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AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
1ª Leitura: Gênesis 2,7-9;3,1-7
Salmo 50(51)-R- Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós.
2ª Leitura: Romanos 5,12-19
Evangelho de Mateus 4,1-11
Naquele tempo: 1o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. 2Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome. 3Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: 'Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!' 4Mas Jesus respondeu: 'Está escrito: 'Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus'.' 5Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, 6e lhe disse: 'Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: 'Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'.' 7Jesus lhe respondeu: 'Também está escrito: 'Não tentarás o Senhor teu Deus!'' 8Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, 9e lhe disse: 'Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar.' 10Jesus lhe disse: 'Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: 'Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto.' 11Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus. Palavra da Salvação.
Mt 4,1-11
Bem-vindos à Quaresma e à Campanha da Fraternidade. Jesus nos pede: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).
Neste primeiro domingo da quaresma, ouvimos a proclamação do drama vivido por Jesus logo depois do Batismo no Jordão: a tentação no deserto.
Ao iniciar o seu ministério público, Jesus é conduzido pelo Espírito ao deserto. No Batismo de Jesus, o Espírito se manifestou e pousou sobre Jesus. Esse mesmo Espírito agora leva Jesus ao deserto “para ser tentado pelo diabo”.
A tentação de Jesus não consiste em uma solicitação ao mal: Jesus nunca desejou o mal e sua vontade sempre foi a de fazer a vontade do Pai. A tentação de Jesus consiste em tentação messiânica. No deserto Jesus precisa escolher que tipo de messias ele será; deve resolver como realizará a sua missão salvadora. O diabo quer que Jesus escolha o caminho mais fácil e de melhor aceitação (mais mercadológico e de sucesso) de um messianismo triunfalista, materialista e milagreiro. Jesus, no deserto e durante toda a sua vida, desmascarou esse projeto como diabólico.
No deserto, Jesus se entrega a oração e ao jejum. Ele busca o Pai e a sua vontade, quer estar em sua presença e companhia. De fato, Jesus é o filho muito amado no qual o Pai se agrada. Depois de jejuar 40 dias, Jesus sente fome. Ele busca o Pai, mas o que Ele experimenta é a necessidade humana de comer. Nesse momento o Tentador vê a oportunidade para atacar Jesus. “Se és Filho de Deus (o filho muito amado no qual o Pai pôs o seu agrado), manda que estas pedras se tornem pães”. O Tentador é oportunista, percebeu a necessidade e se mostra como bom conselheiro: “Afinal, se tu és realmente amado pelo Pai, se o Pai não dá uma pedra quando o filho lhe pede um pão, nada mais justo que ‘transformar as pedras em pães’. O Pai precisa provar que, de fato, te ama através de um milagre”.
Jesus fez muitos milagres, mas nunca fez milagres para provar que é Filho de Deus nem para obter a prova da paternidade de Deus. Ceder à proposta do diabo seria se render ao anti-projeto dele: fazer milagres para se impor às consciências ou, pior, para comprar as pessoas.
Pelo contrário, quando, depois da multiplicação dos pães quiseram fazê-lo rei, Jesus se retirou. O pão é importante para Jesus, e ele se preocupa com os famintos, mas o pão não é tudo. Mais necessário do que o pão é a Palavra.
A resposta de Jesus torna clara essa primazia que ocupa a vontade do Pai. Se o Filho é realmente filho, ele confia no Pai, e não precisa que o Pai prove a sua paternidade por um milagre inútil. Por isso, o Filho Jesus vive não somente do pão, mas “de toda palavra que sai da boca de Deus”. Quem confia no Pai pode sempre contar com o seu socorro.
O diabo não desiste e, astuto como é, se aproveita do que Jesus lhe respondeu para voltar a atacar, agora de maneira ainda mais sutil e perigosa. Ele desafia Jesus: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Pois está escrito: ‘A seus anjos Ele dará ordens a teu respeito; e, nas mãos ter carregarão, para que não firas teu pé em alguma pedra’”. O diabo cita Sl 911s!
A resposta de Jesus, novamente revela a manipulação que o diabo faz da Escritura: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás’”. Com a citação de Dt 6,16, Jesus mostra que se atirar do pináculo do templo não é expressão de confiança em Deus, mas uma chantagem que ofende Deus. Não devemos exigir o milagre a Deus: não devemos nos servir de Deus, nós devemos servi-lo. Exigir de Deus um milagre é tentar Deus. O messianismo de Jesus não é, como desejava o diabo, um show de milagres para conquistar maior audiência (mais ibope, mais curtidas, mais prosélitos). Jesus não é um milagreiro e não revela o Pai como quebra-galho do qual nos servimos.
A terceira tentação é a mais perigosa e terrível. O diabo mostra a Jesus, num só relance, “todos os reinos e a sua riqueza”. “Todos os reinos e a sua riqueza!” É difícil imaginar como deve ter sido essa visão! Jesus teve uma visão! É uma visão totalizante, uma visão clara, uma visão que abre a inteligência para um mundo de oportunidades e possibilidades inimagináveis. Essa visão que se dirige à inteligência de Jesus está vinculada um desejo que se dirige à vontade! É a visão do diabo sobre o mundo: “todos os reinos e sua riqueza”! Mas há um preço a ser pago para poder possuir tudo isso. O diabo diz qual é o preço para possuir “todos os reinos e a sua riqueza”: “tudo isso te darei, se te prostrares para me adorar”. O diabo exige ser adorado no lugar de Deus.
A resposta de Jesus corta na sua raiz a tentação de querer se substituir a Deus. Sim, é próprio do Diabo querer ocupar o lugar de Deus e de fazer os seus servidores pensarem que podem ser Deus sem Deus e em oposição a Ele. “Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a Ele prestarás culto”. Só Deus pode ser adorado! E além disso, se Deus não for adorado, acabaremos por nos prostrarmos para adorar o diabo.
Neste tempo da Campanha da Fraternidade queremos ir com Jesus para o deserto, para com e por Ele lutar contra as tentações.
A fome ceifa ainda inúmeras vítimas entre os muitos Lázaros, a quem não é permitido sentar-se à mesa do rico avarento. Dar de comer aos famintos (cf. Mt 25, 35.37.42) é um imperativo ético para toda a Igreja, que é resposta aos ensinamentos de solidariedade e partilha do Senhor Jesus. Além disso, eliminar a fome no mundo tornou-se também um objetivo a alcançar para preservar a paz e a subsistência da terra.
1º domQuaresma - Mt 4,1-11 – Ano A – 22-02-26
A primeira geração de cristãos se interessou muito cedo pelas "tentações" de Jesus. Eles não queriam se esquecer dos tipos de conflitos e lutas que ele teve que superar para permanecer fiel a Deus. Isso os ajudou a manter o foco em sua única tarefa: construir um mundo mais humano seguindo os passos de Jesus.
A história é angustiante. No "deserto", podemos ouvir a voz de Deus, mas também sentir a força das trevas que nos afastam Dele. O "diabo" tenta Jesus usando a Palavra de Deus e se baseando em salmos recitados em Israel: mesmo dentro da religião, a tentação de nos distanciarmos de Deus pode estar à espreita.
Na primeira tentação, Jesus resiste a usar Deus para "transformar" pedras em pão. A primeira coisa que uma pessoa precisa é alimento, mas "nem só de pão viverá o homem". A ânsia humana não se satisfaz apenas alimentando o corpo. Ela precisa de muito mais.
Precisamente para libertar da miséria, da fome e da morte aqueles que não têm pão, devemos despertar uma fome de justiça e amor no mundo desumanizado dos complacentes.
Na segunda tentação, o diabo sugere, do alto do templo, que ele busque segurança em Deus. Ele poderá viver em paz, “sustentado por suas mãos”, e caminhar sem tropeçar ou correr qualquer tipo de risco. Jesus responde: “Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus”.
Às vezes é necessário assumir compromissos arriscados, confiando em Deus como Jesus – José Antonio Pagola
É diabólico organizar a religião como um sistema de crenças e práticas que oferecem segurança. Um mundo mais humano não se constrói com cada pessoa refugiando-se em sua própria religião. Às vezes, é necessário assumir compromissos arriscados, confiando em Deus como Jesus fez.
A cena final é impressionante. Jesus observa o mundo do alto de uma montanha. Aos seus pés estão dispostos "todos os reinos", com seus conflitos, guerras e injustiças. Ali, ele deseja estabelecer o reino de paz e justiça de Deus. O diabo, por outro lado, oferece-lhe poder e glória se ele o adorar.
A reação de Jesus é imediata: "Adorarás o Senhor teu Deus". O mundo não se torna humano pela força do poder. É impossível impor poder sobre os outros sem servir ao diabo. Aqueles que seguem Jesus em busca de poder e glória vivem "de joelhos" diante do diabo. Eles não adoram o verdadeiro Deus.
“Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” (Mt 4,4)
O primeiro domingo da Quaresma nos desloca até o “deserto das tentações”; ali Jesus se deparou com as grandes “fomes que desumanizam”: “pão do ego”, “poder autocentrado”, “vaidade estéril”.
Jesus foi conduzido ao deserto imediatamente depois do seu batismo, com a palavra do Pai ressoando em seu coração: “Tu és meu filho amado...”; mas agora, no deserto, vai escutar outras palavras que “tentam” convencê-lo para que não ponha o centro de sua vida nesse amor, mas no poder, na vida fácil, na fama, nas posses... O relato das tentações resume simbolicamente outros momentos da vida de Jesus nos quais esteve submetido à alternativa entre “a maneira de pensar de Deus” ou “a maneira humana”.
As tentações foram uma ocasião privilegiada para Jesus ativar as “grandes fomes que humanizam”: fome de vida doada, fome do Reino, fome de comunhão, de pão partilhado, de compromisso solidário...
Conduzido pela força do Espírito, Ele viveu uma integração a partir de seu coração e não se deixou levar pelas aparências enganosas.
Sua vocação à messianidade ficou clara no batismo; agora, tratava-se de buscar os meios para viver sua missão. No seu discernimento, Jesus sentiu que o poder, a riqueza, o prestígio não são “meios” para realizar a Vontade do Pai; pelo contrário, inspirado pelo Espírito, elegeu o caminho do esvaziamento, da pobreza e do compromisso solidário com os mais pobres e excluídos. Sua missão como Messias devia começar nas periferias, junto aos abandonados pelo poder religioso e civil da época.
À luz do discernimento de Jesus, também nós, durante esta Quaresma, seremos conduzidos pelo Espírito ao deserto interior para o despertar das “fomes” que nos tornam mais sensíveis, abertos à realidade, comprometidos na partilha do “pão”, que é dom e deve chegar a todos.
A Campanha da Fraternidade (CF) deste ano nos alerta para o drama da fome, escândalo e incoerência na vivência do seguimento de Jesus.
Sabemos que a fome e a sede são mecanismos fundamentais dos seres vivos. Todo ser vivente necessita nutrição e hidratação, mas, nos seres humanos, estas necessidades biológicas têm caráter social. Em muitas culturas humanas, compartilhar o alimento e a bebida revela-se como gesto de socialização e de integração.
Na experiência cristã, esta necessidade vital é transladada ao campo da fé: o alimento é dom do Criador para todos. O problema crônico da atualidade não é unicamente a satisfação das necessidades básicas, mas também o despertar de uma consciência que exija a justa distribuição dos recursos naturais, para que a humanidade cultive o melhor de si mesma e viva a solidariedade e a justiça como um projeto social alternativo frente às políticas egoístas e concentradoras de bens.
A CF nos revela que a fome tem várias raízes (escassez de recursos, alterações climáticas, subdesenvolvimento de alguns povos...); no entanto, em sentido mais profundo, ela provém de duas causas principais: a) o egoísmo de grupos e indivíduos, que se apropriam dos recursos de todos e não partilham seus produtos; b) a injustiça de um sistema político e econômico que não se preocupa com o bem comum. Ter alimento faz parte dos direitos fundamentais de toda pessoa, um direito que deve ser garantido pelo Estado.
A pedagogia quaresmal, portanto, nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças, centradas na riqueza, no poder, na vaidade. Inspirados pelo “discernimento” de Jesus no deserto, somos também movidos a buscar nossas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido de maneira intensa, o Espírito nos conduzirá ao fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à “Terra prometida” onde há fartura de pão.
Por isso, é preciso ampliar nosso interior para despertar outras fomes.
O lema da CF – “dai-lhes vós mesmos de comer” – nos revela que nosso interior é uma reserva de “alimentos humanizadores”: compaixão, desejos nobres, dons originais, criatividade, espírito de busca... São alimentos que plenificam e dão sabor à nossa vida. É preciso extraí-los e multiplicá-los para que a fome de sentido e de esperança das pessoas seja saciada. Ninguém tem o direito de armazenar nos seus celeiros o “trigo” doado por Aquele que é fonte de todo “alimento salutar”.
Afinal, alimento guardado é alimento que apodrece. Vida partilhada é vida abundante.
Com frequência, nossa existência humana parece uma corrida em busca daquilo que nos sacia de um modo definitivo. Nesta corrida, aparecem muitos elementos que nos são familiares: necessidades, ansiedade, insegurança, vazio, insatisfação... Todos eles, à primeira vista, nos fazem tomar consciência que somos seres carentes. Seria, pois, essa carência aquela que nos movimenta na busca de algo para preencher nosso vazio?
De fato, o ser humano é um ser insaciável, insatisfeito... vive eternamente buscando, muitas vezes sem saber o quê. Em contato com o seu interior, sente a necessidade de preenchê-lo a qualquer preço; na maioria das vezes, preenche-o com “coisas”: busca de poder, posses, prestígio, pão que se perde... e sente-se frustrado, porque nada lhe satisfaz.
Não são as “coisas exteriores” que nos tentam. O que nos tenta é a maneira injusta, perversa com o qual utilizamos as coisas, o espírito com o qual vivemos a nossa vida. Só o Pão da Palavra pode preencher nosso interior; só um alimento nos plenifica: “fazer a Vontade do Pai”.
Aqui, também é preciso nos perguntar: - qual é a nossa tentação? O que é que nos seduz?
Nossa liberdade sente-se movida e atraída em duas direções. A cena das “tentações de Jesus” desvela (distingue, põe às claras...) os dois dinamismos, duas tendências, dois impulsos... que se fazem presentes em nosso interior (um de alargamento ou expansão de nós mesmos em direção aos outros e de Deus; e outro de fechamento, auto centramento, resistência e medo).
A questão de fundo é saber qual dos dois dinamismos alimentamos; é aqui que entra a liberdade (ordenada) para deixar-nos conduzir pelo Espírito. O centro é o Espírito.
“Dai-lhes vós mesmos de comer”: este apelo nos inquieta, ativa nossa sensibilidade e nos faz ampliar a visão em direção à grande multidão de famintos, presentes em nossa realidade: famintos de alimento, de proximidade, de justiça, de comunhão, de afeto...
Jesus ensina que a dinâmica do Reino é a arte de compartilhar. Talvez todo o dinheiro do mundo não seja suficiente para comprar o alimento necessário para todos os que passam fome... O problema não se soluciona comprando, o problema se soluciona compartilhando.
O pão nas mãos de Jesus era pão para ser partido, repartido e compartilhado.
O pão armazenado, como o maná no deserto, se corrompe, apodrece.
Também hoje Ele precisa de nossas mãos para multiplicar os grãos; precisa de nossas mãos para triturar esses grãos, amassar a farinha e fazer o pão. E precisa de nosso coração para que o pão seja repartido.
O pão sem coração é pão “monopolizado”. Pão indigesto, que engorda o egoísmo.
O pão sem coração gera divisões e conflitos. Quantas guerras fraticidas provoca o pão sem coração!
Deus precisa de nosso coração para que o pão leve o sinal da fraternidade, seja vitamina de solidariedade, alimento de comunhão, para que possamos comungar.
No pão compartilhado, encontramos a luz da vida. “Se partes teu pão com o faminto, brilhará tua luz como a aurora” (Is 58,7).
Para meditar na oração
Já paramos para pensar na abundância de recursos e nutrientes em nosso coração e que poderíamos compartilhar com os outros? Nem sempre se trata de encher estômagos vazios. Não só o estômago tem necessidades. Há outras muitas necessidades vitais no coração humano. Nosso coração é habitado pelo impulso do “mais”; ali não há carência. Em nossos celeiros interiores há abundância de alimentos que nos humanizam.
- Quais são as “fomes” que mobilizam sua criatividade e seus melhores recursos? São “fomes” egocentradas ou oblativas, fomes autocentradas ou abertas à solidariedade e partilha?
- Visite seu “celeiro interior”; ative suas “reservas” de bondade, recursos, beatitudes originais...
Depois do batismo, o Espírito de Deus toma conta de Jesus e o empurra para o deserto, onde ele se prepara para a missão (Mc 1,12s). Marcos diz que Jesus esteve no deserto 40 dias e que foi tentado por Satanás. Em Mateus 4,1-11 se explicita a tentação: tentação do pão, tentação do prestígio, tantação do poder. Foram três tentações que derrubaram o povo no deserto, depois da saída do Egito (Dt 8,3; 6,16; Dt 6,13). Tentação é tudo aquilo que afasta alguém do caminho de Deus.
Orientando-se pela Palavra de Deus, Jesus enfrentava as tentações e não se deixava desviar (Mt 4,4.7.10). Ele é igual a nós em tudo, até nas tentações, menos no pecado (Hb 4,15). Inserido no meio dos pobres e unido ao Pai pela oração, fiel a ambos, ele resistia e seguia pelo caminho do Messias-Servidor, o caminho do serviço a Deus e ao povo (Mt 20,28).
ALARGANDO
A semente da Boa Notícia, o início do anúncio do Evangelho na América Latina
Marcos inicia dizendo como foi o começo. Você esperaria de Marcos uma data bem precisa. Em vez disso, recebe uma resposta aparentemente confusa. Para descrever esse começo, Marcos cita Isaías e Malaquias (Mc 1,2-3). Fala de João Batista (Mc 1,4-5). Alude ao profeta Elias (Mc 1,4). Evoca a profecia do Servo de Javé (Mc 1,11) e as tentações do povo no deserto, depois da saída do Egito (Mc 1,13). Você pergunta: "Mas afinal, o começo foi quando: na saída do Egito, no deserto, em Moisés, em Elias, em Isaías, em Malaquias, em João Batista?" O começo, a semente pode ser tudo isso ao mesmo tempo. O que Marcos quer sugerir é que olhemos a nossa história com outros olhos. O começo a semente da Boa Nova de Deus, está escondida dentro da vida da gente, dentro do nosso passado, dentro da história que vivemos.
O começo da Boa Nova na América Latina está escondido na resistência e no despertar das etnias indígena e negra, que buscam vida, dignidade e liberdade para todos. Resgatando a sua história e reconhecendo os valores éticos presentes na cultura do seu povo, os indígenas se unem aos descendentes afro e a todas as pessoas que sofrem injustiça e discriminação. As mulheres despertam como sujeito de um novo tempo, descontruindo velhos padrões de comportamento e gerando uma nova consciência.
No campo e na cidade o MST vem demonstrando uma nova capacidade de organização e articulação. Apesar da propaganda contrária da TV, revistas e jornais, o MST gera um debate nacional sobre pontos fundamentais para uma política agrícola. Surge uma nova sensibilidade ecológica e cresce a consciência de cidadania. O grande desejo de participação transformadora, que a discussão e debate dos problemas sociais vêm provocando, se expressa no voluntariado de jovens, pessoas desempregadas, aposentadas… Até mesmo daquelas que em meio ao trabalho e ao estudo ainda encontram tempo para entregar-se gratuitamente ao serviço dos outros.
A busca de novas relações de ternura, respeito, ajuda mútua e intercâmbio vem crescendo. Há uma indignação do povo frente à corrupção e à violência. Há algo que vai nascendo dentro de cada pessoa, algo novo, que não permite mais a indiferença diante dos abusos políticos, sociais, culturais, de classe e de gênero. Há uma nova esperança, um novo sonho, um desejo de mudança. Resgata-se a utopia de construir uma sociedade nova, onde haja espaço de vida e de participação para todas as pessoas.
O anúncio da Boa Nova de Deus na América Latina será realmente Boa Notícia se apontar para esta novidade que está acontecendo no meio do povo. Ajudar a abrir os olhos para essa novidade, comprometer as comunidades de fé na busca pela utopia é reconhecer a presença libertadora e transformadora de Deus agindo no dia-a-dia de nossa vida.
O povo da Bíblia tinha esta convicção: Deus está presente na nossa vida e na nossa história. Por isso, eles se preocupavam em lembrar os fatos e as pessoas do passado. Pessoa que perde a memória perde a identidade, ela já não sabe de onde vem nem para onde vai. Eles liam a história do passado para aprender a ler a história deles e descobrir dentro dela os sinais e os apelos da presença de Deus. É o que Marcos fez aqui no início do seu evangelho. Ele tira o véu dos fatos e aponta um fio de esperança que vinha desde o êxodo, desde Moisés, passando pelos profetas Elias, Isaías e Malaquias, pelos servidores do povo, até chegar em João Batista, que aponta Jesus como aquele que realizará a esperança do povo.
Desde tempos antigos, as Igrejas costumam iniciar a Quaresma com a leitura de uma das narrativas evangélicas que contam as tentações de Jesus no deserto. Certamente, é um modo de chamar a nós e a nossas comunidades para também irmos ao deserto com Jesus durante quarenta dias. Atualmente, é comum falarmos em Quarentena. No plano da fé, a quarentena pascal não é para se isolar e manter a imunidade contra algum vírus. A proposta da Quaresma é "preparar o coração para a festa" e enfrentar os desafios e questões que na vida sempre somos chamados/as a decidir.
Tentação não significa uma prova a vencer, nem teste no qual se escolhe entre o bem e o mal. Tentação significa a escolha de um projeto de vida que temos de discernir entre duas ou diversas alternativas. Jesus sempre teve de escolher. Cada escolha tinha suas vantagens e seus limites. Cada escolha poderia até ser vista como sendo agradável a Deus. É a partir desse olhar que convido vocês a lerem esse evangelho do 1º domingo da Quaresma do ano A (Mateus 4, 1- 11).
De acordo com a Bíblia, o antigo povo de Deus foi tentado no deserto. Assim também, durante toda a sua vida, Jesus teve de enfrentar tentações. Mateus conta as tentações de Jesus no deserto como uma espécie de “haggadá” (um conto) sobre as tentações de Israel no deserto. O povo dos hebreus enfrentou as tentações, ou seja, teve de definir o seu projeto de sociedade no deserto. A Bíblia conta que ali passou 40 anos. Jesus passa ali quarenta dias. Assim como o povo teve fome, também Jesus enfrenta essa provação. Teve de enfrentar e vencer as mesmas tentações de Israel no deserto. Eram as tentações também da Igreja cristã 80 anos depois de Cristo, na época em que a comunidade de Mateus escreveu esse evangelho.
Para Jesus, as tentações foram no sentido de como ele iria cumprir a sua missão. Conforme o evangelho, ao ser batizado, Jesus descobriu ser filho de Deus no sentido de alguém que Deus delega ao mundo para realizar o seu projeto para a humanidade. Ao sair do batismo, o Espírito Santo o empurra para o deserto, para a solidão consigo mesmo, afim de decidir como iria cumprir essa missão . No relato poético desse evangelho, Satanás sempre começa a tentação dizendo a Jesus: Se tu és o filho de Deus...
O diabo propõe a Jesus um modo de ser filho de Deus a partir do poder, a partir do milagre e a partir do religioso. Não eram tentações pessoais no sentido do orgulho, da vaidade, ou outra virtude moral. A tentação era o que Jesus faria para garantir a vitória da sua missão. Como ele agiria para garantir que o reino de Deus que ele anunciava não fracassaria.
Como garantir que o projeto divino para esse mundo, que vai muito além da religião não fracasse, se Jesus se sente chamado a renunciar por amor ao poder religioso e também à relação com o poder social e político?
Tanto na versão de Mateus, como de Lucas, o divisor se apresenta como aquele que tem o poder sobre o mundo (Tudo isso é meu e tudo isso te darei se tu me adorares, ou seja, te curvares diante de mim). Cada vez que religiosos se curvam e servem aos poderosos do mundo e a seus interesses cederam à tentação do maligno. O evangelho diz claramente que o poder econômico e político no mundo tem um caráter diabólico e Jesus o rejeita.
Jesus sempre responde ao diabo com a própria Palavra de Deus. Jesus aceita a insegurança no futuro, tanto para si mesmo, como em relação ao que é mais difícil para ele: a sua causa. Ele podia dizer como o saudoso Pedro Casaldáliga: “Minhas causas são mais importantes do que a minha vida”.
Mas, até mesmo a sua causa, sua missão, ele, Jesus tem de entregar nas mãos do Pai e renunciar a ter qualquer segurança de vitória. É a sua fé como entrega total nas mãos do Pai que é sua vitória na tentação.
Infelizmente, até hoje, a maioria das pessoas que assumem o poder nas instituições eclesiásticas e muita gente nas Igrejas continuam a acreditar que Jesus cedeu às tentações e seguiu o caminho proposto por Satanás: aproveite o poder a seu favor que você poderá salvar o mundo. Sem poder, como vai conseguir fazer alguma coisa? Mostre que faz milagre. O sangue de Jesus tem poder. Conquiste o mundo e aí sim você será Salvador.
Jesus se sentiu tentado a isso, mas resistiu. Percebeu que a Palavra de Deus e as profecias do Servo Sofredor indicavam outro caminho: a cruz, isso é, a inserção no meio dos pequenos e marginais e a solidariedade aos excluídos. E ele optou por isso. Um dia, ao anunciar aos discípulos essa sua decisão, teve de brigar com Pedro, seu amigo e companheiro. Pedro lhe disse: De modo nenhum, isso vai acontecer com você. Deus não vai permitir. Jesus diz a Pedro: “Passa para trás, Satanás. Tu não compreendes nada do projeto divino. O teu modo de pensar é do mundo” (Mt 16, 23).
De acordo com os próprios evangelhos, podemos afirmar que o diabo que tentou Jesus no deserto foi a própria comunidade cristã para a qual Mateus escreveu o evangelho. Os cristãos dos anos 80 não aceitavam um Jesus que não fosse propriedade deles e para lhes dar força e poder. Durante os seus 21 séculos de história, as Igrejas cristãs vivem o tempo todo essas tentações. Elas falam da “santa cruz”, tornaram a cruz objeto de adoração, colocam a cruz no altar e no pescoço das pessoas, mas tiraram a cruz do seu caminho de vida como projeto de missão e como caminho que Jesus escolheu e escolhe hoje. Quem não compreende o Cristianismo social e a inserção em uma espiritualidade libertadora não compreende a cruz de Jesus e fica com o Cristianismo que o diabo propôs a Jesus.
Continua ocorrendo hoje o que, no século XIX, Dostoievski contava na Lenda do Grande Inquisidor. O arcebispo de Sevilha dizia a Jesus: O que você veio fazer aqui? Não precisamos de você. Até hoje, você ainda não se deu conta de que o outro (o diabo) tinha razão. A humanidade não está preparada para a liberdade que você quer.
É importante que a meditação das tentações de Jesus e de como ele as venceu possa ajudar as Igrejas de hoje a retomarem o caminho do deserto e refazerem as opções fundamentais da fé.
Neste 1º Domingo da Quaresma, no Brasil, ligamos a Quaresma com a Campanha da Fraternidade que, a cada ano, propõe um desafio social a vencer como caminho pascal. Seja de cinco em cinco anos, a Campanha da Fraternidade Ecumênica, coordenada pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), seja a de cada ano, proposta pela CNBB, nos ajudam a concretizar a caminhada pascal em um mutirão de solidariedade que torna pascal a nossa vida.
Na Quarta-feira de Cinzas iniciamos um tempo novo do Ano Litúrgico que está dentro do ciclo pascal, o tempo de Quaresma. Este é o tempo de preparação para a Páscoa, a grande festa da fé cristã.
Como disse o Papa Francisco: “A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição.”
Na Quaresma, movido pelo Espírito, o povo de Deus é convidado a iniciar junto com Jesus a passagem pelo deserto, de maneira semelhante à do antigo povo de Israel, que partiu durante quarenta anos pelo deserto para ingressar na terra prometida.
Da mesma forma como o silêncio permite escutar mais os sons que há ao nosso redor, contribui para que ouçamos melhor a voz de Deus que fala no nosso interior. Neste tempo somos também convidados a escutá-lo, e assim ter mais elementos para nossa vida. Como lembra Francisco, “na base de tudo está a Palavra de Deus que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo”.
Qual é a raiz das tentações que sofre Jesus? Leiamos mais atentamente as respostas de Jesus a cada uma das tentações que recebe.
Cada uma delas procura desviar Jesus de sua missão neste mundo, que é fazer a vontade do Pai, levar adiante o seu Projeto. Por isso Jesus vence as tentações voltando-se para o Pai, buscando força e refúgio na sua Palavra.
Jesus não dialoga com cada uma das propostas que recebe, não tenta dar explicações sobre sua decisão. Sabe que esse caminho não conduz a nenhuma parte. Ele responde fazendo uso de textos do Deuteronômio: “Não só de pão vive o homem”; “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá”; “Não tente o Senhor seu Deus”.
O livro do Deuteronômio coloca alguns “códigos” através dos quais o povo de Israel será fiel à Aliança com Deus e assim ter vida. É um livro que procura transmitir um projeto de sociedade nova, baseado na fraternidade entre os homens e mulheres e na partilha de tudo o que Deus, que é chamado de Pai, concedeu a todos/as.
Jesus vence o Diabo permanecendo fiel e servindo até as últimas consequências ao Projeto do Pai: “Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos” (Ef 4,6).
Tendo sofrido as tentações e vencendo-as, Jesus vem em auxílio daqueles que são também provados, tentados a abandonar do Projeto do Pai e servir a outros projetos (Hb 2,18).
O papa Francisco na sua mensagem para este tempo disse que ”A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza conosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor.” E continua: “A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil.”
A esperança cristã nos faz crer que nenhum mal tem a palavra final. Que a ressurreição de Cristo, para a qual nos leva a Quaresma, nos livre da “indiferença globalizada”.
No próximo domingo, o primeiro da quaresma, queremos aprender de Jesus como enfrentar as tentações de satanás. Tentações que, como nunca, ainda hoje nos encantam e tentam desviar-nos do caminho de Deus, o caminho da vida.
Da oração diária de Jesus, e que ele pediu que também nós rezássemos, faz parte o seguinte pedido: “Pai, não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do Maligno” (cf. Mateus 6,13). Isso revela que Jesus teve que enfrentar muitas tentações diariamente, a fim de se manter fiel à vontade do Pai, fiel à realização do seu reinado de partilha e de justiça. Movido por essa fidelidade, Jesus não sucumbiu diante das tentações de quem neste mundo tenta impor a injustiça e manter os seus privilégios. Tentações que seduzem ainda muitos hoje.
Tal como em Marcos e em Lucas, também em Mateus o relato das tentações de Jesus no deserto vem depois que João Batista preparou o caminho do Messias (Mateus 3,1-12). Agora, é Jesus mesmo que se prepara (Mateus 3,13-4,11) para assumir publicamente o projeto do Reino (Mateus 4,12-17).
No Antigo Israel, pessoas escravizadas recém libertadas da opressão do Egito foram, durante 40 anos, tentadas no deserto a voltar atrás e desistir do projeto de liberdade (Deuteronômio 8,2). Passaram por longo processo de purificação, superando as relações desumanas impostas pelo sistema egípcio. Aos poucos, aprenderam a confiar, a partilhar o pão e a descentralizar o poder (Êxodo 16-18). De forma semelhante, as tentações de Jesus no deserto são um resumo das dificuldades que ele enfrentou durante toda a sua vida (Mateus 4,1). Com a força do Espírito, superou a todas elas. A referência aos 40 dias de jejum faz memória do jejum de Moisés no monte, ao elaborar as “palavras da aliança” (Êxodo 34,28). Assim, Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés, anunciando as “palavras da nova aliança”, do novo êxodo. Jejum e enfrentamento das tentações fazem parte da preparação de Jesus para a sua missão.
Do grego, diabo quer dizer aquele que “joga através”, que põe empecilho ou obstáculo no caminho de alguém. Do hebraico, satanás quer dizer “adversário”, “inimigo”. Para Jesus, é o inimigo do projeto de vida e de liberdade, do Reino de Deus e de sua justiça.
E quais foram as grandes tentações que Jesus enfrentou e que continuam a nos maravilhar ainda hoje?
Em vez de soluções mágicas para a fome, Jesus propõe a partilha (Mateus 4,2-4)
Nas duas primeiras tentações, o diabo, da mesma forma como depois encarnado em fariseus e escribas, pede a Jesus sinais de sua filiação divina (Mateus 4,3.6; 12,38). Jesus, porém, mostra os verdadeiros sinais da presença de Deus em sua e nossa vida.
Na caminhada libertadora do Êxodo, o povo fora tentado quando não tinha o que comer. Diante da fome, também Jesus é tentado pelo diabo com o pecado da injustiça, apresentando uma solução mágica e individualista que independe de uma sociedade justa. Jesus, que não é mágico, vence esta oferta do sistema mundano, citando Deuteronômio 8,3. De fato, para que haja vida digna é necessário que existam, além do pão, a água, a moradia, a saúde, a roupa, a educação, o trabalho, o lazer, o transporte, etc. Mas tudo isso somente é possível, quando vivemos conforme a justiça de Deus, isto é, a sua Palavra. Pouco adiante no evangelho segundo Mateus, Jesus diria o mesmo de outro jeito: "Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas" (Mateus 6,33).
Diferentemente do diabo, Jesus apresenta outra solução para a fome. É a partilha, a solidariedade (cf. Mateus 14,13-21; 15,32-39). Jesus tem claro que a busca de soluções mágicas mascara a realidade e não gera discernimento. Ao contrário, aliena e produz acomodação. Ao superar a tentação de soluções individualistas, Jesus desmascara a injustiça e propõe o engajamento na luta por vida em plenitude.
Em vez de prestígio individual, dignidade para todas as pessoas (Mateus 4,5-7)
Depois, o diabo seduz com o pecado do prestígio e da glória, através do espetáculo sensacionalista, do exibicionismo com poderes divinos (Mateus 4,5-6). São outras formas de poder. E, ainda, usando os anjos de Deus para chegar à fama.
Com a força do Espírito que recebeu no batismo (Mateus 3,13-17), Jesus cita Deuteronômio 6,16 para refutar mais essa oferta dos poderosos para que manipulasse o templo e a religião a seu serviço. Na proposta do Pai, porém, há glória quando todas as pessoas têm dignidade, são cidadãs, irmãs e irmãos (Mateus 12,48-50; 23,8-12). O bispo Oscar Romero diria: "A glória de Deus é a vida do pobre".
Em vez de poder centralizado, autoridade que serve; Em vez de riqueza acumulada, bens repartidos (Mateus 4,8-10)
Por fim, tal como Moisés no deserto fora tentando a concentrar o poder em suas mãos (Êxodo 18), o diabo também seduz Jesus com o pecado da ambição por poder centralizado. Jesus, porém, enfrenta este encantamento dos que aprisionam a verdade na injustiça (Romanos 1,18), citando Deuteronômio 6,13. Ele tinha claro que o poder acumulado a serviço de poucos é idolatria, é dominação (Mateus 20,25). Não é por acaso que Emerich Edward Dalberg dizia no final do século XIX: "O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente". Há algo mais satânico que o poder absoluto?
Na proposta de Jesus, o poder é participativo, é serviço, é lava pés (Mateus 20,20-28; João 13,1-17). O problema não é o poder em si, mas a concentração de poder. Poder horizontal é comunhão. Poder sobre é opressão. Em todo o caso, a ambição por poder e glória é uma das maiores tentações do diabo. E experimentamos essa condição humana em todas as nossas relações, grandes ou pequenas, seja em casa, no trabalho, nas igrejas ou até mesmo no supremo tribunal federal em Brasília.
Ao encantar Jesus com o poder sobre reinos, o diabo induz também ao pecado da riqueza acumulada, injusta. No projeto da família de Deus, a riqueza tem sentido quando partilhada com os pobres, quando serve à vida (Mateus 19,16-22). O problema não é a riqueza em si. Esta é criação de Deus. Riqueza partilhada é divina (Mateus 6,20: “ajuntai para vós tesouros no céu”). Diabólica, porém, é a riqueza acumulada (Mateus 6,19: “não ajunteis para vós tesouros na terra”), pois ela gera fome para muita gente.
Em seu ensino e em seu agir, Jesus mostra que Deus não se revela em ações a-históricas (mágicas, sensacionalistas ou extraordinárias), mesmo que feitas em seu nome. A filiação divina de Jesus revela-se nas coisas mais simples, pois é ali que está o divino. Revela-se onde há solidariedade, acolhida, justiça, cuidado, isto é, onde a Palavra de Deus é vivida. E isso não percebe quem cultiva em seu coração a cobiça por riquezas ou a ambição por poder e glória. Somente percebe o sagrado no cotidiano quem busca viver na simplicidade em comunhão com o Pai, vivendo relações amorosas e justas em todas as dimensões de sua vida.
Na paixão de Jesus, mais uma vez o poder de satanás se faz presente na força do dinheiro, nos poderes de morte. Ele corrompe Judas (Lucas 22,3), seduz Pedro (Lucas 22,31) e encanta Jesus para que abandone o projeto do Pai (Lucas 22,39-46). E, mais uma vez, Jesus derrota os poderes deste mundo. Como sabemos, a sua fidelidade à vontade de Deus tem consequências trágicas. Porém, até hoje, sua morte tem sentido para nós, pois a doação de sua vida em favor de muitos foi por uma causa justa.
Ao superar estas tentações com a força do Espírito recebido no seu batismo (Mateus 3,16), Jesus já começou a vencer os poderes de morte. Concedeu-nos a força do seu Espírito para que, como ele, também vençamos as seduções do diabo que levam à diminuição da vida ainda hoje. Por isso, pediu que rezássemos com ele: "Pai, não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do Maligno (Mateus 6,13). Dessa forma, seremos mais livres para colocar-nos a serviço da vida, aceitando o convite de Jesus: "convertei-vos porque o Reino dos céus (de Deus) está próximo" (Mateus 4,17).
(O TEXTO ORIGINAL EM ESPANHOL ESTÁ LOGO APÓS O TEXTO TRADUZIDO PELO TRADUTOR GOOGLE)
PRIMEIRO DOMINGO: A LUTA CONTRA O ESPÍRITO DO MAL 1ª leitura (Gn 2,7-9; 3,1-7):
Os primeiros capítulos de Gênesis constituem o prólogo ou introdução a toda a Bíblia e fornecem o quadro de referência necessário para que o leitor compreenda tudo o que se segue, dada a sua natureza de eventos originários e originadores. Em particular, os primeiros versículos do texto que lemos hoje revelam a iniciativa amorosa de Deus ao criar o homem do pó da terra e colocá-lo em um lugar ideal, um jardim no Éden.
A intenção de Deus é a felicidade da humanidade vivendo em comunhão com Ele . Uma característica importante emerge: a humanidade é livre, mas essa liberdade não é absoluta; é a liberdade de um ser criado, finito e limitado . E é o próprio Deus quem estabelece esse limite, que a humanidade deve aceitar livremente: não está em nosso poder estabelecer o bem e o mal. Isso é exclusivo de Deus, que estabelece a "ordem moral objetiva" explicitada na Lei ou Torá. Dentro dessa estrutura, temos um resumo que, de certa forma, antecipa o conteúdo de toda a Bíblia: o drama da relação entre Deus e a humanidade. É um drama porque existe liberdade; porque existe a possibilidade de dizer não, de se separar, de pecar .
A sutileza da tentação e a astúcia do tentador se manifestam no fato de que ele jamais convida ou ordena abertamente que alguém "coma da árvore" (isto é, que transgrida o mandamento); em vez disso, ele distorce o mandamento, exagerando a proibição ("Foi isto mesmo que Deus disse: 'Vocês não devem comer de nenhuma árvore do jardim'?") e enfraquecendo o fundamento da obediência — que é a confiança — ao semear suspeitas sobre a intenção de Deus ("Certamente vocês não morrerão. Pois Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês serão como Deus, conhecendo o bem e o mal"). Assim, comete-se o primeiro pecado, que é, acima de tudo, um ato de desobediência à Palavra de Deus .
Dada a sua natureza arquetípica ou primordial, esta história não se limita ao passado, mas ilumina o presente. Ela revela o nosso estado de "natureza decaída" e a nossa condição de pecadores, ao mesmo tempo que nos mostra como a ilusão de uma felicidade passageira fora do plano de Deus pode nos seduzir e nos levar a dar as costas ao nosso Criador.
O aparente e o superficial exercem grande influência sobre nós; por isso, nesta Quaresma, o apelo a uma maior profundidade e interioridade é tão urgente.
2ª leitura (Rm 5,12-19):
No início de sua argumentação (5:12-14), São Paulo apresenta e reconhece a gravidade do pecado de Adão e sua consequência inevitável para toda a humanidade: a morte. Sua intenção é precisamente estabelecer a universalidade do domínio do pecado no mundo, visto que, por causa do pecado de Adão — sendo Adão o líder e cabeça da humanidade — todos os seres humanos se tornaram pecadores . Nos versículos seguintes (5:15-21), Paulo demonstra a superioridade da redenção realizada em Cristo e suas consequências para todos: a justificação e a vida eterna. Portanto, em Cristo, o domínio do pecado foi vencido e substituído pelo domínio da vida nova, que agora é oferecido a todos.
Por meio desse contraste entre Adão e Cristo, São Paulo nos oferece uma interpretação cristã do pecado de Adão como a causa original de todos os pecados, com sua consequência universal: a morte. Mas, ao mesmo tempo, ele também nos permite compreender a natureza gratuita e universal da redenção realizada por Cristo, visto que a desobediência de Adão foi reparada e vencida pela obediência de Cristo. “Onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rm 5,20).
Evangelho (Mt 4,1-11):
Em comparação com o relato paralelo, porém muito mais curto, em Marcos 1:12-13, notamos que Mateus introduz os 40 dias de jejum e as tentações ao final desse período. Marcos fala da tentação em geral, enquanto Mateus especifica que houve três e as detalha, estabelecendo um claro paralelo entre Jesus e Israel. De fato, as narrativas das provações de Israel durante seus quarenta anos no deserto (cf. Êxodo 15-17 e Números 14-20) servem de pano de fundo para o relato das tentações de Jesus. Diante dessa provação, o povo reagiu com murmurações, revelando assim seus corações incrédulos. Jesus, por outro lado, vence as tentações e permanece fiel ao plano do Pai, revelando seu coração como um Filho obediente.
A menção do Espírito guiando Jesus ao deserto liga esta passagem à anterior, o Batismo de Jesus, porque “naquele momento o céu se abriu, e Jesus viu o Espírito de Deus descendo como pomba e pousando sobre ele” (Mt 3,16). As duas primeiras tentações, começando com a frase “Se tu és o Filho de Deus”, também aludem a Mt 3,17, onde “uma voz dos céus disse: ‘Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo’”. Ou seja, ao emergir das águas do Jordão, o Pai o reconhece como seu Filho amado; no deserto, o diabo testará a filiação de Jesus, sua fidelidade ao Pai.
Também muito interessante em 4:1 é o paralelo antitético entre a ação do Espírito (ὑπὸ τοῦ πνεύματος) que leva Jesus ao deserto e a ação do diabo (ὑπὸ τοῦ διαβόλου) que o tenta . Ambos os verbos “levar” e “tentar” estão na voz passiva, indicando que Jesus experimenta uma tensão entre a ação do Espírito, por um lado, e a do diabo, por outro.
O deserto se refere a uma região montanhosa e desértica ao norte do rio Jordão. Mateus destaca o jejum de Jesus de "quarenta dias e quarenta noites" (4:2) no deserto. O esclarecimento sobre as noites é importante porque o jejum mais comum era o dia todo até o pôr do sol. Ao observar que, ao final desse jejum, Jesus sentiu "fome", surge a primeira tentação, que será abordada neste tópico.
O nome “tentador” (ὁ πειράζων) ou “diabo” (diabo,loj) significa acusador, caluniador e incorpora tudo o que impede a obra de Deus. Na primeira tentação, ele é chamado de “tentador”; nas outras duas e na conclusão, de “diabo”. Jesus, por sua vez, quando lhe pede para sair na última tentação, chama-o de “Satanás” (σατανᾶ).
As duas primeiras tentações, começando como afirmações condicionais com “ Se tu és o Filho de Deus”, indicam que o tentador quer que Jesus prove , que demonstre, que ele é o Filho de Deus fazendo o que o diabo pede. Isso implica trilhar um caminho diferente daquele escolhido pelo Pai para a redenção do mundo, que é o caminho da cruz. E Jesus respondeu com fé e fidelidade à palavra do Pai. Cada “ Não” dado ao tentador representa um claro “Sim” ao Pai e à sua vontade. A fidelidade de Jesus ao Pai incluía não apenas o fim, mas também os meios . E dessa forma, sua verdadeira identidade como Filho de Deus foi confirmada.
No batismo no Jordão, Jesus foi proclamado por Deus como seu Filho. Agora, na tentação, ele demonstrou ser o Filho por meio de sua obediência ao Pai, não pelos privilégios e vantagens que isso poderia lhe trazer. À luz de todo o Evangelho, a mensagem é clara: o sinal da autenticidade da filiação divina de Jesus reside em sua obediência ao Pai, que será plenamente revelada no momento em que sua fraqueza e morte na cruz parecerem contradizê-la. A renúncia ou o esvaziamento de si que ele demonstra ao vencer as tentações prenuncia sua kenosis , ou esvaziamento de si, na cruz. Sua autoaniquilação é uma confissão da totalidade do Pai .
Vamos agora examinar brevemente o alcance de cada uma das três tentações.
A primeira tentação busca levar Jesus a direcionar sua filiação para seu próprio benefício, em vez de para a dependência e a entrega total ao Pai. O milagre seria simplesmente saciar sua fome. A resposta de Jesus, citando Deuteronômio 8:3 ("Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus"), é uma clara recusa em realizar esse milagre, juntamente com uma declaração de que sua vida é governada e nutrida pela obediência à Palavra de Deus.
A segunda tentação contém uma grande presunção, pois exige que Jesus se atire do pináculo do Templo em Jerusalém (entre 90 e 100 metros de altura), forçando Deus a intervir de maneira extraordinária para salvá-lo. Com essa ação, ele estaria exigindo que o Pai interviesse em uma situação de emergência criada por ele mesmo. Nesse caso, a tentação busca se apoiar em uma passagem bíblica (Salmo 91:11-12) na qual Jesus deve crer e se atirar “confiando” em Deus. Mas é justamente isso que a Escritura denuncia como “tentar a Deus”, na medida em que envolve tentar pôr à prova o seu poder ou fidelidade. É por isso que Jesus responde com a expressão: “Não ponham à prova o Senhor, o seu Deus”, tirada de Deuteronômio 6:16. Visto que, durante a Paixão, Jesus é convidado a realizar um ato extraordinário, a descer da cruz (cf. Mateus 27:40), para demonstrar que ele é o Filho de Deus; Essa tentação e a vitória de Jesus sobre ela são frequentemente vistas como um prenúncio do que ele vivenciaria mais tarde na Paixão.
Na terceira tentação, o diabo leva Jesus a uma montanha muito alta. Lá, ele lhe mostra todos os reinos da terra e sua glória, e lhe oferece domínio sobre o mundo. Não é essa precisamente a missão do Messias, estabelecer o seu reinado no mundo? Não deveria ele ser o rei do mundo, que unirá toda a terra em um grande reino de paz e prosperidade? Então, Jesus é tentado a fazer uma aliança com os poderes deste mundo (que o Evangelho considera estarem sob o domínio de Satanás) para cumprir sua missão. Mas o preço disso seria cair na idolatria, pois somente diante de Deus devemos nos curvar e adorá-Lo, como ensina Deuteronômio 6:13, um texto que Jesus cita.
Numa leitura global e profunda, descobrimos que: “Nas três tentações, Jesus não quer nada para si; por isso não põe Deus à prova” 2 .
Em conclusão, como A. Rodríguez observa acertadamente, 3 “Para Mateus, a tentação é um evento positivo, desejado pelo Espírito. Antes de iniciar sua missão, o Messias deve provar sua capacidade de obediência total ao Pai, a quem deve servir como o valor absoluto primordial e por quem deve assumir os riscos necessários para fazer a Sua vontade. Desta forma, ele se legitima e se apresenta como o Messias provado, o verdadeiro Filho de Deus.”
Algumas reflexões:
O Evangelho nos convida a refletir sobre o deserto como uma imagem da Quaresma que começamos a percorrer.
“Antes de tudo, o deserto, para onde Jesus se retirou, é um lugar de silêncio e pobreza, onde o homem é privado do sustento material e confronta as questões fundamentais da existência. Ele é compelido a ir ao essencial, e precisamente por isso, é mais fácil encontrar Deus” (Bento XVI). Portanto, busquemos momentos de solidão nesta Quaresma para rezar mais profundamente, refletir sobre o rumo de nossas vidas, perguntando-nos como estamos vivendo e se estamos contentes com nossas vidas, considerando nossa relação com Deus, com os outros, conosco mesmos e com a criação.
Mas o deserto também se apresenta como um lugar de tentação , luta e decisão. No deserto de nossas vidas, a verdade mais íntima de nós mesmos é testada, pois nesse espaço de silêncio e solidão, o diabólico emerge — aquilo que nos dilacera e nos divide por dentro. Nesse sentido, a Quaresma nos convida a tomar consciência dessas tentações ou impulsos internos para pecar e a combatê-los, a superá-los com a graça de Deus e as práticas quaresmais do jejum, da oração e da esmola.
As três versões compartilham protagonistas comuns. Na primeira, Adão confronta o tentador, ou diabo , na forma de uma serpente, sendo derrotado. Adão é tentado e peca, desobedecendo à Palavra de Deus.
No Evangelho, temos o confronto entre Jesus e o tentador . Aqui, Jesus vence a tentação, permanecendo fiel e obediente ao Pai.
A segunda leitura é uma excelente síntese da primeira e do Evangelho, contrastando a derrota de Adão com a vitória de Cristo e as consequências de ambas para a vida de todas as pessoas. De fato, ela apresenta melhor a nossa situação atual, pois coloca os cristãos novamente diante da possibilidade de escolha : ou o pecado e a morte com Adão , ou a graça e a vida filial com Cristo. E durante a Quaresma, somos convidados a escolher bem. E a tentação nos impele a escolher, a decidir.
Frequentemente, chamamos de tentação tudo aquilo que nos pressiona a desviar-nos do caminho de Deus. Na narrativa do Evangelho, as tentações são propostas feitas a Jesus para que se afastasse do caminho da cruz escolhido pelo Pai para salvar o mundo. São tentações relacionadas aos "meios" e não ao "fim". E nos ensinam que a fidelidade de Jesus ao Pai inclui não apenas o fim (a salvação do mundo), mas também os meios (o caminho da cruz, a obediência à Palavra de Deus). Esse tipo de tentação estará presente na jornada de todos os batizados, porque há e haverá muitas propostas para nos afastar de uma vida cristã responsável. Devemos aceitar que a tentação faz parte da jornada do discípulo até que a meta seja alcançada. Como diz a sabedoria de Sirácide 2:1: "Meu filho, se decidires servir ao Senhor, prepara a tua alma para as provações." Em resumo: "As tentações revelam nossa imperfeição; se bem administradas, nos mantêm humildes. Não devemos nos surpreender com elas; em si mesmas, não constituem nenhuma falta; mas são sinais que nos colocam em guarda" (J. Leclerq).
Mais ainda, a tentação é muitas vezes um sinal de que estamos no caminho certo, de que temos uma firme intenção de seguir em frente. Sentir a tentação não significa que somos mais pecadores; basta que não cedamos a ela, não a sigamos, não ajamos de acordo com ela . Nesse sentido, a Quaresma é uma boa oportunidade para reconhecer e desmascarar a nossa tentação atual, nomeá-la e confrontá-la. Porque, como vimos na primeira leitura, o maior perigo da tentação reside na sua natureza sutil e enganosa. Devemos estar mais atentos a tudo o que nos separa de Deus e que englobamos sob o termo "pecado". Aqui reside o primeiro tipo de tentação e a conversão quaresmal .
Uma segunda forma sutil de tentação é pensar que não precisamos nos converter; ou que nossa própria decisão basta para nos converter e salvar, que é o que o diabo, o “pai da mentira”, propõe. É por isso que o deserto, onde ocorrem provações e tentações, é também um lugar de aprendizado para a humanidade, pois ali nos tornamos conscientes de nossa fragilidade, nossa fraqueza e do pecado que habita em nossos corações. E isso é bom porque nos leva a reconhecer nossa necessidade da graça e da misericórdia de Deus. Santo Agostinho compreendeu isso muito bem, dizendo que Deus nos tenta para que possamos nos descobrir; portanto, a tentação é uma forma de questionamento e ensinamento que nos leva à descoberta de nosso verdadeiro eu.
A respeito disso, o Papa Francisco disse em sua mensagem do Angelus de 26 de fevereiro de 2023: “O demônio quer se aproveitar da condição humana de Jesus, que está fraco porque jejuou por quarenta dias e está com fome (cf. Mt 4,2). O maligno tenta então instilar nele três ‘venenos’ potentes para paralisar sua missão de unidade. E esses venenos são o apego, a desconfiança e o poder. Em primeiro lugar, o veneno do apego às coisas, do apego às necessidades; por meio de raciocínio persuasivo, o demônio tenta influenciar Jesus: ‘Você está com fome, por que precisa jejuar? Atenda à sua necessidade, satisfaça-a, você tem o direito e também o poder de fazê-lo: transforme pedras em pão.’ Depois, o segundo veneno, a desconfiança: ‘Você tem certeza de que o Pai quer o melhor para você?’, insinua o maligno. ‘Põe-o à prova, chantageia-o!’” “Atire-se do ponto mais alto do templo e faça-o fazer o que você quer.” Finalmente, o poder: “Você não precisa do seu Pai! Por que esperar pelos dons dele? Siga os padrões do mundo, conquiste tudo por si mesmo e você será poderoso!” As três tentações de Jesus. E nós também experimentamos essas três tentações constantemente. É terrível. Mas é o mesmo para nós: apego às coisas, desconfiança e sede de poder são três tentações frequentes e perigosas que o diabo usa para nos separar do Pai e fazer com que não nos sintamos mais como irmãos e irmãs uns dos outros; ele as usa para nos levar à solidão e ao desespero. É isso que o diabo quer fazer, é isso que ele quer fazer conosco: nos levar ao desespero!
Mas Jesus vence a tentação. E como ele a vence? Evitando discussões com o diabo e respondendo com a Palavra de Deus. Ele cita três passagens das Escrituras que falam de liberdade das coisas mundanas (cf. Dt 8,3), de confiança (cf. Dt 6,16) e de serviço a Deus (cf. Dt 6,13) — três passagens que se opõem à tentação. Ele nunca dialoga com o diabo, não negocia com ele, mas rejeita suas insinuações com as palavras benevolentes das Escrituras. Este é um convite para nós: não discutamos com o diabo! Não negociemos, não dialoguemos; vocês não podem derrotá-lo tentando raciocinar com ele — ele é mais forte do que nós. O diabo é derrotado quando o confrontamos com a Palavra divina em fé. Jesus nos ensina a defender, desta forma, nossa unidade com Deus e uns com os outros dos ataques daquele que divide. A Palavra divina é a resposta de Jesus às tentações do diabo.
PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
O deserto
Senhor Jesus
Que tu, sendo Deus, foste tentado
Ajude-nos a reconhecer isso em nossa jornada.
A voz daquele que vê nossa fraqueza.
Envia-nos o teu Espírito Santo.
Atravessar o deserto e encarar a escuridão.
A luta é desigual se você não estiver presente.
Eles voltarão repetidamente.
As propostas para domínio, riqueza e poder
Que a Tua Palavra seja a arma que nos defenda.
Para te ver digno e forte
Treine nosso espírito para alcançar o Bem Supremo.
Em tuas mãos, Oleiro, queremos ser barro. Amém.
1 Cf. B. Rey, Criado em Cristo Jesus. A nova criação segundo São Paulo (Fax; Madrid 1966) 80-83.
2 F. Bovon, O Evangelho Segundo São Lucas. Vol. I (Sígueme; Salamanca 1995) 289.
3 Evangelho de Mateus (DDB; Bilbao 2006) 56.
PRIMER DOMINGO: LA LUCHA CONTRA EL ESPÍRITU DEL MAL 1a. lectura (Gn 2,7-9; 3,1-7):
Los primeros capítulos del Génesis constituyen el prólogo o introducción a toda la Biblia y nos dan el marco referencial que necesita el lector para comprender todo lo que se narrará a continuación, dado su carácter de eventos originarios y originantes. En particular los primeros versículos del texto que leemos hoy nos revelan la iniciativa amorosa de Dios al crear al hombre del polvo de la tierra y colocarlo en un lugar ideal, un jardín en Edén.
La intención de Dios es la felicidad del hombre viviendo en la amistad con Él. A su vez aparece un rasgo importante: el hombre es libre, pero esta libertad no es absoluta, es la libertad de un ser creado, finito, limitado. Y es el mismo Dios quien le fija este límite que el hombre debe libremente aceptar: no está en sus manos establecer el bien y el mal. Es algo exclusivo de Dios, quien establece el “orden moral objetivo” que viene explicitado en la Ley o Torá. En este marco se nos brinda a continuación un resumen que anticipa en cierto modo el contenido de todo la Biblia: el drama de las relaciones entre Dios y los hombres. Es un drama porque hay libertad; porque hay posibilidad de decir no, de separarse, de pecar.
La sutileza de la tentación y la astucia del tentador se muestran en que nunca invita o manda abiertamente «comer del árbol» (o sea transgredir el mandamiento); sino que desfigura el mandamiento exagerando la prohibición (“¿Así que Dios les ordenó que no comieran de ningún árbol del jardín?”) y debilitando el fundamento de la obediencia - que es la confianza - sembrando sospechas acerca de la intención de Dios (“No, no morirán. Dios sabe muy bien que cuando ustedes coman de ese árbol, se les abrirán los ojos y serán como dioses, conocedores del bien y del mal”). Se comete así el primer pecado que es, ante todo, un acto de desobediencia a la Palabra de Dios.
Dado su carácter arquetípico o primordial, este relato no queda encerrado en el pasado, sino que ilumina el presente. Nos revela nuestro estado de “naturaleza caída” y nuestra condición de pecadores, al mismo tiempo que nos muestra cómo el espejismo de una felicidad pasajera al margen del plan de Dios puede seducirnos y llevarnos a dar la espalda a nuestro Creador.
Lo aparente y superficial tiene mucha influencia sobre nosotros; por eso es tan urgente el llamado, en esta cuaresma, a una mayor profundidad e interioridad.
2a. lectura (Rom 5,12-19):
Al comienzo de su argumentación (5,12-14) San Pablo presenta y asume la gravedad del pecado de Adán con su inevitable consecuencia para todos los hombres: la muerte. Su intención es justamente establecer la universalidad del reino del pecado en el mundo, por cuanto a causa del pecado de Adán, quien actuó como jefe y cabeza de la humanidad, todos los hombres quedaron constituidos pecadores1. En los versículos siguientes (5,15-21) Pablo se dedica a demostrar la superioridad de la redención obrada en Cristo y sus consecuencias en favor de todos los hombres: la justificación y la vida eterna. Por tanto, en Cristo el reinado del pecado ha sido vencido y sustituido por el reinado de la vida nueva, que ahora se ofrece a todos los hombres.
A través de esta contraposición entre Adán y Cristo, San Pablo nos da la posibilidad de una lectura cristiana del pecado de Adán como original originante con su consecuencia universal: la muerte. Pero a su vez nos permite también captar la gratuidad y universalidad de la redención obrada por Cristo, ya que la desobediencia de Adán fue reparada y superada por la obediencia de Cristo. “Donde abundó el pecado, sobreabundó la gracia” (Rom 5,20).
Evangelio (Mt 4,1-11):
En comparación con el relato paralelo, pero mucho más breve de Mc 1,12-13 señalamos que Mateo introduce los 40 días de ayuno y las tentaciones al final de este período. Marcos habla de tentación en general mientras que Mateo especifica que fueron tres y las desarrolla estableciendo un claro paralelismo entre Jesús e Israel. En efecto, como trasfondo del relato de las tentaciones de Jesús están las narraciones de las pruebas de Israel durante los cuarenta años de camino por el desierto (cf. Ex 15-17 y Nm 14-20). Ante la prueba el pueblo reaccionó con la murmuración y reveló así su corazón incrédulo. Jesús, en cambio, vence las tentaciones y permanece fiel al designio del Padre, revelando su corazón de Hijo obediente.
La mención del Espíritu que conduce a Jesús al desierto vincula este texto con el anterior, el del Bautismo de Jesús, porque en “ese momento se abrieron los cielos, y vio al Espíritu de Dios descender como una paloma y dirigirse hacia él” (Mt 3,16). También las dos primeras tentaciones, al comenzar con la expresión “Si eres Hijo de Dios”, remiten a Mt 3,17 dónde “se oyó una voz del cielo que decía: "Este es mi Hijo muy querido, en quien tengo puesta toda mi predilección”. Es decir, al salir de las aguas del Jordán el Padre lo confiesa como su Hijo muy querido; en el desierto el diablo va a poner a prueba la filiación de Jesús, su fidelidad al Padre.
También es muy interesante en 4,1 el paralelismo antitético entre la acción del Espíritu (ὑπὸ τοῦ πνεύματος) que conduce a Jesús al desierto y la acción del diablo (ὑπὸ τοῦ διαβόλου) que lo tienta. Tanto el verbo “conducir” como “tentar” están en pasivo señalando que Jesús sufre una tensión entre la acción del Espíritu por un lado y la del diablo por otra.
El desierto se referiría a una zona montañosa desértica que está al norte del río Jordán. Mateo resalta el ayuno de “cuarenta días con sus cuarenta noches” (4,2) que hace Jesús en el desierto. Vale la aclaración de las noches porque el ayuno más frecuente era durante todo el día hasta el atardecer. Alseñalar que al final de este ayuno Jesús sintió “hambre”, da pie a la primera tentación que será sobre este tópico.
El nombre de “tentador” (ὁ πειράζων) o "diablo" (diabo,loj) significa acusador, calumniador, y encarna todo lo que obstaculiza la obra de Dios. En la primera tentación se lo nombra como el “tentador”; en las otras dos y en la conclusión como el “diablo”. Jesús, por su parte, cuando le pide que se aleje en la última tentación lo llama “satanás” (σατανᾶ).
Las dos primeras tentaciones, al comenzar como oraciones condicionales con “Si eres Hijo de Dios”, indican que el tentador quiere que Jesús pruebe, demuestre que es Hijo de Dios, haciendo lo que el diablo le pide. Esto implica tomar un camino distinto del elegido por el Padre para la redención del mundo, que es el camino de la cruz. Y Jesús respondió con Fe/Fidelidad a la Palabra del Padre. Cada No dado al tentador supone un claro Sí al Padre y a su Voluntad. La fidelidad de Jesús al Padre incluyó no sólo el fin sino también los medios. Y de este modo quedó confirmada su verdadera identidad de Hijo de Dios.
Al ser bautizado en el Jordán Jesús fue proclamado por Dios como su Hijo, ahora en la tentación demostró ser Hijo por su obediencia al Padre; no por los privilegios y facilismos que esto podría traerle. A la luz de todo el evangelio es claro el mensaje de que el signo de autenticidad de la filiación Divina de Jesús está en su obediencia al Padre que se manifestará más plenamente en el momento en que su debilidad y su muerte en cruz parecen desmentirla. La renuncia o despojo de sí mismo que manifiesta al vencer las tentaciones anticipan su kénosis o vaciamiento en la cruz. Su anonadamiento es una confesión de la totalidad del Padre.
Veamos ahora muy brevemente el alcance de cada una de las tres tentaciones.
La primera tentación busca que Jesús oriente su filiación en beneficio de sí mismo y no como dependencia y donación total al Padre. El milagro sería simplemente para satisfacer su hambre. La respuesta de Jesús, citando Dt 8,3 ("El hombre no vive solamente de pan, sino de toda palabra que sale de la boca de Dios"), es una clara negativa a hacer este milagro junto a una declaración de que su vida se regula, se alimenta de la obediencia a la Palabra de Dios.
La segunda tentación encierra una gran presunción pues quiere que Jesús salte del pináculo del templo de Jerusalén (entre 90 y 100 metros de altura), obligando a Dios a intervenir de modo extraordinario para salvarlo. Con esta acción le estaría exigiendo al Padre que interviniera en una situación de emergencia provocada por él mismo. En este caso la tentación busca apoyarse en una cita bíblica (Sal 91,11-12) en la que Jesús debe creer y arrojarse “confiando” en Dios. Pero esto es lo que justamente la Escritura denuncia como “tentar a Dios”, en cuanto querer poner a prueba su poder o su fidelidad. Por eso Jesús responde con la expresión: “no tentarás al Señor tu Dios” tomada de Dt 6,16. Dado que durante la pasión se invita a Jesús a que haga un acto extraordinario, que baje de la cruz (cf. Mt 27,40), para demostrar que es Hijo de Dios; se suele ver en esta tentación y en la victoria de Jesús sobre la misma un anticipo de lo que luego le tocará vivir en la pasión.
En la tercera tentación el diablo lleva a Jesús a un monte muy alto. Allí le muestra todos los reinos de la tierra y su gloria, y le ofrece el dominio del mundo. ¿No es precisamente esa la misión del Mesías, establecer su reinado en el mundo? ¿No debe ser Él el rey del mundo, que reunirá a toda la tierra en un gran reino de paz y de bienestar? Entonces se le sugiere a Jesús que haga alianza con los poderes de este mundo (que el evangelio considera bajo dominio de Satán) para realizar su misión. Pero el precio de esto sería caer en idolatría, pues sólo ante Dios hay que postrarse y adorar, como enseña Dt 6,13, texto que Jesús cita.
En una lectura global y profunda descubrimos que: “En las tres tentaciones, Jesús no quiere nada para sí mismo; por eso no pone a Dios a prueba”2.
En conclusión, como bien nota A. Rodríguez3“Para Mateo, la tentación es un hecho positivo, querido por el Espíritu. Antes de comenzar su misión, el Mesías debe probar su capacidad de obediencia total al Padre, a quien tiene que servir como primer valor absoluto y por el que debe asumir los riesgos necesarios para hacer su voluntad. De esta forma se legitima y presenta como Mesías probado, verdadero Hijo de Dios.”
Algunas reflexiones:
El evangelio nos invita a reflexionar sobre el desierto como imagen de la cuaresma que hemos comenzado a caminar.
"En primer lugar el desierto, donde Jesús se retira, es el lugar del silencio, de la pobreza, donde el hombre es privado de los apoyos materiales y se encuentra de frente a las preguntas fundamentales de la existencia, es empujado a ir a lo esencial y precisamente por esto es más fácil encontrar a Dios" (Benedicto XVI). Por tanto, busquemos en esta cuaresma momentos de soledad para orar más, para reflexionar sobre el curso de nuestra vida, preguntándonos cómo estamos viviendo y si estamos conformes con nuestra vida considerando nuestra relación con Dios, con los demás, con nosotros mismos y con la creación.
Pero también el desierto aparece como el lugar de la tentación, de la lucha, de la decisión. En el desierto de nuestras vidas se pone a prueba la verdad más íntima de nosotros mismos pues en este espacio de silencio y de soledad aparece lo diabólico, es decir lo que desgarra y divide interiormente al hombre. En este sentido, la cuaresma nos invita a tomar conciencia de estas tentaciones o solicitudes internas al pecado y a combatirlas, a vencerlas con la gracia de Dios y las prácticas cuaresmales (ayuno, oración y limosna).
Las tres lecturas tienen protagonistas en común. En la primera se enfrentan Adán y el tentador o diablo, en forma de serpiente, con la derrota del primero. Adán es tentado y peca, desobedece a la Palabra de Dios.
En el evangelio tenemos el enfrentamiento entre Jesús y el tentador. Aquí Jesús vence la tentación, permanece fiel y obediente al Padre.
La segunda lectura es una excelente síntesis entre la primera y el evangelio al contraponer la derrota de Adán con la victoria de Cristo y las consecuencias de ambas acciones para la vida de todos los hombres. En efecto, ella es la que presenta mejor nuestra situación actual pues de algún modo vuelve a colocar al cristiano ante la posibilidad de elegir: o el pecado y la muerte con Adán; o la gracia y la vida filial con Cristo. Y en Cuaresma se nos invita a elegir bien. Y la tentación nos obliga a elegir, a decidirnos.
Solemos llamar tentación a todo aquello que nos presiona para apartarnos del camino de Dios. En el relato evangélico las tentaciones son propuestas hechas a Jesús para que se aparte del camino de la cruz elegido por el Padre para salvar al mundo. Son tentaciones en relación a los “medios” y no al “fin”. Y nos enseñan que la fidelidad de Jesús al Padre incluye no sólo el fin (la salvación del mundo) sino también los medios (el camino de la cruz, la obediencia a la Palabra de Dios). Esta forma de tentación estará presente en el camino de todos los bautizados porque hay y habrá muchas propuestas para apartarnos de una vida cristiana responsable. Hay que aceptar que la tentación forma parte del camino del discípulo hasta que haya llegado a la meta. Ya lo decía la sabiduría de Eclo 2,1: "Hijo, si te decides a servir al Señor, prepara tu alma para la prueba". En resumen: "Las tentaciones manifiestan nuestra imperfección; bien tomadas, nos mantienen en la humildad. No hay que extrañarse de ellas; en sí no constituyen falta alguna; pero son signos que nos ponen en guardia" (J. Leclerq).
Incluso más, muchas veces la tentación es un signo de que vamos de camino, de que tenemos la firme intención de avanzar. Sentir la tentación no significa que seamos más pecadores, basta que no la con-sintamos, no la sigamos, no la obremos. En este sentido la cuaresma es una buena oportunidad para reconocer y desenmascarar nuestra tentación actual, ponerle un nombre y enfrentarla. Porque como vimos en la primera lectura, el mayor peligro de la tentación está en su carácter sutil y engañoso. Debemos estar más atentos a todo aquello que nos aparta de Dios y que englobamos bajo el término de pecado. Aquí se juega un primer tipo de tentación y de conversión cuaresmal.
Una segunda forma sutil de tentación es pensar que no tenemos necesidad de convertirnos; o de que basta nuestra decisión para convertirnos y salvarnos, que es lo que nos propone el diablo, el “padre de la mentira”. Por eso el desierto, dónde se dan la prueba y la tentación, es también un lugar de aprendizaje para el hombre pues allí mismo tomamos conciencia de nuestra fragilidad, de nuestra debilidad y del pecado que anida en nuestro corazón. Y esto es bueno porque nos lleva a reconocer que necesitamos de la gracia y la misericordia de Dios. Esto lo notó muy bien San Agustín quien al respecto decía que Dios tienta a fin de que el hombre mismo se descubra; por tanto la tentación es una forma de interrogación y de enseñanza que conduce al hombre al descubrimiento de su verdadero yo.
Al respecto decía el Papa Francisco en el ángelus del 26 de febrero de 2023: “El diablo quiere aprovechar la condición humana de Jesús, que se encuentra débil porque ha ayunado durante cuarenta días y tiene hambre (cfr. Mt 4,2). El maligno intenta entonces instilar en Él tres “venenos” potentes con el fin de paralizar su misión de unidad. Y estos venenos son el apego, la desconfianza y el poder. Ante todo, el veneno del apego a las cosas, el apego a las necesidades; mediante razonamientos persuasivos, el diablo trata de sugestionar a Jesús: “Tienes hambre, ¿por qué tienes que ayunar? Escucha tu necesidad, satisfácela, tienes derecho y tienes también poder para ello: transforma las piedras en pan”. Después, el segundo veneno, la desconfianza: “¿Estás seguro de que el Padre quiere tu bien? —insinúa el maligno—. ¡Ponlo a prueba, chantajéalo! Tírate desde el punto más alto del templo y haz que haga lo que tú quieres”. Por último, el poder: “¡No necesitas a tu Padre! ¿Por qué esperar sus dones? ¡Sigue los criterios del mundo, logra todo tú solo y serás poderoso!”. Las tres tentaciones de Jesús. E igualmente nosotros vivimos estas tres tentaciones, siempre. Es terrible. Pero es así también para nosotros: el apego a las cosas, la desconfianza y la sed de poder son tres tentaciones frecuentes y peligrosas que el diablo emplea con el fin de dividirnos del Padre y hacer que ya no nos sintamos hermanos y hermanas entre nosotros; las usa para llevarnos a la soledad y a la desesperación. ¡Esto es lo que quiere hacer el diablo, esto es lo que quiere hacernos a nosotros: llevarnos a la desesperación!
Pero Jesús vence las tentaciones. ¿Y cómo las vence? Evitando discutir con el diablo y respondiendo con la Palabra de Dios. Cita tres frases de las Escrituras que hablan de libertad respecto a las cosas (cfr. Dt 8,3), de confianza (cfr. Dt 6,16) y de servicio a Dios (cfr. Dt 6,13), tres frases opuestas a las tentaciones. No dialoga nunca con el diablo, no negocia con él, sino que rechaza sus insinuaciones con las Palabras benéficas de las Escrituras. Esto supone una invitación para nosotros: ¡con el diablo no se discute! No se negocia, no se dialoga; no se le vence tratando con él, es más fuerte que nosotros. Al diablo se le vence oponiéndole con fe la Palabra divina. Jesús nos enseña a defender de este modo la unidad con Dios y entre nosotros de los ataques del que divide. La Palabra divina es la respuesta de Jesús a las tentaciones del diablo”.
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
El desierto
Señor Jesús
Que siendo Dios fuiste tentado
Ayúdanos a reconocer en nuestro andar
La voz de aquel que ve nuestra debilidad
Envíanos tu Espíritu Santo
Para atravesar el desierto y enfrentar la oscuridad
La lucha es desigual si Tú no estás
Vendrán una y otra vez
Las propuestas de dominio, de riqueza y poder
Tu Palabra sea el arma que nos pueda defender
Contemplarte digno y fuerte
Ejercite nuestro espíritu para ir al Sumo Bien
En tus manos Alfarero, barro queremos ser. Amén.
1 Cf. B. Rey, Creados en Cristo Jesús. La nueva creación según San Pablo (Fax; Madrid 1966) 80-83.
2 F. Bovon, El evangelio según San Lucas. Vol. I (Sígueme; Salamanca 1995) 289.
3 Evangelio de Mateo (DDB; Bilbao 2006) 56.