24/05/2026
Primeira Leitura: Atos 2,1-11
Salmo Responsorial 103(104)R- Enviai o vosso Espírito, Senhor, / e da terra toda a face renovai.
Segunda Leitura: 1 Coríntios 12,3b-7.12-13
Evangelho: João 20,19-23 ou João 14,15-16.23b-26
Proclamação do evangelho de Jesus Cristo segundo João (20,19-23) – 19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”. – Palavra da salvação.
Jo 20,19-23
Jesus Cristo nos revelou o Espírito Santo. Em todo o AT encontramos menções vagas do “Espírito de Deus”. No Gênesis, por exemplo, encontramos a alusão do “espírito de Deus que pairava sobre as águas” (Gn 1,2). Em muitas outras passagens do AT encontramos a presença do Espírito de Deus. Em todas elas, porém, o espírito nunca é mencionado como pessoa, mas sempre como um atributo de Deus. De fato, Deus é espírito.
Jesus, no entanto, sempre falou de si como Filho de Deus, pessoa distinta do Pai e nos revelou o Espírito Santo também como pessoa distinta do Pai e do Filho.
As relações entre Jesus e o Espírito são sempre de distinção e de comunhão. Eles estão sempre unidos e vivem com o Pai a mesma vida de amor: “Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, para vo-lo anunciar. Tudo quanto o Pai tem, é meu. Por isso, eu vos digo que o Espírito receberá do que é meu, e vos anunciará” (Jo 16,14-15).
Não há, portanto, cristãos de Jesus e outros do Espírito Santo. Os cristãos são sempre de Jesus e do Espírito Santo, e também do Pai. Quando uma pessoa recebe o Espírito Santo, ao mesmo tempo se torna uma pessoa do Evangelho: é guiado ao conhecimento pleno de Jesus (Jo 16,13: Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará a toda a verdade), e se torna anunciador de Cristo em todas as línguas (At 2,4).
O Espírito Santo age a fim de que seja formado em nós o próprio Jesus. Em Maria encontramos o modelo perfeito dessa ação do Espírito Santo em nós. Maria gerou Jesus por obra do Espírito Santo. Assim também, quando o Espírito age em nós, nos faz renascer como nova criatura, com os sentimentos, os pensamentos e as ações do próprio Jesus. Obra maravilhosa do Espírito em Maria na encarnação! Obra maravilhosa do Espírito em nossa santificação!
É fascinante tomar consciência de que essa obra do Espírito se realiza também naquelas pessoas de boa vontade que pertencem a outras tradições religiosas. Mesmo que a pessoa não conheça o Cristo, o Espírito pode agir para gerar nela Aquele que nem mesmo sabe nomear.
Pentecostes – Jo 20,19-23 – Ano A – 24-05-26
“Veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde
eles se encontravam” (At 2,2).
A festa de Pentecostes está situada no contexto da Páscoa; mais ainda, é a culminação de todo o tempo pascal. A primitiva comunidade cristã sentiu que tudo o que estava acontecendo com ela era obra do Espírito. Tudo o que o Espírito tinha realizado em Jesus, estava agora realizando na comunidade e em cada um dos seus seguidores.
Assim nos recorda o evangelho deste dia: a comunidade dos discípulos se encontrava desconcertada, temerosa e insegura, depois da morte de Jesus: numa casa com as portas fechadas. É nesse ambiente pesado que o Ressuscitado se faz presente, “sopra” o dom do seu Espírito. Trata-se do Paráclito, prometido por Jesus, que se revela como “Restaurador de sonhos”, “gerador de resistências”, “mobilizador de vidas” ...
Provavelmente, também nós hoje podemos experimentar algo similar. A impotência, o medo, o desconcerto e a incerteza nos atravessam, tanto no nível pessoal como comunitário, situados no contexto global de um mundo violento, em guerra contra a vida. São outras tantas feridas abertas, presentes em nosso contexto, que é preciso deixar o Espírito Sanador transitar por elas, pacificando-as, curando-as... Ele se manifesta como a pequena brasa que se oculta no rescaldo da destruição. A chuva apaga a chama, o vento dissipa a fumaça, mas debaixo de tudo continua presente uma brasa acesa, inextinguível. O Espírito é Aquele que sustenta o frágil alento de vida no império da morte.
São outras tantas feridas abertas, presentes em nosso contexto, que é preciso deixar o Espírito Sanador transitar por elas, pacificando-as, curando-as... Ele se manifesta como a pequena brasa que se oculta no rescaldo da destruição – Adroaldo Palaoro
Também para cada um de nós, celebrar Pentecostes significa descobrir a presença do Deus-Espírito em nosso interior e deixá-lo reacender a chama escondida nos escombros das feridas, dos fracassos, das dores... Pentecostes permanente significa abrir nossa casa interior e deixar que o Espírito circule livremente, despertando o melhor em cada um de nós.
Inicialmente, para o povo judeu, Pentecostes era uma festa para dar graças a Deus pela colheita, ou seja, pela Vida. Podemos dar graças pelo Espírito que nos habita sempre, tomar consciência de sua presença e de sua ação contínua em nossas vidas. O Espírito animou e orientou sempre a vida de Jesus de Nazaré: sua entrega aos outros, seu anúncio de uma sociedade diferente e fraterna, seus chamados ao amor...
Quando Jesus sentiu que a hora de sua morte se aproximava, convidou seus amigos e amigas a receberem o Espírito que Ele lhes enviava com uma nova força. Esse Espírito que já os habitava, devia fazer-se forte neles e orientar-lhes a vida em ausência física de seu Mestre e suas palavras.
Os discípulos, angustiados pela dor, sentiram, alguns dias depois em meio ao luto, que essa presença de Luz, de Calor e de Vida lhes fazia arder seus corações e os chamava a uma nova missão: levar a mensagem evangélica a todos os rincões da terra.
A celebração de Pentecostes não pode se reduzir a um simples ritual, uma noite de tochas, velas, cantos. Este ritual só adquire todo seu sentido na medida em que ilumina nossa vida diária, nossas relações, projetos e decisões. Por isso, o tempo de Pentecostes é um convite a abrir espaço em nossas vivências e atitudes à Energia divina: o Espírito que nos chama à unidade, que nos convida ao amor, que nos motiva à entrega. É necessário deixar Pentecostes acontecer todos os dias, em cada momento, diante de cada decisão.
O tempo de Pentecostes é um convite a abrir espaço em nossas vivências e atitudes à Energia divina: o Espírito que nos chama à unidade, que nos convida ao amor, que nos motiva à entrega – Adroaldo Palaoro
Esse Espírito se revela como Sabedoria que deve sempre acompanhar nossas pequenas ou grandes opções de vida, tornando-as mais oblativas, descentradas e comprometidas com a transformação da realidade. Mas, a sabedoria só pode chegar aos corações que albergam a humildade, a busca, o desejo permanente de alcançar novas metas e buscar novas sendas. O Espírito não deixa ouvir sua voz em meio ao consumismo, aos ruídos, às buscas de satisfações periféricas... A Sabedoria de Deus, sua Energia e Vento, nos fala no silêncio, na pergunta que cada situação nos faz, em meio à compaixão e às entranhas de misericórdia.
Dar graças ao Espírito por sua presença inspiradora e provocativa em nós, é assumir a vida a partir de seus critérios: buscar a profundidade de nós mesmos, trabalhar em prol da unidade essencial que torna mais humanos, construir projetos de irmandade universal, de acolhida e encontro, fazer do ágape nosso horizonte último... Pentecostes só pode ser uma festa na Assembleia cristã se essa mesma assembleia busca atualizar em suas rotas as palavras e os atos do Mestre Jesus da Galileia. E isto em meio a um mundo que destrói a Casa Comum, que explora os mais pobres, que alimenta guerras que destroem massivamente, um mundo que se move por entre as violências, ódios, mentiras, intolerâncias...
A assembleia cristã só pode celebrar Pentecostes quando a Vida de todo ser sobre a terra passa a ser o centro de suas preocupações e práticas diárias.
Sem o Espírito de Jesus, a Igreja é barro sem vida: uma comunidade incapaz de introduzir esperança, consolo e vida no mundo. Ela pode pronunciar palavras sublimas sem comunicar o alento de Deus aos corações; pode falar com segurança e firmeza sem alimentar a fé das pessoas. De onde vai tirar esperança se não é do alento de Jesus? Como vai defender-se da morte sem o Espírito do Ressuscitado?
Sem o Espírito de Jesus, a Igreja é barro sem vida: uma comunidade incapaz de introduzir esperança, consolo e vida no mundo – Adroaldo Palaoro
Sem o Espírito criador de Jesus podemos acabar vivendo em uma Igreja que se fecha a toda renovação, não consegue sonhar grandes causas, atrofia-se numa liturgia estéril e repetitiva; sem o Espírito, o mais seguro é viver uma religião estática e controlada, que mude o menos possível; o que é recebido de outros tempos, petrifica-se e adquire valor perene; as novas gerações acabam celebrando sua fé vacilante com a linguagem e os ritos de outrora; os caminhos já estão demarcados antecipadamente e mata-se a possibilidade do novo.
No final de seu evangelho, João descreve uma cena inspiradora, no momento do encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado. Segundo seu relato, o nascimento da Igreja é uma “nova criação”. Ao enviar seus discípulos, Jesus “sopra seu alento sobre eles e lhes diz: recebei o Espírito Santo”.
E esse Espírito “soprado” pelo Ressuscitado atua em nós e através de nós. Somos chamados a viver em contínuo Pentecostes. Alguns sinais de sua presença insinuante e inspiradora: quando alguém cai e é capaz de levantar-se; quando os excluídos sentem o renascer da esperança; quando o perdão tem a última palavra; quando o solitário encontra alguém que o escute; Ele se visibiliza no amor oblativo que não exige nada em troca; revela-se presente em meio à amizade, a alegria e o prazer de estar com os outros; deixa-se “ver” quando calam as palavras e falam os abraços; sorri quando deixamos ir embora o rancor e as velhas feridas; é mestre que nos ensina a acolher-nos como frágeis e limitados; é nosso apoio em meio ao medo e ao conflito; é fortaleza quando nos levantamos contra a injustiça...
O Espírito do Ressuscitado não é patrimônio de nenhuma religião; Ele está para além de toda religião, e continuará soprando, animando a vida o infundindo espiritualidade mesmo depois que todas as religiões, com suas crenças e doutrinas, ritos e normas, hierarquias e instituições, desaparecerem.
Alguns sinais de sua presença insinuante e inspiradora: quando alguém cai e é capaz de levantar-se; quando os excluídos sentem o renascer da esperança; quando o perdão tem a última palavra; quando o solitário encontra alguém que o escute; Ele se visibiliza no amor oblativo que não exige nada em troca – Adroaldo Palaoro
O Espírito não é confessional, não está ligado a nenhuma instituição religiosa, e menos ainda a nenhum privilégio de algum grupo religioso. O Espírito exige que as religiões abandonem suas pretensões de verdade, de poder e de domínio. Não há mais verdade nem mais bondade dentro que fora das religiões; não há mais bem-aventuranças de Jesus dentro que fora das igrejas cristãs.
Torrentes de novos carismas emergem por todos os poros da humanidade; é o mesmo Espírito que os desperta, que está por detrás de cada um deles, fazendo com que não sejam abortados, mas que sejam cuidados, alimentados, até florescer totalmente.
O Espírito é o mesmo em tudo e em todos, e nos impulsiona para a mesma meta. Uma maior humanização será a manifestação de sua presença; o maior compromisso com os demais é a melhor prova de que alguém está se deixando conduzir pelo mesmo Espírito de Jesus.
Para meditar na oração:
- Viva a energia divina de Pentecostes ao longo deste ano; não apague a brasa interior com complexos, medos, resistências, petrificações, sentimentos doentios...
- Abra portas e janelas de seu interior, para que a “Ruah” de Deus circule livremente, trazendo um novo alento, despertando nova criatividade, rompendo com o rotineiro, ampliando mente e coração...
Neste domingo celebramos a festa que nos convida a renovar nossa vida, o espírito de nossas comunidades e o ímpeto de nossa Igreja a partir do mais profundo de nós. É um dia “solene”, o que significa algo cerimonial, grandioso; expressões que tentam descrever este dia em que celebramos o Espírito Santo. É uma das festas que não pode passar despercebida em nossa vida e muito menos na vida das comunidades.
Neste domingo celebramos a festa que nos convida a renovar nossa vida, o espírito de nossas comunidades e o ímpeto de nossa Igreja a partir do mais profundo de nós – Ana Casarotti
O texto nos convida a viver este dia junto com os discípulos:
“Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana”
No Evangelho de João, os acontecimentos não se limitam a uma cronologia externa: cada hora e cada dia carregam um sentido que ultrapassa o tempo histórico e nos convidam a entrar simbolicamente nesse “momento”. A primeira semana culmina nas bodas de Caná, onde diferentes convites para seguir Jesus se entrelaçam. A última semana começa com a unção em Betânia, seis dias antes da Páscoa, como prenúncio da entrega. Hoje, porém, estamos diante do primeiro dia de uma semana sem fim. Mas esse dia já se encontra envolto pela sombra: o texto nos mostra com clareza que as portas estão fechadas, trancadas pelo medo dos judeus.
“…estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam”
A comunidade que caminhou com Jesus, que partilhou com Ele a última Páscoa, que o seguiu à distância até a cruz e que se alegrou ao ver o túmulo vazio, hoje se encontra fechada em si mesma, dominada pelo medo. Os evangelhos não escondem essa realidade: narram com liberdade e transparência os sentimentos das primeiras comunidades, mesmo após a ressurreição. Elas têm medo, não sabem o que fazer, e justamente por isso necessitam da presença viva de Jesus. São minoria em vilas e cidades marcadas pelo poder romano e por uma tradição religiosa que o condenou à morte: porque curava no sábado, porque anunciava um reino para os pobres e simples, porque dialogava com uma mulher acusada de adultério. Essas atitudes provocaram contínuas acusações até que sacerdotes e fariseus decidiram matá-lo.
No final do século I, as comunidades viviam cercadas pelo medo. A noite parecia envolver seus passos, e já não havia mais testemunhas oculares: aqueles que tinham estado com Jesus, os que O tinham visto e ouvido já não estavam mais entre eles. E a Boa Nova se espalhava por diversos lugares, encorajando muitos a seguir esse Caminho, mas ao mesmo tempo crescia a memória dolorosa dos martírios de discípulos e discípulas.
Ser fiel significava enfrentar riscos concretos: a morte, o afastamento da família, a exclusão dos grupos sociais, a solidão que se misturava com a alegria de ter conhecido Jesus. Nesse horizonte de fragilidade e coragem, tornava-se vital a certeza da presença contínua e permanente do Ressuscitado. Assim, mesmo em meio ao medo e à noite, a comunidade descobria que não caminhava sozinha: o Ressuscitado permanecia vivo entre eles, abrindo espaço para que a esperança florescesse e a fé se tornasse testemunho.
Ele era o consolo que sustentava, a força que animava, a companhia que não abandonava.
Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”
Jesus entra na comunidade tomada pelo medo e se coloca no meio dela, retomando o centro de suas vidas. Seu olhar os atrai novamente, devolvendo-lhes confiança. Diante das dificuldades e da incerteza, Ele se faz presença viva e lhes entrega palavras de esperança: dá-lhes a sua Paz, que não é ausência de conflito, mas força que sustenta e abre caminhos.
“...soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo”
Ele sopra, e o vento se torna vida. O ar novo invade a comunidade, e suas palavras se transformam em Espírito. Mas para receber esse sopro é preciso coragem: não esconder o medo, não mascarar a incerteza, não reduzir a fé a um ritual repetido. Portas fechadas não deixam o Espírito entrar. Só quando Jesus ocupa o centro, só quando deixamos que sua novidade penetre nossos hábitos, o sopro se torna presença que recria.
Jesus sopra sobre eles e os enche de um ar novo, que ganha vida em suas palavras e se torna dom: o Espírito. O Evangelho nos mostra que há certas atitudes necessárias para acolher esse Espírito. A primeira é não mascarar a incerteza, mas reconhecê-la com humildade: seja o medo, a incerteza ou, em nossa cultura, não reduzir a fé a um ritual repetido ou um recurso diante das dificuldades. Quando a fé se reduz a costume, as portas permanecem fechadas para a novidade. É preciso deixar que Jesus volte a ocupar o centro, que habite nossos medos e nossos hábitos, sem condições.
Para receber esse sopro é preciso coragem: não esconder o medo, não mascarar a incerteza, não reduzir a fé a um ritual repetido. Portas fechadas não deixam o Espírito entrar – Ana Casarotti
O Papa Francisco insistia constantemente nessa realidade e convidava a refletir sobre isso: "Nas nossas comunidades arde o fogo do Espírito, a paixão pela oração e pela caridade, a alegria da fé, ou arrastamo-nos no cansaço e no hábito?", questionou o Papa, recordando que a fé não é uma "canção de ninar" (no original italiano, ninna nanna) que nos embala para nos fazer adormecer” “A fé não é uma cantiga de ninar que nos embala e nos faz adormecer. A fé verdadeira é um fogo”, diz o Papa Francisco.
Nesta festa de Pentecostes, somos convidados a permitir que Jesus volte a ser o centro de nossas vidas. Ele entra, se coloca no meio e nos oferece sua Paz, que consola e fortalece. Essa experiência de encontro — ver, reconhecer, tocar, ouvir — gera alegria e prepara para receber o Espírito Santo. Ele é descrito como vento que sopra sobre uma comunidade que se deixa renovar. Mesmo em sua fragilidade, ela pode acolher o novo que Cristo deseja realizar, desde que permaneça aberta à sua presença.
Pentecostes não é apenas mais uma data no calendário litúrgico: é a Festa do Espírito que nos habita, que nos impulsiona e até nos “incomoda”, porque é a vida do Pai que deseja permanecer em cada pessoa. Ele cura feridas, encoraja os desesperos e convida à mudança. O Espírito Santo sopra sobre uma comunidade reunida e necessitada, trazendo unidade e paz, abrindo caminhos de criatividade e novidade.
Pentecostes não é apenas mais uma data no calendário litúrgico: é a Festa do Espírito que nos habita, que nos impulsiona e até nos “incomoda”, porque é a vida do Pai que deseja permanecer em cada pessoa – Ana Casarotti
Como cristãos, não podemos permanecer de portas fechadas. Somos chamados a sair, a enfrentar o mundo real que nos cerca, marcado pela dureza da violência, pelos avanços que transformam a vida e também pela desumanização que tantas vezes nos ameaça. É nesse cenário que nossa missão se torna clara: comunicar que Jesus está vivo, que sua presença continua a pulsar no coração da história, e que a morte não tem a última palavra.
Junto com o Papa Prevost pedimos o Espirito Santo que nos conceda: "estar vigilantes em relação ao desenvolvimento e à aplicação da inteligência artificial nas esferas militar e civil, para que ela não prive as escolhas humanas da responsabilidade e agrave a tragédia dos conflitos”.
Oração
Luz
Não nos chamas
a iluminar as sombras
com frágeis velas
protegidas dos ventos
com as palmas da mão,
nem a ser puros espelhos
que refletem luzes alheias,
cotizadas estrelas
dependentes de outros sois,
que como amos da noite
fazem brilhar as superfícies
com reflexos passageiros
ao seu bel prazer.
Tu nos ofereces
ser luz desde dentro, (Mt 5,14)
corpos acesos
com teu fogo inextinguível
na medula do osso (Jr 20,9)
sarças ardentes
nas solidões do deserto
que buscam o futuro (Ex 3,2)
rescaldo de lar
que congrega os amigos
compartilhando pão e peixes (Jo 21,9)
ou relâmpago profético
que risque a noite
tão dona da morte.
Tu nos ofereces
ser luz do povo (Is 42,6)
fogueiras de pentecostes
na persistente combustão
de nossos dias
acesos por teu espírito,
ser luz em ti,
que és a luz,
fundido inseparavelmente
nosso fogo com teu fogo.
Benjamin Gonzalez Buelta
Salmos para sentir e saborear as coisas internamente
João cuidou muito da cena em que Jesus vai confiar aos Seus discípulos a Sua missão. Quer deixar bem claro o que é o essencial. Jesus está no centro da comunidade, enchendo todos com a Sua paz e alegria. Mas aos discípulos espera-os uma missão. Jesus não os convocou apenas para O apreciar, mas para O tornar presente no mundo.
Jesus «envia-os». Não lhes diz em concreto a quem devem ir, que devem fazer ou como devem agir: «Como o Pai me enviou, assim também vos envio». A sua tarefa é a mesma de Jesus. Não têm outra: a que Jesus recebeu do Pai. Têm de ser no mundo o que Ele foi.
Já viram a quem se aproximou, como tratou os mais desamparados, como levou para a frente o Seu projeto de humanizar a vida, como semeou gestos de libertação e de perdão. As feridas das Suas mãos e do Seu lado recordam-lhes a Sua entrega total. Jesus envia-os agora para que «reproduzam» a Sua presença entre as pessoas.
Mas sabe que os Seus discípulos são frágeis. Mais de uma vez ficou surpreendido pela sua «pouca fé». Necessitam do Seu próprio Espírito para cumprir a sua missão. Por isso se dispõe a fazer com eles um gesto muito especial. Não lhes impõe as mãos, nem os abençoa, como fazia com os doentes e os pequenos: «Exala o seu alento sobre eles e diz: Recebei o Espírito Santo».
O gesto de Jesus tem uma força que nem sempre sabemos captar. Segundo a tradição bíblica, Deus modelou Adão com «barro»; depois soprou sobre ele o Seu «sopro de vida»; e aquele barro converteu-se em «vida». Esse é o ser humano: um pouco de barro alentado pelo Espírito de Deus. E isso será sempre a Igreja: barro alentado pelo Espírito de Jesus.
Crentes frágeis e de fé pequena: cristãos da barro, teólogos da barro, sacerdotes e bispos de barro, comunidades da barro… Somente o Espírito de Jesus nos converte em Igreja viva. As áreas em que o Seu Espírito não é bem-vindo ficam «mortas». Fazem mal a todos nós, pois impedem de atualizar a Sua presença viva entre nós. Muitos não podem capturar em nós a paz, a alegria e a vida renovada por Cristo. Não devemos batizar apenas com água, mas infundir o Espírito de Jesus. Não só devemos falar de amor, mas também amar pessoas como Ele.
Depois de celebrar a Ascensão do Senhor a Igreja se reúne neste domingo para fazer memória do acontecimento de Pentecostes. Para compreender melhor o significado desta festa é preciso conhecer sua origem bíblica. Num primeiro momento nasceu como uma festa de ação de graças, no tempo de recolher a colheita. Cinquenta dias depois de recolher os primeiros frutos da colheita, ofereciam-se a Deus as primícias do trabalho.
De agrária converte-se logo numa festa histórica que lembra a promulgação da Lei no Sinai. Celebrava-se o aniversário da Aliança de Deus com Moisés cinquenta dias depois da saída do Egito, do êxodo libertador, e o povo judeu renovava os compromissos da Aliança. Jerusalém se enchia de pessoas vindas para celebrar a festividade de todas as partes.
No livro dos Atos dos Apóstolos narra-se a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, quando todos os cristãos estavam reunidos num mesmo lugar e “todos ficaram repletos do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem”. Descreve-se assim a presença do Espírito Santo nesta data, que os congrega em oração e lhes concede expressar-se de forma diversa para serem entendidos/as nas diferentes culturas.
“Ao anoitecer desse dia estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus”, assim inicia-se o trecho do evangelho que meditamos hoje. Os discípulos reunidos, com medo, temorosos numa cidade cheia de pessoas, sem saber o que fazer. Eles já receberam a hostilidade dos judeus que culminou com a morte de Jesus! Jerusalém está cheio de crentes que chegam para a festividade.
O medo encerra os/as discípulos/as num espaço reservado, possivelmente procurando que ninguém saiba que esse grupo está reunido nesse espaço. Jesus já não está mais com eles. O Ressuscitado apareceu no meio deles, mas agora estão sozinhos, com uma promessa que ressoa no seu interior e possivelmente com muitas dúvidas, incertezas. A reação é ficar confinados, quase encarcerados pelo medo, como destaca o evangelista. Um medo que se apropria da comunidade e a impede de sair para fazer frente às dificuldades e comunicar assim a Boa Notícia de Jesus Ressuscitado. Um medo que se transforma em fraqueza e até covardia.
Podemos perguntar-nos: temos medo? O medo aparece com diferentes formas e cores, mas hoje há uma enfermidade, até o momento desconhecida, que atinge o mundo inteiro sem distinção de nível social, econômico ou cultural e gera medo. Um temor que permeia a sociedade toda, tanto pela possibilidade de contágio como pelas consequências que isso pode trazer. Neste momento crucial da nossa sociedade o medo pode ser um fator que nos fecha em nós mesmos, na nossa própria segurança, sem importar as pessoas ou os pequenos grupos que estão ao nosso redor.
Ou também pode ser, como descreve Pietro Parolin, um tempo “destinado a ter consequências relevantes em nossas vidas. E continua dizendo: “Somos colocados diante da nossa fragilidade e da nossa vulnerabilidade. Damo-nos conta de que não somos criadores, mas pobres criaturas, que existem porque Alguém lhes dá a vida a cada instante. Não somos seus donos absolutos. Basta uma qualquer coisa, um inimigo misterioso e invisível, para fazer-nos sofrer, para fazer-nos adoecer gravemente, para fazer-nos morrer. Reencontramo-nos pequenos, inseguros, indefesos, necessitados de auxílio.” Texto completo aqui.
E “Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: ‘A paz esteja com vocês’”.
Jesus entra na nossa vida para dar-nos em primeiro lugar sua paz e renovar nossa vida e a vida da nossa sociedade e das nossas comunidades. É preciso que sejamos recriados, renovados desde o mais íntimo e profundo. Não é uma simples mudança de atitude, de costume ou normas que determinam nossa atitude.
“Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’”.
A presença do Espírito é representada em vários momentos com o símbolo do sopro e também do vento. Por exemplo, quando no livro do Gênese narra-se que depois de ter modelado o homem com a argila do solo, Deus “sopra-lhe nas narinas e o tornou um ser vivente” (Gn 2,7). Esse sopro de Deus gera vida! Em outros momentos aparece como o alento de Deus que “dá vida” (Jo 33,4), também como um louvor ao Deus da vida: “Envias o teu sopro e eles são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104,30).
No relato do livro dos Atos dos Apóstolos lemos que no dia de Pentecostes os discípulos estão reunidos e, “de repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam”. A presença do Espírito aparece também como um sopro, um forte vendaval que enche a casa e renova a vida das pessoas que estão reunidas.
Jesus sopra sobre os discípulos e os enche da vida do Espírito do Ressuscitado e os chama para realizar uma missão de ser comunicadores de sua paz e do seu amor e misericórdia a todo o mundo. Desta forma Jesus nos doa seu próprio ar que nos impulsiona e nos faz participar e comunicar sua Ressurreição.
O Espírito Santo atua no interior de cada pessoa e comunidade renovando-as e impulsionando a procurar novos caminhos para comunicar a novidade da sua presença no meio de nós. Neste momento que o Pentecostes é celebrado numa situação especial, o Senhor nos convida a reconhecer nossa pequenez diante da grandeza da missão que nos é confiada.
Cientes deste desafio, demo-nos as mãos, entrelacemos esforços, formando uma única rede cristã, para rezar juntos com confiança, como o fizeram Maria e a primeira comunidade, que se faça em nós a vontade de Jesus! Um momento especial para que todas as pessoas do mundo inteiro, deixando de lado as diferenças que provêm de nossas limitações, buscássemos tornar realidade o desejo de nosso Senhor, de que exista um só rebanho e um só Pastor!
E nos é oferecida “a possibilidade de redescobrir o valor da família, da amizade, das relações interpessoais, das frequentações que habitualmente negligenciamos, da solidariedade, da generosidade, da partilha, da proximidade na concretude das pequenas coisas. Precisamos uns dos outros e necessitamos de comunidades e sociedades que nos ajudem a cuidar uns dos outros”.
Lembrem-se também de que neste dia culmina a Semana de Oração pela unidade dos Cristãos promovida pelo CONIC, que nos convidou a meditarmos neste tempo de quarentena sobre o tema: Gentileza gera gentileza.
Fazemos nossas estas palavras de Marcelo Barros: “Esta Semana de oração pela Unidade dos Cristãos nos interpela a sairmos de nosso fechamento eclesiástico. Pede de nós reconhecer os cristãos e cristãs de outras tradições como irmãos e irmãs. Recomenda termos a gentileza como estilo de vida. E nos chama à unidade, mesmo em meio a todas as diferenças. O projeto é que obedeçamos ao mandamento de Jesus de sermos unidos. Que as Igrejas respeitem a autonomia de cada uma, mas construam juntas uma comunhão. Assim, poderão testemunhar ao mundo a gentileza de Deus conosco e trabalharmos pela justiça, paz e defesa da Terra e da natureza criada e habitada pelo Amor Divino”.
Acolhamos humildemente o Amor do Pai e do Filho, que é o Espírito Santo, para colaborar com a obra de Deus. E nossos povos latino-americanos tenham em Cristo vida em abundância!
Tu que sopras onde queres,
Vento de Deus dando vida,
sopra-me, sopro fecundo!
Sopra-me vida em teu sopro!
Faze-me todo janelas,
olhos abertos e abraço.
Leva-me em boa Notícia
sobre os telhados do medo.
Passa-me em torno das flores,
beijo de graça e ternura.
Joga-me contra a injustiça
em furação de verdade.
Deita-me em cima dos mortos,
boca-profeta a chamá-los.
Dom Pedro Casaldáliga
Atos 2,1-11.
Pentecostes, festa da colheita, festa da Lei, por isso a liturgia hoje nos oferece uma colheita abundante de Palavra, mas vou me permitir comentar somente a porção dos Atos 2,1-11.
“Tendo-se completado o dia de Pentecostes”.
Percebemos uma teologia diferente na memória da Comunidade dos discípulos e discípulas amadas: o dom do Espírito é doado no mesmo dia da Ressurreição. Na memória das Comunidades de Lucas, o Espírito é doado 50 dias depois: na Festa de Pentecostes.
“De repente veio do céu um ruído como um agitar-se de um vendaval impetuoso”.
Acorda a memória do Êxodo 19 e muitos outros textos onde os fenômenos naturais anunciam uma teofania ou manifestação do Divino, do Transcendente: a manifestação do Espírito Santo, poderíamos dizer da Divina Ruah.
“Apareceram como línguas de fogo”.
O fogo sempre nos fala da presença do Divino e de sua ação prodigiosa.
“E todos ficaram repletos de Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas”.
A narração de novo acorda nossa memória: havia um povo que queria chegar até o céu para ter um nome (Gn 11,1-9). Querer chegar até o céu para ter poder sobre Deus e assim dominar os outros povos. Hoje, diríamos a globalização. A ameaça é debelada pela ação de Deus fazendo acontecer variedade e diversidade das línguas. Não é confusão, mas diversidade.
A Divina Ruah não ama a uniformidade, ama a pluralidade, a variedade, a diversidade. Na continuidade da narração, Lucas nos revela que o dom das línguas não é dado para dominar, mas sim para se colocar a serviço da Boa Nova e tornar testemunhas da Ressurreição.
“Estavam todos reunidos no mesmo lugar... com algumas mulheres e Maria, a Mãe de Jesus... Achavam-se em Jerusalém judeus piedosos, vindos de todas as nações que há debaixo do céu... Como é, pois, que os ouvimos falar, cada um de nós, no próprio idioma em que nascemos?”
Da comunidade reunida de discípulos e discípulas, a narração leva ao horizonte dos confins do mundo: a salvação prometida, a luz para as nações se realiza no dia de Pentecostes. Os povos presentes são recordados seguindo uma ordem: os nativos povos do oriente; os habitantes repartidos nas seguintes regiões: leste a Mesopotâmia, norte a Ásia, sul a Líbia; os estrangeiros romanos que estão em visita a Jerusalém. E a narração insiste: ouvem em seu próprio idioma. O milagre, ou melhor, a maravilha está no escutar em sua própria língua, no seu idioma, ousaríamos dizer em sua própria cultura. Pentecostes é a festa cristã da inculturação. A multiformidade, a pluralidade, a diversidade é o DNA da Igreja nascente. Realidade fortalecida da própria narração, pois ao lermos o Livro dos Atos nos surpreendemos com inúmeras festas de Pentecostes.
O que aconteceu naquele dia? Aliás, o que aconteceu todas as vezes que houve um Pentecostes?
Lucas tenta narrar o mais fielmente possível os acontecimentos, mas percebemos que ele está em dificuldades. Então, do seu jeito peculiar, usa gêneros literários diferentes que chamam nossa atenção.
Ouvem-se sons misteriosos vindo do alto, tremores, tempestade, vento, estremecimento, fogo parecendo línguas… Às vezes parece que "Ele" se apresenta no momento errado: antecipa-se, parece apressado e por isso entra antes da hora… Querendo afirmar sua presença se atropela… Até parece cair: “Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a palavra” (At 10,44). É como se dissesse, é vento, mas não é. É fogo, mas não é fogo. É… mas…
Ao escrever deste jeito, Lucas quer nos comunicar algo, quer nos preparar, quer nos fazer entrar no mistério. A palavra mistério em grego quer dizer, literalmente, fechar os olhos e a boca. O mistério estaria, portanto, além de qualquer visão, de qualquer audição, de qualquer explicação. Mistério indescritível: “O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai” (João 3,8).
O vento e o fogo são imagens apocalípticas e teofânicas. As primeiras palavras da Bíblia nos dizem que o vento paira sobre o caos fazendo acontecer a harmonia, a vida (Gn 1,1-2). O fogo que queima sem se extinguir tira Moisés do comodismo (Ex 3,1-6). A Aliança do Sinai é selada no meio do vento e do fogo (Ex 19,16-18).
A palavra espírito em grego e hebraico significa vento, inclusive no hebraico é feminino: Ruah. A Divina Ruah irrompe naquele momento da história, naquelas pessoas reunidas, transforma-as, coloca-as em movimento, torna-as capazes de recriar a história. Irrompe na história como vento impetuoso que desarruma o que parecia arrumado; entra como um tufão que escancara portas e janelas para purificar o ar mofado; entra como furacão, ciclone que abala, desinstala as pessoas, os grupos. O vento entra como terremoto que impele a criar coisas novas.
A Divina Ruah, como misteriosa pessoa, age impulsionando sempre para frente, desafiando a romper barreiras, buscando sempre o novo. É força exuberante que não pode ser contida; na sua força pessoas medrosas, tímidas falam com parrésia, se tornam testemunhas; dom oferecido e acolhido transforma; sobretudo é força vital que conduz os missionários e missionárias.
Esta força de Deus seria o próprio Deus? Este que vem de Deus seria também Deus? Este "quem" o que seria? Seria o Vento de Deus? Seria o Fogo de Deus? Seriam o Vento e o Fogo de Jesus, de Maria misteriosamente presentes na comunidade nascente? Misteriosamente presente através dos discípulos e discípulas nas Igrejas, no Universo?
“Derramarei meu espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões e vossos velhos sonharão. Sim, sobre meus servos e minhas servas derramarei do meu Espírito”.
São palavras do profeta Joel afirmando que o Espírito será derramado sobre os filhos e as filhas, sobre os servos e as servas confirmando: a comunidade é sinal do Reino presente (At 2,1; 1,14; 2,16-18; Joel 3,1-5).
Ouso dizer que a A Divina Ruah é uma agitadora social: não se aquieta enquanto não inquieta. Sua estabilidade pessoal cria instabilidade social: causa celeuma, espanto, coloca tudo de cabeça para baixo, desinstala o grupo de discípulos e discípulas, uma população ordeira e acomodada. Transformar repouso em movimento, a rotina em novidade parece ser o resultado de sua inesperada irrupção. O oráculo de Joel aponta para uma transmutação de papéis sociais que colocam em redemoinho as relações vigentes.
O Vento de Deus que sopra derruba preconceitos e destrói as históricas barreiras da separação entre judeus e gentios, homens e mulheres, jovens e adultos, escravos e livres. As mulheres tornam-se boca de Javé, exercem atividades associadas a um dos principais carismas das comunidades, o carisma profético... A Divina Ruah chega destravando a língua das mulheres, proibidas de falar em público e nas comunidades ganham dignidade em plena e absoluta igualdade.
Dessa maneira, A Divina Ruah ameaça a instituição do patriarcado, potencializando ou criando o conflito dentro e fora da comunidade. Incluindo a mulher no carisma profético, reconhece sua identidade e igualdade, desafia o homem a descobrir a mulher como companheira na proposta da nova criação, da Igreja.
Palavras muito evocativas: a Divina Ruah é como vendaval que subverte os padrões que a sociedade patriarcal afirma como únicos e legítimos. A mulher emudecida no fórum social e eclesial, fala e profetiza.
Os jovens têm visões, enxergam e exercem a sabedoria e o conselho próprio dos anciões, enquanto os velhos sonham. Sonhar, apostar no futuro é dos jovens, o ancião já realizou, não sonha mais. Há inversão de papéis: os anciões sonham, olham para frente, abrem o horizonte do amanhã, o caminho da plenitude; os jovens vencem seu afã, sua pressa em alcançar metas e objetivos e têm visões, conseguem projetar o futuro com discernimento e sabedoria.
Os servos e servas, os escravos e escravas, consideradas ferramentas animadas, falam e são reconhecidos/as como sujeitos da história. A Agitadora social age e provoca uma verdadeira comoção e revolução social: inclui quem era excluído; quem ‘não é’, é protagonista. Quem não contava, quem não era, sobre eles e elas é derramada a Energia vital que faz novas todas as coisas, sinal do tempo novo.
Na Festa de Pentecostes reconhecemos nossa natureza peregrina, sempre a caminho para que a novidade do Evangelho seja testemunhada, bem longe do poder! Igreja de periferia, mais rebelde que integrada, escanteada, frequentemente considerada inútil e descartável, por ser incômoda é semente do Reino.
A Festa de Pentecostes é Festa da diversidade, dos carismas para o crescimento da comunidade, da humanidade. Somos iguais embora diferentes. Compreendemos na diversidade que a harmonia não se alcança com a violência, a intolerância ou intensificando o controle, mas é um caminhar na paciência, na escuta recíproca e na convivência. Instiga a Igreja a ir além de seus confins, em multiforme nomadismo que enriquecerá a história e as comunidades, diversas entre si e sempre a caminho.
Vivo esta Festa de Pentecostes em Amazônia, ‘Casa comum’ que me acolheu e adotou. Agradecendo este dom, invoco a Divina Ruah para Ela cair sobre o Sínodo da Amazônia como Agitadora social, como Agitadora eclesial: Vem e faz novas todas as coisas!
(CONFIRA A TRADUÇÃO FEITA PELO TRADUTOR GOOGLE COM O TEXTO ORIGINAL LOGO APÓS A TRADUÇÃO)
SOLENIDADE DO CICLO DE PENTECOSTES "A"
Primeira leitura (Atos 2:1-11):
A narrativa começa com uma referência ao dia de Pentecostes. Este é o quinquagésimo dia após a Páscoa. Um ponto fundamental a lembrar é que a festa de Pentecostes, tanto na tradição judaica quanto na cristã, está intimamente ligada à Páscoa; é o seu ponto culminante ou coroação.
O Antigo Testamento menciona a Festa das Semanas ou Shavuot (cf. Êx 23:16; Lv 23:15-22; Dt 16:9-12), cinquenta dias após a Páscoa, que celebrava a última colheita do ano, a colheita do trigo; enquanto a Páscoa celebrava a primeira colheita do ano. Esta festa era uma das três festas de peregrinação a Jerusalém, juntamente com a Páscoa judaica e Sucot (a Festa dos Tabernáculos ) . Mais tarde, a liturgia judaica associou esta Festa de Pentecostes ou Shavuot à comemoração da entrega da Torá ou Lei no Sinai , chamando-a de Festa da "Dádiva da Torá", e durante ela, lia-se o relato da promulgação do Decálogo (Êx 19-20) . A referência ao som do vento impetuoso e às línguas de fogo pode ser uma alusão do autor dos Atos dos Apóstolos à teofania no Sinai.
O texto diz que todos estavam reunidos em um só lugar . Quem são esses "todos" e onde estavam? Encontramos a resposta um pouco antes, em Atos 1:13-14: "Quando chegaram à cidade, subiram à sala onde estavam reunidos . Estavam presentes Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago. 14 Todos perseveravam unanimemente em oração, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele."
Este "lugar" é o Cenáculo, a "grande sala no cenáculo" (cf. Mc 14,15) onde Jesus celebrou a Última Ceia com os seus discípulos e onde lhes apareceu após a ressurreição. Ali, estavam reunidos os onze Apóstolos e outros discípulos, incluindo Maria, a Mãe de Jesus, que constituíam a primeira comunidade cristã.
O que se segue no relato de Atos, particularmente o fenômeno da compreensão apesar da diversidade de línguas, está mais intimamente relacionado à história da Torre de Babel (Gênesis 11). No caso de Babel, o orgulho humano, o amor-próprio e a busca por fama e glória levaram à divisão das línguas, com a consequente confusão e falta de comunicação entre pessoas e nações. Em contraste, o evento de Pentecostes demonstra como, por meio da obra do Espírito Santo, é possível manter a unidade respeitando a diversidade . De fato, quando se diz: "Todos nós os ouvimos falar em nossas próprias línguas, anunciando as maravilhas de Deus" (Atos 2:11), refere-se àquela união superior em Deus, que é fruto do Espírito e nos permite compreender e comunicar para além das diferenças legítimas.
Como uma atualização deste texto, é interessante o que R. Cantalamessa 2 diz sobre ele : "Isso nos ajuda a compreender a transformação radical que ocorre no Pentecostes, com a vinda do Espírito Santo. Nos corações dos apóstolos, Deus tomou o lugar do ego, destruiu a vaidade de suas obras e projetos e os impele a glorificar somente nEle, não em si mesmos. Foi assim que Santo Agostinho interpretou quando disse que Babel é a cidade construída sobre o amor-próprio, enquanto Jerusalém, isto é, a Igreja, ou a cidade de Deus, é a cidade construída sobre o amor de Deus [...] A passagem de Babel para o Pentecostes, que aconteceu historicamente de uma vez por todas e é narrada em Atos 2, deve ser vivida espiritualmente, todos os dias, em nossas vidas. Devemos passar continuamente de Babel para o Pentecostes, assim como devemos passar continuamente do velho eu para o novo eu."
No contexto de todo o livro dos Atos dos Apóstolos, é importante lembrar que, embora o primeiro grande evento que inaugura a missão pública da Igreja seja o Pentecostes (2,1-4), a experiência do Espírito não se limita a essa manifestação inicial, mas se renova continuamente na vida dos discípulos: durante as primeiras dificuldades (4,31), no momento da conversão dos primeiros gentios (10,44-47) e nas experiências de certos grupos que foram plenamente integrados à Igreja (19,8). Para Lucas, a história da Igreja é marcada por essa manifestação renovada e contínua do Espírito. É graças a esse poder que a comunidade de fiéis leva adiante, de forma eficaz, a obra de Jesus na história.
Segunda Leitura: 1 Coríntios 12:3b-7, 12-13
São Paulo inicia esta seção com uma afirmação clara: toda confissão de fé no Senhor Jesus é fruto da ação do Espírito . Por meio dessa afirmação, ele demonstra que a ação do Espírito Santo produz a unidade na fé dos crentes . No que se segue, mantendo essa unidade na origem, ele busca levar em conta a diversidade no nível dos dons espirituais . Para confirmar essa coexistência de unidade e diversidade, ele cita dois exemplos: os múltiplos serviços ou ministérios em relação ao único Senhor (v. 5) e as diversas atividades com um só Deus, "que em todas as coisas se realiza" (v. 6). Assim, em primeiro lugar, ele especifica que são os dons visíveis ou manifestos que são dados a cada cristão individualmente (existem dons interiores do Espírito, como a fé e a caridade, que são dados a todos ). Então ele diz que o propósito deles é o bem comum e, portanto, os próprios dons espirituais tendem à unidade : "A cada um é dada a manifestação ( phanerosis ) do Espírito para o bem comum ( pros to sympheron )" (12:7).
Para ilustrar esse ensinamento sobre unidade e diversidade, Paulo usa a comparação do corpo e seus membros . Essa referência à imagem do corpo para explicar a unidade e a diversidade entre os membros de uma sociedade era difundida no helenismo, e acredita-se, portanto, que São Paulo a tenha tomado de lá para aplicá-la à Igreja. Essa comparação é válida em relação ao funcionamento da Igreja como um corpo social visível. Mas, no que se segue, Paulo deixa claro que a razão da unidade na Igreja se deve a Cristo e ao Espírito Santo. De fato, no final do versículo 12, ele diz: "assim é com Cristo", a quem ele então aplica a comparação do corpo. Como afirma L. Rivas : "Nesse ponto, destaca-se um ensinamento surpreendente de São Paulo: os cristãos não formam uma unidade simplesmente porque estão unidos entre si, formando uma sociedade, uma comunidade chamada Igreja ( ekklesia ). Os cristãos constituem um corpo porque estão unidos a uma pessoa viva, que é o Cristo glorificado." Em seguida, em 12:13, afirma-se explicitamente que todos os cristãos foram batizados ( literalmente "imersos" ) em um só Espírito para formar um só corpo. Deixa claro que o batismo tem uma conotação distintamente eclesial : é o sacramento que nos une em um só corpo . Não é uma experiência exclusivamente individual do cristão, visto que, por meio do batismo, estabelece-se um vínculo especial entre todos os cristãos que formam um só corpo .
Em resumo, a unidade , respeitando a diversidade de carismas e serviços, se mantém na Igreja graças a uma dupla referência teológica: sua origem no mesmo Espírito Santo e sua finalidade ou orientação para o bem comum do único Corpo de Cristo.
Evangelho: Jo 20,19-23
Em sua primeira aparição, o Jesus Ressuscitado saúda os discípulos, dizendo: “A paz esteja convosco!”. Este é o dom da paz como um dom escatológico, assim como o próprio Jesus indicou em seu discurso de despedida: “ A paz vos dou; a minha paz não vo-la dou como o mundo a dá ” (João 14:27). Esta promessa de paz, de acordo com o Antigo Testamento, inclui todos os bens necessários para esta vida e a plenitude das bênçãos na vida futura.
Então Jesus mostra-lhes as suas feridas para provar que ele é o crucificado que ressuscitou; que ele é ele mesmo, mas num estado diferente.
A visão de Jesus Ressuscitado traz aos discípulos uma plenitude de alegria e, desta forma, Jesus cumpre o que lhes havia anunciado de lhes dar alegria completa (cf. Jo 15,11; 16,22).
Em seguida, ele pronuncia as palavras da comissão e faz o gesto de soprar sobre elas. Alguns estudiosos veem nesse gesto de Jesus uma referência ao gesto primordial de Deus na criação do homem (cf. Gn 2,7 ) . Assim, o sopro de Jesus é o sinal da nova criação: o Jesus glorificado comunica o Espírito que dá à luz o homem (cf. Jo 3,3-8), permitindo-lhe participar da comunhão divina. O Filho, que " tem vida em si mesmo ", a concede aos seus (cf. Jo 5,21.26); seu sopro é o da vida eterna. Com isso, o Espírito Santo dá vida aos que já nasceram.
O dom do Espírito Santo aos Apóstolos também lhes comunica o poder de perdoar ou reter pecados e, dessa forma, eles agora são transmissores da vida nova.
Algumas reflexões:
Às vezes nos perguntamos o que é mais decisivo ou importante em nossas vidas, o que acontece dentro ou fora de nós. É inegável que os seres humanos são seres sociais e comunitários; e vivemos em um ambiente específico com o qual estamos necessariamente conectados. E é saudável nos conectarmos com a realidade que nos rodeia; e quanto mais, melhor. Mas a força motriz de nossas vidas reside dentro de nós; a essência de nossas vidas passa por nossos corações, inclusive pela forma como nos conectamos com a realidade externa. Pensemos na imagem de uma fonte da qual a água flui, preenchendo-nos por dentro e transbordando para fora. Isso é fundamental porque muitas vezes não podemos mudar a realidade externa; mas podemos mudar nossa atitude interior em relação a ela. E, frequentemente, esse é o primeiro passo para começar a mudar ou transformar a realidade.
E este é o caminho que Deus escolheu para a nossa vida pessoal e eclesial, pois o grande dom da Páscoa de Jesus é o Espírito Santo. A referência cronológica na primeira leitura ao quinquagésimo dia depois da Páscoa, como vimos, confirma esta estreita relação com a Páscoa. O mesmo se pode dizer do Evangelho de João deste domingo, que apresenta a unidade indissolúvel entre a Ressurreição de Jesus e o dom do Espírito Santo aos apóstolos. A este respeito, o Diretório Homilético, n.º 56, afirma: “A Páscoa é Pentecostes. A Páscoa já é o dom do Espírito Santo […] A Eucaristia é Pentecostes.”
E no Evangelho de João, o Espírito Santo nos é apresentado como uma fonte de água viva que brota do interior do crente (cf. Jo 7,37-39); como o princípio da vida nova, da vida interior; como o Mestre Interior que virá habitar em nós (cf. Jo 14,23); que nos conduzirá à verdade plena (cf. Jo 16,13); e que nos ensinará e nos lembrará de tudo o que Jesus disse (cf. Jo 14,26).
O Espírito Santo é o "doce hóspede da alma" que pode transformar toda a nossa vida. Mas Ele o faz à Sua maneira e no Seu tempo; "nas trevas e em segurança", secretamente. Aqui também, toda a vida de um cristão, em essência, se resume a seguir os impulsos interiores do Espírito Santo, que devem ser discernidos. Ele é o arquiteto da nossa vida cristã.
A respeito disso, o Papa Leão XIV disse em sua homilia de 8 de junho de 2025: “ O Espírito abre as fronteiras, antes de tudo, dentro de nós. É o Dom que abre nossas vidas para o amor. E essa presença do Senhor dissolve nossa dureza, nossa mentalidade fechada, nosso egoísmo, os medos que nos paralisam, o narcisismo que nos faz girar apenas em torno de nós mesmos. O Espírito Santo vem desafiar, dentro de nós, o risco de uma vida que atrofia, absorvida pelo individualismo. É triste observar como, em um mundo onde as oportunidades de socialização se multiplicam, corremos o risco de estarmos paradoxalmente mais sozinhos, sempre conectados e, no entanto, incapazes de 'criar laços', sempre imersos na multidão, mas deixando para trás viajantes desorientados e solitários.”
O Espírito de Deus, por outro lado, nos ajuda a descobrir uma nova maneira de ver e viver a vida. Ele nos abre para um encontro conosco mesmos, além das máscaras que usamos; ele nos conduz a um encontro com o Senhor, ensinando-nos a experimentar a sua alegria; ele nos convence — nas próprias palavras de Jesus que acabamos de proclamar — de que somente permanecendo no amor recebemos também a força para observar a sua Palavra e, portanto, sermos transformados por ela. Ele abre as fronteiras dentro de nós, para que nossas vidas se tornem um espaço acolhedor.
O Espírito também amplia os limites dos nossos relacionamentos. De fato, Jesus diz que esse Dom é o amor entre Ele e o Pai que passa a habitar em nós. E quando o amor de Deus habita em nós, somos capazes de nos abrir aos nossos irmãos e irmãs, de superar nossa rigidez, de vencer o medo daqueles que são diferentes e de cultivar as paixões que se rebelam dentro de nós. Mas o Espírito também transforma os perigos mais ocultos que contaminam nossos relacionamentos, como mal-entendidos, preconceitos e manipulação. Penso também — com grande tristeza — nos casos em que um relacionamento é envenenado pelo desejo de dominar o outro, uma atitude que frequentemente leva à violência, como demonstram tragicamente os inúmeros casos recentes de feminicídio.
O Espírito Santo, por outro lado, amadurece em nós os frutos que nos ajudam a viver relacionamentos autênticos e saudáveis: “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade” ( Gl 5,22). Desta forma, o Espírito amplia os limites dos nossos relacionamentos com os outros e nos abre para a alegria da fraternidade. E este é um critério decisivo também para a Igreja; somos verdadeiramente a Igreja do Senhor Ressuscitado e os discípulos de Pentecostes somente se não houver fronteiras nem divisões entre nós, se na Igreja soubermos dialogar e acolher uns aos outros, integrando as nossas diferenças, se como Igreja nos tornarmos um espaço acolhedor e hospitaleiro para todos.
Em suma, o Espírito também abre fronteiras entre os povos . No Pentecostes, os Apóstolos falaram as línguas daqueles que encontraram, e o caos de Babel foi finalmente acalmado pela harmonia gerada pelo Espírito. As diferenças, quando o Sopro divino une nossos corações e nos permite ver no outro o rosto de um irmão ou irmã, não são motivo de divisão e conflito, mas uma herança comum da qual todos podemos nos beneficiar e que nos coloca juntos no caminho da fraternidade.
O Espírito Santo rompe fronteiras e derruba os muros da indiferença e do ódio, porque “nos ensina tudo” e “nos lembra as palavras de Jesus” (cf. Jo 14,26); e, portanto, a primeira coisa que ele ensina, nos lembra e imprime em nossos corações é o mandamento do amor, que o Senhor colocou no centro e no ápice de tudo. E onde há amor, não há lugar para o preconceito, para as distâncias de segurança que nos separam do nosso próximo, para a lógica da exclusão que infelizmente vemos surgir também nos nacionalismos políticos.
PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
O primeiro da semana…
Senhor,
Ensine-nos a começar com você todas as semanas.
Para vivenciar verdadeiramente a Presença desejada
Esperando por você… com uma alma amorosa
Sentindo você perto, entre nós,
Alegrar-se assim, imaginar seu sorriso radiante
As portas estarão abertas.
Suas mãos, seus pés, seu lado…
Ah, se ao menos pudéssemos admirar essas feridas!
Reconhecendo você em silêncio… reconciliados!
Respire o seu fôlego de vida, nós lhe imploramos.
Deus Todo-Poderoso, amigo, e tão humano!
Sem olhar para os nossos pecados, tu nos envias para perdoá-los.
Vem, Auxiliador, vem, Espírito de Deus.
Venham e habitem-nos, possuam-nos, transformem-nos.
Vem, Espírito Santo de nosso Senhor, vem, Espírito Santo! Amém.
1 Cf. A.-C. Abril-D. La Maisonneuve, As Festas Judaicas (Verbo Divino; Estella 1996) 37-46.
2 O mistério de Pentecostes (Edicep; Valência 1998) 27-28.
3 São Paulo e a Igreja. Ensaio sobre as "eclesiologias" paulinas (Claretian; Buenos Aires 2008) 91.
4 Cf. LH Rivas, O Evangelho de João (San Benito; Buenos Aires 2005) 530
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SOLEMNIDAD DE PENTECOSTÉS CICLO "A"
Primera lectura (He 2,1-11):
La narración comienza con una referencia al día de Pentecostés. Se trata del quincuagésimo día después de Pascua. Un primer dato importante a retener es que la fiesta de Pentecostés, tanto para la tradición judía como cristiana, está íntimamente unida a la Pascua, es su culminación o coronación.
El Antiguo Testamento habla de la fiesta de las Semanas o Savuot (cf. Ex 23,16; Lv 23,15-22; Dt 16,9-12), cincuenta días después de la Pascua, y que celebraba la última cosecha del año, la siega del trigo; mientras que en la Pascua se celebraba la primera cosecha del año. Esta fiesta formaba parte de las tres fiestas de peregrinación a Jerusalén junto con la Pascua y las Tiendas (sukkot). Más tarde la liturgia judía unió esta fiesta de Pentecostés o Savuot al recuerdo del don de la Torá o Ley en el Sinaí, llamándola justamente fiesta del "don de la Torá" y durante la misma se leía el relato de la promulgación del decálogo (Ex 19-20)1. La referencia al ruido del viento impetuoso y a las lenguas de fuego podría ser una alusión que hace el autor de Hechos de los Apóstoles a la teofanía del Sinaí.
El texto dice que estaban todos reunidos en un mismo lugar. ¿Quiénes son estos "todos" y dónde estaban? La respuesta la tenemos un poco antes en He 1,13-14: "Cuando llegaron a la ciudad, subieron a la sala donde solían reunirse. Eran Pedro, Juan, Santiago, Andrés, Felipe y Tomás, Bartolomé, Mateo, Santiago, hijo de Alfeo, Simón el Zelote y Judas, hijo de Santiago. 14 Todos ellos, íntimamente unidos, se dedicaban a la oración, en compañía de algunas mujeres, de María, la madre de Jesús, y de sus hermanos."
Este "lugar" es el Cenáculo, la "sala grande en el piso superior" (cf. Mc 14, 15) donde Jesús había celebrado con sus discípulos la última Cena y donde se les había aparecido después de su resurrección. Allí se encuentran los once Apóstoles y demás discípulos, incluida María la Madre de Jesús, que conformaban la primera comunidad cristiana.
Ahora bien, lo que sigue del relato de los Hechos, en particular el fenómeno de la comprensión a pesar de la diversidad de lenguas, tiene más bien como trasfondo del mismo la narración de la torre de Babel (Gn 11). En el acontecimiento de Babel la soberbia de los hombres, su amor propio, su búsqueda de fama y gloria llevó a la división de las lenguas con la consiguiente confusión e incomunicación entre hombres y pueblos. Como contrapartida, el acontecimiento de Pentecostés demuestra cómo por obra del Espíritu Santo es posible mantener la unidad respetando la diversidad. En efecto, al decir: "todos los oímos proclamar en nuestras lenguas las maravillas de Dios" (He 2,11) se hace referencia a esa unión superior, en Dios, que es fruto del Espíritu y permite entenderse y comunicarse más allá de las legítimas diferencias.
Como actualización de este texto es interesante lo que dice al respecto R. Cantalamessa2: "Se comprende así en qué consiste la radical transformación que se realiza en Pentecostés, con la venida del Espíritu Santo. En el corazón de los apóstoles Dios ha tomado el lugar del yo, ha destruido la vanagloria de sus obras y de sus proyectos y los empuja a gloriarse sólo en él, no en uno mismo. Así lo ha interpretado San Agustín cuando dice que Babel es la ciudad construida sobre el amor propio, mientras Jerusalén, esto es, la Iglesia, o la ciudad de Dios, es la ciudad construida sobre el amor de Dios […] El paso de Babel a Pentecostés, acontecido históricamente de una vez para siempre y narrado en He 2, debe realizarse espiritualmente, cada día, en nuestra vida. Hay que pasar continuamente de Babel a Pentecostés, del mismo modo que es necesario pasar continuamente del hombre viejo al hombre nuevo".
En el marco de todo el libro de los Hechos hay que recordar que, si bien el primer gran evento que abre la misión pública de la Iglesia es Pentecostés (2,1-4), la experiencia del Espíritu no se limita a esta primera manifestación, sino que se renueva continuamente en la vida de los discípulos: en el momento de las primeras dificultades (4,31), en ocasión de la conversión de los primeros paganos (10,44-47), en la vivencia de algunos grupos que se integraban plenamente a la Iglesia (19,8). Para Lucas la historia de la Iglesia está marcada por esta renovada y continúa manifestación del Espíritu. Es gracias a su energía que la comunidad de los creyentes lleva adelante eficazmente la obra de Jesús en la historia.
Segunda Lectura: 1Cor 12, 3b-7.12-13
San Pablo comienza esta sección con una clara afirmación: toda confesión de fe en el Señor Jesús es fruto de la acción del Espíritu. Mediante esta afirmación demuestra que la acción del Espíritu Santo causa la unidad en la fe de los creyentes. En lo que sigue busca - manteniendo esta unidad en el origen - tener en cuenta la diversidad a nivel de los carismas. Para confirmar esta coexistencia de la unidad con la diversidad cita dos ejemplos: los múltiples servicios o ministerios en relación al único Señor (v. 5) y las actividades diversas con un único Dios, “que realiza todo en todos” (v. 6). Así, en primer lugar, precisa que son los dones visibles o manifiestos los que se dan a cada cristiano en particular (hay dones interiores del Espíritu como la fe y la caridad que se dan a todos). Luego dice que su finalidad es la utilidad común, por lo que los mismos carismas tienden entonces a la unidad: “A cada uno le es dada la manifestación (phanerosis) del Espíritu para la utilidad común (pros to sympheron)” (12,7).
Para ejemplificar esta enseñanza acerca de la unidad y la diversidad recurre a la comparación del cuerpo y sus miembros. Esta referencia a la imagen del cuerpo para explicar la unidad y la diversidad entre los miembros de una sociedad estaba difundida ampliamente en el helenismo y, por ello, se piensa que de allí la tomó San Pablo para aplicarla a la Iglesia. Esta comparación es válida en lo referente al funcionamiento de la Iglesia en cuanto cuerpo social, visible. Pero en lo que sigue Pablo deja en claro que la razón de la unidad en la Iglesia se debe a Cristo y al Espíritu Santo. En efecto, al final del versículo12 dice: "así sucede con Cristo", a quien aplica entonces la comparación del cuerpo. Como dice L. Rivas3: "En este punto se pone de relieve una sorprendente enseñanza de san Pablo: los cristianos no forman una unidad solamente porque están unidos entre ellos formando una sociedad, una comunidad a la que se le da el nombre de Iglesia (ekklesía). Los cristianos constituyen un cuerpo porque están unidos a una persona viviente, que es el Cristo glorificado". Luego en 12,13 explicita que todos los cristianos han sido bautizados (literalmente "sumergidos") en un solo Espíritu para formar un solo cuerpo. Deja en claro que el bautismo tiene una característica connotación eclesial: es el sacramento que nos une en un solo cuerpo. No se trata de una experiencia exclusivamente individual del cristiano, ya que por el bautismo se establece una vinculación especial entre todos los cristianos que forman un solo cuerpo.
En síntesis, la unidad, respetando la diversidad de carismas y servicios, se mantiene en la Iglesia gracias a una doble referencia teológica: su origen en el mismo Espíritu Santo y su finalidad u orientación al bien común del único cuerpo de Cristo.
Evangelio: Jn 20,19-23
En su primera aparición Jesús Resucitado saluda a los discípulos diciéndoles: “¡Paz a ustedes!”. Se trata del don de la paz como don escatológico tal como lo había indicado el mismo Jesús en su discurso de despedida: “Es la paz, la mía la que les doy; no se las doy a la manera del mundo” (Jn 14, 27). Este augurio de paz, según el trasfondo del Antiguo Testamento, incluye todos los bienes necesarios para la vida presente y la plenitud de bienes en la vida futura.
Luego Jesús les muestra sus heridas para probarles que es el Crucificado que ha Resucitado; que es él mismo, pero en un estado diferente.
La visión de Jesús Resucitado provoca en los discípulos una plenitud de alegría y, de este modo, Jesús cumple lo que les había anunciado de darles una alegría completa (cf. Jn 15,11; 16,22).
A continuación, pronuncia las palabras de envío y realiza el gesto de soplar sobre ellos. Algunos estudiosos ven en este gesto de Jesús una referencia al gesto primordial de Dios en la creación del hombre (cf. Gen 2,7)4. Entonces el soplo de Jesús es el signo de la nueva creación: Jesús glorificado comunica el Espíritu que hace renacer al hombre (Cf. Jn 3, 3-8), dándole a compartir la comunión divina. El Hijo que “tiene la vida en sí mismo” dispone de ella a favor de los suyos (Cf. Jn 5, 21.26); su soplo es el de la vida eterna. Con esta
donación del Espíritu Santo a los Apóstoles se les comunica también el poder perdonar o retener los pecados y, de este modo, son ellos ahora transmisores de la vida nueva.
Algunas reflexiones:
A veces nos preguntamos qué es lo más decisivo o importante en nuestra vida, lo que sucede dentro nuestro o fuera de nosotros. Es innegable que el hombre es un ser social y comunitario; y vive en un ambiente concreto con el cual se vincula necesariamente. Y es sano que nos vinculemos con la realidad que nos rodea; y cuanto más, mejor. Pero el motor de nuestra vida está en nuestro interior; lo esencial de nuestra vida pasa por nuestro corazón; incluyendo el modo cómo nos vinculamos con la realidad exterior. Pensemos en la imagen de una fuente de donde brota el agua llenando adentro y desbordando hacia afuera. Y esto es fundamental porque muchas veces no podremos cambiar la realidad exterior; pero sí podemos cambiar nuestra actitud interior ante esta realidad. Y muchas veces éste es el primer paso para empezar a cambiar o transformar la realidad.
Y este es camino que Dios ha elegido para nuestra vida personal y eclesial, pues el gran don de la Pascua de Jesús es el Espíritu Santo. La referencia cronológica de la primera lectura al día quincuagésimo después de Pascua, según vimos, nos confirma esta estrecha relación con la Pascua. Lo mismo podemos decir del evangelio de Juan de este domingo donde nos presenta la indisoluble unidad entre la Resurrección de Jesús y la donación del Espíritu Santo a los apóstoles. Al respecto dice el Directorio Homilético n° 56: “Pascua es Pentecostés. Pascua ya es el don del Espíritu Santo […] La Eucaristía es Pentecostés”.
Y en el evangelio de Juan se nos presenta al Espíritu Santo como un manantial de agua viva que brota del interior del creyente (cf. Jn 7,37-39); como principio de vida nueva, de vida interior; como el Maestro Interior que vendrá a habitar en nosotros (cf. Jn 14,23); nos conducirá a la verdad completa (cf. Jn 16,13); y nos enseñará y recordará todo lo que Jesús dijo (cf. Jn 14,26).
El Espíritu Santo es el "dulce huésped del alma" que puede transformar nuestra vida entera. Pero lo hace a su modo y a su tiempo; "a oscuras y en seguras", secretamente. Aquí también toda la vida del cristiano, en síntesis, se reduce a secundar las mociones interiores del Espíritu Santo, que es necesario discernir. Él es el artífice de nuestra vida cristiana.
Al respecto decía el Papa León XIV en su homilía del 8 de junio de 2025: “El Espíritu abre las fronteras, ante todo, dentro de nosotros. Es el Don que abre nuestra vida al amor. Y esta presencia del Señor disuelve nuestras durezas, nuestras cerrazones, los egoísmos, los miedos que nos paralizan, los narcisismos que nos hacen girar sólo en torno a nosotros mismos. El Espíritu Santo viene a desafiar, en nuestro interior, el riesgo de una vida que se atrofia, absorbida por el individualismo. Es triste observar cómo en un mundo donde se multiplican las ocasiones para socializar, corremos el riesgo de estar paradójicamente más solos, siempre conectados y sin embargo incapaces de “establecer vínculos”, siempre inmersos en la multitud, pero restando viajeros desorientados y solitarios.
El Espíritu de Dios, en cambio, nos hace descubrir un nuevo modo de ver y de vivir la vida. Nos abre al encuentro con nosotros mismos, más allá de las máscaras que llevamos puestas; nos conduce al encuentro con el Señor enseñándonos a experimentar su alegría; nos convence —según las mismas palabras de Jesús apenas proclamadas— de que sólo si permanecemos en el amor recibimos también la fuerza de observar su Palabra y, por tanto, de ser transformados por ella. Abre las fronteras en nuestro interior, para que nuestra vida se convierta en un espacio hospitalario.
El Espíritu abre también las fronteras en nuestras relaciones. En efecto, Jesús dice que este Don es el amor entre Él y el Padre que viene a habitar en nosotros. Y cuando el amor de Dios mora en nosotros, somos capaces de abrirnos a los hermanos, de vencer nuestras rigideces, de superar el miedo hacia el que es distinto, de educar las pasiones que se sublevan dentro de nosotros. Pero el Espíritu transforma también aquellos peligros más ocultos que contaminan nuestras relaciones, como los malentendidos, los prejuicios, las instrumentalizaciones. Pienso también —con mucho dolor— en los casos en que una relación se intoxica por la voluntad de dominar al otro, una actitud que frecuentemente desemboca en violencia, como desgraciadamente demuestran los numerosos y recientes casos de feminicidio.
El Espíritu Santo, en cambio, hace madurar en nosotros los frutos que ayudan a vivir relaciones auténticas y sanas: «amor, alegría y paz, magnanimidad, afabilidad, bondad y confianza» (Gal 5,22). De este modo, el Espíritu expande las fronteras de nuestras relaciones con los demás y nos abre a la alegría de la fraternidad. Y este es un criterio decisivo también para la Iglesia; somos verdaderamente la Iglesia del Resucitado y los discípulos de Pentecostés sólo si entre nosotros no hay ni fronteras ni divisiones, si en la Iglesia sabemos dialogar y acogernos mutuamente integrando nuestras diferencias, si como Iglesia nos convertimos en un espacio acogedor y hospitalario para todos.
Para concluir, el Espíritu abre las fronteras también entre los pueblos. En Pentecostés los Apóstoles hablan las leguas de aquellos que encuentran y el caos de Babel es finalmente apaciguado por la armonía generada por el Espíritu. Las diferencias, cuando el Soplo divino une nuestros corazones y nos hace ver en el otro el rostro de un hermano, no son ocasión de división y de conflicto, sino un patrimonio común del que todos podemos beneficiarnos, y que nos pone a todos en camino, juntos, en la fraternidad.
El Espíritu rompe las fronteras y abate los muros de la indiferencia y del odio, porque “nos enseña todo” y nos “recuerda las palabras de Jesús” (cf. Jn 14,26); y, por eso, lo primero que enseña, recuerda e imprime en nuestros corazones es el mandamiento del amor, que el Señor ha puesto en el centro y en la cima de todo. Y donde hay amor no hay espacio para los prejuicios, para las distancias de seguridad que nos alejan del prójimo, para la lógica de la exclusión que vemos surgir desgraciadamente también en los nacionalismos políticos”.
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
El primero de la semana…
Señor,
Enséñanos a empezar contigo cada semana
Experimentar verdaderamente tu Presencia deseada
Esperarte… con el alma enamorada
Sentirte cerca, entre nosotros,
Alegrarnos de tal manera, imaginar tu sonrisa fresca
Las puertas estarán abiertas
Tus manos, tus pies, tu costado…
¡Ay si pudiéramos de esas heridas admirarnos
Reconocerte en silencio… reconciliados!
Sopla tu aliento de Vida, te rogamos
¡Dios todopoderoso, amigo y tan humano!
Sin mirar nuestros pecados nos envías a perdonarlos.
Ven Ayudador, ven Espíritu de Dios
Ven a habitarnos, a poseernos, a transformarnos
¡Ven Espíritu de nuestro Señor, Ven Espíritu Santo! Amén
1 Cf. A.-C. Avril-D. La Maisonneuve, Las fiestas judías (Verbo Divino; Estella 1996) 37-46.
2 El misterio de Pentecostés (Edicep; Valencia 1998) 27-28.
3 San Pablo y la Iglesia. Ensayo sobre "las eclesiologías" Paulinas (Claretiana; Buenos Aires 2008) 91.
4 Cf. L. H. Rivas, El evangelio de Juan (San Benito; Buenos Aires 2005) 530