PAIXÃO DO SENHOR
(Leia e medite hoje o belíssimo texto de Dom Júlio:
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AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
1ªLeitura: Isaías 52, 13-53,12
Salmo Responsorial 30(31) R- Ó Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.
2ª Leitura: Hebreus 4,14-16;5,7-9
Evangelho: João 18,1-19,42
(Veja, por favor, no link das leituras acima)
Hb 4,14-16; 5,7-9
Após algumas horas de terrível sofrimento, Jesus morre na cruz. Termina o trabalho dos executores. O que se tem diante dos olhos é um homem morto.
Cessam as agressões; os zombadores emudecem. Retiram-se os curiosos. A tristeza se instala no espírito dos amigos. Muitos discípulos não escondem a decepção.
Diante do crucificado, cabe bem o silêncio e a contemplação. A celebração da Paixão, às 15h, nos convida a adorar a cruz. É oportuno que nos perguntemos sobre o sentido de nossa adoração.
A cruz nos coloca diante do mistério da nossa iniquidade. Até que ponto podemos odiar? Até o ponto de perpetrar o pior dos crimes: matar Deus! Toda história da humanidade prova esta verdade terrível. Somos capazes de realizar gestos estupendos de solidariedade, de dedicação aos outros, de generosidade surpreendente. Somos também capazes do pior: crimes horrendos, genocídio pavorosos, ódio sem limite, vinganças absurdas.
Na cruz, está o documento de nossa acusação. Não temos desculpas que justifiquem nosso crime, crucificamos o inocente, matamos quem nos amou, retribuímos o bem com um crime sórdido; condenamos por inveja, abandonamos o amigo, traímos e renegamos como Pedro ou Judas. Nada poderá mudar este fato: que nós realizamos o mal. Nem o arrependimento mais sincero, nem o castigo mais severo, tampouco a nossa morte pode cancelar este fato irreversível: nós pecamos. A cruz permanece diante de nós como um documento de acusação.
Será que Deus foi vencido pelo nosso crime? Ele fracassou diante de nossa rejeição?
A cruz nos coloca diante do mistério da piedade: até que ponto Deus pode amar! Ele nos amou até o fim, até a cruz. Deus vence nosso crime mergulhando no sofrimento e abraçando a cruz como forma de doação radical de sua vida. Ele não sofre a cruz passivamente, mas a assume como preço de sua coerência, como meio de entrega amorosa pela nossa salvação. Deus é a onipotência do amor; no amor ele pode tudo: pode até mesmo morrer pelos inimigos. Nisto consiste a Boa nova: na cruz Jesus destruiu o documento de nossa acusação. Em vez de nos castigar pela cruz que impusemos a Jesus, Deus transforma o instrumento de suplício em nossa salvação. Pela cruz não somos condenados, mas perdoados.
Não adoramos a cruz como o nosso documento de acusação: a consciência do crime não nos salva. Hoje nós adoramos a cruz instrumento de salvação: Deus converteu nosso pecado em ocasião para uma extraordinária comunicação de graça. Se grande foi nosso pecado, maior é o coração de Deus! De agora em diante a memória de nosso pecado não nos levará mais ao desespero, mas ao abandono nas mãos dAquele que nos salva, à gratidão pela sua infinita misericórdia. Onde abundou o pecado, superabundou a graça.
Não adoramos a cruz como instrumento de ódio contra Deus, pois quem ama não fabrica cruzes para os outros, não impõe sofrimentos a ombros alheios. Adoramos a cruz de Jesus abraçada em solidariedade com os crucificados deste mundo. Jesus se deixou crucificar para protestar contra as cruzes injustas que se impõem sobre os pequenos, para interromper o sofrimento dos inocentes, para deixar claro que Deus está do lado de quem sofre.
“Perto da Cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã de sua mãe e Maria Madalena” (Jo 19,25)
Na história do cristianismo tivemos sempre duas grandes tentações: eliminar a cruz ou exaltá-la. A cruz não tem a última palavra no Evangelho, mas é uma página incômoda que não podemos saltar, como tampouco podemos negar nem ocultar a densidade do sofrimento. Negá-lo é negar o humano.
Há algo muito perturbador na ideia de um “Deus crucificado”. Escândalo para uns, contradição para outros, absurdo para muitos... Onde fica a grandeza, a força, o poder? Que sentido tem ainda hoje em dia ajoelhar-se ou fazer reverência diante do crucificado? Como olhar a face da derrota? Como aceitar a morte do Justo? Como compreender o silêncio do Pai diante da morte do Filho?
E aí surge a eterna pergunta pela questão do mal, pelo sofrimento dos inocentes, pela tragédia que atravessa a criação. Como é possível? E um grito se eleva ao céu, entre a queixa e a incompreensão: “por que?”
O Deus crucificado é, junto à ressurreição, a intuição mais radical de nossa fé. Fala-nos da fragilidade humana, assumida pelo mesmo Deus; fala-nos da paz como único caminho, frente a outras sendas construídas sobre o rancor, a violência ou a lei implacável; fala-nos do amor como a maior transgressão em um mundo que etiqueta muitas pessoas como indignas de serem amadas; fala-nos da dor de Deus, um Deus que não é distante, alheio nem indiferente à criação que saiu de seu coração; um Deus próximo até o ponto de esvaziar-se em nós, conosco, por nós; fala-nos das entranhas de misericórdia d’Aquele que se comove diante dos sofrimentos humanos; fala-nos de compromisso, de uma aliança inquebrantável, e de risco; fala-nos de vítimas inocentes e verdugos inconsciente que não sabem o que fazem.
Mas, nem para verdugos nem para as vítimas a Cruz há de ter a palavra definitiva. Tudo isso, e muito mais, é o que podemos ver quando contemplamos o Crucificado.
Gólgota, o monte da Cruz, do Amor e do pranto. Um lugar carregado de densidade. Nele está o amor fiel e atravessado de uma mãe, a fidelidade de um discípulo e a coragem das mulheres que não abandonam nem fogem; ali se expressa a esperança ferida de um bom ladrão, o reconhecimento assombrado de um centurião, a zombaria daqueles que não são capazes de compreender e pedem provas, a indiferença daqueles que repartem as roupas do crucificado; e, sobretudo, Gólgota desvela uma morte que é consequência de uma vida de entrega, feita de gestos, palavras e obras; desvela uma vida que se fez doação radical nas mãos daquele que se revela Misericórdia.
A vida de Jesus é inseparável de sua execução, de sua morte. Estas são consequência de seu modo de ser e de estar na vida e com as pessoas, sendo misericórdia em ação, misericórdia em relação.
O Crucificado é a expressão máxima da ternura entregue até o extremo na missão de aliviar o sofrimento dos últimos. Por isso, a ternura é também subversiva, porque inverte a ordem “colocando como primeiros os últimos” (Mt 20,16). A ternura vivida até o extremo, à maneira de Jesus, tem repercussões sociais e políticas e por isso se faz insuportável para aqueles que “fazem de sua força a norma da justiça” (Sb 2,1-17) e “reprimem a verdade com a injustiça” (Rom 1,18).
Jesus é condenado porque sua atuação e sua mensagem sacodem na raiz o sistema organizado a serviço dos poderosos do império romano e da religião do templo. A vida de Jesus se havia convertido em um estorvo que era necessário eliminar, como as vidas de tantas pessoas que hoje se tornam molestas ao sistema ou que são consideradas “presenças perigosas”. Este é o mistério que hoje estamos contemplando.
A liturgia da Sexta-feira Santa nos ajuda a abrir os olhos diante dos crucificados de hoje e a impotente proximidade de Deus com eles.
É preciso olhar sempre a Cruz por dois lados: o dos crucificadores e o das vítimas. Do lado dos crucificadores, a cruz é morte. “Maldita seja a cruz”. Nós cristãos já temos nos acostumado a cantar “Ó Cruz, tu nos salvarás”, e esquecemos que há cruzes que não são cristãs, mas legitimadoras da dor e da injustiça que recai sobre as vidas as pessoas mais feridas e excluídas. A Cruz nunca vai nos poupar da dor, mas nos dá lucidez. Ela nos impede cair em espiritualidades evasivas, depura nossas imagens de Deus, às vezes demasiado burguesas e light, que não suportam a prova do fracasso, da obscuridade e do silêncio.
A violência e a injustiça geram vítimas e contam com nossas cumplicidades. A Boa Notícia do evangelho se manifesta a partir do reverso da história e assume a miséria, a debilidade humana, o limite físico e psíquico, o fracasso. Por isso, a sexta-feira santa nos revela também os aspectos mais obscuros de nossa condição humana.
Há lugares e situações de vida diante dos quais não podemos deixar de exclamar: “Sempre é sexta-feira Santa!”: miséria, exaltação da violência, relações centradas na intolerância, solidão, sonhos quebrados...
Aproximar-nos de cada um desses lugares é tocar as chagas do Crucificado, chagas que criamos e geramos com nossa indiferença e nossa omissão; chagas que nos molestam porque cheiram mal, porque gritam e nos desmascaram, devolvendo-nos à nossa verdade mais íntima.
Adentrar-nos em suas vidas é também apalpar o mistério, o mistério do mal e da injustiça, o mistério de uma Vida com maiúsculas que sempre é mais e que brota a partir de baixo e a partir de dentro para dar à luz a esperança, embora nós, muitas vezes, não saibamos percebê-la.
No Crucificado, Deus nos mostra a densidade mais profunda de seu mistério. Um Deus que não só está a favor das vítimas, mas que, à mercê de seus verdugos, revela sua máxima solidariedade e proximidade para com “os sem poder”, com aqueles que “desfigurados, nem pareciam homens” (Is. 52,14).
Quando acompanhamos Jesus na paixão, também “vamos sendo talhados” pelas cenas que contemplamos, com o coração aberto à dor e à aflição. Essa dor esvazia nossas autossuficiências e purifica nossas auto-imagens triunfais, humanizando-nos. Ao contemplar o amor redentor de Deus revelado em seu Filho Jesus, nós nos perguntamos onde está Ele no sofrimento. Há aqui uma inversão de perguntas:
Para responde à interrogação -“Onde está Deus nas situações de sofrimento e morte?”-, Deus nos desafia a responder à sua própria questão: “Onde está você no meu sofrimento?”.
Contemplando o Crucificado vamos pedir ao Senhor neste dia que nos ajude a permanecer solidários nas situações onde a “Divindade se esconde” (S. Inácio), que nos ajude a olhar a Cruz e escutar o grito dos crucificados nela; escutar os gritos daqueles que vivem na noite do sofrimento, da violência, da injustiça e do desamor. A Cruz é um grito no qual cabem todos os gritos da humanidade, desde o primeiro choro de uma criança até o último suspiro de um moribundo.
Escutemos neste dia os gritos daqueles que vivem na noite do sofrimento, os gritos dos empobrecidos, o grito dos povos e culturas condenadas à exclusão...; todos esses gritos unidos ao grito da mãe-terra, destru-ída em seus ecossistemas e explorada pela ganância.
Escutemos grito das vítimas do bilionário negócio da venda das armas; o grito dos “descartados” e de todos aqueles que o sistema considera como sobrantes: os sem teto, sem terra, sem trabalho; o grito daqueles que são julgados por leis injustas em tribunais que, como Pilatos, lavam as mãos....
Texto bíblico: Jo 19,16-30
Na oração: nos Gólgotas deste mundo, continuar apostando, gritando e proclamando Vida, apesar daqueles que investem na cultura da morte.
I. INTRODUÇÃO GERAL
O relato da paixão e morte de Jesus é um dos mais antigos escritos do Segundo Testamento. Corresponde ao núcleo central do querigma cristão. Jesus é Messias, anunciado nas Sagradas Escrituras, Filho de Deus que se fez carne, realizou sinais e prodígios, foi condenado e morto. Sua missão consistiu em realizar a vontade de Deus, amando a humanidade até o extremo. Seus posicionamentos não agradaram às instituições de poder. Foi perseguido, preso, julgado e condenado à morte. Injustamente, mataram o Justo (evangelho). Jesus é a figura do Servo sofredor, conforme descreve o Segundo Isaías. Um inocente sofre a paixão, carregando sobre si as nossas dores e nossos crimes. É desprezado por todos. Nele não há formosura e sinal nenhum de poder. Seu corpo foi sepultado entre os ímpios. O Servo amado de Deus, pelo caminho do sofrimento e da morte injustamente infligidos, resgatou a verdadeira justiça. A entrega de sua vida foi em reparação pelos pecados da humanidade (I leitura). As primeiras comunidades cristãs confessam que Jesus é o único e eterno sacerdote. Porque foi provado no sofrimento, é capaz de compadecer-se de nossas fraquezas e nos alcançar a misericórdia de que necessitamos (II leitura). Celebrar a paixão e a morte de Jesus é reconhecer e acolher o amor sem limites de Deus. Em atitude de gratidão e de arrependimento, deixamo-nos invadir pela sua graça, que nos transforma.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
Evangelho (Jo 18,1-19,42): A paixão e a morte de Jesus
Após a oração sacerdotal de Jesus (Jo 17), o Evangelho de João faz a narrativa da sua paixão e morte. A oração consiste num insistente pedido ao Pai para que os discípulos sejam guardados de todo mal e o amor de Deus permaneça com eles. Jesus tem consciência de sua partida. A morte é consequência de sua fidelidade ao projeto de amor do Pai. Por essa fidelidade, Jesus entrega sua vida de forma consciente: “Ninguém tira a minha vida. Eu a dou livremente” (10,18).
Em um jardim se desencadeia o processo da paixão de Jesus. Também num jardim ele será crucificado e sepultado. O jardim é lugar simbólico. Lembra o paraíso terrestre. Lugar de beleza e fecundidade. O jardim do Gênesis foi profanado pelo orgulho humano: tornou-se espaço de divisão e morte. O jardim da morte de Jesus, porém, é o espaço do resgate definitivo da vida.
Jesus costumava reunir-se com seus discípulos no jardim, fora do lugar social das instituições de poder, com as quais, gradativamente, ele vai rompendo. Os discípulos demonstram dificuldade de entender a postura de Jesus. Judas, por exemplo, não consegue desvencilhar-se da ideologia dominante. Faz um acordo com os líderes religiosos de Jerusalém e entrega Jesus. Um batalhão de guardas armados é mobilizado para prendê-lo, sinal de que era realmente considerado um indivíduo perigoso para o sistema oficial de poder.
Procuram Jesus à noite. As trevas, no Evangelho de João, têm um significado especial: em oposição à luz, simbolizam o mal. A ação que está sendo executada é sinal da maldade do “mundo” (instituições que excluem e matam). Jesus, “consciente de tudo o que lhe acontecia”, apresenta-se com o título divino “Eu sou”, identificando-se com o Deus do Êxodo (Ex 3,14). Esse título, paradoxalmente, está ligado com a origem humilde de Jesus: Nazaré da Galileia. O nazareno é Deus. Não é por nada que os guardas caem por terra.
Também Pedro revela muita dificuldade de entender a proposta de Jesus. Sua mentalidade ainda se baseia na ideologia triunfalista. Jesus, porém, vai por outro caminho: a vitória da vida não se dá pelo confronto e pela violência, mas pela obediência ao amor a Deus e ao próximo, também aos inimigos. Foi realmente difícil para Pedro. Decepciona-se com Jesus e vai negá-lo. Mas não deixará de reconhecer profundamente sua falta e tornar-se um discípulo exemplar.
Tanto a instância religiosa, representada por Anás e Caifás, como a instância política do império romano, representada por Pilatos, não encontram motivos para a condenação de Jesus. Esta será efetivada por interesse e conveniência dos chefes. Não foi Deus que quis a morte de seu Filho. Ela foi consequência da opção de Jesus pela verdade e pela justiça, conforme se constata no seu testemunho diante de Pilatos.
O caminho da “via-sacra” até a morte de cruz é a síntese de todo o sofrimento humano assumido por Jesus como gesto de extrema solidariedade. Ele se fez maldito (quem morre suspenso no madeiro é maldito de Deus: Dt 21,23) e foi crucificado entre dois malditos. Todos os crucificados e malditos deste mundo estão contemplados na morte de Jesus. Todos são redimidos no seu amor.
A cruz, para os cristãos, torna-se o caminho de seguimento de Jesus. Significa empenhar-se por um mundo de paz e justiça; renunciar ao poder em todas as suas dimensões; denunciar situações que geram exclusão e morte; assumir a causa dos pequeninos; doar-se cotidianamente pela causa da vida em plenitude, sem exclusão.
I leitura (Is 52,13-53,12): A missão do Servo sofredor
Vários textos do Segundo Testamento interpretam a paixão e a morte de Jesus à luz da profecia do Segundo Isaías. Especialmente com base nos quatro cânticos do Servo sofredor, percebe-se íntima ligação com o sofrimento de Jesus. Supõe-se até que Jesus tenha alicerçado sua missão sobre a teologia do Servo sofredor.
O texto para a meditação desta sexta-feira santa refere-se ao quarto cântico. O Segundo Isaías (caps. 40-55) é um movimento profético atuante no meio dos exilados na Babilônia em meados do século VI a.C. Busca incutir ânimo e esperança ao povo que está longe de sua terra, em situação de dor e desolação. É esse povo o “Servo sofredor”: desprezado, aviltado em sua dignidade humana, maltratado, sem beleza e sem importância; condenado injustamente como malfeitor e totalmente desprotegido, sem condições de defesa.
No entanto, esse povo desprezível e maltratado descobre-se como eleito por Deus para uma missão de solidariedade e expiação. Sobre si carrega as dores e enfermidades do mundo, os crimes e iniquidades da humanidade. Esse “Servo sofredor”, visto como um humilhado e castigado por Deus, pelo seu aniquilamento, proporcionou a cura de todos. Deus fez cair sobre seu Servo amado todas as faltas da humanidade. Por ele, os povos recebem o perdão e a paz.
É fácil perceber por que as comunidades cristãs primitivas aplicaram a Jesus a descrição do “Servo sofredor” do Segundo Isaías. Ele se fez Servo de todos e ofereceu sua vida em sacrifício expiatório. Pela sua morte, resgatou a vida de toda a humanidade. O justo condenado injustamente garantiu a nossa justificação.
II leitura (Hb 4,14-16; 5,7-9): Jesus é o único mediador entre a humanidade e Deus
Um dos objetivos da carta aos Hebreus é fortalecer a fé e o amor das comunidades cristãs. Para tanto, apresenta Jesus Cristo como único mediador entre a humanidade e Deus, superando todas as demais mediações, como a Lei e o Templo. Exorta a “permanecer firmes na fé que professamos”, o que deixa transparecer que membros da comunidade cristã estavam “voltando atrás”, retomando concepções e práticas antigas.
Jesus é apresentado como o único sumo sacerdote e, portanto, já não há necessidade de outros sacerdócios. O sumo sacerdote do Templo entrava no Santo dos Santos, uma vez por ano, a fim de oferecer um sacrifício a Deus. Jesus, pela sua entrega sacrifical, derrubou todas as barreiras que dificultavam o acesso a Deus. Agora, por meio de Jesus, o sumo e eterno sacerdote, todo lugar e todo tempo são propícios para a comunhão com Deus.
O texto salienta a missão terrena de Jesus, sua encarnação, suas súplicas ao Pai em meio a terrível sofrimento, na confiança de que ele podia livrá-lo da morte. Foi obediente até o fim, e Deus o escutou. Jesus “atravessou os céus”, o verdadeiro Santo dos Santos; ofereceu o sacrifício definitivo para a expiação dos nossos pecados. Porque participou humildemente de nossa humanidade e de nossas fraquezas, é capaz de compaixão. Atravessou o céu sem afastar-se da realidade humana. Seu trono não é para juízo e condenação. Podemos nos aproximar dele, fonte de graça e de misericórdia, com toda a confiança, sem nenhum receio. O acesso a Deus está permanentemente aberto, e podemos contar com sua acolhida amorosa.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
– A morte de Jesus foi consequência de sua fidelidade ao amor a Deus e ao próximo. Sua opção pela luz da verdade e da justiça não agradou aos que preferiam as trevas do egoísmo, da mentira e da dominação. Não é fácil entender a proposta de Jesus e aderir a ela. Judas preferiu unir-se aos interesses dos chefes de Jerusalém; Pedro o negou por três vezes… Também hoje existem maneiras diversas de trair e negar Jesus. Houve, porém, pessoas solidárias com Jesus, como as mulheres e o discípulo amado. Também José de Arimateia e Nicodemos… Nós somos chamados a seguir Jesus pela renúncia ao egoísmo e pelo amor vivido cotidianamente. Podemos ser-lhe solidários: ele se identifica com os pobres e sofredores.
– Jesus é o Servo de Deus que se ofereceu em sacrifício pela vida da humanidade. Assumiu a condição humana, foi incompreendido e desprezado, perseguido e condenado; “como cordeiro, foi levado ao matadouro”, porém não usou de vingança nem de violência nenhuma. Como “Servo sofredor”, carregou nossas dores e expiou nossas faltas. Foi obediente ao Pai até o fim. Pela sua vida e pela sua morte, Jesus tornou-se “o caminho, a verdade e a vida”. É importante que nos questionemos a respeito das “fidelidades” que estamos assumindo em nossa vida: elas são coerentes com a proposta de Jesus ou preferimos o caminho das comodidades e da indiferença diante dos problemas que afetam a vida do ser humano hoje?
– Jesus é o nosso mediador junto ao Pai. Ele nos entende perfeitamente porque assumiu em seu próprio corpo os limites e fraquezas humanas. Ele se fez nosso irmão. Acolhe com ternura e misericórdia toda pessoa que a ele se dirige. Ele é fonte de todas as graças. Dele podemos nos aproximar sem medo, com toda a fé e confiança, na certeza do perdão, da ajuda em nossas necessidades e da garantia de vida eterna.
Celso Loraschi
Mestre em Teologia Dogmática com Concentração em Estudos Bíblicos, professor de evangelhos sinóticos e Atos dos Apóstolos no Instituto Teológico de Santa Catarina (Itesc).
E-mail: loraschi@itesc.org.br
(FORAM TRADUZIDOS PELO TRADUTOR GOOGLE, SEM NOSSA CORREÇÃO)
Evangelho: Paixão segundo São João (Jo 18,1-19,42)
Na Sexta-feira Santa lemos sempre o texto completo da Paixão do Evangelho segundo São João. Ao contrário do resto do seu conteúdo, as histórias de paixão nos Sinópticos concordam com o Quarto Evangelho tanto na escolha dos episódios como na ordem geral da narrativa a partir de Jo 11,47. Esta conformidade é ainda maior depois da prisão de Jesus (Jo 18,3). Mas no nível teológico as acentuações do evangelho segundo São João são bem marcadas e adequadas.
Vejamos como a história segundo São João nos oferece alguns pontos de vista particulares do mistério da Paixão do Senhor:
(1) A paixão e morte de Jesus é um dom de amor que salva
Segundo João, a Cruz é uma revelação do amor de Deus no mundo: “ Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna ” (3:16). Somente Jesus pode carregar esta cruz. Mas a sua vitória que salva o mundo se manifestará em incríveis expressões de amor que iluminam as trevas dos corações, resgatam da escravidão interna e levam o crente a agir segundo a força desse mesmo amor.
A dinâmica da história mostra em todos os seus detalhes como a Paixão de Jesus é um dom de amor e não consequência da sua fraqueza. É a morte do Bom Pastor que “ dá a vida pelas ovelhas... para que tenham vida e a tenham em abundância ” (10,11.10).
Em Cristo, as duas dimensões da cruz – a vertical (o amor de Deus até a aceitação da prova suprema da morte) e a horizontal (manter a solidariedade com os homens, apesar de tudo) – formam uma unidade, e são as duas dimensões do amor.
(2) A paixão e morte de Jesus é uma entrega voluntária da vida e não uma simples fraqueza
Sem esconder o aspecto doloroso, para João, o grande valor da Paixão de Jesus reside no facto de ser fruto de um dom, de uma liberdade total, de a ter vivido com plena consciência e conhecimento: “Dou a minha vida a recuperá-lo de novo... eu o dou de bom grado ” (10:17-10).
(3) A paixão e morte de Jesus é a proclamação da sua realeza
Em João o processo romano desenvolve-se muito mais. A história é cuidadosamente estruturada em sete cenas dispostas simetricamente. O tema principal é a realeza de Jesus . O título de Basileus (rei) é repetido nove vezes. Esta realeza manifesta-se continuamente: no interrogatório, quando interpelado por Pilatos, Jesus declara que é verdadeiramente rei; nas palavras que Pilatos dirige à multidão: “Quereis que eu liberte o rei dos judeus?” (18,39); na brincadeira dos soldados que vestem Jesus como rei (João não diz que depois lhe tiraram a púrpura); na apresentação final, quando Pilatos, sentado no tribunal, mostrou Jesus e proclamou: “Eis o teu rei” (19,14). Por outro lado, todos os acontecimentos são ordenados de forma a verificar a profecia de Jesus sobre o tipo de morte que lhe cairia: a elevação acima da terra (8:32-33; 18:32). Assim se manifesta a glória do Filho de Deus (A. Vanhoye).
Para cartão. Martini [1] a questão temática fundamental que o texto quer responder pode ser expressa desta forma: “qual é a verdadeira realeza de Cristo, se, quando quiseram fazê-lo rei, ele fugiu, enquanto aqui os fatos e situações insistentemente Eles o proclamam rei?
A resposta do quarto evangelho é que Cristo reina na sua Paixão , é rei sobretudo na cruz porque ali manifesta aos homens a sua entrega gratuita por amor ao Pai. Na cruz ele testemunha a verdade do amor do Pai . O mesmo cartão. Martini [2] nos explica e aplica muito bem: “O que significa Reino de Deus ou Reino do Pai? Significa que Deus está no centro de toda a realidade e que toda a realidade está perfeitamente ordenada sob o domínio divino. é o Reino de Deus que Jesus veio estabelecer. Segundo a doutrina exposta por João, este domínio é dado a Jesus precisamente no momento em que ele cumpre o serviço supremo da caridade e da verdade. A palavra de Jesus sobre a atração. Jesus não reina dominando, isto é, estendendo sua influência de pessoa a pessoa através de um poder do alto, mas reina atraindo. Fazendo brilhar dentro dele o amor de Deus pela humanidade desamparada. Jesus é capaz de atrair sim a todos que sabem como leia este sinal, isto é, para quem, através da mediação da cruz, sabe ler na própria pobreza e desamparo - situação muito semelhante à do Filho - a certeza de ser amado por Deus.
(4) A paixão e morte de Jesus é uma “revelação”
A morte de Jesus é a “hora de Glória” em que Deus se manifesta plenamente ao mundo. Todo o percurso histórico da revelação chega ao seu cumprimento: “ Está tudo consumado ” (19,30).
Desta forma, em Jesus crucificado se revelam o rosto de Deus e o rosto do homem, enquanto recebemos tudo o que necessitamos para viver plenamente, acessando a vida eterna que é de Deus.
(5) A Paixão e morte de Jesus é exaltação: a Cruz torna-se Glória
Com a sua habitual compreensão dos planos, São João sabe ver contemplativamente a unidade do mistério: o Jesus terreno é ao mesmo tempo o Cristo glorioso. O crucificado trespassado pela lança é ao mesmo tempo o Cristo Exaltado e Glorioso.
João é caracterizado principalmente pela sua insistência no aspecto glorioso da própria Paixão. Para João, a luz da Ressurreição já transfigura a história da Paixão. Através do sofrimento e da humilhação, João vê continuamente a glória de Jesus manifestada. Sua paixão é uma paixão gloriosa. Jesus o declara desde o início, quando Judas sai do cenáculo: “Agora o Filho do Homem foi glorificado e Deus foi glorificado Nele” ( Jo 13,31). Pouco depois, a oração sacerdotal antecipa a interpretação da Paixão, colocando-a nesta luz: “Pai, chegou a hora, glorifica o teu Filho...”.
João enfatiza que a tortura de Jesus foi uma elevação na cruz, e não um apedrejamento que esmaga o homem. Descubra nisto uma intenção divina, um sinal revelador. Na narrativa, João mostra em todos os momentos como os próprios esforços dos inimigos de Jesus contribuem, apesar de si mesmos, para revelar cada vez mais claramente a glória de Jesus.
A história de Juan é toda permeada de uma serenidade sublime. Não fala de trevas nem de cataclismos, não menciona nenhum ridículo, não usa a palavra “ladrões” (diz apenas “outros dois” e anota a inscrição na cruz, que querem que ela seja corrigida, mas não podem .o que está escrito, está escrito). João mostra que Jesus dirige os acontecimentos : define a situação da mãe e do discípulo; com pleno conhecimento dos fatos (“sabendo ...”), verifica o cumprimento das Escrituras, declara que tudo está consumado e, inclinando a cabeça, “ entrega ” o espírito. da cruz.Assim Jesus é glorificado pelo Pai e atrai todos os homens a acreditarem Nele (A. Vanhoye).
O evangelista apresenta a morte à luz da ressurreição e assim o dia da morte, que não perde o rigor do seu luto, torna-se luminoso porque a glória da Páscoa é projetada na Cruz.
Isto deve ser observado de modo particular no último momento da Paixão. O evangelista apresenta o último suspiro de Jesus como um dom do Espírito que invade o mundo (cf. 19,30; de facto, segundo o texto grego, em vez de uma “expiração” de Jesus, fala de uma “ doação do Espírito ”).
Imediatamente o corpo ferido de Jesus morto e ressuscitado torna-se o Templo da Nova Aliança, Dele flui o rio da vida que é o Espírito Santo. Isto é o que o próprio Jesus anunciou em 7:37-39: “ Do seu ventre fluirão rios de água viva ”. Jesus dá a própria vida para que possamos viver dela.
Algumas reflexões
Na Sexta-Feira Santa somos convidados a olhar para o crucifixo, em silêncio, e a beijar o crucificado. Ele tomou sobre si o pecado do mundo, ele se apropriou dele. Mas, ao mesmo tempo, olhamos à nossa volta e vemos tanto sofrimento e dor no nosso pobre mundo, assolado por esta pandemia de coronavírus que se soma a muitas outras pandemias pré-existentes, como a injustiça, a violência, a corrupção... E quando meditamos na paixão do Senhor devemos “ligar” estes dois horizontes, iluminar a nossa realidade a partir da cruz de Jesus. Também válido para este ano é o que Pe. R. Cantalamessa na sua pregação da Sexta-Feira Santa do ano passado: “este ano lemos a história da Paixão com uma pergunta – ainda mais, com um grito – nos nossos corações que se eleva por toda a terra. Devemos tentar captar a resposta que a palavra de Deus dá”.
A este respeito, o Papa Francisco disse na sua catequese de quarta-feira, 8 de abril de 2020: “Nestas semanas de preocupação com a pandemia que tanto faz sofrer o mundo, entre as muitas perguntas que nos fazemos, também podem surgir perguntas sobre Deus: O que ele faz com a nossa dor? Onde ele está quando tudo dá errado? Por que você não resolve nossos problemas rapidamente? Estas são perguntas que nos fazemos sobre Deus. A história da Paixão de Jesus, que nos acompanha nestes dias santos, ajuda-nos…. Hoje podemos perguntar-nos: Qual é o verdadeiro rosto de Deus? Habitualmente projetamos Nele o que somos, com força total: o nosso sucesso, o nosso sentido de justiça e até a nossa indignação. Mas o Evangelho nos diz que Deus não é assim. É diferente e não poderíamos sabê-lo com a nossa força. Por isso ele se aproximou de nós, veio ao nosso encontro e precisamente na Páscoa revelou-se completamente. E onde foi totalmente revelado? Na cruz. Lá aprendemos as características da face de Deus. Não esqueçamos, irmãos e irmãs, que a cruz é a cátedra de Deus. Fará-nos bem olhar em silêncio para o Crucificado e ver quem é o nosso Senhor: Aquele que não aponta o dedo a ninguém, nem mesmo contra aqueles que O crucificam, mas abre os braços a todos; aquele que não nos esmaga com a sua glória, mas se deixa desnudar por nós; aquela que não nos ama com palavras, mas nos dá vida no silêncio; aquele que não nos força, mas nos liberta; Aquele que não nos trata como estranhos, mas assume sobre si o nosso mal, assume sobre si os nossos pecados. E, para nos libertarmos dos preconceitos sobre Deus, olhemos para o Crucificado. E então vamos abrir o Evangelho. Nos dias de hoje, todos nós em quarentena, em casa, confinados, vamos pegar duas coisas nas mãos: o crucifixo, vamos olhar para ele; e vamos abrir o evangelho. Será para nós – por assim dizer – como uma grande liturgia doméstica porque hoje em dia não podemos ir à igreja. Crucifixo e Evangelho!”
Com efeito, desejamos e esperamos espontaneamente que Deus, na sua omnipotência, derrote a injustiça, o mal, o pecado e o sofrimento com uma vitória divina triunfante, sem passar pela cruz. Em vez disso, Deus nos mostra uma vitória humilde que humanamente parece um fracasso. Porém, Deus vence justamente na derrota! O Filho de Deus aparece na cruz como um homem derrotado: sofre, é traído, é insultado e finalmente morre. Jesus permite que o mal se alastre contra ele e assume a responsabilidade de derrotá-lo. Sua paixão não é um acidente; sua morte – aquela morte – foi “escrita”. Realmente não temos muita explicação. É um mistério desconcertante, o mistério da grande humildade de Deus: «Deus amou o mundo de tal maneira que lhe deu o seu Filho unigénito» (Jo 3,16).
Agora, é essencial compreender o “porquê” e “para quem” de tudo isto, da dor da sua paixão, da sua morte e da sua ressurreição. E aí entramos, entra toda a humanidade sem deixar ninguém de fora. Como disse o Papa Francisco na sua catequese de 31 de março de 2021: “Durante o seu ministério, o Filho de Deus derramou generosamente a vida, curando, perdoando, ressuscitando... Agora, na hora do sacrifício supremo na cruz, ele leva ao cumprimento da obra confiada pelo Pai: entrar no abismo do sofrimento, entrar nestas calamidades deste mundo, para redimir e transformar. E também para libertar cada um de nós do poder das trevas, do orgulho, da resistência em ser amado por Deus. E só o amor de Deus pode fazer isso. Pelas suas feridas fomos curados (cf. 1 Pd 2,24), diz o apóstolo Pedro, da sua morte fomos regenerados, todos nós. E graças a Ele, abandonado na cruz, ninguém está sozinho nas trevas da morte. Nunca, Ele está sempre ao seu lado: basta abrir o coração e deixar-se ver por Ele”.
Por outro lado, parece-me importante insistir na aceitação livre e voluntária, por parte de Jesus, da sua paixão e da sua morte , porque era a Vontade do Pai, a norma suprema do seu ser e agir como Filho. Foi um ato de obediência que superou a resistência que, como verdadeiro homem, sentiu diante da proximidade da dor e da morte. Desta forma, afirma-se tanto a verdade ou o realismo do sofrimento que sofreu como o amor com que o superou (cf. SD n. 18).
Diante da cruz todos fogem. Jesus permanece sozinho e não foge. Ele também não permite que circunstâncias externas “aconteçam com ele”. Renunciou a tudo, mas ainda tem a sua liberdade interior pela qual aceita a sua morte, vive-a até ao fim como um acto de entrega. Ele não se deixa morrer, mas faz da própria morte um ato de oferenda ao Pai. É esta aceitação voluntária e amorosa de Jesus ao misterioso plano do Pai que dá sentido redentor à sua paixão e à sua morte.
Nestes tempos difíceis que tivemos que viver, Jesus revela-nos um caminho possível. Não é que queiramos nem o mais fácil. É o caminho da aceitação e da oferta da cruz. Posso permanecer numa queixa estéril ou abraçar esta cruz e oferecê-la. Mais ainda, ajude os irmãos a carregar a própria cruz e a seguir Jesus até o fim.
O Papa Francisco insistiu nisso ao iluminar a pandemia a partir do mistério pascal de Jesus: “Abraçar a sua Cruz é ousar abraçar todos os reveses do tempo presente, abandonando por um momento o nosso desejo de onipotência e posse para dar espaço ao criatividade que só o Espírito é capaz de despertar. Significa incentivar espaços onde todos possam sentir-se convidados e permitir novas formas de hospitalidade, fraternidade e solidariedade. Na sua Cruz fomos salvos para abrigar a esperança e deixar que ela fortaleça e sustente todas as medidas e caminhos possíveis que nos ajudem a cuidar de nós mesmos e a cuidar de nós mesmos. Abrace o Senhor para abraçar a esperança. Esta é a força da fé, que nos liberta do medo e nos dá esperança” ( Mensagem Urbi et Orbi , 27 de março de 2020)
PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM ORAÇÃO):
Um de vocês vai me entregar.
Senhor da rendição absoluta e completa
Volte seus olhos para os seus, com uma alma em dor
Abalado ao extremo, o sangue ferve em suas veias
Quando você nos vê agarrados às nossas misérias
Dá a você... aquele que se deixa levar pelo prazer deste mundo
E se esconde da verdade, ou nega, um trapaceiro
Te dá... aquele que desiste de olhar para frente
Pobreza, fome, marginalização e morte.
Dá a você... aquele que concorda por um preço
O futuro dos ignorantes, a vida dos doentes.
Te dá... aquele que não exige justiça
Diante das diferenças sociais, fruto da ganância.
Dá a você... aquele que ao custo da inocência
Sua consciência está enriquecida e degradada.
Da-te…
E hoje perguntamos, quem será? Serei eu?
Alguém pode responder: “Não sou”?
Senhor, esperamos pela sua compaixão. Vamos levantar os olhos e em silêncio
Deixaremos que sua imagem seja gravada profundamente dentro de nós
Rezaremos lentamente a oração ao seu Pai, Pai Nosso,
E esperaremos que você faça o trabalho, Divine Potter. Amém.
[1] O Evangelho de João. Exercícios espirituais sobre São João (Paulinas; Bogotá 1986) 128.
[2] O Evangelho de João. Exercícios espirituais sobre São João (Paulinas; Bogotá 1986) 132.