01/02/2026
AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
1ª Leitura: Sofonias 2,3;3,12-13
Salmo 145 (146) R- Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus!
2ª leitura:- 1 Coríntios 1, 26-31
Evangelho de Mateus 5,1-12a
Proclamação do evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus – Naquele tempo, 1vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2e Jesus começou a ensiná-los: 3“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus. 4Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. 11Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por causa de mim. 12Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”. – Palavra da salvação
Mt 5,1-10: As Bem-aventuranças
Todos nós desejamos a felicidade e nesta busca da felicidade podemos seguir vários caminhos. Alguns podem seguir os caminhos do mundo, procurando a felicidade na força e na riqueza. Não demora muito, esses descobrem que se trata de um beco sem saída: a felicidade tão desejada se distancia cada vez mais.
Jesus proclamou as bem-aventuranças como um programa de uma felicidade que se expande de maneira poderosa. Trata-se de um programa de existência feliz.
Devemos notar que este programa não é pura teoria, pois o próprio Jesus viveu as bem-aventuranças de modo perfeito. Por isso, se quisermos entender bem as bem-aventuranças, é preciso olhar para Jesus.
Mais. Os cristãos, que escutaram o grande anúncio da felicidade, são também os pregoeiros e as testemunhas da felicidade. Esta é a norma de vida da igreja.
Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos Céus (5,3)
Os pobres são os que padecem miséria no mundo, são os pobres materiais, os perdidos da terra, os famintos, os que padecem, no mundo da opressão, o desamparo, a impotência. O Reino de Deus é graça.
Todavia Mateus explicitou esta palavra quando diz os pobres em espírito. Ao acrescentar “de espírito” quis referir-se aos que assumem voluntariamente a pobreza dentro da Igreja; poderiam realizar-se como ricos, cultivar seu próprio bem, buscando suas vantagens; contudo à luz do Evangelho preferiram a pobreza. São pobres por seu espírito, isto é, por decisão consciente, programada.
A riqueza deste mundo é destruidora, pois divide as pessoas e os leva a se dominarem uns aos outros. Por isso são felizes os pobres materiais, aqueles que são marginalizados e explorados da vida: Deus está do lado deles. Mas também são bem-aventurados os que optaram pelo caminho da pobreza.
Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados (5,4)
A maior parte das pessoas quer se libertar, eliminando o sofrimento; por isso o evitamos, esquecendo os males que nos cercam, caminhando como cegos, como surdos, no meio de uma terra em que milhões de pessoas choram. Ficamos presos em nossa gaiola de ouro de nossa autossuficiência. Drogamo-nos e nos alienamos.
Pois bem, o Evangelho sabe que não existe felicidade verdadeira no esquecimento e na indiferença. Temos que assumir nosso próprio sofrimento, como um tipo de pobreza radical, com simplicidade e coragem e aceitando o dom do Reino como nosso consolo. São felizes aqueles que assumem interiormente o sofrimento com maturidade e alegria.
Também aqui poderíamos falar de pessoas que choram “em espírito”, isto é, assumem a dor dos outros para solidarizar-se, para acompanhar e ajudar os aflitos.
Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra (5,5)
Mansos são aqueles que não impõem um jugo dominante aos outros; acolhem e ajudam os outros sem colocar fardos sobre seus ombros (vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei, porque sou manso e humilde de coração e o meu jugo é suave e meu peso leve).
Os mansos herdarão a terra. Não a herdam os que tentam conquistá-la com exército e riqueza, com astúcia e com guerra. Em vez de libertá-la, eles a destroem. Contra eles, Jesus pronuncia sua bem-aventurança: quem pretende receber a herança da terra tem que vir de forma humilde, mansamente, sem violência.
O manso não é um fraco. Pelo contrário é criativo e tenaz. Está empenhado em libertar a terra e vive em gesto de confiança para com os outros. Escolhe a pobreza, assume o sofrimento.
Este é o paradoxo que Jesus veio trazer à terra: os que tentam impor sua força dominando os outros destroem a vida das pessoas e aniquilam a terra; só os que buscam mansamente e colaboram com os outros, cheios de esperança, constróem a cidade de amor para os homens.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados (5,6)
Os mansos não são indiferentes. Estão cheios de zelo pela casa de Deus e por isso têm fome e sede de justiça.
Fome e sede indicam um desejo originário da vida: são a força que mantém os homens em ação e os leva à busca e conquista dos bens materiais. Pois bem, o Evangelho quer que despertemos uma forma diferente de inquietação e de desejo: fome e sede de justiça.
Justiça significa a plenitude do Evangelho, o dom de Deus aberto aos pobres, aos perdidos e humilhados da terra. Não é justiça a atitude daquele que pretende respeitar a ordem existente, de modo que cada um se feche no que lhe é próprio. Segundo a tradição bíblica, justiça significa amor que age: é compaixão, ajuda aos pobres, solidariedade comprometida.
A justiça tende a fartura, a injustiça é divisão, carestia, opressão.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia (5,7)
Alcançarão misericórdia de quem? De Deus. Os misericordiosos serão tratados misericordiosamente por Deus. Quem é misericordioso terá misericórdia de Deus.
Conforme os princípios deste mundo, a gente só adquire aquilo que é capaz de conquistar por meio da violência; devo negar ou escravizar os outros a fim de realizar minha vida.
Pois bem, o Evangelho inverte o princípio dizendo: “Dai e vos será dado” (Lc 6,38). A vida é graça e só ali onde se exprime gratuitamente surge a felicidade verdadeira. Tenho o que ofereço, conservo o que dou. Dessa forma, sou misericordioso: entro na lógica de Deus que oferece a vida a todos os viventes.
Bem-aventurados os puros de coração porque eles verão a Deus (5,8)
Os doutores da Lei procuravam ter mãos limpas, ou seja, estavam somente preocupados em seguir as leis e suas tradições. A pureza deles era pureza de sangue, de raça, de costumes sócio-religiosos, de conhecimentos e de normas. É a pureza de um grupinho separado do conjunto dos outros. Cristo pelo contrário busca a limpeza de coração.
Bem-aventurados os que promovem a paz, porque eles serão chamados filhos de Deus (5,9)
Paz não é resultado da força, não se consegue com violência. A paz é sempre graça. Só aparece ali onde as pessoas quebram a lógica do interesse, do domínio de uns sobre os outros.
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus (5,10)
Não podemos ser cristãos sem riscos e perigos. Os bem-aventurados de Jesus não buscam abrigo de um lugar seguro, não fogem para o intimismo. Eles apresentam o programa de vida e de alegria de Jesus nas praças e nas ruas onde estão as pessoas. Sua mensagem é de inversão dos valores e princípios deste mundo.
Esta mensagem não se impõe pela violência e nisto reside o risco. Este risco pertence ao núcleo radical do Evangelho.
4ºDTComum-Mt 5, 1-12-Ano A-01-02-2026
“Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,12)s
Bem-aventuranças não são um tratado de moral nem um código de leis que se impõe de fora a cada um de nós; elas expressam simplesmente a experiência de Jesus, que vivia constantemente com os olhos bem abertos, captando a essência do ser humano. Todas e cada uma das bem-aventuranças são autobiográficas. Jesus viveu-as durante 30 anos, antes de proclamá-las. Elas são, portanto, a expressão do que constitui o centro mesmo da sua pessoa e da sua vida, dos seus sentimentos, atitudes; numa palavra, do seu mistério. Poderíamos dizer que as bem-aventuranças são o autorretrato de Jesus: nelas, Ele deixa transparecer um coração pleno de vida, compassivo, solidário, pacífico, sensível à realidade…; nelas, Jesus não descreve sua felicidade particular, mas a oferta de uma vida plena e feliz a todo ser humano.
De fato, as bem-aventuranças correspondem àquilo que é mais nobre em cada ser humano; elas desvelam o mais profundo do ser humano, de toda ser humano, aquilo que coincide em toda pessoa: ser feliz, vida ditosa, prazerosa, viver a plenitude na relação pessoal. Todos coincidimos nessa busca.
Jesus instigou seus ouvintes a expandirem sua capacidade de observar, interiorizar, descobrir e agir. Não queria pessoas tímidas, frágeis, submissas, mas pessoas inspiradas e livres para mudar o sentido da história, pessoal e coletiva.
Por mais que leiamos ou saboreemos, as bem-aventuranças sempre nos soam bem, tem sempre um sabor diferente; elas são casa que sempre nos acolhe, lugar no qual o Senhor sempre nos espera. Por isso, é um prazer escutá-las de novo neste domingo.
Fala-se de gente bem-aventurada, ditosa, sortuda. O vocábulo grego “makarios” significa justamente isso: alguém a quem a sorte lhe sorriu, que se encontrou com grande prêmio inesperado, que não sabia que tinha em sua casa um tesouro desconhecido. Por isso, ao comprovar sua sorte, se sente ditoso, agradecido, feliz, solidário.
As bem-aventuranças não descrevem um estado ideal, nem uma enumeração de prêmios recebidos por aquilo que fazemos, mas nos apresentam um horizonte alternativo. Elas são o “portal de entrada” do sermão da Montanha que nos convida a imaginar um mundo alternativo no qual a violência dê lugar à compaixão, as relações sejam justas e equitativas e todos possam ter acesso aos recursos disponíveis. Não é questão de alcançar alturas espirituais, mas de expandir a vida para tornar possível um mundo diferente, um mundo de acordo com o sonho do Reino de Deus, iniciado por Jesus.
As bem-aventuranças nos situam em um espaço alternativo, a partir de onde podemos ter uma nova perspectiva da realidade e de Deus. Este novo espaço é o que Jesus chamou Reino de Deus, e as bem-aventuranças são centrais para imaginar esse lugar. As bem-aventuranças e o Reino de Deus estão de mãos dadas.
Jesus, ao proclamá-las, está nos convidando a recriar os lugares que habitamos, está nos chamando a pensar e viver a partir de outros valores, com outras atitudes e práticas que, sem dúvida, não nos situarão nos centros de poder, mas nas margens, porque não se harmonizam com o que a maioria pensa.
Ao escutá-las com atenção, encontramos o “modo de proceder” e as atitudes sintonizadas com o coração de Deus. Portanto, quem quiser fazer parte da comunidade do Reino precisa não só as valorizar e estimá-las, mas convertê-las em sinais de identidade cristã.
As bem-aventuranças nos movem a denunciar as guerras, a fome, o ódio, a intolerância e as injustiças de nosso mundo, e a escutar os gritos dos pobres e da terra. As bem-aventuranças nos pedem que não nos deixemos determinar pela indiferença diante da dor de nosso mundo; elas nos despertam e nos fazem ver que já é hora de trabalhar em favor do bem comum das pessoas e do planeta terra. Frente o escândalo das guerras, da fome, do ódio e da mentira, as bem-aventuranças são para nós luz de esperança e sementes de uma vida nova.
Na formulação de cada bem-aventurança há duas partes: o que pede de todos nós e o que nos promete. Pede-nos: revestir-nos do modo de ser e viver de Jesus, levando uma vida centrada na partilha e na comunhão de bens, renunciando à violência, compadecendo-nos frente à dor dos outros, vivendo a autenticidade da entrega, da disponibilidade, sendo presença misericordiosa, justa, pacífica, etc.
Promete-nos: nossa plenitude humana e divina, ou seja, o Reinado de Deus em nós.
Podemos também afirmar que cada bem-aventurança começa na “precariedade” e termina na “completude”: o vazio do ter se converte em plenitude do ser (5,3); pela sensibilidade solidária com os que padecem chega-se a ser consolado (5,4); pelo despojamento, os humildes se convertem na camada de húmus fértil que cobre a terra (5,5); o desejo de que haja justiça anuncia as primícias de uma humanidade nova (5,6); o descentramento de pôr o coração na miséria alheia se converte em capacidade para receber a misericórdia de Deus na própria miséria (5,7); a transparência do olhar que não julga nem compara, mas que acolhe incondicionalmente, se converte em percepção de que Deus está presente em toda situação (5,8); a preocupação pela paz faz partícipes de uma fraternidade sem fronteiras, nessa difícil tarefa de reconciliar os humanos (5,9); os que são fiéis a causas justas, para além dos modismos e dos interesses mesquinhos, são felizes porque tem o Absoluto dentro e fora de si mesmos, mesmo que sejam perseguidos porque se antecipam aos seus tempos, tal como aconteceu com os profetas e com o próprio Jesus (5,10-11).
Tudo isso são imagens da humanidade transfigurada a partir da humanidade desfigurada, a passagem entre o já e o ainda não. Nesse longo trajeto transcorre a existência de cada um e da humanidade inteira. Essa travessia, esta Páscoa, não se faz por outro caminho a não ser iluminando a realidade mesma na qual cada um se encontra.
No fundo, as bem-aventuranças são o caminho para descobrir a Deus em nós mesmos (nossa bondade e compaixão, nossa dimensão divina) e nos outros com quem Deus se identifica e se encarna (“foi a mim que fizestes”). Isso nos faz felizes porque encontramos o tesouro escondido: Deus em nós; somos “seres habitados” e nos parecemos com Deus em seus atributos (bondade, misericórdia, justiça…). Assim, nossa vida adquire um sentido transcendente, pleno…; nas bem-aventuranças, encontramos razões para viver…
Infelizmente, a espiritualidade cristã se ocupou mais com o sofrimento do que com a alegria, se preocupou mais com mortificações, penitências, situações duras e penosas da vida do que com aquilo que nos proporciona felicidade, bem-estar e satisfação; alimentou uma religião da culpa, do medo e se distanciou do prazer de viver, descentrado e aberto.
E o que é a felicidade despertada pela vivência das bem-aventuranças? Trata-se de um estado de serenidade, como a capacidade de atravessar as perturbações cotidianas sem cair no desespero.
Felicidade como possibilidade de acalmar a consciência e repousar a mente muitas vezes atormentada.
Felicidade como vivência mansa, mas distante do imobilismo e da acomodação.
Nós, cristãos, às vezes esquecemos que o Evangelho é uma resposta a esse desejo profundo de felicidade que habita o nosso coração. Às vezes, não conseguimos ver em Cristo alguém que promete felicidade e que nos conduz até ela. Não acreditamos que as bem-aventuranças, antes que exigências morais, são anúncio de uma vida ditosa. Temos a tendência de pensar que a fé é algo que tem a ver exclusivamente com uma salvação futura e distante, e não com a felicidade concreta de cada dia.
O caminho desenhado nas bem-aventuranças pode nos fazer conhecer a felicidade vivida pelo próprio Jesus. Somente assim nossas pequenas alegrias alcançarão sua plenitude.
Texto bíblico: Mt 5,1-12
Na oração: o melhor modo de fazer esta oração é seguir um dos “modos de orar” proposto por S. Inácio, ou seja: “Contemplar o significado de cada palavra das bem-aventuranças”.
– Reze as dimensões da vida que estão paralisadas, impedindo-lhe de viver a dinâmica das bem-aventuranças.
– Como ser presença visível das bem-aventuranças no seu cotidiano?
Ao formular as bem-aventuranças, Mateus, diferentemente de Lucas, preocupa-se em traçar as linhas que devem caracterizar os seguidores de Jesus. Daí a importância que têm para nós nestes tempos em que a Igreja deve ir encontrando o seu próprio estilo de vida no meio de uma sociedade secularizada.
Não é possível propor a Boa Nova de Jesus de qualquer forma. O Evangelho se difunde somente a partir de atitudes evangélicas. As bem-aventuranças nos indicam o espírito que há de inspirar a atuação da Igreja enquanto peregrina a caminho do Pai. Temos de escutá-las em atitude de conversão pessoal e comunitária. Somente assim poderemos caminhar para o futuro.
Feliz a Igreja “pobre de espírito” e de coração simples, que atua sem prepotência nem arrogância, sem riquezas nem esplendor, sustentada pela autoridade humilde de Jesus. Dela é o reino de Deus.
Feliz a Igreja que chora com os que choram e sofrem, ao ser despojada de privilégios e poder, pois poderá partilhar melhor a sorte dos perdedores e também o destino de Jesus. Um dia será consolada por Deus.
Feliz a Igreja que renuncia a impor-se pela força, pela coação ou pela submissão, praticando sempre a mansidão do seu Mestre e Senhor. Herdará um dia a terra prometida.
Feliz a Igreja que tem fome e sede de justiça dentro de si mesma e para o mundo inteiro, pois procurará a sua própria conversão e trabalhará por uma vida mais justa e digna para todos, começando pelos últimos. A sua ânsia será saciada por Deus.
Feliz a Igreja compassiva que renuncia ao rigorismo e prefere a misericórdia antes que os sacrifícios, pois acolherá os pecadores e não lhes ocultará a Boa Nova de Jesus. Ela obterá de Deus a misericórdia.
Feliz a Igreja de coração limpo e conduta transparente, que não encobre os seus pecados nem promove o secretismo ou a ambiguidade, pois caminhará na verdade de Jesus. Um dia verá Deus.
Feliz a Igreja que trabalha pela paz e luta contra as guerras, que junta os corações e semeia a concórdia, pois contagiará a paz de Jesus que o mundo não pode dar. Ela será filha de Deus.
Feliz a Igreja que sofre hostilidade e perseguição por causa da justiça sem evitar o martírio, pois saberá chorar com as vítimas e conhecerá a cruz de Jesus. Dela é o reino de Deus.
A sociedade atual necessita conhecer comunidades cristãs marcadas por este espírito das bem-aventuranças. Somente uma Igreja evangélica tem autoridade e credibilidade para mostrar o rosto de Jesus aos homens e mulheres de hoje.
Cada um de nós deve decidir como quer viver e como quer morrer. Cada um deve escutar a sua própria verdade. Para mim, não é o mesmo acreditar em Deus que não acreditar nele. Para mim, faz bem realizar o caminho por este mundo sentindo-me acolhido, fortalecido, perdoado e salvo pelo Deus revelado em Jesus.
Hoje lemos as bem-aventuranças, muito conhecidas, mas não sempre entendidas na sua riqueza e variedade. Para entender melhor seu sentido tentemos imaginar a cena descrita no texto evangélico.
No domingo passado aprofundamos e Jesus que percorre Galilea anunciando a boa nova. Hoje vemos Jesus subindo um monte acompanhado de uma multidão que com desejo de segui-lo, escutar suas palavras, receber seu consolo.
Quem são essas pessoas?
Nos versículos precedem o Sermão da Montanha Mateus no-lo diz:"doentes atingidos por diversos males e tormentos: endemoninhados, epilépticos e paralíticos, numerosas multidões da Galileia, da Decápole, de Jerusalém da Judéia e do outro lado do rio Jordão começaram a seguir Jesus" (Mt 4, 24-25).
Pessoas que ficaram impressionadas com suas atitudes no meio do povo e sua pessoa os atrai, desejam escutá-lo, e possivelmente receber algum milagre, alguma cura. A procissão de todos os que sofrem, dos marginalizados em busca de cura de suas mais diversas enfermidades...
Imaginemo-nos essa cena e cada um e cada uma de nós faz parte de esse grupo dos que seguem Jesus. É um caminho que oferece dificuldades. Não sabemos até onde deseja ir mas confiamos nele, mais ainda, necessitamos dele.
Gente, por conseguinte, sem importância, sem poder, sem reconhecimento social... A procissão de todos os que sofrem, dos marginalizados em busca de cura de suas mais diversas enfermidades...
Jesus os cura a todos. Mas tem algo a mais a oferecer-lhes: a possibilidade de formarem um novo Povo de Deus, um povo que se esforce por construir um mundo melhor!
A cena se passa num monte que, na Bíblia, significa lugar da revelação divina: lembremo-nos do Sinai, onde Javé, por meio de Moisés, revelou-se ao povo de Israel.
Jesus senta-se para falar, assumindo, assim, a posição típica do mestre na cultura hebraica. Moisés sinala um limite até onde o povo, que peregrinava no deserto procurando a Terra Prometida, podia aproximar-se dele. Jesus apresenta muita proximidade com todos e todas os que estão ali. Não há limite, qualquer pessoa pode estar perto dele. Nesse gesto, Jesus apresenta-nos que suas palavras são para todos e todas, sem distinção nenhuma.
Acomoda-se um grupo de pessoas: são seus discípulos e discípulas que, sentados a seus pés, escutam-no com as multidões.
Que revelação nos quer fazer Jesus neste sermão? Quer anunciar-nos e apresentar-nos, a nós, seus seguidores e seguidoras, o caminho que leva à felicidade e à santidade.
Todo ser humano quer e busca ser feliz e tem, como vocação pessoal a santidade. Essas duas realidades: alegria e santidade - parecem, não raro, opostas.
Jesus apresenta-las intimamente ligadas. Por isso, baseado na sua experiência o apóstolo Paulo escreve aos Corintios:"Irmãos, fiquem alegres. Procurem a perfeição e animem-se. Tenham os mesmos sentimentos, vivam na paz e o Deus do amor e da paz estará com vocês."(2Cor 13, 11)
Que visão tenho eu dos cristãos? Rosto compungido, corpo arcado pelo peso de penitências, vida marcada por tristeza, depressão, solidão... ou alegria animada, solidária e contagiante?
Como ser santo e alegre nos dias atuais, tão angustiosos e trágicos, eivados de problemas?
Acreditou-se – e ainda se acredita – que a santidade é algo que só se adquire à custa de um imenso esforço; que sua chave se encontra em cansativa força de vontade; que ela é sinônimo de perfeição plena, ausência de erros e de fragilidades, privilégio, portanto, de poucas pessoas que a ela são chamadas.
Jesus, nesse discurso das Bem-Aventuranças, aponta-nos o caminho de acolhida da alegria, generosidade, liberdade, capacidade interior que ele nos oferece para fazer parte do seu povo e viver assim a Lei do Amor. Por isso disse o Papa Francisco:“As bem-aventuranças são a carteira de identidade do cristão, que o identifica como seguidor de Jesus. Somos chamados a ser bem-aventurados, seguidores de Jesus, enfrentando os sofrimentos e angústias do nosso tempo com o espírito e o amor de Jesus”
Aceitar, permanecer, crescer e perseverar na construção deste Reino no mundo: eis o caminho a percorrer na rota da santidade!
À primeira vista, as atitudes de vida, propostas por Jesus não foram, em seu tempo, nem são, ainda hoje, valorizadas: como podem ser felizes os pobres, os sofredores, os perseguidos?
A resposta se encontra na segunda parte de cada uma das oito sentenças enunciadas por Mateus que confluem, todas elas, para o mesmo ponto: a participação no Reino de Deus já agora, em germe e em esperança e, plena e perfeita, na eternidade, vivendo de sua Vida, usufruindo de seu Amor e gozando de sua Paz perpétua!
A concretização desses valores se expressa de muitas maneiras. Atestam-no, ao longo da história, homens e mulheres que os viveram até as últimas conseqüências. O texto mostra esta pluralidade de expressões. Todas elas apresentam uma marca comum: a prática do mandamento único do amor.
Jesus nos convida a participar desta multidão, entrar no Reino de Deus, e abraçar a proposta do Evangelho como um caminho que nos leva a vivir neste terra com um espirito diferente. Responder assim aos apelos do Reino de Deus, e fazer parte da construção do povo de Deus.
Como escreve o cardeal Gianfranco Ravasi: "O cristão "bem-aventurado", portanto, é aquele que eleva o olhar para o alto, para o eterno e o infinito, e escuta uma mensagem contra a corrente, desconcertante e até provocatória." (Texto completo: "As Bem-aventuranças, caminhos de montanha ou de planície que levam ao céus. Artigo de Gianfranco Ravasi)
Deixo ecoar no meu interior aquela bem-aventurança que sinto-me chamado especialmente abraçar.
Olhar a prática da nossa comunidade
O evangelho deste domingo nos convida a meditar sobre o começo do “Sermão da Montanha”. Certa vez, vendo aquela multidão imensa de gente que o seguia, Jesus subiu um pequeno morro para que todos pudessem vê-lo e ouvi-lo. Sentado lá no alto e olhando o povo, ele disse: “Felizes os pobres de espírito”. Estas palavras de Jesus fazem a gente pensar e se perguntar: “O que é mesmo a felicidade? Quem é realmente feliz?”.
Situando
Aqui, no capítulo 5, Jesus aparece como o novo legislador. Sendo Filho, ele conhece o Pai e o objetivo que ele tinha em mente quando, séculos atrás, deu a Lei ao povo pela mão de Moisés. Por isso, Jesus pode nos oferecer uma nova versão da lei de Deus. O solene anúncio da Nova Lei começa aqui no Sermão da Montanha.
No Antigo Testamento, a Lei de Moisés é apresentada em cinco livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Imitando o modelo antigo, Mateus apresenta a Nova Lei que revela o sentido desta Lei, dividindo o evangelho em cinco livrinhos. As partes narrativas dos cinco livrinhos, intercaladas com cinco Sermões, descrevem a prática de Jesus e têm como objetivo mostrar como Jesus observava a Lei e a encarnava em sua vida.
Comentando
Mateus 5,1: O solene anúncio da Nova Lei
Havia apenas quatro discípulos com Jesus. Pouca gente. Mas uma multidão imensa estava à sua procura. No AT, Moisés subiu o Monte Sinai para receber a Lei de Deus. Como Moisés, Jesus sobe a Montanha e, olhando o povo, proclama a Nova Lei.
Mateus 5,3-10: As oito portas de entrada do Reino
São oito categorias de pessoas, oito portas de entrada para o Reino, para a Comunidade que é chamada a viver as relações do Reino.
Não há outras entradas!
Quem quiser entrar terá que identificar-se com uma dessas oito categorias
A primeira e a última categoria recebem a mesma promessa: o Reino dos Céus. E a recebem desde agora, pois Jesus diz “deles é o Reino dos Céus”.
Como mostra o esquema acima, entre estas duas categorias, há três duplas às quais é feita uma promessa no futuro:
§ 2 e 3: mansos e aflitos: dizem respeito ao relacionamento com os bens materiais, terra e consolo;
§ 4 e 5: Fome e sede de justiça e misericordiosos: dizem respeito ao relacionamento com as pessoas na comunidade: justiça e solidariedade;
§ 6 e 7: Coração limpo e promotores da paz: dizem respeito ao relacionamento com Deus: ver a Deus e ser chamado filho de Deus.
Em outras palavras, o Projeto do Reino, apresentado por Jesus nas bem-aventuranças, quer reconstruir a vida na sua totalidade: no seu relacionamento com os bens materiais, com as pessoas entre si e com Deus. No tempo de Mateus, este projeto estava sendo assumido pelos pobres e, por causa disso, estavam sendo perseguidos.
Alargando
A comunidade que recebe as bem-aventuranças
Mateus tem oito bem-aventuranças. Lucas tem quatro bem-aventuranças e quatro maldições (Lucas 6,20-26). As quatro da Lucas são: “vocês pobres, vocês que passam fome, vocês que choram, vocês que são odiados e perseguidos” (Lucas 6,20-23). Lucas escreve para comunidades de pagãos convertidos, que vivem no contexto social hostil do Império Romano. Mateus escreve para as comunidades de judeus convertidos, que vivem num contexto de ruptura com a sinagoga. Antes da ruptura, elas tinham certa condição e aceitação social. Mas, depois da ruptura, essas comunidades entraram em crise. Nelas, aparecem grupos de várias tendências brigando entre si. Alguns da linha farisaica querem manter rigor na observância da Lei a que estavam acostumados desde antes da conversão a Jesus. Mas fazendo assim, excluem os pequenos, as pessoas pobres.
A nova lei trazida por Jesus pede que todos possam ser acolhidos na comunidade como irmãos e irmãs. Por isso, o solene início da Nova Lei traz oito bem-aventuranças que definem as categorias de pessoas que devem ser acolhidos na comunidade: os pobres em espírito, os mansos, os aflitos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os de coração limpo, os que promovem a paz e os que são perseguidos.
O que é ser pobre em espírito?
Jesus reconhecia a riqueza e o valor dos pobres. Definiu a sua missão como envio do Espírito do Senhor para “anunciar a Boa Nova aos pobres” (cf. Lucas 4,18-19). Ele mesmo vivia como pobre. Não possuía nada para si, nem mesmo uma pedra para reclinar a cabeça. E, a quem queria segui-lo, ele mandava escolher: ou Deus ou o dinheiro. Então, o Pobre em Espírito quem é? É o pobre que tem este mesmo Espírito de Jesus. Não é o rico. Nem é o pobre com cabeça de rico. Mas é o pobre que diz:
“Eu acredito que o mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor!”
O Evangelho de São Mateus (Mt 5,1-12a) explicita a nova lógica para a vida dos cristãos – o Sermão da Montanha. Jesus apresenta um programa ético para os seus seguidores e seguidoras que não anuncia proibições, não exprime preceitos ou leis fundamentais. Quando Jesus anuncia “bem-aventurados”, “ditosos”, “felizes” (conforme as traduções), ele está propondo uma nova lógica para a ética cristã: a passagem de uma ética das obrigações e deveres para uma ética da felicidade e ventura. "
Leituras do dia
1ª leitura: Sf 2,3;3,12-13
Salmo: Sl 145(146),7.8-9a.9bc-10 (R. Mt 5,3)
2ª leitura: 1Cor 1,26-31
Evangelho: Mt 5,1-12a
As leituras deste atentam para o carinho e o cuidado que Deus tem para com os mais pobres e humildes e o compromisso que o povo de Deus deve ter para com estes, que são os mais fragilizados socialmente.
A primeira leitura (Sf 2,3;3,12-13), que atuou na época do rei Josias, entre os anos de 639 e 609 a.C. em Judá. Época difícil, em que o Reino de Judá estava submetido ao poder da Assíria. A sociedade estava completamente corrompida: os juízes eram corruptos, os comerciantes tiravam vantagem dos mais humildes e daqueles que viviam em situações precárias, a elite cometia inúmeras arbitrariedades, entre outras situações opressoras aos mais pobres. Sofonias pede conversão ao povo para que haja justiça nas relações sociais e políticas.
Também o salmo deste domingo (145/146) atenta para este fato: o Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos, protege o estrangeiro, sustenta o órfão e a viúva. Ou seja, tudo o que o povo de Judá não estava fazendo na época de Sofonias.
Neste sentido, Sofonias pede a conversão de uma mentalidade que despreza os mais desfavorecidos economicamente gerando indiferença e desprezo aos pobres - hoje nós denominamos esta atitude/mentalidade de aporofobia (aporos (do grego, pobre) -aversão/repulsa ao pobre). Para a literatura profética, a pobreza é fruto da opressão e da injustiça, não do acaso, da sorte ou da vontade divina.
O texto da segunda leitura (1Cor 1,26-31) prepara a reflexão que o Evangelho de São Mateus traz. São Paulo nos apresenta uma outra lógica, a1Cor 1,26-31, que 1Cor 1,26-31 da forma mais inesperada às pessoas mais improváveis - pessoas insignificantes, desprezadas e classificadas como “nada” perante o mundo. São Paulo nos diz que não há um sistema filosófico, nem um código de leis que comunique a salvação; a sabedoria do Evangelho é loucura para os sábios, filósofos e escribas. Deus se revela aos pequeninos, àqueles que o mundo vê com desdém e menosprezo, não aos prestigiosos, eruditos, ricos ou poderosos. Mais uma vez, as leituras deste domingo atentam para o zelo de Deus aos mais pobres e necessitados.
O Evangelho de São Mateus (Mt 5,1-12a) explicita a nova lógica para a vida dos cristãos - o Sermão da Montanha. Jesus apresenta um programa ético para os seus seguidores e seguidoras que não anuncia proibições, não exprime preceitos ou leis fundamentais. Quando Jesus anuncia “bem-aventurados”, “ditosos”, “felizes” (conforme as traduções), ele está propondo uma nova lógica para a ética cristã: a passagem de uma ética das obrigações e deveres para uma ética da felicidade e ventura. O Reinado de Deus, preconizado por Jesus com sua ética referente ao Sermão da Montanha, tem como foco e centro a felicidade do ser humano e não o cumprimento de obrigações e leis.
Jesus inicia o sermão dizendo “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”. A expressão “pobres de espírito” – diferente do texto de São Lucas, que se refere somente ao termo “pobres” - elimina a possibilidade de uma interpretação errônea segundo a qual a carência de bens materiais, por si só, possa proporcionar a felicidade ou ser um valor perante Deus. A tradição considera “os pobres de espírito” como aqueles que, despojados do orgulho, da prepotência, da autossuficiência sustentam a sua vida na graça e na misericórdia de Deus. Humildade é a característica daqueles que reconhecem a sua miséria espiritual e sabem que são dependentes do amor, da misericórdia e da compaixão divina.
Também podemos pensar em “pobres de espírito” como pessoas que estão em situações de carência/pobreza existencial - fracasso, frustração, sensação de exclusão ou de indiferença que podem ser tão dolorosas quanto a pobreza material. O Papa Francisco faz referências às “periferias existenciais”, onde pessoas experienciam profundas feridas internas, suportando a solidão, a depressão e a tristeza.
São 8 bem-aventuranças e nelas, Jesus tira o véu dos fatos e aponta como o começo do Reino já está acontecendo na prática dos pobres como dom e graça de Deus. Não há bem-aventurança para os fariseus, nem para os escribas, nem para os ricos e poderosos. A prática dessas pessoas não revela o Reinado de Deus.
Além dos pobres no espírito, Jesus apontou mais 7 categorias de pessoas:
• Os mansos (1) e aflitos (2): dizem respeito ao relacionamento com os bens materiais, terra e consolo.
• Fome e sede de justiça (3) e misericordiosos (4): dizem respeito ao relacionamento com as pessoas na comunidade: justiça e solidariedade.
• Coração limpo/puro (5) e promotores da paz (6): dizem respeito ao relacionamento com Deus: ver a Deus e ser chamado filho de Deus.
• Os perseguidos por causa da justiça e do evangelho (7): é quase uma consequência das bem-aventuranças anteriores. Já que a lógica do mundo é indubitavelmente diferente da lógica divina, é possível e até provável que haja conflitos quando o cristão se posiciona política e publicamente. Mas, mesmo sendo perseguido, sua vida tem sentido: será sal da terra (5,13) e luz do mundo (5,14- 16).
O projeto do Reinado de Deus contido nas bem-aventuranças visa reconstruir a vida humana na totalidade das suas relações, seja com os bens materiais, seja com as pessoas e a comunidade, seja na relação com Deus. É um projeto para a comunidade, por isso as bem-aventuranças estão no plural, porque ninguém pode ser feliz sozinho. A felicidade é relativa à comunidade, ao grupo, à sociedade; não é algo privado, não é uma questão meramente individual, mas é essencialmente social e comunitária. Jesus indica que a felicidade de cada um está condicionada à felicidade dos outros com quem cada um convive. Ele não fala a indivíduos solitários, mas para pessoas com vínculos sociais, em um sistema de convivência que, para o bem ou para o mal, condiciona a todos.
O programa ético das bem-aventuranças busca refazer as relações familiares, as relações de trabalho, as relações entre o governo e o povo, de modo que possa haver justiça para os pobres, os mais frágeis socialmente, que foram e ainda são alvos da mensagem do Sermão da Montanha.
A insistente pregação de Jesus e da Igreja em favor dos pobres incomoda certas pessoas. Nas Bem-aventuranças segundo Mt (evangelho), Jesus felicita os “pobres no espírito”. Por que “no espírito”? Talvez não sejam os materialmente pobres? É possível ser pobre no espírito e rico materialmente?
Já no Antigo Testamento (1ª leitura), Deus mostra que seu favor não depende de poder e riqueza. Ele prefere os que praticam a justiça, ainda que pobres: os “pobres do Senhor”. Isso era difícil entender para os antigos israelitas, que – como muita gente hoje – viam na riqueza uma prova do favor de Deus.
Jesus, no evangelho, anuncia o Reino de Deus, como dom e missão, aos que têm esse espírito dos “pobres de Deus”: os que não pretendem dominar os outros pelo poder e a riqueza, mas se dispõem a colaborar na construção do reino de amor, justiça e paz, tornando-se pobres, colocando-se do lado dos pobres e confiando antes de tudo no poder de Deus e no valor de sua “justiça”, que é a sua vontade, seu plano de salvação. Os “pobres de Deus” assumem atitudes inspiradas por Deus e seu reino: pobreza (não apenas forçosa, mas no espírito e no coração), paciência (com firmeza), justiça (com garra), paz (na sinceridade) etc. Aos que vivem assim, Jesus anuncia a felicidade (“bem-aventurança”) do reino. Esses são os cidadãos do reino, os herdeiros da terra prometida. E, de fato, o “manso”, o não-violento tem bem mais condições de usar a terra que o grileiro. Os pobres solidários constroem uma sociedade melhor que os ricos egoístas. Há quem diga que as Bem-aventuranças não visam os pobres materialmente, porque esses não podem ser os “promotores da paz” aos quais se refere a sétima bem-aventurança (Mt 5,9). Mas será que a verdadeira paz, fruto da justiça, não é promovida pelos pobres e os que em solidariedade com eles lutam pelo direito de todos?
O apóstolo Paulo ensina que Deus escolheu os pobres e os simples para envergonhar os que se acham importantes (2ª leitura). Deus é quem tem a última palavra. Demonstrou isso em Jesus, morto e ressuscitado. Demonstrou isso também em Paulo, que abandonou seu status de judeu e fariseu, para se tornar desprezado, seguidor de Jesus. Não pela posição e pelo poder, mas pelo; despojamento radical é que Paulo se tornou participante da obra de Cristo.
Devemos optar, na vida, pelos valores do Reino e não pelo poder baseado na opressão, na exploração…. Devemos optar pelos pobres e não pelos que os empobrecem! Para isso precisamos de desprendimento, pobreza até no nosso íntimo (“no espírito”). A bem-aventurança não vale para pobre com mania de rico! Os pobres no espírito são os que não apenas “queriam”, mas efetivamente querem e optam por formar “povo de Deus” com os oprimidos e empobrecidos, porque têm fome e sede do Reino de Deus e sua justiça.
Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(O texto original em espanhol está logo após esta tradução feita pelo Tradutor Google)
QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM, ANO A
Primeira leitura (Sofonias 2:3; 3:12-13)
O profeta Sofonias pregou no reino do sul (Judá) durante o reinado de Josias (640-609 a.C.), e sua mensagem reflete a realidade daquela época. Judá já estava sob domínio assírio havia um século, e o povo estava sendo gradualmente influenciado por costumes estrangeiros e práticas pagãs, fomentadas pelas políticas desastrosas do cruel monarca judeu Manassés (698-643 a.C., cf. 2 Reis 21:3-9, 16). Nesse contexto, o profeta convida o povo de Judá a não deixar escapar sua última chance de salvação, buscando verdadeiramente o Senhor: “Buscai ao Senhor, todos vós, pobres da terra ( anawim ), que fazeis o que ele ordena; buscai a justiça ( zedek ), buscai a humildade ( anawah )” (Sofonias 2:3).
A salvação reside em confiar na Palavra de Deus e reconhecer a própria pequenez e necessidade diante dEle. Essa é a atitude dos " pobres da terra " que buscam a Deus (2:3) e, por essa razão, serão salvos por Ele e constituídos como " o remanescente de Israel " (3:12-13a). O profeta apresenta a restauração que Deus realizará em benefício de Judá, onde a intervenção divina eliminará todo pecado e toda infidelidade em um grupo chamado " o remanescente de Israel ", um povo humilde e pobre (3:11-13). A ideia do "remanescente de Israel" é comum a outros profetas; mas em Sofonias 3:11-13, é a primeira vez na Bíblia que esse remanescente fiel é identificado com os pobres e humildes (os anawim ).
Evangelho (Mt 4:25-5:12)
No evangelho de hoje podemos distinguir a introdução narrativa (4:25-5:2), que se aplica a todo o Sermão da Montanha (SM cf. Mt 5-7), e as bem-aventuranças (5:3-12) que são o prólogo ou exórdio do Sermão, refletindo a alegria da chegada do Reino.
A introdução ao Sermão da Montanha apresenta o público e o contexto do discurso. À primeira vista, parece dirigir-se apenas aos seus discípulos, mas, na realidade, inclui a grande multidão que o seguia (cf. 4,25). Para proferir o seu discurso, Jesus “subiu ao monte”. Esta descrição tem não só um significado funcional, mas também teológico. O monte refere-se ao Sinai (Êx 19-20) e ao Horebe (Dt 5), onde Deus estabeleceu a sua aliança com Israel e revelou a sua vontade.
Seus discípulos se aproximam dele, aqueles que já escolheram Jesus e têm o direito de entrar na esfera divina; eles estão com Jesus ali. Então Jesus fala e proclama as Bem-aventuranças, que são oito e têm uma estrutura comum onde podemos distinguir três elementos:
1) Um adjetivo em posição predicativa ; o verbo "ser" está pressuposto: "Felizes são...". 2) Um sujeito com artigo que se refere a pessoas caracterizadas por uma situação humana dolorosa ou uma atitude positiva: os pobres, os pacientes, os que choram, os misericordiosos... 3) Uma ação divina introduzida por um pronome causal (porque) que dá a razão da felicidade. Descreve como as pessoas são alcançadas pela ação de Deus (voz passiva teológica). Quanto ao tempo verbal , em 1) e 2) não é indicado, e pressupõe-se uma situação presente; enquanto em 3) refere-se ao futuro escatológico (5:4-9:12); exceto em 5:3:10, que está no presente. A concatenação lógica é : 1) a consequência ou resultado; 2) a condição; 3) a causa ou razão.
Portanto, a causa ou o motivo da felicidade é o que aparece no final de cada bem-aventurança, que é a ação de Deus em favor das pessoas: dando-lhes o Reino, consolando-as, satisfazendo suas necessidades, concedendo-lhes misericórdia e assim por diante. A segunda parte de cada frase descreve a condição ou situação das pessoas que serão favorecidas pela ação de Deus e, portanto, são felizes, com felicidade plena; esse é o significado de maka,rioi: é a declaração de um estado presente de felicidade plena . É uma felicidade que nos chega, não uma felicidade produzida por nós.
Vale ressaltar que Jesus declara um certo grupo de pessoas como bem-aventurado porque recebe o Reino de Deus. Essa é a razão ou causa de sua felicidade: a chegada do Reino de Deus . E essa felicidade pode coexistir com situações dolorosas ( aflição, insultos e perseguição ) e é a recompensa para aqueles que se esforçam para se alinhar aos valores do Reino ( uma alma humilde; paciência; fome e sede de justiça; misericórdia; um coração puro; pacificadores ).
Os pobres de espírito são aqueles cujo espírito é caracterizado pela pobreza, por um estado de dependência dos outros para sobreviver e, portanto, por não serem nem autossuficientes nem independentes. Ser pobre de espírito é reconhecer e ter consciência da própria pobreza ou necessidade diante de Deus, a quem se recorre como doador de todo o bem. A opinião da maioria dos Padres da Igreja, que o entendiam no sentido de humildade, está inteiramente correta.
Quanto ao motivo da felicidade, há um contraste marcante, visto que o Reino dos Céus é o maior bem possível, e os pobres de espírito o possuem. Essa afirmação se repete em 5:10, criando uma inclusão no corpo das Bem-aventuranças e, portanto, parece ser a mais fundamental. Assim, as promessas relacionadas às seis Bem-aventuranças intermediárias irão, de certa forma, esclarecer e concretizar os efeitos de possuir o Reino dos Céus. Mesmo em 5:3, 10, há uma diferença em relação ao restante das Bem-aventuranças, visto que o verbo está no presente e não no futuro. À luz de Mateus 25:34 ("Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: 'Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo'"), podemos distinguir dois períodos: o Reino foi preparado para eles desde o princípio; eles são os herdeiros no presente , mas a sua posse efetiva virá com a vinda do Filho do Homem em glória. Portanto, eles já são os herdeiros-proprietários , mas a posse e o usufruto plenos serão no futuro.
A segunda bem-aventurança é a mais paradoxal, pois declara que aqueles que sofrem são verdadeiramente bem-aventurados . A causa ou razão dessa mudança de circunstâncias é a ação de Deus, que, por meio de sua presença e do dom da comunhão pessoal, abolirá todo o sofrimento. Ao chamar essa ação escatológica de Deus de consolação , enfatiza-se sua natureza pessoal e amorosa.
Em relação ao terceiro ponto, observemos que, na Bíblia, a mansidão ou paciência é descrita como um comportamento caracterizado pelo domínio das próprias emoções, tendências e desejos; e pelo respeito absoluto pelo outro, em contraste com toda raiva, contenda e agressão. A atitude interior do manso é muito semelhante à do pobre de espírito e, portanto, também poderia ser incluída em nosso conceito de humildade . A característica distintiva seria que a pessoa humilde não se irrita com as contradições da vida e sabe ser paciente enquanto espera ser satisfeita por Deus. A pessoa mansa, por sua vez, é aquela que aceita o tempo e a maneira de Deus agir. Quanto à promessa de herdar a terra, é útil observar que o verbo "herdar" aparece apenas três vezes em Mateus, sendo a herança ou recompensa nos outros dois casos "a vida eterna" (19:29) e "o Reino preparado pelo Pai" (25:34). Portanto, a herança do Pai é ter participação no Reino escatológico .
A fome e a sede aqui têm um claro significado figurativo (seu objeto é a justiça ); e indicam mais do que um mero desejo, pois representam uma necessidade natural, elementar e poderosa que surge de dentro. Seu oposto seria a falta de interesse, a indiferença. A justiça cristã abrange tudo o que as pessoas fazem ou deveriam fazer para agradar ao Pai . O verbo "satisfazer" está no futuro do pretérito, portanto, refere-se a uma ação escatológica de Deus. A questão é se Ele os satisfará com justiça, isto é, se lhes dará a possibilidade de serem justos; ou se o significado é mais genérico. O fato de o verbo não ter objeto nos inclina para algo geral. Portanto, a fome e a sede de justiça compreendem o desejo profundo e vital de fazer tudo segundo a Vontade de Deus; e ser satisfeito refere-se à plenitude — estar cheio — da Vida.
A bem-aventurança dos misericordiosos caracteriza-se pela demonstração da reciprocidade entre a ação humana e a divina, uma vez que ambas envolvem misericórdia. Os misericordiosos são aqueles que, por compaixão, ajudam os necessitados e perdoam os devedores; e essa atitude garante a felicidade, pois, por sua vez, recebem a misericórdia de Deus — isto é, são ajudados e perdoados por Ele.
Quando a Bíblia fala de um coração puro, refere-se a um coração justo e inocente, um coração que age segundo a vontade de Deus e, portanto, pode se aproximar Dele. Embora não tenhamos uma questão teológica em aberto desta vez, sabe-se que ver a Deus está além das capacidades humanas (cf. Jo 1,18; 6,46; 1 Jo 4,12); portanto, só pode ser um dom divino.
O termo eivrhnopoioi ( pacificadores ) aparece em escritos rabínicos para se referir àqueles que se esforçam para reconciliar pessoas em conflito. Portanto, designa algo ativo, não meramente uma disposição para a paz. Em Mateus 5:9, referir-se-ia àqueles que se dedicam à paz, primeiro evitando o que prejudica a coexistência com os outros e depois promovendo e restaurando a paz onde ela está ausente. A consideração da humanidade como filhos de Deus aparece explicitamente aqui e em 5:45. A voz passiva teológica significa que o próprio Deus os chamará de seus filhos, os reconhecerá publicamente como tal e os aceitará em sua própria vida como Pai que vive com o Filho e o Espírito Santo (28:19).
A causa da perseguição em 5:10 é a “justiça”, no sentido já discutido de agir segundo Deus; especifica-se então que se trata da ligação pessoal com Jesus (5:11) e da aceitação da sua palavra (13:21). Não se trata de buscar a perseguição, mas sim de que ela surge como consequência da fidelidade em seguir Jesus, entendida como colocar em prática os seus ensinamentos, que nos transmitem a vontade do Pai. Por sua vez, a perseguição aparece como sinal dessa fidelidade. A promessa é a mesma da primeira bem-aventurança, que abrange o grupo de oito.
Em resumo , as Bem-aventuranças em Mateus formulam exigências éticas e espirituais, atitudes e comportamentos que o discípulo deve desenvolver como condições para pertencer ao Reino. Essas exigências são motivadas pela promessa da dádiva escatológica do Reino, que é a causa última da felicidade ou bem-aventurança proclamada. Esses dois aspectos, presentes como segundo e terceiro elementos, respectivamente, de cada Bem-aventurança, não podem ser separados. Contudo, como a própria estrutura revela, devemos reconhecer a primazia da ação de Deus . É a aproximação do Reino de Deus (4:18) que é o motivo da felicidade e a motivação para a ação humana, que se prepara, assim, para recebê-lo, para entrar em comunhão com Ele.
A ordem das Bem-aventuranças também possui significado. As quatro primeiras referem-se à relação do discípulo com Deus, enfatizando a abertura humilde e confiante a Ele; o compromisso de viver a vontade do Pai; e a tristeza de não conseguir fazê-lo ou de não vê-lo nos outros. As três seguintes tratam dos relacionamentos com os outros, exaltando a misericórdia, a honestidade ou integridade e a busca pela paz. A última descreve a consequência que a fidelidade à vontade de Deus pode ter sobre os outros: a perseguição. A partir dessa ordem, podemos deduzir que um relacionamento correto com os outros decorre de um relacionamento correto com Deus.
Resta-nos apontar, numa perspectiva global, a relação das Bem-aventuranças com a ética cristã. Em seu comentário sobre o Sermão da Montanha, L. Sánchez Navarro escreveu: “A moral proposta pelo EN ( Ensino da Montanha ) é uma verdadeira ‘ciência da felicidade’. Nela, a primazia pertence ao dom, à graça; mas isso não exclui, antes implica necessariamente, a aquisição de virtudes sólidas. ” ¹ ² A opinião de M. Grilli também é interessante: “As Bem-aventuranças de Mateus são, acima de tudo, a aclamação jubilosa de uma ‘presença’ em meio a categorias humanas que não pertencem à ordem estabelecida nem aos poderes deste mundo. A alegria, portanto, consiste em reconhecer que Deus é mais uma vez fiel ao seu nome e — no Messias Jesus — subverte os critérios humanos de pensamento e ação . ” ³
Algumas reflexões:
No último domingo, vimos como o anúncio da chegada do Reino é a boa notícia e o conteúdo da boa notícia é o Reino de Deus que está por vir .
Neste domingo, Jesus começa a anunciar a maior consequência da chegada do Reino de Deus à humanidade e sua aceitação: a possibilidade da felicidade, de uma vida plena . É muito significativo que Jesus inicie seu primeiro grande discurso anunciando a felicidade que a vinda do Reino de Deus trará. Isso equivale ao evangelho como boas novas em Marcos 1:14 e ao simbolismo do vinho no primeiro milagre realizado por Jesus em Caná, segundo João 2:1-11. É uma felicidade que nos é concedida, não uma felicidade que criamos por nós mesmos.
Jesus então inicia o Sermão da Montanha falando sobre a felicidade: “Bem-aventurados sois vós, felizes sois vós”. Dessa forma, o Evangelho se conecta com um dos desejos mais profundos e universais da humanidade, pois todos nós queremos ser felizes. Claro, já sabemos que, quando se trata de definir o que é a felicidade e qual o caminho para alcançá-la, surgem inúmeras definições e caminhos. Pois bem, Jesus nos ensina hoje o que a felicidade significa para Deus e qual o caminho para recebê-la. E esse caminho é também o caminho para a santidade, o caminho para a plenitude da vida cristã. O Papa Francisco diz a este respeito: “Jesus explicou com total simplicidade o que significa ser santo, e fê-lo quando nos deu as Bem-aventuranças (cf. Mt 5,3-12; Lc 6,20-23). Elas são como o cartão de identidade do cristão. Assim, se algum de nós se pergunta: ‘Como se tornar um bom cristão?’, a resposta é simples: é preciso fazer, cada um à sua maneira, o que Jesus diz no Sermão da Montanha. Nelas, revela-se o rosto do Mestre, que somos chamados a refletir nos aspetos quotidianos da nossa vida. A palavra ‘feliz’ ou ‘bem-aventurado’ torna-se sinónimo de ‘santo’, porque expressa que a pessoa que é fiel a Deus e vive a sua Palavra alcança a verdadeira felicidade na doação de si” ( Alegrai-vos e Exultai , 63-64).
Resumindo e esclarecendo: para Jesus, a felicidade e a santidade consistem em receber o Reino de Deus, em deixar-se tocar pela ação de Deus na vida, independentemente das circunstâncias, boas ou más, que estejamos vivenciando. Podemos citar aqui uma frase do Servo de Deus, Guillermo Muzzio, um jovem seminarista que morreu de leucemia antes de ser ordenado sacerdote: “Fazer a vontade de Deus e ser feliz são a mesma coisa. Obrigado, Jesus, porque tudo é tão simples.”
Essa felicidade ou plenitude de vida não é conquistada, é recebida como um dom, como graça. É verdade que a conversão e a fé no Evangelho são necessárias, a fé de que Deus quer e pode nos preencher de alegria e felicidade. De fato: “A alegria do Evangelho preenche os corações e as vidas de todos os que encontram Jesus. Aqueles que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior e da solidão. Com Jesus Cristo, a alegria renasce constantemente” (Francisco, A Alegria do Evangelho , 1).
Jesus foi o primeiro a viver as Bem-aventuranças em sua vida e, por isso, as ofereceu a nós não como novas exigências éticas, mas como um caminho de confiança e entrega a Deus. Para compreender e viver as Bem-aventuranças, devemos olhar para Ele e segui-Lo. Enfatizamos a necessidade da fé e da confiança em Jesus porque o caminho das Bem-aventuranças claramente se opõe à direção para a qual o mundo nos conduz. A respeito disso, o Papa Leão XIV disse: “As Bem-aventuranças trazem consigo uma nova interpretação da realidade. Elas são o caminho e a mensagem de Jesus, o educador. À primeira vista, parece impossível declarar bem-aventurados os pobres, os que têm fome e sede de justiça, os perseguidos ou os pacificadores. Mas o que parece inconcebível na gramática do mundo se enche de significado e luz na proximidade do Reino de Deus. Nos santos, vemos como esse Reino se aproxima e se torna presente entre nós. São Mateus apresenta apropriadamente as Bem-aventuranças como um ensinamento, propondo Jesus como o Mestre que transmite uma nova visão das coisas e cuja perspectiva coincide com o seu próprio caminho.” (Homilia de 1 de novembro de 2025).
É também necessário nos questionarmos sobre a real possibilidade de sermos felizes nesta vida. O filósofo Julián Marías, de uma perspectiva puramente humana, considerava a felicidade como "necessária, mas impossível". Ou seja, é uma necessidade, algo para o qual tendemos espontaneamente e que buscamos constantemente; mas impossível de alcançar na medida em que nos esforçamos por ela durante nossa vida neste mundo. Contudo, da perspectiva da fé e da esperança, ela se apresenta como possível, futura, mas real. Certamente, Jesus promete essa felicidade como um dom escatológico, isto é, a ser plenamente realizada na vida eterna. Assim como somos "salvos na esperança", também somos chamados a ser felizes "na esperança".
As Bem-aventuranças são um exemplo claro de como as realidades futuras impactam o presente. A vinda do Reino, com sua promessa futura de felicidade, traz uma nova e diferente apreciação das realidades humanas. Dessa perspectiva, devemos considerar as situações e atitudes humanas que Jesus considera bem-aventuradas porque tornam o Reino de Deus presente para elas. Ao apresentá-las, Jesus também nos mostra o caminho para o Reino, para a felicidade: pobreza de espírito (humildade), paciência, mansidão, misericórdia, fome e sede de justiça, pureza de coração, pacificação e perseverança na perseguição .
Em conclusão, “As Bem-aventuranças são o caminho que Deus indica como resposta ao desejo de felicidade inerente ao homem, e aperfeiçoam os mandamentos da Antiga Aliança. [...] Nessas palavras está toda a novidade trazida por Cristo, e toda a novidade de Cristo está nessas palavras. De fato, as Bem-aventuranças são o retrato de Jesus, seu modo de vida; e são o caminho para a verdadeira felicidade, que também nós podemos percorrer com a graça que Jesus nos dá” (Papa Francisco, Catequese de 6 de agosto de 2014).
PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
Resto do coração
Senhor Jesus
Vocês que vieram definir a tão desejada felicidade
Descubra o véu do nosso olhar.
E do coração brota a alegria de encontrá-la.
Quando somos surpreendidos pela inocência de uma criança
E nós sorrimos diante de sua simplicidade e graça.
O coração puro se renova e encontra repouso em ti.
Quando o luto e a tristeza se manifestam
E a impotência nos deixa desarmados e vulneráveis.
Oramos de coração e encontramos descanso somente em ti.
Quando a fé é defendida diante da perseguição
Até mesmo dar a minha vida pela sua causa.
O coração se fortalece e repousa em ti.
Quando a alma é tocada
E somente o perdão resta para libertar a alma.
O coração se expande e encontra repouso em você.
Quando o esforço para alcançar justiça e paz
Não se esgota com frustrações e burocracias.
Meu coração está cheio de esperança e encontra repouso em você.
Quando a ansiedade dá uma trégua por um instante
E o tempo passado e o futuro perdem sua importância.
O coração está localizado no presente divino e em você ele repousa.
E quando a pobreza nos diz que nada nos falta
Se tivermos Deus no centro do louvor
Meu coração se alegra e minha razão encontra repouso em ti. Amém.
1 O Ensino do Monte. Comentário Contextual sobre Mateus 5-7 (Palavra Divina; Estella 2005) 23-24.
2 A. Rodríguez Carmona, Evangelio de Mateo (DDB; Bilbao 2006) 60.
3 O Sermão da Montanha. Utopia ou Prática Cotidiana? (EDB; Bolonha 2016) 57.
1
CUARTO DOMINGO DURANTE EL AÑO CICLO "A"
Primera lectura (Sof 2,3; 3,12-13)
El profeta Sofonías predicó en el reino del Sur (Judea) durante el reinado de Josías (640- 609) y su mensaje se ajusta a la realidad de aquel tiempo. Por entonces Judá llevaba ya un siglo sometida a Asiria y el pueblo se dejó invadir poco a poco por las costumbres extranjeras y las prácticas paganas, favorecidas por la nefasta política del cruel monarca judío Manasés (698-643, cf. 2Re 21,3-9.16). En este contexto el profeta hace al pueblo de Judá una invitación para no dejar pasar la última posibilidad de salvación buscando de verdad al Señor: “Buscad al Señor, todos ustedes, pobres del país (anáwím), que cumplís sus órdenes, buscad la justicia (zedeq), buscad la humildad (anáwáh)” (Sof. 2,3).
La salvación está en confiar en la Palabra de Dios y en reconocerse pequeños e indigentes ante Él. Es la actitud de “los pobres o humildes de la tierra” que buscan a Dios (2,3) y, por esto, serán salvados por El y constituidos en “el resto de Israel” (3,12-13a). El profeta presenta la restauración que Dios obrará en beneficio de Judá donde la intervención divina eliminará todo pecado y toda infidelidad en un grupo denominado “resto de Israel”, un pueblo humilde y pobre (3,11-13). La idea del “resto de Israel” es común con otros profetas; pero en Sof 3,11-13 es la primera vez en la Biblia que se identifica este resto fiel con los pobres y humildes (los anáwím).
Evangelio (Mt 4,25-5,12)
En el evangelio de hoy podemos distinguir la introducción narrativa (4,25-5,2), que vale para todo el Sermón de la Montaña (SM cf. Mt 5-7), y las bienaventuranzas (5,3-12) que son el prólogo o exordio del Sermón reflejando el gozo por la llegada del Reino.
La introducción del Sermón de la Montaña nos presenta el auditorio y el lugar del discurso. En un primer momento pareciera dirigido sólo a sus discípulos, pero en realidad se incluye a la gran multitud que lo seguía (cf. 4,25). Para pronunciar su discurso Jesús “subió a la montaña”. Esta descripción no tiene sólo un sentido funcional sino teológico. La montaña remite al Sinaí (Ex 19- 20) y al Horeb (Dt 5) donde Dios ha establecido su alianza con Israel y revelado allí su voluntad.
Se le acercan sus discípulos, los que han hecho ya su opción por Jesús y tienen derecho a entrar en la esfera divina; están con Jesús en ella. Entonces Jesús toma la palabra y proclama las bienaventuranzas, que son ocho y tienen una estructura común donde distinguimos tres elementos:
1) Un adjetivo en posición predicativa; se presupone el verbo ser: “Felices son...”. 2) Un sujeto con artículo que se refiere a personas caracterizadas por una situación humana penosa o una actitud positiva: los pobres, los pacientes, los que lloran, los misericordiosos… 3) Una acción divina introducida por un o[ti (porque) causal que da el motivo de la felicidad. Describe la forma cómo los hombres son alcanzados por la acción de Dios (pasivos teológicos). En cuanto al tiempo, en 1) y 2) no viene indicado, y se presupone una situación presente; mientras que en 3) se refiere al futuro escatológico (5,4-9.12); salvo 5,3.10 que están en presente. La concatenación lógica es: 1) es la consecuencia o resultado; 2) la condición; 3) la causa o motivo.
Por tanto, la causa o motivo de la felicidad es lo que aparece al final de cada bienaventuranza, que es la acción de Dios en favor de las personas: darles el Reino, consolarlos, saciarlos, recibir misericordia, etc. El segundo miembro de cada oración describe la condición o la situación de las personas que se verán favorecidas por la acción de Dios y, por ello, son felices, con una felicidad plena, tal el sentido de maka,rioi: se trata de la declaración de un estado actual de felicidad plena. Se trata de una felicidad que viene a nosotros, no de una felicidad producida por nosotros.
Vale decir que Jesús declara felices a cierto grupo de personas porque reciben el Reino de Dios. Este es el motivo o causa de la felicidad, la llegada del Reino de Dios. Y esta felicidad puede convivir con situaciones penosas (aflicción, insultos y persecución) y es la recompensa de los que se esfuerzan por sintonizar con los valores del Reino (alma de pobres; paciencia; hambre y sed de justicia, misericordiosos, corazón puro; trabajan por la paz).
Los pobres en el espíritu son aquellos que tienen su espíritu caracterizado por la pobreza, por un estado de dependencia de los demás para poder vivir y, por tanto, no autosuficiente ni autárquico. Ser pobre en el espíritu es darse cuenta y ser consciente de la propia pobreza o necesidad delante de Dios ante quien se recurre como dador de todo Bien. La opinión de la mayoría de los Padres de la Iglesia que la entendieron en el sentido de humildad es del todo correcta.
En cuanto al motivo de la felicidad, hay un marcado contraste pues el Reino de los cielos es el mayor bien posible y los pobres en espíritu lo poseen. Esta afirmación se repite en 5,10 creando una inclusión en el cuerpo de las bienaventuranzas y, por tanto, parece ser la más fundamental. Así, las promesas referidas a las seis bienaventuranzas intermedias en cierto modo explicitarán y concretizarán los efectos de la posesión del Reino de los cielos. Todavía en 5,3.10 hay una diferencia en relación al resto de las bienaventuranzas pues el verbo está en presente y no en futuro. A la luz de Mt 25,34 ("Entonces dirá el Rey a los de su derecha: "Vengan, benditos de mi Padre, reciban la herencia del Reino preparado para ustedes desde la creación del mundo”) podemos distinguir dos tiempos: el Reino ha sido preparado para ellos desde siempre, ellos son los herederos al presente, pero la posesión efectiva se dará con la venida del Hijo del hombre en la gloria. Por tanto ya son los herederos-propietarios, pero la posesión-disfrute plena será en el futuro.
La segunda bienaventuranza es la más paradójica pues declara felices justamente a los afligidos. La causa o motivo de este cambio de situación es la acción de Dios quien, mediante su presencia y el don de la comunión personal, abolirá todas las penas. Al llamar consolación a esta acción escatológica de Dios se subraya su carácter personal y amoroso.
En cuanto a la tercera notemos que en la Biblia la mansedumbre o paciencia viene descrita como un comportamiento caracterizado por un dominio de las propias emociones, tendencias y deseos; y por el pleno respeto por la persona del otro en contraposición a todo lo que sea ira, contienda y atropello. La actitud interior de los mansos es muy semejante a la de los pobres en el espíritu y, por ello, también podría incluirse en nuestro concepto de humildad. La nota distintiva sería que lo propio del humilde es no irritarse ante las contradicciones de la vida y saber tener paciencia a la espera de verse colmado por Dios. El manso, por su parte, es aquel que acepta el tiempo y la manera de obrar de Dios. En cuanto a la promesa de heredar la tierra es útil notar que el verbo "heredar" aparece sólo 3 veces en Mateo siendo la herencia o recompensa en los otros dos casos "la vida eterna" (19,29) y "el Reino preparado por el Padre" (25,34). Por tanto la herencia del Padre es tener parte en el Reino escatológico.
El hambre y la sed tienen aquí un claro sentido figurado (su objeto es la justicia); e indican más que un deseo pues se trata de una necesidad natural, elemental y fuerte que procede del interior del hombre. Su contrario sería la falta de interés, la indiferencia. La justicia cristiana incluye todo lo que los hombres hacen o deben hacer para agradar al Padre. El verbo saciar está puesto en futuro pasivo, por tanto se trata de una acción de Dios escatológica. La cuestión es si los saciará de justicia, es decir, les dará la posibilidad de ser justos; o se trata más bien de algo genérico. El hecho que el verbo no tenga objeto nos inclina por algo general. Por tanto, el hambre y la sed de la justicia comprenden el querer profundo y vital de hacer todo según la Voluntad de Dios; y el ser saciado se refiere a toda la plenitud -ser llenado- de Vida.
La bienaventuranza de los misericordiosos tiene la característica de mostrarnos una reciprocidad entre el obrar humano y el Divino pues en ambos casos se trata de la misericordia. Los misericordiosos son los que compadeciéndose socorren al necesitado y perdonan al deudor; y esta actitud garantiza la felicidad al ser alcanzados a su vez por la Misericordia de Dios, o sea, ser socorridos y perdonados por Él.
Cuando en la Biblia se habla de un corazón puro se trata de un corazón recto e inocente, que obra según Dios y, por tanto, puede acercarse a Él. Aunque esta vez no tenemos un pasivo teológico, es sabido que el ver a Dios escapa a las posibilidades humanas (cf. Jn 1,18; 6,46; 1Jn 4,12); por lo que sólo puede ser un don divino.
El término eivrhnopoioi , (los que trabajan por la paz) aparece en los escritos rabínicos para referirse a los que se esfuerzan por reconciliar a las personas en conflicto. Designa, por tanto, algo activo y no la mera disposición a la paz. En Mt 5,9 se referiría, entonces, a aquellos que se empeñan por la paz, en primer lugar evitando lo que daña la convivencia con los demás y, luego, promoviendo y restableciendo la paz donde falte. El considerar a los hombres como hijos de Dios aparece explícitamente aquí y en 5,45. El pasivo teológico significa que Dios mismo los llamará sus hijos, los reconocerá públicamente como tales, y los aceptará en su misma vida de Padre que vive con el Hijo y el Espíritu Santo (28,19).
La causa de la persecución en 5,10 es la “justicia” en el sentido ya visto de obrar según Dios; luego se precisa que es la vinculación personal con Jesús (5,11) y la aceptación de su palabra (13,21). No se trata de buscar la persecución, sino que esta sobreviene como consecuencia de la fidelidad en el seguimiento de Jesús entendido como puesta en práctica de sus enseñanzas que nos transmiten la voluntad del Padre. A su vez, la persecución aparece como signo de esta fidelidad. La promesa es la misma de la primera bienaventuranza haciendo inclusión del bloque de las ocho.
En síntesis, las bienaventuranzas en Mateo formulan exigencias éticas y espirituales, actitudes y comportamientos que el discípulo debe desarrollar como condiciones para pertenecer al Reino. Estas exigencias están motivadas por la promesa del don escatológico del Reino, que es la causa última de la felicidad o bienaventuranza proclamada. Estos dos aspectos, presentes como 2° y 3° miembro respectivamente de cada bienaventuranza, no pueden separarse. Ahora bien, como lo revela la estructura misma, debemos reconocer la primacía del obrar de Dios. Es el reinado de Dios que se acerca (4,18) el motivo de la felicidad y la motivación del obrar humano que se dispone así a recibirlo, a entrar en comunión con Él.
El orden de las bienaventuranzas tiene también un significado. Las cuatro primeras remiten a la relación del discípulo con Dios, ponderando la apertura humilde y confiada en Él; el compromiso por vivir la voluntad del Padre y la aflicción por no poder hacerlo o no verlo en los demás. Las tres siguientes tratan de la relación con los demás, exaltando la misericordia, la honestidad o integridad y la búsqueda de la paz. La última describe la consecuencia que puede provocar en los demás - persecución - la fidelidad en el cumplimiento de la voluntad de Dios. De este ordenamiento podemos deducir que la justa relación con los demás sigue a una justa relación con Dios.
Nos queda señalar, en una mirada global, la relación de las bienaventuranzas con la ética cristiana. En su comentario al Sermón del Monte L. Sánchez Navarro ha escrito: "La moral propuesta por la EM (Enseñanza de la Montaña) es una auténtica "ciencia de la felicidad". En ella, la primacía pertenece al don, a la gracia; pero eso no excluye, sino que implica necesariamente, la adquisición de virtudes sólidas"1. Y A. Rodríguez Carmona, por su parte, dice: "El Discurso Evangélico presupone la presencia de la salvación de Dios, que ya comienza a reinar. A este presupuesto quiere remitir el sumario anterior, y está implícito en las Bienaventuranzas con las que comienza. Dios primero perdona, hace al hombre hijo suyo y hermano de sus hijos, invita a tomar conciencia de esta realidad con alegría y después nos indica cómo tenemos que actuar. Este presupuesto es básico para no convertir en pura ética o en pura Ley el contenido del discurso, quitándolo así su carácter de "Evangelio"2. También es interesante la opinión de M. Grilli: “Las bienaventuranzas de Mateo son ante todo la aclamación gozosa de una «presencia» en medio a categorías humanas que no pertenecen al orden constituido ni a los poderes de este mundo. La alegría, por tanto, consiste en constatar que Dios todavía una vez más es fiel a su nombre y – en el Mesías Jesús – trastoca los criterios humanos de pensar y hacer”3.
Algunas reflexiones:
El domingo pasado vimos como el anuncio de la llegada del Reino es la buena noticia y el contenido de la buena noticia es el Reino de Dios que llega.
Este domingo Jesús comienza a anunciar la mayor consecuencia de la irrupción del Reino de Dios entre los hombres y de su aceptación por parte de los mismos: la posibilidad de ser felices, de tener una vida plena. Y es muy indicativo que Jesús inicie su primer gran discurso anunciando la felicidad que provocará la llegada del Reino de Dios. Sería el equivalente al evangelio como buena noticia de Mc 1,14 y al simbolismo del vino en el primer signo obrado por Jesús en Caná según Jn 2,1-11. Se trata de una felicidad que viene a nosotros, no de una felicidad producida por nosotros.
Jesús comienza entonces el sermón del Monte hablando de la felicidad: “bienaventurados, felices”. De este modo el evangelio se conecta con uno de los deseos más profundos y universales del hombre, porque todos queremos ser felices. Claro, ya sabemos que a la hora de precisar en qué consiste la felicidad y cuál es el camino para alcanzarla aparecen una infinidad de definiciones y caminos. Pues bien, Jesús nos enseña hoy en qué consiste la felicidad para Dios y cuál es el camino para recibirla. Y este camino es al mismo tiempo el de la santidad, el de la plenitud de la vida cristina. Al respecto dice el Papa Francisco: “Jesús explicó con toda sencillez qué es ser santos, y lo hizo cuando nos dejó las bienaventuranzas (cf. Mt 5,3-12; Lc 6,20-23). Son como el carnet de identidad del cristiano. Así, si alguno de nosotros se plantea la pregunta: «¿Cómo se hace para llegar a ser un buen cristiano?», la respuesta es sencilla: es necesario hacer, cada uno a su modo, lo que dice Jesús en el sermón de las bienaventuranzas. En ellas se dibuja el rostro del Maestro, que estamos llamados a transparentar en lo cotidiano de nuestras vidas. La palabra «feliz» o «bienaventurado», pasa a ser sinónimo de «santo», porque expresa que la persona que es fiel a Dios y vive su Palabra alcanza, en la entrega de sí, la verdadera dicha” (Alégrense y exulten, 63-64).
Para decirlo de modo breve y claro: para Jesús la felicidad y la santidad consisten en recibir el Reino de Dios, en dejarse tocar por la acción de Dios en la vida, más allá de las circunstancias, buenas o malas, que estemos pasando. Bien podemos citar aquí una frase del siervo de Dios Guillermo Muzzio, joven seminarista que falleció de leucemia antes de poder ordenarse sacerdote: “hacer la voluntad de Dios y ser feliz es lo mismo, gracias Jesús porque todo es tan simple”.
Esta felicidad o plenitud de vida no se conquista, se recibe con don, como gracia. Es verdad que hace falta convertirse y creer en el evangelio, creer en que Dios quiere y puede llenarnos de alegría y felicidad. En efecto: “La alegría del Evangelio llena el corazón y la vida entera de los que se encuentran con Jesús. Quienes se dejan salvar por Él son liberados del pecado, de la tristeza, del vacío interior, del aislamiento. Con Jesucristo siempre nace y renace la alegría” (Francisco, El gozo del evangelio, 1).
Jesús fue quien primero vivió las bienaventuranzas en su vida y, por eso, nos las propuso no como nuevas exigencias éticas sino como un camino de confianza y abandono en Dios. Para entender y vivir las bienaventuranzas hay que mirarlo a Él y seguirlo. Insistimos en la necesidad de la fe y confianza en Jesús, porque el camino de las bienaventuranzas va claramente a contracorriente de por dónde nos lleva el mundo. Al respecto decía el Papa León XIV: “Las Bienaventuranzas traen consigo una nueva interpretación de la realidad. Son el camino y el mensaje de Jesús educador. A primera vista, parece imposible declarar bienaventurados a los pobres, a aquellos que tienen hambre y sed de justicia, a los perseguidos o a los trabajan por la paz. Pero, aquello que parece inconcebible en la gramática del mundo, se llena de sentido y de luz en la cercanía del Reino de Dios. En los santos vemos cómo ese Reino se acerca y se hace presente en medio de nosotros. San Mateo, acertadamente, presenta las Bienaventuranzas como una enseñanza, proponiendo a Jesús como Maestro que transmite una nueva visión de las cosas y cuya perspectiva coincide con su camino”. (Homilía del 1° de noviembre de 2025).
También es necesario preguntarse por la posibilidad real de ser feliz en esta vida. El filósofo Julián Marías, desde una óptica solamente humana, consideraba a la felicidad como "lo necesario pero imposible". Vale decir que es una necesidad, algo a lo que tendemos espontáneamente y que permanentemente buscamos; pero imposible de obtenerla a la medida de nuestra búsqueda durante nuestra vida en este mundo. Ahora bien, desde la fe y la esperanza, se nos presenta como posible, futura, pero real. Es muy cierto que Jesús promete esta felicidad como un don escatológico, es decir, a realizarse plenamente en la vida eterna. Así como estamos "salvados en esperanza", también somos llamados a ser felices “en la esperanza”.
Las bienaventuranzas son un claro ejemplo de cómo las realidades futuras repercuten en las presentes. La venida del Reino con su promesa futura de felicidad provoca una valoración nueva y diferente al mundo de las realidades humanas. Desde aquí hay que considerar las situaciones y actitudes humanas que Jesús considera felices porque hacen presente para ellos el Reino de Dios. Al presentarlas, Jesús nos muestra también el camino hacia el Reino, hacia la felicidad: pobreza de espíritu (humildad), paciencia, mansedumbre, misericordia, hambre y sed de justicia, pureza de corazón, trabajador a favor de la paz, persecución.
En conclusión, “Las Bienaventuranzas son el camino que Dios indica como respuesta al deseo de felicidad ínsito en el hombre, y perfeccionan los mandamientos de la Antigua Alianza. […] En estas palabras está toda la novedad traída por Cristo, y toda la novedad de Cristo está en estas palabras. En efecto, las Bienaventuranzas son el retrato de Jesús, su forma de vida; y son el camino de la verdadera felicidad, que también nosotros podemos recorrer con la gracia que nos da Jesús” (Papa Francisco, Catequesis del 6 de agosto de 2014).
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
Descanso del corazón
Señor Jesús
Tú que has venido a definir la felicidad tan deseada
Descubre el velo de nuestra mirada
Y brote del corazón la alegría de encontrarla
Cuando nos sorprende la inocencia de un niño
Y sonreímos por su simpleza y su gracia
Se renueva el corazón puro y en ti descansa
Cuando la aflicción y la tristeza se manifiestan
Y la impotencia nos deja desarmados y vulnerables
Se ora con el corazón y solo en ti descansa
Cuando se defiende la fe en la persecución
Hasta dar la vida por tu causa
Se fortalece el corazón y en ti descansa
Cuando se conmueven las entrañas
Y solo queda el perdón para liberar el alma
Se ensancha el corazón y en ti descansa
Cuando el esfuerzo por lograr la justicia y la paz
No se agota por frustraciones y burocracias
Se llena de esperanza el corazón y en ti descansa
Cuando la ansiedad se detiene en un momento
Y el tiempo pasado y futuro pierden su importancia
Se ubica el corazón en el presente divino y en ti descansa
Y cuando la pobreza nos anuncia que nada nos falta
Si tenemos a Dios en el centro de la alabanza
Se goza el corazón, y la razón en ti descansa. Amén
1 La Enseñanza de la Montaña. Comentario contextual a Mateo 5-7 (Verbo Divino; Estella 2005) 23-24.
2 A. Rodríguez Carmona, Evangelio de Mateo (DDB; Bilbao 2006) 60.
3Il discorso della Montagna. Utopia o prassi quotidiana? (EDB; Bologna 2016) 57.