seus olhos se abriram”. A resposta do homem às perguntas das autoridades judaicas repousa exclusivamente sobre o que aconteceu nele: “só sei que eu era cego e agora estou enxergando”.
Este texto do evangelho é a continuação da cena na qual Jesus é quase apedrejado pelos judeus porque ele afirma que existe antes que Abraão (Jo 8, 58-59). A hostilidade entre Jesus e os judeus é clara no evangelho de João. Isto responde ao contexto que vivia a comunidade joânica quando o evangelho foi escrito.
A expulsão das sinagogas dos judeus convertidos ao cristianismo ocorreu antes de o evangelho ser escrito. Mas os cristãos joaninos ainda eram perseguidos e até condenados à morte pelos “judeus”. Este era o ambiente no qual crescia a fé na comunidade joânica.
A narrativa do capítulo 9 integra a série de sete “sinais” de Jesus descritos no evangelho de João. Lembremos que os sinais não só mostram as ações admiráveis de Jesus, seus milagres, mas visualizam simbolicamente o que Jesus significa: o alimento que dá vida, a luz do mundo, a ressurreição e a vida.
“Ao passar, Jesus viu um cego de nascença“. O texto começa com o olhar de Jesus, que se dirige a uma pessoa cega. Os discípulos percebem o olhar de Jesus e lhe perguntam: «Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele ou seus pais?». Eles só veem no cego sua cegueira como consequência do pecado porque não há sofrimento sem culpabilidade. Também os fariseus expressaram esta conceição dominante de que a pobreza e a doença são um castigo pelo pecado: «Você nasceu inteirinho no pecado e quer nos ensinar?».
Nos perguntamos: O que é que Jesus vê nesse homem? Como é o olhar de Jesus a esse homem? Em Jesus há um olhar diferente, ele vê além do pecado e enxerga nesse cego o desejo de Deus, que, presente nele, quer dar-lhe uma nova vida. Por isso Jesus responde aos discípulos: «Não foi ele que pecou, nem seus pais, mas ele é cego para que nele se manifestem as obras de Deus». Inculpar aos que sofrem da doença é afundá-los nela. Isso também impede encontrar que os meios apropriados sejam tomados nessas situações.
Perguntemos o que vê Jesus quando passa ao nosso redor? Deixamos que ele pare diante de cada um de nós e nos olhe tranquilamente? Diante do cego: “Jesus cuspiu no chão, fez barro com a saliva e com o barro ungiu os olhos do cego”.
O cego acreditou, deixou que Jesus colocasse barro em seus olhos e foi obediente a suas palavras: “’Vá se lavar na piscina de Siloé’ (Esta palavra quer dizer «O Enviado»). O cego foi, lavou-se, e voltou enxergando”.
Agora bem esta nova vida que o ex-cego inicia se desenvolve no meio das tensões que descrevíamos no início. Por meio do mendigo cego, a comunidade que escreve o evangelho espelha as dificuldades que sofre para viver fiel a Jesus e a seus ensinamentos.
É por isso que depois da cura o evangelho nos oferece o longo processo que o mendigo faz, tendo que enfrentar a não compreensão do povo em geral, a rejeição das autoridades religiosas e até o abandono de seus pais, permanecendo sempre fiel a “aquele” que: “colocou barro nos meus olhos, eu me lavei, e estou enxergando”.
As sucessivas respostas que ele oferece no diálogo inquisidor ao qual é submetido mostram que ele ainda não conhece plenamente a aquele que o curou, só sabe de sua existência e do que obrou nele. Como esquecer que antes estava na escuridão e agora vivia na Luz! A alegria dessa mudança ninguém lhe podia tirar. O ex-cego sofre a expulsão da sinagoga como tantos judeus cristãos da comunidade joânica sofreram.
O evangelho mostra como Jesus conhecia e acompanhava o cego, assim como a cada um/as de seus amigos/as, e por isso quando fica sabendo que ele é expulso da sinagoga, não o abandona; ao contrário, vai de novo ao seu encontro.
E é nesse novo diálogo de Jesus com o ex-cego que ele termina reconhecendo em Jesus o filho de Deus, ao qual adora: “E se ajoelhou diante de Jesus”.
A fé do mendigo cego deste evangelho desafia a nossa. Somos capazes de reconhecer a presença de Jesus nos acontecimentos de nossa vida? Em cada situação que passamos da escuridão à luz, da dificuldade à paz, da tristeza à alegria, vemos a Jesus?
Pensemos especialmente neste momento difícil que todos os países e sociedades do mundo estamos atravessando.
Oração
Olhar-me desde Ti.
Olha-me tu, Jesus de Nazaré
que eu sinta pousar-se sobre mim
teu olhar livre,
sem escravidão de sinagoga,
sem exigência que me ignorem,
sem a distância que congela,
sem a cobiça que me compre.
Que teu olhar se pouse
em meus sentidos,
e se filtre até os desvãos
inacessíveis onde te espera
meu eu desconhecido
semeado por ti desde meu início
e germine meu futuro
rompendo em silêncio
com o verde de suas folhas
a terra machucada que me sepulta
e que me nutre.
Deixa-me entrar dentro de ti,
para olhar-me desde ti,
e sentir que se dissolvem
tantos olhares
próprios e alheios
que me deformam e me rompem.
Benjamim Gonzalez Buelta
É convivendo que os olhos se abrem
O texto sobre o qual meditamos é comprido. Mas é um texto muito vivo. Difícil de ser cortado pelo meio. Trata da cura de um cego, a quem Jesus devolve a luz aos olhos. É uma história cheia de simbolismos. Temos aqui mais um exemplo concreto de como o Quarto Evangelho tira raio-X para revelar o sentido mais profundo que existe escondido dentro dos fatos. É o sexto sinal, realizado em dia de sábado (Jo 9,14) e ligado à Festa das Tendas (Jo 7,2.37), que era a festa da água e da luz.
As comunidades do Discípulo Amado identificaram-se com o cego de nascença e com a sua cura. Cegas desde o nascimento por causa da prática legalista da Palavra de Deus, elas conseguiram enxergar a presença de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. Para chegar a isso, tiveram que fazer uma travessia cheia de conflitos e de perseguições. Por isso, pela descrição das várias etapas e conflitos da cura do cego de nascença, descreveram também o itinerário espiritual que elas mesmas percorriam, desde a escuridão da cegueira até a luz plena da fé esclarecida em Jesus.
1. João 9,1-5: O ponto de partida: cegueira a respeito do mal que existe no mundo
Ao verem o cego, os discípulos perguntaram: “Quem pecou, ele ou os pais, para ele nascer cego?” Naquela época, todo sofrimento era visto como castigo de Deus por algum pecado. Esta mentalidade precisava ser combatida. Associar um defeito físico ao pecado era uma das maneiras de os sacerdotes da Antiga Aliança manter seu poder sobre o povo. Para os saduceus e fariseus, um defeito físico ou uma doença eram sinais da maldição de Deus sobre a pessoa. Jesus não era desta opinião e corrigiu os discípulos. Não existe pecado na pessoa. “Nem ele nem os pais pecaram, mas para que nele sejam manifestadas as obras de Deus!” Obra de Deus é o mesmo que Sinal de Deus. Aquilo que para a época era sinal da ausência de Deus, para Jesus vai ser sinal da sua presença luminosa no meio de nós. Ele disse: “Enquanto é dia, tenho que realizar as obras do Pai que me enviou. Quando vem a noite, já não dá mais para trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.” O Dia dos Sinais começou a raiar quando Jesus realizou o primeiro sinal em Caná. Mas o Dia está chegando ao fim e logo será Noite. A noite é a morte de Jesus.
2. João 9,6-7: O sinal do enviado de Deus
Jesus cuspiu na terra, fez lama com sua saliva, aplicou sobre os olhos do cego e pediu que fosse lavar-se na piscina de Siloé. O homem foi e ficou curado. Este é o sinal! João comenta, dizendo que Siloé significa enviado. Jesus é o Enviado do Pai que realiza as obras, os sinais do Pai. O sinal deste “envio” é que o cego começou a enxergar. E, tal como Deus criara o ser humano a partir do barro, Jesus vem recriar as pessoas. Nele, somos novas criaturas (2Cor 5,17).
3 João 9,8-14: A base da fé é a humanidade de Jesus
A primeira reação veio dos vizinhos e das pessoas chegadas. O cego era muito conhecido. Eles ficaram na dúvida: “Será que é ele mesmo?” O cego respondia: “Sou eu mesmo!” Perguntaram: “Como é que se abriram seus olhos?” O que antes era cego tem que testemunhar: foi o homem Jesus quem me abriu os olhos. O fundamento da fé em Jesus é aceitar que ele é um ser humano igual a nós. Os vizinhos perguntaram: “Onde está ele?” – “Não sei!” Eles não ficaram satisfeitos com as respostas do cego. Para tirar tudo a limpo, levaram o homem até os fariseus, que eram as autoridades religiosas. Aquele dia era um sábado! Em dia de sábado era proibido exercer a medicina.
4. João 9,15-17: Jesus é o profeta, ele responde às aspirações do povo
Diante da polêmica criada pelo sinal de Jesus, o caso foi para as autoridades religiosas. O homem agora testemunha o sinal de Jesus diante dos fariseus, contando tudo de novo. Cegos na sua observância das leis, alguns fariseus comentaram: “Ele não é de Deus, porque não observou o sábado!” Não aceitavam que o homem Jesus fosse um sinal de Deus por fazer tal coisa num dia de sábado. Mas outros se questionavam: “Como é que alguém, sendo pecador, pode realizar tais sinais?” Aí perguntaram ao cego: “E você, o que nos diz a respeito de Jesus?” O homem avançou no seu testemunho. Agora, para ele, Jesus “é um Profeta!”
5. João 9,18-23: Cegos pelo preconceito da lei, os fariseus não aceitam o testemunho da lei
A terceira reação vem dos pais. Os fariseus, agora chamados de judeus, não acreditavam que o rapaz tivesse sido cego. Achavam que fosse uma fraude montada. Por isso, mandaram chamar os pais e perguntam: “Este é o filho de vocês? Ele nasceu cego? Se nasceu cego, como é que agora enxerga?” Com muita cautela, os pais responderam: “É nosso filho e ele nasceu cego! Como agora enxerga não sabemos, nem sabemos quem o fez enxergar. Vocês interroguem a ele. Ele tem idade!” A cegueira dos fariseus gerava medo no povo, pois quem fizesse a profissão de fé em Jesus como Messias seria expulso da sinagoga. A conversa com os pais revelou a verdade, testemunhada por duas pessoas. Mas as autoridades religiosas se negaram a aceitá-la. A cegueira delas era maior que a evidência. Elas, que tanto insistiam na observância da lei, agora não queriam aceitar a lei que declarava válido o testemunho de duas pessoas (Jo 8,17).
6. João 9,24-34: O discípulo não é maior que o mestre. O mestre foi rejeitado…
Chamaram de novo o cego e disseram: “Dá glória a Deus! Sabemos que este homem é um pecador!” Dar glória a Deus significava: “Peça perdão pela mentira que você nos pregou!” O cego tinha dito: “Ele é um profeta!” Conforme os fariseus, ele deveria ter dito: “Ele é um pecador!” Mas o cego era vivo. Ele disse: “Se ele é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora estou enxergando!” Contra fato não vale argumento! De novo, os fariseus perguntaram: “O que ele fez? Como abriu seus olhos?” O cego respondeu com ironia: “Eu já disse a vocês! Vocês também querem tornar-se discípulos dele?” Responderam: “Você, sim, é discípulo dele. Nós somos discípulos de Moisés! Sabemos que Deus falou a Moisés. Mas esse Jesus, nós não sabemos de onde é!” Novamente, com fina ironia, o cego disse: “Espantoso! Vocês não sabem de onde ele é, e ele me abriu os olhos! Se este homem não viesse de Deus, não seria capaz de fazer um sinal desses!” Confrontado com a cegueira dos fariseus, a luz da fé cresceu dentro do cego. Ele rompeu com a velha observância da Lei de Moisés, afirmando que quem lhe abriu os olhos só pode ser alguém que veio de Deus. Esta profissão de fé resultou em sua expulsão da sinagoga. Assim acontecia também no fim do século I. Quem quisesse professar sua fé em Jesus tinha de romper laços familiares e comunitários. Assim acontece até hoje. Quem decide ser fiel a Jesus sofre e corre o perigo de tornar-se um excluído em sua própria família e vizinhança.
7. João 9,35-38: A nova comunidade: Jesus o acolhe e ele se entrega
Jesus não abandona quem por causa dele padece ou é perseguido. Quando soube da expulsão, procurou o homem e o ajudou a dar mais um passo, convidando-o a assumir sua fé no Filho do Homem. Ele respondeu: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” Jesus respondeu: “Você está olhando para ele. Sou eu que estou falando com você!” O cego exclamou: “Creio, Senhor!” E prostrou-se diante de Jesus. A atitude do cego diante de Jesus é de total confiança e de inteira aceitação. De Jesus ele aceita tudo. Esta é a fé que sustenta as comunidades do Discípulo Amado.
8. João 9,39-41: Uma reflexão final
O cego, que não enxergava, acaba enxergando melhor que os fariseus. As comunidades, que antes eram cegas, descobrem a luz. Os fariseus, que pensavam enxergar corretamente, são mais cegos que o cego de nascimento. Presos à velha observância, eles mentem quando dizem que veem. O pior cego é aquele que não quer enxergar! Os fariseus. Na verdade, continuam cegos.
O nome “EU SOU”
Para esclarecer o significado da cura do cego de nascença, o Quarto Evangelho lembrou a frase de Jesus: “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 9,5; 8,12). Em vários outros lugares e oportunidades, repete esta mesma afirmação: EU SOU. O Evangelho de João, no seu conjunto, é uma resposta para a pergunta inquietante feita pelos contemporâneos de Jesus, tanto discípulos quanto adversários: “Quem és tu?” (Jo 8,25) ou “Quem pretendes ser?” (Jo 8,53). Para responder a essas questões e, ao mesmo tempo, revelar a profunda identidade entre ele e o Pai, Jesus repete várias vezes a expressão “Eu sou” (Jo 8,24.28.58). Dessa forma, a comunidade joanina quer-nos mostrar que fez a experiência com Jesus como a encarnação do Deus libertador do Êxodo (Ex 3,1-14).
Além disso, Jesus repete a expressão com complementos: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6,34.48); “Eu sou o pão vivo descido do céu” (Jo 6,51); “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12; 9,5); “Eu sou a porteira” (Jo 10,7.9); “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11.14); “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25); “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6); “Eu sou a videira” (Jo 15,1); “Eu sou rei” (Jo 18,37).
Esta revelação de Jesus atinge seu ponto alto numa discussão com os judeus em que ele afirma: “Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que Eu sou” (Jo 8,28).
O título que melhor resume o resultado desta busca é “Eu sou” (Jo 8,58). Este nome é como que o ponto de chegada após uma longa caminhada. “Eu sou” é o mesmo que Javé, o nome que Deus assumiu no êxodo como expressão da sua presença libertadora no meio do povo (Ex 3,14). Agora, para as comunidades do Discípulo Amado, o verdadeiro rosto deste Deus é o rosto de Jesus de Nazaré: “Quem me vê, vê o Pai!” (Jo 14,9). Depois do exílio babilônico, no Antigo Testamento, o nome sagrado Javé, que aparece quase 7 mil vezes no Antigo Testamento, foi substituído pela palavra Senhor. Desde Pentecostes, os discípulos e as discípulas chamam Jesus de Senhor (At 1,36; Fl 2,11; Jo 20,28). Até hoje dizemos: nosso Senhor Jesus Cristo.
Nesse quarto domingo da Quaresma, as Igrejas antigas leem e meditam no relato simbólico da cura do cego de nascença (João 9). Uma das páginas mais belas, mais bem escritas e de forma viva de todos os evangelhos. Mais do que a reportagem de uma cura efetuada por Jesus, essa história simboliza nosso processo da escuridão de uma vida sem perspectivas para a iluminação que Jesus abre pelo batismo para a nossa missão no mundo (como cristãos ou não).
Não podemos esquecer que a comunidade que conta essa história (a comunidade que costumamos chamar de João ou nos últimos tempos, do Discípulo Amado) havia sido expulsa ou de alguma forma rompido com a sinagoga (anos 80). E nessa parábola do cego de nascença, transparece a história do pobre incapaz de entrar na sinagoga (só podiam entrar as pessoas sadias) e que ficava na porta pedindo esmola, (dependia dos outros). O encontro com Jesus muda a sua vida. Diferente de outros evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) nos quais o doente pede a cura, nesse caso, Jesus toma a iniciativa. Faz lodo com a saliva, passa nos olhos do cego como em uma unção e diz: Vai e lava-te na piscina de Siloé (o enviado). O homem foi, lavou-se e ficou vendo... A Igreja lia esse evangelho nesse domingo ao dar aos catecúmenos a unção pre-batismal (ele me ungiu) e dirigi-los assim para a piscina do batismo.
A cura do cego de nascença provoca um conflito. Os rabinos da sinagoga querem saber como ele ficou curado. Interrogam os pais do homem que fora cego e esses escapam prudentemente do problema (Já tem idade. Perguntem a ele). Interrogam-no e ali o homem vai de confissão em confissão de reconhecimento em reconhecimento. Primeiramente, disse: Um homem chamado Jesus. Depois em meio aos conflitos, reconhece: Penso que ele é um homem de Deus. Depois diz mais: é um profeta. E finalmente adere à fé nele. Chama-o Senhor. E Jesus lhe pergunta: Crês no Filho do Homem? O cego lhe pergunta inocentemente: Quem é esse, Senhor, para eu crer nele? - Sou eu que estou falando com você, agora. E o cego se prostra: - Então eu creio, Senhor. E o adora....
Infelizmente, esse conflito entre o homem que fora cego e a instituição eclesiástica continua. Na história aqui contada o conflito é com a sinagoga. E o motivo é que essa quer ter o monopólio da graça divina. Qualquer cura e qualquer salvação não poderia passar fora da sinagoga. (Tu nasceste cheio de pecado e queres ensinar a nós que somos puros, isso é, fariseus?). Esse conflito pode se dar com qualquer Igreja ou padre que se sente dono/proprietário exclusivo das coisas de Deus. Pensa ter o monopólio da graça. Como a graça da iluminação pode acontecer fora do nosso domínio? E o texto sublinha alto que "Jesus, ao saber que o cego fora expulso da sinagoga, (mas de fato como cego, ele nunca tinha podido entrar), vai ao seu encontro e é ali que se dá o encontro de fé pleno: Creio, Senhor.
Gosto muito desse texto e acho que a Igreja deveria lê-lo não apenas de três em três anos na Quaresma (ano A), mas todos os anos. Só lamento que muitos padres e pastores continuem farisaicamente falando mal da sinagoga que excluiu o cego e continuem hoje fazendo a mesma coisa - excluindo pessoas diferentes e consideradas pecadoras - como se eles fossem donos exclusivos da graça de Deus. Mesmo se é bom olhar o cego de nascença como figura dos catecúmenos que se aproximam da luz da Páscoa e da iluminação do batismo, a última advertência de Jesus é séria também para nós: - "Cuidado para não te acontecer alguma coisa pior ainda".
O que poderia ser pior ainda do que a escuridão, a cegueira anterior? Substituir uma instituição fechada por outra igual, só que com outro nome e a pretensão igualmente pretensiosa de deter direitos exclusivos sobre o uso do nome de Deus? Esse evangelho nos chama a caminharmos para o batismo (mergulho) na vida amorosa de Deus, onde ela se manifeste, dentro ou fora de qualquer Igreja ou religião, um mergulho na comunhão universal na qual o ser humano possa ser reconhecido como divino e todos nós possamos escutar de Jesus a mesma pergunta que ele fez ao cego: - Você crê no Humano (Filho do Homem)? E nós respondemos: - Quem é, como é esse ser humano, essa humanidade, para que possamos crer nele? E Jesus responde: - Sou eu.
Isso quer dizer, em mim, você pode reconhecer e adorar todo ser humano como lugar em que Deus está como está no universo e aí sim você recebe de mim (Jesus) a iluminação de uma vida nova, um batismo que é sacramento de humanidade nova e universal.
(Confira a tradução com o texto original em espanhol loto após)
QUARTO DOMINGO: JESUS, DESPERTA A MINHA FÉ PARA QUE EU POSSA VER
1a. lectura (1Sam 16,1b.6-7.10-13a):
A narrativa relata a unção de Davi por Samuel, mas observemos desde já que a iniciativa é inteiramente de Deus, que será o verdadeiro protagonista desta história. Aqui, não é o povo que pede um rei, mas Deus quem envia Samuel com o chifre de azeite a "Jesse de Belém, porque vi entre seus filhos um rei para mim". O Senhor pede a Samuel que vá e ofereça um sacrifício e convide Jessé e seus filhos; e então Ele ungirá aquele que Ele designar. Observe que nem Samuel nem o "leitor" sabem quem será o ungido, o escolhido; somente o Senhor sabe .
A narrativa agora se concentra na relação entre os filhos de Jessé e Samuel. Como esperado, Eliabe, o primogênito de Jessé, é apresentado primeiro. Em teoria, ele preenche os dois requisitos para ser rei: é o mais importante por ser o primogênito e é o mais imponente fisicamente. Portanto, Samuel pensa assim que o vê: "Certamente o Senhor tem o seu ungido diante dele" (16:6). E a resposta do Senhor é: "Não considere a sua aparência nem a sua altura, pois eu o rejeitei. O Senhor não vê como vê o homem; pois o homem vê a aparência exterior, porém o Senhor vê o coração" (16:7). O significado desta frase é claro : os homens, incluindo o profeta Samuel, veem o externo, a aparência exterior; vemos segundo os nossos olhos. Deus, por outro lado, vê o interno, o verdadeiro; ele vê o coração . O texto deixa muito claro que os critérios de Deus para escolher não são os mesmos que os dos homens. E é impressionante que Samuel, o profeta, também não consiga ver com os olhos de Deus. Especificamente, Eliabe não é escolhido. Nem os outros seis filhos de Jessé que desfilam diante de Samuel. Mas Jessé ainda tinha o filho mais novo, que não estava presente, mas cuidava do rebanho (talvez por não ter idade suficiente para participar do rito sacrificial; ou simplesmente para enfatizar que ele não estava sendo considerado).
Então aparece o filho mais novo, descrito como "de cabelos loiros, belos olhos e boa aparência". Sua aparência física contrasta fortemente com a de Eliabe, e também com a de Saul, pois ele não tem a aparência de um guerreiro. Assim que o filho mais novo aparece, o mistério é revelado, pois Deus diz a Samuel: "Levanta-te e unge-o, porque este é ele" (16:12). Samuel o unge, e o Espírito do Senhor vem sobre Davi.
A escolha de Davi nos ensina sobre a pedagogia de Deus, da qual ele não é o único exemplo. B. Costacurta explica-nos : “Os critérios de Deus são diferentes dos critérios dos homens, e o seu ungido não é grande, renomado ou ostentoso. Pelo contrário, é um menino pequeno, que precisamente por causa da sua pequenez é adequado para se tornar um sinal do poder de Deus no meio do seu povo. E é um pastor, que é o verdadeiro modo de ser rei, que se mostra solícito para com aqueles que lhe foram confiados. Assim, a pequenez é preferida à grandeza, o pastor ao homem de armas, mas o novo soberano não é menos belo por isso […] A escolha de Deus é escolher o pequeno para que, por meio dele, possa fazer grandes coisas; o fraco, para que possa confundir o forte com ele (cf. 1 Coríntios 1:27-29). É uma economia misteriosa que atinge a sua plenitude naquele Messias, prefigurado por Davi, que, como ele, nasce na pequena Belém, e em quem a salvação se realiza definitivamente na total insignificância de uma morte ignominiosa e vivida.” em abandono."
Portanto, esta leitura nos apresenta a necessidade primordial de ouvir a Deus para enxergarmos a realidade em sua profunda verdade . Espiritualmente, somos cegos, necessitamos de iluminação .
2ª leitura (Ef 5,8-14):
O termo 'luz' (φῶς) aparece cinco vezes nesta leitura. É importante porque se aplica aos cristãos convertidos que passaram das trevas para a luz . E eles devem continuar a viver como filhos da luz, cujos frutos são a bondade, a justiça e a verdade. De fato, "a conduta autenticamente cristã é um raio de luz que não apenas julga as trevas, mas as penetra para transformá-las. O discípulo de Cristo é um missionário."
com a sua vida: despertado do sono da morte – tal é a vida batismal –, ele por sua vez desperta as consciências, para que a sua esterilidade se torne fecundidade do bem” 2 .
A conotação batismal do texto é inegável, particularmente o último verso, que seria uma estrofe de um antigo hino batismal que culmina com a promessa que realizará a esperança do catecúmeno: "Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará".
Evangelho (Jo 9,1-41):
O Evangelho começa descrevendo um evento específico: Jesus vê um homem cego de nascença, aplica lama feita com saliva em seus olhos e o envia para se lavar no tanque de Siloé, que significa "Enviado". O cego se lava ali e começa a enxergar. Esse milagre, ou melhor, "sinal", na terminologia joanina, desencadeia uma série de reações e opiniões conflitantes — interpretações — que, em última análise, giram em torno da identidade de Jesus. De fato, Jesus está presente ao longo de toda a narrativa, mas intervém diretamente apenas no início e no fim.
Esta leitura do Evangelho, tal como a do domingo anterior, é cristológica e batismal . No texto mais extenso (o lecionário também oferece uma versão mais curta), revelam-se os passos de uma cristologia ascendente , à medida que Jesus é reconhecido pelo cego primeiro como profeta (v. 17); depois como alguém que vem de Deus (v. 33); e, finalmente, conclui com um ato de fé no Filho do Homem: “Creio, Senhor” (v. 37). Além disso, esta narrativa situa-se no contexto da Festa dos Tabernáculos (Jo 7-10), durante a qual Jesus se proclama “a luz do mundo” (Jo 8,12; 9,5).
O tema batismal , intimamente ligado ao cristológico, é evidente na referência ao Tanque de Siloé e à cura da cegueira. O milagre ocorre não apenas no gesto de Jesus de colocar lama nos olhos (que alguns Padres, devido à presença da lama, remetem a Gênesis 2, atribuindo-lhe o significado de uma nova criação), mas também na lavagem do mensageiro no Tanque de Siloé . Como bem observa G. Zevini : “A realização deste projeto de amor, porém, é colocada nas mãos do homem. Ele pode ou não ir lavar-se no Tanque de Siloé para receber a luz.”
Em resumo, a cura destaca a referência ao Batismo como purificação e iluminação daqueles que creram em Jesus e o aceitaram seguir . Mas a referência cristológica não está ausente, visto que no quarto Evangelho Jesus é frequentemente chamado de enviado pelo Pai.
Notemos também que, tal como aconteceu com a água no domingo passado, aqui também o evangelista João “brinca” com dois níveis de significado na cegueira e na visão . Por um lado, há a cegueira física do homem que nasceu cego, mas que, apesar disso, por causa da sua fé, consegue ver Jesus como aquele que foi enviado por Deus. Por outro lado, há os fariseus que veem fisicamente, mas são cegos espiritualmente porque se recusam a crer em Jesus. De facto, “os responsáveis pelo mundo judaico fecham os olhos ao ensinamento do Mestre, que se manifesta em obras e em palavras, cheios de indignação porque ele se faz Deus […] A luz que veio ao mundo traz consigo um julgamento que está prestes a acontecer: quem pensa que vê permanece no pecado, ao contrário daquele que se sente cego e que, na verdade, se aproxima da luz.”<sup> 5 </sup>
Podemos dizer que o cego, assim como o catecúmeno, deu um passo das trevas para a luz da fé em Cristo, como proclama a segunda leitura. Vale destacar o ato altruísta de Jesus ao curar o cego de nascença, deixando claro que a fé é, antes de tudo, uma dádiva: porque ele recebe a luz, porque é iluminado, ele pode ver/crer em Jesus.
Algumas reflexões:
Este quarto domingo da Quaresma é o Domingo Laetare , o Domingo da Alegria, e é dominado pelo tema da LUZ. A luz é um dos dons fundamentais da existência: é a possibilidade de ver as coisas e de ter direção. Na Bíblia, a luz está especialmente associada a Deus, à Verdade e à Vida; e, em contraste com a luz, as trevas estão associadas ao pecado, à mentira e à morte. Deus cria a luz (Gênesis 1); a luz o envolve como uma veste (Salmo 104:2); é a luz eterna da qual a Sabedoria é um reflexo (Sabedoria 7:26). O nascimento do príncipe messiânico é anunciado em termos de luz (Isaías 9:1). Esse simbolismo já aparece no prólogo de João (João 1:4-5): "Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a venceram."
Mais especificamente no Evangelho de João, o simbolismo da luz serve para expressar tanto a pessoa de Jesus quanto a sua obra; enquanto o termo “trevas” representa o pecado e a incredulidade. “A luz da vida, o conteúdo do plano de Deus (1:4), está encarnada em Jesus, o plano de Deus feito homem (1:14). Assim, ele é a luz do mundo, isto é, a vida da humanidade. Ao dar a sua fidelidade a Jesus e segui-lo, o homem obtém a luz que é vida e escapa das trevas da morte (8:12; 12:36)” 6 .
O Evangelho do último domingo procurou despertar em nós a sede de Deus, revelando Jesus como a fonte de água viva, a nascente suprema onde podemos experimentar plenamente a presença do Pai. O Evangelho deste domingo ensina-nos que o nosso desejo de conhecer a Deus (no sentido bíblico de entrar em comunhão com o que é conhecido) não basta por si só. Precisamos do dom da fé, da iluminação de Deus . Ou, nas palavras do próprio Evangelho: precisamos de Jesus para curar a nossa cegueira; só ele nos pode dar a visão, isto é, a fé.
O cego representa a pessoa que não recebeu a fé, que não consegue ver e, portanto, leva uma vida infeliz. De certa forma, todos nascemos cegos. Apesar do nosso desejo fervoroso de alcançar a Deus, da nossa sede pela água viva, o poder de ver não está ao nosso alcance. Como Moisés no Monte Sinai, pedimos a Deus: “Mostra-me a tua glória” (Êxodo 33:18), ou como o salmista: “Mostra-me os teus caminhos, Senhor” (Salmo 25:4). Ou, como São João da Cruz tão belamente escreve em seu Cântico Espiritual, canto onze: “Revela a tua presença, e que a tua visão e a tua beleza me matem; eis que a doença do amor só se cura com a tua presença e a tua forma”.
Esta é uma súplica em oração a Deus, pois precisamos ser iluminados por Cristo; precisamos do “ colírio da fé ” (Santo Agostinho) para recuperar a visão e poder vê-Lo presente. Precisamos ser lavados na Piscina de Siloé , naquele que foi enviado pelo Pai, Jesus , para participar do Seu Mistério Pascal através do batismo. E essa capacidade de ver traz consigo uma nova maneira de viver, uma nova vida que nasce de uma verdadeira conversão do coração.
E isso só é possível se permitirmos que Cristo nos ilumine e dissipe as trevas em nossos corações. De fato, o Evangelho de João aponta que o drama da história e da vida humana é a aceitação ou a rejeição da LUZ da PALAVRA, que é VIDA para a humanidade (cf. Jo 1,9-13).
O Evangelho também aponta para uma cegueira que é pecado: cegueira como atitude de rejeição obstinada e culpável da luz, personificada pelos fariseus (cf. Jo 3,19-21). Sobre essa cegueira, podemos dizer com G. Thibon : “Não é a luz que falta à nossa visão, mas sim a nossa visão que carece de luz”. Essa cegueira, cuja raiz é o pecado, é produzida pelas nossas paixões e é descrita com precisão na linguagem popular quando se fala dos “cegos pela ira”, dos que vivem “cegos pela ambição”, de alguns amores cegos que “vendem os olhos” e de pessoas “com o olhar turvo”. A graça, a LUZ que é Jesus, vem nos curar dessa cegueira. O Evangelho de hoje antecipa e nos conduz à Vigília Pascal com sua “liturgia da luz”, onde realizaremos o belo gesto que representa a vitória da Luz de Cristo sobre as trevas do pecado. Na nova versão do Rito de Iniciação Cristã de Adultos aprovada para a Argentina (março de 2024), este exorcismo é dito sobre os eleitos: “Pai misericordioso, que concedestes ao homem nascido cego crer em vosso Filho e alcançar, por esta fé, o reino da vossa luz, concedei que estes vossos eleitos sejam libertados dos enganos que os cercam e cegam; fazei com que, firmemente enraizados na verdade, se tornem filhos da luz. Por Jesus Cristo, nosso Senhor.”
Em 1º de novembro de 2025, o Papa Leão XIV declarou São João Henrique Newman Doutor da Igreja e, em sua homilia, lembrou um poema/oração muito conhecido do autor, “Guia-me, Luz Benigna”, que vale a pena citar na íntegra: “Guia-me, luz benevolente. Guia-me, ó Senhor, minha luz, na escuridão que me cerca, guia-me adiante! A noite está escura e estou longe de casa: Guia-me! Orienta meus passos! Não peço que eu veja claramente o horizonte distante: basta-me ir um pouco mais longe. Nem sempre fui assim, nem sempre pedi que me guiasses. Gostava de escolher por mim mesmo e organizar minha vida, mas agora, guia-me! Gostava das luzes deslumbrantes e, desprezando todo o medo, o orgulho guiava minha vontade: Senhor, não te lembres dos anos passados. Por muito tempo a Tua paciência me esperou: certamente me guiarás por desertos e pântanos, sobre montanhas e torrentes, até que a noite dê lugar à aurora e eu... Que a face de Deus Sorria ao amanhecer: Seu rosto, Senhor!
E mais tarde, nessa homilia, o Papa Leão XIV disse: “A vida não se ilumina porque somos ricos, belos ou poderosos. Ela se ilumina quando descobrimos dentro de nós esta verdade: Deus me chamou, tenho uma vocação, tenho uma missão, minha vida serve a algo maior do que eu. Cada criatura tem um papel a desempenhar. A contribuição que cada um tem a oferecer é de valor único, e a tarefa das comunidades educativas é encorajar e valorizar essa contribuição.”
Este domingo é um convite para agradecermos a luz que o Senhor nos deu, nos tirando do reino das trevas e nos conduzindo ao Reino da Luz. Basta recordarmos os momentos de escuridão e confusão que vivenciamos para agradecermos ao Senhor por Sua luz.
PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
Ignorância
Caminhamos por esses caminhos
Ansiando por você, mas sem saber dos seus planos.
Sons, imagens, maravilhas deste mundo
Eles estão nos invadindo sem solução.
E sem compreender os seus mistérios,
Desesperados e cegos, buscamos.
Surdo, cego, tão confuso
Encontramos outros caminhos…
Venha nos curar, nos despertar, venha habitar em nós.
A ignorância é uma arma mortal.
E Tu, Senhor, estás tão perto!
Esse amor reprimido não nasce.
Causa uma ferida que não cicatriza e leva à morte prematura.
Isso prejudica sua saúde e causa hemorragia.
Senhor da Paixão, faça-nos ver
e entender nossa sede, onde saciá-la.
Quem nos perguntará depois como foi?
Que direito eles terão de questioná-lo?
Busca-nos, Amigo e Pastor incansável
Mostre-nos o seu rosto no pão que nos satisfaz.
Prostre-se diante de Ti com total confiança.
Seremos a tua glória e o teu louvor. Amém.
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1 Com a lira e a funda, 43-45. A esta apresentação completa, devemos acrescentar, como faz JL Sicre, a figura do Servo Sofredor de Isaías 53:2-4, que parece desprezível aos olhos dos homens, e ainda assim Deus o escolhe e unge para salvar o seu povo. Ele é uma figura do Messias sofredor, rejeitado e desprezado.
2 G. Zevini - PG Cabra (eds.), Lectio Divina para cada dia do ano. Vol 3 (Verbo Divino; Estella 2001) 243.
3 “A Piscina de Siloé e a cura da cegueira levaram ao uso desta passagem, desde tempos muito antigos, como catequese batismal. Portanto, a leitura litúrgica não enfatiza apenas a descoberta da pessoa de Cristo, mas também o sinal batismal e seu efeito: dar luz; e isso a ponto de os batizados serem chamados de 'iluminados'”, A. Nocent, Celebrando Jesus Cristo III. Quaresma (Sal Terrae; Santander 1980) 112. G. Ravasi, Água e Luz (Sal Terrae; Santander 1991) 146-147, informa-nos que “nas catacumbas romanas existem nada menos que sete afrescos que representam o milagre do cego de nascença em um contexto batismal”. Ele também oferece como evidência dessa interpretação batismal textos de São Justino, Tertuliano e Santo Agostinho; e um ritual batismal do século III. A opinião acadêmica está dividida sobre este assunto, com alguns comentaristas reconhecendo-o como um texto batismal, enquanto outros não. Há autores renomados em ambos os lados. Veja L.H. Rivas, * O Evangelho de João: Introdução, Teologia e Comentário* (San Benito; Buenos Aires, 2005), pp. 295-296.
4 Evangelho segundo São João (Siga-me; Salamanca 1995) 238.
5 G. Zevini, Evangelho segundo São João (Siga-me; Salamanca 1995) 234.235.
6 J. Mateos-J. Barreto, Vocabulário Teológico do Evangelho de João (Cristiandad; Madrid 1980) 179-180. 7 G. Thibon, Nosso Olhar Cego Diante da Luz (Patmos; Madrid 1973) 21.
CUARTO DOMINGO: JESÚS DESPIERTA MI FE PARA QUE PUEDA VER
1a. lectura (1Sam 16,1b.6-7.10-13a):
La narración nos cuenta la unción de David por parte de Samuel, pero notemos de entrada que la iniciativa es toda de Dios, quien será el verdadero protagonista de este relato. Aquí no es el pueblo quien pide un rey, sino Dios quien envía a Samuel con el cuerno de aceite a "Jesé, el de Belén, porque he visto entre sus hijos un rey para mí". El Señor le pide a Samuel que vaya a ofrecer un sacrificio y que invite a Jesé y sus hijos; y entonces ungirá a quien Él le señale. Notemos que ni Samuel ni el "lector" saben quién será el ungido, el elegido; sólo el Señor lo sabe.
El relato se centra ahora en la relación de los hijos de Jesé con Samuel. Según lo que corresponde, primero se presenta Eliab, el primogénito de Jesé. En teoría reúne las dos condiciones para ser rey: es el más importante por ser el primogénito; y es el más imponente físicamente. Por eso Samuel piensa apenas lo ve: "Seguro que el Señor tiene ante él a su ungido" (16,6). Y la respuesta del Señor es: "No te fijes en su aspecto ni en lo elevado de su estatura, porque yo lo he descartado. Dios no mira como mira el hombre; porque el hombre ve las apariencias, pero Dios ve el corazón" (16,7). El sentido de esta frase es claro: los hombres, el profeta Samuel incluido, vemos lo exterior, la apariencia, vemos según nuestros ojos; en cambio Dios ve lo interior, lo verdadero, ve el corazón. El texto deja muy en claro que los criterios de elección de Dios no son iguales a los de los hombres. Y llama la atención que Samuel, el profeta, tampoco sea capaz de ver con los ojos de Dios. En concreto, Eliab no es elegido. Y tampoco los otros seis hijos de Jesé que desfilan ante Samuel. Pero todavía le quedaba a Jesé el hijo menor que no estaba allí sino pastoreando el rebaño (tal vez no estaba allí por no tener edad suficiente para participar en el culto sacrificial; o simplemente para resaltar que no era tenido en cuenta).
Aparece entonces el hijo menor que es descrito como "rubio, de bellos ojos y hermosa presencia". Su aspecto físico contrasta con el de Eliab, y también con el de Saúl pues no parece para nada un guerrero. Ni bien el hijo menor aparece se devela el misterio pues Dios dice a Samuel: "Levántate y úngelo, porque éste es" (16, 12). Samuel lo unge y viene sobre David el Espíritu del Señor.
La elección de David nos enseña la pedagogía de Dios, de la cual no es el único ejemplo. Nos lo explica B. Costacurta1: "Los criterios de Dios son diferentes de los criterios de los hombres, y su ungido no es grande, reputado, llamativo. Por el contrario, es un muchacho pequeño, que precisamente por su pequeñez es idóneo para convertirse en signo del poder de Dios en medio de su pueblo. Y es un pastor, que es el verdadero modo de ser rey, que se muestra solícito hacia aquellos que le son confiados. Así, pues, se prefiere la pequeñez frente a la grandiosidad, el pastor frente al hombre de armas, pero no por ello el nuevo soberano es menos hermoso […] La elección de Dios se fija en el pequeño para poder hacer, a través de él, cosas grandes; en el débil, para poder confundir con él a los fuertes (véase 1Cor 1,27-29). Se trata de una economía misteriosa que llega a plenitud en aquel Mesías, prefigurado por David, que como él nace en la pequeña Belén, y en el que definitivamente se cumple la salvación en la total insignificancia de una muerte infamante y vivida en el abandono".
Por tanto, esta lectura nos presenta la necesidad primaria de escuchar a Dios para poder ver la realidad en su verdad profunda. Espiritualmente somos ciegos necesitados de iluminación.
2a. lectura (Ef 5,8-14):
El término ‘luz’ (φῶς) aparece 5 veces en esta lectura. Es importante porque se aplica a los cristianos convertidos quienes de ser tinieblas pasaron a ser luz. Y deben seguir viviendo como hijos de la luz cuyos frutos son: bondad, justicia y verdad. En efecto, "una conducta auténticamente cristiana es un rayo de luz que no sólo juzga las tinieblas, sino que las penetra para transformarlas. El discípulo de Cristo es misionero
con su vida: despierto del sueño de la muerte – así es la vida bautismal – , despierta a su vez las conciencias, para que su esterilidad se convierta en fecundidad de bien"2.
Es innegable la connotación bautismal del texto, en particular del último versículo que sería una estrofa de un primitivo himno bautismal que culmina con la promesa que colmará la esperanza del catecúmeno: “Despiértate, tú que duermes, levántate de entre los muertos, y Cristo te iluminará”.
Evangelio (Jn 9,1-41):
El evangelio comienza describiendo un hecho concreto y particular: Jesús ve a un hombre, ciego de nacimiento, le unta los ojos con barro hecho con saliva y lo manda a lavarse a la piscina de Siloé, que significa "Enviado". El ciego se lava allí y comienza a ver. Este milagro, o mejor dicho “signo” en la terminología joánica, desata una serie de reacciones y opiniones – interpretaciones - encontradas, que en el fondo giran en torno a la identidad de Jesús. En efecto, Jesús está presente en todo el relato, pero sólo interviene directamente al inicio y al final.
Este evangelio, al igual que el del domingo anterior, es cristológico y bautismal. En el texto largo (el leccionario ofrece también una versión más breve) aparecen los pasos de una cristología ascendente pues Jesús es reconocido por el ciego primero como un profeta (v. 17); luego como alguien que viene de Dios (v. 33) y al final termina con un acto de fe en el Hijo del Hombre: “Creo, Señor” (v. 37). Además, esta narración está ubicada en el contexto de la Fiesta de la Tiendas (Jn 7- 10) durante la cual Jesús se proclama como “luz del mundo” (Jn 8,12; 9,5).
El tema bautismal, íntimamente ligado al cristológico, está patente en la referencia a la piscina de Siloé y en la curación de la ceguera. El milagro no se produce sólo con el gesto de Jesús de ponerle barro en los ojos (y que algunos Padres por la presencia del barro lo remiten a Gn 2 dándole el sentido de una nueva creación); sino con el lavado en la fuente de Siloé, del enviado3. Como bien nota G. Zevini4: “La realización de este proyecto de amor, sin embargo, se pone en las manos del hombre. Él podrá ir a lavarse o no a la piscina de Siloé para adquirir la luz”.
En síntesis, la curación pone de relieve la referencia al Bautismo como purificación e iluminación de quien ha creído y aceptado seguir a Jesús. Pero la referencia cristológica no está ausente puesto que en el cuarto evangelio Jesús es llamado muchas veces el enviado del Padre.
Notemos también que, al igual que el domingo pasado con el agua, también aquí el evangelista Juan "juega" con dos niveles de significación de la ceguera y de la visión. Por un lado, está la ceguera física del ciego de nacimiento, que no obstante por tener fe puede ver en Jesús al enviado de Dios. Por otro están los fariseos que físicamente ven, pero espiritualmente están ciegos pues se cierran a creer en Jesús. En efecto, “los responsables del mundo judío cierran los ojos a la enseñanza del Maestro hecha con obras y con palabras, llenos de indignación porque se hace Dios […] La luz que ha venido al mundo trae un juicio que está a punto de celebrarse: el que cree ver permanece en pecado, a diferencia del que se siente ciego y que realmente es el que se acerca a la luz”5.
Podemos decir que el ciego, como el catecúmeno, ha hecho un paso de las tinieblas a la Luz de la fe en Cristo, tal como lo proclamaba la segunda lectura. Es para resaltar la iniciativa gratuita de Jesús de curar al ciego de nacimiento dejando en claro que la fe es en primer lugar un don: porque recibe la luz, porque es iluminado, puede ver/creer en Jesús.
Algunas reflexiones:
Este cuarto domingo de cuaresma es el domingo laetare, de la alegría, y está dominado por el tema de la LUZ. La luz es uno de los dones fundamentales de la existencia: es posibilidad de ver las cosas y de estar orientado. De modo especial en la Biblia la luz está relacionada con Dios, con la Verdad y con la Vida; y en contraposición a la luz, las tinieblas están relacionadas con el pecado, la mentira y la muerte. Dios crea la luz (Gn 1); la luz lo envuelve como un manto (Sl 104,2); es la luz eterna de la que es reflejo la Sabiduría (Sab 7,26). El nacimiento del príncipe mesiánico se anuncia en términos de luz (Is 9,1). Esta simbología aparece ya en el prólogo de Juan (Jn 1,4-5): "En ella estaba la vida y la vida era la luz de los hombres, y la luz brilla en las tinieblas, y las tinieblas no la vencieron".
Más puntualmente en el evangelio de Juan el simbolismo de la luz sirve para expresar tanto la persona de Jesús como su obra; mientras el término “tinieblas” representa al pecado y a la incredulidad. “La luz-vida, contenido del proyecto de Dios (1,4), se encarna en Jesús, proyecto de Dios hecho hombre (1,14). Así, es él la luz del mundo, es decir, la vida de la humanidad. Al dar su adhesión a Jesús y seguirlo, el hombre obtiene la luz que es vida y escapa de la tiniebla-muerte (8,12; 12,36)”6.
El evangelio del domingo anterior buscaba despertar en nosotros la sed de Dios al mismo tiempo que se nos revelaba a Jesús como fuente del agua viva, definitivo pozo donde podemos encontrar plenamente la manifestación del Padre. El evangelio de este domingo nos enseña que nuestro deseo de conocer a Dios (en sentido bíblico de entrar en comunión con lo conocido) por sí solo no alcanza. Necesitamos el DON de la FE, la iluminación de Dios. O con las palabras del mismo evangelio: necesitamos que Jesús nos cure la ceguera, sólo él puede permitirnos ver, o sea, creer.
El ciego representa al hombre que no ha recibido la fe, que no puede ver y por eso lleva una vida infeliz. En cierto sentido, todos somos ciegos de nacimiento. A pesar de nuestro vivo deseo de alcanzar a Dios, de nuestra sed del agua viva, no está en nuestras manos el poder ver. Como Moisés en el monte Sinaí le pedimos a Dios: “Por favor, muéstrame tu gloria” (Ex 33,18) o como el salmista: “muéstrame Señor tus caminos” (Sal 25,4). O con la exquisita poesía de San Juan de la Cruz en su Cántico Espiritual, canción 11: “Descubre tu presencia, y máteme tu vista y hermosura; mira que la dolencia de amor, que no se cura sino con la presencia y la figura”.
Se trata de una súplica orante a Dios porque necesitamos ser iluminados por Cristo; necesitamos el “colirio de la fe” (San Agustín) para recuperar la vista y poder verlo presente. Necesitamos lavarnos en la piscina de Siloé, del Enviado del Padre que es Jesús, participar en su misterio pascual por medio del bautismo. Y esta posibilidad de ver conlleva un nuevo modo de vivir, una vida nueva fruto de una conversión verdadera, de corazón.
Y esto sólo es posible si permitimos que Cristo nos ilumine y disipe las tinieblas de nuestro corazón. Justamente el evangelio de Juan nos señala que el drama de la historia y de la vida humana es la aceptación o el rechazo de la LUZ del VERBO que es VIDA de los hombres (cf. Jn 1,9-13).
Y también nos señala el evangelio que hay una ceguera que es pecado: la ceguera como actitud de rechazo obstinado y culpable de la luz que encarnan los fariseos (cf. Jn 3,19-21). Sobre esta ceguera podemos decir con G. Thibon7: "No es la luz la que falta a nuestra mirada, sino nuestra mirada la que falta a la luz". Esta ceguera, cuya raíz fontal es el pecado, es producida por nuestras pasiones y la describe certeramente el lenguaje popular cuando habla de los “ciegos de ira”, de los que viven “cegados por la ambición”, de algunos amores que son ciegos y “ponen una venda sobre los ojos”, de las personas “que tienen una mirada turbia”. La gracia, la LUZ que es Jesús, viene a curarnos de esta ceguera. El evangelio de hoy nos anticipa y nos orienta hacia la vigilia de Pascua con su “liturgia de la luz” donde haremos el hermoso gesto que representa la victoria de la Luz de Cristo sobre las tinieblas del pecado. En la nueva versión del Ritual de Iniciación Cristiana de Adultos aprobada para Argentina (marzo 2024) se dice sobre los electos este exorcismo: “Padre clementísimo, que concediste al ciego de nacimiento creer en tu Hijo, y llegar, por esta fe, al reino de tu luz, concede que estos electos tuyos sean liberados de los engaños que los rodean y ciegan; haz que, arraigados firmemente en la verdad, se conviertan en hijos de la luz. Por Jesucristo, nuestro Señor”.
El Papa León XIV declaró el 1° de noviembre de 2025 a San John Henry Newman como doctor de la Iglesia y en la homilía recordó una conocida poesía/oración suya “Guíame luz amable! (“Lead, Kindly Light”) que vale la pena citar entera: «Guíame, bondadosa luz. Guíame, Señor, mi luz, en las tinieblas que me rodean, ¡guíame hacia delante! La noche es oscura y estoy lejos de casa: ¡Guíame Tú! ¡Dirige Tú mis pasos! No te pido ver claramente el horizonte lejano: me basta con avanzar un poco. No siempre he sido así, no siempre Te pedí que me guiases Tú. Me gustaba elegir yo mismo y organizar mi vida pero ahora, ¡guíame Tú! Me gustaban las luces deslumbrantes y, despreciando todo temor, el orgullo guiaba mi voluntad: Señor, no recuerdes los años pasados. Durante mucho tiempo tu paciencia me ha esperado: sin duda, Tú me guiarás por desiertos y pantanos, por montes y torrentes hasta que la noche dé paso al amanecer y me sonría al alba el rostro de Dios: ¡tu Rostro, Señor!».
Y más adelante decía el Papa León XIV en esa homilía: “La vida se ilumina no porque seamos ricos, bellos o poderosos. Se ilumina cuando uno descubre en su interior esta verdad: Dios me ha llamado, tengo una vocación, tengo una misión, mi vida sirve para algo más grande que yo mismo. Cada criatura tiene un papel que desempeñar. La contribución que cada uno tiene para ofrecer es de un valor único, y la tarea de las comunidades educativas es alentar y valorar esa contribución”.
Este domingo es una invitación para agradecer la iluminación que el Señor nos ha dado, nos ha sacado del dominio de las tinieblas y nos ha hecho entrar en el Reino de la luz. Basta recordar los momentos de oscuridad y confusión que hemos pasado para agradecer al Señor su LUZ.
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
Ignorancia
Vamos andando por estos caminos
Deseosos de ti y sin conocer tus designios
Sonidos, imágenes, maravillas de este mundo
nos invaden sin remedio
Y sin entender tus misterios,
frenéticos y enceguecidos, buscamos.
Sordos, ciegos, tan confusos
encontramos otros rumbos…
Ven a sanarnos, a despertarnos, ven a morar.
La ignorancia es un arma mortal
¡Y Tú Señor, tan cerca estás!
Este amor reprimido no nace
Se hace herida que no sana y muerte temprana,
rechaza tu salud y se desangra.
Señor de la Pasión, haznos ver
y comprender nuestra sed, adónde calmarla.
¿Quién nos preguntará después cómo fue,
qué derecho tendrá a cuestionarla?
Búscanos, incansable Amigo y Pastor
muéstranos tu rostro en el pan que nos sacia.
Postrados ante ti con toda confianza
seremos tu Gloria y alabanza. Amén.
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1 Con la cítara y con la honda, 43-45. A esta completa presentación faltaría añadirle, como hace J. L. Sicre, la figura del Siervo sufriente de Is 53,2-4 que a los ojos de los hombres aparece como despreciable y, sin embargo, Dios lo elige y unge para salvar a su pueblo. Es figura del Mesías sufriente, rechazado y despreciado.
2 G. Zevini - P. G. Cabra (eds.), Lectio Divina para cada día del año. Vol 3 (Verbo Divino; Estella 2001) 243.
3“La piscina de Siloé y la curación de la ceguera han hecho que se utilizara este pasaje, y ello ya desde época muy antigua, como catequesis bautismal. No es, por lo tanto, únicamente sobre el descubrimiento de la persona de Cristo sobre lo que insiste la lectura litúrgica, sino también sobre el signo bautismal y su efecto: dar luz; y esto hasta el punto de que a los bautizados se les apellidará ‘iluminados’”, A. Nocent, Celebrar a Jesucristo III. Cuaresma (Sal Terrae; Santander 1980) 112. G. Ravasi, El agua y la luz (Sal Terrae; Santander 1991) 146-147, nos informa que "en las catacumbas romanas hay hasta siete frescos que representan el milagro del ciego de nacimiento en clave bautismal". También ofrece como testimonios de esta interpretación bautismal unos textos de San Justino, Tertuliano y San Agustín; y un ritual de bautismo del s. III. La opinión de los exegetas está dividida al respecto pues algunos comentaristas lo reconocen como un texto bautismal mientras que otros no. En ambos lados hay autores de renombre. Pueden verse en L. H. Rivas, El Evangelio de Juan. Introducción. Teología. Comentario (San Benito; Bs. As. 2005) 295-296.
4 Evangelio según san Juan (Sígueme; Salamanca 1995) 238.
5 G. Zevini, Evangelio según san Juan (Sígueme; Salamanca 1995) 234.235.
6J. Mateos-J. Barreto, Vocabulario teológico del evangelio de Juan (Cristiandad; Madrid 1980) 179-180. 7 G. Thibon, Nuestra mirada ciega ante la luz (Patmos; Madrid 1973) 21.